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sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Quebrando Normas e Padrões Vigentes: As “Coca-Colas” Cearenses

Com tantos rapazes servindo em bases do Nordeste durante a 2ª. Guerra Mundial, o governo americano criou,  para sua distração os clubes do Uso (United Service Organization). Na capital cearense os ianques alugaram para esse fim um grande e elegante sobrado na Praia do Peixe (atual Praia de Iracema), construído pelo pernambucano José Magalhães Porto em 1926, conhecido como Vila Morena


O prédio em questão, depois chamado de Estoril e passando para as mãos do popular Zé Pequeno, foi por décadas reduto de intelectuais, boêmios e políticos. Após os exaustivos exercícios diários nas bases do Pici e do Cocorote, os soldados do Tio Sam iam se divertir no USO. 
Nas manhãs de Domingo, nas areias defronte ao prédio, jogavam partidas de rugby e hand-ball, atraindo muitos curiosos, que, no entanto, nunca mostravam interesse  em adotar tais práticas desportivas. Na Vila Morena ouvia-se o vinil com as músicas mais tocadas nos EUA, executavam-se danças de salão, promoviam-se animadas festas e shows, e recebiam-se artistas famosos dos filmes de Hollywood.

 Visando a estabelecer um bom relacionamento com a população local, a direção do USO emitia convites às “boas famílias” de Fortaleza para ali participarem das promoções. Os jovens americanos provocavam paixões, deixando as mulheres em alvoroço. E várias delas não desperdiçavam os convites, indo se divertir na Vila Morena. Algumas chegaram mesmo a namorar e a manter outras intimidades com os gringos.
O fato dessas moças consideradas “avançadas” para a época, consumirem junto com os namorados o refrigerante Coca-Cola, até então só visto por aqui nas telas de cinema, chamaram a atenção. Alguns rapazes cearenses, despeitados com a concorrência amorosa, passaram a chamar aquelas meninas de Coca-Colas, no sentido de serem mulheres vulgares, sem caráter, interesseiras, as quais os americanos usavam, consumiam e jogavam fora. Correu até uma lista com os nomes das depravadas, listas que rapidamente circulavam na pequena Fortaleza da primeira metade dos anos 40.

trajes usuais e tradicionais das mulheres da época
Na realidade, a sociedade conservadora da época, que aceitava as inovações técnico-científicas, reagia às mudanças de comportamento. Não perdoava as jovens – na faixa de 20 anos – liberadas, bem vestidas, com decotes provocadores, muita maquiagem no rosto, que saíam de casa sozinhas, entravam abraçadas nos cinemas e sorveterias, circulavam com os namorados, namoravam à noite na praia, buscavam o prazer no sexo. Em suma, as coca-colas rompiam com os padrões vigentes de submissão feminina – a mulher frágil, dependente do homem, virgem, destinada à maternidade e ao espaço doméstico, e cuja reputação deveria estar acima de qualquer suspeita.
Em defesa da moral e dos bons costumes, destacou-se a Igreja Católica, que criticava duramente as mulheres modernas, sujeitas às más influências estrangeiras. O clero pronunciava-se constantemente nas páginas do O Nordeste, condenando a leitura de livros imorais, a exibição de filmes eróticos, a exposição das mulheres na praia em trajes indecoroso, os namoros indecentes, facilitados pela escuridão de Fortaleza.


As Coca-Colas, porém, eram a concretização explícita dos receios católicos. Não por acaso, depois que a guerra acabou e os americanos voltaram para seu país, aqueles mulheres tiveram que enfrentar durante anos  forte preconceito, mesmo pertencendo as camadas altas e médias da sociedade de Fortaleza. Para os mais religiosos elas estavam condenadas ao fogo eterno do inferno; conservadores chegavam a se benzer com a aproximação das alegres moças. Mães vendavam os olhos das crianças para que não olhassem aquelas sirigaitas, e os rapazes sérios não aceitavam de jeito nenhum casar com elas ou mesmo namorá-las.


