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segunda-feira, 23 de dezembro de 2024

A Criação da Universidade no Ceará

 

reitor Antônio Martins Filho

No ano de 1944 o médico cearense Dr. Antônio Xavier de Oliveira, encaminhou ao Ministério da Educação e Saúde, um relatório sobre a federalização da Faculdade de Direito do Ceará. No mesmo documento foi mencionada a ideia de criação de uma universidade com sede em Fortaleza, sendo esta a primeira vez que o assunto foi levantado em um documento oficial.

Três anos depois, em 1947, a cidade recebeu a visita do então Ministro da Educação, professor Clemente Mariani. Recepcionado na Faculdade de Direito, fez ali um pronunciamento em favor da solicitação da comunidade, através de um documento com dez mil assinaturas, que pleiteava uma universidade para o Ceará.


Escola de Agronomia

A Universidade do Ceará foi criada oficialmente no dia 16 de dezembro de 1954, através da lei 2.373, sancionada pelo presidente Café Filho, na gestão do governador Paulo Sarasate. O primeiro reitor, escolhido por meio de uma lista tríplice, foi o professor Antônio Martins Filho, por ato publicado no Diário Oficial em 18 de maio de 1955.

A reitoria foi instalada provisoriamente em uma sala pequena, com aproximadamente 22 metros quadrados, no pavimento térreo da Faculdade de Direito, na atual praça Clóvis Beviláqua, antiga Praça da Bandeira.

Finalmente, no dia 25 de junho de 1955, foi efetivamente realizada a Assembleia Universitária para a instalação oficial da universidade, com a presença de representantes da Presidência da República e do Ministro da Educação, além do governador Paulo Sarasate, do arcebispo metropolitano de Fortaleza Dom Antônio de Almeida Lustosa, professores universitários e do reitor Martins Filho.


Faculdade de Direito

Quatro meses depois da instalação oficial, a Universidade teve efetivamente a sua sede, em razão do aluguel de um imóvel situado à Rua Senador Pompeu, 1613, na então Praça da Bandeira, hoje Clóvis Beviláqua, nas proximidades da Faculdade de Direito. Eram tempos difíceis, as instalações eram precárias e as condições de trabalho eram adversas devido à escassez de recursos materiais e financeiros.

Mas a Reitoria só ficou no imóvel por um semestre, uma vez que já se encontravam em curso as negociações para a compra de um prédio de propriedade da Imobiliária José Gentil, no caso, um palacete no Benfica, antiga residência do banqueiro José Gentil, àquela altura em posse de herdeiros. 


Faculdade de Farmácia e Odontologia

A universidade nasceu já com três unidades federais: a Faculdade de Direito, a Faculdade de Farmácia e Odontologia do Ceará, ambas mantidas pelo Ministério da Educação e Cultura, e a Escola de Agronomia, que até então era vinculada ao Ministério da Agricultura. Mais tarde, foi federalizada e incorporada à universidade a Faculdade de Medicina, que já funcionava como um estabelecimento de ensino superior, mantido por uma entidade de direito privado.


Faculdade de Medicina

A Faculdade de Engenharia, criada pela Lei nº 2,383, de 3 de janeiro de 1955, deveria ser incorporada à Universidade, uma vez que não se compreenderia seu funcionamento como estabelecimento de ensino superior isolado, dada sua condição de instituto mantido pelo Governo Federal. Recebeu a denominação de Escola de Engenharia.

 O primeiro diretor foi o engenheiro Antônio Pinheiro Filho, professor catedrático da Escola de Engenharia de Ouro Preto. O prédio que serviu de sede para a Escola de Engenharia, localizado no Benfica, foi adquirido ao comerciante José Thomé de Saboya e Silva.

No início de 1956, após sucessivos entendimentos com o Sr. João Gentil, diretor-presidente da Imobiliária José Gentil, foi concluída a compra do palacete José Gentil, adquirida com todos os móveis, troféus e adornos existentes na antiga residência. O valor pago foi de 500 Mil Cruzeiros. Depois de reformada e ampliada, a nova sede da Reitoria foi inaugurada no dia 25 de junho de 1956.

Durante o ano de 1956, outros estabelecimentos isolados passaram a compor a Universidade federal mediante agregação, como a Faculdade de Ciências Econômicas do Ceará, mantida pelo Governo do Estado; Escola de Serviço Social, do Instituto Social de Fortaleza; e Escola de Enfermagem São Vicente de Paulo, da Província Brasileira das Filhas de Caridade de São Vicente de Paulo.

