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sábado, 17 de junho de 2023

A Fortaleza dos anos 70

 



O início da década já assinalava o grande crescimento populacional que a cidade registrava em comparação com o censo de 1950 realizado pelo IBGE naquele ano:  270 mil habitantes. Em 1970 passou para 857 mil residentes em 147.640 domicílios. O rápido crescimento populacional, acelerou a ocupação de áreas da cidade, que aconteceu de forma desordenada e sem planejamento, evidenciou a questão da diferenciação de classes, e a ocupação de regiões periféricas e de preservação, como morros e dunas, sem que esses espaços contassem com nenhum tipo de infraestrutura. Apesar de tudo, Fortaleza ainda era uma cidade tranquila e sem maiores problemas ligados à criminalidade, violência urbana ou à segurança pública.





O centro era onde pulsava o coração da cidade, lojas chiques e populares, bancos, escritórios, órgãos públicos e governamentais, lanchonetes e cinemas, todos os negócios, todos os serviços, tudo era lá. O espaço era frequentado por todas as classes sociais, eram raros os endereços na Aldeota ou nos bairros; até por volta dos anos 60, os estabelecimentos comerciais tinham uma oferta de produtos muito diversificada, onde uma mesma loja vendia desde confecções até televisores e peças de carros; então surgiram as grandes lojas de departamentos, que passaram a nortear o comércio varejista.

  

O movimento no Centro era justificado também pelo funcionamento de vários órgãos públicos, como o Paço Municipal (sede da Prefeitura), o Palácio da Luz (sede do governo do Estado), o Palácio Senador Alencar (sede da Assembleia Legislativa), o Fórum Clóvis Beviláqua, a Alfândega, várias secretarias municipais e estaduais, além dos cartórios, os cursinhos pré-vestibulares e o Mercado Central, com seus artesanatos, rendas e bordados, que atraíam o público visitante.     

As mulheres chiques compravam na Flama e na Casa Parente; os jovens na Ocapana, na Abarama e Jeans Store; os homens usavam cuecas samba-canção e frequentavam a Cruzeiro, a Milano, e a Casa Bicho. E prestigiados por todos os públicos, havia o Romcy a Mesbla, a Lobrás, a Pernambucanas, a Loja de Variedades, a Carvalho Borges, a Lojas Damasceno, as muitas sapatarias e as primeiras farmácias da cidade. As noivas, as misses e as debutantes tiravam retratos na Aba Film, e as melhores fotos eram ampliadas e colocadas na vitrine da loja. Faziam o maior sucesso. 


  

Havia os cinemas de bairros, mas os mais frequentados eram os do Centro, São Luiz, Diogo, e Fortaleza, que lotavam a praça de meninos e adolescentes nos dias que exibiam filmes dos Trapalhões, enquanto os adultos se escandalizavam com as cenas do “Último Tango em Paris” com a violência desenfreada de “O Poderoso Chefão” ou se deleitavam com o musical “Cabaret”. Depois iam todos merendar na lanchonete da Lobrás.

O centro ainda eram o endereço de grandes hotéis como o Lorde Hotel, que teve seu auge nas décadas de 60 e 70; o Premier, e o Hotel Savanah, o último hotel de grande porte a ser inaugurado no centro, instalado no Edifício Jereissati.  Na Beira-Mar, então denominada Avenida Presidente Kenedy, ficavam o Hotel Beira-Mar, o San Pedro Hotel, e o Hotel Esplanada Inaugurado em 1978, o primeiro hotel 5 estrelas de Fortaleza.



A Beira-Mar, já despontava como zona de lazer e o local mais procurado para a instalação de negócios ligados ao turismo e ao entretenimento, e já tinha início o processo de especulação imobiliária, com a expulsão dos moradores tradicionais para construção da avenida e logo depois, dos primeiros edifícios da orla.  Por lá ficavam os restaurantes Sandra’s, La Perla, Tocantis e Trastevere. As noites já eram animadas, nas festas das boates Barbarela, Fortim e Senzala (que ficava pros lados do aeroporto). Havia as barracas da Praia do Futuro (Kabuletê, Carnaúba, Bola Branca e Chez Pierre), os clubes elegantes (Náutico, Diários, Iate, Comercial) e os de bairros (Clube de Regatas, General Sampaio, Vila União, Romeu Martins.)



