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sexta-feira, 2 de fevereiro de 2024

Os Protestos de Usuários dos Serviços da Ceará Light (bondes elétricos)

 

A chegada dos bondes elétricos em 1913 foi considerada um grande progresso, que contribuiu decisivamente para a expansão e para o desenvolvimento de Fortaleza. Os chamados Tramways que vieram para  substituir os bondes de tração animal no transporte coletivo, encurtaram distâncias, facilitaram o acesso a bairros distantes e favoreceram a locomoção de moradores e trabalhadores que antes cumpriam longos percursos a pé. A concessionária era empresa inglesaThe Ceará Tramway Light and Power Co. Ltd”, e a equipe dirigente era formada quase que exclusivamente por cidadãos ingleses. O representante local da diretoria inglesa era o engenheiro Francis Reginald Hull e o gerente geral, o Dr. E.M. Scott.


 

O serviço foi inaugurado em 9 de outubro de 1913, com a presença do Intendente Municipal e outras autoridades, com a instalação da linha Estação Joaquim Távora. No dia 12 de janeiro de 1914 é inaugurada a linha entre a Travessa Morada Nova e a Praia de Iracema, denominada de Linha da Praia. No mês seguinte, em 14 de fevereiro, começava a funcionar a Linha do Outeiro (Santos Dumont-Aldeota). O transporte de tração animal continuou funcionando e foi sendo desativado à medida em que se inaugurava novas linhas. Para o serviço de tramways foram adquiridos inicialmente, 30 bondes e um carroção para transporte de cargas.


Nos primeiros anos de funcionamento, foi tudo às mil maravilhas; mas as primeiras reclamações sobre as deficiências dos serviços, não demoraram a aparecer; primeiro com a quantidade de veículos em circulação que eram insuficientes para o número de passageiros;  depois com o grande número de bondes parados nas linhas, ou por falta de energia elétrica ou por quebra de peças que impossibilitavam a circulação; mais tarde evoluíram para a reivindicação de um serviço mais organizado, descumprimento de horário, reajustes nos preços das passagens e protesto pelo estado de conservação dos bondes, desconfortáveis e sucateados. Além das reclamações dos usuários, havia também a revolta dos empregados, que giravam em torno de aumentos salariais e redução da carga de trabalho.

Em 1923 o jornal “A Tribuna” reclamava do serviço prestado pela Light, destacando que os bondes eram sujos, sem conforto e que em dias de chuva os passageiros sofriam bastante. Reclamavam ainda da atuação das autoridades municipais que não tomavam nenhuma providência nem exigiam a melhoria do serviço da companhia inglesa.  

No ano de 1925 os protestos explodiram de vez e a insatisfação levou intranquilidade e conflitos para as ruas de Fortaleza. Em setembro desse ano, a Light instituiu classes diferentes no transporte, haveria bondes de 1ª classe e de 2ª. classe, definidos pelas cores: verdes; os horários seriam alterados e haveria elevação de preços para os bondes de primeira classe. Mas a disponibilidade dos bondes de 2ª. classe, mais baratos, era muito menor do que os de 1ª. classe, mais caros. Além do mais, os horários eram considerados inadequados, pois não contemplavam os horários de pico.


a maioria das linhas dos bondes partiam da Praça do Ferreira, em frente ao prédio da Intendência Municipal. imagem de 1920

A companhia não esperava uma resistência tão incisiva às modificações apresentadas, que começou com os alunos do Liceu, recebeu adesão de outros colégios e se espalhou pelo público em geral. Uma multidão se aglomerou na Praça do Ferreira, local de partida da maioria das linhas onde teve início uma série de atos de vandalismo: teve quebra-quebra, depredação, agressão e gente que invadia os bondes que conseguiam sair, sem pagar a passagem.

