Mostrando postagens com marcador Boris Freres. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Boris Freres. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 27 de março de 2017

Uma Casa Chamada Boris

prédio da Casa Boris Frères, localizado na antiga Travessa da Praia 

Em 1869 foi fundada no Ceará a Casa Theodore Boris e Irmão, cujos sócios eram os franceses Alphonse e Theodore Boris, nascidos na província de Lorena. Alphonse, o mais velho, tinha chegado primeiro, de navio, procedente do Rio de Janeiro, com a missão de fazer um reconhecimento da praça. 

Em menos de um ano de funcionamento, a Casa Theodore Boris já visualizava, a partir de Fortaleza, amplas perspectivas comerciais, a partir da identificação de produtos locais com ampla aceitação na França. Depois da guerra franco-alemã, entre 1870/1871, os dois irmãos voltaram para a França cheios de ideias, quando fundaram em Paris, com outro irmão mais novo Isaie Boris, a Boris Freres.

Nessa época, Theodore retornava a Fortaleza, na companhia de outros dois irmãos, os gêmeos – Adrien e Achille, estabelecendo-se na Rua da Palma, no centro comercial de Fortaleza. Experimentando um rápido crescimento, em menos de dois anos, a empresa  já mantinha relações de comércio com as principais praças da Europa e dos Estados Unidos e possuía ramificações em quase todo o Ceará e Estados vizinhos.

No início faziam de tudo, como autênticos mascates, visitando Estados e Municípios, rua por rua, de porta em porta, vendendo tecidos, roupas , perfumarias, artigos de decoração e mobílias, material para cozinhas e, papelaria, material de escritório além de uma infinidade de outros produtos importados.


Numa etapa seguinte passaram a comercializar maquinário, cimento, carvão, madeira para obras, gêneros alimentícios, material fixo e rodante para estradas de ferro e um mundo de objetos diversos, entre os quais estruturas de ferro. A estrutura do Theatro José de Alencar, por exemplo, foi importada da Europa por essa empresa, embora esse operação de importação tenha levado quase dez anos até ser concluída. 

Paralelamente a Boris iniciou as primeiras exportações de algodão, cera de carnaúba, couros, peles, borracha, café, penas de ema, cacau, madeiras tintoriais e preciosas e sementes de oiticica. O estabelecimento, transformou-se depois na firma Boris Frères, com sede em Paris e endereço em Fortaleza na antiga Travessa da Praia, atual Rua Boris

Em 1878, mais um dos irmãos – Isaie Boris – veio residir no Ceará, o que deu mais prestigio, respeito e credibilidade ao estabelecimento. O nome Boris virou sinônimo de confiança, garantia de seriedade nos negócios. O espírito popular começou a chamar o Mar de Açude do Boris; qualquer impasse que surgia em determinada situação, o gracejo é que seria resolvido pelo Boris; à Justiça deram a alcunha de mãe do Boris, significando que até os tribunais eram influenciados pelos comerciantes franceses. 

máquina de prensar couro e algodão, importada e utilizada pela Casa Boris. Hoje faz parte do acervo do Museu da Indústria 

Isaie Boris tornou-se Vice-cônsul da França e elevou-se mais ainda na consideração e estima da sociedade fortalezense, do comércio e dos poderes públicos. Coordenou e foi presidente da comissão Organizadora quando da participação do Ceará na Exposição Internacional de Chicago em 1892-93, elaborando o catálogo de produtos cearenses que deveriam figurar na exposição. Com o afastamento de Isaie Boris, a firma Boris Frères passou a ser administrada em Fortaleza por Achille Boris, outro grande empreendedor.

máquina de prensar algodão, em operação na Casa Boris Frères 

A tal ponto chegou a influência e a atuação dos Boris em Fortaleza, que algumas vezes, teve a Fazenda do Estado de recorrer ao seu financiamento para atender as carências monetárias dos cofres públicos. Por conta dessa crescente ingerência da Casa Boris nos negócios e na vida da cidade, essa influência foi se acentuando, e ficou ainda maior com as viagens à Europa, de preferência à França, de várias personalidades cearenses, algumas acompanhadas das famílias, onde às vezes se demoravam meses e anos, segundo dizem, as expensas da Casa Boris. Muitos foram os cearenses que estudaram, se graduaram médicos, engenheiros na França, e casaram com damas francesas.

