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sexta-feira, 19 de julho de 2024

Quando Fortaleza andava de Bonde


A Empresa Ferro Carril do Ceará foi fundada no dia 3 de fevereiro de 1877, pelo comendador Francisco Coelho da Fonseca e Alfredo Henrique Garcia. Entre a instalação da empresa e o início das operações, três anos se passaram, somente em 1879 são concretizadas as obras de construção da estação e sede da companhia, e a partir de novembro, foi cumprida a etapa de assentamento dos trilhos.

Na manhã de domingo do dia 25 de abril de 1880, a Ferro Carril do Ceará inaugura sua primeira linha, com 4.210 metros, da Estação na Estrada de Messejana (Boulevard Visconde do Rio Branco) até a rua São Bernardo (atual Rua Pedro Pereira) e a partir desta, interligando a Praça da Assembleia ao Matadouro Modelo, bairro do Prado. Os veículos tinham 4 ou 5 bancos, eram pequenos, modestos, providos de cortinas que protegiam do sol e da chuva, e dirigidos por um boleeiro quase sempre vestido de fraque. Mesmo assim serviram a muitos usuários que pagavam passagens de 100 réis, que possibilitaram a melhoria do serviço, com bondes ampliados em sua capacidade para até para sete bancos, comportando 28 passageiros.



Do período de funcionamento dos bondes movidos a tração animal em Fortaleza, restaram muitas histórias. Uma delas, atribuída a Quintino Cunha, notório advogado e humorista da terra. Contam que em viagem a Belém do Pará, Quintino se deslocava ao lado de um indivíduo que reclamava do mal funcionamento dos bondes, comparando aos do Ceará, com ares de troça. Ao que Quintino lhe respondeu: - meu caro, o senhor está redondamente enganado, há uma grande diferença: no Ceará os burros puxam o bonde, mas aqui se dá o contrário, os burros é que as vezes andam de bonde.

Em 6 de junho de 1912, deu-se a transferência, por compra, da empresa Carril do Ceará à The Ceará Tramway Light and Power Ltd. Para administrar a empresa em Fortaleza, foi contratado Hugh Mackeen. Ele seria o primeiro gerente local e teve papel decisivo na realização das obras iniciadas naquele mesmo ano. O primeiro bonde elétrico circulou às 4:30 da tarde, no dia 9 de outubro de 1913, sendo beneficiado o bairro da Estação, continuando as outras linhas com os bondes de burros. No dia da inauguração, além das autoridades, inclusive o intendente Ildefonso Albano e convidados, uma multidão de curiosos foi conferir a novidade, com gente que embarcava, e só abandonava o veículo quando acabava o dinheiro.


Os demais bairros foram pouco a pouco sendo beneficiados pela tração elétrica, porém, enquanto se instalavam os cabos, se estabeleceu uma espécie de tráfego provisório. Como a linha do bairro Soares Moreno, hoje Jacarecanga, foi uma das últimas eletrificadas, os enterros que demandavam o Cemitério São João Batista eram feitos em bondes de burros, que iam buscá-los em qualquer bairro, mesmo os que já estavam eletrificados.

Os engenheiros ingleses, encarregados de dirigir os trabalhos em Fortaleza, pouco afeitos ao ambiente e ao idioma, sofreram alguns dissabores. Certa vez, uma turma de trabalhadores abria o mato no então final da linha do Outeiro, procurando levar os trilhos para mais além, quando se depararam com enormes moitas de urtiga-cansanção; enquanto viam uma maneira de prosseguir, foram advertidos pelo técnico britânico, que para mostrar como se fazia, se pôs a arrancar as plantas com as mãos, dizendo entredentes “não pode arrancar com a mão? Vejam como eu fazer”. Minutos depois, porém os braços e mãos do mister ficaram seriamente afetados e, em consequência, levou um mês inteiro de cama.  

Em outra oportunidade, o mesmo engenheiro fazia a condução de trilhos e gritava “push”. Mas os trabalhadores, sem entenderem o idioma, em vez de empurrar, como solicitava o engenheiro, faziam era puxar.


