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quinta-feira, 12 de junho de 2014

Futebol e Cultura no Século XX

No final do século XIX, período que ficou conhecido como Belle Epoque, os filhos das classes dominantes brasileiras, iam, em geral, estudar na Europa, então uma referência cultural, modelo para modernidade e civilidade. Tradicionalmente é dito que foi pelos pés desses jovens abastados que teria chegado ao Brasil o foot-ball association, o qual como é concebido hoje, surgiu na Inglaterra, por volta da segunda metade do século XIX.
Se nacionalmente afirma-se que o futebol teria chegado ao País em 1894, com Charles Miller, no Ceará o mito da fundação é atribuído a José Silveira, jovem estudante na Suíça, que em 1904, trouxera a primeira bola para o Estado junto com um livrinho de regras. 

  
O mais antigo time do Estado é o Ceara Sporting Club, fundado em 2 de junho de 1914, com o nome de Rio Branco Football Club, foi criado a partir de uma conversa entre Luís Esteves Junior e Pedro Freire durante um encontro no Café Art Nouveau, que funcionava na Praça do Ferreira.

Teria ele organizado a 25 de dezembro daquele ano, no segundo plano do Passeio Público, a primeira partida envolvendo cearenses contra uma equipe de ingleses moradores em Fortaleza, marinheiros de um navio ancorado em passagem para o Sul. Há também quem firme que o futebol teria chegado a Fortaleza em 1903, quando um navio britânico, levando um time para excursionar pelo sul do Brasil e Argentina, ancorou na capital, realizando uma exibição no Passeio Público.


 Time do Stella, fundado em 1918 pelo comerciante Alcides Santos, que foi extinto, para a criação do Fortaleza com as mesmas cores. A explicação  estava no fato de que Alcides não sabia precisar a data de fundação do Stela, o que tirava seu caráter oficial.

Novos pesquisadores, porém , estão mostrando que antes de Miller, do navio britânico, o foot-ball já era praticado no Brasil e no Ceará, respectivamente. O futebol como prática social existia antes, com chutes aleatórios e partidas de várzeas, fossem de elementos das elites ou populares.  Estudantes, marinheiros, e empregados de companhias inglesas praticavam o futebol em internatos, pelas ruas e portos das cidades brasileiras, a exemplo de Fortaleza. 


O Campo do Prado inaugurado no dia 07 de setembro de 1912,  foi o primeiro estádio oficial de Fortaleza,  e o principal palco dos jogos de futebol cearense  durante quase trinta anos.  Nele foram realizados os jogos da Liga Metropolitana Cearense de 1915 a 1919, e do Campeonato Estadual de 1920 a 1941. 

Depois de um certo hiato entre 1906 e 1912, sobre o qual existem poucas informações – embora se saiba que o esporte fosse praticado em colégios como o Liceu e o Castelo e nas ruas da capital, onde surgiam times como os rivais da 24 de Maio e Barão do Rio Branco - o esporte popularizou-se de vez entre a população que já assistia lutas de boxes e torneios de turfes (corrida de cavalos).
Relaciona-se a tal popularização à chegada da Europa e do Centro-Sul de um grupo de estudantes apaixonados pelo futebol , os quais estimularam e possibilitaram a fundação de várias equipes como o English team, o Stella, o Rio Negro, o Hesperia, o Maranguape, o Fortaleza Sporting Clube, o American-Foot-Ball Clube, e o Rio Branco, mais tarde chamado Ceará Sporting Club.
Na verdade, o futebol tornou-se em pouco também paixão da massa, praticado por pobres, negros, mulatos, brancos. Tal massa assistia aos jogos das elites e marinheiros estrangeiros com curiosidade, e vendo as emoções que as partidas provocavam, passou a disputar suas próprias partidas nas fábricas, várzeas e subúrbios. 

 Brasil, time campeão do mundo em 1958

O passar do tempo só confirmou a paixão brasileira pelo futebol, principalmente depois que a seleção do Brasil passou a obter resultados positivos ainda nos anos 50. Passados mais de meio século desde a primeira conquista em 1958, o futebol é de longe, o esporte mais popular entre os brasileiros.

fonte:
História do Ceará, de Airton de Farias 

sábado, 3 de novembro de 2012

O Cinema e o Futebol

Um dos primeiros filmes produzidos em Fortaleza teve como tema o futebol. A obra intitulada Temporada Maranhense de Football no Ceará retrata os quatro amistosos realizados por um combinado de São Luís, em 1924, contra o Ceará (vitória do Ceará por 4x2), Fortaleza (vitória por 4x0), América (vitória por 2x0) e Guarany, time da capital já extinto (derrota por 4x0).

