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sábado, 5 de novembro de 2016

José Gentil, Banqueiro e Coronel

Nascido em Sobral em 11 de setembro de 1866, José Gentil Alves de Carvalho era filho de Antônio Alves de Carvalho e Francisca Cândida Vitorino de Menezes. Aos 17 anos, tendo perdido os pais, viu-se responsável pela família que eles deixaram e à frente de uma modesta organização comercial.  Para melhor gerenciar o negócio, transferiu-se para Fortaleza em 1893, onde junto com outros parentes, fundou a firma Frota e Gentil.  Dedicando-se principalmente ao ramo de tecidos, a firma foi aos poucos se ampliando com muitas representações.

Casal José Gentil - D. Melinha com seus 15 filhos em frente a casa antiga da chácara, que foi demolida e substituída pelo palacete que atualmente abriga a Reitoria da UFC. 1909.

Inaugurou em 1917 uma seção bancária, cuja expansão conduziu ao conceituado estabelecimento de crédito, Banco Frota e Gentil.  Casou-se no dia 19 de setembro de 1886, com Maria Amélia Tomé da Silva Frota – D. Melinha, também de Sobral, com quem teve 15 filhos, dos quais um ordenou-se padre, seis moças foram ser freiras, uma permaneceu solteira e sete casaram e lhe deram 69 netos. 


A história de José Gentil se confunde com a do bairro do Benfica. O coronel José Gentil adquiriu em 1909, um grande terreno de uma chácara no Benfica, em que havia uma casa modesta, antiga, que já fora propriedade de dois estrangeiros. Contratou junto a um arquiteto cearense, o projeto de uma nova residência, mais ampla, mais moderna. O imóvel foi concluído em 1918. 

O rico morador construiu uma pequena cidade dentro do bairro em formação. A maior parte da chácara de José Gentil foi desmembrada durante a vida do proprietário, para compor os quarteirões, as ruas e praças do bairro Gentilândia, implantado na década de 1930.

Bodas de ouro do casal José gentil/D. Melinha - com os filhos em 1936
Edificando numerosos prédios e reformando outros, tornou-se o grande urbanista de Fortaleza, principalmente após a criação do bairro da Gentilândia. Com esse vultoso patrimônio fundou em 1934, a Imobiliária José Gentil S/A, organização pioneira que se tornou a maior proprietária de prédios da capital cearense. Exerceu a presidência da Associação Comercial do Ceará durante 30 anos, e quando se afastou do cargo, tornou-se seu presidente de honra.  Embora alheio a cargos políticos, cedeu às circunstâncias e elegeu-se vice-presidente do Estado nas eleições de 1919.

Filhos, netos e bisnetos de José Gentil em frente à residência da família em 1953

José Gentil faleceu em 11 de março de 1941, na cidade de Poços de Caldas, onde se encontrava em temporada de estação de águas. Seu corpo foi trasladado para Fortaleza acompanhado pelo padre José da Frota Gentil, em avião Loocked tendo chegado no dia 13 de março.

O palacete no Benfica foi vendido pelos herdeiros e adquirido pela UFC na metade dos anos 50, quando a Universidade se encontrava em fase de instalação. Hoje abriga a Reitoria.
O enterro foi ocasião de grande consagração popular, com o caixão sendo transportado praticamente nos braços de seus admiradores e acompanhado por tão grande número de automóveis, que o cortejo já chegara ao São João Batista antes do último carro sair do Benfica. O Jornal Correio do Ceará do dia seguinte informou que foram 213 automóveis e mais 4 ônibus que constituíram o cortejo fúnebre. 

pesquisa: 
O Benfica de ontem e de hoje, de Francisco de Andrade Barroso
Ideal Clube - história de uma sociedade, de Vanius Meton Gadelha Vieira
Revista do Instituto do Ceará
fotos do livro Ideal Clube e Arquivo Nirez  

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Origem e Urbanização do Benfica

Ao longo da segunda metade do século XIX, a província de Fortaleza foi assolada por sucessivas epidemias de cólera e febre amarela. Em 1862 foi constatada a presença de um surto de cólera-morbus que se propagou para Maranguape e Pacatuba. A falta de controle sobre os doentes gerou o temor que a água consumida pela população estivesse contaminada.

