quinta-feira, 21 de junho de 2012

A Esquina da Broadway e a Ferrugem

Eram tempos em que as mulheres ainda usavam saias, assim, plural, porque além da principal havia outra por baixo, a combinação, peça do vestuário feminino que caiu em desuso há muito. Mas por conta da saia, as mulheres vez por outra passavam  vexames. Qualquer descuido e lá o vento atirava a vestimenta para o alto, deixando-as no maior sufoco, enquanto lutavam em desespero para recobrir a beleza exposta.

A Esquina da Broadway em diferentes épocas: ainda com o Sobrado do Comendador Machado (demolido em 1927) no lugar do Excelsior Hotel e sem o edifício Granito 

Os desocupados de sempre, frequentadores contumazes da Praça do Ferreira, logo perceberam que na confluência das Ruas Major Facundo com Guilherme Rocha, o vento canalizava com força, aumentando a frequência  do desnudamento das recatadas senhoritas e madames. Nasceu então a Esquina da Broadway, nome da loja do Bardawil que funcionava ali. 

A mesma esquina - cruzamento das Ruas Major Facundo com a Guilherme Rocha já com o Excelsior Hotel (inaugurado em 31 de dezembro de 1931)

Era o ponto estratégico dos desocupados. Diziam que algumas jovens faziam opção pelo trajeto de modo a expor, como numa vitrine, suas formas. Mas a maioria das mulheres evitava passar por ali e, se o faziam, tomavam as devidas precauções.  Mas da mesma maneira que a esquina da Broadway – ou Esquina do Pecado, como também era conhecida – e imediações, como a calçada do futuro Cine São Luiz, cujos tapumes ensejavam também o aumento da ventania, valiam como uma passarela para o desfile das beldades, por lá passava constantemente uma figura muito popular na Fortaleza daqueles dias: a Ferrugem.
Os que viveram naqueles tempos recordam da Ferrugem, uma pobre mulher com forte perturbação mental, que cortava o cabelo a quase zero, o que aliado a seus traços fisionômicos um tanto másculos, davam-lhe uma aparência masculina.

A Esquina da Broadway com o Edifício Granito - inaugurado em 1934 - e o Abrigo Central, inaugurado em 1949. 

Na década de 60, sem o Abrigo Central, na Praça do Ferreira reformada pelo prefeito José Walter, e uma profusão de prédios nos arredores

Logo a molecagem percebeu que a mulher perdia o pouco de razão de que dispunha quando via  sua feminilidade ser posta em dúvida. E quando ela passava, os gritos da canalha podiam ser ouvidos de longe: é homem! É homem! A Ferrugem então desatinava por completo: em plena esquina do pecado, ou na calçada do São Luiz, caprichava em provar seu verdadeiro sexo.  Se as outras mulheres naquele local, se esforçavam para impedir a ação do vento, Ferrugem, ao contrário, não tinha o menor problema em exibir a magreza de seu corpo maltratado. Estava aberta a função, o espetáculo característico daquele local de Fortaleza.


fotos do Arquivo Nirez
Extraído do livro
Sessão das Quatro, cenas e atores de um tempo mais feliz
De Blanchard Girão        

quarta-feira, 20 de junho de 2012

A Primeira Igreja Matriz de Fortaleza




Desde os tempos coloniais, as vilas brasileiras tinham em suas fundações elementos que caracterizariam a presença administrativa e o potencial de desenvolvimento da região. O pelourinho era um desses elementos, pois justamente simbolizava a presença de uma justiça pronta para punir as ações que fossem ao encontro de interesses metropolitanos e senhoriais.  Outra edificação que era destacada nas vilas, era a da igreja Matriz, pois simbolizava a presença da igreja católica, sempre ávida em aumentar o número de adeptos no Novo Mundo, e controlar corpos e almas dos fiéis.

Igreja de N.S. da Conceição em Jaguaribe-Mirim, em desenho de José dos Reis Carvalho, membro da Comissão Científica que visitou o Ceará entre 1859 e 1861. 

E Fortaleza, mesmo depois do período colonial e até a primeira metade do século XIX, travou uma batalha de décadas para ter uma construção que servisse de matriz, e marcasse seu papel religioso como capital.