Isaie Boris, hoje é nome de rua em Fortaleza 

Os irmãos Boris chegaram a tal grau de integração cultural, que conheceram Padre Cícero,  acolheram o beato José Lourenço na fazenda Serra Verde em Caririaçu (depois do massacre de 1936), e receberam na mesma fazenda , a visita de Patativa do Assaré, em 1956, que os presenteou com versos improvisados , por ocasião do aniversário da esposa de um deles.


Extraído do livro
Caravelas, Jangadas e Navios, uma história portuária de Rodolfo Espínola


quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

A Febre das Novidades

Casa Boris de Boris Frères e Cia. responsável pela publicação do Álbum de Vistas do Ceará-1908

Em 1908 um álbum com fotos de Fortaleza circulava pela Cidade. Para gáudio dos agentes locais da modernização urbana, o livro confeccionado em papel de luxo, trazia 160 estampas de tudo o que representava o aformoseamento e o progresso da capital no começo do século XX: praças recém-remodeladas, jardins públicos, ruas alinhadas com bondes, transeuntes, sobrados e estabelecimentos comerciais; Passeio Público e Parque da Liberdade e seus elegantes frequentadores; Estação Central Ferroviária, mansões e fachadas art-nouveau, cafés, templos, escolas, porto, praias e lagos.

Escritório da Estrada de Ferro Baturité

O Álbum de Vistas do Ceará, de 1908, editado pela Casa Boris Frères e Cia, a mais poderosa das firmas estrangeiras no Ceará, e impresso na França, significava formalmente uma homenagem à capital, um reconhecimento à sua beleza e ao seu desenvolvimento. Confeccionado na Europa por uma consagrada companhia francesa e distribuído em vários lugares, o Álbum não deixava de ter um desejo de divulgação de uma cidade que era, na leitura capitalista, um próspero mercado urbano. Considerando que a fotografia – devido a sua extraordinária capacidade de informação, vale por mil palavras – nada como divulgar Fortaleza através do elogio das imagens fotográficas. A ideia foi ainda mais feliz porque veio à luz no momento em que a fotografia configurava-se como uma verdadeira coqueluche na região, assim como no resto do Brasil.

Rua Major Facundo 


Paço Municipal

Desde o final do século XIX a Capital contava com alguns estúdios fotográficos – Lopes Brandão e Reckly em 1872, o dinamarquês Niels Olsen, a partir de 1895, Moura Quineau e M. Mello, de 1899 em diante.
 
O Álbum sobre Fortaleza-1908, nesta linha, combinava duas formas de sedução:  cidade, no auge de sua formosura, e a fotografia, um dos mais fascinantes produto da era moderna. Para uma sociedade urbana que então disseminava e incorporava valores como beleza, conforto, trabalho e saúde, a fotografia caiu como uma luva para consagrar em imagens duradouras, os melhores momentos da instauração de uma racionalidade urbana assentada no culto do belo, forte e saudável.

Na virada do século XX, a partir de 1902 teve início a remodelação das praças mais centrais, e em 1930, Fortaleza conheceu sua fase de maior esplendor em termos de uniformidade urbana. Depois dos anos 30, a  Capital passou a crescer desordenadamente, sem planos urbanísticos capazes de fornecer soluções racionais, mas com uma voraz especulação imobiliária que lhe foi destruindo o harmonioso perfil arquitetônico que ostentava anteriormente.

prédio do Liceu na Praça dos Voluntários


Café Java, na Praça do Ferreira

A cidade hoje se encontra inchada, com a maioria do seu patrimônio histórico destruído ou em estado de abandono, centenas de favelas e conjuntos habitacionais, além de arranha-céus, fachadas e monumentos urbanos de gosto duvidoso. No começo deste século, ao contrário, ela apresentava uma feição arquitetônica urbanística que se equilibrava bem entre singela arquitetura geral e deslumbrantes fachadas em algumas construções. 

