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sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Os Clubes de Subúrbios

A elite e a classe média dividiam espaço no recesso dos clubes elegantes da Fortaleza durante  décadas, até por volta dos anos 60/70:  Ideal, Náutico, Iracema, Diários, Maguary, Comercial e Massapeense. Os grandes eventos e os encontros de amigos aconteciam no ambiente distinto e seguro das maiores agremiações.

Fortaleza, porém, não era feita apenas do mundo elegante. Outros segmentos tinham seu espaço próprio e participavam ativamente de animadas reuniões festivas, especialmente nos finais de semana. Em muitos bairros existiam clubes, a maioria pequenos, mas não menos movimentados. Alguns típicos de classe média, outros, de classes menos favorecidas, mas, todos vivendo uma fase de grande efervescência. Eram os chamados "suburbanos", clubes localizados nos bairros, fora do circuito dos clubes elegantes (Aldeota, Meireles, Praia de Iracema).  

O Clube de Regatas, localizado na Barra do Ceará, imediações da foz do Rio Ceará, era o maior deles. Iniciou suas atividades nos anos 60. No lançamento, os proprietários fizeram uma ação de marketing para a venda de ações, com a planta do clube e seus diversos atrativos. Assim, o Regatas tinha associados na Capital e no Interior.

Projetado pelo arquiteto Ivan Bezerra, em modernas instalações, contava com piscina, quadra de tênis, garagem para embarcações, e salão nobre com um imenso lustre de cristal comprado em São Paulo. O Clube de Regatas não foi pensado nem se destinava ao lazer das pessoas mais humildes da região que já começava a se proletarizar. Em sua origem era frequentado por pessoas que vinham de outras regiões. Os sócios do clube que moravam em áreas mais distantes, enfrentavam areal, piçarra e areia frouxa para chegar ao Regatas. 

Clube de Regatas Barra do Ceará
O Clube de Regatas foi palco para shows de artistas de renome nacional, bailes de formatura e festas de confraternização de empresas, empresários ou políticos. Outro atrativo interessante do Regatas eram os bingos com prêmios que iam de automóveis a passagens aéreas passando por eletrodomésticos. O Regatas entrou em declínio já no final da década de 60, quando os clubes sociais começaram a competir com outras formas de lazer.

Os militares de patentes mais baixas, suboficiais e sargentos, frequentavam suas próprias agremiações: o Clube General Sampaio congregava o pessoal do exército. Tinha sede no Benfica, com bar e restaurante organizados, sempre com boa freqüência. Encerrou as atividades em 1964; Os sargentos da Aeronáutica tinham seu ambiente especial no Ícaro, na Avenida Visconde do Rio Branco, bairro de Joaquim Távora, com festas de grande prestígio aos sábados e domingos.

No mesmo bairro Joaquim Távora, bem próximo ao Ícaro, ficava o Suerdieck, que viveu uma fase de grande esplendor, promovendo bailes monumentais, inclusive patrocinando concursos para a escolha da "Miss Suburbana", uma espécie de miss Ceará alternativa.

Ainda na Visconde do Rio Branco já próximo ao centro, estava o 24 de Maio, que aliava sua condição de time de futebol de muita força na Segunda Divisão, a uma intensa atividade social em sua sede, onde às festas costumavam comparecer centenas de jovens.

Clube Santa Cruz na Rua Padre Mororó (google)

Havia o Santa Cruz, que teve como presidente Francisco Dutra, um dos primeiros sócios do Ferroviário e antigo árbitro de futebol da Primeira Divisão do futebol cearense. Apesar da proximidade com o Cemitério São João Batista, promovia grandes bailes de carnaval e festas nos finais de semana, com muitos frequentadores.

Não menos animados eram os bailes do Jabaquara, onde a presença mais notada era a de Valfrido Coelho, o “Pimpolho” ex-jogador de futebol, folião de primeira hora, e um dos criadores do famoso Cordão das Coca-Cola. O Jabaquara teve seus tempos áureos quando mantinha sede na Avenida Carapinima, no Benfica.

