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quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Tipos Populares da Fortaleza Antiga

 

Chica Pinote 

Imagem criada por IA

Foi uma dessas figuras populares que povoam as histórias da Fortaleza antiga dos anos 1920, rejeitada em público, prestigiada no ambiente privado. Chica Pinote era prostituta, morena, alta e vistosa, que morava no Beco do São Bernardo, e costumava aparecer no meio do povo, de forma inesperada. Uma dessas aparições, que causou a maior celeuma, foi numa matinê do Circo Pery, armado na Praça da Estação.

Espetáculo iniciado, a arquibancada repleta de meninos, as cadeiras ocupadas pelos adultos, quando entra aquele mulherão, com vasto chapéu emplumado, faiscante de joias, e ocupa um dos camarotes que até então estava vazio. Todo o circo crava os olhos na mulher e acompanha seus movimentos um tanto exagerados. As famílias a olham indignadas, as mais próximas do camarote, levantam-se e saem.

Chica Pinote passou os olhos cheios de desdém pelo anfiteatro e dobrou o braço no gesto característico de “dar uma banana”, o que desencadeou uma gritaria geral. As famílias vão fazendo uma retirada em massa, e o diretor do circo reclama a presença da Polícia, que a muito custo consegue levar para fora a causadora do tumulto, a qual ameaça o delegado com o guarda-sol de rendas, empurra os soldados, e protesta aos gritos: - paguei o camarote com o meu dinheiro, que é igual ao dos outros! Não saio porque não quero!

O delegado compreende a situação, mas retira à força a Chica Pinote que recebe, aos prantos, a devolução do dinheiro com que pagou o camarote, dinheiro igual ao dos outros. O espetáculo continua, mas sente-se que foi estragado de qualquer modo. Nem os artistas estão trabalhando com o mesmo gosto, nem o público está aplaudindo com o mesmo entusiasmo. As filas de cadeiras e os camarotes estão quase vazios. 

Micaela


Imagem criada por IA

Muito se fala dos tipos populares que habitavam as ruas de Fortaleza do passado, homens meio loucos, meio excêntricos, quase todos mendigos, que viviam da caridade alheia e causavam agitação por onde passavam. Eram importunados nas ruas, alguns reagiam com agressividade, outros pareciam nem perceber que era alvo das chacotas. Mas poucos sabem que também havia muitas mulheres nesse bloco de gente esquisita.

A Micaela era negra retinta, varapau de quase dois metros de altura, com passo de soldado alemão, vestida de preto e saia arrastando no chão. Andava nas ruas pelo calçamento e atravessava as praças sempre em diagonal. Empunhava um grosso porrete, também preto, e a cada esquina parava, olhava para todos os lados e depois seguia seu caminho.

Diziam que era homem disfarçado de mulher, que botava feitiço, mas a Micaela que causava pavor a tanta gente, era tão somente uma pobre criatura que morava sozinha em uma palhoça para os lados do Prado Velho e só saía a rua para revolver as latas de lixo em busca de comida.

Casaca de Urubu 

imagem gerada por IA 

José Cândido, conhecido pela alcunha de Casaca de Urubu, foi o cobrador de dívidas mais empenhado que essa cidade já viu. Era o terror dos caloteiros e dos maus pagadores. Quando o credor perdia as esperanças, deixava a cobrança a cargo do Casaca de Urubu, que era servidor do Tribunal de Relação, e nas horas vagas, vivia de comissões com a cobrança de contas atrasadas. 

Era infalível a intervenção de Casaca de Urubu, conta na sua mão, era conta recebida. Tinha uma lábia incrível e para ele todos os meios para fazer o devedor quitar o débito, eram perfeitamente aceitáveis; em último caso ameaçava com escândalos, com gritaria e polícia na porta.