 Fundada pelo comerciante Alcides Santos, a equipe do Stella Football Club, foi extinta poucos meses antes da fundação do Fortaleza. A explicação para a extinção do time (Stella era o nome de um colégio suíço onde estudavam os filhos de alguns nobres representantes da alta sociedade de Fortaleza), e a posterior criação do Fortaleza com as mesmas cores, estava no fato de que Alcides Santos não sabia precisar a data de fundação do Stela, o que tirava seu caráter oficial.


Os jogos aconteceram no Estádio do Alagadiço, num terreno ao lado de onde hoje está a Igreja de São Gerardo, na Avenida Bezerra de Menezes. Este é considerado o primeiro registro cinematográfico do Ceará e do Fortaleza, clubes mais tradicionais da cidade.
O filme fez parte de uma série de registros produzidos a partir da década de 20 pelo cearense Adhemar Albuquerque, considerado pioneiro na produção documental de qualidade técnica no cinema fortalezense.

Igreja de São Gerardo, na Avenida Bezerra de Menezes, onde num terreno ao lado, ficava o Estádio do Alagadiço 
 
Duas décadas depois do surgimento dos primeiros cinemas fixos em Fortaleza, o cineasta passou a rodar documentários em películas 35 milímetros, sobre aspectos e acontecimentos diversos da capital e de cidades do interior. Dessa forma, ele captou em suas lentes, por exemplo, os colégios da época, a indústria do sal, e as paradas militares de 7 de Setembro. Sensível ao fenômeno do futebol, que começava a virar febre no Brasil, cobriu toda a excursão do combinado maranhense e a sua repercussão em Fortaleza.

 Cine Moderno em 1924, onde  foi exibido o curta

O documentário, um curta-metragem em preto e branco e sem áudio, foi lançado no dia 15 de outubro de 1924, no Cine Moderno. Sobre a produção, o jornal Correio do Ceará teceu largos elogios na edição do dia seguinte: trata-se de uma interessante cinta cinematográfica, contendo phases dos jogos que se realizaram, flagrantes das archibancadas e do movimento de torcedores e gentis torcedoras para o fiel do Alagadiço, onde se feriram as pugnas. Há ainda outros aspectos do desembarque dos desportistas visitantes, dos teams, captains, juízes e auxiliares na temporada, publicou o jornal, num estilo ainda carregado de termos ingleses e grafias da época.

 Sala de Projeção do Cine-teatro Majestic Palace, que também exibiu o filme de Adhemar Albuquerque 

Numa época em que as viagens entre as capitais do país demandavam dias, receber uma equipe de São Luís significava um evento extraordinário para os futebolistas. Na esteira da repercussão dos amistosos dos maranhenses contra os grandes clubes cearenses em 1924,  Temporada Cearense de Football no Ceará virou um grande sucesso, segundo conta o livro Fortaleza – A Era do Cinema, de Ary Bezerra Leite. No dia 22 de outubro, o filme foi novamente exibido no Cine Moderno e também no Majestic.

 Loja da Aba Film, império da fotografia e da produção de imagens, fundada por Adhemar em 1934.

Na época com 32 anos, Adhemar se tornaria ainda mais famoso na cidade com a Aba Film, empresa de fotografia criada por ele em 1934. O pioneiro do cinema documental de Fortaleza, faleceu em 1975, aos 83 anos. Deixou uma vasta filmografia, boa parte dela perdida com o tempo. Para os fãs de futebol, ele foi um visionário que enxergou o potencial cultural do esporte quando muitos o consideravam um mero passatempo. 

extraído da Revista Fortaleza, fasciculo 8
fotos do Arquivo Nirez
 

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Fortaleza anos 40 – A Cidade se Diverte


Embora houvesse poucas opções, viver em Fortaleza representava dispor de um espaço que oferecia lazer e diversão. Nos anos 1930/40 o banho de mar começou a ser apreciado e difundido largamente, embora o uso de calções e maiôs fosse desaprovado e sofresse sérias restrições por parte da igreja.