Era alegre, pacata e acolhedora a Fortaleza dos anos 70. Uma cidade em expansão, com enorme potencial turístico e empresarial, dada sua vocação para essas atividades. Hoje, Fortaleza tem cerca de 2.703.391 habitantes (estimativa IBGE 2021), é a 5ª maior capital em população, e um ambicionado destino turístico. Bela, atrativa, insegura, superpopulosa e violenta. É a mesma cidade dos anos 1970. Mas não lembra muito. 



Fotos: Livro Viva Fortaleza, Anuário do Ceará e Guia Turístico e Informativo de Fortaleza

          

domingo, 20 de fevereiro de 2022

30 Lojas que fecharam (no Centro)

Até por volta dos anos 70/80, o centro era frequentado por todas as classes sociais, onde se concentrava, praticamente todo, o comércio da cidade. Mas, a partir dos anos 1980, começaram a surgir os planos econômicos, lançados de tempos em tempos, à medida que se constatava o fracasso do anterior.

Plano Cruzado, Cruzado NovoPlano Verão, Plano Bresser, congelamento de preços, e for fim, a pá de cal, com o furadíssimo Plano Collor 

Muitas dessas empresas, que já enfrentavam dificuldades financeiras, sucumbiram diante do caos econômico.









quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

Incêndios em Fortaleza Nos Tempos Antigos

 

Na Fortaleza de antigamente, até por volta do início dos anos 30, os incêndios na capital eram combatidos à base dos baldes de água, dependendo também de haver água disponível.  Sem maiores recursos a serem empregados na atividade, geralmente os incêndios se extinguiam por si mesmos, depois de queimar tudo o que tinha para queimar, com perda total dos bens. 


 

Em razão da inexistência de equipamentos de combate ao fogo, diversos estabelecimentos desapareceram, consumidos pelas chamas. Os incêndios ocorriam com maior frequência no centro da cidade, onde se concentrava o maior número de estabelecimentos comerciais. Há registros de vários incêndios naquela região.  


No dia 13 de junho de 1885, um incêndio destruiu a Casa Conrado Cabral, loja que comercializava máquinas, ferragens e acessórios, de propriedade de Raul Conrado Cabral, situada na Rua Major Facundo; 

em 31 de agosto de 1886, um incêndio consumiu a casa de negócios de José Pinto Coelho, na esquina das Ruas Major Facundo e Liberato Barroso

Já em 1902 um grande incêndio acabou com o sobrado do coronel José Eustáquio Vieira, na esquina da Rua Barão do Rio Branco com Rua Senador Alencar. O que restou foi demolido em 1907. Hoje nesse endereço está o Palacete Guarani, construído em 1908, por Geminiano Maia, o Barão de Camocim.



À medida que a cidade se expandia, e aumentava o número de comércios e serviços, o alcance e os prejuízos causados pelo fogo sem controle, aumentavam também. Assim, no 20 de junho de 1907, um incêndio consumiu a mercearia de José Carvalho, na esquina das ruas Barão do Rio Branco com Liberato Barroso;


Em 24 de janeiro de 1924, um incêndio de grandes proporções, destruiu o prédio do Ceará Sporting Club, a mercearia de Rios e Companhia, a Sapataria Catete e a Alfaiataria Cyrino, todos localizados na Rua Senador Pompeu.


13 de março de 1925 foi a vez da Fábrica de Redes Iracema, essa situada fora do centro comercial, na Avenida da Universidade, de propriedade de Casimiro de Melo e Benjamin Nogueira. Duas pessoas perderam a vida nesse sinistro.


