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sábado, 22 de dezembro de 2018

Os Caminhos de Ferro da Estrada de Baturité (1870 - 1909)


A Estrada de Ferro Baturité foi criada no dia 25 de junho de 1870, projeto de iniciativa de uma sociedade composta pelo senador Tomaz Pompeu de Sousa Brasil, o coronel Joaquim da Cunha Freire (Barão de Ibiapaba), o bacharel Gonçalo Batista Vieira (Barão de Aquiraz), o engenheiro José Pompeu de Albuquerque Cavalcante, e o comerciante inglês Henry Blockhurst, da firma inglesa R. Singlereust e Co. O projeto original previa a construção de uma ferrovia ligando a Capital do Estado até a Vila de Pacatuba, tendo um ramal até Maranguape.


Após o contrato de cooperação firmado entre a companhia e o Governo Provincial do Ceará, passou a denominar-se Estrada de Ferro de Baturité, e passou a ter como ponto final à cidade de Baturité, na região produtora de café. O objetivo principal do empreendimento, era o transporte da produção serrana para o Porto de Fortaleza. Antes da ferrovia, os produtos eram transportados no lombo de cavalos e jumentos.


No dia 1° de julho de 1873, foram iniciados os trabalhos de assentamentos dos trilhos. A EFB iniciou suas atividades quando a locomotiva Fortaleza fez o percurso da Estação até a parada do “Chico Manoel”, na então Rua do Trilho (atual Tristão Gonçalves) esquina com a Rua Liberato Barroso. Em seguida foi inaugurado o trecho até a estação da Parangaba, antiga Arronches,  em 30 de setembro de 1873. Depois, foram inauguradas as estações de Mondubim, Maracanaú, em 1875, e em 1876, foi inaugurada a estação de Pacatuba.

A Estação Central, em Fortaleza, mais tarde denominada Estação João Felipe teve o lançamento da pedra fundamental em 30 de novembro de 1873, mas as obras só foram iniciadas em 1879, sendo concluídas em 1880. O motivo da interrupção dos trabalhos foi a terrível seca que assolou o Estado no período de 1877 a 1879, que abalou a situação financeira da companhia. Tanto a estrada de ferro quanto a estação central foram construídas utilizando a mão-de-obra de retirantes dessa estiagem catastrófica.

O local escolhido para a construção da Estação Central foi o antigo Campo da Amélia, atual Praça Castro Carreira – conhecida por Praça da Estação – no terreno que corresponde ao extinto Cemitério de São Casimiro. A partir de 1865, o campo santo ficou em completo abandono até que, em 1877 se resolveu sua demolição. As autoridades mandaram exumar alguns restos e os recolher ao Cemitério de S. João Batista. Em 1878 já estava quase tudo em ruínas: túmulos desmoronados, grades quebradas, ossos dispersos pelo chão, onde animais pastavam tranquilamente.  A Estação Central foi construída sobre esses túmulos remanescentes. 

E a Estrada de Ferro seguiu rumo ao interior do Estado, em busca da serra, integrando cidades e comunidades, levando mercadorias e pessoas, trazendo progresso, riqueza e mobilidade.  Foi de grande importância para o desenvolvimento do Ceará e muito influenciou na criação das cidades por onde ela cruzava.  Não apenas fez surgir novos núcleos de povoamento, mas também fez surgir novas ruas, novos traçados, novos hábitos, novos horizontes. A inauguração de uma nova estação, movimentava o comércio local e todo tipo de mercadoria era vendida na chegada do trem, principalmente comidas, frutas e peças de artesanato local, aproveitando a nova freguesia que chegava a bordo dos trens de ferro. As vendas feitas nos trens passaram a ser a principal fonte de renda de muitas pessoas. Suas idas e vindas mexiam com tudo por onde passava, movimentava pessoas, cargas, lugares, vidas e sonhos.
Por meio do Decreto nº 6.918, de 1 de junho de 1878, o Governo Imperial, assumiu  a parte construída da ferrovia e os direitos da Companhia de prolongar os caminhos de ferro até o município de Baturité. Em dois anos de trabalho, enquanto durou a estiagem, a estrada de ferro empregou cerca de 50 mil retirantes cearenses na sua construção. Assim, seguindo a linha tronco ou Linha Sul, rumo a Baturité, foram implantadas as seguintes estações:
Guaiuba - 1879/1880 