O cinema era outra atração, havendo várias salas de projeção nos bairros mais longes do centro. Os mais famosos eram o Majestic e o Diogo. Na década de 1950, surgiu o maior e mais luxuoso, o São Luís. Para se ter acesso a estes cinemas, era preciso estar bem trajado, os homens de paletó, as mulheres com vestidos finos, luvas e chapéus. 

Cine Joaquim Távora, um dos "poeiras", como eram chamados os cinemas de bairro. Ficava na Avenida Visconde do Rio Branco, 2406 (arquivo Nirez)  

Conta-se que o famoso cineasta Orson Welles, quando de sua passagem por Fortaleza, foi barrado no Diogo, por não estar convenientemente vestido de paletó. Na famosa sessão das quatro, no Diogo, aos Domingos, estava a "nata" da juventude. Os filmes, na maioria de origem americana, continuavam a influenciar o comportamento das pessoas e a difundir o american way life.

Fundado em 30 de novembro de 1932 com o nome de Liga Massapeense, depois denominado Centro Massapeense. Estava localizado na esquina da Avenida Aquidaban (hoje Historiador Raimundo Girão) com a Rua Barão de Aracati, na Praia de Iracema (arquivo Nirez) 
  
A cidade contava com  clubes refinados para as classes abastadas, como o Náutico, o Ideal (o único com piscina) o Líbano, os Diários e outros, onde ocorriam suntuosas festas, tertúlias e bailes carnavalescos com orquestra. Os clubes favoreciam a transmissão de valores e o relacionamento social, namoros e casamentos entre as classes alta e média.

Olhar vitrines tornou-se um lazer para as elites, o consumismo era cada vez maior, as pessoas estavam sempre procurando adquirir as novidades, que mostravam seu poder econômico e o ingresso na modernidade. 

Anúncio da Loja Irmãos Pinto, que funcionava na Rua Major Facundo, publicado no jornal Correio do Ceará

Os jornais anunciavam os últimos modelos de eletrodomésticos, que ajudavam as donas de casas nos afazeres domésticos. Ser feliz, era consumir e ostentar.  Considerava-se um glamour aparecer nas colunas sociais dos jornais, a ponto dos colunistas ganharem uma importância equivalente a de uma autoridade, além de prestígio político.

Estádio Presidente Vargas quando existiam apenas duas cabines de rádio, a Ceará Rádio Clube e a Rádio Iracema - final da década de 1940 (arquivo Nirez)

O futebol atraía multidões masculinas para o Estádio Presidente Vargas, onde eram disputadas animadas partidas. Além do futebol o povo sentia-se atraído por festas religiosas e procissões. O carnaval era severamente vigiado e controlado pelas autoridades, tornando-o ainda mais minguado. Apenas nos clubes havia bailes carnavalescos mais animados e menos vigiados. 

Cronista Social Robert de Singerie (foto do livro Os Anos Dourados, de Marciano Lopes)

Os moradores ainda se reuniam em rodas de cadeiras nas calçadas nos finais de tarde, mas o costume já começava a rarear. Condenavam-se os namoros obscenos, o vício do álcool, a leitura de revistas e livros indecentes. A vigilância conservadora atingia igualmente os concorridos programas de auditório nas emissoras de rádio – em 1948 surgiu a Rádio Iracema, concorrente da até então única emissora, a PRE-9. O rádio reinava como meio de comunicação e lazer – as radionovelas faziam enorme sucesso.  Frequentemente passavam por aqui artistas do Centro-Sul, para shows que atraiam multidões.

Inspirando-se nos ídolos de Hollywood, os jovens da elite tinham como objeto de consumo a lambreta – um elemento de diferenciação e autoafirmação para aqueles rapazes, símbolo de boa condição financeira, poder, velocidade e arma de sedução.

Extraído do livro
História do Ceará, de Airton de Farias

sábado, 8 de outubro de 2011

Paixão pelo Futebol

A modalidade esportiva que melhor se encaixou no gosto do povo cearense, o futebol, desembarcou em Fortaleza há mais de cem anos. Há relatos que abordam a história do  futebol no Estado, que registram jogos entre marinheiros estrangeiros de passagem pela capital, a partir do início do século passado. 

Campo do Passeio Público, local da primeira partida de futebol oficial em 1904. (O Povo)

A primeira partida realizada em Fortaleza, dentro das regras oficiais, foi realizada no dia 24 de dezembro de 1904. O palco do jogo histórico foi o Passeio Público, no centro. Nove anos após o estudante paulista Charles Miller trazer o futebol para o Brasil, o também estudante cearense José Silveira, recém-chegado de temporada na Europa, tornava-se o pioneiro do esporte em Fortaleza. 

