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terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

O Outeiro da Prainha


vista do bairro do Outeiro da Prainha em 1900.
  
Subindo o Corredor do Bispo, hoje Rua Rufino de Alencar, entrava-se no bairro do Outeiro da Prainha, acompanhando o chamado Quintal do Bispo, uma grande área primitivamente pertencente à chácara do português Antônio Francisco da Silva, parente da família Albano.  Posteriormente ali habitou o comendador Joaquim Mendes da Cruz Guimarães, em cuja residência se instalou o Palácio do Bispo. Esta área estava compreendida entre as ruas Rufino de Alencar e a Costa Barros – a antiga Rua do Sol – e estendia-se para o nascente até as proximidades da Praça do Cristo Redentor, onde se localizava a Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Prainha e seu velho Seminário.


 Chácara do português Antônio Francisco da Silva, depois sede do Bispado e atual Paço Municipal 

Em 1937, a Empresa de Terrenos Ltda., adquiriu do Patrimônio de São José, do Arcebispado de Fortaleza, a permissão para lotear essa grande área do antigo bairro do Outeiro da Prainha. Desse loteamento surgiram as ruas Afonso Viseu, Pedro Ângelo, Pereira Filgueiras e João Lopes. As duas primeiras foram nomeadas por indicação de Luiz Vieira – um dos sócios dessa empresa, que homenageava assim pessoas de sua amizade e admiração. 

 Igreja da Conceição da Prainha, construída em 1840, num local ermo e afastado da parte urbanizada da cidade.

Na parte mais alta do Outeiro, Luiz Vieira reservou um aprazível sitio com o objetivo de construir uma vila residencial para sua família. Ergueu seu casarão no canto formado pelas ruas Pedro Ângelo e Rufino de Alencar e, a seguir, edificou ao seu lado, as residências dos seus filhos Jaime e Mário Câmara Vieira, compondo a Vila Vieira. Contíguo a esta, na Rua Pedro Ângelo, residiu o comerciante e hoteleiro Pedro Lazar e depois, na mesma residência, Edmundo Rodrigues dos Santos, sócio da empresa Casa Quirino Rodrigues S/A. A residência de Luiz Vieira, no Outeiro da Prainha, foi inaugurada com festejos que se prolongaram por mais de uma semana, de 8 a 19 de outubro de 1946, quando foram realizados os casamentos de duas de suas filhas e a comemoração do aniversário de sua esposa. Sua construção fora entregue ao engenheiro Alberto Sá, que pela primeira vez utilizou em Fortaleza, o concreto armado na confecção dos seus forros.  


Ladeira da Prainha, ao lado a casa de Siá Pio, onde mais tarde residiu o Mister Hull
 
No alto da barranca do Outeiro, compondo a ladeira que nascia no adro da Igreja da Conceição da Prainha, residia a filha de Antônio de Oliveira Borges de Castro, a Sinhá Pio das crônicas antigas, matriarca dos Pio Borges. A casa culminava com um torreão, do qual se podia apreciar o mais belo panorama da cidade. voltado para o mar, esse mirante servia a José Pio Moraes de Castro, esposo de Sinhá Pio, para o controle do movimento portuário, função que lhe cabia como agente da empresa Lloyd de Navegação. Os quintais da casa, com pomares e roseirais, desciam, flanqueando o lado da sombra, até o término da ladeira que se chamava Ladeira do Seminário ou Ladeira da Prainha, hoje conhecida pelo nome de Rua Almirante Jaceguai. Nesta escarpa o bonde não alcançava a igreja, impedido de prosseguir por conta de um lance de escadas que antigamente ali existia. A casa dos Pio Borges foi adquirida por Mr. Francis Hull, cônsul inglês no Ceará, que viveu muitos anos em Fortaleza. O inglês fez um observatório da torre da residência, estudando o clima e prenunciando bons invernos para o Ceará. Na outra esquina da ladeira, morava o Barão de São Leonardo, Leonardo Ferreira Marques, agraciado com as comendas da Ordem da Rosa de Cristo por sua atuação na Guerra do Paraguai ao lado do futuro Duque de Caxias. 


