sábado, 17 de setembro de 2011

A Energia de Paulo Afonso

Até meados da década de 1960, a capital vivia sob uma severa crise energética.  A empresa  concessionária, a Ceará Light praticamente falira depois da 2ª. Guerra e não conseguia arcar com os custos de operação. 

Por descumprir uma determinação judicial relativa ao pagamento de salários dos empregados, a companhia sofreu intervenção  do governo federal.  Em 1948 a Light foi definitivamente encampada pelo governo do prefeito Acrísio Moreira da Rocha (1948-1951).

Gasômetro da Ceará Gaz no início do século

Daí surgem a Conefor, o Serviluz,  usinas térmicas, troca de combustível a lenha por óleo diesel, e remendos sem fim nas velhas caldeiras.  Apesar de tudo, a crise energética perdurava,  Fortaleza continuava sofrendo com a falta de energia, o crescimento industrial paralisado,  a economia estagnada, as residências às escuras.

A situação começou a ser contornada a partir de 1965, com a chegada da energia gerada a partir da cachoeira de Paulo Afonso, distribuída pela CHESF. 
As gestões para trazer para Fortaleza a energia distribuída pela CHESF, teve inicio no governo de Paulo Sarasate (1955-1958) e prosseguiu com Flávio Marcilio (1958-1959). Virgílio Távora, quando Ministro da Aviação do governo João Goulart, disponibilizou os primeiros recursos.

Em pronunciamento público durante a inauguração da energia de Paulo Afonso em Natal, o então Presidente João Goulart (1961-1964), garantia que a festa de inauguração em Fortaleza ocorreria no ano seguinte, em 21 de dezembro de 1964. A deposição do presidente e a instauração da ditadura militar em 1964, não alteraram o cronograma da obra.

No dia 25 de março de 1964, foi erguida em Mondubim, a primeira subestação de energia de Paulo Afonso, cujas obras foram percorridas em junho, em visita oficial ao Estado, pelo já então presidente Castelo Branco.

Em setembro ficou constatada a impossibilidade de conclusão da obra no prazo previsto.  No dia 21 de dezembro de 1964, data prevista para a inauguração, o governador Virgílio Távora e o engenheiro Amaury Menezes, diretor-técnico da Chesf, através de pronunciamento na TV Ceará, explicam à população, as razões do atraso no prazo de entrega das obras.


Por fim a festa inaugural foi marcada para o dia 1° de fevereiro de 1965. Dois dias antes da inauguração oficial, o governador e a primeira dama Luiza Távora acionam os disjuntores que liberavam a energia gerada em Paulo Afonso, e a transmitiam para a Usina do Passeio Público.






As comemorações oficiais, no dia 01 de fevereiro de 1965, tiveram lugar na Praça de Otávio Bonfim, com público estimado de 50.000 pessoas. Enquanto aguardava a chegada das autoridades, o público assistiu a shows de artistas como o do rei do baião, Luís Gonzaga e de Paulo Cirilo e suas pastoras, dentre outros.


O presidente e demais autoridades chegaram por volta das 19h30m. Ali falaram o governador do Ceará, o ministro das Minas e Energia e o Presidente.  A solenidade foi transmitida pela TV Ceará e pela Rádio Nacional em cadeia com todas as emissoras do Ceará e do País.




Às 20 horas o governador convidou o Presidente da República para acionar a chave que iluminou a Praça de Otávio Bonfim, dando-se por inaugurada a energia de Paulo Afonso em Fortaleza.



Logo em seguida, o Hino Nacional foi executado por diversas bandas militares; todas as igrejas fizeram repicar os sinos; fogos de artifícios enfeitaram o céu; carros buzinaram, navios e trens apitaram e girândolas foram queimadas, descobrindo os retratos do presidente Castelo Branco, do governador Virgílio Távora, do ministro Mário Thibau, do Sr. Apolônio Sales e  do engenheiro Amaury Menezes.





Dois poderosos holofotes do Exército iluminavam o céu de Fortaleza, naquela que foi denominada  A Festa do Século. A energia vinda de Paulo Afonso chegava à Fortaleza depois de viajar 653 quilômetros.


