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sábado, 16 de setembro de 2023

Igrejas Centenárias do Centro

O nosso centro da cidade, que perdeu importância econômica, financeira, política e social nos últimos tempos, ainda detém as construções mais representativas de uma época em que os templos católicos refletiam o status e a fé da população, e atingiam todas as classes sociais: As Igrejas Católicas. A maioria construída com donativos, enfrentando os desafios dos tempos atuais, as igrejas resistem: cercadas de grades, fechadas em boa parte do tempo, enfrentando a concorrência de igrejas evangélicos, mas ainda acolhedoras e receptivas aos homens e mulheres de boa vontade.

Estas são cinco primeiras igrejas de Fortaleza, que já foram fundadas nos mesmos locais onde se encontram até os dias atuais. Algumas foram reconstruídas com características totalmente diferentes dos modelos originais, como as Igrejas do Coração de Jesus, de São Benedito e a de São José (Catedral Metropolitana); a maioria, no entanto, sofreu ampliações e adaptações, no entanto, foram poucas as modificações em relação a construção original.      


1 – Igreja do Rosário - 1730




A Igreja do Rosário foi construída por volta de 1730, pelos negros da Irmandade de Nossa Senhora dos Pretos, em uma época em que havia separação de raças e classes sociais em templos religiosos. Era uma pequena capela de taipa e palha, erguida com donativos ofertados pelos fiéis, num arrabalde da vila, que muitos anos mais tarde se tornaria a atual Praça General Tibúrcio.

Em 1753, a capela foi reconstruída com pedra e cal, porque ameaçava desabar. A capela mor ficou pronta em 1755. No período de 1821 a 1854, Igreja do Rosário serviu de matriz enquanto a Catedral Metropolitana passava por reformas. Construído em estilo barroco, é o mais antigo templo de Fortaleza, tombada pelo Estado em 1983. Fica na Rua do Rosário, s/n, Praça General Tibúrcio, Centro.



2 – Igreja do Patrocínio – 1852



A pedra fundamental da Igreja de Nossa Senhora do Patrocínio foi lançada em 02 de fevereiro de 1850, e ficaria pronta dois anos mais tarde. Em 1849 o cabo da esquadra Fortunato José da Rocha disparou um tiro contra o Capitão Jacarandá, mas acertou o joelho do Alferes Luís de França Carvalho, que estava ao lado do capitão. Vendo-se em risco de perder a vida, Luís de França fez voto à Senhora do Patrocínio, que se escapasse, faria uma igreja em sua devoção.

No ano seguinte, curado do ferimento, lançou a pedra fundamental da igreja, ao norte da atual Praça José de Alencar. O oficial teve que deixar Fortaleza e os trabalhos de construção passaram a ser muito lentos, apesar da ajuda de muitos fiéis que apoiaram a ideia do militar. A planta do templo foi feita pelo mestre Antônio de Rosa e Oliveira.

As obras iniciadas por França só foram concluídas devido aos esforços do cônego João Paulo Barbosa, que contou com o auxílio de particulares, das Assembleias Provinciais, da Sociedade Auxiliadora dos Templos, e dos materiais foram doados pelo governo nos períodos de secas. Situada na Rua Guilherme Rocha, 536, Praça José de Alencar.



3 – Igreja de São Bernardo – 1854



Em 1854 o Tenente Bernardo José de Melo construiu uma pequena capela de taipa e palha, em honra de Nossa Senhora do Bom Parto. No primeiro inverno, com a força das chuvas que caíram, a capela foi ao chão. Graças ao seu prestígio, o tenente Bernardo conseguiu um empréstimo do governo, e com esse dinheiro construiu a atual Igreja de São Bernardo. A igreja sofreu um único acréscimo em relação a construção original: a sacristia, feita por Monsenhor Quinderé, durante os anos 40.

Inicialmente o povo chamava a Igreja do Seu Bernardo, que com o tempo mudou para São. Ficou sendo a Igreja de São Bernardo, embora a devoção maior fosse em louvor a Nossa Senhora do Bom Parto. Para justificar o batismo da igreja o Tenente Bernardo mandou vir da Espanha uma imagem de São Bernardo, que passou a ser o titular da igreja.