 

Praça Cristo Redentor e sua torre, inaugurada em 1922 em comemoração ao centenário da Independência do Brasil 

Ainda na atual Praça do Cristo Redentor, com sua coluna inaugurada em 1922, que veio a se tornar um dos monumentos símbolos da cidade, residia a poucos metros de Siá Pio, sua filha Maria Pio Borges de Castro, casada com seu primo legítimo, Luiz Borges da Cunha, despachante das mercadorias da Alfândega. Sua residência, que Mozart Soriano Aderaldo, apontou como primeiro bangalô de Fortaleza, ocupava um vasto terreno que se estendia até abaixo do outeiro, terminando ao nível da praia, na antiga Rua do Chafariz. Mais tarde a residência de Maria Pia Borges seria propriedade dos ingleses ligados à Empresa de Navegação The Boot Streamship Line, com sede em Liverpool. 
 
 a antiga Rua do Seminário, hoje Avenida Monsenhor Tabosa, início do século XX 

Mais adiante, na Rua do Seminário – atual Avenida Monsenhor Tabosa – erguia-se a residência do imortal poeta José Albano e a Chácara de Vicente de Castro. Nesta, um córrego atravessava seus extensos quintais que alcançavam a Rua do Chafariz – atual Rua José Avelino. Proprietário da firma V. Castro e Filho, agente da Companhia de Seguros Anglo-Sul-Americana.
O Bairro Outeiro da Prainha desapareceu com a expansão daquela região, e hoje está inserido parte no Centro, parte no bairro Praia de Iracema.   


Extraído do livro Ideal Clube – história de uma sociedade
De Vanius Meton Gadelha Vieira
fotos: arquivo Nirez e IBGE

 

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Praça Cristo Redentor



Localizada no centro, entre as avenidas Presidente Castelo Branco e Dom Manuel e Ruas Boris e Rufino de Alencar. Até o ano de 1881, o logradouro foi chamado de Praça da Conceição, em homenagem a N. S. da Conceição da Prainha, cuja igreja teve a construção iniciada em 1839, com planta do arquiteto alemão José Antônio Seiffert

Depois de 1881, passou a ser a Praça Senador Machado, por proposta do vereador João Cordeiro, em homenagem ao Dr. Antônio José Machado, que foi membro da Relação da Corte, em 1657. O Senador Machado exerceu os cargos de Chefe de Polícia do Ceará, Deputado Provincial e Geral e Senador da República, em 1861.

Em 29 de outubro de 1890, por Resolução do Conselho da Intendência Municipal, que tinha como presidente o major Manuel Nogueira Barros, a praça retomou o antigo nome, da Conceição. Esta resolução, no entanto, durou apenas 6 meses, pois em Sessão de 28 de abril de 1891, os intendentes Guilherme César Rocha, Olegário dos Santos, Antônio Costa Sousa e José Albano Filho, com aprovação do Presidente do Conselho, voltaram ao nome anterior, ou seja, Senador Machado. 



Através da Lei Municipal n° 111, de 19 de dezembro de 1924, na gestão do Prefeito Godofredo Maciel, o local recebeu o nome de Praça do Cristo Redentor, denominação que mantém até os dias atuais.  Durante algum tempo, a praça também foi chamado de Praça do Seminário, por encontrar-se ao lado do Seminário da Prainha, inaugurado em outubro de 1864, por Dom Luís Antônio dos Santos, o primeiro bispo do Ceará. 


Ladeira da Conceição (ladeira da Prainha), tendo à direita a torre vigia da casa do Mr. Hull

Na segunda metade do século XIX e início do século XX, o bairro Outeiro da Prainha abrigou famílias aristocratas: Boris, Franco Rabelo, Mister Hull (engenheiro inglês gerente da Light e cônsul inglês), Araripe Junior (um dos maiores críticos literários do século XIX), e o poeta José Albano. Do lado direito da Biblioteca havia o solar do coronel Solon da Costa e Silva, um dos donos da companhia de bondes puxados a burro. Ali era a garagem e o local de treinamento dos burros, chamada de academia do Solon. 
Na esquina da Avenida Presidente Castelo Branco (antiga Rua Franco Rabelo com Almirante Jaceguai) ficava a a residência de Mister Hull. Os bondes vinham até o pé da colina, chamada de Ladeira da Conceição.