A Estação de Guaiuba foi a primeira do prolongamento da estrada de ferro desde Pacatuba, rumo à Baturité. A cidade cresceu a partir da estação. O até hoje distrito de Guaiuba, Água Verde, teve sua estação ferroviária inaugurada em 1879. No ano seguinte, 1880, foi inaugurada a Estação de Baú, mais tarde João Nogueira.

Acarape – 1879
O local em que a estação foi construída chamava-se Calaboca e já existia antes da chegada da ferrovia. Depois, com divisões municipais e anexações de distritos, passou a Redenção e Acarape, que por sua vez, era o nome original do município no qual se situava o povoado de Calaboca. A estação foi desativada em 1988. 

Canafístula - 1880 
A Estação foi inaugurada em 1880, ao pé da Serra do Vento, entre Fortaleza e Baturité. Na década de 1940 o lugar passou a se chamar Antônio Diogo.  

Aracoiaba – 1880
A estação foi inaugurada com o nome de Canoa. Aracoiaba tem, na verdade, duas estações: em algum momento, a velha, a original, que ficava no bairro de Santa Teresa, foi substituída por uma mais nova, no bairro São José, que é que hoje está ao lado dos trilhos. Possivelmente esta estação original tenha sido a de Canoa, aberta em 1880.

Baturité – 1882


A estação de Baturité foi inaugurada em 1882, permanecendo oito anos como ponta da linha. Era ela o objetivo inicial da ferrovia.  Ao lado do prédio da estação, sobre um monumento, foi colocada uma antiga locomotiva - Maria Fumaça, em comemoração aos cem anos do empreendimento. Ainda podem ser observados os antigos armazéns e as antigas linhas que serviam para a manobra dos trens. Baturité foi elevado à categoria de cidade desde 1858. 

Capistrano – 1890
Os trabalhos de prolongamento da estrada ficaram paralisados por 8 anos depois que a ferrovia chegou à Baturité. Em 1890 as obras foram retomadas com a inauguração da estação de Capistrano, à época um simples povoado denominado Riachão, subordinado ao município de Baturité. A estação de Riachão foi a primeira feita para escoamento da madeira produzida na região. Com a estrada de ferro, Riachão logo prosperou, ativando seu comércio com outras localidades, conquistando o título de povoado, concedido pela Câmara Municipal de Baturité. O distrito foi criado em 1896. Em 1931, o seu nome foi alterado para Capistrano de Abreu, em homenagem ao historiador brasileiro.  Foi elevado à categoria de município com a denominação de Capistrano, pela lei estadual nº 1153, de 1951.

Caio Prado – 1890  

A estação de Cangaty foi inaugurada em 1890, quando a localidade ainda era distrito de Baturité. Em 1944 seu nome foi alterado para Caio Prado. Caio Prado é distrito de Itapiúna desde 1953.

Itapiúna – 1891
A estação de Itaúna foi inaugurada em 1891. Mais tarde seu nome foi alterado para Itapiúna. O prédio atual foi construído entre os anos 50 ou 60 substituindo o original.

Quixadá – 1891

No ano de 1891, Quixadá passou a contar com duas estações ferroviárias, nos distritos atualmente denominados Muxiopó e Juatama. A estação do Junco foi inaugurada em 1891, com o nome da fazenda dos Queiroz, que já existia à época. Nos anos 1940 teve o nome alterado para Muxiopó. Em 1961, o nome foi alterado para Daniel de Queiroz. A estação de Juatama foi inaugurada no mesmo ano, 1891. 

Quixeramobim – 1894.