O último bonde de burro que rodou pelas ruas de Fortaleza foi o de número 25, guiado por um certo Sr. Fialho, na linha do Alagadiço, a última a ser eletrificada. Quase todos foram vendidos à Empresa Teixeira Leite, do Maranhão, sendo embarcados para a capital. Quando os velhos bondes iam ser desembarcados, os catraieiros, indignados com o mau serviço da empresa, deixaram cair no mar alguns veículos, como forma de protesto, que São Luís não era a rampa de lixo do Ceará.

Por muito tempo, a Light ainda conservou dois daqueles burros dos antigos bondes, que mesmo velhos, foram usados para puxar o carro torre de consertos da rede aérea.

 

Extraído dos livros “Coisas que o Tempo Levou, crônicas históricas da Fortaleza antiga”/Raimundo de Menezes/Edições Demócrito Rocha/Fortaleza:2000. “História da Energia do Ceará/Ary Bezerra Leite/Fortaleza: Fundação Demócrito Rocha,1996/Publicação FortalezaemFotos/Imagens Arquivo Nirez e Instituto Moreira Sales  



sábado, 23 de maio de 2020

O Atribulado Governo Franco Rabelo - 1912 - 1914


Depois da atribulada deposição de Antônio Pinto Nogueira Accioly, o maior de todos os nossos oligarcas que governou até 24 de fevereiro de 1912, quando teve de renunciar à presidência do Estado em razão de forte pressão popular, e para completa libertação do Ceará do domínio da oligarquia, foram buscar o coronel Marcos Franco Rabelo, ilustre militar cearense.

Praça Marquês de Herval (atual José de Alencar), reformada no governo de Accioly/Guilherme Rocha (foto arquivo Nirez)

Franco Rabelo sentou praça como segundo-cadete no 15º Batalhão de Infantaria na Escola Militar do Rio de Janeiro em 10 de setembro de 1879. No Exército, além da carreira militar atuou como professor de várias escolas militares, e só deixou a instituição em 1912, para candidatar-se ao Governo do Ceará. Portanto, Rabelo não tinha nenhuma experiência política ou administrativa. Acrescente-se a isso as reservas feitas à sua indicação pelo Senador Pinheiro Machado, cuja influência alcançava todo o país.

Eleito por esmagadora votação, Franco Rabelo iria encontrar a primeira grande dificuldade no reconhecimento de sua eleição por parte da Assembleia Legislativa, onde a oposição era maioria. Superado o impasse, o novo governador haveria de enfrentar outros grandes obstáculos. 

Na Rua Barão do Rio Branco foi erguido um Arco do Triunfo para recepcionar o Coronel Franco Rabelo - 1912. Foto do livro Ah, Fortaleza!

O maior deles foi enfrentar a feroz oposição que vinha do interior do Estado, formado por correligionários do oligarca deposto, inconformados com a perda de poder e privilégios que há muito desfrutavam. O quartel general dessa oposição foi montado em Juazeiro do Norte, e seu comandante era ninguém menos que o famoso Padre Cícero, o santo venerado pelos romeiros, o coronel de batinas reconhecido em todo o Estado. Aos chefetes do interior, que se apoiavam em grupos de capangas armados que mantinham sob seu comando, juntaram-se os políticos descontentes da capital, formando um grupo antagonista de força considerável.

Uma multidão se concentrou em frente a Sede do Tiro de Guerra, na Rua General Sampaio, para recepcionar o coronel Franco Rabelo (foto do livro Ah, Fortaleza!)

Durante o governo de Franco Rabelo, Ildefonso Albano foi nomeado Intendente de Fortaleza.  Em sua gestão procurou continuar o processo modernizador da cidade e civilizatório da população, com a remodelação de praças e logradouros. A Praça General Tibúrcio foi uma das beneficiadas. Devido a sua localização, na vizinhança do Palácio do Governo, o novo intendente se indignava com o fato dela ter sido transformada em depósito de materiais e de pastagens para animais. O projeto exigiu a desapropriação de várias casas em redor da praça, formando o atual quadrilátero. Por ordem do Intendente, a praça foi ajardinada, recebeu coreto, bancos importados e 49 novos combustores, que tornaram a Praça General Tibúrcio, a mais iluminada da capital, além de novos gradis e as estátuas dos leões, esculpidos em bronze e importados de Paris.