Equipamentos da Praça


Torre do Cristo Redentor – monumento inaugurado em 24 de dezembro de 1922, numa homenagem ao centenário da independência do Brasil. A torre tem 35 metros de altura, 3 metros de circunferência, em estilo coríntio, sendo a estátua de 2,70 metros. A torre foi inspirada na coluna de Paris, de 50 metros de altura; na base havia uma capela, depois fechada; no interior há uma escadaria de cimento armado com 115 degraus que dava acesso ao topo do monumento, e por muito tempo foi utilizado como mirante para observar a cidade.  O equipamento contava ainda com um relógio de 4 faces, inaugurado no dia 16 de novembro de 1924, que mais tarde foi retirado em virtude do balanço da torre. O relógio foi levado para a torre da Igreja dos Remédios, onde ainda se encontra. 



Igreja da Conceição da Prainha – a igreja da Conceição da Prainha teve lançamento da pedra fundamental em 8 de dezembro de 1839, com celebração de missa e benção do local, pelo padre Carlos Augusto Peixoto de Alencar. A igreja foi inaugurada no dia 8 de dezembro de 1841, com a celebração da primeira missa. Atrás da igreja havia o Cemitério da Prainha, que funcionou entre 1811 e 1847. A igreja foi utilizada pelo seminário durante o tempo em que funcionou no local, passou por ampliação e serviu aos ofícios realizados pelos padres e seminaristas.
 

Seminário Episcopal da Prainha  fundado em 27 de setembro de 1860, inicialmente recebeu o prédio que servia de quarentena ao Lazareto da Lagoa Funda, o qual não foi aceito. O prédio atual teve sua construção iniciada em 1868, e deveria servir de colégio para as órfãs desvalidas dos familiares da Irmandade da Igreja de n. S. da Conceição. O bispo negociou com a congregação e mudou o seminário para lá.  



Teatro São José – fundado em 1914 pelo padre alemão Guilherme Waessen como opção de lazer, cultura e assistência social para os trabalhadores do Circulo de Trabalhadores Cristãos Autônomos de Fortaleza. A inauguração ocorreu um ano depois, em 1915. Entre 1917 e 1941 funcionou no local o Cine São José, que tinha a curiosidade de dividir a plateia por sexo. Atualmente abriga o Museu do maracatu, fundado em 1984 e o Circulo Operário e Trabalhadores de São José, fundado em 1913, pela Arquidiocese de Fortaleza.

Biblioteca Pública Menezes Pimentel – originalmente chamada de Biblioteca provincial do Ceará, foi fundada no dia 8 de setembro de 1865 e inaugurada em 25 de março de 1867. A biblioteca pública ocupou vários imóveis, antes de se mudar para o prédio da Praça Cristo Redentor. 



Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura – é o equipamento mais novo da praça, inaugurado oficialmente em 28 de abril de 1999. Projetado pelos arquitetos Fausto Nilo e Delberg Ponce de Leon, o centro Dragão do mar abrange várias atrações como o Museu Cultural, Escola de Artes, Café Cultural, 3 salas de cinema, e o planetário.


Como a maioria das praças do centro, a do Cristo Redentor também se encontra em péssimo estado de conservação, com pisos e bancos quebrados, muros e equipamentos pichados, lixo, e a presença de mendigos e desocupados, que usam a base do monumento como banheiro e dormitório. 
O busto do padre Guilherme Waessen, fundador do Teatro São José, está pichado e sem identificação. Apesar da vizinhança com a Catedral de Fortaleza, a Igreja da Prainha  e o Centro Dragão do Mar, locais largamente visitados por moradores e turistas, a Praça do Cristo Redentor está relegado ao abandono e ao esquecimento por parte do poder público, sem contar com a insegurança e o risco permanente de assaltos.   

fotos do Arquivo Nirez, Amélia Earhart, Gentil Barreira (do livro Viva Fortaleza) e do Fortaleza em Fotos. 
Fontes:
Praças de Fortaleza, de Maria Noélia Rodrigues da Cunha
Caminhando por Fortaleza, de Francisco Benedito
site Fortaleza de Ontem e de Hoje

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Os Monumentos Históricos: a memória em pedra e bronze

Etimologicamente, a palavra monumento, de origem latina,  significa lembrar. Assim seguindo a clássica definição do historiador Alois Reigl, monumento é toda obra criada pela mão do homem e construída com a finalidade de conservar sempre viva e presente, na consciência das gerações futuras, a lembrança de determinada ação ou existência.
No Ceará, os primeiros monumentos históricos estão vinculados ao ideário monárquico e retratam algumas lutas da pátria: Guerra do Paraguai, Abolição da Escravatura, Centenário da Independência – que se materializaram através da edificação de alguns monumentos, estátuas e bustos.