Estrada do Arronches (atual Parangaba) em 1919 - foto Brasiliana Fotográfica 

O sitio Benfica estava localizado na Estrada de Arronches, fora dos limites urbanos de Fortaleza. Começou a ser valorizado quando a epidemia de cólera-morbus assolou a cidade. Devido a distância do núcleo urbano, as terras do sítio foram consideradas aptas para resolver o problema de abastecimento de água, por estarem distantes de qualquer foco de contaminação dos cemitérios e por contar com inúmeras fontes de águas limpas.

Pela resolução n° 1023, de 27 de novembro de 1862, foi concedido ao proprietário do Sítio Benfica, José Paulino Hoonholtz, o privilégio de explorar  por 50 anos o fornecimento de água. O documento obrigava a instalação de no mínimo quatro chafarizes em diferentes pontos da cidade, e ordenava o fechamento de todas as cacimbas residenciais. No ano seguinte Hoonholtz transferiu a concessão do abastecimento para a empresa Ceará Water Company Ltd., que explorou o serviço até 1877, quando foi paralisado por falta de água e a companhia foi à falência. A seca de 1877 perdurou até 1879.

Igreja de N. S. dos Remédios 

Em 1878 foi iniciada a construção da primeira igreja do bairro, a Igreja de Nossa Senhora dos Remédios. Era desejo de um certo Antônio do Amaral  construir uma capela em terreno de sua propriedade no Benfica, com a denominação de Igreja de Nossa Senhora dos Remédios, por ser esta a padroeira de freguesia onde nascera, numa das ilhas Açores. Vindo, porém, a falecer sem realizar seu intento, coube à sua mulher dar execução ao desejo do marido. Obtida a competente autorização, começaram os trabalhos, levantando-se as paredes do edifício, mas faltaram recursos e as obras ficaram paralisadas por cerca de 15 anos.

Então, alguns moradores mais abastados do Benfica, tendo a frente o Coronel João Gentil de Carvalho e sua família, fizeram vultosos donativos, que somados a outros recursos de fontes diversas, permitiram a conclusão e inauguração do templo, em agosto de 1910. Após a inauguração, a igreja passou a ocupar lugar de destaque na vida do bairro: tudo que se concretizasse no campo cultural, social ou religioso, tinha origem na igreja. Segundo historiadores, a Igreja dos Remédios é um legado da família Gentil aos moradores do Benfica: durante muitos anos eles foram responsáveis pelas despesas de manutenção e conservação do templo.

Anexa a Igreja dos Remédios foi erguida a Casa das Missões, inaugurada em 1927, também com recursos provenientes de doações, que passou a abrigar os padres lazaristas.  Mais tarde esse prédio abrigou o Hospital Mira Y Lopez, e foi demolido em março de 2013.

residência do empresário José Gentil, hoje Reitoria da UFC 

Em 1909, a chácara localizada na Avenida Visconde de Cauípe (atual Avenida da Universidade) foi adquirida pelo empresário José Gentil, que ergueu no local, em 1918, um palacete para sua moradia. Em torno da casa construiu vilas e ruas com residências de vários tamanhos e estilos, praças e áreas verdes, lugar que ficou conhecido como Gentilândia.

A Gentilândia tornou-se uma verdadeira cidade modelo que serviu de padrão às novas construções e vilas da cidade. Até meados da década de 1940, o bairro esteve em evidência com a execução das obras da Gentilândia, até que o plano de edificação da Imobiliária José Gentil começou a ser gradativamente desativado.

ônibus que fazia a linha do Prado 

No início da década de 1950, o lugar começou a entrar em decadência; antigos moradores começaram a deixar o bairro em busca de novos espaços, esvaziamento acentuado em razão da tendência de crescimento  da cidade para a Aldeota e para o litoral. Com a debandada dos ricos, o palacete de José Gentil foi posto à venda e adquirido pelo reitor da Universidade Federal do Ceará, em 1956. Posteriormente em 1959, foi construída a Concha Acústica, o maior auditório ao ar livre do Ceará, com capacidade para 3.000 pessoas. 