Até a metade dos anos 1940, a Universidade do Ceará era só uma ideia na cabeça de alguns professores, especialmente da Faculdade de Direito, que sonhavam com a instalação de um estabelecimento de ensino superior, público e gratuito, dedicado à pesquisa científica e que contribuísse efetivamente para a melhoria da qualidade de vida dos cearenses.


Decorridos 70 anos desde a sua criação, a Universidade do Ceará, depois denominada Universidade Federal do Ceará, é considerada a melhor instituição do gênero em todo Norte e Nordeste. Na UFC são ofertados 123 cursos de graduação (incluindo 10 cursos à distância) e 153 de pós-graduação, sendo 82 mestrados, 51 doutorados e 20 especializações.

Na graduação, as vagas de todos os cursos, com exceção de Letras-Libras, são ofertadas no Sistema de Seleção Unificada (SISU), do governo federal. Trata-se da principal forma de ingresso na UFC. Para concorrer a uma das vagas, é necessário ter participado do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) em sua edição mais recente.

Conta com três campi em Fortaleza (Benfica, Pici e Porangabuçu), e em algumas cidades no interior do Ceará, como Crateús, Quixadá, Russas, Itapajé e Sobral, atuando no desenvolvimento socioeconômico dessas regiões.


Fontes: O Outro Lado da História/Antônio Martins Filho/Edições Universidade Federal do Ceará, 1983. Portal da UFC/Instituto do Ceará. Fotos Memorial da UFC/Arquivo Nirez/IBGE/Publicação Fortaleza e Fotos. 



sexta-feira, 8 de maio de 2015

No Tempo dos Cursinhos

Os cursinhos pré-vestibulares surgiram nos anos 60, por iniciativa dos diretórios acadêmicos, para gerar renda para o movimento estudantil. Funcionavam em salas das faculdades de Agronomia, Odontologia e Farmácia. Também ali se formaram os primeiros professores de pré-vestibular de Fortaleza.

 prédio onde funcionava a Faculdade de Farmácia e Odontologia da UFC (foto IBGE)


Naquela época, a UFC reinava absoluta, e as provas eram dificílimas, daí o motivo da grande procura pelos cursinhos pré-vestibulares. Nos dias que antecediam, e durante a realização do vestibular, o ritmo era frenético, as aulas aconteciam até em fins de semana. No semblante de alunos e professores, um misto de ansiedade e preocupação aliadas a um clima de festa que durava até sair o resultado. A comemoração era ampla e irrestrita, até os nãos aprovados participavam e comemoravam.

O primeiro cursinho que surgiu fora do ambiente universitário chamava-se Curso Ésio Pinheiro, e se instalou em 1961, na Rua Edgar Borges, em cima da loteria Estadual. O diretor era médico e professor de Química. Convidou outros colegas e formou a equipe que preparava para os vestibulares de Medicina, Agronomia e Farmácia. Tempos depois, no mesmo endereço, funcionou o Curso Pioneiro, sucessor do Ésio Pinheiro, dirigido pelo professor Hélio Pinho. O Pioneiro ampliou as opções para os vestibulandos: preparava para todas as faculdades.

Em seguida foi criado o Curso dos Picanços, em 1963, que funcionava nas dependências do Colégio São João, na Avenida Santos Dumont. Roberto Picanço era médico e professor de Química.  Um pouco depois do Pioneiro, instalou-se o Curso Vetor, na Rua Floriano Peixoto, centro, em 1965, dirigido pelo professor Bené (Benedito Gomes), com quase a mesma equipe do Pioneiro. 

prédio onde funcionava o Curso Ésio Pinheiro e mais tarde, o Cursinho Pioneiro, na Rua Edgar Borges, centro de Fortaleza(foto Google) 


Em 1966 surgiu um dos cursinhos mais famosos da cidade, o CIPAM – Curso de Preparação para Agronomia, e Medicina. Ficava na Rua General Bezerril, próximo à Cidade da Criança. Apesar da sigla, logo passou a preparar alunos para todos os vestibulares. Seu fundador foi o professor Maurílio Vasconcelos

O CIPAM cumpriu uma trajetória de sucesso, ganhando fama tanto pelo grande número de aprovações no vestibular, quanto pela formação de professores de cursinhos. Vendido pelo professor Maurílio, passou por dificuldades em razão da concorrência, e entrou em declínio. 

 Rua General Bezerril, no centro, endereço do CIPAM 


Passou por diversos administradores, mas não conseguiu reverter o déficit nem cumprir com os compromissos financeiros. Um dos professores, transmutado em diretor financeiro, viu-se em maus lençóis, quando foi assediado por uma estrangeira professora de italiano. Com salários atrasados, a professora procurou o diretor para receber o que lhe era devido. Ao ouvir a voz da italiana, o diretor retirou-se rapidamente da sua sala para não enfrenta-la, não tendo tempo, porém, de beber sua Coca-Cola, refrigerante no qual era viciado, nem retirar o paletó do espaldar da cadeira. Quando a professora foi informada de que o diretor não se encontrava no recinto, ela não acreditou, pois os sinais de sua presença eram claros. E exigiu que o fugitivo aparecesse, pois só sairia dali quando recebesse. 