À certa altura a Polícia resolveu intervir para dispersar os mais exaltados, mas de acordo com notícias do jornal do Commercio, a ação policial foi violenta e desproporcional e servindo apenas para acirrar ainda mais os ânimos. Durante todo o dia aconteceram distúrbios tanto na Praça do Ferreira quanto nos outros locais de parada dos bondes, e até mesmo o gerente da Light, Mr. Scott, que compareceu ao posto de bondes para tentar alguma solução para o impasse, viu-se ameaçado pela multidão, e só saiu do local com escolta policial.

Os tumultos se repetiram por quase uma semana, enquanto autoridades, imprensa e representantes de várias instituições propunham acordos e soluções a fim de resolver o impasse. Por outro lado, o aumento da repressão policial contribuiu para inibir as ações populares, apesar de continuarem os atos contra a Light e a abstenção de usuários de utilizar os veículos de 2ª. classe.

Mas uma ação considerada violenta, foi determinante para que o movimento perdesse parte do apoio popular. Na madrugada um grupo não identificado colocou uma pequena carga de dinamite na linha do bonde Alagadiço, que explodiu durante a passagem de um bonde de 2ª. classe. Os danos ao veículo foram pequenos e nenhum passageiro ficou ferido, mas o discurso da concessionária mudou para além dos prejuízos da empresa, alegando que agora, o que estava em risco era a integridade física dos usuários do transporte. No mesmo dia foi encontrado um petardo pesando quase um quilo, na linha Praia de Iracema, que não chegou a ser detonado. As forças de repressão debelaram os atos públicos de protesto; os mais exaltados, identificados como líderes eventuais desses atos, foram agredidos pela polícia ou presos; a forma mais violenta de atuação comprometeu a legitimidade dos protestos. Esses acontecimentos aliados a outras ações determinaram o fim do movimento de protesto.


Em 1935 os bondes mantinham uma disputa acirrada com os ônibus, que já serviam a quase todos os bairros -  imagem uwm libraries

O resultado prático de tudo, em termos de funcionamento do transporte, foi mínimo: a Light não revogou suas decisões e os dois tipos de veículos com suas respectivas tarifas continuaram a circular de forma alternada; somente nos horários de maior fluxo – ao meio-dia e no início da noite – circulariam bondes de 1ª. e 2ª. classe simultaneamente. Em contrapartida a empresa passou a ser cobrada sistematicamente pela má prestação dos serviços, tanto por parte da população quanto pelas instituições atuantes à época (a Fênix Caixeiral, a Associação Comercial, o Centro Artístico Cearense, o Centro dos Importadores, e outros),  e as autoridades, pela omissão com os prejuízos causados pela deficiência do transporte, e pela tolerância com a péssima atuação da Ceará Light and Power. O bondes elétricos funcionaram até o dia 19 de maio de 1947, substituídos definitivamente pelos ônibus como transporte coletivo de massas.     

 

Fontes: O povo em fúria: a revolta urbana de 1925 em Fortaleza, autor Eduardo Oliveira Parente. Disponível em file:///C:/Users/mfati/Downloads/administrador,+Se%C3%83%C2%A7%C3%83%C2%A3oLivre_3EduardoParente%20(5).pdf

Menezes, Raimundo de. Coisas que o Tempo Levou: crônicas históricas da Fortaleza antiga. Introdução Sebastião Rogério Ponte. Fortaleza: Edições Demócrito Rocha, 2000. 208 p – (Clássicos cearenses:2)/publicação Fortaleza em Fotos. Imagens do Arquivo Nirez  

 

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Vivendo em tempos de Guerra

Em 14 de fevereiro de 1942 o navio brasileiro Cabedelo havia sido torpedeado em águas do Atlântico por submarinos alemães, o que provocou a morte de 54 tripulantes. Outras embarcações de bandeira brasileira também foram afundadas, a exemplo do Baependi, Buarque, Olinda, Atabutã, Cairu, Parnaíba, Tamandaré, totalizando 36 navios afundados. O torpedeamento desses navios mercantes brasileiros, em costa brasileira, fez com que o governo de Getúlio Vargas desse o primeiro passo para a declaração de guerra aos países do Eixo – Alemanha, Itália e Japão


Desfile dos integrantes da Força Expedicionária Brasileira, antes do embarque para a Itália

Em 22 de agosto de 1942, Getúlio Vargas reunido com vários de seus ministros, declarou ao término da reunião que “diante da comprovação dos atos de guerra contra a nossa soberania, foi reconhecida a situação de beligerância entre o Brasil e as nações agressoras”.