A Igreja de São Bernardo conta com dois altares herdados da antiga Igreja da Sé, demolida em 1938: o Altar de São José e o de N. S. do Bom Parto.  Fica na esquina das ruas Senador Pompeu e Pedro Pereira.



4 - Igreja do Pequeno Grande – 1903

imagem: https://www.tiagoguedes.com.br/post/igreja-para-casar-em-fortaleza

imagem: https://www.tripadvisor.com.br

A história da Igreja do Pequeno Grande está intimamente ligada à história do Colégio da Imaculada Conceição.  A pedra fundamental foi lançada em 1898, pelo padre Chevalier, reitor do Seminário e capelão do Colégio da Imaculada.  As obras, mal iniciadas, sofreram paralisação no ano seguinte, sendo retomadas em 1898 até a sua conclusão em 1903, quando se verificou a benção do templo.

Para que o templo ficasse concluído, a Irmã Chambeaudrie doou à igreja uma herança de família. Por sua vez, os membros de diversas associações – Filhas de Maria, Senhoras de Caridade e as próprias freiras se dedicaram a missão de angariar recursos para a obra. Situada na Avenida Santos Dumont, 55.


5 – Igreja de Nossa Senhora do Carmo – 1906


imagem UOL

Originalmente era a capela de Nossa Senhora do Livramento, um pequeno templo erigido pela Irmandade dos Pardos, administrada pela Paróquia do Patrocínio, erguida em área distante do centro, cercada de árvores, com uma lagoa nas proximidades. No início do século XX, foi decidida a construção de uma igreja em substituição à capela, que se encontrava em péssimas condições. Ainda na construção, foi permitido que fosse mudada a invocação para Nossa Senhora do Carmo.

O templo foi inaugurado em 25 de março de 1906, sendo o primeiro capelão monsenhor José Gurgel do Amaral. A imagem que ocupa o centro do altar-mor tem uma história de desencontro: o Padre Dantas tinha encomendado a imagem de Nossa Senhora do Carmo em Portugal. Quando a efígie da santa chegou a Fortaleza, ele foi avisado de que deveria pagar os direitos alfandegários para que pudesse recebê-la, o que ele não fez por esquecimento.

Então a imagem foi a leilão, tendo sido arrematada pelo Sr. José Rossas, que procurado pelo padre negou-se a cedê-la por qualquer preço. Dias depois José adoeceu gravemente, e fez uma promessa de entregar a imagem à Igreja caso ficasse curado. Alguns dias depois, mandou que sua esposa procurasse o Pe. Dantas para entregar-lhe a imagem da Virgem Maria, sem qualquer compensação.  A Igreja do Carmo fica na Avenida Duque de Caxias, s/n.




Foram totalmente reconstruídas:


Igreja do Sagrado Coração de Jesus – 1886/1961

imagem Instituto do Ceará
imagem Pinterest

Inaugurada em 25 de março de 1886, a construção da Igreja do Sagrado Coração de Jesus foi uma iniciativa do casal José Francisco da Silva Albano e Liberalina Angélica da Silva Albano (Barão e Baronesa de Aratanha), com o apoio do bispo Dom Luís Antônio dos Santos. Ficou conhecida como Igreja dos Albanos. O templo era simples, em linhas neoclássicas e neogóticas, se assemelhava à Igreja do Carmo.

Em 1952, os engenheiros Luciano Pamplona e Valdir Diogo aumentaram a altura da torre e colocaram um imenso relógio trazido de Roma na fachada. Cinco anos depois, em 1957, a torre cedeu e soterrou a entrada da igreja. Não houve vítimas. Ao invés de reconstruir a igreja, pois apenas a torre fora afetada, os capuchinhos optaram por derrubar toda a igreja para construírem um templo maior, com rampas para subida dos carros, uma torre vazada e uma grande cúpula sobre a nave principal.  A nova igreja foi inaugurada em 1961. Localizada na Avenida Duque de Caxias,135, Centro.