Nem o espírito moleque cearense perdoou as mulheres; em 1946, um grupo de rapazes formou um bloco carnavalesco intitulado “Cordão das Coca-Colas”, composto apenas por homens vestidos de mulheres. No caso era o humor usado para repreender e debochar das mulheres que contrariaram  o tradicional machismo cearense. 

extraído do livro de Airton de Farias 
História do Ceará 
fotos do Arquivo Nirez e do Livro Ah, Fortaleza! 

        

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

A Vida em Fortaleza durante a 2ª. Guerra Mundial


 Cidade de Fortaleza em 1937 (foto de Amélia Earhart)

Quando em 1942, visando amedrontar o governo brasileiro e impedir uma maior aproximação do Brasil com os Estados Unidos, a Alemanha deu início ao afundamento dos navios mercantes nas costas brasileiras, o povo se enfureceu. E a fúria do povo tornou-se incontrolável.
 
Foi assim no chamado quebra-quebra acontecido no dia 18 de agosto daquele ano, quando não se sabe como, nasceu um movimento enlouquecido, e a multidão incontrolável passou a depredar tudo o que tivesse qualquer ligação com os países do eixo, ou seja, alemães, italianos e japoneses. 

Os sócios da Loja "A Pernambucana", sequer eram alemães, mas foram confundidos como tal

Lojas como “As Pernambucanas”, a Sapataria Veneza, representações de laboratórios como a Bayer e outros foram destruídos com violência, seguindo-se saques por parte de aproveitadores. Era a explosão do sentimento nacional contra os países agressores, e particularmente, contra a posição indefinida do governo ditatorial de Getúlio Vargas, que continuava neutro, não obstante os atentados contra a nossa soberania.

Havia grande agitação entre os estudantes do Liceu do Ceará, que desafiando a policia estadual, que não admitia qualquer tipo de manifestação popular, realizavam animadas passeatas, saindo da então Praça Fernandes Vieira, atual Gustavo Barroso, e terminavam sempre ao pé da Coluna da Hora, onde exaltados oradores conclamavam o governo a declarar guerra aos países do Eixo. 

Prédio do Liceu na antiga Praça Fernandes Vieira, atual Praça Gustavo Barroso

Foram tempos de muita agitação, com a população inquieta e querendo a imediata declaração de guerra. E esta não tardou. O presidente dos Estados Unidos, Roosevelt, preso à sua cadeira de rodas, veio ao Brasil e manteve um encontro histórico com Vargas, a bordo de um navio da esquadra americana nas águas mansas do Rio Potengi, em Natal (RN). 

Poucos meses depois chegavam os americanos ao Nordeste, em especial a Fortaleza e Natal, onde instalaram suas bases, pontos de apoio fundamentais aos planos estratégicos de assalto aos nazistas, na África e posteriormente na Europa.

O clima belicoso tomou conta dos alunos do velho Liceu. Falava-se inclusive, que nos planos de preparação da tropa brasileira que iria para as frentes de combate, a sede do colégio seria transformada em quartel.

Os Estados Unidos montaram uma agência consular em Fortaleza, funcionando próximo à Praça do Ferreira. O Consulado da Inglaterra, instalado no prédio da Ceará Light, ficava a cargo de Mister Hull, inglês radicado em Fortaleza.
 

Prédio da Ceará Tramway Light and Power, onde foi instalado o Consulado Britânico a cargo do Mister Hull

Muita coisa mudou em Fortaleza com a presença dos americanos. Trouxeram novos costumes, e vulgarizou-se o estudo do inglês. Engraxates, garçons, motoristas, recepcionistas aprendiam a comunicar-se com os soldados de Tio Sam, marinheiros e soldados do exército, que estavam por toda cidade. Os cigarros em voga eram  Camel”, “Chesterfield”, “Lucky-Strike”, e “Pall-Mall”, que os gringos popularizaram entre nós. Tempos do “Xore e gás”, um tipo popular que se aproximou dos americanos e lhes servia de cicerone por todo canto.