O Brasil foi compelido, moralmente, a participar da 2ª. Guerra Mundial, em desagravo à soberania ultrajada, à neutralidade desrespeitada, ao afundamento dos navios mercantes desarmados e para preservar a democracia ameaçada. O governo criou a Força Expedicionária Brasileira que seria enviada à Europa, contribuindo com a causa dos aliados.

manifestantes no Centro de Fortaleza depredaram e incendiaram a Loja A Pernambucana, cujos dirigentes eram austríacos e foram confundidos com alemães

Após a notícia de novos afundamentos de navios brasileiros por submarinos do Eixo, mesmo antes da declaração de guerra feita pelo governo brasileiro, em todo o país, ocorreram ataques e depredações a estabelecimentos comerciais que supostamente pertenciam a estrangeiros nascidos nos países inimigos.  Em Fortaleza não foi diferente: Empresas como A Pernambucana, Casa Veneza, Bar Antárctica, Café Iris, o escritório de Marino Cunto e outros foram invadidos e depredados aos gritos de “Morra a Itália” e “Morra a Alemanha”. 

A Casa Veneza foi saqueada e encerrou as atividades; anos mais tarde reabriu e fechou novamente 
Foto de Nelson Bezerra - Série Fortaleza anos 70/80

As empresas passaram a publicar notas nos jornais, declarando-se brasileiras ou compostas em sua diretoria por reservistas do Exército e da Marinha. O Jornal “O Estado” registrou algumas dessas notas. Em 20 de agosto de 1942, em primeira página, a Companhia Ítalo  Brasileira de Seguro Gerais, destacava: 

“A Cia Ítalo Brasileira de Seguros Gerais é genuinamente brasileira. Os seus acionistas e Diretores são brasileiros industriais e banqueiros de São Paulo, srs. Dr. Edgardo de Azevedo Soares, Dr. Alfredo Egydio de Souza Aranha, Dr. José da Silva Gordo, e Dr. José Hermínio de Morais. A Filial do Ceará também é constituída de brasileiros, reservistas do Exército e da Marinha e dirigidas pelos srs Artur Vieira de Almeida, e Edílson Nogueira Mota.”

O famoso proprietário de restaurante, Ramon Romero, também encomendou uma nota à imprensa, no mesmo dia e no mesmo jornal: 

“Ramon Romero de Castro, proprietário do popular e conhecido Restaurant Ramon e arrendatário do Excelsior Hotel, torna público que, sendo de nacionalidade espanhola, se acha, no entanto, há 42 anos no Brasil. Este grandioso país é assim, sua segunda pátria e os atentados torpes e covardes contra bens e vidas brasileiras, levados a cabo pelos nazistas, só lhe causam profunda indignação, motivo porque exprime toda a simpatia e solidariedade irrestrita, ao ínclito Presidente Vargas e às altas autoridades incumbidas de reprimir a ação nefasta dos vândalos do Eixo. O Restaurant Ramon e o Excelsior Hotel não têm em seus quadros de empregados qualquer elemento nascido nos países que ora hostilizam o Brasil”. 

Outras empresas como Lojas Brasileiras, Sambra, Sapataria Belém, Casa Raia, Loja “O Gabriel” e muitas outras, destacavam em notas impressas sua solidariedade ao governo brasileiro.

Os europeus de origem judaica, por seu sobrenome marcantemente estrangeiro, também foram perseguidos. Em 25 de agosto de 1942, o jornal “ O Estado”, publicava:

“Izaías Kligman, proprietário da Relojoaria Izaías à Rua Pará, 10 – avisa ao público que, além de ser polonês, reside no Brasil há mais de vinte anos, tendo-o como sua segunda pátria e que é uma vítima das atrocidades do Eixo, pois sua família, inclusive irmãos, foi dizimada pelos bárbaros nazistas". 