Igreja de São Benedito – 1885




                                                     imagem Arquidiocese de Fortaleza

A inauguração da Igreja de São Benedito ocorreu na manhã do dia 8 de abril de 1885.  Era uma igrejinha pequena, original, com quatro frentes para os quatro pontos cardeais, com torre de madeira envidraçada, situada ao lado oriental do Boulevard do Imperador, atual Avenida do Imperador. No dia 27 de julho de 1938 foi instalado o Santuário da Adoração Perpétua, na Igreja de São Benedito. Depois nos anos 1960 foi construída uma nova igreja na Rua Clarindo de Queirós, que fica ao lado, e o antigo templo foi transformado em uma livraria, e foi demolido em 1974.


Catedral Metropolitana – 1795/1978

imagem Arquivo Nirez


A primeira Igreja da Sé, que tem São José como patrono, foi concluída em 1795 e demolido em 1820.

Em 1854 teve início a construção da segunda igreja de São José, em estilo colonial, o espaço em frente passou a ser chamado de Largo da Matriz; Hoje é conhecida por Praça da Sé. Essa segunda igreja foi demolida em 1938.

A Catedral Metropolitana atual foi inaugurada no dia 22 de dezembro de 1978, tendo o padre Tito Guedes à frente de suas obras e como Arcebispo Metropolitano, Dom Aloísio Lorscheider. Fica na Rua Conde D' Eu. entre as ruas General Bezerril, Dr. João Moreira, Castro e Silva e Rufino de Alencar.

As nossas igrejas são bastante modestas se comparadas aos imponentes templos construídos na Bahia, Pernambuco e Minas Gerais,  sob os ciclos da cana de açúcar e do ouro. A arte do Ciclo do Gado é a mais humilde, toda a sua arquitetura se faz, pela falta da pedra apropriada para a obra, em simples alvenaria, na qual se executa uma ornamentação própria. Nem esculturas, nem cinzeladuras, nem obras de talha, nem ouro, nem mármore e só algumas exibem azulejos.    

 

Fontes:

FONTES, Eduardo. As Pouco Lembradas Igrejas Fortaleza: subsídio à história dos templos católicos de Fortaleza. Fortaleza: Secretaria de Cultura e Desporto, 1983.

BEZERRA DE MENEZES, Antonio. Descrição da Cidade de Fortaleza. Introdução e Notas de Raimundo Girão. UFC/Prefeitura Municipal de Fortaleza, 1992

BARROSO, GUSTAVO. À Margem da História do Ceará. Imprensa Universitária do Ceará,  1962 

sexta-feira, 27 de março de 2015

Os Enterros realizados nas Igrejas

Até meados do Século XIX os enterros de religiosos e pessoas com alguma relevância na vida social da cidade, eram realizados nas igrejas ou nas suas imediações. Após dois anos a sepultura era aberta, e os ossos recolhidos em urnas que eram enterrados novamente. Os pobres, e os menos afortunados eram enterrados nos arrabaldes, nas areias. A prática só desapareceu quando em 1848, foi inaugurado o primeiro cemitério de Fortaleza, o São Casimiro, também chamado de Croatá, localizado no lado leste da atual Praça Castro Carreira.

Praça Castro Carreira, em fins do século XIX,  com o terreno repleto de materiais que seriam utilizados na construção da ferrovia. O prédio da estação central foi construído no local antes ocupado pelo Cemitério de São Casimiro.
 
A construção foi iniciada em 1844. Pelo regulamento de 16 de março de 1848, o presidente Casimiro José de Morais Sarmento – que emprestou o nome ao cemitério – ordenou que a partir dia 1° de maio daquele ano, os cadáveres dos indivíduos falecidos na cidade e seus subúrbios só poderiam ser sepultados no Cemitério de São Casimiro, e aquele que infringisse as normas, sofreria multa de 25$000 reis. Outra Lei, a de n° 660, de 29 de setembro de 1854, proibiu expressamente inumações de corpos em todas as igrejas da Província. 

A proibição de se sepultar cadáveres no interior dos templos estava associada à questão da higienização e da saúde pública. Segundo teorias, o ar poluído pela decomposição dos corpos poderia disseminar doenças entre os fiéis.

Em 1840 a Igreja do Rosário – a única da capital – era caracterizada como estreita. E nesse estreito recinto, sepultavam-se vários cadáveres,  de modo que os fiéis que costumavam lotar a igreja, acabavam convivendo com um ambiente insalubre e altamente contaminado. 

