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quinta-feira, 16 de maio de 2013

Modernização e Adversidade Climática


Casa residencial na Avenida Visconde de Cauípe
Os anseios por modernização em Fortaleza começaram a se materializar ainda no final do século XIX.  A partir das décadas de 60 e 70 o perfil da cidade começa a sofrer alterações. Na década de 60 surgem o Lazareto da lagoa Funda e a Santa Casa de Misericórdia, para zelarem pela saúde pública, pois como ressaltava o saber médico social da época, sem homens sadios para o trabalho, não haveria produção de riquezas nem progresso.

  A Santa Casa foi inaugurada a princípio com 80 leitos e tinha como mantenedora a Irmandade Beneficente da Santa Casa da Misericórdia de Fortaleza. O Dr. Joaquim Antônio Ribeiro foi o primeiro médico nomeado para trabalhar na Santa Casa, em 12 março de 1861.
 
Na década seguinte, em 1870, a remodelação prosseguia com a instalação da ferrovia para Baturité, a construção de um novo cemitério, a criação da Academia Francesa, a iluminação a gás e o plano urbanístico de Adolfo Herbster.

A inauguração da Estrada de Ferro Baturité, em 1873, agilizando o transporte do algodão e de pessoas para a cidade, consolidou a hegemonia econômica de Fortaleza. Estreitando a distância e a dependência do interior com a capital, o trem, um dos principais produtos do avanço tecnológico do século XIX, reforçou mais ainda os resultados positivos dos efeitos sociais do progresso.

A Estação Central da Estrada de Ferro de Baturité foi inaugurada no dia 30 de novembro de 1873 e no dia 9 de junho de 1880, ela seria reinaugurada depois de passar por alterações definitivas

A edificação de um novo cemitério – o São João Batista, em 1872 – em local mais afastado (Jacarecanga), justificou-se pela pressão médica de suprimir a necrópole anterior, o São Casimiro, que comprometia o estado sanitário urbano por achar-se muito próximo (na Praça da Estação) do perímetro central, além de ter sepultado vítimas da epidemia de cólera, ocorrida entre 1862 e 1864. Pouco depois seria a vez de alcoólatras, loucos e meretrizes, acusados de potencialmente perigosos á saúde e à segurança pública, serem também confinados fora da região central.
  
 Capela do cemitério São João Batista ainda em construção
O novo cemitério logo seria povoado com exuberantes sepulturas em estilo gótico e refinadas esculturas importadas de anjos e figuras melancólicas. Nesse sentido o São João Batista revela tanto a imponência da arte cemiterial da época, como o poderio dos setores dominantes.  Também na cidade dos vivos, essa consagração econômica evidenciava-se através do surgimento de suntuosos sobrados e palacetes. Ostentando estilos em voga na Europa, estas novas construções tomavam o lugar do casario modesto, desenhando um novo rosto para a cidade. 
A iluminação a gás carbônico, por sua vez, substituindo a de azeite de peixe, deu mais vida e sociabilidade às noites fortalezenses, fazendo com que a população fosse dormir mais tarde. Por motivos de economia, por algum tempo estabeleceu-se o costume de não acender os lampiões em noite de lua cheia.

 Avenida Alberto Nepomuceno

A cidade se expandia visivelmente. Para disciplinar seu crescimento espacial foi contratado pelo governo cearense o engenheiro Adolfo Herbster, que em 1875 elaborou a “Planta Topográfica de Fortaleza e Subúrbios”. Atualizando o sistema de traçado urbano na forma de xadrez esboçado por Silva Paulet em 1818, o plano urbanístico de Herbster estendia o alinhamento das ruas até os subúrbios, corrigindo becos e vias sinuosas; esse traçado retilíneo agilizava o fluxo de pedestres, veículos e mercadorias. Ao deixar a capital mais aberta e transparente, o plano dificultava possíveis ocorrências de revoltas e distúrbios, facilitando o controle dos poderes públicos sobre a cidade.

