terça-feira, 23 de agosto de 2022

Identificação das Ruas e Numeração dos Prédios

 

Quem diria que nossa Fortaleza, atualmente com respeitáveis 2.703.391 pessoas (IBGE estimativa 2021), um dia foi tão pequena que não tinha, (nem precisava) de placas de identificação de logradouros, nem números das portas para localizar moradores ou comércios.





Nos primórdios da Vila os nomes das ruas e vielas eram dados pelos moradores e adotados pelo poder público. Alguns nomes antigos eram tão naturais e apropriados que, por si mesmos, estavam indicando sua procedência, tais como as ruas da Assembleia, da Municipalidade, do Chafariz, do Cajueiro, do Quartel, do Gasômetro, da Cacimba, a Rua de Baixo, de Cima, da Direita...


Com o passar do tempo, os logradouros foram sendo disciplinados. A partir de 1800 a cidade já contava com um arruador, mas o disciplinamento começou realmente a partir de 1812, com a chegada do governador Sampaio que trouxe a Fortaleza, o tenente coronel de engenheiros Silva Paulet, que elaborou a “Planta do Porto e Villa da Fortaleza”, em 1813.


A Decisão sobre a aposição de placas nas esquinas com indicação da nomenclatura das ruas, ocorreu em sessão da câmara municipal de março de 1818, ainda na gestão de Sampaio, e começou e ser implementada no ano seguinte. Dessa forma, já em janeiro o fortalezense pode ler os nomes das vias públicas da vila.


Com o crescimento e a consequente urbanização, ruas foram alinhadas, becos foram eliminados, as calçadas demarcadas. A nomeação dos logradouros ganhou ares de modernidade, a identificação pela funcionalidade virou coisa do passado. Assim, muitas vias tiveram seus nomes modificados, algumas delas, várias vezes.





A Numeração nas portas demorou um pouco mais. Em sessão ordinária de 12 de janeiro de 1861, o presidente da câmara Dr. Manoel Soares da Silva Bezerra indicou que se fizesse a numeração e indicação dos nomes de ruas através de tabuletas. Mas a indicação, apesar de aprovada, não foi logo cumprida, tendo sido objeto de nova apreciação por vereadores de nova legislatura. A falta de numeração ensejou a que os comerciantes usassem na divulgação dos seus estabelecimentos, nos anúncios veiculados pela imprensa, o nome de pessoas conhecidas da população, como se nota pelos anúncios publicados em jornais da época:


Aluga-se o armazém que fica embaixo do sobrado onde morou o Dr. José Liberato Barroso, e presentemente a Sra. Dona Thereza da Rocha Moreira”. (Jornal Pedro II, 27.01.1862).


Estabelecimento Fotográfico de Madame Fletcher – Rua Nova na casa onde morou o Dr. Justa (A Constituição, 25.02.1865)


Assim o logradouro era conhecido não pelo seu nome, mas porque fulano ou sicrano morava no local. O costume era tão arraigado entre a população que até o vigário da Sé anunciou pela imprensa, qual seria o percurso de uma procissão, comunicando que o cortejo passaria em frente à casa de determinadas personalidades conhecidas.


“O Sol”, jornal que fazia oposição à Câmara de Vereadores reagiu indignado à  publicação do anúncio, afirmando que o fato de ruas e travessas não terem nomes escritos, nem as casas possuírem numeração, resultava na publicação de notas como aquela, como se Fortaleza fosse uma “povoaçãozinha de meia tigela”, onde a população se orientava pela localização das casas de moradores notórios.


Em janeiro de 1865 o assunto da numeração dos prédios voltou a pauta na câmara, pela fala do vereador Rufino Antunes de Alencar, que lembrou da necessidade de numerar os prédios da cidade e solicitou orçamento elaborado por um engenheiro. Dois meses depois, em março, já aparecem anúncios na imprensa com endereços completos, a exemplo do que foi publicado pelo “O Cearense”, de 8 de março, sobre os serviços prestados por Raimundo Pacheco Amora, de pintura, escultura e douramento, com endereço à Rua da Alfândega, n° 8.