Numa sociedade inspirada por profundo sentimento de religiosidade, o estado de suas igrejas  poderia muitas vezes revelar a precariedade das edificações em geral, notadamente numa vila pobre como Fortaleza. O bispo de Pernambuco D. João Marques Perdigão, em visita ao Ceará em 1839, no dia 15 de agosto, foi celebrar sua primeira missa em Fortaleza.

Essa missa foi revestida de especial aparato, dado que era oficiada pelo bispo e no preciso dia da padroeira  da capital: Nossa Senhora de Assunção. O lugar da celebração deveria ser na Matriz. O culto contava com um bom número de fiéis, entre eles,  nomes de destaque na administração pública e nos negócios da cidade. A maioria em pé e alguns poucos sentados, numa disposição que era mediada pelas diferenças sociais, diversos fiéis assistiam à missa proferida em latim.

Praça General Tibúrcio com a Igreja do Rosário ao fundo (arquivo Nirez)

Uma cerimônia religiosa desse porte só poderia transcorrer na Matriz; mas não foi o caso. O desconforto de realizar a missa numa igreja que não a Matriz transparecia evidente no discurso do bispo. E o motivo era óbvio: em 1839 a capital do Ceará ainda não possuía uma Igreja Matriz, que vinha sendo morosamente construída.  O local da celebração era a Igreja do Rosário, uma pequena capela que exercia provisoriamente o papel de Matriz.

Na tarde do dia 17 do mesmo mês, D. Perdigão foi visitar as obras da que seria a futura matriz de Fortaleza. Saiu decepcionado; as observações do prelado sobre o futuro templo não foram nada estimulantes:  “apesar de grande, contém alguns defeitos essenciais, como são arco cruzeiro excessivamente alto e apertado, a capela-mor muito estreita e o corpo da igreja muito apertado relativamente à altura”.

Mesmo na provisória matriz, a Igreja do Rosário, Perdigão abriu a visitação numa procissão debaixo do pálio, acompanhado do clero, das irmandades do Santíssimo Sacramento e de N. S. do Rosário, com uma plateia de aproximadamente 1000 pessoas, incluindo o presidente da Província.

A antiga Igreja da Sé em 1914 (arquivo Nirez)

Em 1840, mesmo após a visita de D. Perdigão, as dificuldades para a construção da matriz de Fortaleza não haviam sido superadas. Inquieto, depois de tantos anos de tentativa, o então presidente da província Francisco de Sousa Martins continuava buscando soluções. No ano seguinte, a obra recebia um novo impulso. O Imperador determinou a criação de loterias para serem  arrecadados 120:000$000 durante quatro anos. Nomeava ainda, três nomes para a comissão da construção da igreja: José Joaquim da Silva Braga, Joaquim Soares Silva e João Franklin de lima.

Enquanto a igreja matriz não era construída, a Igreja do Rosário – a única da capital – era caracterizada como estreita. E nesse estreito recinto, sepultavam-se vários cadáveres,  de modo que os fiéis que costumavam lotar a igreja, acabavam convivendo com um ambiente insalubre e altamente contaminado.

Igreja do Rosário atualmente (foto Fátima Garcia)

A incapacidade e a insalubridade da convivência entre mortos e vivos no Rosário justificavam os planos provinciais para erguer na capital do Ceará o cemitério do Croatá e a Igreja Matriz. Mas o tempo passava e a matriz não ficava pronta. Em 1843 o presidente da província reclamava que á igreja ainda nem havia sido concluída e suas paredes já sofriam a ação devastadora do tempo.  Em 1849, a obra foi mais uma vez interrompida, por motivo de falta de recursos, pois a receita havia se esgotado. No dia 21 de maio daquele ano, o Ministério do Império prometera a extração da última loteria destinada a financiar a obra. A Matriz só foi concluída e inaugurada no ano de 1854, com o nome de Igreja de São José.

dia da celebração da última missa na antiga Igreja da Sé. No dia seguinte, começou a demolição (foto do livro Geografia Estética de Fortaleza)


No dia 11 de setembro de 1938 a antiga Sé  foi demolida. As razões da demolição eram convincentes: uma forte rachadura nas bases da construção pelo lado do mar, levou os engenheiros da década de 30 a emitirem o alerta de perigo.  D. Manuel da Silva Gomes, então Arcebispo de Fortaleza, autorizou a demolição do templo.