Ficava nas imediações da Praça do Ferreira à cata de seus clientes, que fugiam às léguas quando o viam e evitavam transitar pela praça.  O cerco não falhava: chegava uma hora em que o devedor não tinha mais como fugir e tratava de pagar, porque o Casaca de Urubu ameaçava, perseguia na rua, falava alto, chamava a atenção de todas as maneiras.

O apelido veio das roupas que usava rotineiramente, fraques descartados pelos desembargadores, que geralmente ficavam enormes no homem baixinho e gorducho. José Cândido era epiléptico, e com frequência sofria ataques e caía na via pública, acometido do mal, sempre que era alvo da molecada que o perseguia, aos gritos, com o apelido que o revoltava: Casaca de urubu... bubu!

Certa vez recebeu a incumbência de cobrar determinado devedor, que não havia meios de lhe pagar apesar de todas as ameaças que costumava lançar mão. Cansado de tanto vai e vem, e em último caso, propôs ao devedor que lhe pagasse ao menos sua parte, os 50% de comissão a que tinha direito. E recebeu. Em seguida, devolveu a conta ao credor e disse-lhe sem a menor cerimônia: “aqui está a parte de sua conta que não consegui receber, sendo que, os 50% da minha comissão eu já recebi”.

A Noiva do Tempo 

imagem criada por IA

Outra personagem bastante conhecida era a Noiva do Tempo, que estava convencida de haver recebido por herança uma grande fortuna e vivia nos bancos procurando recebê-la. Contavam que a mulher havia sido abandonada pelo noivo no dia do casamento, e nas suas andanças pela cidade, usando seu velho vestido de noiva, sujo e esfarrapado,  procurava pelo noivo e delirava sobre sua imaginária riqueza. Um dia a Noiva do Tempo foi atropelada por um ônibus, no Centro, nas imediações da praça do Coração de Jesus, e levou sua busca para outras dimensões.

Manezinho do BispoO Porteiro do Palácio 

imagem da Internet

Manoel Cavalcante Rocha, vulgo Manezinho do Bispo começou a trabalhar no Palácio do Bispo no dia 1° de janeiro de 1884, aos 18 anos de idade, durante o bispado de Dom Joaquim José Vieira, e lá permaneceu até morrer, no dia 30 de julho de 1923.

Oficialmente era o porteiro do palácio, mas acabou exercendo várias funções no local. Era o primeiro a acordar, e o último a dormir, cuidava da capela, ajudava missa, atendia na portaria, distribuía esmolas aos pobres, servia refeições. Só punha os pés na rua em caso de necessidade.

Manezinho do Bispo tinha o dom da escrita, elaborava textos e pensamentos que a muitos parecia sem nexo ou sentido, mas que era motivo de orgulho do seu autor. Colaborava quase diariamente na seção “ineditoriais” do Jornal Correio do Ceará, depois reunia em folhetos os seus apreciados pensamentos, que eram ansiosamente aguardados por seus inúmeros admiradores.   

Eis alguns dos originais pensamentos do Manezinho do Bispo, que fizeram época e o transformaram em motivo de chacota na cidade.

O Passeio Público é um aprazível lugar para quem vai ali com boas intenções.

Amar sem ser amado é correr atrás de um trem e perder

O bacharel pobre que casa com moça pobre dá um tiro com a pistola do passado nos miolos do futuro.

Gostaria de ser como as borboletas: as borboletas voam e eu não voo.

Conta-se que o bispo D. Joaquim, aborrecido com a grande papelada que enchia o quarto do Manezinho, no Palácio Episcopal, chamou-o um dia e disse que queimasse aqueles folhetos. Manezinho saiu para a rua e queimou-os, vendendo pela metade do preço.Apesar do folclore em torno dos escritos de Manezinho do Bispo, muitos de seus textos são frutos de reflexões e pensamentos muito bem estruturados.

