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quinta-feira, 19 de março de 2015

As Antigas Sapatarias

Na segunda metade dos anos 40, apesar da 2ª. guerra recém terminada, com escassez de muitos produtos devido às dificuldades das importações, não era difícil comprar sapatos em Fortaleza. É verdade que as lojas não eram muitas, mas a cidade era pequena e todo o centro comercial estava restrito ao quadrilátero que compreendia o trecho entre as ruas Senador Pompeu, Sena Madureira e as travessas Pedro Pereira e Castro e Silva. Um pequeno quadrado, assim mesmo, ainda pontilhado de residências.

No caso específico do comércio de lojas finas, onde se situavam as sapatarias, o espaço era ainda mais apertado, precisamente uma quadra, entre as ruas Barão do Rio Branco e Major Facundo e as travessas Guilherme Rocha e Liberato Barroso, salvo algumas poucas exceções.

A Notável, a sapataria mais bonita da cidade funcionava no térreo do Excelsior Hotel, na Praça do Ferreira 

A sapataria mais bonita da cidade era, sem dúvida, a A Notável, localizada no térreo do Excelsior Hotel, na Rua Guilherme Rocha, onde funcionaria anos mais tarde a casa de lanches Cearazinho. A Notável era notável porque tinha três vitrines, inclusive uma central, de forma cilíndrica e giratória. Movida a eletricidade, chamava a atenção de quem passava. Vizinha à A Notável estava a Casa Rio, esta dentro dos padrões tradicionais. Funcionou até os anos 70.

Defronte à Casa Rio, no térreo do Edifício Parente, estava a Casa Pio, do comerciante Pio Rodrigues. Era uma loja padronizada às congêneres, com a simetria tão comum à época: duas vitrines laterais e a circulação centralizada. Muitos espelhos, a luz dirigida por holofotes, geralmente embutidos no teto das vitrines. Anos depois, já na década de 50, mudou-se para o chamado Quarteirão Sucesso, na Rua Barão do Rio Branco, com instalações modernas, e grandes lançamentos em calçados, direto do Rio de Janeiro. 

A Casa Pio foi uma das pioneiras e sobrevive até os tempos atuais

A Esquisita começou inovando no próprio nome que não deixava de ser uma extravagância para aqueles tempos. Além disso, dispensava padronizações casa ou sapataria, era apenas Esquisita. Ficava na Rua Major Facundo, entre a Padaria Estrela e o Café Sport. Continua no mesmo local, porém ampliada, pois com a extinção do café, ela ganhou aquele espaço, abrindo até a esquina.

Praça do Ferreira - à esquerda, na Rua Major Facundo, a sapataria Esquisita 

A Casa Clark integrava uma rede nacional e notabilizou-se pela qualidade superior dos seus calçados, todos de grife própria. Ficava na Praça do Ferreira, à direita da garapeira Leão do Sul. Era uma loja pequenina, como eram a maioria das casas comerciais de Fortaleza. Mais tarde mudou-se para a Rua Barão do Rio Branco, no antigo Quarteirão Sucesso.

Sapataria Clark, famosa pela qualidade dos calçados que fabricava

A Sapataria Granito ficava no térreo do edifício do mesmo nome, na Rua Guilherme Rocha, vizinho à loja A Gávea, de Júlio Coelho de Araújo. Era exclusivamente masculina, com sapatos de alta classe e grifes famosas, predominando os artigos em cromo alemão.

A Sapataria Primavera localizava-se na Rua Liberato Barroso. No início era uma loja que ocupava o espaço normal, porém foi crescendo e adquirindo os pontos vizinhos até formar um total de quatro frentes e mais uma galeria que ligava à Rua Major Facundo. Funcionou até os primeiros anos da década de 80.

Na Rua Barão do Rio Branco, vizinho à Aba Film tinha a Sapataria Belmont, loja simples, sem vitrines, que apresentava uma linha popular de calçados. Fechou há vários anos para dar lugar ao Edifício Jalcy.

Também na Rua Barão do Rio Branco, próxima ao Cine Majestic, no lado do sol, estava a Casa Ponte, loja de calçados populares. Fechou no final da década de 60. Na Rua Liberato Barroso, entre as ruas Barão do Rio Branco e Major Facundo, ficava a Casa Jayra. No mesmo quarteirão ficava o Pé Chinês, que fechou nos anos 70.

Como naquele tempo as lojas eram muito exclusivas, sapato só era vendido em sapataria, a única exceção era a Casa Sloper, que sendo uma luxuosa casa de modas, apresentava sofisticada linha de sapatos femininos, sem dúvida, de origem francesa. 

A Casa Sloper, na Rua Major Facundo era uma das poucas lojas de moda que comercializava sapatos na segunda metade dos anos 40 

Sapataria Belém, que já existia em 1945, ficava desfocada de suas congêneres, exatamente em frente ao prédio dos Correios na Rua Floriano Peixoto, vizinha a Casa Blanca. Era uma loja simples, sem vitrines e apresentava uma linha de calçados dirigidos às pessoas de menor poder aquisitivo.