As fotografias da época e o próprio álbum fotográfico de 1908 reforçam essa constatação, revelando um conjunto harmonioso em linhas e formas. As imagens insinuam que a Capital do Ceará tinha um estilo inteiramente agradável à visão, composição estética esta complementada pela predominância do uso de paletós, chapéus, vestidos longos e sombrinhas, neles prevalecendo os tons claros compatíveis com a intensa luminosidade solar, que banha a cidade o ano inteiro.


Passeio Público

A conformação estética que marcou a aparência de Fortaleza foi sendo construída aos poucos, tornando-se mais visível na segunda metade do século XIX, a partir do “boom” da exportação algodoeira em 1860. A partir dali, a cidade conheceu um inédito crescimento econômico e social. A concentração e acumulação de capitais em Fortaleza,  reforçou a constituição de grupos e estrangeiros ligados aos negócios de exportação-importação, conferindo-lhe grande poderio material e considerável prestígio político.

fotos do Álbum de Vistas do Ceará-1908
Arquivo Nirez
Extraído do livro de Sebastião Rogério Ponte
Fortaleza Belle Epoque – reformas urbanas e controle social – 1860-1930

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

O antigo Bairro da Prainha

Vista do Porto de Fortaleza a partir da torre da Igreja da Conceição da Prainha (foto MIS)

Na outrora pacata capital do Ceará, se desfrutava de tranquilidade nos bairros, onde conviviam pacificamente famílias abastadas e carentes. As Cambirimbas e a Tijubana eram aglomerados da classe pobre, existentes respectivamente ao lado das espaçosas residências do velho Alagadiço e de Jacarecanga. A Cachorra Magra se agregava ao Benfica, bairro descoberto pelas famílias ricas da cidade. E, ao então simplório bairro do Outeiro, trecho de Fortaleza situado a Leste do riacho Pajeú, alcançado por caminhos diversos como o Corredor do Bispo (atual Rua Rufino de Alencar), o Beco do Pocinho e o início da futura Rua Pinto Madeira, se agregava a Prainha, alcançada também pela antiga Rua da Praia (atual Pessoa Anta) e habitada por pessoas de posses.

Inauguração de trecho da Avenida Leste Oeste em 1974. A inauguração da avenida determinou o desaparecimento da Rua Franco Rabelo

O bairro da Prainha compreendia não somente a parte  que fica abaixo da colina onde nossa cidade se assenta, mas se estendia à porção de cima, que dava frente para o areal hoje correspondente à Praça Cristo Redentor e ao início da Rua do Seminário, atualmente Avenida Monsenhor Tabosa.




A ladeira da Prainha em dois tempos, na primeira foto ainda existia a casa com a torre vigia onde morou o Mister Hull e na segunda foto, com o imóvel já demolido.

A Casa Boris, aqui estabelecida no século XIX e de grande importância social e econômica para a então provinciana cidade de Fortaleza 

Em sua parte mais elevada, na esquina noroeste da Rua Boris, hoje reduzida em sua extensão em decorrência da demolição da face norte da desaparecida Rua Franco Rabelo, e a atual Avenida Castelo Branco,  chamada popularmente de Leste Oeste, existia um velho solar pertencente ao coronel Solon da Costa e Silva, proprietário da Empresa Ferro-Carril – que explorava o serviço de bondes de tração animal, sucedida em 1914 pela Ceará Light concessionária do serviço de bondes elétricos.  O prédio foi demolido para o alargamento da Avenida Leste Oeste.

Neste local, onde havia inúmeros imóveis, está hoje o Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura

Neste prédio, onde funcionou até uma repartição do Estado, foi demolido e, no local, está a rampa de acesso ao centro Dragão do Mar. 