O Cangulo

Era um dos personagens mais assíduos das salas de exibição de filmes da velha Fortaleza, nome de batismo ignorado, conhecido pelo apelido de Cangulo, que ganhara nos tempos em que era aluno do Liceu do Ceará, onde cursara o primeiro ano. Popularíssimo no meio estudantil devido a feiura, um dia, resolveu largar a cidade natal e ir morar no Rio de Janeiro.  Durante muito tempo, ninguém ouviu falar dele.

Em agosto de 1909, os cinemas exibiam a reportagem do sepultamento do Presidente Afonso Pena, que falecera no mês anterior. O Pathé (primeiro cinematógrafo de Fortaleza, inaugurado em 1908, propriedade do italiano Vitor de Maio) estava literalmente cheio de estudantes, quando apareceu o Cangulo na tela, no melhor estilo papagaio de pirata, de pé por trás do cordão de isolamento dos guardas civis à porta do Palácio do Catete, quando saía o cortejo presidencial. Um grito uníssono  sacudiu a plateia:  – O Cangulo!!!

Seguiram-se estrepitosas salvas de palmas. Então, por mera coincidência, o Cangulo abriu a bocarra num sorriso sem dentes, como dirigido a seus antigos colegas. Grande aclamação abalou o cinema:  – Viva o Cangulo! Viva o Cangulo no Catete! Viva o sucessor de Afonso Pena! 

O escritor Gustavo Barroso o encontrou anos depois no Rio de Janeiro, vivendo como indigente, desiludido e acabado. Conseguiu com um amigo que o governo lhe fornecesse uma passagem de volta para Fortaleza, onde vivia seu pai, que vendia bananas na feira. Mas o Cangulo não deu sorte nesse retorno. Pouco tempo depois após uma discussão, foi assassinado a tiros de revólver por um certo Barbosa Lapada.  

Mané Coco era a alma do Café Java 

foto do Arquivo Nirez

Manuel Pereira dos Santos, vulgo Mané Coco era marmorista, e não foi só o fundador do Café Java, na Praça do Ferreira, ele era a alma do lugar, o que dirigiu e imortalizou o estabelecimento. Estava sempre de branco, de chapéu de palhinha e uma rosa no peito. Mané Coco era o bombeiro voluntário de Fortaleza. Sentiu cheiro de incêndio, ouviu falar de um, ele ia até lá. Carregava água para apagar o fogo; isolava os prédios vizinhos, enfiando o machado nos telhados, salvava vidas ameaçadas. Passava por cima das cumeeiras em chamas, assume os riscos, salva patrimônios. E não ganhava nada com isso.

Na rotina diária, sem incêndios, era o homem mais pacato deste mundo, e tinha habilidade para se sair de situações embaraçosas. Certa feita um grupo de cadetes da escola Militar, famosos pelas arruaças que promoviam pela cidade, o ameaçaram com uma boa surra, se não lhes dessem, gratuitamente, no Café Java, um jantar de sustância. Mané Coco promete então que o jantar ser servido, um jantar de galinha, e marca dia e hora.

No dia acertado, o bando de cadetes abanca-se na mesa já preparada. Ele ordena ao seu empregado: --- seu Chico, sirva o jantar a esses meninos.

O Chico serve cerimoniosamente diante de cada convidado forçado, um prato cheio de grãos de milho. Os cadetes se entreolharam surpresos, e quando reclamaram, Mané Coco respondeu com fingida ingenuidade: - estou cumprindo a promessa. Jantar de galinha não é milho? Os estudantes acharam muita graça e deixaram-no em paz. Quando morreu, foi uma comoção. Foi para a eternidade todo de branco, com sua eterna flor na lapela.


Fontes de pesquisa: 

Coração de Menino de Gustavo Barroso

Geografia Estética de Fortaleza, de Raimundo Girão

Coisas que o Tempo Levou, de Raimundo Menezes

Fortaleza Descalça, de Otacílio de Azevedo

O Consulado da China de Gustavo Barroso



sexta-feira, 29 de agosto de 2025

Cinema era a Melhor Diversão

 

Por volta do ano de 1955 havia muitos cinemas espalhados pelos Centro e em alguns bairros de Fortaleza. Frequentá-los implicava em ter que aceitar algumas regras. Assistir filme no Cine Diogo, por exemplo, exigia pompa e circunstância. Para entrar no cinema tinha que estar de paletó e gravata, da mesma maneira que para comparecer à aula da Faculdade de Direito.

