quarta-feira, 13 de maio de 2015

Intervenções médico-urbanas

As primeiras intervenções médico-urbanas em Fortaleza  acontecem a partir da segunda metade do século XIX. No momento em que Fortaleza inicia um movimento inédito de crescimento econômico e social, o saber médico local se estabelece com a volta dos médicos cearenses formados nas faculdades de medicina da Bahia e do Rio de Janeiro, existentes desde 1832.

foto: http://www.historiaecultura.pro.br

Consta que no século XIX, 80 médicos cearenses foram diplomados, sendo que 30 retornaram e se estabeleceram na Província. Boa parte desses profissionais é descrita como heróis pela história local, pelo pioneirismo e dedicação que demonstraram diante de tantas adversidades naturais, sociais, políticas e tecnológicas da época e da região.

As principais adversidades foram as grandes secas e as epidemias. As secas traziam à Capital, grandes levas de sertanejos famintos e doentes, deixando considerável número de órfãos e abandonados. As epidemias apareceram no rastro das piores estiagens.

retirantes da seca de 1877, vindos de várias localidades do Ceará, para Fortaleza

A seca de 1845 e as epidemias de febre amarela (1815) e do cólera-morbus (1862-64), foram as principais responsáveis pela construção da Santa Casa de Misericórdia e do Lazareto da Lagoa Funda. Apesar de estar parcialmente concluída em 1857, a Santa Casa de Misericórdia só foi inaugurada no ano de 1861, no mesmo local em que se encontra até hoje, em frente ao Passeio Público.

Por ser o único hospital público até o começo dos anos 30, a Santa Casa foi o principal espaço de tratamento da população pobre, desde que os doentes não estivessem acometidos por moléstias contagiosas. Para estes foi criado o Lazareto da Lagoa Funda, localizado à cerca de 7 km do centro. Edificado entre 1856 /57, o Lazareto foi o primeiro exemplo concreto da medicina urbana e preventiva em Fortaleza, já que sua finalidade era a de abrigar os prováveis atingidos pela epidemia de cólera, que já grassava em outras províncias. Enquanto o mal não chegou ao Ceará, o hospital serviu para quarentena dos que desembarcavam em Fortaleza, vindos de lugares já atingidos.

uma multidão de famintos aguarda na estação ferroviária de Iguatu, uma oportunidade de embarcar para a Capital

Como já era esperado, o cólera chegou à Província e ceifou a vida de 11 mil cearenses entre 1862 e 1864. Não há dados sobre como ficou a Capital durante a epidemia, apenas que o número de vítimas foi de 362, bem menor que o de Maranguape, cidade mais próxima com 1.960 óbitos. Ao contrário do que ocorreria nas províncias do Pará, da Bahia e Rio de Janeiro, não se verificou novo surto de cólera no Ceará, como foi o caso das epidemias de febre amarela e varíola, que retornaram com gravidade – a febre amarela em 1892 e permanecendo até 1924, quando começou a ser neutralizada pela ação da “Comissão Rockfeller contra a febre amarela”. Por sua vez, a varíola assolou a região por muito tempo. A varíola, moléstia que mais aterrorizou Fortaleza permaneceu até 1904, quando foi finalmente eliminada por ação da Inspetoria de Higiene e principalmente, pelo farmacêutico Rodolfo Teófilo.

Santa Casa de Misericórdia, o primeiro hospital de Fortaleza

No período de 1850-60, dois dos médicos formados na Bahia e no Rio de Janeiro se destacaram na construção de um investimento médico-higienista sobre a ascendente urbanização de Fortaleza: os doutores Lourenço de Castro  e Silva e Liberato de Castro Carreira. 