Estátua do general Tibúrcio da Praça do mesmo nome, também conhecida por Praça dos Leões. Foi a primeira estátua de Fortaleza, inaugurada em 8 de abril de 1888

Os primeiros monumentos construídos em praça pública evocam a Guerra do Paraguai, na figura de heróis que lá derramaram seu sangue em atos de bravura em defesa da pátria. Estes são o General Tibúrcio (1888) e General Sampaio (1900).
  

Inaugurada originalmente na Praça Castro Carreira (Praça da Estação) o monumento ao General Sampaio encontra-se atualmente em frente ao Quartel da 10ª Região Militar, antigo Forte Schoonenborch

Outro exemplo da presença do ideário monárquico é o monumento ao imperador D. Pedro II. Única representação do monarca em trajes de guerra foi construído já no período republicano, e inaugurado com muita pompa em 7 de setembro de 1913.
O monumento além de exaltar a figura do imperador, evoca fatos e personagens significativos da monarquia brasileira: princesa Isabel e a abolição da escravatura e conde D’Eu e sua participação na Guerra do Paraguai.



A estátua representa o monarca de pé, em traje de almirante, tendo a mão esquerda apoiada sobre o punho da espada. A base é de granito, tendo dos lados dois belos medalhões também de bronze. à frente do monumento, abaixo da coroa imperial esculpida em bronze, há uma placa da Associação dos Jornalistas Cearenses, dedicada a Dom Pedro II; do lado oposto está um medalhão representando a imperatriz D. Tereza Cristina. em ambos os lados, dois baixos relevos: uma reprodução do quadro de Vitor Meireles intitulado a Batalha de Campo Grande e outro representando a cena da assinatura da lei Áurea, destacando-se a figura da princesa Isabel.      

Em 1922, numa iniciativa do Círculo dos Operários e Trabalhadores Católicos de São José e lideranças locais, é inaugurado o Monumento ao Cristo Redentor, comemorativo ao centenário da independência, constituindo-se até hoje, no monumento mais alto da cidade.


Monumento do centenário ao Cristo Redentor, construído por iniciativa do Circulo dos Operários e Trabalhadores Católicos de São José. Tem uma altura total de 35 metros.
 
A presença do imaginário monárquico no Ceará e, em especial em Fortaleza, se evidencia também, através da denominação de diversas ruas e avenidas: Avenida do Imperador, Rua Princesa Isabel, Rua Conde D’Eu, e tantas outras.
Outro aspecto a ser levado em conta entre os monumentos de Fortaleza é o culto à nacionalidade, consubstanciado na figura do cearense mais ilustre, o escritor e político do império, José de Alencar.

A estátua do escritor José de Alencar, na praça homônima, foi inaugurada em 1929. A homenagem foi uma iniciativa do jornalista Gilberto Câmara. (foto de Maurício Cals)

À figura emblemática de Alencar, estão dedicados o nome de nosso teatro, tombado pelo IPHAN em 1965, como uma das mais importantes obras do ecletismo arquitetônico, bem como o monumento art-déco, situado na praça que leva seu nome, edificado por ocasião do seu centenário de nascimento (1929), numa iniciativa do então presidente da Associação cearense de Imprensa, o jornalista Gilberto Câmara.
A casa onde nasceu o escritor, localizada em Messejana, é tombada pelo governo local como monumento histórico do Estado, a Praia de Iracema e suas ruas com nomes de antigas tribos indígenas, as estátuas de Iracema, na Avenida beira Mar, reforçam o culto monumental em torno de José de Alencar e sua obra, na chamada terra alencarina.


fotos do acervo do Blog Fortaleza em Fotos e Fatos
fontes:
artigo de Ricardo Oriá - Fortaleza: os lugares de memória
Publicado no livro Uma Nova História do Ceará 
livro de Eusébio de Sousa
Os Monumentos do Estado do Ceará 

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

O Crescimento Desordenado de Fortaleza


 Vista do centro de Fortaleza, em 1937 (foto de Amélia Earhart)