Extraído do livro
Entre o Futuro e o Passado – aspectos urbanos de Fortaleza (1799-1850)
De Antônio Otaviano Vieira Jr. 

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Fortaleza e o Passado


Praça do Ferreira, com o prédio do Majestic Palace e a residência de Luiz Severiano Ribeiro (Arquivo Nirez)

Alguns poucos dizem sempre e poucos prestam atenção: o fortalezense, de modo geral, não dá a mínima importância a essa coisa que, noutras partes do Brasil, é quando não preocupação, pelo menos querência das maiorias, ou seja, apego às boas tradições.  Não fora o trabalho beneditino a que se entregaram no passado, homens como Guilherme Studart, João Nogueira,  Paulino Nogueira e João Brígido, entre outros mais, quanta coisa interessante, por muitos aspectos, inclusive o pitoresco, não estaria totalmente ignorada, mesmo para os raros que, hoje em dia integrantes das chamadas novas gerações, tivessem desejo de adentrar-se em nosso passado urbano.
O que aqui vai dito é consequência das preocupações de um homem que, ainda menino, apercebeu-se desolado, de que a nossa Fortaleza de Nova Bragança, quarenta anos atrás, começou a ser impiedosamente sacrificada no pouco, mas de qualquer maneira significativo, que resguardava, como lembrança de seus primeiros anos de vida, no complexo de evolução das cidades nordestinas.


Lagoa do Garrote (arquivo Nirez)
A Lagoa do Garrote fica dentro do Parque da Liberdade (Cidade da Criança), no centro de Fortaleza 

Estamos no ano de 1973, aquele que assinala o sesquicentenário da elevação do arruado de após Martim Soares Moreno aos foros de vila e cidade. E achamos que tudo quanto houver de assunto relativo aos fatos da Cidade Amada deverá vir à tona, para que as novas gerações não sejam levadas a pensar que o que hoje ai está seja obra miracular apenas da modernidade e, sim, conscientizarem-se de que tudo é resultado do trabalho, quase em penúria, dos primeiros que aqui se plantaram, no século XVIII, entre as vertentes que eram duas, em que se bifurcaram, naqueles idos, às águas rumorejantes do ribeiro de Marajaitiba, hoje o quase desaparecido Pajeú;  a vertente leste, aquém da margem esquerda do braço do riacho ainda visível nalguns trechos; a outra, mais para Oeste, que ia ter ao antigo areal da chamada Lagoinha, mais para as bandas de Jacarecanga.


Riacho Pajeú, canalizado, poluído e degradado

Achamos que, já a esta hora, um programa de destinação escolar deveria estar sendo organizado por quem de comprovada competência a saber no caso, por exemplo, Manuel Albano Amora e Mozart Soriano Aderaldo, do Instituto do Ceará, com o fim específico de levar à juventude das nossas escolas primárias e de ensino médio, um pouco daquilo que se constitui a história das nossas tradições e de nosso desenvolvimento.
É necessário levar ao futuro cidadão de Fortaleza nomes como os de Barba Alardo, Governador Sampaio, José Alves Feitosa, Silva Paulet e tantos outros, sem esquecer jamais o do Boticário Ferreira, por conta de cujo esforço e dedicação correram os primeiros impulsos de uma cidade que João Brígido, dela tão amante, já dizia em fins do século passado, teria uma destinação das mais altas e nobres na vida social, política e econômica do nosso país.


Praça dos Mártires (Passeio Público), antigos Largo da Fortaleza, Largo da Pólvora, Largo do Paiol, Largo do Hospital da Caridade e Praça da Misericórdia 

É preciso levar estudantes, em obediência a um programa bem coordenado, a verem o Quartel-general da 10ª Região, antigo aquartelamento das chamadas tropas de linhas lusas, que aqui vieram dar apoio aos desbravadores, a partir de Pero Coelho e Soares Moreno.  Levá-los ao hoje tão sacrificado Passeio Público, antigo Largo da Pólvora, testemunha de longo tempo da vida da cidade, desde quando esta não era mais que um modesto burgo de meia dúzia de casas, nas cercanias da Praça da Sé. 