Em 29 de outubro de 1890, por determinação do intendente  municipal, José Freire Bezerril Fontenele (01.01.1890-12.11.1890), a câmara municipal acatou a sugestão de se trocar a denominação das ruas pela numeração, com a alegação de por um fim as contínuas e sucessivas mudanças de nomenclatura, quase sempre oriundas de sentimentos partidários. Fortaleza foi  a primeira cidade do país a adotar esse sistema americano. Os nomes de várias praças também foram substituídos.



A Rua do Rosário foi nomeada pela população e nunca mudou de nome. Virou rua numerada e seis meses depois recebeu seu nome original de volta. É a denominação de rua mais antiga de Fortaleza.
 

A medida "não pegou", nem agradou à população. Vários estabelecimentos comerciais continuaram a anunciar na imprensa utilizando os antigos nomes de ruas e travessas onde estavam situados. Raros foram os que adotaram, e passaram a publicar seus anúncios desta forma:


“Explêndido sortimento de calçados BOSTOK para homens, senhoras e crianças, despachou a Loja Magnólia – Rua 3 - n° 93” (Libertador, 17, 19 e 22.11.1890)


Fatos por Figurinos – Fazem-se vestidos para senhoras e meninas e fatos para meninos pelos figurinos mais modernos e preços módicos – Rua 7D (antiga Rua do Sampaio) n° 73. (O Cearense, 05.02.1890).


Não durou muito. Em 1891, por determinação da câmara, todos os logradouros voltaram a ostentar seus antigos nomes. A intendência mandou colocar em ruas e praças as placas com os nomes pelos quais eram conhecidos. Fortaleza esteve assim oficialmente privada da nomenclatura de suas ruas, praças, travessas por cerca de seis meses.



Praça dos Voluntários, no centro, conhecida por Praça da Polícia 
 

Até hoje, Fortaleza ostenta alguns nomes de logradouros, principalmente praças, que são conhecidos da população por nomes não oficiais. 

Nomes de logradouros que “não pegaram”:

Praça do BNB no centro, nome oficial Praça Murilo Borges;

Praça da Estação, oficialmente Praça Casto Carreira;

Praça da Lagoinha, nome oficial Praça Capistrano de Abreu

Praça da Polícia, nome oficial Praça dos Voluntários;

Passeio Público tem nome oficial de Praça dos Mártires

Praça das Flores, na Aldeota, nome oficial Praça Carlos Alberto Studart

Praça do Liceu, chama-se oficialmente, Praça Gustavo Barroso

Praça dos Leões, o nome oficial é Praça General Tibúrcio

A Praça da Bandeira no centro, chama-se oficialmente Praça Clóvis Beviláqua

A Praça do Cristo Rei ou do Colégio Militar, na Aldeota, é a verdadeira Praça da Bandeira.



Fontes consultadas:   

Coisas que o Tempo Levou – crônicas históricas da Fortaleza antiga, de Raimundo de Menezes

Guia Turístico da Cidade – Prefeitura Municipal de Fortaleza – 1961

Fortaleza – Casas e Ruas Numeradas, de Ismael Pordeus    

Disponível em > https://institutodoceara.org.br/revista/Rev-apresentacao/RevPorAno/1963/1963-FortalezaCasaseRuasNumeradas.pdf> 

imagens Internet e Fortaleza em Fotos


terça-feira, 16 de agosto de 2022

Fortaleza Bela e Suja ( Mais suja do que bela)

 

Fortaleza, acredito que seja o único lugar em que se usa a expressão “rampa” como sinônimo para acúmulo de lixo. Herança do passado onde o lixo da cidade era jogado no declive da ladeira da Misericórdia, entre a muralha do Gasômetro e as primeiras casinhas do Arraial Moura Brasil. Conhecida pela população como “rampa”, e reduto dos primeiros catadores de lixo, tomava toda a frente da Cadeia Pública. Por determinação da Intendência, o lixo urbano, transportado em carroças, era despejado todos os dias, entre as nove e as onze horas.



A "Rampa" ficava na antiga Ladeira da Misericórdia, e tomava toda a frente da Cadeia Pública, atual Emcetur.  

Nos dias atuais a rampa, apesar oficialmente não mais existir, está presente, multiplicada por toda a cidade. Fortaleza virou um lixão, cada rua tem seu monte. Tem lixo nas areias das praias, nos parques, nos espaços de lazer, nas praças, ao redor dos prédios públicos. Tudo sujo.