Nomeado "médico da pobreza", por portaria de 1845, Castro e Silva atuou na capital até meados de 1850. Enfrentou a epidemia de febre amarela e foi o primeiro a estabelecer os contornos de uma polícia médica para a cidade. Sanear o meio urbano, principalmente através de medidas profiláticas nas ruas, foi a preocupação central de Castro Carreira. Combatendo os pontos urbanos que estavam se transformando em focos infectantes, o médico sugeriu a transferência do matadouro público, uma vez que o mesmo comprometia o ar da cidade. Recomendou ainda, a proibição de salgamento de couros em vias centrais, a criação de porcos nos limites do perímetro urbano e a eliminação das águas estagnadas em quintais. Solicitou às autoridades que fosse providenciada a limpeza das vias públicas, chafarizes e poços além de inspeção constante a todo e qualquer quintal.

Rua São Paulo, prédio da Assembleia provincial em 1908

Essa medida de entrar no espaço doméstico da população e impor-lhe regras de higiene privada continuaria pelo restante do século passado e por todo o período da Primeira República. Os Códigos de Postura municipais daquela época demonstram a intenção de manter-se o controle urbano. As normas intensificam uma fiscalização pormenorizada de ruas, casas, edificações, produtos, gêneros alimentícios, etc. chegavam ao detalhe de proibir a tintura de doces e massas com óxidos, cobre e mercúrio por parte dos confeiteiros, obrigavam a limpeza do riacho que corria nos quintais dos moradores da rua do mercado, limpeza da frente das casas, dentre outras medidas.

Se tais prescrições foram de fato cumpridas, é difícil saber. Entretanto, importa saber que estas determinações municipais revelam a vigência de um saber que cada vez mais vigia a Cidade e o povo em seus mínimos detalhes. Ademais, tais imposições de normas e regras a serem adotadas sob pena de multa, também delineiam a constituição de um novo tipo de poder, aquele que, preocupado com a produção de vida, intervém em tudo que considera como ameaça à saúde da coletividade.


Extraído do livro de Sebastião Rogério Ponte
Fortaleza Belle Epoque – reformas urbanas e controle social – 1860-1930
fotos: arquivo Nirez, Álbum de Vistas do Ceará

sexta-feira, 8 de maio de 2015

No Tempo dos Cursinhos

Os cursinhos pré-vestibulares surgiram nos anos 60, por iniciativa dos diretórios acadêmicos, para gerar renda para o movimento estudantil. Funcionavam em salas das faculdades de Agronomia, Odontologia e Farmácia. Também ali se formaram os primeiros professores de pré-vestibular de Fortaleza.

 prédio onde funcionava a Faculdade de Farmácia e Odontologia da UFC (foto IBGE)


Naquela época, a UFC reinava absoluta, e as provas eram dificílimas, daí o motivo da grande procura pelos cursinhos pré-vestibulares. Nos dias que antecediam, e durante a realização do vestibular, o ritmo era frenético, as aulas aconteciam até em fins de semana. No semblante de alunos e professores, um misto de ansiedade e preocupação aliadas a um clima de festa que durava até sair o resultado. A comemoração era ampla e irrestrita, até os nãos aprovados participavam e comemoravam.

O primeiro cursinho que surgiu fora do ambiente universitário chamava-se Curso Ésio Pinheiro, e se instalou em 1961, na Rua Edgar Borges, em cima da loteria Estadual. O diretor era médico e professor de Química. Convidou outros colegas e formou a equipe que preparava para os vestibulares de Medicina, Agronomia e Farmácia. Tempos depois, no mesmo endereço, funcionou o Curso Pioneiro, sucessor do Ésio Pinheiro, dirigido pelo professor Hélio Pinho. O Pioneiro ampliou as opções para os vestibulandos: preparava para todas as faculdades.