Situação semelhante vivia um outro diretor, que não tendo como pagar o salário dos professores, se ausentava do curso nos finais de expediente, hora em que o assédio era maior. Depois de um tempo, o cursinho encerrou suas atividades. 

Outro que fez história entre os estudantes foi o Curso Gregório Mendel, situado na Rua Floriano Peixoto, criado um pouco antes do CIPAM. Tinha esse nome porque o proprietário, Hildemar Andrade, médico e professor de Biologia, quis prestar uma homenagem ao cientista austríaco Gregor Johann Mendel, botânico e geneticista, autor das famosas “Leis de Mendel”.   

Apesar  de ser o cientista conhecido de boa parte dos estudantes por frequentar regularmente os livros de Biologia, certa vez, uma aluna, veterana de muitos vestibulares, veio se matricular e mostrou total desconhecimento sobre Gregório Mendel. Adentrando a sala do diretor, a quem pretendia pedir um abatimento nas mensalidades, a moça perguntou pressurosa: o senhor é que é o seo Gregório Mendes? 

Das demandas dos professores por melhores salários iam surgindo novos cursos:  em 1973, o professor Bené, se desentendeu com Maurílio do CIPAM e fundou o Curso Equipe, levando muitos companheiros para o novo estabelecimento de ensino. Hélio Pinho se indispôs com o Equipe e fundou o Curso SKEMA, em 1975. O Greck, um paulista que ensinava Química, brigou no Skema e fundou o Curso Positivo, mais tarde Colégio Evolutivo, em 1979.

Naquela época, para se começar um cursinho bastava uma boa briga com o patrão, uma rodada de cerveja com os colegas professores e um anúncio na TV, dando o endereço. No anúncio, o nome dos mais famosos, os cobrões. Não havia zebra: no dia seguinte era só começar as matrículas.   

Extraído do livro Sábado, estação de viver
De Juarez Leitão 

domingo, 12 de fevereiro de 2012

A Eclosão de Movimentos Intelectuais e o Sopro do Progresso em Fortaleza


Armazenamento de víveres na Estação central da Estrada de Ferro Baturité, na Rua General Sampaio, final do século XIX (arquivo Nirez)

Foi de grande relevância a segunda metade do século XIX em nossa cidade, frutos das ideias liberais da frustrada Confederação do Equador, em 1824, manifestadas no Diário do Ceará; da fundação, em 1845, do Liceu do Ceará, em cujo corpo docente se agrupavam as figuras mais representativas das atividades culturais da então província, tendo como figura de proa o respeitável Thomaz Pompeu de Sousa Brasil, futuro senador do Império.


Estátua do General Tibúrcio no então Largo do Palácio - foto de 1908 (álbum de vistas do Ceará) 

Da publicação, a partir de 1846, do Jornal Cearense, órgão do Partido Liberal, que abrigava em suas colunas não apenas matéria política, mas literária e científica;  da vinda ao Ceará, em 1860, da expedição científica , integrada por altas figuras da cultura nacional – eclodiram, a partir dessa época, vários movimentos intelectuais, que deixaram marcas na vida da cidade.
Alcançado o sucesso de 25 de março de 1884, quando todo território cearense se livrou do trabalho escravo, a criatividade do nosso povo se manifestou através do Clube Literário e de seu porta-voz  A Quinzena, com Farias Brito, Oliveira Paiva, Juvenal Galeno, dentre outros,  e do mais interessante grupo literário organizado em nossa cidade, a Padaria Espiritual, em 1892. Do desentendimento quanto aos processos da Padaria, surgiu a dissidência  do Centro Literário, com sua revista Iracema, onde escreveram Ulisses Sarmento, R de Carvalho, Álvaro Martins, etc. 


Palacete na Rua Barão do Rio Branco, que abrigou a Secretaria de segurança, a Prefeitura Municipal e o Ginásio Municipal. Hoje é a sede do Instituto do Ceará - foto de 1934 (Ah, Fortaleza!)

Os mais velhos agruparam-se em 1887, em torno da mais antiga instituição cultural do nosso Estado, o Instituto do Ceará (Histórico, Geográfico e Antropológico), de cuja fundação participaram figuras exponenciais como o futuro Barão de Studart, o Des. Paulino Nogueira e outros, assim como, em 1994, em torno da Academia Cearense a mais antiga do Brasil, por cuja fundação muito trabalharam Pompeu (filho) e Studart.