 Avenida Dom Manuel, antigo boulevard da Conceição

O plano de Herbster incluiu ainda a abertura de três avenidas (as atuais avenidas do Imperador, Duque de Caxias e Dom Manuel), circundando o perímetro central;  o engenheiro projetou ainda um conjunto de obras públicas, entre as quais o edifício que iria sediar a  Assembleia Provincial, em 1871, em estilo neoclássico. 

 edifício da Assembleia Provincial, onde funciona atualmente o Museu do Ceará
A devastadora seca de 1877-1879 interrompeu temporariamente esse fluxo modernizador que se instaurava na cidade. Além de desestabilizar a economia cearense e provocar intenso êxodo rural  para a capital, a longa estiagem possibilitou a propagação de uma fulminante epidemia de varíola, vitimando mais da metade dos 100 mil retirantes amontoados em abarracamentos providenciados pelo governo na periferia de Fortaleza. 

 retirantes da seca de 1877 (foto do google)
Ao longo desses três anos, com a capital assistindo ao féretro diário de centenas de mortos, a cidade tomou-se de pavor e pesar, não existindo clima para que grandes obras ou novidades fossem patrocinadas.
Tinha Fortaleza o aspecto de sombria desolação. A tristeza e o luto entravam em todos os lares. O comércio completamente paralisado dava às ruas a feição de uma terra abandonada.
A cidade não estava preparada para tamanha calamidade. O Lazareto da Lagoa Funda, edificado em 1856 para confinar doentes contagiosos, só dispunha de 300 leitos e os acometidos pela varíola eram milhares. 

O auge daquele teatro de horrores foi o dia 10 de dezembro de 1878, quando o cemitério do Lazareto recebeu 1004 vitimas da epidemia, ficando por muito tempo na memória da cidade como “O Dia dos Mil Mortos”. O medo alastrou-se no seio da população nativa, sobretudo quando a varíola vitimou a esposa do presidente da província. A partir desse fato ninguém mais se considerou a salvo, mesmo na área urbana mais protegida.
O repulsivo e perigoso trabalho de transportar os cadáveres dos abarracamentos até o cemitério do Lazareto, só encontrou aceitação entre aqueles que compunham o crescente contingente de miseráveis produzidos pelo crescimento econômico excludente. Afora a diária de mil réis e comida, os voluntários exigiram também o fornecimento de aguardente para poderem encarar semelhante tarefa.


extraído do artigo de Sebastião Rogério Ponte
A Belle Epoque em Fortaleza: remodelação e controle
publicado no livro  Uma Nova História do Ceará 
fotos do arquivo Nirez

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Fortaleza em Paris: As Reformas Urbanas na 1ª República

A instauração da República no Ceará se processou entre os dias 15 e 16 de novembro por intermédio de uma articulação envolvendo militares da Escola Militar e do 11° Batalhão, e os integrantes do centro Republicano – organizado poucos meses antes, em 26 de julho de 1889 – que depôs o governo provincial de Morais Jardim (outubro de 1889-novembro de 1889).

cadetes da Escola Militar de Fortaleza cercam o Palácio do Governo e derrubam o presidente Clarindo de Queirós 

Ocupando provisoriamente o novo poder, o Coronel Luís Ferraz faleceu pouco tempo depois (janeiro de 1891), sendo substituído pelo General Clarindo de Queirós. Esse foi deposto quando Floriano Peixoto assumiu a presidência da República, após a renúncia de Deodoro da Fonseca. Como Clarindo de Queiroz demorou a atender o chamado do presidente para ir à capital federal, uma revolta militar bombardeou por toda uma noite o Palácio do Governo e obteve a deposição do General.
Foi nesse momento que principiou a ascensão do bacharel Nogueira Accioly rumo à presidência do estado e à constituição de sua oligarquia, uma das mais duradouras (1896-1912) das tantas que despontaram no Brasil na Primeira República. Accioly não era um republicano histórico. Ainda no período monárquico tornou-se presidente do Partido Liberal cearense após a morte do seu sogro, Senador Pompeu. Protegido pelo ministro Sinimbu, ocupou a presidência da província em 1878. Em outubro de 1889 foi nomeado Senador do Império, cargo que não chegou a assumir por causa da Proclamação da República. 