Em seguida foi criado o Curso dos Picanços, em 1963, que funcionava nas dependências do Colégio São João, na Avenida Santos Dumont. Roberto Picanço era médico e professor de Química.  Um pouco depois do Pioneiro, instalou-se o Curso Vetor, na Rua Floriano Peixoto, centro, em 1965, dirigido pelo professor Bené (Benedito Gomes), com quase a mesma equipe do Pioneiro. 

prédio onde funcionava o Curso Ésio Pinheiro e mais tarde, o Cursinho Pioneiro, na Rua Edgar Borges, centro de Fortaleza(foto Google) 


Em 1966 surgiu um dos cursinhos mais famosos da cidade, o CIPAM – Curso de Preparação para Agronomia, e Medicina. Ficava na Rua General Bezerril, próximo à Cidade da Criança. Apesar da sigla, logo passou a preparar alunos para todos os vestibulares. Seu fundador foi o professor Maurílio Vasconcelos

O CIPAM cumpriu uma trajetória de sucesso, ganhando fama tanto pelo grande número de aprovações no vestibular, quanto pela formação de professores de cursinhos. Vendido pelo professor Maurílio, passou por dificuldades em razão da concorrência, e entrou em declínio. 

 Rua General Bezerril, no centro, endereço do CIPAM 


Passou por diversos administradores, mas não conseguiu reverter o déficit nem cumprir com os compromissos financeiros. Um dos professores, transmutado em diretor financeiro, viu-se em maus lençóis, quando foi assediado por uma estrangeira professora de italiano. Com salários atrasados, a professora procurou o diretor para receber o que lhe era devido. Ao ouvir a voz da italiana, o diretor retirou-se rapidamente da sua sala para não enfrenta-la, não tendo tempo, porém, de beber sua Coca-Cola, refrigerante no qual era viciado, nem retirar o paletó do espaldar da cadeira. Quando a professora foi informada de que o diretor não se encontrava no recinto, ela não acreditou, pois os sinais de sua presença eram claros. E exigiu que o fugitivo aparecesse, pois só sairia dali quando recebesse. 

Situação semelhante vivia um outro diretor, que não tendo como pagar o salário dos professores, se ausentava do curso nos finais de expediente, hora em que o assédio era maior. Depois de um tempo, o cursinho encerrou suas atividades. 

Outro que fez história entre os estudantes foi o Curso Gregório Mendel, situado na Rua Floriano Peixoto, criado um pouco antes do CIPAM. Tinha esse nome porque o proprietário, Hildemar Andrade, médico e professor de Biologia, quis prestar uma homenagem ao cientista austríaco Gregor Johann Mendel, botânico e geneticista, autor das famosas “Leis de Mendel”.   

Apesar  de ser o cientista conhecido de boa parte dos estudantes por frequentar regularmente os livros de Biologia, certa vez, uma aluna, veterana de muitos vestibulares, veio se matricular e mostrou total desconhecimento sobre Gregório Mendel. Adentrando a sala do diretor, a quem pretendia pedir um abatimento nas mensalidades, a moça perguntou pressurosa: o senhor é que é o seo Gregório Mendes? 

Das demandas dos professores por melhores salários iam surgindo novos cursos:  em 1973, o professor Bené, se desentendeu com Maurílio do CIPAM e fundou o Curso Equipe, levando muitos companheiros para o novo estabelecimento de ensino. Hélio Pinho se indispôs com o Equipe e fundou o Curso SKEMA, em 1975. O Greck, um paulista que ensinava Química, brigou no Skema e fundou o Curso Positivo, mais tarde Colégio Evolutivo, em 1979.

Naquela época, para se começar um cursinho bastava uma boa briga com o patrão, uma rodada de cerveja com os colegas professores e um anúncio na TV, dando o endereço. No anúncio, o nome dos mais famosos, os cobrões. Não havia zebra: no dia seguinte era só começar as matrículas.   

Extraído do livro Sábado, estação de viver
De Juarez Leitão 

quarta-feira, 29 de abril de 2015

411, 366, 314, 289: Afinal, Quantos anos tem a Cidade de Fortaleza?





