Mostrando postagens com marcador café java. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador café java. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Tipos Populares da Fortaleza Antiga

 

Chica Pinote 

Imagem criada por IA

Foi uma dessas figuras populares que povoam as histórias da Fortaleza antiga dos anos 1920, rejeitada em público, prestigiada no ambiente privado. Chica Pinote era prostituta, morena, alta e vistosa, que morava no Beco do São Bernardo, e costumava aparecer no meio do povo, de forma inesperada. Uma dessas aparições, que causou a maior celeuma, foi numa matinê do Circo Pery, armado na Praça da Estação.

Espetáculo iniciado, a arquibancada repleta de meninos, as cadeiras ocupadas pelos adultos, quando entra aquele mulherão, com vasto chapéu emplumado, faiscante de joias, e ocupa um dos camarotes que até então estava vazio. Todo o circo crava os olhos na mulher e acompanha seus movimentos um tanto exagerados. As famílias a olham indignadas, as mais próximas do camarote, levantam-se e saem.

Chica Pinote passou os olhos cheios de desdém pelo anfiteatro e dobrou o braço no gesto característico de “dar uma banana”, o que desencadeou uma gritaria geral. As famílias vão fazendo uma retirada em massa, e o diretor do circo reclama a presença da Polícia, que a muito custo consegue levar para fora a causadora do tumulto, a qual ameaça o delegado com o guarda-sol de rendas, empurra os soldados, e protesta aos gritos: - paguei o camarote com o meu dinheiro, que é igual ao dos outros! Não saio porque não quero!

O delegado compreende a situação, mas retira à força a Chica Pinote que recebe, aos prantos, a devolução do dinheiro com que pagou o camarote, dinheiro igual ao dos outros. O espetáculo continua, mas sente-se que foi estragado de qualquer modo. Nem os artistas estão trabalhando com o mesmo gosto, nem o público está aplaudindo com o mesmo entusiasmo. As filas de cadeiras e os camarotes estão quase vazios. 

Micaela


Imagem criada por IA

Muito se fala dos tipos populares que habitavam as ruas de Fortaleza do passado, homens meio loucos, meio excêntricos, quase todos mendigos, que viviam da caridade alheia e causavam agitação por onde passavam. Eram importunados nas ruas, alguns reagiam com agressividade, outros pareciam nem perceber que era alvo das chacotas. Mas poucos sabem que também havia muitas mulheres nesse bloco de gente esquisita.

A Micaela era negra retinta, varapau de quase dois metros de altura, com passo de soldado alemão, vestida de preto e saia arrastando no chão. Andava nas ruas pelo calçamento e atravessava as praças sempre em diagonal. Empunhava um grosso porrete, também preto, e a cada esquina parava, olhava para todos os lados e depois seguia seu caminho.

Diziam que era homem disfarçado de mulher, que botava feitiço, mas a Micaela que causava pavor a tanta gente, era tão somente uma pobre criatura que morava sozinha em uma palhoça para os lados do Prado Velho e só saía a rua para revolver as latas de lixo em busca de comida.

Casaca de Urubu 

imagem gerada por IA 

José Cândido, conhecido pela alcunha de Casaca de Urubu, foi o cobrador de dívidas mais empenhado que essa cidade já viu. Era o terror dos caloteiros e dos maus pagadores. Quando o credor perdia as esperanças, deixava a cobrança a cargo do Casaca de Urubu, que era servidor do Tribunal de Relação, e nas horas vagas, vivia de comissões com a cobrança de contas atrasadas. 

Era infalível a intervenção de Casaca de Urubu, conta na sua mão, era conta recebida. Tinha uma lábia incrível e para ele todos os meios para fazer o devedor quitar o débito, eram perfeitamente aceitáveis; em último caso ameaçava com escândalos, com gritaria e polícia na porta.

Ficava nas imediações da Praça do Ferreira à cata de seus clientes, que fugiam às léguas quando o viam e evitavam transitar pela praça.  O cerco não falhava: chegava uma hora em que o devedor não tinha mais como fugir e tratava de pagar, porque o Casaca de Urubu ameaçava, perseguia na rua, falava alto, chamava a atenção de todas as maneiras.