Duas estações ferroviárias foram inauguradas em Quixeramobim no mesmo ano, 1894: uma na sede do município e a outra no distrito de Uruquê, esta denominada Estação Francisco Sá. Em 1899, em um povoado, foi inaugurada a terceira estação ferroviária de Quixeramobim, que recebeu o nome de Prudente de Morais. 

Redenção – 1896
A estação de Itapaí foi inaugurada em 1896, na subida da serra entre Fortaleza e Baturité. Em 1922 era apenas uma parada. Na década de 1940 seu nome foi mudado para Amaro Cavalcante. 

Vicente de Castro – 1899
A estação de Sebastião de Lacerda foi inaugurada em 1899. Mais tarde teve o nome alterado para Vicente de Castro. Não há uma definição exata sobre qual localidade foi instalada a estação, mas os mapas ferroviários a situam entre os municípios de Quixeramobim e Senador Pompeu.

Senador Pompeu – 1900

O trem chegou à vila de Humaitá em 1900, com a inauguração da estação homônima. Em 1901, Humaitá foi elevada à categoria de município com o nome de Senador Pompeu, um dos idealizadores da estrada de ferro, em 1870.

Piquet Carneiro - 1907
A estação de Girau foi inaugurada em 1907. Sua inauguração mereceu até uma nota do jornal O Estado de S. Paulo de 16/11/1907, talvez por ser, então, ponta de linha - condição que manteve até meados do ano seguinte. O nome foi mais tarde alterado para Piquet Carneiro, homenagem ao engenheiro Bernardo do Piquet Carneiro, que dirigiu a Rede de Viação Cearense, chefiou a comissão encarregada de concluir o Açude Cedro em Quixadá e construiu outros Açudes públicos no Ceará.  Uma segunda estação, a de Miguel Calmon foi inaugurada em 1908, no local correspondente ao atual distrito de Ibicuã. Mais tarde seu nome foi alterado para o nome do Distrito.
  
Acopiara – 1910
A estação Afonso Pena foi inaugurada em 1910, no povoado de Lajes, à época subordinado ao município de Iguatu.  Lajes começou a se desenvolver justamente em razão da chegada da estrada de ferro. O município foi criado em 1921, desmembrado de Iguatu, e elevado a categoria de Vila; em 1938, foi elevado à categoria de Cidade. Em 1943 passou a se chamar Acopiara. Apesar de só ter sido inaugurada em 1910, em janeiro de 1909, o jornal O Estado de São Paulo publicava a noticia dando conta da conclusão do prolongamento da estrada de ferro, no trecho correspondente a cerca de 27 quilômetros entre as estações de Miguel Calmon e Afonso Pena. E que a inauguração dependia de acerto entre governo e arrendatários.

Tendo a estrada de ferro sido arrendada em 1898, o arrendatário assumiu o compromisso de concluir os trabalhos de construção até Humaitá, que se achavam paralisados.  Em 9 de Maio de 1898, começaram os trabalhos, na extensão de 51,920 quilômetros e a 14 de Julho de 1899 inaugurava-se a estação de Sebastião de Lacerda, ficando toda a linha entregue ao tráfego em 2 de Julho de 1900, até a estação de Humaitá, hoje denominada Senador Pompeu.  O Governo decidiu continuar o prolongamento da estrada e com esse intuito inaugurou os trabalhos de construção a partir de Senador Pompeu, em 18 de Setembro de 1903. 


Estação de Camocim, inaugurada em 1881, construída pela Estrada de Ferro Sobral  

Em 1878, o governo imperial determinou com seus próprios recursos, a criação de uma outra ferrovia no Ceará – a Estrada de Ferro Sobral – ligando Camocim a Sobral, na qual também foi usada a mão-de-obra sertaneja. O trecho Camocim-Granja foi inaugurado em 1881 e em dezembro de 1882, foi inaugurada a estação de Sobral.
Em 1909, quando a ferrovia estava na cidade de Acopiara, a Estrada de Ferro Baturité foi juntada com a Estrada de Ferro Sobral e criada a Rede de Viação Cearense.