Clube Secai, no Pirambu - imagem: Antônio Viana

Também no Benfica ficava o Gentilândia Futebol Clube, onde a freqüência, notadamente a masculina era predominantemente de alunos da Universidade, daí o apelido de dado pela imprensa de time dos acadêmicos.

Localizado no Bairro Nossa Senhora das Graças (grande Pirambu), o SECAI foi fundado em 14 de setembro de 1960 e destacou-se pela atuação na área de esportes, lazer, qualificação profissional, junto aos jovens moradores do bairro. 


Na Fortaleza provinciana também havia festas animadas nos salões do Terra e Mar, no Mucuripe, do Rio Branco, no Antônio Bezerra, do Trilho, na Volta da Jurema, no Romeu Martins no Montese, no Vila União, no bairro homônimo, no Tiro e Linha, no Mênfis Club, no Clube Recreativo Aerolândia, no Tiradentes, e em inúmeros outros pequenos e médios clubes suburbanos, que agitavam fins de semana e períodos carnavalescos, hoje, alguns em plena atividade e outros, há muito desaparecidos. 


Fontes:
Sessão das Quatro, cenas e atores de um tempo mais feliz
Blanchard Girão
Do Clube de Regatas Barra do Ceará ao Cuca Che Guevara
David Aragon disponível em 
 <http://www.ujsceara.org.br/2009/08/do-clube-de-regatas-barra-do-ceara-ao.html>
 


quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Os Primeiros Clubes Sociais

sede própria do Clube Cearense em frente ao Passeio Público. Mais tarde funcionou no prédio o Hotel de France 


O Clube Cearense foi o primeiro clube social de Fortaleza, fundado ainda no segundo império, foi inaugurado no dia 7 de setembro de 1867, com um grande baile, reunindo o melhor da sociedade desse tempo. Não completou 35 anos de existência , mas durou o tempo suficiente para tornar-se uma referência para as associações que o sucederam.
Nas primeiras décadas do século XX, dois clubes sociais realçavam o estilo de vida da chamada alta sociedade fortalezense: o Clube Iracema e o Clube dos Diários
 


Festa de 50anos do Clube Iracema

O Clube Iracema foi fundado no dia 28 de junho de 1884, como reação democrática contra o elitista Clube cearense, marcando seu início como centro atividades políticas e sociais, voltado para a militância dos movimentos abolicionistas e republicanos. Era a resposta social da burguesia emergente associada à parcela da alta classe média, contra a aristocracia da terra, numa época em que a cidade crescia de população, já próxima de 35 mil habitantes, vivenciando um tempo de mudanças na estrutura econômica e política da província.
Durante vinte dias, um grupo de jovens comerciantes e intelectuais preparou o baile inaugural que seria realizado no dia 19 de julho. O Clube Iracema privilegiou as atividades culturais, registrando em seus salões intenso movimento artístico-literário. Ali nasceu o gabinete de Leitura, o Instituto do Ceará, a Fênix Caixeiral, a Padaria Espiritual, a Sociedade Perseverança e Porvir, a Academia Cearense de Letras e a Sociedade Libertadora Cearense. 


baile no Clube Iracema 

Depois do encerramento do Clube Cearense, muitos de seus antigos associados passaram a frequentar o Iracema. Intensificaram a vida social do clube e o lhe conferiram o status de mais importante dentre as agremiações sociais de Fortaleza. Admiráveis festivais foram realizados no Clube Iracema, conduzidos por músicos como Arthur Napoleão, Dalmau, Galiani, Landau Teixeira e Alberto Nepomuceno. Por muitos anos o Clube Iracema ocupou vários casarões do centro da cidade. Em 1922 sediou-se no Palacete Ceará, na Praça do Ferreira de propriedade do coronel José Gentil de Carvalho.


Em 1939 o Clube Iracema instalou sua sede em prédio próprio na Praça dos Voluntários. Este prédio, um dos mais belos exemplos de estilo art-deco da cidade, foi desapropriado em 1947 pela Prefeitura de Fortaleza para ali instalar seu centro administrativo. 