Foi Silveira, futuro professor de inglês e tradutor de alemão, quem organizou a primeira partida na cidade, num confronto entre jovens da elite e um combinado de funcionários britânicos da Companhia de Gás e tripulantes de um navio inglês, ancorado na Capital.Então com 22 anos, o filho de portugueses havia morado na Suíça e passado por outros países Europeus, como França, Inglaterra e Alemanha. 

Vista da Avenida Caio Prado em 1908: poste de combustor no 1° plano; todo o 2° plano e a mureta de separação do terceiro plano; mais além, o Poço da Draga, quebra-mar Hawkshaw e navios ao largo. (foto da Revista do Instituto do Ceará) 

O local da primeira partida foi o segundo plano do Passeio Público, que era dividido em três,  no início do século passado. Os jogos ocorriam no plano médio, logo abaixo de onde se encontra a praça atual. O primeiro plano, mais alto, era destinado ao lazer das pessoas da alta sociedade, enquanto o mais baixo, servia a população mais humilde. 
Com o passar do tempo a divisão em planos desapareceu, e hoje só existe o plano mais alto, onde está a praça atual. O resto foi todo ocupado pelo quartel da 10ª Região Militar.

Consta que a partida atraiu uma multidão que acorreu ao Passeio Público, mesmo sendo à tarde da véspera de Natal de 1904. No rosto dos primeiros torcedores da cidade, uma expressão de espanto e curiosidade diante da novidade vinda da Europa.
A partida foi bastante disputada pelos dois times, e as equipes foram denominadas de Football Club (a local), e Ingleses, os visitantes. 

Silveira, dono da bola, e do livro de regras trazido da Inglaterra, reforçou a equipe da casa. Mesmo assim, pouco afeitos a nova modalidade do esporte, os cearenses foram derrotados por 2 a 0. Mas ninguém se incomodou com a derrota, porque para o povo de Fortaleza, nascia ali uma paixão.

Vista do mesmo local da foto acima em 2008. Todo o espaço foi ocupado pelo quartel da 10ª Região Militar. (foto da Revista do Instituto do Ceará)  

Do local onde foi disputado o primeiro jogo oficial de futebol, não se guarda nenhuma referência  de sua importância histórica. Nenhuma placa, marco ou nome que lembre algum ídolo do passado. O segundo plano onde eram realizadas as partidas, hoje é ocupado pelo pátio do Aquartelamento da Companhia de Comando, com garagem, prédio com alojamento de soldados, pracinha e espaço para exercícios físicos. O antigo campo de terra batida foi coberto por um piso de cimento.

Time do Ferroviário em 1952 (imagem O Globo)

Nos 107 anos de futebol em Fortaleza existiram torcedores que, de tão apaixonados pelos seus times, tiveram suas vidas confundidas com as dos seus próprios clubes do coração.  Teve torcedor que, de tão famoso, virou até nome de rua. 

Entre as décadas de 1940/50 o Ferroviário realizava suas concentrações antes dos jogos na pensão de Dona Filó, no Centro.  Após sua morte, a dona da pensão foi homenageada com o nome da rua da sede social do clube, na Barra do Ceará.   

Sede do Ferroviário na Barra do Ceará: Rua Dona Filó, 650
imagem: http://www.panoramio.com/photo/13209136

Outros torcedores receberam homenagens que ficaram na história. A parteira dona Chaguinha, de tão identificada com o time do Ceará, atraiu centenas de pessoas ao seu sepultamento em 1964. A Rua General Sampaio, onde ficava a casa dela ficou intransitável. 

Charanga do Gumercindo animando os jogos do Fortaleza. O torcedor-simbolo aparece no centro da foto, de bigode e usando chapéu (Diário do Nordeste) 

Um dos mais conhecidos torcedores-símbolo do Fortaleza foi Antônio Gumercindo, dono de uma famosa charanga, que animava as arquibancadas do Presidente Vargas nas décadas de 1960/70, quando o clube iniciou eu processo de popularização na cidade.

a Banca do Bodinho era ponto de encontro dos torcedores do Fortaleza na Praça do Ferreira

Outros torcedores que ganharam notoriedade no futebol cearense foram o Bodinho, tricolor dono da banca de jornal na Praça do Ferreira, a mais conhecida da cidade;  Zé Limeira, engraxate, torcedor do Ferroviário que convocava a torcida aos jogo nos programas de rádio e Eutímio Moreira, antigo líder de torcida. 