Albano promoveu a reforma da Cadeia Pública e o novo sistema penitenciário com base na criminologia moderna e práticas humanitárias – nesse período, a cadeia passou por reforma interna – iluminação e reconstrução de oficinas – artefatos diversos, carpintaria e calçados como atividades regenerativas dos presos, além de aulas de catequese. A polícia passava por mudanças visando melhorar a imagem formada pela repressão da oligarquia aciolina. Discutia-se a reformulação do Sistema Penitenciário obsoleto.

Além disso foi criada a guarda cívica para disciplinar a população pobre, foram promovidas campanhas de combate à febre amarela, com a recuperação da salubridade pública e a instauração de uma polícia médica; foi criado o Instituto de Amparo à infância.  Dividiu a cidade em 4 distritos para viabilizar a limpeza, e promoveu a abertura da Avenida Sena Madureira, que é a atual Avenida Alberto Nepomuceno. 

Avenida Alberto Nepomuceno, antiga Rua Sena Madureira - foto Arquivo Nirez
chamada inicialmente de Caminho da Praia (por fazer a ligação com a Praia de Iracema).  Em 1856, passou a ser a Rua da Ponte, devido a existência de uma ponte sobre o Riacho Pajeú que cortava a rua. Na gestão do prefeito Ildefonso Albano,  (1912-1914), foi alargada e pavimentada com calçamento e recebeu a denominação de Rua Sena Madureira. Em 1921 recebeu meio-fio e arborização e ganhou a denominação atual – Avenida Alberto Nepomuceno – em homenagem ao músico falecido em 1920.

Além destas obras temos, também, a chegada dos bondes elétricos em 1913 e da energia elétrica em 1914, através da companhia Ceará Light and Power.
Tanto o governador Franco Rabelo como seu intendente, eram bem aceitos e contavam com a aprovação dos fortalezenses.  Mas a base de apoio ao governo era muito frágil. Afastado do Ceará há muito tempo, sem as malícias do cargo, sem jogo de cintura e desconhecendo os conchavos políticos locais, Rabelo cometeu vários equívocos. Um destes erros foi entregar o comando da base política de sua gestão a Francisco de Paula Rodrigues, homem despreparado para a função e que foi escolhido apenas por ser antigo correligionário do sogro de Rabelo, o general Clarindo de Queiroz, deposto da presidência do Estado em 1892, discriminando os demais grupos políticos que que se opuseram a Accioly.

Rabelo não cumpriu acordos assumidos, não entregou os cargos públicos prometidos e exonerou Padre Cícero – aliado fiel de Accioly e 3º vice-presidente do Estado – do cargo de prefeito de Juazeiro. Ao lado dos adversários do governador, estavam a força política opositora representada pelo presidente Hermes da Fonseca e Pinheiro Machado, senador gaúcho candidato à presidência da República. A administração de Franco Rabelo foi ficando isolada politicamente.

Ao aderir à coligação contra a candidatura do Senador Pinheiro Machado, estava selado o destino de Franco Rabelo. Como represália, iniciou-se no Rio de Janeiro, então sede do governo federal, um trabalho conspiratório contra o governador do Ceará.

A escolha de Juazeiro do Norte para deflagração do movimento, decorreu do enorme prestígio que desfrutava o Padre Cicero no seio das populações sertanejas, bem como da extraordinária habilidade que tinha o caudilho Floro Bartolomeu para comandar essas tropas formadas por jagunços e cabras, reunidas num poderoso exército ilegal.

Movimentação na porta da Intendência Municipal  - Revista O Careta 1914

Segundo Rodolfo Teófilo escreveu em “A Sedição de Juazeiro” de sua autoria, “mais de dois mil homens estavam em armas. Fortaleza era uma praça de guerra. A vida da cidade havia parado por completo. Os empregados da Estrada de Ferro Baturité deixaram o trabalho e pegaram em armas, fazendo o mesmo os homens do mar, trabalhadores da praia, empregados do comércio, o tiro 38, os carroceiros. Enfim, pode-se afirmar que todo homem válido estava defendendo a cidade. Com semelhante resistência, era impossível aos jagunços entrar na cidade”.