Passeata de agosto de 1942, manifestantes cobram um posicionamento do governo brasileiro

Nesse mesmo ano de 1942, foi realizado o primeiro blackout absoluto em Fortaleza, apagando-se todas as luzes da cidade, num exercício de comportamento a ser seguido, simulando um ataque aéreo à cidade. A “Gazeta de Noticias” publicou uma nota da Secretaria do Serviço de Defesa Passiva Antiaérea de Fortaleza, onde se estipulava que, em função do Estado de Guerra, o movimento nas ruas deveria ser encerrado às 22 horas; a iluminação pública não seria permitida a partir desse horário, principalmente na praia e no centro da cidade. Dentre estas normas do blackout, por tempo indeterminado, as que se referiam às residências, recomendavam: 

“todas as vidraças, venezianas, etc, externas, deverão ser cobertas com papel ou fazenda preta, ou reforçadas com madeira, de modo que não haja filtração da luz”. 

Na noite de Natal desse ano, a “Missa do Galo” deixou de acontecer à meia-noite, em função das regras rígidas de iluminação noturna. Em 21 de dezembro de 1942, o “Correio do Ceará” anunciou:

“em consequência do blackout adotado na cidade pelo Serviço de Defesa Passiva antiaérea, Fortaleza quebrará este ano, uma tradição, não realizando suas missas das 24 horas, no Natal, tão a gosto do povo católico e sempre concorridíssima. A providência, porém, não prejudicará o povo católico que no dia 25 poderá acorrer em massa para as igrejas, comemorando liturgicamente a data do nascimento de Cristo.” 

A obrigatoriedade de cumprimento das leis do blackout permaneceu em vigência até 1° de dezembro de 1943.

Extraído do livro de Vanius Meton Gadelha Vieira
Ideal Clube – história de uma sociedade
fotos do arquivo Nirez e do livro Ah, Fortaleza!


quarta-feira, 11 de setembro de 2013

De Flores e Guerras

Era o dia 18 de agosto de 1942. Tudo começou tão de repente que nunca se soube ao certo como teve início, e quem liderou. A turba furiosa avançou sobre todos os estabelecimentos, escritórios e até residências de cidadãos das chamadas nações integrantes do Eixo. Alemães, italianos e japoneses, e seus descendentes, foram alvo de incontrolável manifestação de ódio por parte da massa insatisfeita, com a posição dúbia do governo brasileiro em relação ao conflito.  O povo não admitia a posição oficial brasileira, refletindo a ideologia fascistoide do Estado Novo de Getúlio Vargas. 

Jantar do Rotary Club no Palace Hotel, em 1936, onde estão as bandeiras da Alemanha e da Suástica. As boas relações entre os dois países, fez com que o Governo de Vargas demorasse a assumir uma postura frente ao conflito mundial. (foto Nirez) 

Durante a manifestação de 18 de gosto, a turba desenfreada buscou além dos estabelecimentos dos súditos do Eixo, também as casas comerciais cujos proprietários teriam tido ou ainda tinham ligação com o Integralismo. No meio da multidão, alguém gritava o nome de uma loja qualquer como de propriedade de um integralista. E logo a violência se voltava contra ela. Assim aconteceu com “ O Gabriel”, veterano estabelecimento comercial de miudezas, localizado à Rua Floriano Peixoto, em frente à sede dos Correios. Seu proprietário, Gabriel Jardim, era uma figura conhecida por na cidade. Sua loja era a maior venda de imagens de anjos e santos, ramo em  que também se especializou outro comerciante muito católico, “O Epitácio”. 


Como a Igreja católica tinha naquela fase histórica, profunda inclinação direitista, com numerosos membros militando no Integralismo. Gabriel, por certo sem nenhum embasamento ideológico, aproximou-se dos “camisas verdes”.
Outros estabelecimentos atingidos pelas mesmas razões, foram a loja “A Cruzeiro”, que por essa época funcionava nos baixos do Excelsior Hotel e o armarinho “Ubirajara”, na Major Facundo quase esquina com a Guilherme Rocha.