Templo mais antigo de Fortaleza, construído por volta de 1730, a Igreja do Rosário, passou por uma reforma em 2001, quando  foi descoberto que, debaixo do piso principal havia um outro piso com diversas divisórias. Essas divisórias correspondiam a túmulos de pessoas que ali foram sepultadas em tempos passados. Os 54 corpos foram deixados no mesmo local, anonimamente, sem qualquer indicação de que repousam sob os pés dos fiéis frequentadores do templo. 


O piso de madeira da Igreja do Rosário, sob o qual foram encontrados 54 corpos que ali foram sepultados até 1848, e o túmulo do Major Facundo, sepultado na parede da Igreja.

Um único túmulo permanece identificado: o do Major Facundo, assassinado em 1841, em decorrência de intrigas políticas, num crime atribuído à esposa do então presidente da província. O major foi sepultado na parede lateral, em pé, voltado para o Palácio da Luz, à época sede do governo do Estado.

Mesmo depois da existência dos cemitérios, a Igreja Católica conservou sua influência na “hora da morte”. No São Casimiro havia uma área reservada e marginal para os que não professavam a fé católica ou atentassem contra os princípios desta (judeus, suicidas, etc). Foi também construído um cemitério dos ingleses (para protestantes) vizinho ao São Casimiro, que era mantido pela firma de importação e exportação Singlehust  and Co, de Henrich Brocklehurst.

Capela do Cristo Ressuscitado, localizada na Cripta da Catedral de Fortaleza 

Os sepultamentos nas igrejas ainda acontecem de modo restrito e exclusivo para religiosos. Na Cripta da Catedral de Fortaleza, encontra-se a Capela do Cristo Ressuscitado, onde estão sepultadas algumas personalidades ligadas à Igreja Católica como Monsenhor Tito Guedes, Monsenhor José Quinderé  e outros, falecidos antes mesmo da inauguração da Catedral, como D. Manuel da Silva Gomes (1950) e D. Antônio de Almeida Lustosa (1974).

Mausoléu dos Religiosos Sacramentinos, na Igreja de São Benedito. 

No interior da Igreja de São Benedito, localizado na Rua Clarindo de Queirós, encontra-se o mausoléu dos Religiosos Sacramentinos, separado do corpo da nave por uma grade, onde estão sepultados padres da Ordem.


domingo, 13 de novembro de 2011

As Quermesses de São Benedito

Nos idos dos anos 1950 a Avenida do Imperador abrigava, em centenas de casas quase todas geminadas, inúmeras famílias de classe média que, pela proximidade da moradia, viviam de maneira quase fraternal. Daquele tipo de relacionamento que permitia as visitas constantes, a troca de favores, os pedidos de empréstimos, coisas assim, que faziam de um lar o prolongamento do outro, salvo algumas exceções.

Avenida do Imperador, década de 1950 (arquivo Marciano Lopes)

E no meio dessas famílias, fortalecendo laços, estava a Igreja de São Benedito, localizada entre as transversais das ruas Clarindo de Queiroz e Meton de Alencar. Nas atividades típicas da época, a Igreja de São Benedito, sob a responsabilidade dos padres Sacramentinos, além das obrigações religiosas, fazia constantes festas e quermesses


Antiga Igreja de São Benedito, (inaugurada no ano de 1885) ficava na Avenida do Imperador. Quando o novo templo foi construído, no mesmo quarteirão, uma livraria católica passou a funcionar no local. A antiga igreja foi demolida na década de 1990. (arquivo Nirez)
   
No Natal, na Páscoa, nas festas juninas de Santo Antônio, São João e São Pedro, os padres não deixavam por menos: organizavam quermesses aproveitando os generosos espaços em frente e o lado da igreja, decorando-os com bandeirolas coloridas, mesinhas para jogos de prendas e outros atrativos, onde o ponto alto era um animado e barulhento leilão.

As novenas e quermesses de São Benedito integravam o calendário festivo não apenas dos moradores da Imperador e adjacências – Tristão Gonçalves, 24 de Maio, Princesa Isabel, Meton de Alencar, Praça São Sebastião – mas de pessoas de outros bairros mais distantes, todos atraídos pela animação características dos eventos.