Trincheira aberta na Praça Figueira de Melo em Fortaleza, para aguardar a invasão de jagunços que vinha de Juazeiro do Norte. imagem do livro Ah, Fortaleza!

No início de março de 1914, os homens de Juazeiro cercaram a capital, baixando acampamentos em áreas próximas como Maracanaú, Maranguape e Caucaia. A possibilidade de Fortaleza ser invadida causou histeria nos fortalezenses. No dia 9 deste mês o presidente Hermes da Fonseca decretou Estado de Sítio no Ceará, sendo a população desarmada e suspensa a organização da policia estadual, de modo que o policiamento da capital passasse para o inspetor militar Setembrino de Carvalho.

Desmontava-se assim o esquema de defesa popular de Rabelo. Cinco dias depois, a 14 de março de 1914, foi decretada intervenção federal no Estado, levando o governador a renunciar. Uma multidão emocionada se despediu de Franco Rabelo na saída do Palácio do Governo. Receberia ainda muitas homenagens até embarcar para o Rio de Janeiro dias depois.


Fontes: 
História do Ceará, de Airton de Farias
Anuário do Ceará 79/80


domingo, 23 de setembro de 2012

O Meio-Fio e as Ruas do Centro


trecho canalizado do Riacho Pajeú entre a Rua 25 de março e a Avenida D. Manuel. Na gestão do prefeito Vicente Fialho (1971-75), foi cogitada a abertura de uma avenida(Avenida Pajeú) que margearia o que resta do histórico riacho. Não fizeram, lamentavelmente (foto do acervo do Blog)  

Segundo o historiador Mozart Soriano Aderaldo, Fortaleza, a exemplo de Roma é uma cidade construída sobre colinas. Além de assentar-se sobre uma planície que varia de 15 a 20 metros acima do nível do mar, facilmente percebida em toda a orla marítima, do Mucuripe ao Pirambu, existem ainda hoje, não obstante o esforço de minimizá-las com o aplainamento de ruas, diversas elevações menores que então dividiam os cursos d’água que desembocavam no mar ou reforçavam o Pajeú e o Cocó.

Ladeira da Rua General Sampaio, que terminava na Praia Formosa (arquivo Nirez) 

O riacho que partia da antiga Praça da Lagoinha (Praça Capistrano de Abreu), e que seguia em direção ao Pajeú, alcançando-o na altura do Mercado Central, era um deles. Outro curso d’água se dirigia da atual Praça Clóvis Beviláqua em demanda da Lagoa do Garrote, atual Parque da Liberdade onde se acha a Cidade da Criança, passando antes nas proximidades da Praça do Carmo, antiga Praça do Livramento. 

Rua no Bairro do Pirambu e a grande ladeira até a praia (foto do acervo do Blog)

Esses riachos serpenteavam entre pequenos outeiros. Quando da pavimentação da cidade, as ondulações foram amenizadas, razão por que em muitos trechos de ruas, justamente os aterrados, o piso das antigas casas era mais baixo  do que o novo nível da artéria, enquanto em outros trechos se dava justamente o contrário, formando-se as chamadas “calçadas altas”, resultantes do rebaixamento do leito do logradouro, fenômeno esse ainda hoje percebido na Rua Senador Pompeu, nos quarteirões entre as Ruas Senador Alencar e São Paulo e entre as Ruas Guilherme Rocha e Liberato Barroso.

Antiga Rua Sena Madureira e o grande desnível entre o calçamento da rua e a calçada (foto do Arquivo Nirez)

Constituíam sério problema, principalmente para os cegos e os velhos essas “calçadas altas”. Foi por isso que Ildefonso Albano, mais uma vez prefeito de Fortaleza, mandou assentar no final da década de 1920 – o até então para nós desconhecido – meio-fio, nivelando todas as calçadas e fixando sua largura. 