Por essa época vários estabelecimentos do Centro alugavam paletós. Um desses locais era o Café Cearazinho, que dispunha de meia dúzia de paletós surrados, para emprestar aos clientes da casa, que pretendiam ir assistir uma fita, mas viviam esquecendo tal formalidade. Numa das paredes do café, alguém escreveu um versinho à mão:

Estás desanimado?

Esmorecido, sem fé?

Põe o trabalho de lado.

Vem tomar um café...

Uma letrinha miúda, encabulada, completava o convite:

(“No Cearazinho”)

O Diogo pertencia, como o futuro Cine São Luiz, à cadeia nacional de cinemas, fundada por um cearense de Baturité, Luiz Severiano Ribeiro. Mas não era a única. Havia outra rede de casas exibidoras montada com capital cearense, pertencente a Amadeu de Barros Leal, Álvaro Melo, Pedro Coelho de Araújo e Rui Firmeza e possuía entre outros, o Cine Atapu, localizado na esquina da Avenida Pontes Vieira com Visconde do Rio Branco, no rumo de Messejana. Ficava ao lado da casa do Sr. Amadeu de Barros Leal, um bangalô branco, com placa na porta, como era moda então, anunciando seu nome e sua profissão. Foi o segundo cinema da rede Cinemar, e como era longe do centro, era assegurado aos frequentadores das sessões noturnas, que ao final destas, haveria um ônibus da empresa São Francisco, com destino ao Centro.



Cine Atapu, fachada original e depois da reforma

Numa época em que os filmes americanos ainda seguiam alguns critérios de censura, que proibia alguns deslizes de comportamento no campo da moral e dos bons costumes, o Atapu levou ao seu público o realismo do cinema francês. Assim, começou a exibir sessões clandestinas de filmes eróticos, em sessões noturnas às 22horas. O público ficava sabendo por avisos que se propagavam rapidamente em conversas informais da Praça do Ferreira. O fato é que esses festivais de filmes curtos de sexo explícito, despertavam interesse do público, simplesmente por se constituir em evento proibido. Como resposta, o Atapu sofreu denuncias de jornais como O Povo e censuras de publicações da Igreja Católica. O Cine Atapu se manteve por 11 anos, fechando em 1960.

 

Cine Samburá, onde depois funcionou o Cine Fortaleza

Outro cinema importante era o Cine Samburá, principal investimento da Cinemar e o quarto de sua propriedade, onde se dizia que, com os movimentos certos, podia-se namorar sem qualquer limitação. Era um cinema amplo, com 700 lugares, com endereço à Rua Major Facundo, 802, a dois quarteirões da Praça do Ferreira. Com uma inauguração festiva, a sessão de abertura no dia 15 de agosto de 1952, exibiu uma produção histórica italiana: “Pompeia, Cidade Maldita”. Nove anos depois, a 18 de maio de 1969, o cine Samburá fecha as portas com o filme “Aquele que Deve Morrer”.

Fazia parte da rede cearense o Toaçu, localizado à Rua General Sampaio, 927Praça José de Alencar. Era um cinema popular, inaugurado as 9 horas do dia 13 de março de 1956 em concorrida solenidade, que contou com a presença de autoridades e da imprensa. As instalações do Toaçu eram um forno e uma armadilha. O calor era intenso e a decoração toda feita de esteiras de palha de carnaúba, um perigo sempre presente. E não deve ter sido à toa que passou por um incêndio, tendo sido recuperado e equipado com tela panorâmica. O único cinema a se instalar na Praça José de Alencar teve duração de 8 anos, encerrando as atividades em 1963.