Clube dos Diários

Em consequência de uma dissenção na sociedade do Clube Iracema, surgiu em 18 de março de 1913, o clube dos Diários, aquele que seria o mais requintado do período da Belle Epoque de Fortaleza. Desde sua inauguração, instalou-se no Palacete Guarany, na antiga Rua Formosa, hoje Barão do Rio Branco. 

 reunião da diretoria do Clube dos Diários no Palacete Guarany - 1954 

Mais tarde foi construída uma nova sede social, na Aldeota, entre as ruas Barão de Aracati e Carlos Vasconcelos, numa área hoje ocupada pelo edifício da Receita Federal. O Clube dos Diários preenchia a vida social de Fortaleza com charme e elegância. Bailes grandiosos, apresentações musicais, exposições de arte ocorriam em seus salões. Acompanhando o desenvolvimento tecnológico, sua diretoria procurava oferecer aos associados o que havia de mais moderno na área de lazer e entretenimento.                                      
 
anúncio em jornal dos anos 60
Até o final dos anos 20, a vida social e elegante da cidade era conduzida pelos dois clubes: Iracema e Diários. Esses rivalizavam nas festas e bailes carnavalescos. Na segunda metade do século XX, o Clube dos Diários, numa forme de sobrevivência, fundiu-se com o Clube Iracema constituindo o Clube Diários-Iracema.




Um terceiro clube, o Ceará Country Club inaugurado já nos fins da Belle Epoque, congregava quase que exclusivamente a colônia inglesa da cidade até 1956. A partir daí houve uma abertura no seu quadro social, com aquisições de ações por membros da sociedade fortalezense.
Fundado em 23 de abril de 1924, com a intenção de promover o esporte entre britânicos e americanos residentes no Ceará, o Country Club tinha o inglês como idioma oficial da diretoria. Seus terrenos foram adquiridos de Dona Maria Teresa de Souza Accioly, viúva do Comendador Antônio Pinto Nogueira Accioly mediante escritura pública de 1922. Abrangiam duas quadras entre a Avenida Santos Dumont, Ruas Silva Paulet, Pereira Filgueiras e Avenida Barão de Studart. A sede do clube foi edificada em estilo normando, pelo arquiteto Sylvio Jaguaribe Ekman.
No tempo da administração dos ingleses, todos os bailes do Ceará Country Club findavam com a valsa “Daisy Bell”, cujo refrão dizia:



“Daisy, Daisy, give me your answer, do!
I’m half crazy, all for the love of you!
It won’t be a stylish marriage,
I can’t afford a carriage,
But you’ll look sweet upon the seat
Of a bicycle buit for two!

O refrão dessa canção vitoriana fez parte da história dos jingles da rádio brasileira, participando, assim, da evolução radiofônica, iniciada em 1931, que abriu o Brasil para o mundo, conduzindo-o à Era das Comunicações de Massa.
Uma das mais importantes propagandas da época, anunciava o produto farmacêutico fitoterápico “Phymatosan”, que tinha como slogan “A sentinela dos pulmões”. A partir do tempo de ouro do rádio nacional, em todas as emissoras do país, por anos a fio, um afinado coral acompanhava a valsa , num ritmo arrastado. Esse antológico jingle, teve seus versos confirmados pelo pesquisador Cristiano Câmara, que propalava:

Phymatosan, quando você tossir,
Phymatosan, se a tosse resistir
Renova seu apetite
Acabando com a bronquite
Phymatosan, melhor não tem
É o amigo que lhe convém.

  

extraído do livro
Ideal Clube - história de uma sociedade - memórias, documentos, evocações
de Vanius Meton Gadelha Vieira 
fotos dos livros Ideal Clube, Ah, Fortaleza! e do Arquivo Nirez



segunda-feira, 7 de outubro de 2013

O Começo e o Auge dos Clubes

Domingo era o dia da missa e do programa em família: circo, teatro, cinema, passeio em casa de parentes nos arrabaldes da cidade. Para os espetáculos, muitas vezes era necessário levar o assento.  E não era raro os jornais publicarem anúncios de cadeiras perdidas, como esse de 1872: “quem hontem, por engano, levou do Circo Olympio, cinco cadeiras americanas, com o nome do abaixo assignado escripto em um pedaço de papel pregado no espaldar das mesmas, queira por bondade manda-lo avisar, para mandar ver”.