Palácio Episcopal - na administração do prefeito Vicente Fialho, o palácio foi desapropriado e é hoje o Paço Municipal (foto Diário do Nordeste) 

Mostrar-lhes a Catedral em construção e chamar-lhes a atenção para o imperdoável crime que foi a demolição da igreja matriz, pobre mais cheia da história da Fortaleza amada. Leva-los em grupos, aos terrenos onde está o prédio do antigo Palácio Episcopal, hoje praticamente abandonado e objeto de transação comercial, e mostrar-lhes o pouco que ainda resta do verde de antigamente no centro da cidade, árvores algumas delas testemunhas da nossa história, vicejando ainda às margens do cada vez mais sacrificado Pajeú. 


Conjunto arquitetônico Igreja do Pequeno Grande e Colégio da imaculada Conceição (Arquivo Nirez)

Mostrar-lhes o centenário Colégio da Imaculada Conceição, a Praça da Escola Normal, e dizer-lhes que, há um século a bem dizer, ali terminava o perímetro urbano e o que existia mais para o leste e norte eram raras construções esparsas, no areal sem fim. 
Mostrar-lhes as águas sempre poluídas , do lago existente na Cidade da criança e dizer-lhes que aquilo, no tempo da cidade menina, era a lagoa do garrote e que aquela área centro-sul da cidade amada, segundo opinião de João Brígido e outros, foi terreno que o vulgo denominava “marinhas”, ou porque até ali faziam suas incursões, periodicamente, as águas do Atlântico. Essas mesmas águas, que com o passar dos anos, se foram afastando sempre e sempre, a ponto de deixarem hoje, como terra firme, a baixada que vai do platô que é a Avenida Monsenhor Tabosa até as ruas e avenidas mais próximas do mar dos nossos dias. Num tempo em que os palhabotes e as sumacas, vindos dos portos do sul e do norte, encontravam acostamento tranquilo em frente à Igreja da Prainha e as ondas do mar batiam na muralha do forte de Nossa Senhora da Assunção.


Cruzamento das Avenidas Historiador Raimundo Girão (antiga Avenida Aquidaban) e Monsenhor Tabosa, (antiga Rua do Seminário) no encontro das duas fica a Avenida da Abolição (Arquivo Nirez)  

E outras coisas assim precisam ser ditas, reavivadas, quando não com amostragem direta, ao menos através de memórias, já que muito foi destruído pela insânia dos que, dominados pela mística do progresso, mandaram sempre às favas, por desinteresse ou falta de sensibilidade, o pouco que possuímos merecedor de preservação carinhosa.
Quem viajou por esses velhos Brasis, quem morou ou apenas demorou em cidades como o velho Rio de Janeiro, Salvador, Belém, São Luis, Recife, há de ter notado, sem grande esforço, a existência de uma constante afetiva, na paisagem de cada uma delas: o doce perfume da antiguidade, não já apenas em prédios, logradouros e mesmo ruas, que são conservadas como retrato de épocas já vividas, mas também e, sobretudo nas denominações de certas ruas, praças e bairros. 


A Rua do Rosário manteve o mesmo nome desde a época da colônia, em fins do século XVIII. É a rua mais antiga de Fortaleza

É o tributo das novas gerações  àquelas que já se foram. A guarda e o zelo ao passado, levando os de hoje a derramarem o olhar sobre o que se foi, mas permanece de maneira inefável, por força de nomes que estabelecem pontes entre umas  e outras épocas.
O belenense dos nossos dias, inapelavelmente, fala em Igarapé das Almas quando se refere a uma determinada área urbanizada do centro da cidade. Na Bahia, então, a coisa é de enternecer: Água de Meninos, Rua do Pelourinho, Itaparica e tanta coisa gostosa, e tanta coisa regional e preciosa.