 

Cine Toaçu, fachada original e depois da reforma

Fora do perímetro central havia o Cine Ventura, o primeiro cinema da Aldeota, propriedade do português Júlio Ventura, que visando investir no segmento, construiu um imóvel destinado a exibição de filmes, que fosse um divertimento barato e acessível aos moradores. Ficava na Avenida Barão de Studart, 1521, esquina com a Rua João Carvalho. Foi inaugurado em 1941 e encerrou as atividades em 1973.  

Na Praça da Estação à rua General Sampaio, 526, havia o Cine Luz, com 800 lugares, status de cineteatro, propriedade de Luiz Severiano Ribeiro, Inaugurado em 1939, fechado em 1951.

O Cine Rex na Rua General Sampaio, 1263, empreendimento da empresa Clóvis Janja & Cia Ltda, foi entregue ao público no dia 10 de agosto de 1940. Era dotado de ampla sala de espera, extenso hall com cartazes e vasto salão com 640 cadeiras. O cinema fechou as portas pouco mais de um ano depois da inauguração, em 13 de setembro de 1941. Foi reaberto em 10 de maio de 1944, como sala secundária do Grupo Severiano Ribeiro.


Cine Rex, na Rua General Sampaio

O Cineteatro Centro Artístico Cearense funcionava na Rua Tristão Gonçalves, 1008, e esteve em atividade entre 1926 e 1956, quando foi fechado.  

Muitas outras salas de projeção  ofereciam a mais pura diversão com a oferta de grandes filmes, que despertavam diversão e bom entretenimento no público: o Cine Moderno, o Araçanga, o Majestic, o Nazaré, o Cristo Rei, o Popular, o  Benfica, o Merceeiros, o Navegantes, o Parangaba, e muitos outros.

 

Fontes:

A Tela Prateada, de Ary Bezerra Leite, 2011

Louvação de Fortaleza, de Lustosa da Costa. 1995  

segunda-feira, 28 de julho de 2025

O Jardim Zoológico da Cidade da Criança

 


Em 1946 Onélio Porto mantinha um terreno particular, cedido pelo Colégio Cearense da Ordem dos Irmãos Maristas. Nesse local Onélio criava pássaros e outros animais. Em 1951, o vereador Lúcio Magalhães propôs a criação de um jardim zoológico, na área do Parque da Liberdade, para onde seriam transferidos os animais de Onélio Porto, juntamente com outros criados pelo sargento do Exército, conhecido por Prata.

Eram ao todo 565 animais, de diversas espécies, que ficariam sob a responsabilidade da Secretaria de Educação e Cultura do Município, e aos cuidados de Onélio Porto. O mini zoológico permaneceu por quase duas décadas na Cidade da Criança sempre com muitas dificuldades, com instalações inadequadas à maioria dos bichos e água sem tratamento e alimentação escassa. Também tiveram alguns problemas devido a interação entre animais e crianças do Jardim de Infância. Então Onélio Porto retirou seus animais como forma de protesto. A partir de 1979 o zoológico foi transferido para o Horto Florestal numa área do Parque Ecológico do Passaré.




Uma crônica de Blanchard Girão relata um incidente havido com um amigo quando o zoológico ainda estava no Parque da Liberdade.

O amigo ficou até altas horas bebericando com outros notívagos contumazes no bar localizado no Passeio Público, na Avenida Caio Prado. Encerrada a noitada etílica, os antigos companheiros de bancos da faculdade, tomaram cada qual o seu rumo. O amigo do cronista dirigiu-se à Praça do Ferreira, ponto habitual do local de encerramento das noitadas do bloco dos que ficavam na praça até muito depois da meia-noite e ponto de partida para os cabarés que funcionavam nas redondezas.

Tomou o rumo da praça, quando à altura da Rua Senador Alencar proximidades da Rua Major Facundo, avistou algo estranho, a poucos metros. Mas estranho ainda, porque na sua visão aquilo era uma onça... e vinha em sua direção. Uma onça em pleno centro da cidade! raciocinou que realmente devia estar muito bêbado, e o bicho vindo em sua direção! Aquilo era grande demais para ser confundido com um cachorro!  

