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terça-feira, 25 de julho de 2017

Lojas Antigas - Quando a Cidade Cabia no Centro - parte 2

Todas as grandes lojas ficavam no Centro, eram raros os endereços na Aldeota ou nos bairros; as lojas tinham uma oferta de produtos muito diversificada, onde uma mesma loja vendia desde confecções até televisores e peças de carros. O advento dos shoppings centers praticamente impôs  a especialização nos artigos ofertados por cada unidade comercial. Boa parte dos estabelecimentos comerciais citados neste post e no anterior, de mesmo título, foram à falência durante os anos 80 e 90, vítimas dos mirabolantes planos econômicos implantados com pompa e circunstância no decorrer desse período, os quais, vias de regra, resultaram em retumbantes fracassos. Alguns desses estabelecimentos ainda estão em funcionamento e constituem um restrito grupo que compõem as casas comerciais mais antigas de Fortaleza.   
 

Inaugurada em Fortaleza ainda na década de 50, a Ocapana comercializava moda jovem, feminina e masculina. Em 1979 inovou no mercado ao lançar o cartão de compras, criando planos especiais de créditos, desenvolvendo uma agressiva política de direct-mail, destacando-se como a empresa cearense mais criativa daquele ano. 
A Ocapana também inovou na cobrança aos inadimplentes:
Um recurso criado pela agência Publicinorte virou moda e fez escola na propaganda em Fortaleza. Foi a criação do anjinho que cobrava os clientes inadimplentes. Em lugar das cartinhas ameaçadoras, que eram enviadas, às vezes, por engano, até aos bons pagadores, a Ocapana passou a enviar cartas bastante amáveis que em nenhum momento ameaçava ou constrangia o cliente.  

No   primeiro aviso o “anjinho Ocapana” muito feliz, lembrava o dia do vencimento;  No segundo, já com o pagamento atrasado, o anjinho  demonstrava preocupação, mas prometia segurar o pessoal da cobrança para que o nome do cliente não fosse inscrito no SPC. Solicitava porém, que o devedor providenciasse  o pagamento, pois estava com dificuldades de cumprir a promessa. Na terceira carta, o "Anjinho" aparecia triste dizendo que tinha feito tudo para segurar o pessoal da cobrança, mas como o cliente não havia efetuado o pagamento o SPC iria ser informado do débito. Mas, se ele pagasse imediatamente, o "Anjinho" prometia segurar o pessoal mais um pouquinho.Essa ideia fez um grande sucesso, muita gente elogiava a maneira de cobrar da Ocapana e o departamento de cobrança passou a ter menos trabalho.Com a loja matriz localizada na Rua Barão do Rio Banco, contava com filiais no centro, na Aldeota, e nas cidades de São Luís, Teresina, Salvador e Teresina. 

Fundada em 1926 por iniciativa de Meton de Alencar Gadelha Quinderé, estava localizada inicialmente na Rua Major Facundo, 430. Estabelecimento tradicional no ramo de papelaria, material didático e artigos de escritório, ampliou sua área de atuação ao mudar-se alguns anos mais tarde para sua sede própria na Rua Floriano Peixoto, 523, de frente para a Praça do Ferreira.

King Joia


 Com sede em Fortaleza, A King Joia atuava no ramo de joias, relógios e óculos, com seis lojas em nossa capital e 8 filiais espalhadas em várias cidades do Norte-Nordeste. Fundada em dezembro de 1968, pelo empresário José Alzemir França, a King Joia tinha seu escritório central à Rua Barão do Rio Branco, 1071.


Com sede e escritório central localizado na Avenida Almirante Barroso, 500, na Praia de Iracema, a Casas Pernambucanas, empresa do Grupo Lundgren Tecidos, era um dos gigantes do varejo: 130 lojas sendo 25 magazines, espalhadas por todo o Norte e Nordeste, 5100 empregados só no Estado do Ceará, operando com ramo misto: tecidos, confecções, cama e mesa, utensílios, móveis, brinquedos, eletrodomésticos e utilidades do lar, tapetes e artigos para decoração.

Milano Roupas

 imagem: Diário do Nordeste

Com sua filial Di Roma, eram lojas especialistas em moda masculina. A Milano foi fundada por Oscar Roque Bezerra, Anselmo Roque Bezerra, Expedito Leite e Venício Prata, em 31 de agosto de 1965, ficava na Rua Major Facundo, com frente para a Praça do Ferreira. A loja encerrou as atividades há cerca de 2 anos.

Carvalho Borges 

Fundada em 1951, por Paulo Roberto Carvalho, vendia eletrodomésticos, móveis, máquinas para escritório, brinquedos, artigos para decoração, discos, artigos para carros e muito mais. Tinha várias filiais espalhadas pelo Centro e matriz na Rua Pedro Pereira, 460.

De propriedade do comerciante português José Rodrigues Bicho, a loja vendia produtos masculinos e era especialista em chapéus, tinha até um slogan: “Casa Bicho, o rei dos chapéus Cury e Ramenzoni”. Os chapéus masculinos eram largamente usados em Fortaleza até por volta dos anos 60. Fundada em 1954, tinha endereço na Rua Major Facundo, 377. 