De acordo com a história oficial, a primeira tentativa de ocupação do território cearense foi em 1603, com o açoriano Pero Coelho de Sousa. O capitão-mor fundou às margens do Rio Ceará, o Forte de São Tiago e o povoado de Nova Lisboa, batizando a capitania pelo nome de Nova Lusitânia. Não ficou muito tempo: os índios, revoltados com o comportamento brutal dos europeus, atacaram o forte, forçando a fuga do colonizador.

 A cruz assinala o exato local onde foi construído o Forte de Santiago, na Barra do Ceará, no início do Século XVII, por Pero Coelho de Sousa.

Gravura representando Forte de São Sebastião, erguido na Barra do Ceará por Martim Soares Moreno, no mesmo local onde antes esteve o Forte de Santiago. O forte ficou no local entre 1611 e 1640, quando foi destruído pelos indígenas.
 

Nova tentativa ocorreu em 1611, com Martim Soares Moreno. Acompanhado de um padre e seis soldados, Moreno se instalou na capitania do Siará Grande, fundando na barra do Rio Ceará o pequeno Forte de São Sebastião – no mesmo local do Forte de São Tiago. Em 1613, Moreno foi convocado para combater a França Equinocial, no Maranhão. Retornou em ao Siará, definitivamente, em 1621, agora como capitão-mor, titulo dado pela Coroa em reconhecimento aos bons serviços prestados.

 Marco Zero, na Praça de Santiago, na Barra do Ceará.O cruzeiro com as imagens de São Tiago, do Cristo Crucificado, de Nossa Senhora de Assunção, e São José, foi presente do Governo da Espanha.
   

Soares Moreno reencontrou o Forte de São Sebastião quase destruído. Os soldados maltrapilhos, com soldos atrasados, sofriam constantes ataques de índios inimigos. Remodelou-se, então, o que foi possível, e houve uma tentativa de se iniciar uma atividade econômica com a criação de gado vacum e cultivo de cana-de-açúcar.

Nos anos seguintes, em várias oportunidades,  Martim Soares Moreno recorreu às autoridades portuguesas no sentido de obter ajuda para viabilizar a colonização: tudo em vão. Em 1631, terminando o período de dez anos como Capitão-Mor, cansado da falta de recursos e da falta de atenção da Metrópole, retirou-se do Siará em definitivo, deixando o comando do forte com seu sobrinho, Domingos da Veiga.

A próxima tentativa de colonização ocorreu  quando os holandeses chegaram e dominaram o Nordeste brasileiro. Ocuparam a capitania do Siará, por volta de 1637, num total de 126 homens, comandados por George Gartsman. Desembarcaram no Mucuripe, dirigindo-se para o Forte do Siará, ocupado por apenas 33 soldados, que facilmente sucumbiram diante do ataque dos holandeses. Estava assim, temporariamente desfeito o império luso no Ceará.

Posteriormente, em 1640, quando se encontrava sob o comando de Gedeon Morris de Jorge, o Forte de São Sebastião foi invadido e destruído pelos indígenas, que trucidaram todos os holandeses. O Siará voltava a ser apenas dos nativos.


Cinco anos depois, em 1649, chegou ao Ceará uma nova expedição holandesa, comandada por Matias Beck, que mandou erguer o Forte Schoonenborch, na Colina Marajaitiba, às margens do Riacho Pajeú. A região da Barra do Ceará foi abandonada pelos novos colonizadores, que optaram por se estabelecer às margens do riacho.

Há alguns anos surgiu a polêmica sobre o local e data da fundação da cidade de Fortaleza, iniciada na década de 1960, quando o historiador Raimundo Girão lançou o livro “Matias Beck, o fundador de Fortaleza”.  A historiografia mais antiga considerava a Barra do Ceará como o local onde surgira a cidade, tendo como referenciais o Forte de São Sebastião e a chegada de Martim Soares Moreno à capitania do Siará.