17 de julho de 1925 a Farmácia Fênix, localizada na Rua Floriano Peixoto, foi destruída por um incêndio;


O mesmo ocorreu no 5 de fevereiro de 1926, na mercearia Cabo Velho, de Frutuoso Afonso de Lima, na Avenida Visconde do Rio Branco, esquina com a Pedro I. 

  

A 24 de agosto de 1926 o fogo destruiu um armazém de algodão, de propriedade de Isaac Telles de Menezes, localizado na Rua Floriano Peixoto.


No dia 17 de novembro de 1927, incendiou-se a Farmácia Globo, na Rua Major Facundo, esquina com a Rua São Paulo.


Em 20 de fevereiro de 1928, o fogo atingiu três estabelecimentos comerciais, localizados na Rua Floriano Peixoto, trecho Praça do Ferreira: as lojas A Capital, de Braga e Irmão; Estiva e Miudezas, de j. Leopoldino da Silva; e Germânia, de José Cabral Ribeiro.


A 13 de outubro de 1929, o prejudicado foi o coronel Plácido de Carvalho, que viu o prédio de sua propriedade, situado na Praça Capistrano de Abreu, onde funcionava a empresa Torrefação Iracema, ser totalmente queimado.


Outro incêndio de grandes proporções, que causou prejuízos incalculáveis, foi o que ocorreu numa madrugada de setembro de 1929, e teve início no Hotel Avenida, prédio de três andares localizado na esquina das ruas Barão do Rio Branco com Guilherme Rocha. O fogo irrompeu a partir do térreo, e rapidamente tomou conta de todo o prédio.


Era por volta de 1 hora da madrugada, todos dormiam e o proprietário, um certo “Seu” Abílio, saiu batendo de porta em porta, acordando os hóspedes, alertando-os para que abandonassem o local rapidamente. Além do Hotel Avenida, o incêndio consumiu o Café Poty, que ficava bem ao lado, a Casa Primor, A Fascinadora, a Alfaiataria Job, e a Relojoaria Cancão, deixando ainda grandes prejuízos na Casa Zenith e na Samaritana. Não houve vítimas por conta da pronta intervenção do proprietário, mas os hóspedes perderam tudo, até as roupas. Hoje no local está a loja Esmeralda.


Hotel Avenida, antes e depois


Incêndios devastadores, como o do Hotel Avenida, convenceram de vez as autoridades da necessidade da criação de uma corporação pública, destinada ao combate de incêndios na cidade. Assim, atendendo a reivindicações de comerciantes e de autoridades, o governador José Moreira da Rocha determinou a criação do pelotão de Bombeiros de Fortaleza, em 8 de gosto de 1925, subordinado ao Regimento Policial do Ceará. Desaparelhado e sem autonomia, o pelotão de bombeiros tinha uma atuação discreta e ineficiente.


No dia 28 de dezembro de 1931, um grande incêndio consumiu a Casa Maranguape, de Agapito Sales e a Casa Simpatia, de Elias Áfora, ambas localizadas na Rua Major Facundo, Praça do Ferreira.


A 3 de janeiro de 1932, outro incêndio que atingiu a loja Para Todos de Vicente Alves Monteiro e o Foto Sales, de Tertuliano Sales, na Praça do Ferreira.


Em 20 de janeiro de 1933, também em estabelecimentos localizados na Praça do Ferreira um incêndio consumiu o Café Art-Nouveau, e o Restaurante Chic, e causou danos a Casa Mário Campos, A Gávea, a Casa Parente, a Sorveteria Nice e ao restaurante A Gruta. 

   

quartel do Corpo de Bombeiros

Em 1º de janeiro de 1934, a corporação começou a funcionar de fato, sob o nome de Corpo de Bombeiros de Segurança Pública do Estado. Tendo como comandante o primeiro-tenente Francisco das Chagas Nogueira Caminha e com um efetivo de 30 homens, advindos do Corpo de Segurança Pública (hoje Polícia Militar do Ceará) e da extinta Guarda Civil. O prédio que viria a abrigar o quartel do Pelotão de Bombeiros foi inaugurado no dia 7 de setembro de 1934, na então Praça Fernandes Vieira, atual Praça Gustavo Barroso, no bairro Jacarecanga.   

