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domingo, 11 de setembro de 2022

Cem Anos do Rádio no Brasil

 

A história da Radiodifusão no Brasil começa oficialmente no dia  7 de setembro de 1922, com a transmissão um discurso do então Presidente Epitácio Pessoa, em comemoração ao centenário da Independência do Brasil. Porém a instalação do rádio de fato ocorreu efetivamente alguns meses depois, em 20 de abril de 1923 com a criação da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro. A existência do rádio foi possibilitada pela união de três tecnologias: a telegrafia, o telefone sem fio e as ondas de transmissão.



cartão de divulgação distribuído pela Rádio Iracema (imagem internet)

A emissora pioneira não tinha vínculos governamentais nem patrocinadores empresariais, legalmente, constituiu-se sob a forma de associação, reunindo inúmeros associados, popularmente chamados filiados, que contribuíam mensalmente com certa quantia monetária para mantê-la e cobrir as despesas normais de funcionamento.


Seus idealizadores foram intelectuais de diversas áreas, influenciados por Henrique Morize e Edgar Roquette-Pinto, e a emissora tinha uma proposta de caráter educativo, inclusive com aulas disciplinares na programação. Em fins dos anos 1920, surgiu uma outra emissora que revolucionou a maneira de fazer rádio no Brasil. Trata-se da Rádio Mayring Veiga, também no Rio de Janeiro, que se tornou a primeira emissora comercial do país e criou o rádio espetáculo, com apresentadores e cantores fixos, e programação que serviu de   modelo para diversas emissoras criadas no país naquele período.


No Ceará, a primeira emissora oficialmente instalada, foi a Ceará Rádio Clube – PRE 9, inaugurada em 1934, iniciativa do comerciante José Demétrio Dummar, sírio que migrara para o Ceará em 1910. Dummar já vinha fazendo diversas experiências para instalar uma emissora de rádio local desde 1931. Mesmo ainda não tivesse emissoras no Ceará, os aparelhos de rádio podiam captar sinais de emissoras de outros estados e até do exterior.




Fachada do prédio da Ceará Rádio Clube, em 1936, no bairro Damas  (fotos Rádio Universitária)

Programa de auditório na Ceará Rádio Clube: a partir da esquerda: Keyla Vidigal (cantora); Barbosa (locutor-radioator); Nozinho Silva (cantor); Mirian Silveira (radioatriz); Ismy Fernandes (radioatriz); Guilherme Neto (cantor e produtor); João Ramos (locutor-apresentador); Maria José Braz (radio atriz); Laura Santos (radio atriz) e Marilena Romero (cantora).
do livro de Marciano Lopes - Os Dourados Anos


A PRE-9 começou a funcionar precariamente em 1933, sendo oficializada a 30 de maio do ano seguinte.  O número de aparelhos era reduzido – na verdade, era um artigo de luxo, acessível a poucas pessoas, da mesma forma que era o aparelho de TV na época da inauguração da televisão no Ceará, em 1960 – embora, depois tenha se popularizado.


Apenas em 1948 a PRE-9 ganharia uma concorrente, com a inauguração da Rádio Iracema de Fortaleza, iniciativa dos irmãos José e Flávio Parente, associados a José Josino da Costa. A nova emissora foi instalada no Edifício Vitória, na esquina das ruas Guilherme Rocha e Barão do Rio Branco, onde ocupava o segundo andar e a “terrace” da cobertura.


O rádio viveu seu apogeu nos anos 40 e 50, e ao final da década de 1950, Fortaleza é a sétima capital brasileira com cinco estações de rádio: Ceará Rádio Clube, Rádios Iracema, Uirapuru, Verdes Mares e Dragão do Mar. Entrevista personalidades e políticos, cobre partidas de futebol, transmite concursos de misses, encena grandiosas novelas,  populariza cantores, atores e locutores e conta, para quem está em casa, as tragédias e comédias das ruas.



Prédio da Rádio Uirapuru, no centro, na esquina das ruas Clarindo de Queiroz e general Sampaio (imagem Arquivo Nirez)


Não se efetivavam inaugurações ou comemorações oficiais sem a presença de microfones. O rádio está em toda a parte, fala dos estádios, dos teatros, do Palacio da luz, do Aeroporto; não falta nem às festas públicas nem às despedidas dos que se vão.