O apelido veio das roupas que usava rotineiramente, fraques descartados pelos desembargadores, que geralmente ficavam enormes no homem baixinho e gorducho. José Cândido era epiléptico, e com frequência sofria ataques e caía na via pública, acometido do mal, sempre que era alvo da molecada que o perseguia, aos gritos, com o apelido que o revoltava: Casaca de urubu... bubu!

Certa vez recebeu a incumbência de cobrar determinado devedor, que não havia meios de lhe pagar apesar de todas as ameaças que costumava lançar mão. Cansado de tanto vai e vem, e em último caso, propôs ao devedor que lhe pagasse ao menos sua parte, os 50% de comissão a que tinha direito. E recebeu. Em seguida, devolveu a conta ao credor e disse-lhe sem a menor cerimônia: “aqui está a parte de sua conta que não consegui receber, sendo que, os 50% da minha comissão eu já recebi”.

A Noiva do Tempo 

imagem criada por IA

Outra personagem bastante conhecida era a Noiva do Tempo, que estava convencida de haver recebido por herança uma grande fortuna e vivia nos bancos procurando recebê-la. Contavam que a mulher havia sido abandonada pelo noivo no dia do casamento, e nas suas andanças pela cidade, usando seu velho vestido de noiva, sujo e esfarrapado,  procurava pelo noivo e delirava sobre sua imaginária riqueza. Um dia a Noiva do Tempo foi atropelada por um ônibus, no Centro, nas imediações da praça do Coração de Jesus, e levou sua busca para outras dimensões.

Manezinho do BispoO Porteiro do Palácio 

imagem da Internet

Manoel Cavalcante Rocha, vulgo Manezinho do Bispo começou a trabalhar no Palácio do Bispo no dia 1° de janeiro de 1884, aos 18 anos de idade, durante o bispado de Dom Joaquim José Vieira, e lá permaneceu até morrer, no dia 30 de julho de 1923.

Oficialmente era o porteiro do palácio, mas acabou exercendo várias funções no local. Era o primeiro a acordar, e o último a dormir, cuidava da capela, ajudava missa, atendia na portaria, distribuía esmolas aos pobres, servia refeições. Só punha os pés na rua em caso de necessidade.

Manezinho do Bispo tinha o dom da escrita, elaborava textos e pensamentos que a muitos parecia sem nexo ou sentido, mas que era motivo de orgulho do seu autor. Colaborava quase diariamente na seção “ineditoriais” do Jornal Correio do Ceará, depois reunia em folhetos os seus apreciados pensamentos, que eram ansiosamente aguardados por seus inúmeros admiradores.   

Eis alguns dos originais pensamentos do Manezinho do Bispo, que fizeram época e o transformaram em motivo de chacota na cidade.

O Passeio Público é um aprazível lugar para quem vai ali com boas intenções.

Amar sem ser amado é correr atrás de um trem e perder

O bacharel pobre que casa com moça pobre dá um tiro com a pistola do passado nos miolos do futuro.

Gostaria de ser como as borboletas: as borboletas voam e eu não voo.

Conta-se que o bispo D. Joaquim, aborrecido com a grande papelada que enchia o quarto do Manezinho, no Palácio Episcopal, chamou-o um dia e disse que queimasse aqueles folhetos. Manezinho saiu para a rua e queimou-os, vendendo pela metade do preço.Apesar do folclore em torno dos escritos de Manezinho do Bispo, muitos de seus textos são frutos de reflexões e pensamentos muito bem estruturados.

O Cangulo

Era um dos personagens mais assíduos das salas de exibição de filmes da velha Fortaleza, nome de batismo ignorado, conhecido pelo apelido de Cangulo, que ganhara nos tempos em que era aluno do Liceu do Ceará, onde cursara o primeiro ano. Popularíssimo no meio estudantil devido a feiura, um dia, resolveu largar a cidade natal e ir morar no Rio de Janeiro.  Durante muito tempo, ninguém ouviu falar dele.