Pesquisa:
História da Energia no Ceará, de Ary Bezerra Leite.
Jornal Correio do Ceará, edições de 1, 2 e 3 de fevereiro de 1965
Jornal Unitário, edição de 2 de fevereiro de 1965 
fotos do 
lampião de gás, gasômetro e autoridades, retiradas do livro História da Energia no Ceará

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Os Antigos Carnavais de Fortaleza

Nos distantes anos 1950, Fortaleza tinha Carnaval, que acontecia nas ruas, nos clubes e até em residências.  O período momino era respeitado e a folia tinha prazo definido: do domingo à terça-feira. O Sábado gordo era a grande véspera, quando todos ultimavam as fantasias, conferiam o estoque de lança-perfumes, de serpentinas e confetes e se concentravam para a grande festa.

Clube Náutico em foto de 1952 (arquivo Nirez)

No domingo havia baile em todos os clubes, exceto o Country que promovia o baile da 2ª. Feira. Apesar do grande número de festas naquele primeiro dia, a animação era absoluta.  Aconteciam bailes no Náutico, Diários, Iracema, Maguary, Líbano, Comercial, Circulo Militar, e Centro Massapeense. A 2ª Feira era exclusiva do Country Clube, sendo aquele o único baile da noite. 

Clube Líbano, palco de grandes bailes carnavalescos (arquivo Nirez)

Na 3ª feira, despedida do carnaval, todos os clubes voltavam a receber os foliões, em bailes que se prolongavam até o amanhecer.

Mas para a maioria das pessoas, o melhor do carnaval acontecia nas ruas do centro de Fortaleza. A Rua Senador Pompeu era a passarela por onde passavam blocos, cordões e maracatus. As fantasias usadas pelos populares eram improvisadas e bastante criativas. É que naquela época a concepção de carnaval era diferente do hoje, e para os foliões, o importante era fazer a caricatura, fazer deboche de pessoas e fatos, especialmente de figuras da política e da administração pública.

O Bloco Prova de Fogo foi fundado em 1936 (arquivo Nirez)

Tudo começava cedo, a partir das duas da tarde, quando o público começava a encher as calçadas da Rua Senador Pompeu. Como não havia um planejamento, nenhum regulamento a ser cumprido, maracatus, blocos, cordões e blocos de sujos, se misturavam, quem chegava ia entrando e fazendo sua apresentação.

Por outro lado os grupos desfilavam à vontade, passavam duas, até três vezes, o importante era satisfazer o público e receber os aplausos.  A Rua Senador Pompeu, quase totalmente residencial, permitia que seus moradores abrissem suas janelas e sacadas que funcionavam como camarotes.

Blocos Turma Bamba e Cordão das Coca-Colas, desfile de 1950 (arquivo Nirez)

Os sargentos da Base Aérea inventaram o Cordão das Coca-Colas, parodiando as moças que namoravam os americanos no tempo da 2ª. Guerra. Outras turmas de marmanjos fundaram o Bloco das Baianas, as Garotas do Sputinik, as Garotas da Pepsi, Turma do Camarão, Turma Bamba, Prova de Fogo, Escola de Samba Luiz Assunção e os Maracatus Leão Coroado, Estrela Brilhante, Az de Ouro, Reis de Paus, Rancho de Iracema e o maior e mais rico de todos, o Maracatu Az de Espadas.

Bloco "Enverga mas não quebra" e o maracatu, desfile de 1950 (arquivo Nirez)

Na Avenida Duque de Caxias passava o corso de automóveis, que ficava reduzido às famílias mais abastadas, porque naquele tempo, possuir automóvel era privilégio de poucos. O casal e as crianças ocupavam o interior do veículo, enquanto rapazes e moças, com suas fantasias, ocupavam a capota e os paralamas dos veículos, todos ostentando suas Rodouro, às vezes um em cada mão enluvada.

Outra particularidade dos velhos carnavais eram os assaltos às residências. Um grupo de mascarados, disfarçando a voz para não serem reconhecidos, invadia a residência de pessoas conhecidas e forçavam a todos a entrar na folia. Os anfitriões, pegos de surpresa, serviam comidas e bebidas e também brincavam. Só vinham  saber quem eram os visitantes depois do Carnaval. Em alguns casos, nunca viriam a saber.