 

Lá um belo dia, algum “luminar”, um “talento desperdiçado” desses que abundam em cargos públicos, decidiu que a cidade não precisava mais de varrição, exceto o centro e talvez alguns bairros mais turísticos. O resto que se virasse. 


Ninguém se lembrou de promover alguma campanha de educação e orientação da população, por mais comezinha que fosse. Igualmente ninguém lembrou que há resíduos que são naturalmente produzidos, tipo folhas, restos deslocados pelas chuvas, mato nas coxias e terrenos baldios. Tampouco se lembraram que a cidade está tomada de moradores de ruas, que produzem resíduos que são descartados lá mesmo onde vivem. Quem não souber ou não viu, é só dar uma passadinha nas Praças do Ferreira e Clóvis Beviláqua, que já tem uma boa ideia. Então ficou tudo por isso mesmo, tudo ao deus-dará. Antes a preferência para formação dos lixões se concentrava nas calçadas de prédios abandonados ou em terrenos baldios. Agora, brotam em todos os cantos. 

  

Tem de tudo nas rampas: lixo doméstico, restos de móveis, papel, objetos de plástico, vidros, entulhos, animais mortos; de quebra, o cheiro característico e insuportável, os insetos, escorpiões e roedores que habitam esses ambientes. A sujeira se espalha pelas calçadas, sobe muros, escala monumentos e fachadas, pela ação nefasta de pichadores.

 


Na minha rua, predominantemente residencial, com alguns comércios, há muito que não existe limpeza da rua, os próprios moradores é que se encarregam de varrer as frentes de suas casas. Uma vez na vida, aparecem os garis da prefeitura, varrem, cortam os matos, juntam na porta de algum felizardo, e vão embora. O caminhão (que nunca aparece) virá recolher depois. Com a ventania, o monturo se desfaz e volta a ser democraticamente distribuído nas portas das casas.

  

Os moradores se mostram bem incomodados, mas, geralmente dão sua contribuição para o aumento do problema. As soluções propostas pelo poder público – coleta três vezes por semana e a criação de Ecopontos – tem se mostrado ineficientes, seja pela falta de comprometimento dos moradores, seja pela dificuldade de transporte para grandes volumes como poda de árvores ou restos de materiais de construção. Assim, vale a via mais fácil, e tudo vai parar no meio da rua.



Por outro lado, é público e notório que a prefeitura não está dando conta da tarefa, Fortaleza nunca esteve tão suja, com forte aspecto de abandono, fedida, cheia de mato, cheia de lixo. O serviço contratado para limpeza presta um péssimo serviço, e não parece passar por nenhum tipo de fiscalização. É urgente então que o poder público saia desse estado de torpor, acorde dessa leseira institucionalizada, e que os gestores saiam do conforto dos gabinetes e ponham a máquina para funcionar, porque é para isso que eles foram postos lá. Fortaleza não merece essa cara que estão querendo lhe impor. 

M. Fátima Garcia 

   

domingo, 17 de julho de 2022

Adolfo Caminha – A Literatura como Vingança

 


antigas residências da família de Adolfo Caminha, em Aracati (foto Mauricio Albano)


Nascido no Aracati, a 29 de maio de 1867, Adolfo Ferreira Caminha defrontou-se ainda na infância com dificuldades e aspectos amargos da vida. Em 1877 o Ceará foi assolado por uma das mais terríveis secas da história, e no mesmo ano perdeu sua mãe, e doente, seu pai o mandou para Fortaleza. Em 1883, nova partida, seguiu para o Rio de Janeiro, onde o tio materno o matriculou na Escola Naval para que seguisse carreira na Marinha. Como guarda-marinha viaja pelas Antilhas e pelos Estados Unidos. Durante a viagem redige um diário com anotações e observações sobre as terras vistas, que ressaltará no livro “No País dos Ianques”, de 1894.


Em 1888, já no posto de segundo-tenente alegando razões de saúde, Caminha pediu transferência para Fortaleza, onde serviu no cruzador Paquequer. Imaginou que a capital cearense fosse politicamente mais avançada do que a Corte, o Ceará por exemplo, havia sido a primeira província brasileira a libertar os escravos.