 Em 1906 Nogueira Accioly (de pé) recebeu a visita do Presidente da República Afonso Pena

Nogueira Accioly logo aderiu ao novo regime e em 1890 fundava a União Republicana contando com a participação da antiga facção liberal e de ex-conservadores. O prestigio político de Accioly não foi abalado pelas pressões dos republicanos que o identificavam como uma das “raposas” do antigo regime, tanto que se tornou senador em 1892, cargo que lhe conferiu grande influência na política cearense daqueles atribulados primeiros anos da República.
Na condição de aliado político de Floriano Peixoto, Accioly teve atuação destacada na articulação que depôs o presidente Clarindo de Queiroz. A seguir, ocupou a presidência do Estado o tenente-coronel José Freire Bezerril; Accioly, então já presidente do Partido republicano Federalista, que fundara naquele mesmo ano de 1892, foi o escolhido para ocupar a vice-presidência. Findo o quadriênio da gestão Bezerril (1896), Accioly finalmente se elege presidente do Ceará – o primeiro governante civil do estado – com cerca de 21 mil votos.

 Embora iniciado no governo de Bezerril Fontenele (1892-96), o Mercado de Ferro, concluído em 1897 na gestão de Accioly, se configura como a primeira grande obra municipal que o intendente  Guilherme Rocha teve esmerada participação.

Entre 1889 e 1896, o período crítico dos 3 governos militares cearenses, foram poucas as práticas dominantes voltadas para os anseios de modernizar Fortaleza e disciplinar a população via estratégias higienistas e comportamentais. A destacar, entretanto, a tentativa em 1891,  de substituir os nomes das ruas por números, a exemplo de New York, medida que acabou revogada poucos meses depois; o surgimento da Academia Cearense (1894), que, ao lado do Instituto Histórico do Ceará (1887), veio a se tornar uma das principais instituições de saber da capital, reunindo os mais ilustres intelectuais e publicando uma revista anual, em formato de livro contendo não menos de 200 páginas; e a emergência de mais uma organização voltada para o controle assistencialista do contingente de miseráveis da cidade, o  Dispensário dos Pobres, em 1895. 

Guilherme Rocha, Intendente de Fortaleza de 1892 a 1912

Foi a partir dos governos seguintes de 1896 a 1930, que realmente se tornaram mais efetivos os investimentos de normalização urbano-social em Fortaleza.  Durante todo o período em que durou a oligarquia aciolina (1896-1912) a Intendência da capital ficou a cargo do coronel Guilherme Rocha, considerado pela histografia cearense um dos administradores que mais fizeram pela urbanização e embelezamento de Fortaleza.

Praça da Sé, uma das beneficiadas com melhoramentos na gestão do Intendente Guilherme Rocha

Após a construção do Mercado de Ferro, o poder municipal investiu na ampla remodelação das três principais praças da capital – a do Ferreira, a Marquês de Herval e a da Sé – inauguradas com muitos festejos. Nestes logradouros foram introduzidos canteiros de flores, avenidas, réplicas de estátuas gregas, vasos importados, chafarizes e largos pavilhões para ocorrência de retretas, patinação e ginástica.
A regeneração das praças, portanto, vai muito além do mero aformoseamento: facilitava a circulação e determinava novas regras de convivência e utilização do espaço público, além de estimular a prática de exercícios físicos nos jovens e estudantes, tidos como saudáveis aos costumes e à saúde.
  