O bairro conhecido como Calçamento de Messejana, Estrada de Messejana ou Estação recebeu o nome de Joaquim Távora, por decisão do prefeito César Cals, em 1930 (Arquivo Nirez)

Aqui na Fortaleza, meu Deus, como tudo é artificioso e destituído de raízes! Onde estão os nomes e expressões antigos de bairros pobres, hoje ricos?  Quem se lembra da Tijubana, ali para as bandas do Cemitério de São João Batista? Quem ainda fala nos Guajirus, na zona das atuais ruas Gonçalves Ledo e João Cordeiro, parte que demanda o chamado sertão? E o Mata Galinha? E o Alto da Balança? E o Calçamento de Messejana? E a Itaoca e a Precabura? E o Alagadiço e o Seminário? E a Praça dos Coelhos?


Praça José Bonifácio (Praça do Quartel da Polícia) é a antiga Praça dos Coelhos (Arquivo Nirez)

Fortaleza é por excelência, a cidade dos nomes de ruas homenageando a Deus e ao mundo. Uma cidade que não dá bolas ao passado gostoso dos que vieram antes de nós.
Há ruas, em nossa cidade, com nomes de gente que não resiste à mais superficial indagação histórica, dados numa gratuidade que encontra razão de ser, quase sempre, na bajulação, no parentesco, na demagogia, no compadrismo. O que é uma pena, e às vezes, um crime. 


Praça da Sé, antiga Praça do Conselho, Largo da Matriz, Praça Pedro II, Praça Caio Prado, Praça Dr. Pedro Borges. 
A Praça da Sé parece ser a primeira praça de Fortaleza, em 1726 já aparece o espaço da praça no 1° mapa de Fortaleza, atribuído a Manuel Francês. 
A antiga Sé - Igreja de São José  -  foi demolida em 1938  (Arquivo Nirez)

Onde era a Praça do Conselho? É uma das primeiras testemunhas do nascimento da cidade, hoje Pedro II.  Onde era a Rua das Flores, que é também dos tempos da cidade criança? Perdeu seu nome poético há muito tempo: chama-se Castro e Silva, E como há na vida evolutiva da cidade, vários Castro e Silva, um inclusive dos tempos do Governador Sampaio, não se sabe, assim de improviso, a qual deles diz respeito a denominação. E Rua das Flores era denominação que vinha mesmo a calhar, sabido que dantes como ainda hoje, ligava a velha Sé ao cemitério.


Praça Carolina, no início do século XX, depois mudada para José de Alencar (Arquivo Nirez)
A antiga praça, foi subdividida, numa parte foi construído o prédio dos Correios e Telégrafos; noutra uma agência do Banco do Brasil;  e noutra o Palácio do Comércio. Sobraram alguns metros entre a primeira e a segunda construção, para uma espécie de respiradouro: é a Praça Waldemar Falcão. 

Tempo houve em que, no centro urbano, encontrava-se a Praça Carolina, depois mudada  em José de Alencar. Onde a Rua Direita dos Mercadores? Era a que é hoje por uns chamada Sena Madureira e por outros, Conde D’Eu. E o Beco dos Pocinhos, tão das lembranças dos cinquentões, ligando a Praça do Ferreira à da Escola Normal, sempre enfeitado pelo branco e vermelho e o branco e azul das meninas do imaculada e do velho estabelecimento estadual de ensino, ao tempo em que, tanto pobres como ricos, desde que estudantes, desconheciam os luxos  do transporte em automóvel.


Rua Formosa (atual Barão do Rio Branco) em foto de 1910 (Arquivo Nirez)

E a Rua Amélia? E a Rua da Palma? E a Rua do Fogo? E a da Boa Vista, a da Alegria, a Rua Formosa? E a da Trindade, a do Lago? E a Travessa das Trincheiras, a cuja denominação uns dão foros de belicosidade de tempos passados, enquanto outros aludem a morada, ali, de umas senhoras que se dedicavam a preparar jantares de leitões e aves, que já enviavam trinchados a quem os encomendava?