O Clube Cearense foi, concretamente, a primeira grande agremiação mundana da cidade, inclusive com sede própria e sócios. (foto do livro Ah, Fortaleza!)

Ainda no século XIX, surgia outra opção de divertimento: o Clube Cearense – em frente ao sítio que se tornaria o Passeio Público – palco de animadas matinês;  o Clube Iracema, de 1884, formado pelos jovens barrados no Clube Cearense, e a Fênix Caixeiral, em 1905, na Praça José de Alencar, que além dos bailes oferecia um pátio para ginástica.
O Clube Cearense foi de fato a primeira grande agremiação mundana da cidade, inclusive com sede própria e sócios, mas um pouco antes, em 1851, já houvera um primeiro esboço nesse sentido: uma organização chamada “ Recreação  Familiar Cearense”, fundada pelo engenheiro Caetano de Gouveia.

O Passeio Público era o local preferido para os passeios dominicais das famílias cearenses. Foto de 1908, do Arquivo Nirez 

Acompanhando os clubes elegantes, espaços privados de lazer burguês, vieram as recreações esportivas, recomendadas pelo saber médico: o skating-rink (1877), patinação no Passeio Público; o byciclette sportif (1900) ciclismo nas praças, e o turf (1895) corrida de cavalos no Campo do Prado no Benfica.
Mas foi na década de 50 que a cidade viveu os tempos áureos dos clubes sociais, redutos das classes mais abastadas, dos novos ricos e dos deslumbrados da época. Tudo de repente, como um surto. Os velhos e tradicionais clubes se instalaram em novas e confortáveis sedes, e uma infinidade de novas agremiações foram criadas, com festas suntuosas, animados bailes de carnaval, piscinas de águas esverdeadas, quadras de esportes, bares e restaurantes. Uma moderna e diferente forma de viver, com mais alegria, mais descontração, mais charme. 



O Náutico Atlético Cearense e o Ideal Clube em fotos dos anos 50 (fotos da Enciclopédia dos Municípios Brasileiros)

Com o advento dos clubes elegantes, as famílias de Fortaleza mudaram seus hábitos e passaram a encontrar nas agremiações a continuação do seu próprio lar, com a vantagem dos banhos de piscina, das práticas esportivas, do conforto dos bares e restaurantes.
Dentro de pouco tempo o Brasil inteiro comentava o gritante contraste entre a conhecida pobreza do Estado e a suntuosidade dos seus clubes, onde a elite risonha e franca nem via o tempo passar.


Fontes:
Os Dourados Anos, de Marciano Lopes                                        
Revista Fortaleza, Fascículo 9,  de 04 de junho de 2006


quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

A Criação do Clube Cearense

A euforia com o crescimento do comércio e dos negócios, a presença de muitos estrangeiros residindo na cidade, e a necessidade de lazer e sociabilidade dos segmentos burgueses, concorreram para a criação, em 1868, de duas inéditas entidades recreativas em Fortaleza: a Associação Comercial do Ceará (presidida pelo inglês Richard Hugges) e o Clube Cearense, ambas compostas por estrangeiros e pela elite cearense.

 Antiga Rua da Misericórdia (atual Rua Dr. João Moreira)
1 - União Cearense; 2 - Casa Liebmann; 3 - Casa Mississipi; 4 - Prédio do Clube Cearense,  (Hotel de France) 
 fonte José Liberal de Castro