Os efeitos do álcool não tinham lhe tirado todos os sentidos, especialmente o instinto de preservação. Com medo, recostou-se à parede, como a procurar um abrigo salvador. E a onça como se estivesse em seu ambiente, caminhava sem pressa, investigando. De repente, pelo olfato interessou-se por uma grande lata de lixo entreaberta na calçada. Para lá se dirigiu, faminta, à procura de algo que lhe aplacasse a fome.



Foi o chamado instante decisivo. Arrancando as últimas forças das pernas, o amigo fugiu em desabalada carreira em direção à praça. Lá encontrou alguns companheiros de boemia, a quem relatou a sua incrível visão: ninguém o levou a sério. Desacreditado, tonto pela cerveja consumida no bar do Passeio Público, resolveu ir embora, em direção a sua casa na Floriano Peixoto. De longe, ainda ouvia os gritos de gozação dos amigos: “olha a onça, nego véi” “cuidado com a onça”,” eta cachaça da peste, dá até pra ver onça na Praça do Ferreira

O susto ainda estampado no rosto, o rapaz se depara ao entrar em casa, com a avó, a quem transmite sua fantástica história. E a avó carinhosa foi preparar um café forte e amargo, servido junto com a reprimenda “você andou bebendo de novo, menino! deixe disso!”.  

Assim, desacreditado por todos o nosso boêmio notívago foi dormir; manhã cedo, ainda de ressaca, não tardou em ler nas bancas, as manchetes dos jornais em letras grandes: “Onça foge do Parque e é morta a tiros pelos bombeiros”.  Era a confirmação do episódio para desmoralizar a todos os incrédulos, se um dos seus companheiros que estivera na Praça do Ferreira na noite anterior, não tivesse espalhado um boato pela cidade: a de que o rapaz fora ao Parque da Liberdade, onde ficava o mini zoológico de Onélio Porto, soltar a onça para provar sua história”.

Na verdade, a onça escapara de sua jaula, perambulava pelas ruas centrais, quando esteve a poucos passos de nosso personagem. Horas depois, pôs em polvorosa os moradores do Pirambu, quando acabou abatida a tiros de fuzil pelos soldados do Corpo de Bombeiros.

    

Fontes: 

Caminhando por Fortaleza, Francisco Benedito. 1999

Sessão das Quatro, cenas e atores de um tempo mais feliz, de Blanchard Girão, 1998.

fotos do Parque da Liberdade: IBGE e postais antigos


 

segunda-feira, 14 de julho de 2025

Bairro Centro

1933 (foto Diário do Nordeste)

2013

A região de Fortaleza que denominamos Centro, é o local mais antigo, onde a cidade surgiu, no rastro da ocupação holandesa e da edificação do forte Schoonenborch, no século XVI. Por muito tempo a cidade se restringiu a área central, chamada inicialmente de Povoado do Forte, depois Vila da Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção, nascida ao pé do forte que lhe emprestou o nome, às margens do riacho Pajeú.

A vila se desenvolveu primeiro na região ao redor do forte, que também foi responsável pela construção da primeira igreja, dedicada à Nossa Senhora da Assunção. Depois apareceu o quartel de linha, a Igreja de São José, e assim a cidade ganhou a sua primeira catedral. Junto ao forte ainda foi construído o Passeio Público, a Praça da Sé, a Casa dos Governadores.

Passeio Público

Início do século XX

2013

Depois o Centro começou a se expandir porque construíram uma igreja de escravos num lugar ermo, distante do aglomerado, e resolveram construir um Palácio para a Câmara e que acabou ficando virando sede do Governo naquele local. Mais tarde, chegou à cidade um boticário que virou administrador, e construiu a Praça do Ferreira, que desde então, tornou-se o coração da cidade e inaugurou uma nova centralidade. 