Fontes:
IBGE
http://www.estacoesferroviarias.com.br/
Revista Fortaleza, fascículo 3.
História do Ceará, de Airton de Farias
Fotos: Estações Ferroviárias, IBGE e Fortaleza em Fotos, Arquivo Nirez e Brasiliana Fotográfica

sábado, 30 de julho de 2016

Enterros em tempos antigos

Até 1848 aqui em Fortaleza, se faziam os sepultamentos nas igrejas ou nos seus arredores; as lápides funerárias, que antigamente podiam ser vistas nas paredes do Rosário e da demolida Igreja de São José (antiga Sé), bem como as ossadas encontradas nas reformas da Igreja do Rosário, são os atestados deste costume, que de resto, era seguido em todo o Brasil.


Padre Mororó, Pessoa Anta, Carapinima e a escrava Bonifácia, executados no Passeio Público, foram sepultados na antiga Sé, que ainda servia de cemitério em 1845.Ainda existe até hoje na Igreja do Rosário, cobertos pelo assoalho, os compartimentos regulares que serviam de sepultura, e é tradição que a esposa do presidente Morais Sarmento ali tivera um desmaio, em consequência de exalações cadavéricas.

Por esse motivo aquele presidente resolvera fundar o cemitério do Croatá, para onde passaram os enterramentos em 1848. Tal decisão foi recebida como falta de religiosidade. Os sepultamentos se faziam à noite e os convidados levavam velas acesas, protegendo-as contra o vento com lanternas de papel.  Eram lúgubres essas cerimônias noturnas, mas não tanto quanto as célebres procissões de penitentes, que desde 1850, deixaram de ser realizadas.


Local onde foi construído o Cemitério do Croata (ou São Casimiro). Depois que o cemitério foi desativado, construíram a Estação Central da Estrada de Ferro Baturité. 

Saíam alta noite, e de uma delas se contava que, ao recolher ao Rosário, alguns penitentes se deitaram no chão, em frente a porta da igreja, formando uma espécie de esteira, para que os outros, entrando no templo, os pisassem.

Os rituais que antecediam o sepultamento eram igualmente sombrios. Ministrava-se a o Sacramento ao moribundo, com um cerimonial caído em desuso por volta do final do século XIX. O Cura da Sé era chamado, e logo em seguida, os sinos da Sé começavam a tocar. A Irmandade do Santíssimo Sacramento buscava as opas encarnadas e atendia ao apelo, qualquer que fosse a hora.

A Igreja do Rosário era inicialmente o espaço dos escravos. Depois passou a ser frequentada por todos. Muitos foram sepultados no piso do templo.

À irmandade seguia-se o Cura, que debaixo de um pálio trazia os objetos próprios para a ocasião, seguido do povo, que sempre acompanhava o Santíssimo, cantava um bendito especial. O Santíssimo nunca voltava pelo mesmo caminho por onde tivesse ido visitar um moribundo, era costume.

Assim que se verificava o óbito, os sinos da Matriz tocavam a finados e a cidade inteira sabia de pronto, quem era que já estava com Deus. Os sinos pelos falecidos foram abolidos em 1878, para que não se afligisse mais a população, já torturada por tanta seca, tanta epidemia e tantas mortes.

O velório era em casa, geralmente na sala principal, sem o aparato de funerárias. Marcava-se a porta do morto com um largo pano preto, que tinha ao centro uma grande cruz amarela; os convites para o enterro que se adquiriam na Livraria Oliveira eram impressos em larga folha de papel tarjado com figuras e dizeres de acordo com a situação. Em baixo da página via-se um cemitério e uma sepultura com o texto – aqui jaz – e ao lado, um homem e uma mulher ajoelhados.