Em agosto de 1909, os cinemas exibiam a reportagem do sepultamento do Presidente Afonso Pena, que falecera no mês anterior. O Pathé (primeiro cinematógrafo de Fortaleza, inaugurado em 1908, propriedade do italiano Vitor de Maio) estava literalmente cheio de estudantes, quando apareceu o Cangulo na tela, no melhor estilo papagaio de pirata, de pé por trás do cordão de isolamento dos guardas civis à porta do Palácio do Catete, quando saía o cortejo presidencial. Um grito uníssono  sacudiu a plateia:  – O Cangulo!!!

Seguiram-se estrepitosas salvas de palmas. Então, por mera coincidência, o Cangulo abriu a bocarra num sorriso sem dentes, como dirigido a seus antigos colegas. Grande aclamação abalou o cinema:  – Viva o Cangulo! Viva o Cangulo no Catete! Viva o sucessor de Afonso Pena! 

O escritor Gustavo Barroso o encontrou anos depois no Rio de Janeiro, vivendo como indigente, desiludido e acabado. Conseguiu com um amigo que o governo lhe fornecesse uma passagem de volta para Fortaleza, onde vivia seu pai, que vendia bananas na feira. Mas o Cangulo não deu sorte nesse retorno. Pouco tempo depois após uma discussão, foi assassinado a tiros de revólver por um certo Barbosa Lapada.  

Mané Coco era a alma do Café Java 

foto do Arquivo Nirez

Manuel Pereira dos Santos, vulgo Mané Coco era marmorista, e não foi só o fundador do Café Java, na Praça do Ferreira, ele era a alma do lugar, o que dirigiu e imortalizou o estabelecimento. Estava sempre de branco, de chapéu de palhinha e uma rosa no peito. Mané Coco era o bombeiro voluntário de Fortaleza. Sentiu cheiro de incêndio, ouviu falar de um, ele ia até lá. Carregava água para apagar o fogo; isolava os prédios vizinhos, enfiando o machado nos telhados, salvava vidas ameaçadas. Passava por cima das cumeeiras em chamas, assume os riscos, salva patrimônios. E não ganhava nada com isso.

Na rotina diária, sem incêndios, era o homem mais pacato deste mundo, e tinha habilidade para se sair de situações embaraçosas. Certa feita um grupo de cadetes da escola Militar, famosos pelas arruaças que promoviam pela cidade, o ameaçaram com uma boa surra, se não lhes dessem, gratuitamente, no Café Java, um jantar de sustância. Mané Coco promete então que o jantar ser servido, um jantar de galinha, e marca dia e hora.

No dia acertado, o bando de cadetes abanca-se na mesa já preparada. Ele ordena ao seu empregado: --- seu Chico, sirva o jantar a esses meninos.

O Chico serve cerimoniosamente diante de cada convidado forçado, um prato cheio de grãos de milho. Os cadetes se entreolharam surpresos, e quando reclamaram, Mané Coco respondeu com fingida ingenuidade: - estou cumprindo a promessa. Jantar de galinha não é milho? Os estudantes acharam muita graça e deixaram-no em paz. Quando morreu, foi uma comoção. Foi para a eternidade todo de branco, com sua eterna flor na lapela.


Fontes de pesquisa: 

Coração de Menino de Gustavo Barroso

Geografia Estética de Fortaleza, de Raimundo Girão

Coisas que o Tempo Levou, de Raimundo Menezes

Fortaleza Descalça, de Otacílio de Azevedo

O Consulado da China de Gustavo Barroso



quarta-feira, 16 de outubro de 2013

O Bem Querer da Memória

O Abrigo Central na Praça do Ferreira, conheceu personalidades que ficaram na memória da cidade, como o Pedão da Bananada

O que fica na lembrança, que o tempo não consegue varrer, é o bem querer da memória, é o que se julgava ter esquecido.  E a cidade também tem os seus: o Roque Macedo, que adivinhava chuvas; o Pedão da Bananada; o Tostão quimoeiro, e até o João da Silva Tavares, dos idos de 1802, professor régio da Vila de Fortaleza e o primeiro mexeriqueiro de que se tem notícia – se a pessoa não tinha defeitos, descobria-os, inventava – no dizer de Raimundo Menezes em “Coisas que o Tempo Levou”.  Tipos, bichos e até árvores que se tornaram populares ao herdar da cidade, as ruas. Eles formam o álbum de retratos da Fortaleza das décadas de 1910 a 1920.