Jardim sete de setembro, na Praça do Ferreira

Atento e vigilante ao embelezamento da cidade, Guilherme Rocha também procurou fazer cumprir o Código de Posturas de 1893, que prescrevia a adoção de uma padronização formal nas platibandas, obrigatórias nas fachadas de frente, bem como nos vãos de portas e janelas externas. Para manter a harmonia do conjunto urbano, tentou impedir as construções que não obedecessem as linhas gerais definidas pelo Código.
Com base no artigo 12 do Código, o intendente exigiu que as esquinas fossem cortadas em dois ângulos obtusos, o que provocou reação da oposição.

sede do Jornal "Unitário", de onde João Brígido disparava suas críticas contra o Governo Accioly

O jornalista João Brígido, inimigo político de Accioly, aproveitava-se do fato para ironizar o intendente municipal chamando-o de nosso Haussmann, (prefeito de Paris à época) num artigo intitulado “Fortaleza em Paris” inserido no jornal Unitário de 23 de julho de 1908. Apontando a disparidade das situações, afirmava que Haussmann  havia feito as derribadas de Paris para tirar aos inimigos seus melhores pontos estratégicos acomodados às barricadas. Por tal razão, tinham sido condenadas as esquinas angulares, dando-lhes forma arredondada. Não era este o caso de Fortaleza, onde em ponto central se via um pardieiro, que não era do repertório de Haussmann.

Praça José de Alencar, então Marquês de Herval depois da reforma empreendida por Guilherme Rocha. Era o cartão-postal de Fortaleza

O pardieiro a que se referia João Brígido era o Mercado de Ferro, mas sua desqualificação é questionável: afinal o Mercado de Ferro, metálico, em estilo art-nouveau, enquadrava-se nas reformas estéticas do final do século. Como se vê, os segmentos modernizadores locais – prefeitos e jornalistas, entre outros – estavam informados e alinhados com as reformas urbanas ocorridas na Europa, sobretudo as da França e Inglaterra, países com as quais as cidades brasileiras mantinham mais contato. 

detalhes do embelezamento da Praça Marquês de Herval: réplicas de estátuas gregas e vasos importados

Um dos mais eloquentes testemunhos sobre a onde de transformações urbanas vividas por Fortaleza é a crônica Epitáfio na Calçada, de Paulino Nogueira, publicada no Almanaque do Ceará, ano de 1900. Já sentindo certa nostalgia de um passado recente, o cronista compara a Fortaleza de poucas décadas atrás com a “nova” cidade do momento em que escreve, destacando, com a perspicácia e perplexidade do olhar literário, as fascinantes novidades que estavam alterando a fisionomia da cidade:
... era muito pequena e atrasada esta Capital. Ainda não tinha o Passeio Público, praças arborizadas, templos majestosos, edifícios elegantes, tantas e tantas ruas alinhadas, calçamento, iluminação à gás, linhas de bondes, carros de aluguel, hotéis, quiosques, clubes, prado, corrida de touros, a cavalo e à bicicleta, quermesse, bazar e demais novidades.  


extraído do livro de Sebastião Rogério Ponte
Fortaleza Belle Epoque: reformas urbanas e controle social (1860-1930) 
  

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Os Bairros dos Ricos e os Impasses Urbanos

No inicio dos anos 1950 a Aldeota começava a se consolidar como espaço da burguesia, que exercia a sua hegemonia nos diferentes setores da vida urbana. A cidade passou a se guiar pelo modo de vida oriundo da cultura das elites, que exerciam um controle sobre a vida urbana.
Os bairros elegantes ainda eram Jacarecanga e Benfica. O primeiro, até os anos quarenta era conhecido como o mais aristocrático. O palacete de José Gentil no Benfica rivalizava em ostentação com o da família de Pedro Philomeno Gomes, no Jacarecanga, onde havia casas copiadas de modelos europeus.


Residência de José Gentil, no Benfica. Ampliado, atualmente o prédio é ocupado pela Reitoria da Universidade Federal do Ceará.

Foi nesse período que a Aldeota começou a crescer, mas limitava-se ao final da linha dos bondes, entre as ruas Silva Paulet e Jose Vilar. Havia o castelo do Plácido de Carvalho, comerciante que, para homenagear a mulher de origem italiana, mandara construir a residência nos moldes de um castelo florentino.  Em 1954 o edifício chegou a ser objeto de debates na Câmara Municipal, em razão de um requerimento do vereador Pedro Paulo, que solicitava ao Governo do Estado que adquirisse o palacete da viúva de Plácido de Carvalho, a fim de transformá-lo em residência governamental com a denominação de Palacete Verdes Mares. O requerimento foi rejeitado pela câmara.