Apoiado em argumentos sólidos e dados consistentes, Raimundo Girão argumentou que o núcleo colonizador comandado por Soares Moreno na Barra do Ceará não teve maiores consequências – o Forte de São Sebastião fora conquistado pelos holandeses em 1637 e destruído pelos indígenas em 1644.

Para Girão, o núcleo original da cidade estaria no Forte Schoonenborch, construído pelos holandeses em 1649, por ordem de Matias Beck. Foi em torno do forte – reconquistado em 1654 pelos portugueses, e renomeado para Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção, que surgiria a atual capital do Ceará.

A polêmica sobre a criação de Fortaleza prosseguiu com relação a data de nascimento da cidade: o marco de criação considerado, não levou em conta, nem a chegada do português Martim Soares Moreno e a construção do Forte de São Sebastião na Barra do Ceará (fins de 1611), nem a invasão dos holandeses e a consequente construção do Forte Schoonenborch (1649).

Na escolha da data em comemoração ao aniversário de Fortaleza foi tomada como base, o dia  em que o povoado do forte foi elevado à condição de Vila – 13 de abril de 1726.


1° Mapa de Fortaleza, feito pelo capitão-mor Manuel Francês, em 1726, quando o povoado foi elevado à categoria de Vila. Não há registros de outros aglomerados urbanos na Vila além desse, ao redor do Forte de N.S. de Assunção

Apesar de Fortaleza ter oficialmente, 289 anos, a construção mais antiga da cidade, o Forte de N. S. da Assunção, fundado em 1649, completa 366 anos em 2015; Em 1701 é eleita a primeira Câmara no Iguape, tendo a denominação de São José de Ribamar; no dia 20 de abril de 1701, a Câmara da Vila de São José de Ribamar, resolve mudar de lugar se instalando na Barra do Ceará, tendo a dita Câmara iniciado os trabalhos no mesmo ano de 1701. Assim, a Câmara Municipal soma respeitáveis 314 anos.

Os moradores da Barra do Ceará comemoram todos os anos o aniversário do bairro,  que esse ano completou 411 anos. Para os moradores, a data oficial do aniversário da Capital deveria 25 de julho, contados a partir de 1604, data do surgimento da Vila, na Barra do Ceará, às margens do Rio Ceará.

 Barra do Ceará anos 70

Barra do Ceará em foto de 2005

Mas, ao contrário do que pensam os manifestantes da Barra do Ceará, não foi a ex-prefeita Luizianne Lins quem definiu o 13 de abril como o dia de Fortaleza. Conta o professor José Liberal de Castro, que certo dia foi procurado pelo então presidente da Fundação Cultural do Município, Cláudio Pereira, no sentido de que fosse escolhida uma data na qual Fortaleza comemorasse alguma referência significativa do seu passado.

O professor apresentou então, uma curta lista de datas, acompanhada de algumas considerações pertinentes, a fim de que fosse escolhida a que melhor conviesse. Após estabelecer as devidas ponderações, Cláudio Pereira optou pela data de 13 de abril de 1726, decisão que foi levada ao vereador Idalmir Feitosa, autor do projeto que instituía o dia de Fortaleza. 

O consequente projeto defendido pelo vereador transformou-se na Lei Municipal n° 7535, de 16 de junho de 1994, que decidiu a data de 13 de abril como o Dia da Cidade. A lei aprovada pela Câmara Municipal entrou em vigor no ano seguinte e logo se incorporou ao calendário de eventos da cidade.

Livros consultados:
História do Ceará, de Airton de Farias
As Comemorações do 13 de abril, de José Liberal de Castro, publicado em “Ah, Fortaleza”
Cronologia Ilustrada de Fortaleza, de Miguel Ângelo de Azevedo (NIREZ)
Revista Fortaleza, fascículo 3

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Beira-Mar a Avenida que mudou a cidade




Enquanto a cidade via o centro de Fortaleza se esvaziando com a ausência de novos investimentos e empreendimentos, e a fuga dos equipamentos existentes ocorria, quase que simultaneamente, a valorização da orla marítima, desprezada durante décadas como local de moradia e lazer. 