Na década de 1880 a vida literária em Fortaleza vivia um momento de grande atividade. Vários grêmios culturais se formavam em torno de ideais republicanos e abolicionistas e da estética naturalista, brigando jovens escritores. Deles sairiam posteriormente a Caminha, outros nomes que ficaram na história da literatura brasileira, como Manuel de Oliveira Paiva, Domingos Olímpio e Rodolfo Teófilo.      


Quando Adolfo Caminha chegou a Fortaleza, uma questão pessoal o ocupou mais do que a vocação literária e as tendências políticas: em 1889, ano da Proclamação da República, o escritor apaixonou-se por Isabel Jataí de Paula Barros, 19 anos, esposa de um alferes, que abandonou o marido e foi viver com ele.  O escritor foi alvo de críticas tanto da sociedade local como dos próprios colegas da Marinha, onde era também oficial. Chamaram-no de “flagelo dos bons costumes”.  A repercussão do caso foi tão grande que custou até mesmo a carreira do escritor na Marinha. Frota Pessoa, amigo de Adolfo caminha, conta a celeuma:


“ O idílio começou com todas as secretas cautelas, tímido a princípio, mais tarde audacioso, e imprudente. Nasceram ponderadas suspeitas no espírito do marido; cenas conjugais, violentas disputas, tempestuosas explicações lavraram aos poucos a discórdia no casal, e uma certa manhã, ela deserta do lar e vai se abrigar na casa do namorado. Ele não hesita; aceita-a e, em pleno dia, atravessa a cidade com sua amada pelo braço e a deposita em lugar seguro”.


A cidade ficou alvoroçada com o caso; os alunos da Escola Militar querem “vingar a farda do Exército”; as famílias puritanas exigem que o profanador dos bons costumes seja transferido do Ceará: faça suas aventuras onde quiser menos em Fortaleza.


Ao ser praticamente obrigado a deixar o posto na Marinha por causa da repercussão do caso, Adolfo Caminha viu frustrar-se todas as expectativas que o haviam levado a trocar o Rio de Janeiro por Fortaleza. Mais tarde, ele dedicaria o livro Cartas Literárias à sua amada: “Quero que o nome dela fulgure como uma legenda de ouro à primeira página de meu livro.” Amainados os ecos do tremendo escândalo, o escritor vai se reintegrando na vida da cidade.  Mas essa reintegração se processa com atritos e novas inimizades.



Escola de Aprendizes Marinheiros do Ceará, no Jacarecanga (acervo da Marinha)

Para sobreviver arranjou emprego como escriturário na Tesouraria da Fazenda. Mas queria ser escritor, e participava ativamente dos movimentos literários do Ceará. Em 1891 fundou a Revista Moderna e no ano seguinte, participou da fundação da Padaria Espiritual – movimento literário que acreditava na necessidade de educar as massas populares para modificar o Brasil. Mas, em função do casamento irregular, do qual nasceram duas meninas, o ambiente na cidade não favorecia Adolfo Caminha. Em 1893 ele conseguiu transferência para o Rio de Janeiro, como funcionário do Tesouro Federal. Pobre, procurou aumentar seus vencimentos como colaborador do Jornal Gazeta de Notícias. Ainda em 1893, publicou seu romance A Normalista.


A Normalista foi uma espécie de vingança literária de Caminha contra a cidade que o menosprezou, o romance traça um painel crítico implacável da vida em Fortaleza. Acompanhando a trajetória da adolescente Maria do Carmo, o autor desnudou os impulsos mais mesquinhos de tipos e habitantes da capital do Ceará. Através desse olhar de ódio e desprezo, conseguiu dar vida a seus personagens, torná-los interessantes e convincentes.


Ao publicar o romance Caminha causou revolta na sociedade cearense da época. O autor expõe cruamente a falta de moral e as baixezas de pessoas influentes que posavam de puritanas, dignos representantes dos bons costumes.


A edição esgotou-se em poucos meses, graças à interferência das pessoas que se sentiram atingidas e que não tinham interesse na divulgação da história. O romancista então deixou de ser editado por muitos anos. Em seu livro “Escritores na Intimidade”, Raimundo Menezes fala sobre o episódio: 


"O autor focaliza em suas páginas cenas e fatos de Fortaleza daqueles tempos, ridicularizando e combatendo certos hábitos e costumes provincianos, quando então descrevera e pintara conhecidos tipos com nomes diferentes, porém, tão bem traçados, que foram prontamente identificados pela população e apontados sob o riso malicioso dos leitores.