Palácio do Plácido, que foi objeto de um projeto para a compra pelo Governo do Estado, quando receberia a denominação de Palacete Verdes Mares. O projeto foi recusado, e o palácio acabou demolido alguns anos mais tarde, em 1974. 

O bairro mais distante era São Gerardo, antigo Alagadiço, Messejana, Parangaba e Antônio Bezerra ainda se apresentavam com aspectos de cidades interioranas. O plano de Fortaleza, de 1952, de autoria do engenheiro Saboia Ribeiro, lesava o interesse dominante relativo à preservação dos prédios localizados no centro da cidade, que seriam atingidos pelo projeto. Por isso seus partidários eram poucos, sendo a polemica sobre o plano orientada por uma comissão presidida pelo prefeito e composto, em sua maioria, por componentes de várias entidades públicas e particulares.
Aprovado pela Câmara Municipal em 1952, juntamente com o Código de Obras da Prefeitura, não constava do projeto a regulamentação relativa aos recursos que seriam utilizados para alargar algumas ruas do centro, pois ficariam a cargo de uma comissão responsável. Desse modo, o plano foi alterado com a aprovação do novo código. Os recuos previstos nas ruas centrais foram rejeitados para não contrariar interesses dos proprietários da zona comercial. O argumento usado pelos defensores da preservação da área central foi a precária condição financeira do município, que impediu a concretização do projeto. Consequentemente, a Rua General Sampaio não foi alargada, o que facilitaria o fluxo urbano. O alargamento só foi permitido no sentido norte-sul. As ruas que corriam de leste a oeste, como Liberato Barroso, Senador Alencar e João Moreira poderiam ser alargadas. 


Cruzamento da Rua Liberato Barroso com a Rua Barão do Rio Branco (década de 50)

O acesso à Praça do Ferreira continuou a ser feito por meio de ruas estreitas, para não onerar o município, menos beneficiado do que os interesses imobiliários privados. O plano fora considerado inviável porque indicava o alargamento de diversas avenidas, como a Dom Manuel, a Duque de Caxias e a Avenida Imperador. Edifícios como o Jangada e o Sul América seriam atingidos, além da área dos cines São Luiz, Diogo e do próprio Hotel Excelsior que seriam destruídos. 


cruzamento da Rua Barão do Rio Branco com a Guilherme Rocha

Ante a pressão da elite, o próprio Dr. Saboia Ribeiro concordou que as ruas centrais permanecessem em seu estado original, mas que o número de andares dos edifícios ficasse limitado a dois. Apesar do predomínio de edifícios comerciais, ainda havia residências no centro, ocupadas por pessoas de classe média, a maior parte, imóveis recebidos por meio de heranças. Em sua maioria eram casas conjugadas, com instalações nem sempre atualizadas.  A escritora Rachel de Queiroz certa feita impressionou-se coma má administração e o desleixo na recuperação dos prédios em Fortaleza. Até mesmo alguns  que tinham sido atingidos por incêndios, apesar de localizados na área central, não eram reconstruídos de imediato. Só na Rua Major Facundo havia três, na Floriano Peixoto também tinha uma casa, incendiada desde a 2ª. Guerra. Na própria Praça do Ferreira o espaço outrora ocupado pelo armazém Pan-America, permanecia interditado.