  

Café Java


Quando havia qualquer incêndio na cidade, Mané Coco, o folclórico proprietário do Café Java, localizado na Praça do Ferreira, era chamado, com urgência, para apagar os incêndios, e aparecia sempre sozinho, munido unicamente de dois baldes de madeira e uma machadinha. Desse modo, Mané Coco, comerciante, admirador das letras e das artes, acumulava também as funções de bombeiro.


Fontes:

Cronologia Ilustrada de Fortaleza: roteiro para um turismo histórico e cultural/ Miguel Ângelo de Azevedo(Nirez)-Fortaleza, Banco do Nordeste, 2001

Um Certo Contato com a Lua, depoimento de Antônio Girão Barroso em Roteiro Sentimental de Fortaleza, Coordenação de Simone de Souza e Sebastião Rogério Ponte. Fortaleza: UFC-NUDOC/SECULT-CE, 1996.

Coisas que o Tempo Levou: crônicas históricas da Fortaleza antiga/Raimundo de Menezes: introdução, Sebastião Rogério Ponte – Fortaleza: Edições Demócrito Rocha, 2000.  

https://www.bombeiros.ce.gov.br/institucional/

fotos do Arquivo Nirez, Pinterest e postais antigos

     

quinta-feira, 28 de março de 2019

De Modistas e Alfaiates à Indústria de Confecções


Até a metade da década de 1950 não existiam em Fortaleza as indústrias de confecções que oferecem roupas prontas, que preenchem as exigências de um público diversificado no gosto e no orçamento. A demanda por figurinos que atendessem a um determinado padrão no modo de vestir, surgiu ainda no século XIX, quando a cidade vivia as delicias da Belle Époque

Moda feminina nos anos 20 onde prevalecia tecidos arejados como seda, cetim,
 charmeuse e o crepe da china. Foto de 1926 
(imagem do livro Fortaleza Belle Époque)
   
Na remota década de 1860, já havia anúncios de artigos vestuários publicados na imprensa, oferecendo variado sortimento de finos tecidos (sedas, merinos, veludos, caxemiras e cretones) chapéus, luvas, gravatas, sapatos e figurinos tanto para adultos e crianças. 


Atenção – para o baile do Clube chegaram para o Bazar Cearense as verdadeiras luvas de pelica, de Juven, para homem e senhora. Rua da Palma, n° 93. 
(anúncio publicado no jornal Pedro II – 1868) 

Predominava então, e por muitos anos depois, o comércio de tecidos, onde as pessoas adquiriam o necessário para confecção das vestimentas, trabalho que era realizado pelas inúmeras costureiras ou alfaiates espalhados pela cidade. Os anos 1920 considerados por muitos historiadores como “turbulentos e anos loucos” marcaram uma época de efervescência cultural, movimentos feministas e também de uma moda importada da Europa, que vai ditar ousadas formas de vestir e consumir produtos de beleza no Brasil e no mundo, tendo as mulheres como alvo principal. 



A disponibilidade de materiais e tecidos fomentou a procura por modistas e alfaiates, pois apesar de inicialmente, visar apenas as mulheres, os homens também andavam elegantemente trajados. Assim, a elite de Fortaleza se viu disposta a consumir as novidades, frequentar espaços modernos com a intenção de se distinguir do resto da população por seu poder aquisitivo; assim, homens e mulheres aderiam à moda vinda de Paris como uma regra da modernidade. 