A garapeira do Bem-bem na Praça Carolina (atual Waldemar Falcão)  paixão pela França, briga de grilos e garapa doida (foto de 1907)

Bem-BemDono de uma garaperia, na Praça Carolina, juntou dinheiro e foi à Paris. Voltou assinando “Bien-Bien Garapiere”. O caldo de cana que sobrava, no terceiro dia era chamado de garapa doida, propalada como o melhor refresco para afinar o sangue e fazer as pessoas pálidas ficarem coradas. Bem-Bem se gabava que os copos da garapeira eram limpos, tinha uma bacia com pedra de rio, mergulhava o copo dentro, mexia e dava para o freguês. Trouxe da Europa uma grande novidade: a briga de grilos. Ele tinha dois ou três grilos dentro de uma bacia, que se exibiam para o público.


Manezinho do BispoConta-se que o bispo D. Joaquim, aborrecido com a grande papelada que enchia o quarto do porteiro do Palácio Episcopal, chamou-o um dia e disse que queimasse aqueles folhetos. Manezinho saiu para a rua e queimou-os, vendendo pela metade do preço.

Manezinho do Bispo – andava para cima e para baixo, com os seus pensamentos. E também publicava, no Correio do Ceará e em folhetos, suas peças literárias, como a “Biografia de uma ex-mãe – acompanhada de um passatempo”. “Amar sem ser amado é correr atrás de um trem e perder”. Manuel Cavalcante da Rocha, sem os adereços da poesia, era pernambucano e porteiro do Palácio Episcopal. Para Otacílio de Azevedo em “Fortaleza Descalça”, Manezinho do Bispo foi talvez o iniciador do movimento modernista que explodiu no Brasil em 1922. Pelo seu gosto, ele teria sido como as borboletas: “As borboletas voam e eu não voo”.
Casaca de Urubu – José Cândido lutou na Guerra de Canudos (1896-1897) e perdeu o juízo por lá. Epilético era avistado em 1915, demitido do Tribunal da Relação, vendendo doces de goiaba, vestido com os surrados fraques dos desembargadores.
De Rancho – Jesuíno Rosendo sobreviveu à I Guerra Mundial e continuou a metralhar os passantes com a carabina desativada. Atrás do seu tabuleiro de frutas e verduras,  um magote de meninos a se divertir com os ataques. Certa vez ao avistar um automóvel, fez pontaria para o ocupante: Sentido! Preparar Armas! O automóvel freou bruscamente e o ocupante, refazendo-se do susto, gritou furioso: Prendam esse sujeito! O ocupante do carro era o Presidente do Estado.

O cruzeiro da Sé era um dos palcos favoritos para o fanático Tertuliano

José Tertuliano – proprietário de um pequeno comércio, fechou o negócio e virou beato. As praças se converteram em púlpitos para sermões que ninguém entendia.  Escalava o cruzeiro da catedral da Sé, onde se amarrava de braços estendidos, a fingir o Cristo no Calvário, onde permanecia horas a fio. Aos sábados, em sua exótica indumentária de santo, com um quadro do Coração de Jesus pendurado nos ombros, percorria o comércio na coleta semanal do imposto celestial.


O Chagas dos Carneiros surgiu em Fortaleza por volta de 1911. Alto, magro, nariz grande e adunco, cego, usava um chapéu de palha e costumava trajar um espalhafatoso camisolão branco que lhe descia até os joelhos.