Rua Gonçalves Ledo

Quando a Aldeota ainda não se tornara o bairro mais valorizado de Fortaleza, diversas famílias de melhores posses residiam na Praia de Iracema. Em decorrência do projeto de construção da futura avenida que ligava a Praia de Iracema ao Mucuripe, onde o porto estava sendo concluído, fora feito um levantamento topográfico da área litorânea em janeiro de 1945, partindo do entroncamento da igreja de São Pedro, até o porto. 


construção da avenida Beira-Mar

Previa-se no plano, o alargamento de terrenos situados a cem metros à direita da linha férrea. Pretendia-se assim, que a antiga sede do Náutico Atlético cearense, a conhecida Casa de Recreio do “Sr. Johnson” e outros edifícios residenciais importantes fossem desapropriados. Os proprietários de áreas valorizadas defendiam a instalação do porto, desde que não afetasse seus interesses.


casas residenciais na Praia de Iracema (foto do livro Ah, Fortaleza!)

Casas destruídas pela força das marés na Rua Pacajus. O hotel Pacajus , na mesma via, também foi afetado 

Muitas das residências da Praia de Iracema foram abandonadas ou destruídas, principalmente pelo avanço das marés, em decorrência das obras de construção do porto. O impulso das ondas passou a interromper o trânsito na Praia de Iracema. Estimava-se que uns duzentos metros de extensão de praia iam sendo atingidos pelas marés. As águas chegaram a atingir os trilhos dos bondes, avançando até as casa localizadas no outro lado da rua. O conhecido Hotel Pacajus, que abrigava até cinquenta hóspedes, ia perdendo a clientela ante a ameaça de desabamento do prédio.
A obra de implantação do porto e a consequente destruição da Praia de Iracema testemunhavam a contradição entre as medidas voltadas às melhorias urbanas, a cargo das autoridades locais, e os resultados concretos obtidos. A  viabilização de melhor escoamento da produção por via marítima traria benefícios à economia local, mas o preço pago pelo progresso foi a destruição da beleza natural da Praia de Iracema, inviabilizando a permanência dos que ali residiam. 


Avenida Santos Dumont cruzamento com a Avenida Barão de Studart

Compreende-se desse modo, o motivo da valorização da Aldeota como novo polo citadino. Contudo, a transferência para o futuro bairro da elite não se fez de forma súbita, pois apesar do avanço do mar em 1952, ainda surgiam novas casas na Praia de Iracema. Interessante é que o ano de seca, 1951, parece ter contribuído para o aumento do índice de edificações em Fortaleza. Com a mão-de-obra mais barata e o crescente aumento dos preços dos aluguéis incentivou a construção. Calcula-se em oitenta milhões de cruzeiros a quantia gasta em construções no ano de 1951. 
Dois anos depois já se dizia que a Praia de Iracema não mais existia. Restavam apenas alguns trechos do antigo local pitoresco da cidade.



fotos do Arquivo Nirez
Extraído do livro
Verso e reverso do perfil urbano de Fortaleza, de
Gisafran Nazareno Mota Jucá
    

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Guilherme Rocha A reforma urbana de Fortaleza


Guilherme César da Rocha (1846-1928) - Coronel da Guarda Nacional, vereador, presidente da Câmara Municipal, deputado, vice-presidente do Estado e Intendente de Fortaleza, de 1892 a 1912.

O coronel Guilherme Rocha tomou posse na Prefeitura de Fortaleza em 1902. Durante sua administração conseguiu realizar importantes reformas de praças e prédios, proporcionando maior lazer e bem estar para os moradores da província. 

Segundo o escritor Mozart Soriano Aderaldo, Guilherme Rocha foi o primeiro governante depois do boticário Ferreira, que se interessou agressivamente pela solução dos problemas urbanísticos da cidade.

De fato, Guilherme Rocha promoveu uma série de melhoramentos, inaugurando em 1902, o jardim da Praça do Ferreira, até então, um vasto areal, como de areia eram até a década de 1930, as Praças do Carmo, do Coração de Jesus e de Pelotas (depois da bandeira e hoje Clóvis Beviláqua.)

Jardim 7 de setembro, na Praça do Ferreira (arquivo Nirez)

Em 1903 o então intendente ajardinou as Praças da Sé e do Patrocínio (atual José de Alencar). Nesse mesmo ano a cidade foi enriquecida com a inauguração da Igreja do Pequeno Grande, anexa ao Colégio da Imaculada Conceição.  O templo dedicado a Nossa Senhora do Carmo, erguido no local onde antes se venerava a imagem de Nossa senhora do Livramento, foi entregue aos fiéis em 1906.