Essa iniciativa significou para Fortaleza um largo progresso, apesar dos desacertos cometidos nessa mesma administração, que na mesma época mandou substituir as mongubeiras, que sombreava nossos logradouros, com sua copa frondosa e bela, pelo fícus-benjamim, que estragava as calçadas e era viveiro de um inconveniente inseto que a população apelidou de “lacerdinha”.
     
extraído do livro de Mozart Soriano Aderaldo

sábado, 15 de setembro de 2012

O (Breve) Governo Franco Rabelo

Franco Rabelo foi eleito para o governo do Estado sucedendo Antônio Pinto Nogueira Accioly. As eleições vieram logo após a revolta urbana de 1912, mas o novo governante não ficaria mais do que 2 anos na direção do poder estadual.  

 após a deposição do oligarca Accioly em janeiro de 1912, populares rabelistas voltam a se rebelar em novembro: cavam trincheiras em frente a Assembleia Legislativa, impedindo reunião de deputados aciolinos para depor o Presidente Franco Rabelo

Contando com o apoio da população da Capital que o concebia como verdadeiro salvador, Rabelo procurou concentrar as atenções  de sua gestão na governabilidade de Fortaleza. No pouco tempo em que durou, Franco Rabelo realizou diversas melhorias na cadeia pública, no intuito de torná-la mais cômoda, segura e confortável e mostrou-se disposto a modificar o regime penitenciário, julgado ultrapassado, através de uma reforma progressista.

Demonstrando estar também preocupado com o disciplinamento dos contingentes mais pobres para salvaguardar a ordenação urbana, o Presidente Estadual investiu na formação de uma nova guarda policial cívica, que deveria proceder a eliminação da mendicidade, da vagabundagem nas ruas e praças da capital.

Com relação à saúde pública, procurou instaurar uma efetiva polícia médica. Para tanto assegurou junto a Assembleia verbas mais amplas no orçamento para tentar recuperar a saúde pública, principalmente através da vacinação em larga escala para o combate à febre amarela, aquisição de laboratórios, construção de isolamentos para os acometidos de varíola e fiscalização de gêneros alimentícios.

 Instituto de Proteção e Assistência à Infância, criado no governo de Franco Rabelo
 
A maior realização rabelista nessa área foi a instalação do Instituto de Proteção e Assistência à Infância, onde diária e gratuitamente três médicos consultavam crianças e distribuíam leite para as mais necessitadas. 
 
A respeito do saneamento urbano, o governo Rabelo retomou o projeto de abastecimento de água e esgoto e o confiou ao engenheiro Dr. João Felipe. O rio Acarape foi o escolhido como reservatório e sua água enviada para análise por Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro, que a aprovou como sendo de boa qualidade – desde que fervida e tratada por ozone. 

 Os vendedores ambulantes, na época já desafiavam a ordem urbana: o Intendente municipal proibiu a venda de qualquer produto que causasse sujeira nas ruas e praças.
 
Durante o governo de Franco Rabelo, a administração municipal ficou a cargo do intendente Ildefonso Albano, igualmente apontado como um dos que mais fizeram pelo progresso da cidade. Entre as obras que realizaria através de empréstimo que a Câmara autorizara, (mas que foram interrompidas pela Sedição de Juazeiro), incluíam-se as construções de um matadouro moderno, um mercado de verduras com estrutura  metálica e uma vila operária para resolver o problema de moradia dos pobres, consideradas anti-higiênicas e de aluguel elevado. 
 
Ao longo do seu governo, o intendente Albano ressalta em várias passagens, que suas intervenções na cidade tinham, entre outros objetivos específicos, a finalidade de torna-la mais higiênica e bonita. Nesse propósito procurou trabalhar em estreita colaboração com o então Inspetor de Higiene Pública, Dr. Abdenago da Rocha Lima. Contratou na Capital Federal o engenheiro João Gualberto Marques Porto e um jardineiro especializado para as obras municipais e os serviços de jardinagem e arborização. 

 Os quiosques que ocupavam os logradouros públicos e comercializavam alimentos passaram a ser fiscalizados. Na foto, o cafè Fênix, que funcionava na Praça Carolina (atual Praça Waldemar Falcão)

No campo da saúde pública, a Intendência, em conjunto com a Inspetoria de Higiene, estabeleceu uma cruzada contra os quiosques que ocupavam as praças. Na Avenida Bezerra de Menezes, obrigou a retirada de dois deles, sem indenização. Os pequenos engenhos , que forneciam a popular garapa de cana também não escaparam da fiscalização: zelando pelo asseio do Mercado Público, proibiu o estacionamento das engenhocas.