A Atual Igreja de São Benedito 

Entre os coordenadores destas festas estava a figura carismática de José Limaverde, locutor pioneiro do rádio cearense, apresentador de dois dos mais famosos programas da antiga PRE-9 – primeira e, por muito tempo única, estação de rádio da cidade: Coisas que o Tempo Levou nas noites de 6ª feira, e Bazar de Música, nas noites de domingo. Limaverde e esposa, junto com outros casais, cuidavam da organização das quermesses de São Benedito com carinho e desvelo. 




Os frequentadores eram praticamente os mesmos que iam à igreja: adolescentes, crianças, senhoras e cidadãos respeitáveis, se divertiam num ambiente tranquilo, que favorecia a aproximação e inicios de novas amizades. 


Foi neste cenário harmônico que, certa noite, no auge da movimentação das quermesses, aportou uma turma de rabos-de-burro – denominação pelo qual era conhecido um grupo de desordeiros que agia em diversos pontos da cidade. O chefe da súcia era um elemento dado a arruaças, valentão e perigoso, mas que exercia indiscutível liderança entre os que, como ele, se dedicavam a desordens e confusões. Tratava-se de um jovem de classe média alta, filho de um empresário, que comandava um grupo de outros jovens grã-finos, motorizados e violentos.

À chegada deles se instalou o caos. Praticaram toda sorte de desmandos. Quebraram mesas e cadeiras, agrediram rapazes, desrespeitaram mulheres e crianças e os que tentavam contê-los em sua fúria. Como sempre acontecia quando eles chegavam, a festa. acabava.

O fato teve enorme repercussão na imprensa. O bando começou a ser fustigado, denunciadas suas arruaças, deste e de vários outros bandos de malfeitores que infestavam a cidade, todos, como se sabia, vindos das famílias mais ricas, sentindo-se por isso, imunes a qualquer punição.

Na redação do Jornal Correio do Ceará, o secretário Orlando Mota discutia com repórteres uma maneira mais enérgica de abordar os episódios envolvendo os repulsivos filhinhos de papai. Nesse encontro, por sugestão do redator Luiz Edgar de Andrade, foi cunhada a expressão que identificou os malfadados indivíduos que ficaram para todo o sempre como rabos-de-burros.


Fonte:
Blanchard Girão

terça-feira, 24 de maio de 2011

As Igrejas do Centro

Quando esteve em viagem pelo Nordeste, no início do Século XVIII, o inglês Henry Kostner, faz uma pequena descrição sobre a Vila de Fortaleza
edificada sobre a areia, em formato quadrangular, com quatro ruas, casas só com um pavimento,  ruas sem  calçamento, o Palácio do Governo, a Casa da Câmara, a Cadeia, a Alfândega, a Tesouraria e... três Igrejas. A População girava em torno de mil e duzentos moradores. 

As primitivas igrejas de Fortaleza, à exceção da primeira Igreja da Sé que teve ajuda do governo,  foram construídas por iniciativa de populares e de irmandades religiosas, quase sempre em pagamento de promessas feitas ao santo da devoção.  
Depois de iniciadas, as obras eram adotadas pelos padres e por fiéis que completavam a construção através de campanhas ou da oferta de donativos. As igrejas localizadas no centro, são também as mais antigas de Fortaleza, testemunhas de uma época de grande religiosidade.

A Vila de Fortaleza de Nossa Senhora de Assunção ou Porto do Siará, atribuído a Francisco Antonio Giraldes. Na figura de 1811, podem ser identificadas duas igrejas: a Sé e a do Rosário (Ah, Fortaleza!)
  
Igreja do Rosário



Construída em 1730, com donativos ofertados pelos fiéis, foi feita à mão, pela Irmandade de Nossa Senhora dos Pretos, num local afastado da Vila, a Praça dos Leões. Como toda construção daquele tempo, a capela era feita de taipa e palha. Em 28 de abril de 1742, o visitador Lino Gomes Correia, ao passar pela Vila de Fortaleza, determinou que os senhores de escravos  lhes dessem o dia de sábado e os dias santos para granjearem o sustento para a Igreja Nossa Senhora do Rosário.