O governo americano implantou duas bases aéreas em Fortaleza, a do Pici e a do Cocorote. A cidade realizava exercícios preparatórios contra possíveis ataques aéreos que nunca aconteceram, mas a realidade da guerra ficava próxima dos habitantes nas noites dos chamados blecautes, quando era necessário pregar papéis ou tecidos escuros nas vidraças das residências. 

O povo solidário com a nova situação do país promovia campanhas em prol do esforço de guerra. Surgiram as Pirâmides de Metal, montes de restos de latas, tubos de dentifrícios vazios, talheres imprestáveis, tudo enfim, que pudesse ser aproveitados na fabricação de utensílios, armas e equipamentos para os soldados que iriam em breve, partir para o front. Os jornais, cujas edições eram avidamente disputadas pela população, noticiavam a convocação de jovens da sociedade para servir como oficiais do Exército, entre médicos, dentistas, até advogados. 

 Avião bombardeio B-25, patrulhando os céus de Fortaleza

As patrulhas da PE, tanto do exército Brasileiro como dos Americanos, vasculhavam as ruas da cidade. Temia-se andar à noite e havia toque de recolher. A vida da cidade tranquila, com suas rodas de cadeira nas calçadas, modificou-se bastante. 

Por esse tempo surgiram as filas. O abastecimento ficou difícil, alguns gêneros escasseavam. Para comprar carne, os consumidores acordavam de madrugada e ficavam horas na fila à espera da chegada do açougueiro. A aquisição era limitada a 1 quilo do produto. Havia a fila do açúcar, da farinha, do leite, da gasolina. Foi também quando apareceram os motores a gasogênio, aparelho movido a carvão que acionava os veículos na crise aguda da falta de combustível, inteiramente importado naqueles idos.

Durante a guerra apareceu por aqui, com os soldados e marujos americanos o refrigerante Coca-Cola. Não era fácil obter uma das garrafinhas, mas sempre havia alguém com acesso aos locais dominados pelos gringos para consegui-las. 
 

Vila Morena, na Praia de Iracema, onde funcionou o USO, clube de oficiais americanos durante a 2a. guerra. Era o reduto das chamadas "Coca-Colas"

Na Praia de Iracema, onde posteriormente se instalaria o restaurante Estoril, funcionava o USO – um clube de oficiais americanos de muita frequência, especialmente feminina. Muitas jovens conterrâneas se encantaram  com o tipo físico dos americanos. Mas a natural ciumeira dos rapazes da terra não as perdoava e as meninas passaram a ser chamadas de “Coca-Colas”. 

Circulava no Liceu do Ceará, em cópias datilografadas, uma relação com nomes de namoradas de americano, moças faladas, que não serviam para casar. Várias dessas moças acabaram casando com soldados e, ao término da guerra se transferiram para os Estados Unidos. Outras, sem a mesma sorte, enfrentaram valentemente a maledicência provinciana. Por vários anos, entre 1943 e 1946, tropas americanas permaneceram em Fortaleza, e sempre havia desavenças entre ianques e nativos.

Desfile dos "pracinhas" em despedida. Uma multidão foi às ruas no adeus aos rapazes cearenses que partiam para se incorporar à Força Expedicionária brasileira - FEB

No dia 07 de maio de 1945, o Jornal O Povo anunciava em grande manchete o fim da guerra na Europa, publicando a Declaração do Almirante Doenitz, novo chefe do Governo da Alemanha, através do qual notifica a rendição alemã. A guerra continuaria ainda por algum tempo no Pacífico. Veio a bomba atômica e a destruição de Hiroshima e Nagasaki, então o Japão também se rendeu. 
E dos escombros da terrível hecatombe, surgiu um novo mundo.