Auditório da Rádio Nacional no Rio de Janeiro (foto agência Brasil EBC)

Um capítulo à parte no rádio cearense, foram os programas de auditório, criados na Rádio Nacional, no Rio de Janeiro, e que aqui se tornaram célebres, com apresentadores e estrelas locais, apresentados nas dependências da Ceará Rádio Clube e Rádio Iracema de Fortaleza. Os auditórios eram frequentados por todas as classes sociais e até a chamada classe A comparecia, a prova eram os carrões da época estacionados em volta das sedes da PRE-9 e da Rádio Iracema: “Cadilaques, “Aero-Willys” e “Chambords”. Sem outras opções além dos cinemas e das sorveterias, os programas de auditório eram um convite à descontração e ao mais puro relax.

    

Nas palavras de Marciano Lopes, o rádio praticado no Ceará nas décadas 40 e 50, tinha o glamour que naqueles tempos coroava todos os acontecimentos relacionados com a arte. E se o rádio não tinha a magia da imagem, como o cinema e a já emergente televisão, possuía, por outro lado, o fascínio e mistério daquilo que não se vê, só se ouve.


O rádio foi o principal veículo de comunicação no Estado até 1960, quando a televisão se tornou uma realidade para os cearenses, dez anos depois de chegar ao Brasil, o que não impediu a criação de novas emissoras de rádio a exemplo da Rádio Assunção, criada em 1962.


A pegadinha de Orson Wells

 


O poder da rádio sobre o comportamento das pessoas ficou comprovado com o histórico episódio de "A Guerra dos Mundos", uma transmissão radiofônica feita nos Estados Unidos, por Orson Wells, em 1938. 

 

Na noite de 30 de outubro, a rede de rádio CBS interrompeu sua programação musical para noticiar uma suposta invasão de marcianos. A "notícia em edição extraordinária", na verdade, era o começo de uma peça de radio teatro, que não só ajudou a CBS a bater a emissora concorrente (NBC), como também desencadeou pânico em várias cidades norte-americanas. "A invasão dos marcianos" durou apenas uma hora, mas marcou definitivamente a história do rádio.


O programa narrou a chegada de centenas de marcianos a bordo de naves extraterrestres à cidade de Grover's Mill, no Estado de Nova Jersey. A adaptação, produção e direção da peça eram do então jovem e quase desconhecido ator e diretor de cinema norte-americano Orson Welles.


A dramatização, transmitida às vésperas do halloween (dia das bruxas), em forma de programa jornalístico, tinha todas as características do radio jornalismo da época, às quais os ouvintes estavam acostumados. Reportagens externas, entrevistas com testemunhas que estariam vivenciando o acontecimento, opiniões de peritos e autoridades, efeitos sonoros, sons ambientes, gritos, a emoção dos supostos repórteres e comentaristas. Tudo dava impressão de o fato estar sendo transmitido ao vivo.


A CBS calculou, na época, que o programa foi ouvido por cerca de seis milhões de pessoas, das quais metade o sintonizou quando já havia começado, perdendo a introdução que informava tratar-se do radio teatro semanal. Pelo menos 1,2 milhão de pessoas acreditou ser um fato real. Dessas, meio milhão teve certeza de que o perigo era iminente, entrando em pânico, sobrecarregando linhas telefônicas, com aglomerações nas ruas e congestionamentos causados por ouvintes apavorados tentando fugir do perigo.


O medo paralisou três cidades e houve pânico principalmente em localidades próximas a Nova Jersey, de onde a CBS transmitia e onde Welles ambientou sua história. Houve fuga em massa e reações desesperadas de moradores também em Newark e Nova York. O jornal Daily News resumiu na manchete do dia seguinte a reação dos ouvintes: Guerra falsa no rádio espalha terror pelos Estados Unidos”  

  

 

Fontes consultadas:

LOPES, Marciano. Coisas que o Tempo Levou. A Era do rádio no Ceará. Fortaleza, 1994.