Para viabilizar o serviço de limpeza pública, dividiu a cidade em quatro distritos, ocupados por subinspetores subordinados à inspetoria de Higiene, que por sua vez cuidaria apenas do perímetro central. 

 
A obra mais dispendiosa da gestão do Intendente Ildefonso Albano foi a reforma da Praça General Tibúrcio. O ajardinamento da praça obedeceu ao estilo "Jardim Inglês", com caminhos e canteiros sinuosos; o velho gradil de ferro foi substituído por uma balaustrada artística, encimada por combustores, jarros bronzeados e três estátuas de leões, autênticas obras de arte
  
Os vendedores ambulantes, que à época já desafiavam o poder urbano, foram proibidos de comercializar qualquer produto que causasse sujeira nas ruas.  Quanto aos melhoramentos urbanos, o Intendente criou uma Banda Municipal para, uma vez por semana, tocar nas retretas dos logradouros públicos; recuperou calçamentos e realizou a abertura da Avenida Senna Madureira, que considerou essencial, porque alargava a única via existente entre a praia e o centro.

 Rua Sena Madureira

Sua obra mais demorada e dispendiosa, entretanto, foi a reforma da Praça General Tibúrcio, localizada na vizinhança do Palácio do Governo, um dos pontos centrais da capital. Por sua localização, Albano se indignava com o fato de vê-la transformada em depósito de materiais e de pastagem para animais. O projeto da nova praça exigiu o recuo de oito casas do lado ocidental do logradouro.

A energia elétrica finalmente chegou a Fortaleza em 1914, através da Ceará Light and Power Co,  eletrificando os bondes antes puxados por burros que, entre outros contratempos, costumavam sujar as vias públicas. Os bondes elétricos, mais compatíveis com a velocidade imposta pelo ritmo urbano de então, passou a cobrir pontos mais distantes da cidade para atender a crescente necessidade de mobilidade da população. 

 A chegada da energia elétrica possibilitou a modernização do transporte coletivo com o surgimento dos bondes movidos a eletricidade em substituição aos de tração animal. Na foto, o bonde do Outeiro percorre a Rua Floriano Peixoto

Por outro lado, os novos bondes – juntamente com o aumento do número de automóveis que alteravam o cotidiano da cidade desde 1910 – requereram polícia de trânsito e pavimentação das ruas.

Tudo acabou em 1914, quando da região do Cariri veio um exército de sertanejos, comandados por coronéis Acciolistas e abençoados pelo Padre Cícero, para depor pela força das armas o governo de Franco Rabelo. A população se preparou para mais um enfrentamento, o que acabou não acontecendo em face à intervenção do Governo Federal, que substituiu Rabelo pelo Interventor Setembrino de Carvalho.

fotos do Arquivo Nirez
extraído do livro de Sebastião Rogério Ponte
Fortaleza Belle Epoque: reformas urbanas e controle social (1860-1930)
 

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Pelas Ruas e Avenidas de Fortaleza – Parte I

Padre Mororó
arquivo Nirez

Em 1872 foram iniciadas as obras de construção do cemitério de São João Batista, que só ficaria pronto em 1880. Para o novo cemitério, foram transladados os corpos de vultos mais importantes que se encontravam sepultados nos cemitérios já existentes. A Rua Padre Mororó nasceu praticamente junto com o cemitério de São João Batista, construído de frente para a catedral, a uma distância de mais de um quilômetro, formando o caminho, a Rua das Flores, atual Castro e Silva. 

A frente do cemitério de São João Batista formou o início da Rua Padre Mororó, que em 1883 se chamou Rua São Cosmo, recebendo depois o nome do Padre Mororó. Em 1890 quando todas as vias de Fortaleza receberam números, a Padre Mororó foi a de número 16, voltando, logo em seguida, ao nome atual.

foto: http://www.geolocation.ws/v/P/52877631/rua-padre-moror/en

Com o tempo a rua foi se formando, principalmente nos trechos de cruzamento com as ruas e travessas mais importantes, como a Travessa Municipal (atual Rua Guilherme Rocha). A rua Padre Mororó nasce no bairro do Arraial Moura Brasil, na orla marítima, e termina na Rua Justiniano de Serpa.  