Os profissionais da costura eram muito procurados especialmente quando o assunto eram vestuários de festas e casamentos. Entre as modistas, o grande destaque ficou por conta de Dona Edmea Mendes, considerada a “dama da moda cearense”, uma das primeiras a usar o artesanato na alta-costura. Vestiu três gerações de mulheres e sua especialidade eram os vestidos de noivas. Com muito talento, conseguiu se destacar a partir da década de 40 do século passado, quando a indústria de confecções ainda não existia em Fortaleza e engatinhava no Brasil. Além das habituais linhas e agulhas, Edméa investia em sua loja. A “maison” inspirava-se no requinte das casas parisienses da época, com salas para provas e boutique para a venda do prêt-à-porter

um dos alfaiates mais antigos de Fortaleza, com 77 anos no ofício, o Sr. Osmundo Sousa mantinha sua alfaiataria no Edifício Lobrás, no Centro, até 2015, quando faleceu 
  
Os alfaiates se estabeleceram em sua maioria no centro da cidade, e eram especialistas em roupas masculinas sob medida, de forma artesanal. As peças eram exclusivas, modelo, medidas, tipo e cor do tecido eram escolhas do cliente, totalmente personalizadas. Nos tempos modernos, apesar da infinidade de opções de trajes prontos, para entrega imediata, muitos alfaiates ainda são encontrados em Fortaleza, com uma clientela fiel e seleta, já que não custa pouco, a confecção de uma peça exclusiva.

As coisas começaram a mudar a partir de 1934, quando Rubens Lima Barros fundou a Loja "A Cruzeiro", na Rua Guilherme Rocha (mais tarde mudou-se para a Rua Barão do Rio Branco, no chamado "quarteirão sucesso da cidade"),  que inaugurou a era das camisarias. Vendia camisas pré-acabadas, fazia uma peça em uma hora. Havia uma propaganda que mandava o cliente ir tomar um café no Abrigo Central, que quando voltasse, a camisa estaria pronta. Depois da A Cruzeiro surgiram outras camisarias que começaram a trabalhar com a roupa completa, o terno pré-acabado. A Cruzeiro criou a “Confecções Dahra”, que depois virou Romac. Em 1957, a Romac foi vendida para Agenor Costa. 


A Romac S/A Confecções foi oficialmente a primeira indústria de confecções da cidade, comercializando roupas prontas, para o público masculino. Vendida mais tarde para Vicente Paiva, adotou o slogan “Romac veste melhor”, chegou ao mercado internacional, exportando suas criações para vários países.


propaganda da Romac - 1975

Depois da Romac surgiram várias indústrias de confecções, a exemplo da  Saronord, que iniciou as atividades no ano de 1964, produzindo calças e camisas masculinas em grande escala, separadas por tamanho, pequeno, médio e grande. A primeira indústria dedicada ao público feminino, foi a Del Rio, criada em 1963, com uma linha de lingeries e peças intimas.

propaganda da Saronord - 1970

E a indústria da moda nunca mais parou de crescer. As peças que são produzidas no Ceará nos dias atuais, levam a um passeio por fios e máquinas que movimentam uma indústria potente para o País. O bojo de biquínis e sutiãs, os fios de vestidos, blusas e bermudas e o popular jeans produzidos no Estado, elevam o Ceará ao topo do ranking da América Latina nesses segmentos. Considerando toda indústria têxtil brasileira, o Estado está em quinto lugar. Com 2,9 mil empresas formais, o Estado atualmente é o responsável por 6,8% da concentração das indústrias têxtil e de confecção do Brasil. 

consultados:
Diário do Nordeste
O Povo
Anuário do Ceará
Memória do Comércio Cearense – de Cláudia Leitão 
Fortaleza Belle Epoque reformas urbanas e controle social 1860-1930, 
de Sebastião Rogério Ponte
fotos Internet




terça-feira, 25 de julho de 2017

Lojas Antigas - Quando a Cidade Cabia no Centro - parte 2

Todas as grandes lojas ficavam no Centro, eram raros os endereços na Aldeota ou nos bairros; as lojas tinham uma oferta de produtos muito diversificada, onde uma mesma loja vendia desde confecções até televisores e peças de carros. O advento dos shoppings centers praticamente impôs  a especialização nos artigos ofertados por cada unidade comercial. Boa parte dos estabelecimentos comerciais citados neste post e no anterior, de mesmo título, foram à falência durante os anos 80 e 90, vítimas dos mirabolantes planos econômicos implantados com pompa e circunstância no decorrer desse período, os quais, vias de regra, resultaram em retumbantes fracassos. Alguns desses estabelecimentos ainda estão em funcionamento e constituem um restrito grupo que compõem as casas comerciais mais antigas de Fortaleza.   
 