Afirma que foi tamanha a celeuma provocada pelo romance que Adolfo Caminha recebeu ameaças de ser chicoteado e mesmo assassinado. Criou-se lhe um ambiente tal, que o escritor se viu na contingência de tomar determinadas precauções para evitar o perigo de ser surpreendido com um ataque à mão armada.


Na opinião unânime da crítica literária recente, o autor vingou-se das desditas que o viver no Ceará lhe proporcionara. Mas Caminha talvez não tenha se dado por satisfeito. É possível que continuasse decidido a causar escândalo e a levar adiante sua vingança literária. Em 1895, dois anos depois da edição de A Normalista, publicou “Bom-Crioulo”. Tema: um amor homossexual que resultaria em assassinato. Vestuário dos personagens: a farda da Marinha do Brasil.


Adolfo Caminha faleceu no Rio de Janeiro, a 1° de janeiro de 1897, antes de completar trinta anos, acometido de tuberculose. Terminava assim a carreira de autor, que ignorado em vida, seria depois redescoberto como um dos nomes mais originais das letras brasileiras.


Obras:


Vôos Incertos (poesia, 1886)

Judite (contos, 1887)

Lágrimas de um Crente (novelas, 1887)

A Normalista (Romance, 1894)

No País dos Ianques (Impressões de viagem, 1895)

Bom Crioulo (Romance, 1895)

Cartas Literárias (Crítica, 1895)

Tentação (Romance, 1896) 


Resumo: Bom-Crioulo



Bom-Crioulo conta a história de Amaro e Aleixo, a partir de uma perspectiva naturalista, isto é, de condenação da homossexualidade. Além disso, traz uma visão determinista, em que o meio corruptor (a Marinha) e a raça (Amaro é negro) determinam as atitudes dos dois personagens. Desse modo, Amaro é assim retratado pelo narrador: “um latagão de negro, muito alto e corpulento, figura colossal de cafre, desafiando, com um formidável sistema de músculos, a morbidez patológica de toda uma geração decadente e enervada [...]”. Esse marinheiro é chamado de Bom-Crioulo, “na gíria de bordo”.

Ele se apaixona pelo jovem Aleixo e começa a seduzir o rapaz com promessas. Por fim, o grumete se rende após sentir “uma como vontade ingênita de ceder aos caprichos do negro, de abandonar-se lhe para o que ele quisesse”. E o narrador se refere à primeira relação sexual entre os dois desta maneira: “E consumou-se o delito contra a natureza”.

Além disso, Aleixo, um adolescente de quinze anos, branco e loiro, é descrito como tendo formas femininas: “[...] formas de homem tão bem torneadas, braços assim, quadris rijos e carnudos como aqueles... Faltavam-lhe os seios para que Aleixo fosse uma verdadeira mulher!...”.

Bom-Crioulo, então, aluga um quartinho, na rua da Misericórdia, no Rio de Janeiro. É ali que os amantes se encontram quando estão em terra. O quarto é alugado por dona Carolina, uma portuguesa, ex-prostituta e grande amiga de Amaro, pois, em uma ocasião, ele a salvou de um assalto.

No entanto, Carolina, uma mulher quarentona, fica interessada em Aleixo e seduz o rapaz. Após ele ceder ao desejo da mulher, a transformação em seu corpo é visível. Desse modo, o narrador sugere que manter relações sexuais com uma mulher fez com que Aleixo adquirisse características masculinas:

"Estava gordo, forte, sadio, muito mais homem, apesar da pouca idade que tinha, os músculos desenvolvidos como os de um acrobata, o olhar azul penetrante, o rosto largo e queimado. Em pouco tempo adquirira uma expressão admirável de robustez física, tornando-se ainda mais belo e querido".

E quando Amaro descobre a dupla traição, ele mata, de forma violenta, o seu amante. Dessa forma, o narrador tem a intenção de demonstrar a impossibilidade de um final feliz para esse tipo de relação.