Rádio Sociedade do Rio de Janeiro. Disponível em https://atlas.fgv.br/verbetes/radio-sociedade-do-rio-de-janeiro

Jornal Diário do Nordeste – edição de 22.12.2007

1938: Pânico após transmissão de Guerra dos Mundos. Disponível em https://www.dw.com/pt-br/1938-p%C3%A2nico-ap%C3%B3s-transmiss%C3%A3o-de-guerra-dos-mundos/a-956037


 

  


sexta-feira, 6 de março de 2015

A Hora do Comerciário - O Programa do Horário do Almoço

Naquele tempo, início dos anos 40,  com a cidade ainda muito provinciana, o comércio abria às 7:30 da manhã, fechava para o almoço às 11:00, reabria às 13:00 e encerrava o expediente às 17:30. É difícil acreditar que num tempo que nem é assim tão distante, as lojas fechavam para o almoço, ficando o centro semelhante aos domingos e feriados, quando o movimento era quase nenhum, pois não haviam os camelôs que hoje ocupam todos os espaços. Também não existiam as movimentadas lanchonetes, os cinemas só iniciavam suas sessões a partir das 15 horas, com exceção do Majestic que abria ao meio dia, com uma programação popular de seriados e “westerns”.


A cidade pequena, o comércio fechado entre onze e treze horas, era dos mais insignificantes o movimento de pessoas e de veículos. Como os bairros eram muito próximos do centro, os comerciários iam almoçar em casa, e logo estavam de volta, permanecendo defronte aos estabelecimentos onde trabalhavam, aguardando a reabertura para o 2° expediente.


Foi por causa disso que a Ceará Rádio Clube descobriu que podia atenuar esse tempo de espera e criou o programa “A Hora do Comerciário”, que na verdade era um pequeno show ao vivo, que não era levado ao ar. Uma forma que a emissora encontrou para movimentar o centro naquela hora.

A Hora do Comerciário” era um programa descontraído, simples e sem maiores preocupações de produção, mas impecável na sua simplicidade, o incomparável padrão de qualidade, característica da emissora Associada.

discoteca da Ceará Rádio Clube no Edifício Diogo. Milhares de discos de cera cuidadosamente guardados em estantes envidraçadas
O auditório da Ceará Rádio Clube era de proporções mínimas e ficava localizado no oitavo andar do Edifício Diogo. O palco não passava de um estrado de madeira envernizada onde ficavam os animadores, os músicos e os cantores. Ao fundo, uma bonita e pesada cortina azul tirava a visão da grande parede de vidro. O micro auditório, porém, era bastante confortável, com poltronas anatômicas e janelas basculantes no lado nascente, garantindo ventilação contínua.

O apresentador galã João Ramos, era o animador de “A Hora do Comerciário” e apesar do fato de não estar no ar, era honesto e fazia tudo com muita alegria e animação. A simplicidade do programa não exigia a presença da orquestra que era composta em parte por velhos professores, apenas o chamado “Regional” acompanhava os cantores. 


Os cantores que se apresentavam na “A Hora do Comerciário” eram a estrelíssima Tânia Maria, Gilberto Milfont, Otávio Santiago, Mário Alves, Epaminondas e Evaldo Gouveia. Os três últimos viriam a formar o Trio Nagô, que fez enorme sucesso.

Trio Nagô
Do horário que antecedia o programa e até o seu término, era dos mais intensos o movimento dos dois elevadores e na escada do edifício Diogo, com o público naquele frenético sobe e desce, entra e sai, como se o fato de chegar e logo sair já valesse como presença ao espetáculo. O auditório era dos mais animados, moças e rapazes em seus uniformes de trabalho, que não economizavam aplausos às atrações que desfilavam sob o comando do carismático João Ramos.

Era assim o rádio naquele tempo, quando o Ceará contava com uma única estação com o requinte só comparável às grandes redes de televisão dos nossos dias.

extraído do livro Coisas que o tempo levou - A Era do Rádio no Ceará 

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

As Fantásticas Histórias do Doutor Batérico



Prédio onde ficavam os transmissores da Ceará Rádio Clube
Em outubro de 1941 a Ceará Rádio Clube (PRE-9) mudou-se das Damas (Avenida João Pessoa) para o Edifício Diogo e os transmissores foram para a Rua Senador Pompeu esquina com uma rua de um só quarteirão, sem denominação. Depois de vários anos lá, mudou-se, em 1960 para a Estância (hoje Dionísio Torres) e o terreno dos transmissores foi vendidos. A rua sem denominação passou a chamar-se Rua PRE-9.