BD Sports


A organização Eládio Bedê foi criada em 10 de setembro de 1959, instalando-se no número 814 da Rua Major Facundo, voltada para a venda de artigos esportivos, confecções, instrumentos musicais e brinquedos. O Grupo empresarial que tinha sua matriz na Rua Pedro Pereira, 464, contava com 5 filiais, espalhadas pelo Centro, Aldeota e Bairro de Fátima. A empresa ainda se encontra em pleno funcionamento.

Relojoaria Cruz de Ouro

Propriedade de Petrônio de Aguiar Andrade, a Cruz de Ouro foi fundada em 10 de agosto de 1939, atuando no ramo de joias, óculos e relógios. Tinha nove lojas em Fortaleza, todas no centro e mais um Centro Óptico, que supervisionava a confecção das lentes.Ainda em atividade.

Lojão Anfisa



Empresa do grupo Ângelo Figueiredo, o lojão Anfisa foi fundado no dia 7 de julho de 1961, com endereço à Rua General Sampaio, 791, e se transformou num dos maiores e mais diversificados empórios de Fortaleza, comercializando materiais de construção, eletrodomésticos, móveis residenciais e de escritório, motores e bombas hidráulicas, bicicletas e acessórios, e mais de 30 mil outros artigos.  

Rouvanni

A loja Rouvanni Roupas, de moda masculina, estava instalada no local da antiga Broadway, esquina da Rua Major Facundo com a Guilherme Rocha, na Praça do Ferreira. Na década de 1950, a loja promoveu um dos maiores escândalos em Fortaleza: expôs em uma de suas vitrines uma camisa vermelha, o que causou ajuntamento de pessoas que entre incrédulas e horrorizadas, paravam para ver a peça. Era uma camisa de modelo convencional em tecido de algodão, a polêmica toda era devido a cor vermelha. Homem usando camisa vermelha, em Fortaleza, nos anos  50? Nem pensar. 

Lojas Brasileiras – Lobrás



A Lobrás era uma das chamadas lojas de departamentos e tinha filiais em vários Estados brasileiros. A filial de Fortaleza foi inaugurada em novembro de 1941, na Rua major Facundo, vizinha ao Edifício Majestic. Era chamada de 4.400 e incendiou-se em 1955, no mesmo sinistro que atingiu o Cine Majestic. Em 1957 foi inaugurada a 2ª. Lobrás, na Rua Major Facundo com a Travessa Pará, em frente ao Abrigo Central. Nesta loja, foi instalada a primeira escada rolante de Fortaleza. Encantados com a novidade, o povo formava fila, esperando a vez de utilizar a escada.

Casa Parente



A Casa Parente é uma das lojas mais antigas de Fortaleza ainda em funcionamento. Foi inaugurada no dia 10 de junho de 1914, por Inácio Parente, instalada no velho sobrado do Comendador Machado, no local onde hoje se encontra o edifício do Excelsior Hotel. Em 1936 mudou-se para o Edifício Parente, construído pelo arquiteto Sylvio Jaguaribe Ekman. Em sua nova sede a Casa Parente funcionava em 5 andares e comercializava confecções, perfumes, cama e mesa, e mais uma infinidade de produtos.

Parte 1
http://www.fortalezaemfotos.com.br/2015/12/as-lojas-antigas-quando-cidade-cabia-no.html

pesquisa:
Marciano Lopes - Os Dourados Anos
Gilmar de Carvalho - O Gerente Endoidou - ensaios sobre publicidade e propaganda 
fotos Anuário do Ceará e Arquivo Nirez


terça-feira, 12 de julho de 2011

Os Antigos Cafés do Centro

Por volta da metade da década de 1940, quase todas as esquinas do centro comercial de Fortaleza tinham um café, sem contar com os de meio de quarteirão. Esses cafés, redutos de intelectuais e toda sorte de pessoas que frequentavam o centro, que anos mais tarde seriam substituídos pelos inexpressivos cafés expressos,  tinham um pouco do charme aristocrático do inicio do século, e um toque parisiense. 

No térreo do palácio do Comércio ficava o bem instalado Café belas Artes, preferido para o lanche depois das sessões noturnas do Cine Diogo e do Moderno (arquivo Nirez)

Os salões não eram amplos, mas como todos funcionavam nos térreos de antigos prédios, tinham pé-direito bastante elevado, o que lhes conferia certa dignidade. Todos tinham muitas portas, meia-parede azulejada com o indispensável friso de arremate em relevo, muitos espelhos, um balcão-fiteiro, mesas e cadeiras e, a um canto, a tabacaria.

As mesas tinham tampo de mármore e bases de ferro fundido, predominando o já desaparecido modelo “galho de árvore”, hoje peça rara de antiquário. As cadeiras, anatômicas e confortáveis, não raro eram austríacas, com assentos de palhinha indiana. 