Ao lado do belo prédio em que se abriga a Biblioteca Pública, havia a casa n° 317 da desaparecida Rua Franco Rabelo, no início da avenida leste Oeste. Foi o primeiro bangalô construído em Fortaleza, iniciativa de Manuel Pio. Vizinho a esse prédio, existia outro na esquina com a atual Rua Almirante Jaceguai , que integra a Ladeira da Prainha, onde os bondes estacavam pela impossibilidade de subi-la. Nele residiu José Pio, irmão do proprietário do bangalô vizinho, e sua estampa consta do Álbum de Vistas do Ceará, editado em 1908. Depois foi residência de Francis Hull, cônsul inglês em nossa terra e gerente da Ceará Light, e autor de estudos sobre a problemática das secas. Também esse imóvel foi demolido e o terreno correspondente serve de estacionamento de automóveis ou atividade similar.


Olhando em diagonal, para a Praça Cristo Redentor e de frente para a Igreja da Conceição da Prainha, localiza-se o prédio outrora residência do Barão de São Leonardo, que correspondia aos n°s 5, 15 e 23 da Avenida Monsenhor Tabosa, antiga Rua do Seminário.
Vizinha a casa do barão, situava-se outra que hoje tem o número 39, onde residia no início do século passado grande poeta cearense que batizou rua da cidade, e foi preterido por um vereador qualquer, que renomeou a rua com o nome do pai, dono de um posto de gasolina ali situado. José Albano, poeta dos maiores, membro da família chefiada pelo Barão de Aratanha, morava na Prainha. Costumava descer a ladeira do bonde para banhar-se nas ondas que quebravam nas areia da então Praia do Peixe.


antiga Rua do Seminário, hoje Avenida Monsenhor Tabosa

No primeiro quarteirão, face sul da Avenida Monsenhor Tabosa, foi construído o prédio do Seminário Diocesano, e completando a quadra, com oitão para a Praça cristo Redentor, foi levantada a Igreja da Conceição.
Com referência à praça, antes de 1915, sua face oeste praticamente não existia, ocupada por casebres, motivo pelo qual foi fácil levantar o suntuoso prédio do Círculo Operário São José, uma das primeiras iniciativas do 3° bispo do Ceará, Dom Manuel da Silva Gomes. No centro da praça foi erguida, em 1922, uma coluna com a imagem do Cristo Redentor no seu topo, abençoando a cidade.  



Essa coluna foi construída em comemoração ao centenário da independência do Brasil, por inspiração de Raimundo Frota, grande benfeitor do Círculo Operário, tendo sido inaugurada em 7 de setembro de 1922. Enquanto os foguetes subiam ao céu, os quatro novos sinos da Igreja da Prainha badalavam, dentre os quais o Centenário. Na ocasião pôs-se em funcionamento o relógio de quatro faces, depois retirado por inativo, em consequência da oscilação da coluna, e vendido à Igreja dos Remédios, no Benfica. A coluna teve seus dias de glória, quando em dias especiais, Dom Manuel celebrava na capelinha que lhe servia de base, enquanto a imagem era iluminada à noite, até que, durante a 2ª  Guerra Mundial, as autoridades impuseram a retirada da iluminação por questões de segurança. Aos domingos e dias festivos era franqueada a subida até o topo da coluna, através de uma escada interna em espiral, de onde se descortinava todo o belo panorama da cidade e do mar.

fotos do Arquivo Nirez
Extraído do livro
História Abreviada de Fortaleza e crônicas  sobre a cidade amada,
de Mozart Soriano Aderaldo           

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Fortaleza e os Grandes Negócios


Na segunda metade do Século XIX o aumento da demanda externa por produtos locais (especialmente o algodão), e o crescimento da renda das classes dominantes, contribuíram para que se instalassem em Fortaleza, várias casas comerciais exportadoras e importadoras pertencentes a estrangeiros, fixados no Ceará em busca de bons lucros. 
 