No mesmo nível da Belém, havia a Casa Costa Freire, na Rua Major Facundo, quase vizinho ao Edifício Jangada. Sem vitrines e sem qualquer atrativo, os sapatos eram expostos sobre as pilhas de caixas no salão.

Também fora do alinhamento das sapatarias mais dinâmicas a Casa Santa Teresinha ficava na Rua Guilherme Rocha, entre Senador Pompeu e General Sampaio, vizinho ao atelier Iris. Era uma loja pequena e estreita, com aparência de coisa antiga.

Era assim o comércio de calçados em Fortaleza nos idos de 1945. Pouco mais de uma dúzia de sapatarias, todas de pequeno porte, calçavam os pés da população de nossa pequena Capital de apenas duzentas mil pessoas. 


Extraído do livro de Marciano Lopes
Royal Briar, a Fortaleza dos anos 40
fotos do Arquivo Nirez 

domingo, 14 de outubro de 2012

As Elegantes Lojas do Centro

Lá pelos anos 40/50,  a loja mais importante de Fortaleza era a Casa Sloper, que integrava uma famosa rede nacional que tinha matriz no Rio de Janeiro. Era estabelecimento especializado  em alta moda: vestidos para todas ocasiões, lingerie, calçados, meias, luvas e chapéus, bijuterias, perfumaria e cosmética etc.  
A Casa Sloper era tão sofisticada que causava inibição a muita gente, salvo às senhoras muito elegantes, já habituadas à frequência a estabelecimentos comerciais de alto luxo, inclusive, às matrizes, na então Capital Federal, o Rio de Janeiro, onde o melhor acontecia.

Casa Sloper entre o edificio Granito e o Edificio São Luís, ainda em construção. No térreo do Ed. Granito funcionava a Broadway, loja de tecidos finos. Foto do arquivo Nirez)

Quando aconteceu o fechamento da Casa Sloper, o já sofisticado endereço não foi posto de lado, ao contrário, um comerciante de reconhecido bom gosto assumiu o local. Era Romeu Aldigheri, paulista de origem italiana que já era dono dos maiores magazines locais, as Lojas de Variedades, duas unidades, em pontos especiais, no Centro da cidade. 

A mesma esquina algum tempo depois, já com a loja Flama, no lugar da Sloper (arquivo Nirez)

Pois, no mesmo local da extinta Casa Sloper foi aberta uma loja do mesmo nível, a Flama, que marcou presença enquanto ficou em cena. A exemplo de sua antecessora ocupava local em plena Praça do Ferreira, entre a elegante Broadway, loja de tecidos finos e o futuro Cine São Luiz, ainda em obras para ser o mais luxuoso cinema do Brasil. Pois é, a Flama foi instalada naquele "point" tão aristocrático que marcou época no nosso mundo de elegância.

A Flama mudou comportamentos, impôs parâmetros e fez história na cidade, apoiada no slogan "Simbolo de Distinção" (foto do blog do Laprovitera)

Outro estabelecimento da maior importância que assinalou sua permanência em Fortaleza, foi A Cearense, loja especializada em tecidos finos, ocupando instalações amplas e luxuosas, no meio do quarteirão Sucesso, na Rua Barão do Rio Branco, entre as ruas Guilherme Rocha e Liberato Barroso. Seu proprietário, Aprígio Coelho de Araújo era reconhecido por seu notório bom gosto, haja vista a maneira como mantinha seu estabelecimento comercial. A loja era composta por vastos salões e as artísticas vitrines que eram uma grande marca da  casa.  
O alto nível e visível bom gosto de Aprígio Coelho era motivo para comentários generalizados. Daí, cada vez ele ampliava e melhorava sua big loja.

A Cearense investiu bastante na decoração da loja e era um dos espaços mais requintados de Fortaleza na década de 40. Tinha como slogan “a casa que cresce diminuindo os preços”


 A Casa Parente Foi inaugurada em 10 de junho de 1914 por Inácio Parente, no velho sobrado do Comendador Machado, onde hoje se localiza o edifício Excelsior. Em 1923 mudou-se para a Rua Barão do Rio Branco esquina com Guilherme Rocha.(Arquivo Nirez)

Na esquina da mesma Rua Barão do Rio Branco com a Rua Guilherme Rocha, ficava a Casa Parente, loja de moderníssimas instalações que atendia tanto no setor de roupas feitas quanto no ramo da perfumaria e congêneres. Sem qualquer exagero, um mundo delicioso dos mais deliciosos aromas. Casa Parente, do também saudoso, Inacinho Parente.


texto reproduzido da coluna Tirada do Baú, de Marciano Lopes