Os enterros eram verdadeiras procissões, que se estendiam por mais de um quarteirão. Abria o cortejo uma cruz negra com franjas douradas; as Irmandades marchavam em longas filas, solene e silenciosamente. Precedido pelo pároco da Sé, vinha o féretro, levado por quatro empregados da Misericórdia, vestidos de preto, com cartolas de oleado reluzente, casacas e calças debruadas de amarelo.

O caixão era colocado sobre duas travessas, cujas pontas repousavam sobre largas correias, que os condutores traziam a tiracolo. Eram estes os “gatos pingados”, pobres homens ridicularizados que, aliás prestavam um grande serviço aos vivos e mortos, posto que não era pequeno o esforço de percorrer dois ou mais quilômetros em marcha lenta, carregando peso, vestidos como iam, e as vezes, sob um sol escaldante. (Depois da inauguração do cemitério, os sepultamentos passaram a ser feitos durante o dia).


O Cemitério de São João Batista foi inaugurado em 1866, mesmo inacabado (seria concluído em 1880), para ali sendo removidos alguns mortos do Croatá. (foto Diário do Nordeste)

Vestidos de luto, parentes e amigos acompanhavam; se fosse pessoa de posses ou a posição social do morto permitisse, uma banda de música acompanhava o cortejo, o qual ao se aproximar da Sé, era recebido com sinos sobrados ou singelos.  Até a catedral todos iam descobertos, mas daí até o cemitério, todos se cobriam porque o corpo já estava encomendado.

Após o percurso de 1300 metros, pela Rua das Flores (atual Castro e Silva), ali se chegava esbaforido, mas de tal caminhada ninguém se queixava, dado o sentimento da ocasião. Na verdade, era um sacrifício para um homem, ir da matriz ao cemitério, vestido de preto, sol das 4 horas pela frente, sobre um péssimo calçamento.


O cortejo saía da Igreja da Sé, percorria a Rua das Flores a pé, por cerca de 1300 metros até a entrada do Cemitério de São João Batista.

As visitas de pêsames eram uma tortura, especialmente para as viúvas que, em exposição nas suas salas, tinham que repetir exaustivamente aos visitantes, o histórico da doença e como se deu o desenlace. 

Os alunos do Seminário da Prainha acompanhavam os enterros dos padres, e numerosos soldados com suas espingardas de boca para baixo, seguiam, compassadamente, os enterros de oficiais ou de seus companheiros de farda.

Em contrapartida a toda essa liturgia dos adultos, eram alegres e risonhos os enterros de anjinhos; os sinos da Sé repicavam festivamente e a família do anjinho convidava quantos meninos pudessem para acompanhar a saída. Não havia encomendação do corpo; saiam direto para o cemitério, num alegre bando, não raro acompanhado por músicos que tocavam, durante o trajeto algumas peças alegres.


Em “A Normalista” de Adolfo Caminha, o autor descreve o enterro do presidente do Estado, personagem inspirado no governador Antônio Caio da Silva Prado, nomeado presidente da província do Ceará por carta imperial de 25 de março de 1888. Nascido em São Paulo, de família rica e tradicional, irmão do renomado escritor Eduardo Prado, foi educado na Europa, cursou Engenharia na França e formou-se em Direito pela Faculdade de São Paulo. Caio Prado assumiu o governo do Ceará em 21 de abril de 1888, cercado de admiradores e elogios de simpatizantes. No entanto, ao tomar posse no cargo, revelou todo o seu despreparo e desconhecimento de como lidar com os problemas que assolavam o Ceará, e com os quais nunca convivera.
No seu governo, o Ceará enfrentava mais um período de secas, e para completar a tragédia da falta de chuvas, proliferou-se uma violenta epidemia de febre amarela, agravando o quadro de miséria para milhares de pessoas. Com a epidemia instalada no Estado, o próprio presidente foi uma das vítimas; acometido da doença, faleceu em 25 de maio de 1889. Caio Prado foi sepultado no Cemitério de São João Batista. 

Governador Caio Prado em tela de Pedro Américo (1889) acervo do MASP.


