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terça-feira, 20 de outubro de 2026

Bairro Parque Araxá

 

Até por volta da década de 50, a região onde hoje se encontra o bairro era coberta de mata, com poucas casas e terrenos alagados devido a existência de algumas lagoas. A família Diogo era proprietária das terras, que eram administradas por um homem conhecido na região por Zé Catreús. 

Zé andava pelas terras de seu patrão montado em seu cavalo, Pingo de Ouro, e aproveitou o espaço para plantar e criar vacas holandesas. Era conhecido assim porque veio de uma localidade chamada Prateús, perto de Pindoretama. Isso confundia as pessoas que achavam que ele era procedente de Crateús.




 As cercas das terras passavam por onde passam hoje as avenidas que fazem a divisa do bairro. No local, havia ainda uma grande cacimba, com água de excelente qualidade e vinha gente de muito longe em busca do líquido, que tinha fama de poder curar doenças. Essa fama daria mais tarde origem ao nome do bairro. 

Até então a região toda era chamada de Otávio Bonfim. Então ainda nos anos 50 os terrenos foram loteados e começaram a ser vendidos. A Imobiliária chamou o loteamento de Araxá, em alusão a cidade mineira de águas termais e suas propriedades terapêuticas e em referência à velha cacimba de águas termais. 


Antiga Rua do Imbigo, 1962 (imagem: Facebook/Fortaleza Antiga)

Em tempos passados, antes do loteamento, o local continha uma lagoa, que ficava localizada na antiga rua do Imbigo, atual rua Coreaú, entre as atuais Azevedo Bolão e Gustavo Sampaio. Chamada pela população de lagoa da Onça, segundo contam, devido à presença ou avistamento de onças na região em tempos antigos, quando  Fortaleza ainda contava com matas nativas e a presença desses grandes felinos de forma mais comum na fauna local.

Ao longo dos anos, por meio de repetidos processos de drenagem e urbanização, a lagoa da Onça foi totalmente aterrada na década de 1950. No lugar onde esteve a lagoa, foram construídas várias residências, que até hoje sofrem com os alagamentos em dias de chuva. 


O Parque Araxá limita-se com os bairros Farias Brito (Otávio Bonfim), Parquelândia e Rodolfo Teófilo. Delimitado ao norte pela Rua Azevedo Bolão e Av. Bezerra de Menezes; a leste pela Av. José Bastos; ao sul pela Av. Jovita Feitosa; e a oeste pela Rua Professor Anacleto e Pedro Ferreira de Assis.

Área: 0,48km²   População: 6.100 moradores (censo 2022)

 

 Fontes:

Fortaleza em Bairros

Diário do Nordeste

sábado, 3 de novembro de 2012

O Cinema e o Futebol

Um dos primeiros filmes produzidos em Fortaleza teve como tema o futebol. A obra intitulada Temporada Maranhense de Football no Ceará retrata os quatro amistosos realizados por um combinado de São Luís, em 1924, contra o Ceará (vitória do Ceará por 4x2), Fortaleza (vitória por 4x0), América (vitória por 2x0) e Guarany, time da capital já extinto (derrota por 4x0).

 Fundada pelo comerciante Alcides Santos, a equipe do Stella Football Club, foi extinta poucos meses antes da fundação do Fortaleza. A explicação para a extinção do time (Stella era o nome de um colégio suíço onde estudavam os filhos de alguns nobres representantes da alta sociedade de Fortaleza), e a posterior criação do Fortaleza com as mesmas cores, estava no fato de que Alcides Santos não sabia precisar a data de fundação do Stela, o que tirava seu caráter oficial.


Os jogos aconteceram no Estádio do Alagadiço, num terreno ao lado de onde hoje está a Igreja de São Gerardo, na Avenida Bezerra de Menezes. Este é considerado o primeiro registro cinematográfico do Ceará e do Fortaleza, clubes mais tradicionais da cidade.
O filme fez parte de uma série de registros produzidos a partir da década de 20 pelo cearense Adhemar Albuquerque, considerado pioneiro na produção documental de qualidade técnica no cinema fortalezense.

Igreja de São Gerardo, na Avenida Bezerra de Menezes, onde num terreno ao lado, ficava o Estádio do Alagadiço 
 
Duas décadas depois do surgimento dos primeiros cinemas fixos em Fortaleza, o cineasta passou a rodar documentários em películas 35 milímetros, sobre aspectos e acontecimentos diversos da capital e de cidades do interior. Dessa forma, ele captou em suas lentes, por exemplo, os colégios da época, a indústria do sal, e as paradas militares de 7 de Setembro. Sensível ao fenômeno do futebol, que começava a virar febre no Brasil, cobriu toda a excursão do combinado maranhense e a sua repercussão em Fortaleza.

 Cine Moderno em 1924, onde  foi exibido o curta

O documentário, um curta-metragem em preto e branco e sem áudio, foi lançado no dia 15 de outubro de 1924, no Cine Moderno. Sobre a produção, o jornal Correio do Ceará teceu largos elogios na edição do dia seguinte: trata-se de uma interessante cinta cinematográfica, contendo phases dos jogos que se realizaram, flagrantes das archibancadas e do movimento de torcedores e gentis torcedoras para o fiel do Alagadiço, onde se feriram as pugnas. Há ainda outros aspectos do desembarque dos desportistas visitantes, dos teams, captains, juízes e auxiliares na temporada, publicou o jornal, num estilo ainda carregado de termos ingleses e grafias da época.