E assim era o Carnaval daqueles tempos. Três dias que eram suficientes para que todos se divertissem numa perfeita ordem e genuína democracia.


anúncio de Lança-Perfume - imagem http://www.seculovinte.com.br
  
O lança-perfume foi a grande invenção do Carnaval Brasileiro. Surgido em 1906 no Rio de Janeiro, logo veio dar uma aura toda especial às festas de momo de norte e sul do Brasil.  Apareceu com grande publicidade, sendo distribuído em três apresentações — dez, trinta e sessenta gramas. 

Fabricadas pela Rodo Suíça, aquelas ampolas de cloreto de etila, éter, clorofórmio e essência especialmente perfumada,  animaram os nossos carnavais até 1961, quando tiveram a sua produção proibida por decreto do presidente Jânio Quadros.

extraído do livro de Marciano Lopes

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Parque Rachel de Queiroz



O Parque Rachel de Queiroz é uma antiga aspiração dos moradores da região dos bairros da zona Oeste de Fortaleza, que há anos lutam pela sua criação. Contempla uma grande área verde, com cerca de 254 hectares.  


O projeto de implantação prevê a construção de equipamentos esportivos e culturais além da recuperação ambiental em todo o percurso do riacho Alagadiço, desde o açude João Lopes, no Monte Castelo, até atingir o Rio Maranguapinho, onde o riacho deságua, em uma extensão aproximada de 12,5 quilômetros.

Além da área de lazer, a criação do parque garantiria a preservação da reserva natural remanescente, com características ambientais relevantes, como cursos d’água fluentes, vegetação de porte, lagoas e açudes, pássaros de várias plumagens, berçário de aves e pequenos animais silvestres. 

O projeto já existe há cerca de 10 anos,  e é  uma das obras em Fortaleza, incluídas no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), mas como não sai do papel, ao invés de propiciar lazer, o local sofre com o abandono,  constantes agressões do homem além de servir de esconderijo para ladrões e marginais que atuam na área. 







O trajeto do Riacho Alagadiço, que nasce nas imediações do Açude João Lopes e dá origem a este, é a espinha dorsal do Parque Rachel de Queiroz, juntamente com o Riacho Cachoeirinha, formado a partir da vazão do Açude Santo Anastácio, no Campus do Pici. O conjunto de áreas que pode ser recuperado, ambientalmente e, receber adequado tratamento paisagístico e urbanístico, é da ordem de 2.540.000 m² ou 254 hectares.




 
Grande parte destas áreas estão abandonadas ou inadequadamente ocupadas, por atividades predatórias ao meio ambiente natural urbano.  Vinte bairros de Fortaleza, e quase meio milhão de pessoas, estão no entorno destas áreas, que poderiam se transformar em espaços públicos de lazer, fruição da natureza, pratica de esportes público e ócio. 

A luta pelo PARQUE RACHEL DE QUEIROZ é de toda esta população da Zona Oeste de Fortaleza, para consolidação deste conjunto de 15 parques urbanos que compõem a proposta.



imagem: http://www.riachoalagadico.blogger.com.br/2007_10_01_archive.html

A ausência de sensibilidade política da Administração Municipal é gritante. Nada se vê, nada se escuta, nada se fala. Os titulares da Secretarias Executivas Regionais I e III, territórios onde este conjunto de áreas está incluso se recusam a comentar o assunto, assim como a SEMAM e a SEINF, desde o início da atual administração, embora a proposta seja do pleno conhecimento da própria Prefeita Municipal e esteja exposto em destaque, na ante sala do Gabinete, no Paço Municipal. 



fontes:

Disponível em http://www.parqueracheldequeiroz.org/

domingo, 11 de setembro de 2011

Praça Manuel Dias Branco




A Praça Manuel Dias Branco  fica na rotatória da Avenida  Aguanambi, que dá cesso a algumas vias e marca o início da BR-116. Foi inaugurada no final de 2005, com base na lei 8.842, de 20 de maio de 2004, que autoriza a permissão de uso do bem público da cidade para fins de manutenção. 
A praça foi adotada pelo Grupo M. Dias Branco, grupo empresarial que ajudou a prefeitura a construir o logradouro, por meio de uma parceria.


A nomeação da praça havia sido feita ainda na gestão do ex-prefeito Juraci Magalhães, mas teve sua construção aprovada pela atual gestão. Elaborado pelo arquiteto Sérgio Rodrigues, o projeto da praça atende aos objetivos de urbanização da região, onde ocorre a confluência de muitas avenidas. 