A partir da década de 1930, Fortaleza começou a crescer desordenadamente, sem plano urbanístico que apontasse soluções convenientes, para o surgimento de favelas, arranha-céus, destruição do perfil arquitetônico anterior, aparecimento de fachadas e monumentos de gosto duvidoso, dentre outras mazelas.  Tais situações decorriam dos interesses e devaneios das elites locais, da inoperância e omissão de sucessivas gestões municipais, da especulação imobiliária e do grande abismo social que separa ricos e pobres de Fortaleza.
Estima-se que a área da cidade, calculada em 6 km² no início do século, passou para aproximadamente 40 km² (zonas urbana e suburbana) no início da década de 1940. Nesse intervalo de tempo, o número de ruas, que era de 61 passou para 150, enquanto que as 23 avenidas existentes em meados da década de 1940, faziam a Fortaleza com seus três boulevards um arremedo de cidade.

 A partir da década de 1920, as famílias de maior renda começaram a se mudar do centro, e as residências se tornaram estabelecimentos comerciais

Nesse período intensificou-se o abandono do centro da capital pelos setores mais abastados, processo iniciado na década anterior – a porção central foi assumindo cada vez mais as características de zona comercial. A movimentação pública no centro (carros, lojas, oficinas, clubes), a presença de excluídos ( desempregados, bêbados, loucos, crianças abandonadas, prostitutas), e retirantes da seca, com seus inconvenientes (doenças, furtos, assaltos, mendicância)  levaram parte da classe média e as elites a se deslocarem para outros pontos da cidade, fazendo surgir os primeiros bairros nobres. 

Avenida Filomeno Gomes, no Jacarecanga

Ainda nos anos 1920, o Jacarecanga ganhou essa condição – situado na zona oeste, não ficava distante do centro, o que permitia ainda aos setores abastado terem acesso às opções de consumo e lazer que, então, se concentravam na porção central da cidade.
Nas proximidades da estrada do Jacarecanga, perto do riacho homônimo, as elites comerciais e agrárias começaram a instalar grandes e elegantes casarões, vários deles copiados de modelos europeus, a exemplo do Palacete da família de Pedro Filomeno Gomes

 Praça Capistrano de Abreu (Praça da Lagoinha) após a reforma de 1920

Para  deleite dessa elite, em 1920, na primeira gestão do Prefeito Álvaro Weine (1928-30), foi reformada a Praça Coronel Teodorico (após 1965, Praça Capistrano de Abreu, mais conhecida como Praça da Lagoinha), situada exatamente na entrada do refinado bairro e que virou local de reunião e passeios das famílias residentes no Jacarecanga.
Com a reforma, a praça recebeu uma fonte luminosa colorida, a primeira a ser instalada em Fortaleza.

 Prédio do Liceu, inaugurado em 1935, na Praça Gustavo Barroso

Em 1935 inaugurou-se no Jacarecanga a nova sede do prestigiado Liceu do Ceará, na então Praça Fernandes Vieira, que depois de 1960 passou a ser chamada oficialmente de Praça Gustavo Barroso, mas é popularmente conhecida por Praça do Liceu.
Nos anos 1930, as elites fortalezenses foram ocupando em menor escala, a região do Benfica, e vencendo a barreira representada pelo Riacho Pajeú, as áreas da Praia de Iracema e Aldeota, ao leste. 

Avenida Visconde de Cauípe, no cruzamento com a Avenida 13 de Maio, Benfica

Na estrada de Arronches (Parangaba) numa área bastante arborizada e fértil, cujas fontes d’água ajudaram a abastecer Fortaleza até a seca de 1877-79, foi surgindo o que é hoje o bairro do Benfica, ainda no final do século XIX. Aos poucos, os setores dominantes foram se instalando, com suas chácaras, sobrados e bangalôs.  
Nos anos 1930 o Benfica foi alvo de melhorias na gestão do prefeito Álvaro Weine e consolidou-se como um dos locais mais elegantes da cidade, atraindo os fortalezenses por seus bosques, praças, campo de futebol (do Prado) e missa na Igreja dos Remédios.
Nos anos 1920 a antiga Praia do Peixe, até então ocupada por humildes pescadores, começou a ser ocupada pela elite, predominando as casas de veraneio. Aos poucos a visão negativa acerca do mar/litoral ia mudando. 