Reunião da Academia Cearense de Letras, no salão principal do Clube Iracema, no Palacete Ceará - foto de 1922 (Ah, Fortaleza!)

Foi em meio a esse ambiente de ebulição intelectual criadora que, em 1882, se deu a inauguração do Cabo Submarino, e no ano, seguinte, o início do funcionamento do Serviço Telefônico, com aparelhos de manivela. Em 1884, instalou-se a Escola Normal, num imóvel especialmente construído para esse fim, na Praça do Patrocínio (atual José de Alencar).   Entre esse prédio, construído com pretensões de integrar uma cidade em crescimento, e o Quartel do Batalhão de Segurança, depois demolido para ser levantado na década de 1930 o Centro de Saúde, também demolido, não havia ainda o teatro José de Alencar, inaugurado no século XX.
Ainda naquela época o Clube Iracema, abriu os seus salões em 1884, passando depois para sua nova sede, prédio que depois abrigou a então Faculdade de Farmácia e Odontologia e mais tarde o Curso de Jornalismo. 
prédio onde funcionou a Faculdade de Farmácia e Odontologia na Rua Formosa.  Antes, abrigou o Reform Club e o Clube Iracema, depois foi sede da Escola de Jornalismo. Ficou um tempo desocupado, depois foi demolido para a construção de outro edifício. (arquivo Nirez) 

Em 1886 foi dado início à construção de outro porto para Fortaleza, de que resultou, na Praia do Peixe, a chamada Ponte Metálica. Em 1888 foi exposta à reverência  do povo a primeira estátua do Ceará, em homenagem ao General Tibúrcio, no Largo do Palácio, hoje rebatizada com o nome do herói da Guerra do Paraguai.
Na década de 1890, Antônio Bezerra descreve a cidade de então, onde registra que Fortaleza dispunha de três boulevards, designação que bem demonstra a então vigente influência francesa, aludindo às atuais Avenidas do Imperador, Duque de Caxias e Dom Manuel.
A capital cearense possuía ainda, 34 ruas de norte a sul, 27 de leste a oeste, 14 praças, 1607 combustores a gás na iluminação pública. Do ponto de vista religioso, Fortaleza contava com duas freguesias:  a da Sé e a do Patrocínio, com a Rua Formosa servindo de limite para as duas paróquias. 


Jardins do palácio da Luz, sede do Governo do Estado em foto da década de 1940 (Ah, Fortaleza!)

Os principais edifícios eram o Palácio do Governo, a Assembleia Legislativa,  a sede do Liceu do Ceará,  a Intendência Municipal, a Estação Central da Estrada de Ferro, a antiga Secretaria da Fazenda, a Santa Casa, a Cadeia, o Palácio do Bispo, o Colégio da Imaculada Conceição, o Seminário, a Tesouraria da Fazenda, o Asilo de Mendicidade, a Sé e as igrejas do Patrocínio, do Coração de jesus, da Conceição da Prainha, do Rosário, de São Benedito, os Correios,  o Reform Club (lindo palacete situado na Rua Formosa, entre os n°s 166 e 187, mandado edificar por doze rapazes empregados no comércio para servir de recreio e lugar de estudo, depois ali se instalou o Clube Iracema), o teatrinho então existente na esquina sudoeste das atuais Ruas João Moreira e Barão do Rio Branco, o Quartel do 11° Batalhão de Engenharia (atual 10ª Região Militar), o Mercado Público, o Cemitério São João Batista, o Posto Policial da esquina sudeste das Ruas Guilherme Rocha e Floriano Peixoto, onde depois se levantou o prédio que atualmente abriga uma agência da Caixa econômica Federal.


Estação Central da Estrada de Ferro Baturité, na Praça Castro Carreira em 1918. (Ah, Fortaleza)

E finalmente registra a existência de 23 médicos, 17 advogados, 9 professores de piano, 6 tipografias, 1 litografia, 2 bancos, 2 hotéis, 3 restaurantes, 8 cafés, 6 hospedarias, 14 quiosques, 2 casas de joias,  3 bilhares, 4 livrarias, 2 casas de pasto, 14 açougues, 14 padarias  e 9 farmácias na cidade.  O autor descrevendo a cidade, ressalta o grande número de prédios de madeira, inclusive quatro cafés que existiam nos cantos da Praça do Ferreira, não nos terrenos arruados, mas no próprio logradouro.

Fontes
História de Fortaleza e Crônicas sobre a cidade amada, de Mozart Soriano Aderaldo
Descrição da Cidade de Fortaleza, de Antônio Bezerra de Menezes – introdução e notas de Raimundo Girão