 Sala de Projeção do Cine-teatro Majestic Palace, que também exibiu o filme de Adhemar Albuquerque 

Numa época em que as viagens entre as capitais do país demandavam dias, receber uma equipe de São Luís significava um evento extraordinário para os futebolistas. Na esteira da repercussão dos amistosos dos maranhenses contra os grandes clubes cearenses em 1924,  Temporada Cearense de Football no Ceará virou um grande sucesso, segundo conta o livro Fortaleza – A Era do Cinema, de Ary Bezerra Leite. No dia 22 de outubro, o filme foi novamente exibido no Cine Moderno e também no Majestic.

 Loja da Aba Film, império da fotografia e da produção de imagens, fundada por Adhemar em 1934.

Na época com 32 anos, Adhemar se tornaria ainda mais famoso na cidade com a Aba Film, empresa de fotografia criada por ele em 1934. O pioneiro do cinema documental de Fortaleza, faleceu em 1975, aos 83 anos. Deixou uma vasta filmografia, boa parte dela perdida com o tempo. Para os fãs de futebol, ele foi um visionário que enxergou o potencial cultural do esporte quando muitos o consideravam um mero passatempo. 

extraído da Revista Fortaleza, fasciculo 8
fotos do Arquivo Nirez
 

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

A Assombração do Cercado do Zépadre

O Cercado do Zepadre teve origem lá pela década de 1930, num terreno situado no bairro do Otávio Bonfim, onde havia mais de vinte anos, Dona Beliza G. Matos usufruía o direito de propriedade.

No principio era apenas um matagal que começou a ser ocupado por famílias vindas do interior. Pequenos lotes foram arrendados e permitida a construção de casebres, desde que o arrendamento fosse pago em dia. Mesmo sem alinhamento, sem pavimentação, sem qualquer estrutura, em pouco tempo cerca de 500 famílias já moravam no loteamento.


Igreja Nossa Senhora das Dores em Otávio Bonfim quando ainda em construção

A comunidade fica nos fundos das casas localizadas na Avenida Bezerra de Menezes, no trecho em frente à Praça dos Libertadores, que por sua vez, fica em frente a Igreja de Nossa Senhora das Dores. A principal via de acesso é pela Bezerra de Menezes na esquina com a Rua Justiniano de Serpa, onde tem uma agência do Bradesco.

O nome da comunidade – Cercado do Zepadre – se deveu a um beato morador do local: por repressão ou por vocação, um homem casto, devotado as coisas celestiais. Levava uma vida igual a dos padres, só faltava o hábito. Não bebia, não fumava, não dançava, nem frequentava lugares de má fama ou pouco recomendáveis. Nunca foi a um botequim, um bordel ou coisa parecida.

O Cine Familiar que encerrou suas atividades em 1968, era anexo à Igreja das Dores

Sua rotina diária resumia-se a cuidar e cultivar o cercado no plantio de flores, hortaliças e legumes como meio de vida, na terra que arrendara para tais explorações.
Assim vivia o Zepadre no seu cercado de considerável dimensão, quando surgiram as primeiras invasões por pessoas que também ergueram seus casebres, desrespeitando o lote maior já existente em poder do Zepadre.

Com o passar do tempo a coisa foi piorando e o antigo morador passou a ser incomodado pelos invasores que se avizinhavam. Como reclamasse da invasão do seu terreno, passaram a lhe tirar o sossego, pesquisando a vida do beato, cujos passos eram vigiados e perseguidos pelos antigos e novos moradores do Cercado.

A vida que até então era tranquila, passou a ser atormentada por insinuações maldosas, e especulações sobre suas preferências amorosas, assunto que a rigor, ninguém nada sabia, porque ninguém tinha acesso ao seu misterioso coração.

Eis que um belo dia, não mais que de repente, surgiram comentários sobre algumas estranhas aparições que estariam acontecendo no local;  falavam de uma visagem, uma assombração mais tarde identificada como uma mula sem cabeça,  que percorria o todo o cercado, com sinais indecifráveis, pondo tamanho medo nos moradores que tomavam proporções de pavor, a ponto de ninguém se atrever a permanecer na rua além do horário habitual.

Para exorcizar o mal assombro, foram sendo invocados e rezados todos os santos, todos os terços, todas as novenas e responsos, foram consultados videntes e cartomantes, tudo no intuito de descobrir que fenômeno era aquele, que metia medo, espantando, apavorando e recolhendo toda comunidade do Cercado do Zepadre, antes que a noite chegasse.

Certa vez o mais destemido morador do Cercado decidiu desvendar o mistério, mas a estratégia não deu certo porque o seu intento foi divulgado e naquela noite, a visagem não apareceu. Tudo ficou então previamente preparado para desvendar o mistério da burra sem cabeça, que perambulava pelo Cercado quase todas as noites.

Noite alta, no momento certo, depois da meia-noite, onde somente a escuridão era maior, eis que surge a certa distância o monstro sem cabeça, cujos espantosos olhos vermelhos impediam a visão dos aterrorizados, pedia passagem em desabalada carreira, envolvido por espessa capa preta, com um lampião aceso a querosene a sinalizar, um chocalho pendurado no pescoço, que vibrava numa melodia sinistra.

Diante de tal visão o intrépido morador desandou a correr e invadiu sua choupana em completo terror a gritar: - mulher, mulher me acode... é a burra do padre que está solta aqui no Cercado! 

O que ninguém sabia é que aquele aparecimento tinha endereço certo para a casa do seu amor proibido, que se localizava na quadra vizinha e que o esperava para mais uma noite de amor sem que fosse descoberto ou perseguido.

Era na quadra da madame, que estava montado o palco para o idílio noturno do casto Zepadre, que de casto e de padre não tinha nada, e para não ficar sendo comparado a um santo, gostava de correr durante a noite, assombrando os moradores da comunidade que levava o seu nome.


Essa história com algumas variações para mais ou para menos, foi extraída do livro:
ALMADA, Zenilo. O Bonde e outras recordações. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2005.