Antes da urbanização, a Praça do Ferreira, cercada de mongubeiras, não era revestida sequer de um calçamento tosco.  As árvores eram utilizadas também para amarrar animais dos comboios que traziam mercadorias do sertão para a capital. No centro da praça havia uma cacimba, de uso público.

jardim 7 de setembro, na Praça do Ferreira (arquivo Nirez)

Guilherme Rocha converteu tudo isso num jardim de encantos, rodeado por um amplo passeio do lado oposto à Câmara Municipal. Entre os Cafés Elegante e Iracema, erguia-se um belo chafariz com quatro torneiras. No centro do passeio, um alto catavento, e ao pé deste um grande depósito de água. Oito tanques com repuxos forneciam água aos numerosos canteiros de flores, situados dentro das áreas que dividiam o jardim.

Igreja do Carmo, inaugurada em 1906 
imagemhttp://www.photography-discussions.info/en/peCqiSN 

Guilherme Rocha nasceu em Fortaleza, em 16 de agosto de 1846, filho do comerciante português e cônsul da Bélgica Manuel Antônio da Rocha Júnior e de Joaquina Mendes da Rocha. Aos dez anos foi para o Rio de janeiro, onde fez estudos preparatórios no Colégio dos Padres Paiva. Matriculado na Escola de Guerra, abandonou tudo no terceiro ano por problemas de saúde. De volta ao Ceará dedicou-se à vida do comércio.


Conjunto arquitetônico Igreja do Pequeno Grande/Colégio da Imaculada Conceição (foto Ah, Fortaleza!)

Com o falecimento do pai, Guilherme Rocha foi nomeado cônsul da Bélgica, confirmada por carta imperial de 26 de janeiro de 1872. Eleito membro da Irmandade do S.S. Sacramento de Fortaleza em 1873, foi em 1878, nomeado tesoureiro da Santa Casa de Misericórdia, cargo que exerceu por mais de trinta anos. Por  Carta Imperial de 3 de fevereiro de 1883, foi nomeado 6° vice-presidente da província. 

Durante o Império  Guilherme Rocha foi vereador e presidente da Câmara Municipal. Foi nomeado Intendente no período Republicano, assumindo o cargo a 12 de julho de 1892, permanecendo no cargo até 1° de fevereiro de 1912, sendo assim o Intendente de mais longa administração, durante o qual realizou diversos melhoramentos urbanos.

Mercado de Ferro, construído na gestão de Guilherme Rocha (arquivo Nirez)

Em 1892 Guilherme Rocha pediu exoneração do cargo de Cônsul da Bélgica. Foi então nomeado agente do Loyde Brasileiro em Fortaleza, permanecendo nesse cargo por vinte anos.  Devido ao golpe político da época, foi eleito vice-presidente do Estado, tendo em seguida a patente de Coronel Comandante Superior da Guarda Nacional de Fortaleza.

Foi exonerado dos cargos de Intendente de Fortaleza, Tesoureiro da Santa Casa de Misericórdia e Agente do Loyde Brasileiro, após movimento armado que depôs o governo de Antônio Pinto Nogueira Accioly. Guilherme Rocha faleceu em Fortaleza, em julho de 1928.

fonte:
A História do Ceará passa por esta rua
de Rogaciano Leite Filho          

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Ildefonso Albano e as Reformas Urbanas

Em 12 de junho de 1923, o presidente da província Justiniano de Serpa, por motivos de doença, transmitiu o governo do Ceará para o vice-presidente Ildefonso Albano. Na liderança, o substituto de Serpa continuou as obras iniciadas pelo antecessor, demonstrando experiência no trato com as questões públicas.