Assim, quebrando o monopólio inicial da Casa Inglesa – Singlehurst and Co, instalada em 1811 por William Wara – apareceram outras firmas como Kaikman and Co, John and Graf e Cia, Luis Sand and Cia, Gradvohl Frères  e Boris Frères



Casa Machado Coelho e Cia fundada em 1868, operava no ramo de importação em dois edifícios, na Praça do Ferreira e na Rua Barão do Rio Branco. Os sócios eram  Antônio Machado Coelho, nascido em Portugal  e seu filho, nascido no Ceará, Antônio Machado Coelho Junior. Fazia larga importação de tecidos de algodão, vinhos, comestíveis e objetos de uso doméstico.  Um dos edifícios tinha um elevador moderno, com capacidade para uma tonelada, o qual ligava os diversos pavimentos. 

Em 1862 havia um total de 203 casas comerciais brasileiras para 84 estrangeiras. No entanto o predomínio de estrangeiros era justamente nas firmas que cuidavam de exportação e importação e do abastecimento de gêneros. 
 
Dessas casas comerciais estrangeiras, a de maior influência e poder foi a Boris Frères, instalada em 1872 e com sede em Paris. Pertencente aos judeus Alphonse e Theodore Boris, a firma era tão poderosa que chegava a emprestar dinheiro ao governo local.   

Boris Frères, casa, fundada em 1870, fazia o comércio de exportação dos principais produtos do estado, tais como borracha, algodão, cera de carnaúba, couros e peles. Importa máquinas para agricultura, cimento, carvão etc. A Casa Boris praticamente dominou o comércio importador e exportador cearense. (foto: novo milênio)

Abalava-se dessa forma a tradicional intermediação comercial mantida com Pernambuco, no qual negociantes cearenses viajavam a Recife onde se abasteciam com o indispensável às suas lojas.  Aumentou o comércio direto com a Europa, especialmente com a Inglaterra e França. 
Entre os produtos importados, destacavam-se os tecidos, peças de vestuário, perfumes, objetos de decoração, vinhos, conservas, remédios, farinha de trigo e cigarros.

Interessados em tudo que pudesse incrementar a atividade comercial e seus negócios na província, aqueles comerciantes estrangeiros estiveram envolvidos em várias iniciativas, como tentativas de criação de bancos, estabelecimentos de estradas de ferro e fundação de companhias de seguros.

O aumento do número de comerciantes na praça de Fortaleza levou à fundação da Associação Comercial do Ceará em 1866, a qual teve como primeiro presidente o inglês Henrique Kalkamann e entre os diretores, o também inglês Richard Hughes.


Reunião da diretoria da Associação Comercial, antiga sociedade para defesa dos interesses comerciais do estado, constituída pelas firmas mais importantes da praça de Fortaleza. (foto: novo milênio)

O setor comercial passou a ter cada vez mais peso na vida política cearense. Como não existiam bancos no Ceará, eram os comerciantes que financiavam a produção, cobrando, não raras vezes, juros exorbitantes. As dívidas contraídas por latifundiários com negociantes do litoral, sobretudo durante os períodos de seca prolongada, e após a crise algodoeira dos anos 1870, possibilitaram a consolidação do poder político de muitos comerciantes. 

Tal situação dava margem a grandes negociatas, nas quais se utilizavam os currais eleitorais dos senhores de terra como moeda de troca.


Casa Albano,  pertencente à firma Albano & Irmão, foi um dos mais antigos estabelecimentos comerciais do Ceará, fundada em 1852 pelo Barão de Aratanha e por seu irmão  Manoel Francisco da Silva Albano.  O slogan da firma era  "Pro ara teneo et focis" (Tenho para o altar e para o lar). Importadora de todo o tipo de tecidos e exportadora de produtos locais vendia no varejo e por atacado, alcançando um movimento considerável que a tornou uma das primeiras casas do gênero na praça de Fortaleza. (foto: novo milênio)

São muitos os casos de comerciantes possuidores de patentes como coronel ou barão, com grande influência na política cearense no Império e na República, o que não significou o fim do domínio das oligarquias rurais ou alguma alteração na fragilidade estrutural das elites locais. A burguesia comercial era aliada natural da classe latifundiária, chegando mesmo a se confundir com esta.  Não poucos comerciantes eram ao mesmo tempo, grandes senhores de terra.