A ocupação da orla começou pela Praia de Iracema, a partir do final da década de 20, com a abertura de um sistema de avenidas em 1927, ligando o centro à Praia de Iracema (chamada de Praia do Peixe até 1925). Foi um prenúncio da emergência dos anos 30 em diante  da região leste,  enquanto área residencial nobre e como lugar de uma nova fonte de lazer: o banho de mar. O movimento nesse sentido foi iniciado com a construção da bela mansão de veraneio, a Vila Morena, em 1928.  A seguir vieram outros bangalôs, além de bares e clubes praianos.



Em 1950, o Náutico Atlético Cearense trocou sua minúscula sede da Praia Formosa pela monumental sede da Praia do Meireles. Ocupando uma área considerável, numa região ainda pouco valorizada, à beira mar – mas com a frente voltada para a avenida, portanto, de costas para o mar – o Náutico sentia orgulho de seu palácio alviverde, e os abriam seus salões para os visitantes de todos os lugares do Brasil e até do exterior. 

Mas a descoberta do potencial turístico e comercial da região do Meireles ainda demorou algum tempo. Até o início da década de 1960, a única edificação relevante na área, era o Náutico. No mais, era um local de veraneio, com muita vegetação, algumas casas de pescadores e vários estabelecimentos que exploravam a prostituição.
   
A construção da avenida, iniciada em 1961 no Governo do prefeito Manuel Cordeiro Neto (1959-1963), de imediato, expulsou a zona de prostituição para a área do farol do Mucuripe e os pescadores para o alto das dunas e para a Varjota, onde fora construída a Vila dos Estivadores, em 1945.

A abertura da via, que objetivava ligar o centro ao Porto do Mucuripe,  intensificou a ocupação e integrou a orla marítima à malha urbana da cidade. A valorização da praia passa a ser percebida inclusive em termos financeiros, além de se tornar um espaço de lazer para a população. A especulação imobiliária logo descobriu a Avenida Beira Mar

A partir dos anos 1970, o local transformou-se na principal zona de lazer e o local mais procurado para a instalação de negócios ligados ao turismo e ao entretenimento.
Nas décadas de 1980 e 1990 os restaurantes cedem lugar aos hotéis e edifícios residenciais de alto luxo. Durante o dia a praia passou a ser frequentada pela população de baixa renda, e o calçadão por copistas e turistas.  

Além dos hotéis, bares, restaurantes, lanchonetes e barracas, a Beira Mar conta uma grande diversidade de usos ao longo de seus 3 quilômetros de extensão,  com equipamentos como o Jardim Japonês, inaugurado em 2011 em homenagem a passagem do centenário da imigração japonesa no Brasil, espigões urbanizados, que contém o avanço do mar sobre o calçadão, além de servirem como local de lazer e contemplação, e a Feira de Artesanato, que conta com mais de 600 boxes. 

A Avenida também ganhou uma associação de amigos, que se reúnem para fazer exercício, bater papo na Praça dos Estressados, local que conta com bancos e equipamentos de ginásticas. Dentre diversas outras opções de diversão e lazer, podem ser encontrados quiosques de estabelecimentos bancários, trenzinho da alegria para as crianças, e uma variada oferta de serviços de passeios turísticos e shows de humoristas locais. 
 
A Avenida Beira Mar começa na Praia de Iracema, na Rua dos Ararius e termina na confluência com a Avenida da Abolição, no Mucuripe. A orla da Beira-Mar no trecho Praia do Meireles, é  metro quadrado mais caro da cidade, e a especulação imobiliária torna-se cada vez mais forte na determinação da ocupação da cidade em geral e da orla em particular.