Eles foram importantes porque refletiam a situação dos clubes, na critica as dirigentes quando o time estava mal e na divulgação dos jogos quando o time estava bem.


Extraído da
Revista Fortaleza, fascículo 8. 

segunda-feira, 13 de junho de 2011

A Cidade e o Futebol nos anos 1940



Praça do Ferreira, onde podem ser vistos alguns cartazes sobre a calçada.  No cruzamento com a Rua Floriano Peixoto, o Palacete Ceará (atual agência da Caixa), o Sobrado do Pastor e o Prédio da Intendência Municipal, que foi demolido em agosto de 1941 (Arquivo Nirez)

Na Fortaleza dos tempos de guerra – década de 40 – havia pontos e costumes bem esclarecedores do nosso estágio de acentuado provincianismo.
 A Praça do Ferreira concentrava a divulgação dos eventos que aconteciam pela cidade. Nos seus quatro cantos eram colocados cartazes pintados à mão com anúncios de jogos de futebol.  Os termos eram mais ou menos assim:  Domingo, sensacional match de futebol entre o Ferroviário e o Penarol. Às 15.30, no Campo do Prado. Ingressos Populares


Lojas Rianil na Rua Floriano Peixoto. O prédio era pintado de azul (Arquivo Nirez)


E nos pontos estratégicos do logradouro, os serviços de alto-falantes  nos horários de maior presença de público berravam propagandas – chamados de reclames – das lojas Rianil, da Cearense, da Relojoaria Cancão ou transmitiam músicas de sucesso de Nelson Gonçalves, Orlando Silva, Sílvio Caldas e Carlos Galhardo, os Roberto Carlos do seu tempo.
As notícias do conflito que abalava o mundo vinham do rádio, e dos jornais, especialmente da
Gazeta de Notícias, onde em um pequeno e empoeirado sótão na Rua Senador Pompeu, jovens jornalistas iam acompanhando os fatos que se desenrolavam em terras da Europa, e se refletiam na pacata capital do Ceará.
 
 
 Campo do Passeio Público, que ficava num plano abaixo da praça, foi o palco da primeira partida oficial de futebol, em 1904 (O Povo)


O futebol já era profissionalizado, mas ainda com fortes resquícios de amadorismo. Tinha sua maior expressão no Ceará, Maguari, Ferroviário e Fortaleza, surgindo logo em segundo plano o Tramways , que foi campeão em 1940 e foi dissolvido no ano seguinte, com título e tudo;  o Penarol que de calções vermelhos e jaquetas brancas foi apelidado pelos cronistas esportivos de “time das normalistas” numa alusão as cores da farda das alunas das Escola Normal; o Estrela do mar; o Luso e o Flamengo, que passaram da segunda para a primeira divisão e tiveram uma fase de relativo sucesso .

A equipe do Tramways, que ganhou o campeonato e foi extinta no ano seguinte.
 foto: http://memoriafutebolcearense.blogspot.com

Time do Ferroviário em 1938 (foto: site ferrao.com.br)


O Campo do Prado (Estádium Sport Cearense) inaugurado em 1912, estava situado onde hoje se encontra o Instituto Federal de Educação. No Prado também se faziam corridas de cavalo – havia uma pista de equitação ao redor do campo. Não havia gramado, o campo era de barro batido. Antes das partidas era comum aguar o campo para diminuir a poeira e diminuir o desconforto de atletas e torcedores. 

estádio do Prado (arquivo Nirez)


O estádio  era cercado por estacas de madeira e arame farpado, bastante vulnerável às investidas de penetras que não desejavam pagar pelo ingresso (embora nos primórdios ele nem fosse cobrado), de modo que ninguém fora dessa cerca protetora poderia assistir aos jogos, a não ser que subissem em árvores. Após essa cerca protetora maior, havia outra, pequena, de madeira, rodeando o campo propriamente dito. Em 1939 foram inaugurados os refletores para jogos noturnos. 
 