Este já foi o cruzamento da Rua da Palma com a Rua das Trincheiras

Está bem claro que ninguém iria desejar, de uma hora para outra, a volta, em termos absolutos, de todas as velhas denominações. Reconhecemos que algumas nem mesmo se coadunariam com a nossa época, nos costumes e preconceitos de modernidade. Mas o que a municipalidade poderia iniciar, com cuidado para lograr permanência através das administrações, era um plano de confecção e afixação de placas identificadoras, contendo a denominação atual, precedente ou simplesmente graciosa e, abaixo, com o mesmo destaque, a denominação da História e da Saudade.


fotos: Fátima Garcia

Extraído do livro
Crônicas da Fortaleza e do siará grande, de Otacílio Colares
livros consultados
Fortaleza Antiga praças, ruas e esquinas, de Marciano Lopes
Fortaleza Velha, de João Nogueira

domingo, 17 de junho de 2012

Theatro José de Alencar - 102 anos de espetáculos

O Theatro e Praça José de Alencar em 1930

Inaugurado oficialmente no dia 17 de junho de 1910, o Theatro José de Alencar comemora seus 102 anos como a mais bela e a mais importante casa das Artes cênicas do Ceará, e a maior referência cultural do Estado.
O raro espécime de arquitetura eclética foi erguido entre dois outros edifícios, uma escola e um quartel de polícia. Além da sala de espetáculos, em ferro fundido e madeira importada da Europa, compunham o teatro um primeiro prédio que o guardava do contato da praça, e uma caixa de cena em tijolo e madeira, com inovações técnicas até então inusitadas para o teatro local.


detalhes da fachada do Theatro José de Alencar

A arquitetura de ferro do TJA, com suas varandas, escadas, passarelas, camarotes e frisas vazadas, servia por excelência, para mostrar o público, satisfazer suas vaidades. Bom gosto e requinte não faltavam ao teatro. Guilherme Rocha, o intendente da época, afirmava: “os grandes monumentos de um povo são escolas de virtudes cívicas e tem missão civilizadora. Neles se aprende a amar o progresso que se afirma pela solidariedade social e pela pacificação dos espíritos e dos corações”.



O Theatro foi totalmente restaurado no período de 1989 a 1991, sendo devolvido à cidade conservando todas as suas características arquitetônicas e históricas.    


Para países não industrializados como o Brasil, assim como para as províncias como a do Ceará, onde tudo que se alcançara em matéria de progresso era o comércio exportador-importador com a Europa, ter um teatro de ferro  dava a ilusão de haver entrado no pórtico da civilização. Vinha ele somar-se a uma série de outros edifícios e equipamentos urbanos que caracterizaram o período da belle époque no Ceará. 
O Theatro José de Alencar, foi tombado pelo IPHAN em 1964.


fonte: 
Theatro José de Alencar - O Teatro e a Cidade

sexta-feira, 15 de junho de 2012

A Usina do Mucuripe

Falta de Luz é bom pra namorar
mas depois disso nem é bom falar
a usina lá do Mucuripe
todo mês tem gripe
não quer mais funcionar
(Falta de Luz, 
 de Irapuan Lima e Mário Filho)

Prefeito Paulo Cabral de Araújo

A questão do fornecimento de energia elétrica em Fortaleza tornou-se prioridade na gestão do prefeito Paulo Cabral (1951-1955), que promoveu estudos visando a criação de uma autarquia municipal de luz e força e a construção de uma usina termelétrica no bairro do Mucuripe.  Para atenuar o déficit de energia elétrica em Fortaleza enquanto a usina do Mucuripe ainda não estivesse concluída, o governo municipal recorre a fábricas particulares para que estas forneçam o excedente em sua capacidade de geração de energia.  