extraído do livro de Blanchard Girão
O Liceu e o Bonde na paisagem sentimental da Fortaleza-Província
fotos do Arquivo Nirez


domingo, 24 de julho de 2011

Os americanos no Ceará e a ousadia das Coca-Colas

Com a entrada do Brasil na guerra contra o Eixo, Fortaleza encheu-se de soldados e marinheiros norte-americanos,  em trânsito para os campos de batalha europeus.  Enquanto permaneciam aqui, os gringos procuravam se divertir o mais que podiam, não sendo difícil para eles, atrair muitas moças da classe média alta, que logo se tornaram suas namoradas. Coube a essas ousadas mulheres,  realizar uma verdadeira revolução nos costumes da cidade provinciana de então. 

Praça do Ferreira, década de 1940

Puseram fim ao tabu de que  moças de família não deveriam sair desacompanhadas de pais ou irmãos, a sós com os namorados. E muito menos quando essas saídas fossem à noite, depois das nove batidas do relógio da Coluna da Hora. 
Pois as coca-colas – como foram apelidadas, talvez por ser esse um dos principais símbolos americanos – ousaram fazê-lo para desespero das mães,  espanto das avós e deleite da vizinhança, que tinha assunto para falatório durante muito tempo. 
Elas saíam de braços dados, com os namorados estrangeiros, fosse de dia, fosse de noite. O point elegante da cidade, frequentado pela juventude da época e que passou ser também um dos preferidos dos americanos, era o bar O Jangadeiro, na Praça do Ferreira. 

O Bar O Jangadeiro, na Praça do Ferreira era um front na batalha das Coca-Colas contra o preconceito. Ali elas tinham encontros com os soldados americanos (arquivo Marciano Lopes)

Outro ponto de encontro era na Praia de Iracema, onde se instalaria posteriormente o famoso restaurante Estoril, onde funcionava o USO, clube dos oficiais americanos, de muita frequência,  especialmente feminina.   
Coube também aos americanos o início de outra revolução de hábitos e usos em Fortaleza. Os filhos de Tio Sam tomavam cachaça sem o menor constrangimento. Chegavam ao Jangadeiro pedindo que lhes servissem uísque. 

Vila Morena, na Praia de Iracema, transformada em clube dos oficiais norte-americanos durante a 2a. guerra, era o reduto das moças da sociedade local que tinham coragem de enfrentar as criticas e reprovações e assumiam o namoro com os soldados americanos (arquivo Marciano Lopes) 

Ao ouvirem dos garçons que o produto estava em falta, pediam então outra bebida forte.  E os garçons empurravam aguardente.  A cachaça misturada com Coca-Cola era muito apreciada pelos americanos. 
E como no Ceará as elites costumam imitar tudo que fazem os estrangeiros, logo virou moda  tomar cachaça com Coca-Cola.  A partir daí a cachaça ganhou status de bebida de classe, perdeu o estigma de bebida de párias sociais para virar uísque nacional. 
Enquanto isso no bar e sorveteria O Jangadeiro, surgia sério desentendimento entre os rapazes do soçaite local e os garçons. Estes se esquivavam de atendê-los preferindo os americanos, porque os gringos, além de pagarem regiamente, ainda o faziam em dólares. 
Os antigos clientes reclamaram com o dono do estabelecimento, o sobralense José Frota Passou que não titubeou: a frequência não lhe interessava, preferia antes os americanos porque não olhavam para o montante das despesas. A resposta do comerciante irritou a rapaziada que em represália, tentou quebrar o estabelecimento. Mesas e cadeiras chegaram a ser quebradas, enquanto na Praça do Ferreira juntava gente pronta para colaborar com a depredação. No entanto, a turma do deixa disso entrou em ação conseguindo acalmar os ânimos. Tudo por conta do nosso esforço de guerra.
Terminada a guerra, os soldados americanos retornaram ao seu país de origem e as Coca-Colas ficaram desativadas. Mas continuaram a desfilar seu charme e elegância pelas ruas da cidade, motivando as mais variadas reações.  As crianças ficavam boquiabertas ante aquelas verdadeiras afrodites  que desafiavam os costumes e a moral da época
 – mãe que moça linda!
E a mãe, puxando o rebento pela orelha:
 – não olha, menino! É uma Coca-Cola!  