 Time do Ceará (foto: site cearasc.com)


Os craques da época foram: França o “estilista” que acabou contratado pelo Fluminense do Rio de janeiro; Zuza, pernambucano contratado pelo Ferroviário e depois foi para o Ceará; os goleiros Zé Augusto, Zé Onofre, Puxa-Faca, Zé Dias (campeão pelo Ferroviário em 45); Stenio, o craque os sete instrumentos, atuando em diversas posições e que do Maguari foi para o Botafogo do Rio; Hermenegildo e Mitotônio, o ala esquerda do Ceará, que o Náutico do Recife contratou; Zesérgio do Penarol e do Fortaleza; Sá Filho e Gambetá, zagueiros.  Todos esses jogadores,  formavam um grupo de craques, de reconhecida habilidade no futebol, que gozavam de largo prestigio entre os torcedores. Eles se tornaram figurinhas de um álbum, com vários prêmios para quem o preenchesse, promoção do empresário Amadeu Barros Leal, fundador dos cinemas Jangada, Araçanga, Atapu, Toaçu e outros.


Fonte:
Girão, Blanchard. O Liceu e o Bonde na paisagem sentimental da Fortaleza-Província. Fortaleza: Editora ABC, 1997.
Bruno Artur. Fortaleza: uma breve história/Artur Bruno, Airton de Farias. Fortaleza: INESP, 2011


segunda-feira, 9 de maio de 2011

Campo do Prado e IFCE - os caminhos do reencontro


O Estádio do Prado inaugurado no dia 07 de setembro de 1912,  foi o primeiro estádio oficial de Fortaleza,  e o principal palco dos jogos de futebol cearense  durante quase trinta anos.  Nele foram realizados os jogos da Liga Metropolitana Cearense de 1915 a 1919, e do Campeonato Estadual de 1920 a 1941. 
Ficou conhecido como Campo do Prado porque ao redor do campo podiam ser disputadas provas de turfe em uma pista de corridas. Foi também no Campo do Prado que aconteceu a primeira gravação de uma transmissão de futebol em Fortaleza, durante o jogo entre Maguari e Estrela do Mar, em 23 de dezembro de 1939, pelos comentaristas irmãos  José  e Paulo Cabral de Araújo.  
Com o surgimento do Estádio  Presidente Vargas, o Campo do Prado caiu em desuso, já que toda infraestrutura foi aproveitada pela nova praça de esportes.




O atual Instituto Federal  do Ceará surgiu como Escola de Aprendizes e Artífices, em 1909, através do decreto 7.566 baixado pelo então Presidente Nilo Peçanha. A escola mudou de nome diversas vezes até chegar ao atual IFCE.
Em 1940, o então interventor federal no Ceará Francisco Pimentel, fez a doação de um terreno localizado no bairro do Benfica, na Avenida Treze de  Maio, para a construção da sede do atual IFCE.  
Neste terreno estavam as antigas instalações do Campo do Prado. O prédio foi construído pela Construtora Emilio Hinko, sendo inaugurado em 19 de março de 1952.
No dia 29 de abril próximo passado,  o Instituto Federal inaugurou  o Complexo Poliesportivo Campo do Prado, numa homenagem ao velho campo de futebol , que funcionou na área compreendida entre os limites do IFCE e o Estádio Presidente Vargas.


Discurso de inauguração proferido pelo Reitor Cláudio Ricardo Gomes de Lima 
Descerramento da placa de inauguração do Complexo Poliesportivo Campo do Prado- Reitor, Professores e Servidores
Mesa das Autoridades


Duas das áreas que compõem o complexo,  foram  denominadas Campo de Futebol Society Moésio Araújo Gomes e Ginásio Poliesportivo Antônio Valdson dos Santos Alencar, em homenagem a dois professores da casa.


Jogo de inauguração do campo de futebol
jogo de inauguração da quadra


Construído com recursos do Governo Federal, o complexo poliesportivo Campo do Prado tem cerca de 5000 m² de área construída, compreendendo  campo de futebol society, quadra poliesportiva coberta, piscina (10X12m), salas de musculação, de fisioterapia e de avaliação física, cinco salas de aula (duas convencionais e três para ginástica),  pista de cooper (260 m), 
galeria de banheiros e vestiários, além de área de convivência, terraço e setor administrativo.
Composto por dois pavimentos, o novo empreendimento aumenta em torno de 20% a atual capacidade de atendimento do campus na área da educação física.


servidores de diversos campi do IFCE 


Atualmente, mais de 6 mil alunos frequentam as aulas de natação, vôlei, basquete, futebol, futsal, judô, handball, entre outras modalidades.
O Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará, funciona na Avenida Treze de maio, 2081, Benfica – Fortaleza. 


fotos: Rafael Oliveira