Atualmente a Beira-Mar passa por uma nova reforma, uma obra de requalificação orçada em R$ 232 milhões, dos quais R$ 187 milhões estavam assegurados pelos ministérios do Turismo e da Infraestrutura. Iniciada em março de 2013, tinha previsão de entrega em 2015. O projeto prevê a reforma do Mercado de Peixes, um novo espigão localizado em frente ao clube Náutico, um aterro hidráulico, entre as avenidas Rui Barbosa e Desembargador Moreira, pavimentação das vias de tráfego de veículos, estacionamentos, passeios, novos quiosques, sanitários e embarcadouros, além de tratamento paisagístico, requalificação da feira de artesanato e da área de manutenção das jangadas. O passeio terá também ciclovia, pista de cooper e quadras de esporte na areia. 

Tudo está atrasado. O novo Mercado de Peixes, que seria o primeiro a ser concluído, em até 30 dias após o início da obra, até hoje não foi feito, nem tem mais previsão de data. Com relação aos demais itens, a maioria sequer foi iniciado, e os que estão em andamento, como o espigão, também não tem prazo definido para conclusão, em razão, segundo dizem, da falta de repasse das verbas pelo governo federal. 

fotos do arquivo Nirez

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Vivendo em tempos de Guerra

Em 14 de fevereiro de 1942 o navio brasileiro Cabedelo havia sido torpedeado em águas do Atlântico por submarinos alemães, o que provocou a morte de 54 tripulantes. Outras embarcações de bandeira brasileira também foram afundadas, a exemplo do Baependi, Buarque, Olinda, Atabutã, Cairu, Parnaíba, Tamandaré, totalizando 36 navios afundados. O torpedeamento desses navios mercantes brasileiros, em costa brasileira, fez com que o governo de Getúlio Vargas desse o primeiro passo para a declaração de guerra aos países do Eixo – Alemanha, Itália e Japão


Desfile dos integrantes da Força Expedicionária Brasileira, antes do embarque para a Itália

Em 22 de agosto de 1942, Getúlio Vargas reunido com vários de seus ministros, declarou ao término da reunião que “diante da comprovação dos atos de guerra contra a nossa soberania, foi reconhecida a situação de beligerância entre o Brasil e as nações agressoras”.

O Brasil foi compelido, moralmente, a participar da 2ª. Guerra Mundial, em desagravo à soberania ultrajada, à neutralidade desrespeitada, ao afundamento dos navios mercantes desarmados e para preservar a democracia ameaçada. O governo criou a Força Expedicionária Brasileira que seria enviada à Europa, contribuindo com a causa dos aliados.

manifestantes no Centro de Fortaleza depredaram e incendiaram a Loja A Pernambucana, cujos dirigentes eram austríacos e foram confundidos com alemães

Após a notícia de novos afundamentos de navios brasileiros por submarinos do Eixo, mesmo antes da declaração de guerra feita pelo governo brasileiro, em todo o país, ocorreram ataques e depredações a estabelecimentos comerciais que supostamente pertenciam a estrangeiros nascidos nos países inimigos.  Em Fortaleza não foi diferente: Empresas como A Pernambucana, Casa Veneza, Bar Antárctica, Café Iris, o escritório de Marino Cunto e outros foram invadidos e depredados aos gritos de “Morra a Itália” e “Morra a Alemanha”. 

A Casa Veneza foi saqueada e encerrou as atividades; anos mais tarde reabriu e fechou novamente 
Foto de Nelson Bezerra - Série Fortaleza anos 70/80

As empresas passaram a publicar notas nos jornais, declarando-se brasileiras ou compostas em sua diretoria por reservistas do Exército e da Marinha. O Jornal “O Estado” registrou algumas dessas notas. Em 20 de agosto de 1942, em primeira página, a Companhia Ítalo  Brasileira de Seguro Gerais, destacava: 

“A Cia Ítalo Brasileira de Seguros Gerais é genuinamente brasileira. Os seus acionistas e Diretores são brasileiros industriais e banqueiros de São Paulo, srs. Dr. Edgardo de Azevedo Soares, Dr. Alfredo Egydio de Souza Aranha, Dr. José da Silva Gordo, e Dr. José Hermínio de Morais. A Filial do Ceará também é constituída de brasileiros, reservistas do Exército e da Marinha e dirigidas pelos srs Artur Vieira de Almeida, e Edílson Nogueira Mota.”