A igreja foi reformada em 1753 porque ameaçava ruir, sendo reconstruída com pedra e cal. 
A nova capela ficou pronta em 1755. Era o espaço de sociabilidade dos negros até ser improvisada como matriz entre 1821 e 1854, enquanto se reconstruía a Matriz de São José. Construída em estilo barroco é a igreja mais antiga de Fortaleza. 
Fica na Praça General Tibúrcio (Praça dos Leões). 
Tombamento Estadual de 1983.

Catedral da Sé
 A velha Igreja de São José, antiga Matriz de Fortaleza (Nirez)

A construção da primeira capela-mor de Fortaleza foi decidida em fevereiro de 1699, mas a autorização para o inicio da obra só ocorreu em fevereiro de 1746, quando a câmara escreveu a Sua Majestade pedindo um auxilio para a construção.

Concluída em 1795, a matriz que era de taipa e nela se celebravam os ofícios divinos, em poucos anos ameaçava ruir e apresentava diversas rachaduras no arco da capela mor. Começou-se então a construir outra no mesmo lugar. A seca de 1845 interrompeu os serviços que foram retomados em 1846.

 Nessa época chegou à Fortaleza Frei Serafim de Catânia, que estando de volta ao sertão onde missionava, quis deixar um monumento que eternizasse suas missões;  empreendeu e construiu à custa de esmolas um majestoso cruzeiro que foi colocado na frente da igreja. 

A nova Matriz, dedicada a São José,  foi inaugurada no dia 2 de abril de 1854,  num domingo de Páscoa, pelas 9 horas da manhã com uma grande procissão que saiu da Igreja do Rosário em direção ao novo templo. A majestosa igreja foi demolida em 1938, novamente com a alegação de que ameaçava ruir. 




Em agosto de 1939 foi lançada a pedra fundamental da nova igreja da Sé, no mesmo local da anterior. As obras foram atrasadas em razão da Segunda Guerra, e depois do fim do conflito, por problemas ligados a escassez de recursos. Foi finalmente inaugurada em 22 de dezembro de 1978, tendo o padre Tito Guedes à frente dos trabalhos e Dom Aloísio Lorscheider como Arcebispo Metropolitano de Fortaleza. 
Igreja do Patrocínio
foto: Mauricio Cals 


A pedra fundamental da Igreja do Patrocínio  foi lançada em 02 de fevereiro de 1850, que ficaria pronta dois anos depois. Em 1849, o cabo de esquadra Fortunato José da Rocha, disparando um tiro contra o Capitão Jacarandá acertou no alferes Luis de França Carvalho, que na ocasião conversava com o dito capitão.

Vendo-se em perigo de vida, França fez promessa a Nossa Senhora do Patrocínio, de caso sobrevivesse, erigir-lhe uma igreja.  A planta foi fornecida pelo mestre Antônio da Rosa e Oliveira.

As obras para construção da igreja iniciadas por França só foram concluídas devido aos esforços do cônego João Paulo Barbosa, apesar do auxilio de particulares, das Assembleias Provinciais, da Sociedade Auxiliadora dos Templos,  e dos materiais que de ordem do governo lhe foram doados no período da seca.  
Fica na Praça José de Alencar, que já foi Praça do Patrocínio e Marquês de Herval.

Igreja de São Bernardo



Em 1854, o tenente Bernardo José de Melo construiu uma pequena igreja de taipa em louvor a Nossa Senhora do Bom Parto. No primeiro inverno, a capela desabou sob o peso das chuvas. Usando seu prestígio, o tenente conseguiu do governo um empréstimo de oitocentos mil réis, e com esse dinheiro, construiu a atual igreja de São Bernardo. 

Apesar  de a igreja ser dedicada a Nossa Senhora do Bom Parto, o povo chamava a Igreja do Seu Bernardo. Para justificar o batismo da igreja, o tenente Bernardo mandou vir da Espanha uma bela imagem de São Bernardo, que ficou sendo o titular da Igreja. Fica no cruzamento das Ruas Senador Pompeu e Pedro Pereira.

