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sábado, 17 de junho de 2023

A Fortaleza dos anos 70

 



O início da década já assinalava o grande crescimento populacional que a cidade registrava em comparação com o censo de 1950 realizado pelo IBGE naquele ano:  270 mil habitantes. Em 1970 passou para 857 mil residentes em 147.640 domicílios. O rápido crescimento populacional, acelerou a ocupação de áreas da cidade, que aconteceu de forma desordenada e sem planejamento, evidenciou a questão da diferenciação de classes, e a ocupação de regiões periféricas e de preservação, como morros e dunas, sem que esses espaços contassem com nenhum tipo de infraestrutura. Apesar de tudo, Fortaleza ainda era uma cidade tranquila e sem maiores problemas ligados à criminalidade, violência urbana ou à segurança pública.





O centro era onde pulsava o coração da cidade, lojas chiques e populares, bancos, escritórios, órgãos públicos e governamentais, lanchonetes e cinemas, todos os negócios, todos os serviços, tudo era lá. O espaço era frequentado por todas as classes sociais, eram raros os endereços na Aldeota ou nos bairros; até por volta dos anos 60, os estabelecimentos comerciais tinham uma oferta de produtos muito diversificada, onde uma mesma loja vendia desde confecções até televisores e peças de carros; então surgiram as grandes lojas de departamentos, que passaram a nortear o comércio varejista.

  

O movimento no Centro era justificado também pelo funcionamento de vários órgãos públicos, como o Paço Municipal (sede da Prefeitura), o Palácio da Luz (sede do governo do Estado), o Palácio Senador Alencar (sede da Assembleia Legislativa), o Fórum Clóvis Beviláqua, a Alfândega, várias secretarias municipais e estaduais, além dos cartórios, os cursinhos pré-vestibulares e o Mercado Central, com seus artesanatos, rendas e bordados, que atraíam o público visitante.     

As mulheres chiques compravam na Flama e na Casa Parente; os jovens na Ocapana, na Abarama e Jeans Store; os homens usavam cuecas samba-canção e frequentavam a Cruzeiro, a Milano, e a Casa Bicho. E prestigiados por todos os públicos, havia o Romcy a Mesbla, a Lobrás, a Pernambucanas, a Loja de Variedades, a Carvalho Borges, a Lojas Damasceno, as muitas sapatarias e as primeiras farmácias da cidade. As noivas, as misses e as debutantes tiravam retratos na Aba Film, e as melhores fotos eram ampliadas e colocadas na vitrine da loja. Faziam o maior sucesso. 


  

Havia os cinemas de bairros, mas os mais frequentados eram os do Centro, São Luiz, Diogo, e Fortaleza, que lotavam a praça de meninos e adolescentes nos dias que exibiam filmes dos Trapalhões, enquanto os adultos se escandalizavam com as cenas do “Último Tango em Paris” com a violência desenfreada de “O Poderoso Chefão” ou se deleitavam com o musical “Cabaret”. Depois iam todos merendar na lanchonete da Lobrás.

O centro ainda eram o endereço de grandes hotéis como o Lorde Hotel, que teve seu auge nas décadas de 60 e 70; o Premier, e o Hotel Savanah, o último hotel de grande porte a ser inaugurado no centro, instalado no Edifício Jereissati.  Na Beira-Mar, então denominada Avenida Presidente Kenedy, ficavam o Hotel Beira-Mar, o San Pedro Hotel, e o Hotel Esplanada Inaugurado em 1978, o primeiro hotel 5 estrelas de Fortaleza.



A Beira-Mar, já despontava como zona de lazer e o local mais procurado para a instalação de negócios ligados ao turismo e ao entretenimento, e já tinha início o processo de especulação imobiliária, com a expulsão dos moradores tradicionais para construção da avenida e logo depois, dos primeiros edifícios da orla.  Por lá ficavam os restaurantes Sandra’s, La Perla, Tocantis e Trastevere. As noites já eram animadas, nas festas das boates Barbarela, Fortim e Senzala (que ficava pros lados do aeroporto). Havia as barracas da Praia do Futuro (Kabuletê, Carnaúba, Bola Branca e Chez Pierre), os clubes elegantes (Náutico, Diários, Iate, Comercial) e os de bairros (Clube de Regatas, General Sampaio, Vila União, Romeu Martins.)