O Clube Cearense foi, concretamente, a primeira grande agremiação mundana da cidade, inclusive com sede própria e sócios. Mas um pouco antes, em 1851, houvera um primeiro esboço nesse sentido: uma organização chamada “Recreação Familiar Cearense”, fundada pelo engenheiro Caetano de Gouveia, filho de rico comerciante e pelo Dr. Lourenço de Castro e Silva, um dos primeiros médicos locais que retornaram à Fortaleza após se diplomarem nas escolas de Medicina de Salvador e do Rio de janeiro. 
Recém-formados e vindos de centros mais adiantados, Gouveia e Castro e Silva implantaram o que os abastados grupos emergentes da capital não tiveram o impulso mundano de fazê-lo: a iniciativa de congregar, a partir de um centro irradiante, os eventos festivos antes esparsos e acanhados na ingênua Fortaleza de então.  O efeito desse desejo de fomentar um viver urbano mais efetivo, foi exatamente, a  criação da Recreação Familiar Cearense, entidade destinada a reunir, uma vez por mês, as famílias de Fortaleza.
A agremiação trouxe uma novidade:  a participação feminina na organização de atividades mundanas. A atitude, pouco comum ao círculo feminino fortalezense, coube a Elisária Pereira, esposa do Dr. Gouveia, que assumiu a função de secretária da Recreação Familiar.
Essa inauguração acendeu a chama da necessidade urgente de lazer e sociabilidade urbana na acanhada capital cearense. 

sede própria do Clube Cearense em frente ao Passeio Público. Mais tarde funcionou no prédio o Hotel de France (foto Ah, Fortaleza!)

Entretanto, foi o Clube Cearense, 17 anos depois, que melhor assumiu as características de um verdadeiro clube recreativo, pois além de contar com sede própria (a partir de 1871) num grande prédio defronte à área verde onde surgiria em 1880, o magnífico Passeio Público. Oferecia festas suntuosas, novas danças, jogos lícitos, e atividades litero-culturais para o seleto corpo de associados.
Integrado pelos notáveis homens de negócios locais e estrangeiros, o Clube Cearense logo se tornou famoso pelo fausto de seus salões e pelo extremo requinte de suas programações recreativas. Seu elitismo exclusivista, porém,  vedava o acesso a estranhos, mesmo que tivessem algum prestígio na cidade. 

 Associação Comercial, fundada no mesmo ano do Clube Cearense (livro Ah, Fortaleza!)
  
  Reunião da diretoria da Associação Comercial do Ceará, sociedade para defesa dos interesses comerciais do Estado, constituída pelas firmas mais importantes (foto Novo Milênio)

Acontecimentos constrangedores como a expulsão de um guarda-livros que se achava sem convite em uma de suas festas e a recusa de proposta para sócio de um funcionário da Alfândega,  aumentaram o tom dos protestos contra a agremiação. Os excluídos do Clube Cearense, que se formava à margem do mundo aristocrático de então, era um ascendente grupo social médio-alto, constituído por comerciários, despachantes e guarda-livros, muitos deles, já na década de 1870, participantes de atividades  literárias e jornalísticas, e ativos militantes abolicionistas. 
Desse grupo de rejeitados pelo Clube Cearense, partiu a iniciativa de se criar uma outra sociedade recreativa, que viabilizasse seus anseios por diversão e cultura. Assim surgiu o Clube Iracema, em 1884 – ano da abolição da escravidão no Ceará – nome inspirado no afamado romance de José de Alencar.  

extraído do livro de Sebastião Rogério Ponte
Fortaleza Belle Epoque reformas urbanas e controle social 1860-1930   
 

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Fortaleza anos 40 – A Cidade se Diverte


Embora houvesse poucas opções, viver em Fortaleza representava dispor de um espaço que oferecia lazer e diversão. Nos anos 1930/40 o banho de mar começou a ser apreciado e difundido largamente, embora o uso de calções e maiôs fosse desaprovado e sofresse sérias restrições por parte da igreja.

O cinema era outra atração, havendo várias salas de projeção nos bairros mais longes do centro. Os mais famosos eram o Majestic e o Diogo. Na década de 1950, surgiu o maior e mais luxuoso, o São Luís. Para se ter acesso a estes cinemas, era preciso estar bem trajado, os homens de paletó, as mulheres com vestidos finos, luvas e chapéus. 