Inaugurada em Fortaleza ainda na década de 50, a Ocapana comercializava moda jovem, feminina e masculina. Em 1979 inovou no mercado ao lançar o cartão de compras, criando planos especiais de créditos, desenvolvendo uma agressiva política de direct-mail, destacando-se como a empresa cearense mais criativa daquele ano. 
A Ocapana também inovou na cobrança aos inadimplentes:
Um recurso criado pela agência Publicinorte virou moda e fez escola na propaganda em Fortaleza. Foi a criação do anjinho que cobrava os clientes inadimplentes. Em lugar das cartinhas ameaçadoras, que eram enviadas, às vezes, por engano, até aos bons pagadores, a Ocapana passou a enviar cartas bastante amáveis que em nenhum momento ameaçava ou constrangia o cliente.  

No   primeiro aviso o “anjinho Ocapana” muito feliz, lembrava o dia do vencimento;  No segundo, já com o pagamento atrasado, o anjinho  demonstrava preocupação, mas prometia segurar o pessoal da cobrança para que o nome do cliente não fosse inscrito no SPC. Solicitava porém, que o devedor providenciasse  o pagamento, pois estava com dificuldades de cumprir a promessa. Na terceira carta, o "Anjinho" aparecia triste dizendo que tinha feito tudo para segurar o pessoal da cobrança, mas como o cliente não havia efetuado o pagamento o SPC iria ser informado do débito. Mas, se ele pagasse imediatamente, o "Anjinho" prometia segurar o pessoal mais um pouquinho.Essa ideia fez um grande sucesso, muita gente elogiava a maneira de cobrar da Ocapana e o departamento de cobrança passou a ter menos trabalho.Com a loja matriz localizada na Rua Barão do Rio Banco, contava com filiais no centro, na Aldeota, e nas cidades de São Luís, Teresina, Salvador e Teresina. 

Fundada em 1926 por iniciativa de Meton de Alencar Gadelha Quinderé, estava localizada inicialmente na Rua Major Facundo, 430. Estabelecimento tradicional no ramo de papelaria, material didático e artigos de escritório, ampliou sua área de atuação ao mudar-se alguns anos mais tarde para sua sede própria na Rua Floriano Peixoto, 523, de frente para a Praça do Ferreira.

King Joia


 Com sede em Fortaleza, A King Joia atuava no ramo de joias, relógios e óculos, com seis lojas em nossa capital e 8 filiais espalhadas em várias cidades do Norte-Nordeste. Fundada em dezembro de 1968, pelo empresário José Alzemir França, a King Joia tinha seu escritório central à Rua Barão do Rio Branco, 1071.


Com sede e escritório central localizado na Avenida Almirante Barroso, 500, na Praia de Iracema, a Casas Pernambucanas, empresa do Grupo Lundgren Tecidos, era um dos gigantes do varejo: 130 lojas sendo 25 magazines, espalhadas por todo o Norte e Nordeste, 5100 empregados só no Estado do Ceará, operando com ramo misto: tecidos, confecções, cama e mesa, utensílios, móveis, brinquedos, eletrodomésticos e utilidades do lar, tapetes e artigos para decoração.

Milano Roupas

 imagem: Diário do Nordeste

Com sua filial Di Roma, eram lojas especialistas em moda masculina. A Milano foi fundada por Oscar Roque Bezerra, Anselmo Roque Bezerra, Expedito Leite e Venício Prata, em 31 de agosto de 1965, ficava na Rua Major Facundo, com frente para a Praça do Ferreira. A loja encerrou as atividades há cerca de 2 anos.

Carvalho Borges 

Fundada em 1951, por Paulo Roberto Carvalho, vendia eletrodomésticos, móveis, máquinas para escritório, brinquedos, artigos para decoração, discos, artigos para carros e muito mais. Tinha várias filiais espalhadas pelo Centro e matriz na Rua Pedro Pereira, 460.