A loja Pernambucanas foi incendiada e saqueada. (foto do Livro Ah, Fortaleza!)

Outro alvo das manifestações de ódio foi o japonês Guilherme Fujita  (nascido Jusaku Fujita) que cultivava um jardim e fornecia flores para as cerimônias festivas ou tristes da Fortaleza provinciana daquela primeira metade do século.
Com o fruto do seu trabalho árduo, o imigrante japonês mantinha com desvelo e carinho a numerosa prole nascida no Estado do Ceará. Ignorando esse fato, na irracionalidade das atitudes das massas descontroladas, os manifestantes invadiram o bucólico Jardim Japonês, no Otávio Bonfim, destruindo tudo e ameaçando a própria vida da família oriental.
Vizinhos que presenciaram o drama protegeu a família da ameaçadora agressão. Durante vários dias os Fujitas tiveram o abrigo de pessoas amigas, numa prova de que em momentos de insanidade coletiva, muitos conseguem manterem-se serenos e lúcidos, para impedir as consequências mais graves do desvario geral.
Terminada a guerra, superadas as desavenças, o japonês Fujita conseguiu se recuperar voltou a trabalhar com suas rosas e flores no Jardim Japonês, que funcionou no seu antigo local, na atual Avenida Bezerra de Menezes, onde hoje se encontra um supermercado,  até a década de 60.

fontes:
Blanchard Girão em O Liceu e o Bonde
Jornal O Povo

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

A Vida em Fortaleza durante a 2ª. Guerra Mundial


 Cidade de Fortaleza em 1937 (foto de Amélia Earhart)

Quando em 1942, visando amedrontar o governo brasileiro e impedir uma maior aproximação do Brasil com os Estados Unidos, a Alemanha deu início ao afundamento dos navios mercantes nas costas brasileiras, o povo se enfureceu. E a fúria do povo tornou-se incontrolável.
 
Foi assim no chamado quebra-quebra acontecido no dia 18 de agosto daquele ano, quando não se sabe como, nasceu um movimento enlouquecido, e a multidão incontrolável passou a depredar tudo o que tivesse qualquer ligação com os países do eixo, ou seja, alemães, italianos e japoneses. 

Os sócios da Loja "A Pernambucana", sequer eram alemães, mas foram confundidos como tal

Lojas como “As Pernambucanas”, a Sapataria Veneza, representações de laboratórios como a Bayer e outros foram destruídos com violência, seguindo-se saques por parte de aproveitadores. Era a explosão do sentimento nacional contra os países agressores, e particularmente, contra a posição indefinida do governo ditatorial de Getúlio Vargas, que continuava neutro, não obstante os atentados contra a nossa soberania.

Havia grande agitação entre os estudantes do Liceu do Ceará, que desafiando a policia estadual, que não admitia qualquer tipo de manifestação popular, realizavam animadas passeatas, saindo da então Praça Fernandes Vieira, atual Gustavo Barroso, e terminavam sempre ao pé da Coluna da Hora, onde exaltados oradores conclamavam o governo a declarar guerra aos países do Eixo. 

Prédio do Liceu na antiga Praça Fernandes Vieira, atual Praça Gustavo Barroso

Foram tempos de muita agitação, com a população inquieta e querendo a imediata declaração de guerra. E esta não tardou. O presidente dos Estados Unidos, Roosevelt, preso à sua cadeira de rodas, veio ao Brasil e manteve um encontro histórico com Vargas, a bordo de um navio da esquadra americana nas águas mansas do Rio Potengi, em Natal (RN). 

Poucos meses depois chegavam os americanos ao Nordeste, em especial a Fortaleza e Natal, onde instalaram suas bases, pontos de apoio fundamentais aos planos estratégicos de assalto aos nazistas, na África e posteriormente na Europa.