Rua Castro e Silva, começa na Catedral da Sé e termina em frente ao Cemitério de São João Batista (foto Fátima Garcia)

Assim como a Castro e Silva, que foi por muitos anos caminho dos enterros, quer fosse motorizado ou a pé, a Rua Padre Mororó ainda hoje é um dos caminhos dos mortos em direção ao São João Batista.


arquivo Nirez

Antigamente havia um caminho a partir do então Largo da Matriz (hoje Praça da Sé), para o mar, que seguia pelo local ocupado pela Avenida Alberto Nepomuceno, dobrando na Avenida Pessoa Anta e na altura do prédio da Alfândega, dobrava novamente, desta vez no sentido praia, indo até a Ponte Metálica. Era chamado “caminho da praia”. Como existia uma ponte de madeira sobre o Rio Pajeú, a rua passou a se chamar Rua da Ponte, isto em 1856. Depois se chamou Rua Alberto Nepomuceno,  em 1889. No ano seguinte, quando as ruas receberam números ela passou a ser a número 7, voltando depois ao antigo nome.

Na gestão do prefeito Ildefonso Albano, entre 1912 e 1914, a avenida foi alargada e pavimentada com calçamento, passando a ser denominada Avenida Alberto Nepomuceno. Em 1921, recebeu meio-fio. No início da avenida ficava a escola de Aprendizes Marinheiros, que depois se mudou para o Jacarecanga, ficando o prédio ocupado pela escola de Aprendizes-Artífices. 

A Fortaleza data do século XVII e a antiga Secretaria da Fazenda, prédio térreo que ficava onde depois foi construído o Fórum Clóvis Beviláqua, foi instalada em 1896, sendo demolido o prédio no governo Paulo Sarasate, que construiu o fórum. O novo prédio da Secretaria da Fazenda foi inaugurado em 1927. 

atual Avenida Alberto Nepomuceno (foto Fátima Garcia)

A Avenida Alberto Nepomuceno nasce no Poço da Draga (antigo porto) e vai até a Rua Crato, quando passa a se chamar Rua Conde D’Eu. Na continuação a via recebe os nomes de Sena Madureira e Avenida Visconde do Rio Branco, até encontrar a BR-116. Cruza com a Avenida Pessoa Anta (antiga Rua da Praia), José Avelino (do Chafariz), Dr. João Moreira (Misericórdia) Rufino de Alencar, Caio Prado e Castro e Silva (das Flores).


foto Nirez

A Avenida Barão de Studart não é muito antiga, por isso este foi seu único nome, ao contrário de outras ruas de fortaleza, que tiveram várias denominações anteriores. A via nasce praticamente na praia, tendo se formado nas proximidades das avenidas Santos Dumont e Monsenhor Tabosa. Quando a Avenida Aquidabã começou a tomar forma na década de 1940, a Barão de Studart já existia, ali também se formou, passando a existir então desde a orla marítima até pouco depois da Avenida Santos Dumont. 

Em 1960, quando a TV Ceará passou a funcionar na Estância, a Avenida Antônio Sales também passou a ser caminho obrigatório e a Barão de Studart foi estendida até lá. Depois foi aumentando, até chegar a Avenida Pontes Vieira, onde termina. Só então passou a receber mais atenção. 

Avenida Barão de Studart (foto Fátima Garcia)

Foi urbanizada, transformada em avenida  e por ela passaram a circular coletivos e se instalaram diversos estabelecimentos comerciais. Antigamente, ficava no cruzamento da Barão de Studart com a Rua João Carvalho, o famoso Cine Ventura.

           

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Ildefonso Albano e as Reformas Urbanas

Em 12 de junho de 1923, o presidente da província Justiniano de Serpa, por motivos de doença, transmitiu o governo do Ceará para o vice-presidente Ildefonso Albano. Na liderança, o substituto de Serpa continuou as obras iniciadas pelo antecessor, demonstrando experiência no trato com as questões públicas.