Em fins da década de 1950, as noites domingueiras da Ceará Rádio Clube (PRE-9) eram lideradas por alguns programas  bastante populares e de forte audiência. Um desses programas era intitulado Eles Fazem a Cidade, que fazia tanto sucesso que não tinha hora para acabar.
Eles Fazem a Cidade buscava por tipos especiais, que por suas excentricidades, seu comportamento exótico ou curioso, conquistavam espaço e popularidade no meio em que viviam. Era o caso de Dalila, uma velhinha simpática que, por esclerose ou outra patologia qualquer, dizia-se deputada estadual, frequentando normalmente as sessões de Assembleia Legislativa, como se fosse dona de um mandato popular. Dalila foi ao programa e falou por mais de uma hora sobre suas atividades políticas. 

 Edíficio Pajeú para aonde a PRE-9 mudou-se em 1949

Sucesso, porém, obteve José Teodorico, o célebre Dr. Batérico, emérito contador de histórias fantásticas, todas produto de sua fértil imaginação, a par de uma capacidade incomum de narrar com detalhes, fatos que, em determinados momentos, chegavam a convencer.  Noutros, as histórias eram tão absurdas, que logo deixavam claro a arte que o Dr. Batérico exercia com raro talento:  a de contar lorotas.
Figura conhecida, nascida na classe média das primeiras décadas do século passado, Batérico era mecânico de velocimetros, proprietário de uma oficina localizada na Rua Meton de Alencar, próxima a Faculdade de Direito. Lembrando seus dias de artista do velho Centro Artístico da Avenida Tristão Gonçalves, Batérico tocava piano no programa Coisas que o Tempo Levou, comandado por José Limaverde.  

 os programas de auditório eram as maiores atrações das emissoras de rádio da época

Pianista de ouvido, capaz de executar com certa graça algumas peças populares, a imaginação criadora de Batérico concebeu a história de que, antes da Segunda Guerra Mundial, em andanças pela Europa (o mecânico/pianista  nunca saiu de Fortaleza), chegou à Roma e fez amizade com o ditador fascista Benito Mussolini, a quem, assegurava, dera aulas de piano.
Como especialista em mecânica automotiva, viu-se transformado em mestre do volante, ensinando a ninguém menos do que a Francisco Franco, o ditador espanhol. E foi amigo de Stalin, com quem costumava beber cachaça, nas noites geladas de Moscou, em pleno Kremlin, cachaça levada do Ceará, muito apreciada pelo líder russo.
Pontilhado de conversas assim, o programa com o Dr. Batérico invadiu todos os horários, com os ouvintes lembrando por telefone, essa ou aquela história famosa que já ouvira do pianista, como a do disco-voador que sofreu uma pane em Fortaleza. Incrível – informava Batérico ao microfone – mas a Base Aérea mandou chamá-lo em casa, com urgência e em absoluto sigilo, para tirar a nave espacial do “prego”.   
Os detalhes eram simplesmente sensacionais. O tamanho gigantesco de uma chave de fenda de que só ele dispunha; a altura dos tripulantes da nave que, para serem ouvidos, exigiam a colocação de um cavalete para atingir a sua cabeça. Havia ainda uma “Luana” (os tripulantes eram da Lua e não de Marte, eternos suspeitos dessas visitas intergalácticas), de tamanho descomunal que, ao dar-lhe um beijo de agradecimento quando da conclusão do trabalho, quase o esmaga com a força dos braços.
As risadas ecoavam por toda a Fortaleza naquela noite. Batérico dominava a audiência num show de potocas inéditas e extremamente cômicas. Um sucesso inesquecível. 

extraído do livro de Blanchard Girão
"Sessão das Quatro"  cenas e atores de um tempo mais feliz

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Fortaleza anos 40 – A Cidade se Diverte


Embora houvesse poucas opções, viver em Fortaleza representava dispor de um espaço que oferecia lazer e diversão. Nos anos 1930/40 o banho de mar começou a ser apreciado e difundido largamente, embora o uso de calções e maiôs fosse desaprovado e sofresse sérias restrições por parte da igreja.