O clima belicoso tomou conta dos alunos do velho Liceu. Falava-se inclusive, que nos planos de preparação da tropa brasileira que iria para as frentes de combate, a sede do colégio seria transformada em quartel.

Os Estados Unidos montaram uma agência consular em Fortaleza, funcionando próximo à Praça do Ferreira. O Consulado da Inglaterra, instalado no prédio da Ceará Light, ficava a cargo de Mister Hull, inglês radicado em Fortaleza.
 

Prédio da Ceará Tramway Light and Power, onde foi instalado o Consulado Britânico a cargo do Mister Hull

Muita coisa mudou em Fortaleza com a presença dos americanos. Trouxeram novos costumes, e vulgarizou-se o estudo do inglês. Engraxates, garçons, motoristas, recepcionistas aprendiam a comunicar-se com os soldados de Tio Sam, marinheiros e soldados do exército, que estavam por toda cidade. Os cigarros em voga eram  Camel”, “Chesterfield”, “Lucky-Strike”, e “Pall-Mall”, que os gringos popularizaram entre nós. Tempos do “Xore e gás”, um tipo popular que se aproximou dos americanos e lhes servia de cicerone por todo canto.

O governo americano implantou duas bases aéreas em Fortaleza, a do Pici e a do Cocorote. A cidade realizava exercícios preparatórios contra possíveis ataques aéreos que nunca aconteceram, mas a realidade da guerra ficava próxima dos habitantes nas noites dos chamados blecautes, quando era necessário pregar papéis ou tecidos escuros nas vidraças das residências. 

O povo solidário com a nova situação do país promovia campanhas em prol do esforço de guerra. Surgiram as Pirâmides de Metal, montes de restos de latas, tubos de dentifrícios vazios, talheres imprestáveis, tudo enfim, que pudesse ser aproveitados na fabricação de utensílios, armas e equipamentos para os soldados que iriam em breve, partir para o front. Os jornais, cujas edições eram avidamente disputadas pela população, noticiavam a convocação de jovens da sociedade para servir como oficiais do Exército, entre médicos, dentistas, até advogados. 

 Avião bombardeio B-25, patrulhando os céus de Fortaleza

As patrulhas da PE, tanto do exército Brasileiro como dos Americanos, vasculhavam as ruas da cidade. Temia-se andar à noite e havia toque de recolher. A vida da cidade tranquila, com suas rodas de cadeira nas calçadas, modificou-se bastante. 

Por esse tempo surgiram as filas. O abastecimento ficou difícil, alguns gêneros escasseavam. Para comprar carne, os consumidores acordavam de madrugada e ficavam horas na fila à espera da chegada do açougueiro. A aquisição era limitada a 1 quilo do produto. Havia a fila do açúcar, da farinha, do leite, da gasolina. Foi também quando apareceram os motores a gasogênio, aparelho movido a carvão que acionava os veículos na crise aguda da falta de combustível, inteiramente importado naqueles idos.

Durante a guerra apareceu por aqui, com os soldados e marujos americanos o refrigerante Coca-Cola. Não era fácil obter uma das garrafinhas, mas sempre havia alguém com acesso aos locais dominados pelos gringos para consegui-las. 
 

Vila Morena, na Praia de Iracema, onde funcionou o USO, clube de oficiais americanos durante a 2a. guerra. Era o reduto das chamadas "Coca-Colas"

Na Praia de Iracema, onde posteriormente se instalaria o restaurante Estoril, funcionava o USO – um clube de oficiais americanos de muita frequência, especialmente feminina. Muitas jovens conterrâneas se encantaram  com o tipo físico dos americanos. Mas a natural ciumeira dos rapazes da terra não as perdoava e as meninas passaram a ser chamadas de “Coca-Colas”. 

Circulava no Liceu do Ceará, em cópias datilografadas, uma relação com nomes de namoradas de americano, moças faladas, que não serviam para casar. Várias dessas moças acabaram casando com soldados e, ao término da guerra se transferiram para os Estados Unidos. Outras, sem a mesma sorte, enfrentaram valentemente a maledicência provinciana. Por vários anos, entre 1943 e 1946, tropas americanas permaneceram em Fortaleza, e sempre havia desavenças entre ianques e nativos.