“ O enterro do presidente passava na esquina, caminho do cemitério. Maria do Carmo assistia com a respiração suspensa e um nó na garganta o desfilar do préstito, o caixão levado por seis homens de preto, cobertos de galões dourados, debaixo da chuva miúda, o acompanhamento – uma comparsaria dispersa de gente de todas as classes de chapéu-de-chuva aberto, marchando resignadamente ao som da música do batalhão, que tocava à funeral.Os padres já tinham passado, na frente com seus acólitos, muito graves, olhando para o chão evitando as poças d’água. Um carro seguia atrás, todo fechado, devagar. E a chuva a cair e a música a tocar o funeral, deixando por onde passava uma tristeza vaga, que lembrava um dia de finados entre sepulturas...." (Pag.115/116).


Fontes:
Fortaleza Velha, de João Nogueira
A Normalista, de Adolfo Caminha
fotos arquivo Nirez, wikipedia, DN

sexta-feira, 27 de março de 2015

Os Enterros realizados nas Igrejas

Até meados do Século XIX os enterros de religiosos e pessoas com alguma relevância na vida social da cidade, eram realizados nas igrejas ou nas suas imediações. Após dois anos a sepultura era aberta, e os ossos recolhidos em urnas que eram enterrados novamente. Os pobres, e os menos afortunados eram enterrados nos arrabaldes, nas areias. A prática só desapareceu quando em 1848, foi inaugurado o primeiro cemitério de Fortaleza, o São Casimiro, também chamado de Croatá, localizado no lado leste da atual Praça Castro Carreira.

Praça Castro Carreira, em fins do século XIX,  com o terreno repleto de materiais que seriam utilizados na construção da ferrovia. O prédio da estação central foi construído no local antes ocupado pelo Cemitério de São Casimiro.
 
A construção foi iniciada em 1844. Pelo regulamento de 16 de março de 1848, o presidente Casimiro José de Morais Sarmento – que emprestou o nome ao cemitério – ordenou que a partir dia 1° de maio daquele ano, os cadáveres dos indivíduos falecidos na cidade e seus subúrbios só poderiam ser sepultados no Cemitério de São Casimiro, e aquele que infringisse as normas, sofreria multa de 25$000 reis. Outra Lei, a de n° 660, de 29 de setembro de 1854, proibiu expressamente inumações de corpos em todas as igrejas da Província. 

A proibição de se sepultar cadáveres no interior dos templos estava associada à questão da higienização e da saúde pública. Segundo teorias, o ar poluído pela decomposição dos corpos poderia disseminar doenças entre os fiéis.

Em 1840 a Igreja do Rosário – a única da capital – era caracterizada como estreita. E nesse estreito recinto, sepultavam-se vários cadáveres,  de modo que os fiéis que costumavam lotar a igreja, acabavam convivendo com um ambiente insalubre e altamente contaminado. 

Templo mais antigo de Fortaleza, construído por volta de 1730, a Igreja do Rosário, passou por uma reforma em 2001, quando  foi descoberto que, debaixo do piso principal havia um outro piso com diversas divisórias. Essas divisórias correspondiam a túmulos de pessoas que ali foram sepultadas em tempos passados. Os 54 corpos foram deixados no mesmo local, anonimamente, sem qualquer indicação de que repousam sob os pés dos fiéis frequentadores do templo. 


O piso de madeira da Igreja do Rosário, sob o qual foram encontrados 54 corpos que ali foram sepultados até 1848, e o túmulo do Major Facundo, sepultado na parede da Igreja.

Um único túmulo permanece identificado: o do Major Facundo, assassinado em 1841, em decorrência de intrigas políticas, num crime atribuído à esposa do então presidente da província. O major foi sepultado na parede lateral, em pé, voltado para o Palácio da Luz, à época sede do governo do Estado.