O London and Brazilian Bank Limited, depois Bank of London and South American Limited, com matriz em Londres  instalou-se no andar térreo do palacete Guarani na Rua Barão do Rio Branco (arquivo Nirez)


sede própria do London Bank na esquina das ruas Barão do Rio Branco e São Paulo (arquivo Nirez)

Depois de várias tentativas, em 1893 surgiu o Banco do Ceará S.A, instalado na Rua Senador Alencar com Rua Floriano Peixoto, na antiga Praça José de Alencar (hoje Praça Waldemar Falcão), que sobreviveu até 1916. Neste mesmo período, atuaram pelo Ceará o Banco de Pernambuco, também desde 1893, e mais tarde, em 1910, o London and Brasilian Bank Limited, que instalou-se no térreo do Palacete Guarani, na Rua Barão do Rio Branco esquina com a Senador Alencar. Depois mudou-se para o prédio da mesma rua, esquina com a São Paulo.  

A criação da Caixa Filial do Banco do Brasil em Fortaleza foi autorizada em 23 de junho de 1860, mas sua instalação só ocorreu em 1913. A sede própria ficava na Rua São Paulo esquina com a Floriano Peixoto (arquivo Nirez)

Em 1913, chegou o Banco do Brasil, se instalando numa casa na Rua Barão do Rio Branco; em 1914 passou para o Palacete Brasil e em 1925 mudou-se para a esquina das Ruas São Paulo com Floriano Peixoto, em sede própria.  O primeiro banco com capital cearense foi a Casa Bancária Frota e Gentil, do sobralense José Gentil Alves de Carvalho. 

Fundada em 1893 a Casa Bancária Frota & Gentil que mais tarde se transformaria no Banco Frota & Gentil. A nova sede da instituição foi inaugurada em 1925 no cruzamento das  Ruas Floriano Peixoto com Senador Alencar (arquivo Nirez)

Em consequência do aumento do movimento comercial, a partir de 1850, o governo cearense procurou estimular as exportações locais, satisfazendo assim os interesses das firmas exportadoras, adotando medidas como a isenção de impostos e concessão de privilégios para o estabelecimento de linhas de transporte e companhias de navegação. 
Tais medidas, no entanto, esbarravam na maioria das vezes, na burocracia e no centralismo do governo imperial.


Fontes
História do Ceará, de Airton de Farias
Cronologia Ilustrada de Fortaleza, de Miguel Ângelo de Azevedo (Nirez)
Impressões do Brasil no século XX
disponível em http://www.novomilenio.inf.br


segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Quando o Mar era o Açude do Boris

Porto do Mucuripe ainda em construção, década de 1940 (foto Ah, Fortaleza!) 

O que teria levado Alphonse Boris a buscar o Ceará e a se integrar ao cotidiano da capital com tanto ânimo e determinação?  Quando desembarcou em Fortaleza, no dia 6 de agosto de 1865, do vapor Paraná, a cidade não tinha jeito de capital.  O francês deve ter passado maus momentos ao desembarcar  do navio ancorado ao largo, e embarcar no bote que o traria até a praia. Acertara um ponto perdido do mapa, entre a opulência de Pernambuco e o Maranhão, que já fora França Equatorial.

A ligação do Ceará com a Europa começara desde a remessa, em 1809, de produtos da terra, e amostras de algodão para Londres. No ano seguinte, o irlandês William Wara fundaria a primeira casa de comércio exterior.

Com as ideias fora do lugar, em plena vigência da escravatura, a firma Albano & Irmão  declarava aos fregueses do interior da província que não se encarregaria da venda nem do embarque de escravos.  Sinal dos tempos: o Hotel de França precisava de um ajudante de cozinha e preferia que fosse livre a escravo.

Hotel de France (foto Ah, Fortaleza!)