De propriedade do comerciante português José Rodrigues Bicho, a loja vendia produtos masculinos e era especialista em chapéus, tinha até um slogan: “Casa Bicho, o rei dos chapéus Cury e Ramenzoni”. Os chapéus masculinos eram largamente usados em Fortaleza até por volta dos anos 60. Fundada em 1954, tinha endereço na Rua Major Facundo, 377. 

BD Sports


A organização Eládio Bedê foi criada em 10 de setembro de 1959, instalando-se no número 814 da Rua Major Facundo, voltada para a venda de artigos esportivos, confecções, instrumentos musicais e brinquedos. O Grupo empresarial que tinha sua matriz na Rua Pedro Pereira, 464, contava com 5 filiais, espalhadas pelo Centro, Aldeota e Bairro de Fátima. A empresa ainda se encontra em pleno funcionamento.

Relojoaria Cruz de Ouro

Propriedade de Petrônio de Aguiar Andrade, a Cruz de Ouro foi fundada em 10 de agosto de 1939, atuando no ramo de joias, óculos e relógios. Tinha nove lojas em Fortaleza, todas no centro e mais um Centro Óptico, que supervisionava a confecção das lentes.Ainda em atividade.

Lojão Anfisa



Empresa do grupo Ângelo Figueiredo, o lojão Anfisa foi fundado no dia 7 de julho de 1961, com endereço à Rua General Sampaio, 791, e se transformou num dos maiores e mais diversificados empórios de Fortaleza, comercializando materiais de construção, eletrodomésticos, móveis residenciais e de escritório, motores e bombas hidráulicas, bicicletas e acessórios, e mais de 30 mil outros artigos.  

Rouvanni

A loja Rouvanni Roupas, de moda masculina, estava instalada no local da antiga Broadway, esquina da Rua Major Facundo com a Guilherme Rocha, na Praça do Ferreira. Na década de 1950, a loja promoveu um dos maiores escândalos em Fortaleza: expôs em uma de suas vitrines uma camisa vermelha, o que causou ajuntamento de pessoas que entre incrédulas e horrorizadas, paravam para ver a peça. Era uma camisa de modelo convencional em tecido de algodão, a polêmica toda era devido a cor vermelha. Homem usando camisa vermelha, em Fortaleza, nos anos  50? Nem pensar. 

Lojas Brasileiras – Lobrás



A Lobrás era uma das chamadas lojas de departamentos e tinha filiais em vários Estados brasileiros. A filial de Fortaleza foi inaugurada em novembro de 1941, na Rua major Facundo, vizinha ao Edifício Majestic. Era chamada de 4.400 e incendiou-se em 1955, no mesmo sinistro que atingiu o Cine Majestic. Em 1957 foi inaugurada a 2ª. Lobrás, na Rua Major Facundo com a Travessa Pará, em frente ao Abrigo Central. Nesta loja, foi instalada a primeira escada rolante de Fortaleza. Encantados com a novidade, o povo formava fila, esperando a vez de utilizar a escada.

Casa Parente



A Casa Parente é uma das lojas mais antigas de Fortaleza ainda em funcionamento. Foi inaugurada no dia 10 de junho de 1914, por Inácio Parente, instalada no velho sobrado do Comendador Machado, no local onde hoje se encontra o edifício do Excelsior Hotel. Em 1936 mudou-se para o Edifício Parente, construído pelo arquiteto Sylvio Jaguaribe Ekman. Em sua nova sede a Casa Parente funcionava em 5 andares e comercializava confecções, perfumes, cama e mesa, e mais uma infinidade de produtos.

Parte 1
http://www.fortalezaemfotos.com.br/2015/12/as-lojas-antigas-quando-cidade-cabia-no.html

pesquisa:
Marciano Lopes - Os Dourados Anos
Gilmar de Carvalho - O Gerente Endoidou - ensaios sobre publicidade e propaganda 
fotos Anuário do Ceará e Arquivo Nirez