Durante o ano de 1952, são contratadas a Fábrica São José, de Gomes e Cia, e a Fábrica Progresso. No ano seguinte incorpora-se ao sistema a Brasil Oiticica, com o fornecimento de energia elétrica com a demanda máxima de 550 KW, e em 1954, o Cotonifício leite Barbosa, sujeito a demanda máxima de 300 KW.


assinatura do contrato pelo representante da Westinghouse (fabricante dos equipamentos da Usina), assistida pelo Prefeito Paulo Cabral e os deputados Paulo Sarasate e Virgílio Távora - 30.06.1952 

Outra providência adotada para o grave problema de déficit de energia elétrica foi instalada em janeiro de 1954, no bairro do Meireles, na confluência das Avenidas Barão de Studart e Monsenhor Tabosa, um grupo diesel-elétrico. A Usina Auxiliar do Meireles, como passou a ser chamada, foi adquirida pelo valor de CR$ 4.241.787,50, om empréstimos de curto prazo a bancos locais.

Para produzir, transformar e distribuir a energia elétrica no município, foi criada a autarquia municipal Serviço de Luz e Força de Fortaleza – SERVILUZ , pela lei Municipal n° 803, de 20 de maio de 1954.

Coube à administração de Paulo Cabral projetar e executar a construção da usina termelétrica do Mucuripe, com obras iniciadas em 30 de julho de 1952. Compunham a Usina do Mucuripe, três caldeiras munidas de fornalha para queimar fuel oil ou lenha, com instrumentos e equipamentos completos para operação automática. Havia também um conjunto de geradores trifásicos e vários outros componentes.

A inauguração da usina ocorreu no dia 23 de março de 1955, dois dias antes de assumir a prefeitura, para seu segundo mandato, Acrísio Moreira da Rocha. Foi um acontecimento social importante, com amplo interesse popular, por se constituir passagem para a alternativa adequada de geração termelétrica a óleo Bunker C, ao invés de lenha, que já estava esgotada em nosso Estado.


vista aérea da Usina do Mucuripe, na Praia Mansa, próxima ao antigo farol - 1955

Nesta etapa, a usina do Mucuripe servia a região compreendida pelo Mucuripe, Volta da Jurema, Meireles, parte da Aldeota, Estância, Vila Zoraide e Vila Monteiro. Enquanto isso continuavam operando a turbina n° 3 da usina velha do Passeio Público, a usina diesel-elétrica do Meireles, nem como as unidades geradoras das fábricas contratadas no plano de emergência.

Apesar do sistema de geração de energia estar sensivelmente reforçado, na prática, surgiam problemas que determinavam cortes de energia elétrica. O projeto do Mucuripe utilizava água do mar. De um canal, as bombas sugavam a água para resfriamento dos condensadores. Mas quando ocorria a maré baixa, entravam nos tubos areia, peixinhos, crustáceos, etc. ocasionando sua obstrução e frequentes interrupções no fornecimento de energia.  O SERVILUZ teve que manter equipes de mergulhadores, que cumpriam o penoso trabalho de limpeza e deslocamento das bombas de dragagem. 


                     O Engenheiro Jesamar Leão de Oliveira e trabalhadores, na plataforma das caldeiras, comemoram a recuperação da Usina do Mucuripe, depois de dois dias de intensos esforços  - dezembro de 1957

No final de 1957, uma grave pane – o rompimento do tubo interno de aquecimento do óleo combustível – fica na história da usina. Durante os dias 28 e 29 de dezembro, os operários liderados pelo engenheiro Jesamar, ficam impregnados de óleo durante dois dias de contínuo trabalho, para que Fortaleza não passasse as festas de Ano Novo no escuro.

No final da década de 1950, a cidade constata que, mesmo com todo o esforço de governantes e dirigentes do setor elétrico, Fortaleza continuava a viver duros tempos de crises e desesperança, traduzidas em notícias como a que se segue, publicada no Jornal O Povo, de 6 de agosto de 1959. 


Usina do Passeio Público

"Há alguns dias que as noites de Fortaleza estão mais perigosas, embora os poetas ainda achem que as noites são mais belas sob a luz exclusiva da lua e das estrelas. A turbina Stahl, do Serviluz, com capacidade para 7.500 kVA, está em pandarecos, o que deixa grande parte da nossa capital sem energia elétrica durante a maior parte do dia e da noite. Somente a linha n° 3, que fornece energia ao centro da cidade é que continua funcionando regularmente" 


extraído do livro
História da Energia no Ceará
de Ary Bezerra Leite