No centro foram construídos as primeiras igrejas, as primeiras praças, os primeiros arranha-céus, os primeiros hotéis, primeiros cinemas, e os primeiros casarões, de propriedades dos potentados sertanejos, que enriqueceram com a exportação de algodão, cera, couro e outros produtos da terra. No centro, o comércio floresceu pelas mãos de estrangeiros e nativos, que inauguraram linhas marítimas que se conectaram com a Europa e trouxeram à Fortaleza ainda provinciana, as maravilhas fabricadas em Londres e Paris.´

ainda estão lá


 

Até pelo fim da década de 70, o Centro era o endereço de tudo quanto era relevante para a cidade: A Assembleia Legislativa, o Governo Estadual e Municipal, O Fórum, o Palácio do Bispo, as Lojas, os Cinemas, os Hotéis, os Bancos e uma infinidade de estabelecimentos e prestadores de serviços que atraiam todo tipo de público. Os logradouros eram bem cuidados e havia transporte coletivo partindo do Centro para toda a cidade.

Mas quando a cidade começou a se expandir, primeiro para o Leste e depois para todos os quadrantes, o Centro foi quem pagou o maior preço, com um esvaziamento acentuado e progressivo, que acontece até os dias atuais. O abandono ficou patente nos inúmeros imóveis vazios, nas ruas esburacadas, nas praças com equipamentos quebrados e pichados, na insegurança das instalações e dos frequentadores, na desordem da ocupação dos espaços, no acúmulo de lixo, e no grande contingente de moradores de rua. De acordo com o Censo de 2022, o Centro conta com 24.096 moradores. Limita-se ao Norte: Oceano Atlântico; ao Sul: Benfica, José Bonifácio e Joaquim Távora; a Leste: Praia de Iracema, Meireles e Aldeota; e a Oeste: Jacarecanga, Otávio Bonfim e Moura Brasil.

por Fátima Garcia

fontes consultadas: IBGE (censo 2022), Prefeitura de Fortaleza

fotos Fortaleza em Fotos 



segunda-feira, 2 de setembro de 2024

A Praça do Ferreira no Tempo do Café Java

 

Praça do Ferreira atual

Os cafés eram uma tradição do centro da cidade: ponto de encontro de intelectuais, poetas, seresteiros e da população masculina em geral. Não era um espaço destinado às mulheres. Nos cafés se debatiam os assuntos que impactavam a cidade, os acontecimentos políticos e sociais, os últimos lançamentos literários, e até assuntos menos nobres, como a vida alheia. As vezes se acertavam diferenças e se confrontava as divergências. Servia-se café, aluá, licor, cachaça, vinho, refresco, caldo de cana, e o que mais fosse procurado.

Os cafés da Praça do Ferreira foram uma espécie de precursores desse tipo de ambiente eclético. Eram quiosques de madeira artisticamente trabalhada, ocupavam os quatro cantos da Praça do Ferreira e foram construídos em fins do século XIX. 


Café Java, famoso pelo proprietário Mané Coco e pela Padaria Espiritual

O pioneiro foi o Café Java, localizado na esquina noroeste da praça, famoso por ter acolhido a Padaria Espiritual, grupo de intelectuais de caráter inovador, organizado sob o comando do poeta Antônio Sales em 1892. Seu primeiro proprietário foi Manuel Ferreira dos Santos, vulgo Mané Côco, aracatiense emigrado para a capital. Naquele tempo, Mané Côco era o tipo mais singular de Fortaleza, alvo de imensa popularidade. Antônio Sales dizia sobre o dono do Java que, se estivesse em Paris, ele estaria a frente de um dos famosos cafés excêntricos de Montmartre. O Java passou depois para a propriedade de Ovídio Leopoldino da Silva e esteve durante algum tempo aos cuidados de Antônio Silva Lima, pai do escritor cearense Herman Lima.