Mesmo depois da existência dos cemitérios, a Igreja Católica conservou sua influência na “hora da morte”. No São Casimiro havia uma área reservada e marginal para os que não professavam a fé católica ou atentassem contra os princípios desta (judeus, suicidas, etc). Foi também construído um cemitério dos ingleses (para protestantes) vizinho ao São Casimiro, que era mantido pela firma de importação e exportação Singlehust  and Co, de Henrich Brocklehurst.

Capela do Cristo Ressuscitado, localizada na Cripta da Catedral de Fortaleza 

Os sepultamentos nas igrejas ainda acontecem de modo restrito e exclusivo para religiosos. Na Cripta da Catedral de Fortaleza, encontra-se a Capela do Cristo Ressuscitado, onde estão sepultadas algumas personalidades ligadas à Igreja Católica como Monsenhor Tito Guedes, Monsenhor José Quinderé  e outros, falecidos antes mesmo da inauguração da Catedral, como D. Manuel da Silva Gomes (1950) e D. Antônio de Almeida Lustosa (1974).

Mausoléu dos Religiosos Sacramentinos, na Igreja de São Benedito. 

No interior da Igreja de São Benedito, localizado na Rua Clarindo de Queirós, encontra-se o mausoléu dos Religiosos Sacramentinos, separado do corpo da nave por uma grade, onde estão sepultados padres da Ordem.


sábado, 11 de janeiro de 2014

Estação João Felipe



No terreno ocupado atualmente pela Estação João Felipe, na Praça da Estação, que já pertenceu à Estrada de Ferro Baturité, funcionou outrora o Cemitério de São Casimiro. A partir de 1865, o campo santo ficou em completo abandono até que, em 1877 se resolveu sua demolição. As autoridades mandaram exumar alguns restos e os recolher ao Cemitério de S. João Batista. Em 1878 já estava quase tudo em ruínas: túmulos desmoronados, grades quebradas, ossos dispersos pelo chão, onde animais pastavam tranquilamente.  A Estação Central foi construída sobre esses túmulos antigos;  até hoje as construções feitas no local pesam impiamente, sobre mortos. Quando se cava a terra por ali, é raro não se encontrarem restos humanos. 


O lançamento da pedra fundamental  da Estação João Felipe ocorreu em 30 de novembro de 1873, mas as obras só foram iniciadas em 1879, sendo  concluídas em 1880. O motivo da interrupção dos trabalhos foi a terrível seca que assolou o Estado no período de 1877 a 1879, que abalou a situação financeira da companhia. Tanto a estrada de ferro quanto a estação central foram construídas utilizando a mão-de-obra de retirantes dessa estiagem catastrófica. Uma placa alusiva à data de finalização, 1880, encontra-se na estação. Na época, chamava-se Estação Central. Dela partiam trens para Caucaia, para a antiga estação da Parangaba, para Baturité, dentre outras destinos. 


Agora, a histórica estação João Felipe, suspenderá as atividades de embarque e desembarque no próximo dia 13 de janeiro. Na área onde hoje estão os trilhos será construído um percurso subterrâneo para a Linha Leste da Companhia do Metrô de Fortaleza. O projeto de escavação atingirá parte do terreno próximo aos trilhos da Linha Oeste, que faz parte da Estação João Felipe. Uma outra estação está sendo construída, com acesso pela rua Padre Mororó, no Centro, ao lado da estação Chico da Silva, da Linha Sul. 
Tombada pelo Estado através do decreto 16.237 de 1983, A Estação João Felipe devera se transformar em equipamento cultural, com projeto de instalação de uma pinacoteca nos galpões da antiga RFFSA, ao lado da antiga Estação Central. 

 Teatro São José, equipamento cultural no centro de Fortaleza

Vale a pena lembrarmos  de alguns equipamentos de lazer e cultura, criados pelo Estado e Prefeitura Municipal na área central de Fortaleza: O antigo Cine São Luiz (fechado),  A Biblioteca Pública Menezes Pimentel (funcionando precariamente),o Teatro São José (abandonado),  o Museu de tecnologia de Combate as Secas (fechado), o Arquivo Intermediário (funcionando precariamente), dentre outros...