No balcão-fiteiro, às vezes revestido de espelhos e revestidos de lâmpadas, ficavam expostas as especialidades da casa: bolos Luiz Felipe e Sousa Leão, grude, doces caseiros, de goiaba em calda; bananas baba-de-boi, inteiras, mergulhadas numa calda rosada, doce de leite encaroçado, fatias de queijo coalho; a bola vermelha do queijo do reino, marca Borboleta. 

Na geladeira refrescos de maracujá, cajá e murici, conforme a estação do ano. Outras sugestões para a merenda eram abacatada, bananada e Toddy, batidos na “Ostereizer”, não existia ainda liquidificador. 

Também podia ser pedido um copo de leite e é claro, o cafezinho, que ninguém chamava assim, era apenas café. Na tabacaria, as opções de marcas dos cigarros Souza Cruz: Continental, com ou sem ponteira, Hollywood e Colúmbia. Da Fábrica Araken havia o Globo, Kennel Club Princesa, Garoto e Yolanda.  E charutos de várias procedências, desde o chamado mata-rato até o sofisticado cubano. 




Sobre o balcão ficava o acendedor de cigarros, original invenção que consistia numa espécie de lamparina de flandres, tendo no lugar do pavio convencional, a ponta incandescente de uma corda de tucum, que nunca se apagava nem aumentava a chama. À medida que ia queimando, lentamente, era só puxar a ponta da corda que ficava enroscada no interior da pirâmide de lata. 

Nos cafés, que eram redutos exclusivos dos homens, discutia-se política e a ditadura Vargas, o charuto do Churchill, o talento de Shirley Temple, o suicídio de Hitler e a guerra recém-finda. 

Comentava-se sobre o barulho dos bondes da Light, reclamavam da carestia, do calor, da morosidade das obras do futuro Cine São Luiz, e falava-se sobre as “Coca-Colas”, agora sem os americanos, uns contra, outros a favor das meninas.

De todos os cafés, dois se destacavam pelo requinte e educação dos funcionários: o Café Sport, dos irmãos Emygdio e o Odeon. 

Prédio onde funcionou o Café Sport dos Irmãos Emygdio. Era o mais central e bem frequentado café da cidade, no cruzamento das ruas Major Facundo e Liberato Barroso. O imóvel ainda existe e abriga a loja de calçados A Esquisita. (acervo Marciano Lopes)

O Sport ficava na esquina das Ruas Major Facundo e Liberato Barroso, precisamente onde atualmente se encontra a Loja A Esquisita. A loja já existia, vizinha. Com a extinção do café, a sapataria foi ampliada e ganhou a esquina. 

O Odeon, na esquina das ruas Barão do Rio Branco e Senador Alencar, tinha portas de “saloon”, de vidro jateado e letreiro em vidro brilhante. 

Na Rua São Paulo estavam localizados vários estabelecimentos do gênero:  na esquina com a Barão do Rio Branco ficava o Café América, e na esquina com a Major Facundo, estava o Royal. 

No meio do quarteirão, entre a Major Facundo e Floriano Peixoto, estava o Café São Paulo. Outro café de meio de quarteirão era o Café do Comércio, na Rua Major Facundo entre a São Paulo e a Guilherme Rocha. 

Também fora da esquina era o Café Baturité, na Rua Floriano Peixoto, entre o Café Globo e a Livraria Comercial.

 O Café Globo era o mais amplo e o mais frequentado, e consequentemente, o mais famoso. Mereceu até espaço  permanente  num jornal “Dizem no café Globo”, uma charge, onde o assunto mais palpitante do dia era abordado com humor, em forme de diálogo.

O Globo era frequentado pelos políticos e pelos intelectuais. Em suas muitas portas podiam ser vistos, a qualquer hora do dia, deputados (devido também a proximidade com a Assembleia), poetas e escritores conhecidos.  Ocupava o térreo do palacete antes usado pela loja Rosa dos Alpes, lado oposto da Rotisserie, na Rua Guilherme Rocha.  O Globo conservou-se ativo de 1936 a 1955. 

No cruzamento das ruas Guilherme Rocha com Floriano Peixoto, pode ser visto o Sobrado do Pastor, onde no térreo, funcionou o Café Globo. Atualmente funciona no local o Restaurante Le Scale. (arquivo Nirez)

O Café Poty estava localizado noutra esquina movimentada: Barão do Rio Branco com Guilherme Rocha, térreo do velho sobradão, local do atual edifício Jalcy. Na esquina da Barão do Rio Branco com Liberato Barroso, ficava o Café Familiar. No mesmo cruzamento, na transversal ao Café Familiar, estava o Café do Fórum.

Naquele tempo a cidade não tinha pressa, não havia correria para nada, exceto para pegar o último bonde da noite. Os frequentadores se deixavam ficar nos cafés, onde eram atendidos calmamente, por atenciosos e bem humorados garçons.

Então o fulano, aboletado na cadeira confortável, cruzava as pernas vestidas no mais puro e cintilante linho irlandês, puxava o cigarro que o garçom, solícito acendia, e abria o jornal. Depois de ler e reler o jornal, o freguês levantava-se  espreguiçava-se , reclamava o serviço e ...pagava um tostão.

fonte: Marciano Lopes.