Cine Joaquim Távora, um dos "poeiras", como eram chamados os cinemas de bairro. Ficava na Avenida Visconde do Rio Branco, 2406 (arquivo Nirez)  

Conta-se que o famoso cineasta Orson Welles, quando de sua passagem por Fortaleza, foi barrado no Diogo, por não estar convenientemente vestido de paletó. Na famosa sessão das quatro, no Diogo, aos Domingos, estava a "nata" da juventude. Os filmes, na maioria de origem americana, continuavam a influenciar o comportamento das pessoas e a difundir o american way life.

Fundado em 30 de novembro de 1932 com o nome de Liga Massapeense, depois denominado Centro Massapeense. Estava localizado na esquina da Avenida Aquidaban (hoje Historiador Raimundo Girão) com a Rua Barão de Aracati, na Praia de Iracema (arquivo Nirez) 
  
A cidade contava com  clubes refinados para as classes abastadas, como o Náutico, o Ideal (o único com piscina) o Líbano, os Diários e outros, onde ocorriam suntuosas festas, tertúlias e bailes carnavalescos com orquestra. Os clubes favoreciam a transmissão de valores e o relacionamento social, namoros e casamentos entre as classes alta e média.

Olhar vitrines tornou-se um lazer para as elites, o consumismo era cada vez maior, as pessoas estavam sempre procurando adquirir as novidades, que mostravam seu poder econômico e o ingresso na modernidade. 

Anúncio da Loja Irmãos Pinto, que funcionava na Rua Major Facundo, publicado no jornal Correio do Ceará

Os jornais anunciavam os últimos modelos de eletrodomésticos, que ajudavam as donas de casas nos afazeres domésticos. Ser feliz, era consumir e ostentar.  Considerava-se um glamour aparecer nas colunas sociais dos jornais, a ponto dos colunistas ganharem uma importância equivalente a de uma autoridade, além de prestígio político.

Estádio Presidente Vargas quando existiam apenas duas cabines de rádio, a Ceará Rádio Clube e a Rádio Iracema - final da década de 1940 (arquivo Nirez)

O futebol atraía multidões masculinas para o Estádio Presidente Vargas, onde eram disputadas animadas partidas. Além do futebol o povo sentia-se atraído por festas religiosas e procissões. O carnaval era severamente vigiado e controlado pelas autoridades, tornando-o ainda mais minguado. Apenas nos clubes havia bailes carnavalescos mais animados e menos vigiados. 

Cronista Social Robert de Singerie (foto do livro Os Anos Dourados, de Marciano Lopes)

Os moradores ainda se reuniam em rodas de cadeiras nas calçadas nos finais de tarde, mas o costume já começava a rarear. Condenavam-se os namoros obscenos, o vício do álcool, a leitura de revistas e livros indecentes. A vigilância conservadora atingia igualmente os concorridos programas de auditório nas emissoras de rádio – em 1948 surgiu a Rádio Iracema, concorrente da até então única emissora, a PRE-9. O rádio reinava como meio de comunicação e lazer – as radionovelas faziam enorme sucesso.  Frequentemente passavam por aqui artistas do Centro-Sul, para shows que atraiam multidões.

Inspirando-se nos ídolos de Hollywood, os jovens da elite tinham como objeto de consumo a lambreta – um elemento de diferenciação e autoafirmação para aqueles rapazes, símbolo de boa condição financeira, poder, velocidade e arma de sedução.

Extraído do livro
História do Ceará, de Airton de Farias

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Os Antigos Carnavais de Fortaleza

Nos distantes anos 1950, Fortaleza tinha Carnaval, que acontecia nas ruas, nos clubes e até em residências.  O período momino era respeitado e a folia tinha prazo definido: do domingo à terça-feira. O Sábado gordo era a grande véspera, quando todos ultimavam as fantasias, conferiam o estoque de lança-perfumes, de serpentinas e confetes e se concentravam para a grande festa.