Segundo Blanchard Girão, circulava entre os alunos do Liceu, em cópias datilografadas, uma relação com os nomes das Coca-Colas, moças faladas, que os jovens cearenses  não aceitavam de modo algum para casar. Várias dessas moças acabaram casando com soldados e, ao término da guerra transferiram-se com eles para os Estados Unidos.



Depois dos americanos, vieram os produtos produzidos por eles: a Coca-Cola, as meias de nylon, a goma de mascar, o plástico, o pirex, a caneta esferográfica e outros. 

As tropas americanas permaneceram em Fortaleza entre 1943 e 1946. Terminado o conflito, a população entendeu que era hora deles deixarem nossa terra. E começaram a surgir desavenças entre gringos e nativos. 
Certo dia, ao cair da tarde, um senhor, aparentemente de posses, deixou o carro estacionado em frente a uma tabacaria, ao lado da Rotisserie (atual prédio da Caixa Econômica na esquina das Ruas Floriano Peixoto e Guilherme Rocha), na Praça do Ferreira.  A esposa permaneceu dentro do veículo, quando dela se aproximou  um marujo americano, muito alto e magro, que dirigiu um gracejo para a mulher. Ao perceber o assédio, o marido saltou como uma fera contra o galanteador, de faca em punho. 
O americano desabou em incrível velocidade, sob as vaias da população, indo homiziar-se no Excelsior Hotel para fugir da fúria do perseguidor.  

Fontes:
Alberto S. Galeno,
Blanchard Girão
Marciano Lopes

terça-feira, 18 de maio de 2010

A Cidade Americanizada: Fortaleza no Pós-Guerra


exemplos de figurinos usados por homens e mulheres no inicio do século XX (foto reprodução)

Na segunda metade dos anos quarenta, terminada a Segunda Guerra Mundial, enquanto a Europa tentava recuperar-se dos estragos causados pelo conflito, os americanos emergiram como os novos heróis, os vencedores que derrubaram Hitler e seus aliados.
Em toda América Latina os americanos viram aumentar o prestígio e a idolatria pelos bravos soldados do Tio Sam. Nada mais natural para essas populações, inclusive a do Brasil, do que aderir à emergente cultura proveniente da América do Norte. E as grandes invenções americanas do pós-guerra foram o plástico, o pirex, as meias de nylon, a caneta esferográfica, além é claro, da coca-cola.
Fortaleza, que antes da guerra estivera sob jugo da moda francesa, de onde eram importados tecidos finos, chapéus, vestidos, sapatos e perfumes, de repente, encantou-se pelas quinquilharias americanas. E não foram só os produtos que causaram sensação por aqui: a música, a dança, os filmes encontraram espaço nos salões e nos cinemas da cidade.
Os jovens mascavam chicletes, tomavam coca-cola e dançavam Fox. Os mais velhos dançavam ao som de Glenn Miller e dos ritmos caribenhos.
Em frente as lojas do centro juntava pequenas multidões para assistir as demonstrações das novas aquisições. Nas Lojas de Variedades na Praça do Ferreira, os vendedores mostravam as maravilhas do plástico – através de copos que não quebravam mesmo quando eram arremessados ao chão – e do pirex, o novo vidro miraculoso que podia ir ao forno sem quebrar, para uma platéia que assistia tudo de boca aberta, queixo caído, maravilhada diante de tantas novidades.
Mas sucesso mesmo fizeram as meias de nylon: primeiro correu a noticia de que os americanos tinham inventado uma “meia de vidro”. Seria tão fina e transparente que podia ser lavada e usada em seguida, pois secava instantaneamente. Logo depois as meias de nylon chegaram às vitrines e causaram furor, as tradicionais meias de seda foram deixadas de lado, as mulheres tinham prazer em ostentar a novidade.
O plástico aumentou a família na forma de bacias, baldes, tigelas, pratos e até penicos. Então lançaram a grande novidade: o tecido de plástico, em peças estampadas. E logo surgiram os vestidos de plásticos, que as mulheres usaram sem pestanejar, abandonaram em seguida por causa do calor que faziam, para só depois descobrirem que a novidade servia era para fazer cortinas de banheiro.
Assim se deu a transição da elegante Fortaleza à francesa para a cidade americanizada: uma cidade seduzida por plásticos, pirex, e meias de ”vidro”.