Grupo Escolar do Benfica, fundado em 1924 (arquivo Nirez)

Ildefonso Albano já ocupara o cargo de Prefeito de Fortaleza no governo do coronel Franco Rabelo (1912-1914). Como prefeito na administração de Justiniano de Serpa, foi responsável pela reforma urbanística de importantes áreas da cidade: arborização da Avenida Alberto Nepomuceno, reforma e construção dos jardins da Praça General Tibúrcio, reforma do Parque da Independência (atual Cidade da Criança), reforma das calçadas com a utilização de fios de pedra e arborização da cidade com Ficus benjamin.

O Parque da Independência foi reformado em 1923, quando Ildefonso Albano ocupava o cargo de prefeito de Fortaleza (arquivo Marciano Lopes)

Durante sua permanência na presidência do Estado foram construídas várias pontes, além de edifícios escolares, como os grupos escolares do Benfica, hoje edifício da Faculdade de Ciências Econômicas, os grupos de Visconde do Rio Branco e o de Fernandes Vieira; concluiu o edifício da Secretaria da Fazenda e iniciou a construção do Quartel da Polícia Militar. 

Marco de inauguração da Ponte Epitácio Pessoa, construída no governo Ildefonso Albano (acervo Museu do Ceará) 

Deste modo dotou o Ceará de uma boa infraestrutura de prédios indispensáveis aos serviços de  educação e segurança pública. No exercício da presidência do Ceará, fundou a sociedade de agricultura, convocou e mobilizou os cotonicultores para produção e expansão do algodão; estudou e defendeu os interesses da pecuária cearense, sendo o seu governo o que melhor compreendeu a dinamização dos recursos, notadamente o binômio  gado – algodão.


Ildefonso de Abreu Albano nasceu em Fortaleza em 12 de fevereiro de 1885, filho de José Albano Filho e Maria de Abreu Albano. Seu avô paterno era José Francisco da Silva Albano, o Barão de Aratanha. 

Estudou no Seminário da Prainha – ao lado do irmão José de Abreu Albano – e  depois na Áustria e na Inglaterra. Cursou até o terceiro ano da faculdade de Direito do Ceará, mas não obteve o bacharelato.

Quando retornou da Europa, onde estudou tecnologia da tecelagem, ocupou o cargo de gerente da firma Albano e Irmão, a afamada Casa Albano, fundada em 1852, pelo Barão de Aratanha e por seu irmão, Manoel Francisco da Silva Albano.

Propaganda da Casa Albano no ano de seu jubileu em 1912 (Ah, Fortaleza!)

Casado com uma filha do coronel Franco Rabelo, foi nomeado prefeito de Fortaleza. Como deputado federal defendeu o Nordeste, enfatizando a problemática das secas. Denunciou também o boicote organizado contra os Estados do Norte e sugeriu soluções ao problema do algodão.

Publicou os seguintes livros: O secular Problema do Nordeste; A Cultura do Algodão no Ceará; Jeca-Tatu e mané Xique-Xique; O Empréstimo Americano;  Brazil Readers Digest, este último um trabalho didático como professor de língua inglesas no Colégio Pedro II, em que demonstra sua preocupação e devotamento à sua terra e a sua gente.

Prédio da Sefaz, construção iniciada em 1924 no governo de Ildefonso Albano e concluída em 1927, na gestão de José Moreira da Rocha (arquivo Nirez)

Um ano depois, em julho de 1924, quando Ildefonso Albano entregou o cargo de presidente ao seu sucessor  – José Moreira da Rocha – encontrou seu antigo estabelecimento comercial (Casa Albano) em dificuldades financeiras. Além disso, não conseguiu ser incluído na chapa para a Câmara dos Deputados.

No Rio de Janeiro passou a trabalhar como caixeiro e depois como guarda-livros, a fim de sobreviver. Pouco depois foi nomeado adido comercial do Brasil em Havana. Ao retornar ao Brasil ocupou outros cargos no ensino e na administração pública. 
Faleceu no Rio de janeiro, a 22 de dezembro de 1956.


Extraído do livro de Rogaciano Leite Filho - A História do Ceará Passa por esta Rua