Theodore Boris chegou dois anos depois, desembarcando no Recife e refazendo a travessia das boiadas até o Icó. Da ribeira do Salgado até Fortaleza, enfrentou uma enfadonha viagem em lombo de burro. O pretexto era conhecer melhor a terra onde se fixariam e atuariam , em 1869, com a firma Theodore, Boris & Frères.

Em 1867, Fortaleza inaugurava sua biblioteca pública e o arquivo da província; Dom Luiz Antônio dos Santos, primeiro bispo do Ceará, investido em 1861 viajava para Roma, e o Seminário da Prainha formava as elites desde 1864. A água encanada jorrava das torneiras de cobre e inaugurava-se a iluminação parcial da cidade e de alguns edifícios, como o Clube Cearense.  A Associação Comercial tinha sido fundada no final deste ano.

Palacete Ceará, que abrigou, em seus andares superiores, o Clube Iracema (arquivo Nirez) 
 
Nunca ninguém buscou tantas oportunidades e soube criar tantos negócios como os Boris, apontando em uma globalização avant la lettre (antes de o termo existir), visto que eles haviam estabelecido a matriz em Paris, a capital do século XIX.

Naquele instante o Ceará vivia seu maior período sem estiagens, os quarenta anos de bonança (1846/1876), que antecipariam a seca de 1877/79, quando um quarto da população da província sucumbiria à fome e às epidemias.  A primeira temporada cearense dos Boris foi curta. A guerra franco-prussiana entre 1870/1871 os levou de volta para a Europa. 

Theodore retornaria em 1872, em companhia de Achille e Adrien; Isaie só chegaria em 1878. Em pouco tempo faziam parte da vida da cidade, preocupados que estavam em impulsionar a nossa economia.
O Cemitério São João Batista, implantado em 1866, obrigaria a sepultar os judeus fora de seus muros, assim foram enterrados Aron Braun, Josephine Levy, Lazare Gradvhol, e Adrien Boris.  Anos mais tarde, a expansão do campo santo trouxe os excluídos para o lado de dentro dos seus muros.

A partir de 1875, o aformoseamento mudaria as feições da cidade, com a construção dos boulevards, dos jardins, de alguns prédios públicos. Fortaleza se preparava para ser capital. Isaie fez parte da comissão que negociou a participação cearense na Feira de Chicago em 1893, com direito a catálogo bilíngue, nossa primeira peça de propaganda institucional.

Os Boris foram importadores e exportadores, representaram o Banco do Brasil, operaram com seguros, trabalharam com algodão, e traçaram planos de construção de ferrovias, das serras para o sertão , como meio de escoar a produção de frutas que pretendiam vender para a Europa.

Casa Boris (foto de Mauricio Cals)
Poderosos   na navegação e nos afretamentos, se fixaram no imaginário popular , como os donos do mar, esse açude sem fim. Nunca desanimaram e mesmo nos instantes mais difíceis continuavam com sua Casa, os mais velhos passando o comando para os mais novos.

Chegaram a tal grau de integração cultural que conheceram Padre Cícero,  acolheram o beato José Lourenço na fazenda Serra Verde em Caririaçu (depois do massacre de 1936), e receberam na mesma fazenda , a visita de Patativa do Assaré, em 1956, que os presenteou com versos improvisados , por ocasião do aniversário de Dona Janine:

Eu vivo a pensar de cá
no senhor Bloc-Boris,
Sebastião e Assis, 
e demais amigos de lá, 
tudo em minha vida está,
do velho, o moço, a criança, 
da terra cor de esperança, 
doce passado relembro,
dezenove de setembro, 
vive em minha lembrança.

O mar não é mais o açude do Boris, mas ficaram as memórias e os feitos dos empreendedores franceses nas terras de Iracema, que mudaram o sotaque, escreveram e protagonizaram uma parte da história do Estado e principalmente, de Fortaleza.

Extraído do artigo
Quando o Mar era o Açude do Boris, do professor Gilmar de Carvalho