 Orla Marítima da Praia de Iracema 1930

Ficou famosa a Vila Morena (Atual Estoril), construída para moradia da família Porto, no começo daquela década,  e que durante a 2ª. Guerra Mundial (1939-1945) serviu de espaço de lazer para os soldados americanos instalados em Fortaleza. Com a presença dos ricos, até o nome da praia foi mudado em 1929 para Praia de Iracema (exatamente no ano em que se comemorava o centenário de nascimento do escritor José de Alencar). 
Nos anos 1930/40/50 os pescadores passaram a ser afastados da área, enquanto mais famílias chegavam,  junto com os clubes (Ideal Clube, Praia Clube, Jangada Clube, Gruta Praia), bares/restaurantes (Ramon, Zero Hora) e hotéis (Pacajus, Iracema, Plaza).


Hotel Iracema Plaza, hoje abandonado
 
A Aldeota – nome pelo qual ficou conhecida parte da antiga região do Outeiro – também crescia como bairro residencial em torno da Avenida Santos Dumont (antiga Rua do Colégio), mas ainda se limitando, mais ou menos, ao final da linha dos bondes, entre as Ruas Silva Paulet e José Vilar. No bairro fora erguido o famoso Castelo do Plácido Carvalho, rico comerciante que teria construído a residência nos moldes de um castelo florentino, em homenagem à esposa italiana.
   
O Palácio do Plácido foi demolido em 1974, para a construção de um supermercado da rede Romcy. O terreno, porém ficou abandonado por anos, e acabou sendo desapropriado pelo governo do Estado para a construção da Central de Artesanato Luiza Távora

Também eram referências no bairro, nos anos 1930, o Colégio Militar, a Igreja do  Cristo-Rei e o Cine-teatro Santos Dumont. A partir dos anos 1940/50, a Aldeota tornou-se o bairro mais aristocrático de Fortaleza, com suas mansões e bangalôs, dando margem a muitas controvérsias sobre a origem rápida e duvidosa de alguns dos seus moradores, que buscavam residir longe do Centro, para escapar dos bisbilhoteiros e das autoridades. Setores médios, menos abastados, pequenos comerciantes e mesmo populares ocupavam ainda, áreas no sentido do interior, como as do entorno da Praça do Carmo, do início da Estrada do Arronches/Parangaba – nas imediações da Praça do Encanamento (Clóvis Beviláqua), começo da atual Avenida da Universidade, da Estrada do Soure/ Bezerra de Menezes (bairro Farias Brito ou Otávio Bonfim) e da Estrada de Messejana/Visconde do Rio Branco. Para o sudeste da cidade, no entorno do Boulevard/Estrada de Aquiraz, igualmente se concentrariam residências, dando origem ao bairro Joaquim Távora. 

Torre do Cristo Redentor, na Praça do mesmo nome

A cidade também se expandia no chamado Outeiro da Prainha, onde já havia um seminário desde 1864, um teatro (São José), fundado em 1915 e o monumento do Cristo Redentor,  na antiga Praça da Conceição (atual Praça do Cristo Redentor), inaugurado em 1922 para comemorar o centenário da Independência do Brasil. O bairro mais distante do centro era o Alagadiço, atual São Gerardo, nas proximidades da estrada do Soure e onde havia uma lagoa que inundava áreas próximas, daí o antigo nome do bairro. Percebe-se que o crescimento urbano aconteceu, sobretudo, ao longo dos antigos caminhos que davam acesso a cidade, ficando as áreas entre eles praticamente vazias. Parangaba, Barro Vermelho (Antônio Bezerra) e Messejana eram tidos como zonas rurais do município de Fortaleza. Na área do Arraial Santa Luzia do Cocó, os moradores viviam da agricultura. 

 Hidroavião na Barra do Ceará em 1930

A Barra do Ceará, apesar de suas belezas naturais, também era considerada muito distante do centro de Fortaleza – ali funcionava um hidroporto para atender aos viajantes privilegiados, capazes de assumir os gastos de uma passagem aérea. Com o passar do tempo, a região foi cada vez mais ocupada por pobres, quase que numa extensão do Pirambu.   


fotos do Arquivo Nirez
extraído do livro de Artur Bruno e Aírton de Farias