No entanto, apesar de ser hoje considerada uma obra racista e homofóbica, Bom-Crioulo tem valor histórico. Afinal, essa obra de Adolfo Caminha é o primeiro romance brasileiro cuja temática principal é a homossexualidade. Assim, apesar do tom condenatório e punitivo, pela primeira vez na história da literatura brasileira, o protagonismo é dado a personagens homossexuais.

 

Fonte principal: A História do Ceará Passa por esta Rua, de Rogaciano Leite Filho, e outras  


                    

quarta-feira, 6 de julho de 2022

O Cinema do Seu Edivaldo

 

Os primeiros moradores chegaram ali no final dos anos 40, todos vindos de diversas localidades do interior. Vinham de trem, numa época em que os ônibus só iam até a atual Avenida Virgílio Távora. Ocuparam o caminho aberto durante a construção da ferrovia que liga a Parangaba ao Porto do Mucuripe, no lugar antes ocupado pelo matagal que estava no percurso. Construíram uma comunidade ao longo da linha do trem, uma fileira de casas em cada lado dos trilhos. Casas rústicas, de taipa, sustentadas de varas e barro. Em frente, a via férrea; ao redor, só mato, de onde emergiam de vez em quando, raposas e cobras. Assim nasceu a Comunidade Trilha do Senhor e muitas outras que se instalaram ao longo dos trilhos. Durante muito tempo a água consumida no dia a dia era buscada em um chafariz localizado perto do parque do Cocó. A estrutura básica (água, luz, saneamento) só foi conseguida ao longo dos anos.


trecho do ramal Parangaba-Mucuripe (imagem IBGE)

Um dos primeiros a morar no local, por isso mesmo muito conhecido entre os moradores, foi Seu Edivaldo Alves Maia, que chegou por lá em 1946. A fama se deve ao fato de ter sido o primeiro a ter uma televisão na comunidade.

E foi com a chegada da luz, em meados dos anos 60, que seu Edivaldo comprou um espaço na comunidade onde antes funcionava uma pequena creche: um salão com algumas carteiras estudantis. Seu Edivaldo, dono de múltiplas habilidades – era pedreiro, marceneiro, bombeiro e dono de bodega – pretendia utilizar o local para exibir filmes, e arrecadar algum recurso. Ele mesmo fez as adaptações.

Depois, foi ao Centro da cidade, entrou numa loja de eletrodomésticos e comprou a primeira televisão da Trilha do Senhor. Voltou à comunidade exibindo orgulhoso o aparelho, que foi colocado no salão, em local de destaque. Estava inaugurado o Cinema do Seu Edivaldo.


imagem padrão do Cinema do Seu Edivaldo

Todas as noites, depois da passagem do trem Maria Fumaça, ele divulgava seu cinema: 500 Réis para assistir ao filme, sentados nas carteiras do salão. E ficava na porta, com uma lata na mão, vestido com uma calça de pescador e uma camiseta para receber os telespectadores que iam assistir ao filme anunciado. Mas o que a televisão exibia na época era sua programação diária, inclusive os capítulos das novelas, exibidas pela TV Tupi e pela Excelsior.

E quem queria assistir as duas novelas – O Direito de Nascer e Sangue do meu Sangue – tinha que pagar duas vezes. Seu Edivaldo passava novamente o caneco cobrando o ingresso dos que haviam assistido à primeira sessão. Todos os dias, em média, 50 a 60 pessoas compareciam ao cinema do Seu Edivaldo. Ele ligava a TV, deixava as luzes acesas, as portas abertas e o povo sentado nas carteiras escolares. 


Trecho da Comunidade Trilha do Senhor (imagem: Fortaleza em Fotos 2012)

Em 2010, após Fortaleza ser escolhida como uma das cidades para sediar a Copa do Mundo no Brasil, o então governador Cid Gomes assinou um Decreto declarando de utilidade pública, portanto, sujeita à desapropriação, toda a área ao longo do trecho do antigo ramal Parangaba – Mucuripe da Rede Ferroviária Federal e suas margens, correspondente a um traçado de 12,7 km, que cortava 22 bairros de Fortaleza. Para implantação do VLT foram desapropriados cerca de 3.500 imóveis envolvendo aproximadamente 12.250 pessoas. Todas as comunidades localizadas às margens do trilho foram atingidas, e tiveram suas áreas reduzidas. A Comunidade Trilha do Senhor fica na Aldeota, entre as avenidas Santos Dumont e Padre Antônio Tomaz, de frente para a atual Via Expressa.