Chagas dos Carneiros – músico ambulante, que perambulava acompanhado por meia dúzia de carneiros e uma gaita. Os bichos, além de coloridos, eram identificados pelos nomes de figuras políticas: Deodoro, Benjamin Constant, Floriano, Hermes, Rui Barbosa, Franco Rabelo.  Cego, com eles e a música palmilhou o Nordeste. Os seus instrumentos eram fabricados por ele: uma gaita de taquara com bocal de cera, um caixote de sabão e um cachimbo de tubo de pau e cabeça de barro com que imitava os pássaros.
Mané Coco – Manuel Pereira dos Santos era proprietário do Café Java. Entendia do conserto de toda espécie de relógios e máquinas de costura, dos quais, não raro, sobravam peças que eram honestamente devolvidas num embrulho. Também acumulava a função de bombeiro, quando havia qualquer incêndio na cidade, era chamado a combater o fogo, sozinho, armado com dois baldes de madeira e uma machadinha.


Muitas histórias são contadas sobre o bode que bebia cachaça e tinha preferência por moças. Yoiô participou de atos políticos em coretos, praças e saraus literários, comeu a fita inaugural do Cine Moderno, assistiu peça no Teatro José de Alencar, passeou de bonde, perambulou pelas igrejas e até pela Câmara Municipal.

O Bode e a Ema – houve um bode, o Yoyô que se afeiçoou a boemia desde quando migrou para Fortaleza com um retirante da seca em 1915 e foi vendido  à firma Rossbach Brazil Company, na Praia de Iracema. Yoyô flanava até a Praça do Ferreira. Gostava de brincar com o povo, fingindo que dava cabeçadas no transeunte. Tinha além do bode, a ema do Parque da Liberdade. A ave tinha um andar marcial e todo mundo olhava, mas a ema não dava confiança a ninguém. Dava uma volta na Praça do Ferreira e se voltava para o Parque.


O Oitizeiro do Rosário, árvore centenária, foi cortada em 1929 por determinação do prefeito Álvaro Weyne

Árvores afetivas – cinco árvores adquiriram o direito de cidadania em Fortaleza. Ao tempo em que a cidade era visível do mar, o oitizeiro do Rosário acenava indicando a terra firme ,a árvore servia de baliza às jangadas. E abrigava conversas – sobre política, arte,  religião e vida alheia. Outra benquerença do povo era o cajueiro botador, na Praça do Ferreira. Todo dia 1° de abril dava sombra à urna que elegia o batalhão dos potoqueiros. Havia ainda a árvore da liberdade, um coqueiro plantado em 1831 no Pátio do Palácio da Luz, na Praça General Tibúrcio, para comemorar a abdicação de D. Pedro I. A casuarina do cemitério Velho, árvore que aceitou bondosamente o destino que lhe deram, chorar os mortos. Pela tarde partia de sua fronde um ressoar baixinho como se fora um sino que dobrasse a finados. Em último lugar havia o coqueiro da Praça da Estação. Era o que restou do sítio do peixeiro José Felipe,  antigo servidor da Guarda Nacional, que nas noites de luar conversava com o coqueiro.

fotos do Arquivo Nirez
extraído da Revista Fortaleza, fascículo 9, Fortaleza Descalça, de Otacílio de Azevedo
Geografia Estética de Fortaleza, de Raimundo Girão. 


segunda-feira, 24 de junho de 2013

Antônio Sales

Antônio Sales nasceu em 13 de junho de 1868, filho de Miguel Ferreira Sales e Delfina de Pontes Sales. A pequena localidade de Parazinho, próxima a Paracuru, quando foi soterrada pelo avanço das dunas, mereceu os seguintes versos do poeta:



 A casa onde nasci, no Parazinho/ Já não existe mais/ sou no mundo como a ave cujo ninho/ desmancharam os rudes temporais/não somente meu lar, mas toda aldeia/
pousada a beira mar/ jaz sepultada num lençol de areia. 
E ali ninguém jamais há de habitar.../ mesmo os grandes coqueirais cuja fronde/ 
se erguia a farfalhar/ sumiram-se, e a graúna não tem onde/ 
ao cair do crepúsculo cantar.