O cinema era outra atração, havendo várias salas de projeção nos bairros mais longes do centro. Os mais famosos eram o Majestic e o Diogo. Na década de 1950, surgiu o maior e mais luxuoso, o São Luís. Para se ter acesso a estes cinemas, era preciso estar bem trajado, os homens de paletó, as mulheres com vestidos finos, luvas e chapéus. 

Cine Joaquim Távora, um dos "poeiras", como eram chamados os cinemas de bairro. Ficava na Avenida Visconde do Rio Branco, 2406 (arquivo Nirez)  

Conta-se que o famoso cineasta Orson Welles, quando de sua passagem por Fortaleza, foi barrado no Diogo, por não estar convenientemente vestido de paletó. Na famosa sessão das quatro, no Diogo, aos Domingos, estava a "nata" da juventude. Os filmes, na maioria de origem americana, continuavam a influenciar o comportamento das pessoas e a difundir o american way life.

Fundado em 30 de novembro de 1932 com o nome de Liga Massapeense, depois denominado Centro Massapeense. Estava localizado na esquina da Avenida Aquidaban (hoje Historiador Raimundo Girão) com a Rua Barão de Aracati, na Praia de Iracema (arquivo Nirez) 
  
A cidade contava com  clubes refinados para as classes abastadas, como o Náutico, o Ideal (o único com piscina) o Líbano, os Diários e outros, onde ocorriam suntuosas festas, tertúlias e bailes carnavalescos com orquestra. Os clubes favoreciam a transmissão de valores e o relacionamento social, namoros e casamentos entre as classes alta e média.

Olhar vitrines tornou-se um lazer para as elites, o consumismo era cada vez maior, as pessoas estavam sempre procurando adquirir as novidades, que mostravam seu poder econômico e o ingresso na modernidade. 

Anúncio da Loja Irmãos Pinto, que funcionava na Rua Major Facundo, publicado no jornal Correio do Ceará

Os jornais anunciavam os últimos modelos de eletrodomésticos, que ajudavam as donas de casas nos afazeres domésticos. Ser feliz, era consumir e ostentar.  Considerava-se um glamour aparecer nas colunas sociais dos jornais, a ponto dos colunistas ganharem uma importância equivalente a de uma autoridade, além de prestígio político.

Estádio Presidente Vargas quando existiam apenas duas cabines de rádio, a Ceará Rádio Clube e a Rádio Iracema - final da década de 1940 (arquivo Nirez)

O futebol atraía multidões masculinas para o Estádio Presidente Vargas, onde eram disputadas animadas partidas. Além do futebol o povo sentia-se atraído por festas religiosas e procissões. O carnaval era severamente vigiado e controlado pelas autoridades, tornando-o ainda mais minguado. Apenas nos clubes havia bailes carnavalescos mais animados e menos vigiados. 

Cronista Social Robert de Singerie (foto do livro Os Anos Dourados, de Marciano Lopes)

Os moradores ainda se reuniam em rodas de cadeiras nas calçadas nos finais de tarde, mas o costume já começava a rarear. Condenavam-se os namoros obscenos, o vício do álcool, a leitura de revistas e livros indecentes. A vigilância conservadora atingia igualmente os concorridos programas de auditório nas emissoras de rádio – em 1948 surgiu a Rádio Iracema, concorrente da até então única emissora, a PRE-9. O rádio reinava como meio de comunicação e lazer – as radionovelas faziam enorme sucesso.  Frequentemente passavam por aqui artistas do Centro-Sul, para shows que atraiam multidões.

Inspirando-se nos ídolos de Hollywood, os jovens da elite tinham como objeto de consumo a lambreta – um elemento de diferenciação e autoafirmação para aqueles rapazes, símbolo de boa condição financeira, poder, velocidade e arma de sedução.

Extraído do livro
História do Ceará, de Airton de Farias