Grupo Escolar do Benfica, fundado em 1924 (arquivo Nirez)

Ildefonso Albano já ocupara o cargo de Prefeito de Fortaleza no governo do coronel Franco Rabelo (1912-1914). Como prefeito na administração de Justiniano de Serpa, foi responsável pela reforma urbanística de importantes áreas da cidade: arborização da Avenida Alberto Nepomuceno, reforma e construção dos jardins da Praça General Tibúrcio, reforma do Parque da Independência (atual Cidade da Criança), reforma das calçadas com a utilização de fios de pedra e arborização da cidade com Ficus benjamin.

O Parque da Independência foi reformado em 1923, quando Ildefonso Albano ocupava o cargo de prefeito de Fortaleza (arquivo Marciano Lopes)

Durante sua permanência na presidência do Estado foram construídas várias pontes, além de edifícios escolares, como os grupos escolares do Benfica, hoje edifício da Faculdade de Ciências Econômicas, os grupos de Visconde do Rio Branco e o de Fernandes Vieira; concluiu o edifício da Secretaria da Fazenda e iniciou a construção do Quartel da Polícia Militar. 

Marco de inauguração da Ponte Epitácio Pessoa, construída no governo Ildefonso Albano (acervo Museu do Ceará) 

Deste modo dotou o Ceará de uma boa infraestrutura de prédios indispensáveis aos serviços de  educação e segurança pública. No exercício da presidência do Ceará, fundou a sociedade de agricultura, convocou e mobilizou os cotonicultores para produção e expansão do algodão; estudou e defendeu os interesses da pecuária cearense, sendo o seu governo o que melhor compreendeu a dinamização dos recursos, notadamente o binômio  gado – algodão.


Ildefonso de Abreu Albano nasceu em Fortaleza em 12 de fevereiro de 1885, filho de José Albano Filho e Maria de Abreu Albano. Seu avô paterno era José Francisco da Silva Albano, o Barão de Aratanha. 
Estudou no Seminário da Prainha – ao lado do irmão José de Abreu Albano – e  depois na Áustria e na Inglaterra. Cursou até o terceiro ano da faculdade de Direito do Ceará, mas não obteve o bacharelato.
Quando retornou da Europa, onde estudou tecnologia da tecelagem, ocupou o cargo de gerente da firma Albano e Irmão, a afamada Casa Albano, fundada em 1852, pelo Barão de Aratanha e por seu irmão, Manoel Francisco da Silva Albano.

Propaganda da Casa Albano no ano de seu jubileu em 1912 (Ah, Fortaleza!)

Casado com uma filha do coronel Franco Rabelo, foi nomeado prefeito de Fortaleza. Como deputado federal defendeu o Nordeste, enfatizando a problemática das secas. Denunciou também o boicote organizado contra os Estados do Norte e sugeriu soluções ao problema do algodão.
Publicou os seguintes livros: O secular Problema do Nordeste; A Cultura do Algodão no Ceará; Jeca-Tatu e mané Xique-Xique; O Empréstimo Americano;  Brazil Readers Digest, este último um trabalho didático como professor de língua inglesas no Colégio Pedro II, em que demonstra sua preocupação e devotamento à sua terra e a sua gente.

Prédio da Sefaz, construção iniciada em 1924 no governo de Ildefonso Albano e concluída em 1927, na gestão de José Moreira da Rocha (arquivo Nirez)

Um ano depois, em julho de 1924, quando Ildefonso Albano entregou o cargo de presidente ao seu sucessor  – José Moreira da Rocha – encontrou seu antigo estabelecimento comercial (Casa Albano) em dificuldades financeiras. Além disso, não conseguiu ser incluído na chapa para a Câmara dos Deputados.
No Rio de Janeiro passou a trabalhar como caixeiro e depois como guarda-livros, a fim de sobreviver. Pouco depois foi nomeado adido comercial do Brasil em Havana. Ao retornar ao Brasil ocupou outros cargos no ensino e na administração pública. 
Faleceu no Rio de janeiro, a 22 de dezembro de 1956.

Extraído do livro de Rogaciano Leite Filho