Decorridos em torno 5 anos da construção do Java, outros dois quiosques foram levantados na Praça do Ferreira com autorização da Câmara Municipal. Seu construtor o negociante Pedro Ribeiro Filho subsidiou as obras com a condição de explorar o comércio por 10 anos, sem isenção de impostos e com sua entrega, findo o prazo, ao patrimônio do município. Estes quiosques foram batizados de Café do Comércio, e Café Elegante.

O Café do Comércio era o maior deles e pertenceu inicialmente a José Brasil de Matos, e depois passou por inúmeros donos. O Café Elegante, assobradado como o do Comércio teve várias denominações e foi também propriedade de diversos. Havia ainda no canto sudeste da praça, o Café Iracema, o mais procurado como casa de pasto.  Pertenceu a Antônio Teles de Oliveira e também passou por diversas mãos.


Café do Comércio  


Café Elegante - ao fundo o Cine Majestic


Café Iracema


Esses quiosques foram preservados pelo intendente Guilherme Rocha quando, no início do século XX, em 1902, embelezou a praça do Ferreira convertendo o logradouro num jardim. A parte mais central do quadro cercado de gradis, e no interior, floridos e belos canteiros cercados de bancos. Ao redor do vasto piso de cimento róseo, nos quatro lados, uma série de frades de pedras de lio.

Os cafés ganharam vida e puderam estender suas mesas e cadeiras ocupando uma área maior. A essa área cercada e ajardinada recebeu o nome de Jardim 7 de Setembro, inaugurada solenemente na data comemorativa dos oitenta anos da Independência do Brasil. No lado sul, entre os Cafés Elegante e Iracema, erguia-se um belo chafariz com quatro torneiras. No centro, um catavento puxava água para um depósito que abastecia oito tanques destinados à manutenção dos canteiros, situados nas partes em que se dividia o trecho central, cercado de gradis, cortados por dois passeios em forma de cruz, em cujas extremidades havia quatro portões de ferro.


Jardim 7 de setembro, inaugurado em 1902

Vinte e oito lampiões a gás iluminavam o jardim interno, enquanto fora deste mais vinte combustores clareavam toda a praça. Os quiosques concorriam para melhorar a claridade do ambiente, e consequentemente uma maior circulação dos pedestres. Este movimento cresceria com a inauguração do Cine Polytheama em 1910, dos bondes elétricos em 1913 e do Cine Majestic, 1917. A Praça do Ferreira nesse período tornou-se o lugar mais frequentado da cidade, uma pequena amostra do que Fortaleza queria ser no futuro: um local público bonito, confortável e iluminado, com jardins, estátuas e colunas, cafés, cinemas, transporte fácil, frequentado por pessoas bonitas e bem-vestidas.

No entanto, no ano de 1920, o prefeito Godofredo Maciel em sua primeira administração, mandou demolir os quiosques. Quando ao sair de uma sessão de cinema, o escritor Antônio Sales notou que os cafés estavam sendo demolidos, inclusive o seu querido Café Java e escreveu: esta noite, ao sair do cinema, parei defronte dos destroços fúnebres do Café Java, sacrificado à estética da Praça do Ferreira, que é o centro vital de nossa urbe. E nessa contemplação, veio-me uma grande tristeza e uma grande saudade. Ali reinou Mané Coco, o fundador dessa instituição popular que era o café, hoje desaparecido.


     depois da reforma do prefeito Godofredo Maciel

Além dos cafés, o prefeito também retirou as grades do jardim 7 de Setembro e mandou construir um coreto; as laterais receberam recortes para estacionamento de automóveis e bondes, desafogando o trânsito nas Ruas Major Facundo e Floriano Peixoto.


Extraído do livro “A Praça” de Mozart Soriano Aderaldo/Tipogresso/Fortaleza,1989. E outros/publicação Fortaleza em Fotos/Fotos do Arquivo Nirez, postal antigo e Fortaleza em Fotos