Fonte:
Lopes, Marciano. Royal Briar: A Fortaleza dos anos 40. Fortaleza: ABC, Coleção Nostalgia, 1996.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

A Praia Formosa e o Curral das Éguas

Praia Formosa em fotos de 1939 - foto reprodução
ponte dos ingleses  

Desde a década de 1920 até inicio dos anos 1960, a então Praia Formosa (atual Iracema) era habitada por pescadores e por pessoas de classe média, que ali se instalavam devido à facilidade de acesso à Praça do Ferreira – ponto de convergência de todo o comércio de Fortaleza, repartições públicas, linhas de ônibus e de bondes, correios, bancos, etc. O trajeto entre a Praia e a Praça do Ferreira era cumprido a pé.

Ao longo desse tempo a Praia Formosa sempre foi uma área bastante movimentada, com destaque para os anos 1940, quando por ali transitavam as moças que habitavam o “Curral das Éguas”; também circulavam jovens solteiras de boas famílias, que frequentavam o cassino dos americanos (no lugar do atual Estoril), ou ainda, o “La Conga” que ficava na descida da Rua Barão do Rio Branco, já na beira do mar. 

O La Conga era tipo uma boate, e servia de ponto de encontro dos soldados americanos que ficaram aquartelados na cidade no tempo da guerra.

Estima-se que, entre 1943 e 1946, um total de 50 mil americanos tenha passado por Fortaleza. Para suas distrações se faziam acompanhar das famosas “coca-colas”, como ficaram conhecidas as moças de Fortaleza que namoravam os americanos, mesmo sem conhecer o idioma. Bastava saber dançar e dizer algumas palavras que permitisse os mais rápidos relacionamentos.

Na descida do Passeio Público em direção a praia estava o “Bar São Jorge”, palco de muitas desventuras humanas, e por esse motivo, muito conhecido da crônica policial da cidade; nas redondezas se aglomerava grande número de operários que trabalhavam na antiga “light”, lugar que acumulava enorme quantidade de cinza das caldeiras que forneciam eletricidade a Fortaleza. Mais tarde o lugar passou a ser chamado pejorativamente de “Cinzas”.

No Arraial Moura Brasil, na descida da ladeira da Rua General Sampaio, ao lado da estação central e da casa de detenção (atual Encetur), em direção a Praia Formosa, ficava o muito famoso “Curral das Éguas”, local onde desde 1920, muitos rapazes, de todas as classes sociais, se iniciavam nas artes amorosas.

As casas, estilo chalés situados à esquerda de quem descia a Rua General Sampaio, estavam sempre feericamente iluminados. As mulheres, de todos os tipos, vinham de todo o estado do Ceará, boa parte delas fugindo das secas e da carência de oportunidades em suas cidades, para “fazer a vida” e assumir a profissão.

Na pensão onde fixavam residência, a primeira providência da madame (a dona da pensão) era levar a “mariposa” a chefatura de policia onde era registrada, com prontuário de ocorrência sanitária, obrigada a comparecer mensalmente para obter visto na carteira, e para ser examinada para saber se tinha contraído “doença do mundo” ou “curuba”, um tipo de sarna muito comum na época.

Os homens solteiros, casados, comprometidos, ricos, pobres, pretos ou brancos, frequentavam o local às escondidas, cuidando para evitar as “doenças do mundo” dada a inexistência de preservativos ou camisinhas.