Clube Náutico em foto de 1952 (arquivo Nirez)

No domingo havia baile em todos os clubes, exceto o Country que promovia o baile da 2ª. Feira. Apesar do grande número de festas naquele primeiro dia, a animação era absoluta.  Aconteciam bailes no Náutico, Diários, Iracema, Maguary, Líbano, Comercial, Circulo Militar, e Centro Massapeense. A 2ª Feira era exclusiva do Country Clube, sendo aquele o único baile da noite. 

Clube Líbano, palco de grandes bailes carnavalescos (arquivo Nirez)

Na 3ª feira, despedida do carnaval, todos os clubes voltavam a receber os foliões, em bailes que se prolongavam até o amanhecer.

Mas para a maioria das pessoas, o melhor do carnaval acontecia nas ruas do centro de Fortaleza. A Rua Senador Pompeu era a passarela por onde passavam blocos, cordões e maracatus. As fantasias usadas pelos populares eram improvisadas e bastante criativas. É que naquela época a concepção de carnaval era diferente do hoje, e para os foliões, o importante era fazer a caricatura, fazer deboche de pessoas e fatos, especialmente de figuras da política e da administração pública.

O Bloco Prova de Fogo foi fundado em 1936 (arquivo Nirez)

Tudo começava cedo, a partir das duas da tarde, quando o público começava a encher as calçadas da Rua Senador Pompeu. Como não havia um planejamento, nenhum regulamento a ser cumprido, maracatus, blocos, cordões e blocos de sujos, se misturavam, quem chegava ia entrando e fazendo sua apresentação.

Por outro lado os grupos desfilavam à vontade, passavam duas, até três vezes, o importante era satisfazer o público e receber os aplausos.  A Rua Senador Pompeu, quase totalmente residencial, permitia que seus moradores abrissem suas janelas e sacadas que funcionavam como camarotes.

Blocos Turma Bamba e Cordão das Coca-Colas, desfile de 1950 (arquivo Nirez)

Os sargentos da Base Aérea inventaram o Cordão das Coca-Colas, parodiando as moças que namoravam os americanos no tempo da 2ª. Guerra. Outras turmas de marmanjos fundaram o Bloco das Baianas, as Garotas do Sputinik, as Garotas da Pepsi, Turma do Camarão, Turma Bamba, Prova de Fogo, Escola de Samba Luiz Assunção e os Maracatus Leão Coroado, Estrela Brilhante, Az de Ouro, Reis de Paus, Rancho de Iracema e o maior e mais rico de todos, o Maracatu Az de Espadas.

Bloco "Enverga mas não quebra" e o maracatu, desfile de 1950 (arquivo Nirez)

Na Avenida Duque de Caxias passava o corso de automóveis, que ficava reduzido às famílias mais abastadas, porque naquele tempo, possuir automóvel era privilégio de poucos. O casal e as crianças ocupavam o interior do veículo, enquanto rapazes e moças, com suas fantasias, ocupavam a capota e os paralamas dos veículos, todos ostentando suas Rodouro, às vezes um em cada mão enluvada.

Outra particularidade dos velhos carnavais eram os assaltos às residências. Um grupo de mascarados, disfarçando a voz para não serem reconhecidos, invadia a residência de pessoas conhecidas e forçavam a todos a entrar na folia. Os anfitriões, pegos de surpresa, serviam comidas e bebidas e também brincavam. Só vinham  saber quem eram os visitantes depois do Carnaval. Em alguns casos, nunca viriam a saber.

E assim era o Carnaval daqueles tempos. Três dias que eram suficientes para que todos se divertissem numa perfeita ordem e genuína democracia.


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O lança-perfume foi a grande invenção do Carnaval Brasileiro. Surgido em 1906 no Rio de Janeiro, logo veio dar uma aura toda especial às festas de momo de norte e sul do Brasil.  Apareceu com grande publicidade, sendo distribuído em três apresentações — dez, trinta e sessenta gramas. 

Fabricadas pela Rodo Suíça, aquelas ampolas de cloreto de etila, éter, clorofórmio e essência especialmente perfumada,  animaram os nossos carnavais até 1961, quando tiveram a sua produção proibida por decreto do presidente Jânio Quadros.

extraído do livro de Marciano Lopes