Igreja do Coração de Jesus



A construção da Igreja do Sagrado Coração de Jesus teve inicio no dia 25 de setembro de 1878, quando o Ceará se debatia em mais um período de estiagem. A fome e as epidemias assolavam as populações da Capital e do Interior. 

Para amenizar a situação de milhares de retirantes famintos foi dada inicio a construção do templo, para aproveitar a mão-de-obra em e arranjar ocupação para esses retirantes. 
Diz a história que a primitiva Igreja do Sagrado Coração de Jesus foi construída por Dom Luís Antônio dos Santos e pela família Albano, nas pessoas do casal José Francisco Albano e sua mulher Dona Liberalina Angélica da Silva Albano, barões de Aratanha, para presentear o filho que cursava seminário em Paris e ordenou-se padre. 

O Padre Antônio Xisto Albano, depois nomeado bispo, foi o primeiro responsável pela administração e direção espiritual da nova igreja até 1901, quando foi transferido para o Maranhão. 
Nessa oportunidade o bispo de Fortaleza, D. Joaquim José Vieira resolveu entregar a igreja aos cuidados da Ordem Seráfica dos Capuchinhos. Fica na Avenida Duque de Caxias, 235.

Igreja de São Benedito



A inauguração da Igreja de São Benedito ocorreu no dia 08 de abril de 1885. Era uma igreja modesta, pequena, com quatro frentes voltadas para os quatro pontos cardeais, com torre de madeira envidraçada. 

Situada ao lado do Boulevard  15 de Novembro (atual  Avenida do Imperador), foi edificada pela comissão composta por José Joaquim Teles Marrocos,  Antonio da Rosa e Oliveira, Tristão de Araripe Macedo, no mesmo local da casa de devoção  dedicada a São Benedito. 

Em 1938 foi instalado o Santuário da Adoração Perpétua , na Igreja de São Benedito. Depois foi construída uma nova igreja na Rua Clarindo de Queiros.  A antiga igreja ficou desativada  até 1947, quando foi demolida. Fica na Avenida Imperador, 1165.

Igreja do Carmo



Foi inaugurada em  25 de março de 1906 com missa oficiada pelo bispo Diocesano D. Joaquim, na Praça do Livramento, depois Gonçalves Ledo, hoje Praça do Carmo. Antes de ser matriz, o que ocorreu em 21 de abril de 1915, era uma capela simples, batizada de Nossa Senhora do Livramento, administrada pela Igreja do Patrocínio. 

A construção da capela deveu-se à devoção da Irmandade existente na freguesia do Patrocínio.  O português Antônio Francisco da Rosa “mestre Rosa” recebeu a incumbência de traçar uma planta e executar os referidos trabalhos, que consistiam no aumento do frontispício da capela e do corpo da nave.
  
Em 1879 o arquiteto Adolfo Hebster foi contratado para confeccionar uma nova planta, semelhante a atual igreja.  Como consequência da seca de 1877/79, a Irmandade de Nossa Senhora do Livramento  entrou em crise e transferiu a capela para os cuidados da Associação de Nossa Senhora do Carmo.
  
Transcorridos catorze anos da transferência, em 1906, procedia-se a benção da nova igreja, com a sagração de um sino e a celebração de missa por Monsenhor Bruno Figueiredo.
Fica na Praça do Carmo

Nota
De acordo com Bezerra de Menezes,  em Descrição da Cidade de Fortaleza, a primeira igreja que nos serviu de matriz foi, incontestavelmente, a Capela de Nossa Senhora d’Assunção, que o autor ainda conhecera os alicerces, dentro do Quartel de 1ª. Linha, que fora construída em terrenos do Padre José Rodrigues. (pg. 103). 
Esta seria muito provavelmente a terceira igreja avistada por Henry Kostner em 1810. 

fotos: Fátima Garcia
fontes: 
Bezerra de Menezes, Antônio. Descrição da Cidade de Fortaleza.  Introdução e notas de Raimundo Girão. Fortaleza: Edições UFC/PMF, 1992.

Fontes, Eduardo. As pouco lembradas Igrejas de Fortaleza. Fortaleza: Secretaria de Cultura e Desporto, 1983.
Koster, Henry. Viagens ao Nordeste do Brasil. Recife: Secretaria de Educação e Cultura, 1978.