Os que pegavam alguma doença venérea, consultavam urologistas de confiança em busca da cura, tudo no maior segredo, evitando-se chegar ao conhecimento das famílias e namoradas, porque tal ocorrência podia decretar até o fim do casamento, se fosse descoberta.

O trottoir era o ponto alto do assédio: as “damas da noite” vestiam-se com roupas de sedas chamativas, subiam e desciam a ladeira da Rua General Sampaio, a fim de atrair os fregueses que se postavam na parte alta da rua, ou que estavam nos botequins da área.

Arranjado o parceiro, levavam para o quarto do lupanar reservado para o oficio que não durava nem meia hora. Findo o encontro, a mulher já saía do quarto com traje diferente do que usara antes para não ser reconhecida pelos circunstantes, e recomeçava a lide de subir e descer a ladeira.

Ao lado do curral havia outras pensões, o “Oitão Preto” e a “Pensão da Olímpia”, ambas de categorias superiores e separadas do público que frequentava o curral.

Muitas foram as promessas do poder do publico e de entidades da iniciativa privada, de mudar a tradição de uso e ocupação da Praia de Iracema, a outrora Praia Formosa. Campanhas de revitalização para integrar a área ao contexto sociocultural de Fortaleza e atrair maior movimentação de visitantes são quase constantes.

Em alguns trechos, até que esse objetivo foi parcial e relativamente alcançado. Mas o trecho onde se situavam até a década de 1960 as atividades acima relatadas, continua sendo até os dias atuais, área onde reinam a insegurança, a prostituição e o tráfico de drogas.
Pobre Fortaleza Bela



Fonte:

Almada, Zenilo. Histórias da Fortaleza Antiga. Revista do Instituto do Ceará. Fortaleza, tomo CXVIII, 2004.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Fortaleza dos anos 40: O Cordão das Coca-Colas

Estoril por Tarcisio Garcia
acrílica sobre tela


As “coca-colas” surgiram com a chegada dos soldados americanos que instalaram uma base aérea em Fortaleza no início dos anos 1940, durante a 2ª. Guerra mundial. Eram moças em geral bem-nascidas, provenientes de famílias tradicionais, que viviam bem e não tinham problemas financeiros, que namoravam os soldados americanos.

Tratava-se de um grupo de mulheres muito bonitas, elegantes, vistosas, educadas, de mentalidade evoluída, obrigadas a viver numa pequena cidade provinciana, sem maiores opções de diversões ou lazer. Os soldados americanos representavam essas opções que as moças buscavam, pois ajudaram a mudar a rotina e a vida desmotivada que levavam na cidade.


Ganharam o apelido “coca-colas” por terem o privilégio de tomar o famoso refrigerante americano, numa época que o mesmo não existia na cidade e só era conhecido através dos filmes.

De modo geral sabe-se que as guerras geram tragédias e necessidades, sendo uma delas a prostituição de jovens como única maneira de obter recursos para si e para os seus familiares. Não era, no entanto, o caso das “coca-colas” que queriam apenas ser diferentes, viver novas aventuras e não serem obrigadas a namorarem com os rapazes locais.

O cenário dos encontros era no velho Estoril na Praia de Iracema, local que os soldados americanos transformaram em base, e onde o cordão das alegres “coca-colas” participava de festas que entravam pela madrugada e pareciam não ter fim.

Mas as moças pagaram o preço pela ousadia de desafiar a moral e os bons costumes da época: foram vítimas de preconceitos, isoladas pelas famílias, discriminadas pela sociedade.

Terminada a 2ª. Guerra no ano de 1945, os soldados americanos retornaram ao seu país e as “Coca-Colas” ficaram desativadas. Mas continuaram a desfilar seu charme e sua elegância pelas ruas de Fortaleza, para desespero das respeitáveis matronas, guardiãs da sagrada moral cristã.