Depois de aprender as primeiras letras em Parazinho, Antônio Sales veio morar em Fortaleza, onde trabalhou como caixeiro em diversos estabelecimentos do comércio local. Nas horas vagas dedicava-se à literatura. Em 1887 publica o primeiro soneto no jornal “A Quinzena”, veículo que divulgava as produções do Clube Literário, composto por Juvenal Galeno, Oliveira Paiva, Farias Brito, Justiniano de Serpa e outros nomes famosos. 

No ano seguinte, funda, juntamente com amigos interessados no estudo da língua portuguesa, o Clube Educando Caixeiral, que mais tarde se transformaria na conhecida Fênix Caixeiral. Partidário das ideias republicanas colaborou para a instalação do Centro Republicano Cearense. 

 membros da padaria Espiritual, vendo-se em pé, da esquerda p/direita: 
Artur Teófilo, Sabino Batista, José Nava, Rodolfo Teófilo, Lopes Filho, Ulisses Bezerra, Antônio de Castro Vital Barbosa.
Sentados, mesmo sentido: José Carvalho, Almeida Braga, Valdemiro Cavalcante, Antônio Sales, José Carlos Júnior e Roberto de Alencar. 

Antônio Sales participou de várias outras associações: Clube Literário, Clube de Letras e Clube Americanista. Mas sua maior atuação foi na Padaria Espiritual, que teve projeção nacional. Antônio Sales foi o inspirador e principal articulador dessa original agremiação literária. Idealizada nas mesas do Café Java e instalada solenemente às 19 horas do dia 30 de maio de 1802, na Rua Formosa n° 105, ele a batizou, deu-lhe prestígio, traçou-lhe a presidência, entregando-a a Jovino Guedes.

 Café Java, berço da Padaria Espiritual

O Pão foi o órgão de divulgação da Padaria Espiritual, que reunia o pensamento dos jovens escritores interessados em revolucionar o meio literário cearense.  Antônio Sales teve papel importante ao escrever o estatuto-manifesto que expressava a ironia e o humor dos membros. A imprensa do Sul do país destacou a movimentação dos jovens escritores, publicando o programa de ação.

 Bandeira da Padaria Espiritual - peça que se faz parte do acervo do Museu do Ceará (foto do acervo do blog)

Funcionário público, o escritor foi removido para o Rio de Janeiro, onde participa da fundação da Academia Brasileira de Letras. Enquanto isso, assinava a coluna satírica “pingos e respingos”, publicada no jornal Correio da Manhã.  Por tecer críticas ao Ministro J.J. Seabra, foi transferido para o Rio Grande do Sul onde passou alguns meses.

Com fama nacional através de jornais do Rio, São Paulo e Recife, Antônio Sales retornou ao Ceará em 1920. Em Fortaleza, tratou de reorganizar a Academia Cearense de Letras, tendo sido seu presidente no período de 1930 a 1937. Com 72 anos, faleceu em 14 de novembro de 1940, vitima de arteriosclerose renal


 exemplar do Jornal O Pão
 
Wilson Bóia, autor do livro Escritores na Intimidade, narra o sepultamento do escritor:
- por uma gloriosa coincidência, o nosso morto, que tanto lutara pela implantação do regime republicano, seria enterrado num 15 de novembro, às nove horas, saindo o féretro de sua residência, na Rua Liberato Barroso, n° 1377 (hoje 1383), de propriedade do magistrado Carlos Livino de Carvalho, com destino ao Cemitério de São João Batista, funerais custeados pelo Estado. 
A bandeira já descorada da Padaria Espiritual cobria o caixão funerário, testemunha muda de toda uma época irreverente. um grupo de intelectuais e de amigos conduziu o féretro à mão, acompanhado pelo povo em geral, estudantes, representantes do Interventor e do Prefeito e ladeado pelas alunas da Escola Doméstica de Fortaleza. O coche fúnebre levava numerosas coroas, tomando ainda parte no cortejo, 72 automóveis e 4 ônibus.

fotos do Arquivo Nirez
extraído do livro de Rogaciano Leite Filho
A História do Ceará passa por esta Rua