O famoso proprietário de restaurante, Ramon Romero, também encomendou uma nota à imprensa, no mesmo dia e no mesmo jornal: 

“Ramon Romero de Castro, proprietário do popular e conhecido Restaurant Ramon e arrendatário do Excelsior Hotel, torna público que, sendo de nacionalidade espanhola, se acha, no entanto, há 42 anos no Brasil. Este grandioso país é assim, sua segunda pátria e os atentados torpes e covardes contra bens e vidas brasileiras, levados a cabo pelos nazistas, só lhe causam profunda indignação, motivo porque exprime toda a simpatia e solidariedade irrestrita, ao ínclito Presidente Vargas e às altas autoridades incumbidas de reprimir a ação nefasta dos vândalos do Eixo. O Restaurant Ramon e o Excelsior Hotel não têm em seus quadros de empregados qualquer elemento nascido nos países que ora hostilizam o Brasil”. 

Outras empresas como Lojas Brasileiras, Sambra, Sapataria Belém, Casa Raia, Loja “O Gabriel” e muitas outras, destacavam em notas impressas sua solidariedade ao governo brasileiro.

Os europeus de origem judaica, por seu sobrenome marcantemente estrangeiro, também foram perseguidos. Em 25 de agosto de 1942, o jornal “ O Estado”, publicava:

“Izaías Kligman, proprietário da Relojoaria Izaías à Rua Pará, 10 – avisa ao público que, além de ser polonês, reside no Brasil há mais de vinte anos, tendo-o como sua segunda pátria e que é uma vítima das atrocidades do Eixo, pois sua família, inclusive irmãos, foi dizimada pelos bárbaros nazistas". 

Passeata de agosto de 1942, manifestantes cobram um posicionamento do governo brasileiro

Nesse mesmo ano de 1942, foi realizado o primeiro blackout absoluto em Fortaleza, apagando-se todas as luzes da cidade, num exercício de comportamento a ser seguido, simulando um ataque aéreo à cidade. A “Gazeta de Noticias” publicou uma nota da Secretaria do Serviço de Defesa Passiva Antiaérea de Fortaleza, onde se estipulava que, em função do Estado de Guerra, o movimento nas ruas deveria ser encerrado às 22 horas; a iluminação pública não seria permitida a partir desse horário, principalmente na praia e no centro da cidade. Dentre estas normas do blackout, por tempo indeterminado, as que se referiam às residências, recomendavam: 

“todas as vidraças, venezianas, etc, externas, deverão ser cobertas com papel ou fazenda preta, ou reforçadas com madeira, de modo que não haja filtração da luz”. 

Na noite de Natal desse ano, a “Missa do Galo” deixou de acontecer à meia-noite, em função das regras rígidas de iluminação noturna. Em 21 de dezembro de 1942, o “Correio do Ceará” anunciou:

“em consequência do blackout adotado na cidade pelo Serviço de Defesa Passiva antiaérea, Fortaleza quebrará este ano, uma tradição, não realizando suas missas das 24 horas, no Natal, tão a gosto do povo católico e sempre concorridíssima. A providência, porém, não prejudicará o povo católico que no dia 25 poderá acorrer em massa para as igrejas, comemorando liturgicamente a data do nascimento de Cristo.” 

A obrigatoriedade de cumprimento das leis do blackout permaneceu em vigência até 1° de dezembro de 1943.

Extraído do livro de Vanius Meton Gadelha Vieira
Ideal Clube – história de uma sociedade
fotos do arquivo Nirez e do livro Ah, Fortaleza!