O logradouro conta também com uma estátua em homenagem a Manuel Dias Branco sobre um pedestal. "A praça por enquanto é contemplativa", disse Ivens Dias Branco por ocasião da inauguração.


Seis anos após a inauguração, a praça continua sendo contemplativa. Chegar à rotatória  já difícil, não dá para chegar de carro porque não existe lugar para estacionar veículos nas imediações, e chegar à pé, é  praticamente inviável, já que o tráfego na área é intenso, contínuo e agressivo.


O pedestre precisaria  atravessar as  diversas faixas de trânsito para ter acesso a uma passarela, na beira do canal da Avenida Eduardo Girão,  e atravessar a passarela que passa por cima da Avenida Aguanhambi. 


Às vezes passo pelo local (de carro e rapidamente porque o trânsito na rotatória é rápido) e vejo um solitário jardineiro cuidando de plantas e flores. É o único humano que já vi por lá. Nem bêbados, nem desocupados dormindo nos bancos, nem meninos fardados matando aulas, ninguém. Só o jardineiro.  Às vezes.


Mas uma praça assim tem lá suas vantagens.  Não tem pichações, nem bancos quebrados, nem crianças correndo, endiabradas estragando os equipamentos, nem copistas estragando o piso, não precisam recolher lixo, nem contratar seguranças.

Mas afinal, para que gastar tantos recursos com uma praça contemplativa?  Para quê? Para quem? 

fotos Fortaleza em Fotos-2011

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Descartes Gadelha

Foto: http://maisjaba.wordpress.com/tag/jornalismo/

Descartes Marques Gadelha nasceu em Fortaleza,  a 18 de junho de 1943. Desenha desde criança. Os motivos constantes de suas brigas de infância eram as caricaturas que fazia de seus companheiros nas calçadas e paredes de toda a vizinhança.

Foram aqueles os seus primeiros estudos de desenho. Em 1962 iniciou-se na pintura, recebendo então aulas de desenho livre sob a orientação do pintor Zenon Barreto. A primeira exposição em que tomou parte foi  A Paisagem Cearense, no MAUC, ano de 1963.

Participou das mais importantes mostras coletivas,  no Brasil e No exterior. Obteve prêmio no XIV Salão Municipal de Abril de Fortaleza, em 1964, no I e II Salões Nacionais de Artes Plásticas do Ceará e no 1º Salão de Artes Plásticas do BNB-Clube, em Fortaleza, nas décadas de 1970 e 1980.

Sala Descartes Gadelha no Museu de Arte da UFC

Individualmente, realizou diversas exposições, destacando-se  Catadores do Jangurussu, em  1986, De um Alguém para Outro Alguém, em 1990 e a megaexposição Cicatrizes Submersas,  com mais de 100 pinturas a óleo de média e grande dimensões, além de esculturas, cerâmicas, gravuras e desenhos, retratando a saga do beato Antônio Conselheiro nos sertões do Nordeste  e seu epílogo em Canudos.

A amostra  foi realizada no Palácio da Abolição, em 1997, e posteriormente, em 1999, na reinauguração do Museu de Arte da UFC, local onde as obras se encontram, incorporadas ao acervo do museu por doação do próprio artista.

Numa linguagem expressionista, Descartes Gadelha retrata em sua obra a cultura, a religiosidade e os problemas sociais comuns ao Ceará, e ao Nordeste do Brasil.

Catadores do Jangurussu

Mudança (1994) 

As últimas flores para o Santo Conselheiro

Deus não vende a terra que ele criou

O Reformista

Os Sobreviventes

Procissão da Meia Noite 

Cavalos - escultura em bronze, madeira e gesso

Procissão - escultura em bronze

Na Casa de José de Alencar, A índia Iracema foi retratada pelos traços firmes e criativos de Descartes Gadelha. Utilizando a linguagem pictórica e imaginação, o artista conta a história de Iracema através de 32 gravuras. 

Na Avenida Leste-Oeste, acima do globo do mundo, a estátua de Iracema, esculpida em 2002, pelo artista Descartes Gadelha, não possui nenhuma informação sobre o escultor, a obra ou a sua importância histórica e cultural. 

pesquisa:

jornal Diário do Nordeste
Museu de Arte da UFC - MAUC