Era alegre, pacata e acolhedora a Fortaleza dos anos 70. Uma cidade em expansão, com enorme potencial turístico e empresarial, dada sua vocação para essas atividades. Hoje, Fortaleza tem cerca de 2.703.391 habitantes (estimativa IBGE 2021), é a 5ª maior capital em população, e um ambicionado destino turístico. Bela, atrativa, insegura, superpopulosa e violenta. É a mesma cidade dos anos 1970. Mas não lembra muito. 



Fotos: Livro Viva Fortaleza, Anuário do Ceará e Guia Turístico e Informativo de Fortaleza

          

domingo, 14 de outubro de 2012

As Elegantes Lojas do Centro

Lá pelos anos 40/50,  a loja mais importante de Fortaleza era a Casa Sloper, que integrava uma famosa rede nacional que tinha matriz no Rio de Janeiro. Era estabelecimento especializado  em alta moda: vestidos para todas ocasiões, lingerie, calçados, meias, luvas e chapéus, bijuterias, perfumaria e cosmética etc.  
A Casa Sloper era tão sofisticada que causava inibição a muita gente, salvo às senhoras muito elegantes, já habituadas à frequência a estabelecimentos comerciais de alto luxo, inclusive, às matrizes, na então Capital Federal, o Rio de Janeiro, onde o melhor acontecia.

Casa Sloper entre o edificio Granito e o Edificio São Luís, ainda em construção. No térreo do Ed. Granito funcionava a Broadway, loja de tecidos finos. Foto do arquivo Nirez)

Quando aconteceu o fechamento da Casa Sloper, o já sofisticado endereço não foi posto de lado, ao contrário, um comerciante de reconhecido bom gosto assumiu o local. Era Romeu Aldigheri, paulista de origem italiana que já era dono dos maiores magazines locais, as Lojas de Variedades, duas unidades, em pontos especiais, no Centro da cidade. 

A mesma esquina algum tempo depois, já com a loja Flama, no lugar da Sloper (arquivo Nirez)

Pois, no mesmo local da extinta Casa Sloper foi aberta uma loja do mesmo nível, a Flama, que marcou presença enquanto ficou em cena. A exemplo de sua antecessora ocupava local em plena Praça do Ferreira, entre a elegante Broadway, loja de tecidos finos e o futuro Cine São Luiz, ainda em obras para ser o mais luxuoso cinema do Brasil. Pois é, a Flama foi instalada naquele "point" tão aristocrático que marcou época no nosso mundo de elegância.

A Flama mudou comportamentos, impôs parâmetros e fez história na cidade, apoiada no slogan "Simbolo de Distinção" (foto do blog do Laprovitera)

Outro estabelecimento da maior importância que assinalou sua permanência em Fortaleza, foi A Cearense, loja especializada em tecidos finos, ocupando instalações amplas e luxuosas, no meio do quarteirão Sucesso, na Rua Barão do Rio Branco, entre as ruas Guilherme Rocha e Liberato Barroso. Seu proprietário, Aprígio Coelho de Araújo era reconhecido por seu notório bom gosto, haja vista a maneira como mantinha seu estabelecimento comercial. A loja era composta por vastos salões e as artísticas vitrines que eram uma grande marca da  casa.  
O alto nível e visível bom gosto de Aprígio Coelho era motivo para comentários generalizados. Daí, cada vez ele ampliava e melhorava sua big loja.

A Cearense investiu bastante na decoração da loja e era um dos espaços mais requintados de Fortaleza na década de 40. Tinha como slogan “a casa que cresce diminuindo os preços”


 A Casa Parente Foi inaugurada em 10 de junho de 1914 por Inácio Parente, no velho sobrado do Comendador Machado, onde hoje se localiza o edifício Excelsior. Em 1923 mudou-se para a Rua Barão do Rio Branco esquina com Guilherme Rocha.(Arquivo Nirez)

Na esquina da mesma Rua Barão do Rio Branco com a Rua Guilherme Rocha, ficava a Casa Parente, loja de moderníssimas instalações que atendia tanto no setor de roupas feitas quanto no ramo da perfumaria e congêneres. Sem qualquer exagero, um mundo delicioso dos mais deliciosos aromas. Casa Parente, do também saudoso, Inacinho Parente.


texto reproduzido da coluna Tirada do Baú, de Marciano Lopes