Desfile dos "pracinhas" em despedida. Uma multidão foi às ruas no adeus aos rapazes cearenses que partiam para se incorporar à Força Expedicionária brasileira - FEB

No dia 07 de maio de 1945, o Jornal O Povo anunciava em grande manchete o fim da guerra na Europa, publicando a Declaração do Almirante Doenitz, novo chefe do Governo da Alemanha, através do qual notifica a rendição alemã. A guerra continuaria ainda por algum tempo no Pacífico. Veio a bomba atômica e a destruição de Hiroshima e Nagasaki, então o Japão também se rendeu. 
E dos escombros da terrível hecatombe, surgiu um novo mundo.

extraído do livro de Blanchard Girão
O Liceu e o Bonde na paisagem sentimental da Fortaleza-Província
fotos do Arquivo Nirez


sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

O Povo nas Ruas

A segunda guerra estourou a 1° de setembro de 1939, quando as tropas de Hitler invadiram a Polônia, rompendo os acordos pacifistas celebrados entre os governos da Alemanha nazista e os da Inglaterra e França, através dos  quais um pedaço do território tcheco foi sacrificado em favor das pretensões expansionistas da Alemanha.
Era um quadro que exigia definições políticas dos demais países. A Itália fascista, ideologicamente identificada com o nazismo, tomou posição ao lado de Hitler. O Japão, onde o militarismo controlava o poder simbolicamente exercido pelo imperador Hiroito, fez o mesmo.  Em sentido oposto, Inglaterra e Franca deram por encerrado o período de concessões e tolerância para com a disposição alemã de expandir suas fronteiras e dominar mercados.

Além de Estados Unidos e Canadá, o Brasil foi o único país das Américas a entrar na Segunda Guerra Mundial

No Brasil, dois anos antes de começar o conflito, Getúlio Vargas implantara o Estado Novo, apoiado pelo esquema militar direitista que prevalecia no organismo interno oficial, a tal ponto que o general Góes Monteiro, Ministro da Guerra (comandante das forças armadas do país) recebera um convite do Governo alemão, através do seu embaixador no Brasil, para participar de manobras do exército nazista.
O grande complexo industrial germânico, liderado pela Krupp, que conseguira transformar a máquina bélica de seu país e na maior e mais poderosa do mundo, enviava propostas tentadoras ao governo brasileiro, com vistas a construção de uma siderúrgica, sonho acalentado por Vargas.


Em 1943, o Presidente norte- americano Roosvelt visita a Base de Natal 

Já em 1940, num encontro com altos comandantes militares, a bordo do encouraçado Minas Gerais, Getúlio pronunciou um discurso francamente simpático à causa hitlerista, o que levou o escritor cearense Gustavo Barroso, pertencente às fileiras do Integralismo, a elogia-lo publicamente.  
O navio brasileiro Siqueira Campos, abarrotado de armas alemãs para o exército brasileiro, foi aprisionado pela marinha inglesa, gerando um incidente diplomático de grande repercussão, o que levou o general Eurico Dutra a sugerir a declaração de guerra à Grã-Bretanha, o que se tivesse se consumado, significaria o engajamento oficial do Brasil ao Eixo, integrado por Alemanha, Itália e Japão.


O Navio Baependi, afundado na noite do dia 15 de agosto de 1942, por um  submarino alemão que resultou na morte de 270 pessoas.