Fontes:

Jornal Laboratório da UFC n° 15

Jornal O Povo  



 

quarta-feira, 11 de maio de 2022

Memórias do Cine Nazaré, no Otávio Bonfim (Farias Brito)

 

Antigamente na confluência dos atuais bairros Otávio Bonfim e Parque Araxá, havia uma lagoa denominada Lagoa da Onça, localizada a um quarteirão do Cercado do Zé Padre, na Rua Padre Graça. Naquelas imediações foi inaugurado um cinema, o Cine Nazaré, em 1945, final da guerra. Por causa lagoa, quando chovia, as ruas ficavam inundadas e o povo assistia aos filmes no Nazaré, com os pés dentro d’água, mas ninguém reclamava. O cinema se constituía a grande diversão do bairro, junto com o outro cinema, o Familiar, localizado em frente a Praça de Otávio Bonfim, que funcionava sob orientação dos frades franciscanos. Fora os cinemas, só havia as novenas e as quermesses da Igreja das Dores.


Região do bairro Otávio Bonfim, com a Igreja das Dores, e o fundo  estação da RVC
foto do arquivo Nirez

Não havia controle de acesso, todos podiam entrar, as mulheres geralmente levavam os filhos, mesmo que fossem crianças de colo, a não ser que o filme fosse censurado, no caso, aqueles de terror, ou os mais insinuantes, com mulheres de maiô ou cenas de beijos.

O Cine Nazaré foi tão marcante naquela época, que na exibição do “Ladrão de Bagad” foi necessário abrir uma segunda seção. Tinha tanta gente esperando do lado de fora e na lateral do cinema, que o muro caiu. O povo começou a se amontoar e a empurrar. Quando o muro caiu, quem já estava assistindo o filme nem ligou, continuou assistindo.

A sala cinematográfica tinha capacidade para 300 pessoas, com dois tipos de ingressos: 200 nas cadeiras com assento e encosto de madeira e 100 na geral, bem em frente a tela, com bancos sem encosto. Na geral, onde o preço do ingresso era menos de metade das cadeiras   (400 reis), quando chovia era um sufoco, a água minava do chão já que todo o terreno ao redor da Lagoa da Onça ficava encharcado.


Região onde ficava a Lagoa da Onça, nas proximidades da estação da RVC
foto Lucas Jr/Facebook/Fortaleza Antiga

Para minimizar o problema, oito pisos foram sobrepostos para aumentar o nível do chão, cuja base foi construída abaixo do nível da lagoa. Nesse caso, havia duas opções: ou o espectador ficava de cócoras sobre o banco, ou tirava o calçado e ficava com os pés na água, enquanto assistia o filme. Do lado de fora, esperando os cinéfilos para o lanche, estavam os vendedores de bolo, tapioca e café. A pipoca ainda não era moda.           

O primeiro arrendatário do cinema foi o marchante José Marcelino, que tinha uma banca de venda de carne no Mercado São Sebastião. Naquela época, final dos anos 40, início dos 50, os cinemas passaram a ser a principal diversão da cidade. E as salas se multiplicaram, havia diversas espalhadas nos bairros e no Centro. A partir dos anos 60, os cinemas fora do centro começaram a fechar: encerraram as atividades o Ventura, na Aldeota, o Dioguinho, na praça do Colégio Militar, e muitos outros. O Nazaré também fechou. Em 1968 foi a vez do Cine Familiar.


Cine Nazaré e seu proprietário Sr. Raimundo Carneiro de Araújo, no centro
foto Diário do Nordeste

O Cine Nazaré fechou e reabriu muitas vezes, capricho e menina dos olhos do seu proprietário desde 1970, o radiotécnico Raimundo Carneiro de Araújo, conhecido por Vavá. Foi durante muito tempo o único (e o último) cinema de bairro da cidade. Mas seu Vavá faleceu esse ano, em fevereiro de 2022, e levou com ele a luz que guiava os filmes de sonhos que animavam o Cine Nazaré, agora, definitivamente fechado. 


Fonte: 

Jornal Diário do Nordeste "Cine Nazaré conta a história do bairro", de 05/06/2006