Pressentindo o perigoso rumo tomado pelo governo brasileiro, os Estados Unidos, ainda neutros , mas já colaborando com a Inglaterra, ofereceram um empréstimo de 20 milhões de dólares para Getúlio montar sua siderúrgica. A Usina de Volta Redonda começou a ser  construída em 1941.
O ano de 1941 reservaria dois eventos decisivos para os caminhos da guerra: a invasão da União Soviética pelo exército alemão, e o ataque japonês à base americana de Pearl Harbour, destruindo grande parte da esquadra dos Estados Unidos.
No âmbito do Governo Vargas começa um processo de desagregação por conta do posicionamento nacional face ao conflito. O grupo democrático, cujo principal destaque era o Ministro das Relações Exteriores Oswaldo Aranha, conseguiu se sobrepor aos simpatizantes do nazismo, resultando disso a demissão de Felinto Muller, Chefe de Polícia do Distrito Federal, do advogado Francisco Campos, responsável pela elaboração da Constituição do Estado Novo, e Lourival Fontes, o "Dr. Goebels" tupiniquim.


Navio brasileiro Alcântara, afundado na Baía de Guanabara pelos alemães 

Enquanto isso tinha inicio as manifestações populares contra a Alemanha, e a favor da entrada do Brasil na guerra ao lado das nações democráticas. Os protestos se acirraram a partir de 1942, quando submarinos alemães afundam o cargueiro Cabedelo, o primeiro de 36 navios nacionais destruídos pelos submarinos nazistas no Atlântico Sul.
A cada afundamento de nossos barcos - entre os quais alguns de passageiros como o transatlântico Buarque, o Baependi, o Siqueira Campos - crescia a fúria popular.


A Praça do Ferreira sempre foi o espaço das grandes manifestações populares (foto da década de 1960, antes da reforma. Arquivo Nirez) 

A Praça do Ferreira, era o espaço das grandes manifestações antifascistas. O clímax desse estado de ânimo das massas brasileiras ocorreu no dia 18 de agosto de 1942, quando manifestações violentas deixaram o campo dos discursos e slogans, para descambar numa incontrolável desordem da massa encolerizada, que investiu contra tudo o que tivesse alguma vinculação com os países do Eixo.


A multidão toma o centro de Fortaleza em agosto de 1942, e promove uma violenta manifestação contra os países do Eixo e a indefinição do governo brasileiro diante do conflito. 

Centenas de estabelecimentos, pertencentes a alemães, italianos e japoneses foram invadidos, depredados e incendiados em todas as grandes cidades brasileiras, inclusive Fortaleza.  A cidade naquela época não passava de um burgo de pequeno a médio porte, com seus 200 mil habitantes, concentrando o grosso de sua movimentação urbana no centro.


As Lojas Pernambucanas, da firma Lundgren Tecidos, foi uma das atingidas pelo quebra-quebra (foto Ah, Fortaleza!)

A polícia do Estado Novo,  com destaque para um grupo de quepes vermelhos, a temível Polícia Especial, foi impotente para conter a multidão revoltada. Uma a uma, as lojas de alemães e italianos – Sapataria Veneza, Laboratório Bayer, As Pernambucanas (cujos proprietários nem eram alemães, mas foi confundida como tal, por conta de um dirigente que se expressava em língua alemã) – foram destruídas em poucas horas de turbulência.


A Casa Veneza, localizada na esquina das Ruas Liberato Barroso e Major Facundo, foi destruída durante a manifestação, fechou e tornou a abrir na década de 1980. Tempos depois, fechou em definitivo. O prédio encontra-se desocupado e até hoje ostenta o nome do estabelecimento. (foto de 1983 de Nelson Bezerra). 

Naquela ocasião apareceram os aproveitadores que promoveram um saque jamais visto em Fortaleza. Caminhões e outros veículos encostavam às portas dos estabelecimentos atingidos e carregavam montanhas de artigos, peças de tecidos, sapatos, caixas de medicamentos.
Treze dias depois das manifestações – que em Fortaleza chamaram de quebra-quebra – o governo Getúlio Vargas declarava oficialmente guerra aos países do Eixo: Alemanha, Itália e Japão.  A segunda Guerra Mundial terminou no dia 2 de setembro de 1945.


manchete do Jornal O Povo anunciando o fim da guerra na Europa

Fonte:
O Liceu e o Bonde na paisagem sentimental da Fortaleza – Província, 
de Blanchard Girão