Avenida Visconde de Cauípe

Ao longo dos anos a vila de casas construída em 1931, sempre foi enquadrada pelos mapas da cidade como parte do Benfica. No entanto, em julho de 2000 foi aprovada a Lei Municipal n° 8480, criando o bairro da Gentilândia, englobando o quadrilátero urbano compreendido entre as Avenidas da Universidade, Treze de Maio, Expedicionários e Eduardo Girão, se constituindo no menor bairro de Fortaleza. Mas o nome Gentilândia não foi reconhecido pela população, e as ruas que estariam dentro da área do bairro, são consideradas como pertencentes ao Benfica. O CEP (código de endereçamento postal) assinala o bairro como sendo o Benfica.
  
Estádio Presidente Vargas na década de 1940 

O Benfica acolheu a primeira universidade e os primeiros estádios de futebol da cidade, o Campo do Prado e mais tarde o Presidente Vargas, inaugurado em 21 de setembro de 1941. O Presidente Vargas é o único estádio da capital para jogos de médio porte (capacidade para pouco mais de 20 mil pessoas). Conforme depoimento de moradores, em dias de jogos a maior parte do bairro se transforma em campo de batalha: gangues, bêbados,  agressões a transeuntes e moradores, poluição sonora, acúmulo de lixo, vandalismo, roubos e assaltos, patrocinados por parte do público que frequenta o estádio, são comuns nessas ocasiões.

 
Foto atual do Benfica, com o Shopping Benfica e a Estação do Metrofor 

O Benfica (incluindo a Gentilândia) está localizado na porção centro-oeste de Fortaleza, ocupando uma área de 143,1 hectares. Limita-se ao Norte pela Rua Antônio Pompeu; a Leste pela Rua Senador Pompeu e Avenida dos Expedicionários; ao sul, pela Avenida Eduardo Girão e a Oeste, pela Avenida do Imperador, Rua Carapinima e Avenida José Bastos

fotos do arquivo Nirez

domingo, 27 de outubro de 2013

Um Jeito de Morar

As primeiras moradias de Fortaleza foram sendo erguidas por ali, nas cercanias da fortaleza, da matriz e do Riacho Pajeú: a segurança, a religiosidade, a água. Assim, a Vila foi se consolidando até atingir foros de cidade. As casas sempre naquelas paragens, que ninguém se atrevia a avançar mata adentro, havia o perigo de cobras, onças, raposas e índios belicosos em incursões ao território dos brancos.


O desenvolvimento da cidade e o surgimento de famílias mais abastadas, de castas mais altas permitiram um novo padrão de moradia. E entre as simplórias casas de palha e taipa, foram sendo edificadas residências de maior porte, de alvenaria. Tudo sem requintes, sem ornamentos nas fachadas, sem platibandas, todas com beira-e-bica.

Casa do Governador das Armas do Ceará, na Rua Sobral, em frente a atual Praça da Sé

A evolução lenta da província, aqui e ali ia permitindo alguma construção de maior vulto, até atingir o período em que senhores de vastas posses, às vezes detentores até de títulos e brasões, se davam ao luxo de trazerem da Europa os projetos para suas moradias.
Com o gradativo crescimento, a cidade começou a ser dividida em bairros onde pontificavam casas de grande porte, verdadeiros palacetes, belas mansões.

Casa da família Gentil, no Benfica, construída em 1918 e atual sede da Reitoria da UFC

Alguns desses proprietários até se permitiam o luxo de trazer do Velho Mundo, os materiais necessários às suas construções, sem falar nos acabamentos. Foi quando as rústicas telhas de barro produzidas nos arredores da cidade passaram a ser substituídas pelas delicadas telhas de Marselha e até por ardósia importada da Franca, para as construções mais suntuosas. E os telhados ganharam status de obras de arte, motivo de admiração de uma população desacostumada a essas regalias. 

Casa do Intendente Municipal Guilherme Rocha, incendiada na revolta popular de 1912, que depôs a oligarquia Nogueira Accioly

Da Inglaterra vinham as louças sanitárias (os vasos, as banheiras, os lavatórios);  Portugal mandava entre outras peças, as pinhas, os jarrões, as estátuas e os ladrilhos de faiança. Algumas casas utilizavam até madeiras europeias e o precioso e agora raro pinho de Riga, servia para assoalhos, portas, janelas e bandeirolas. Em muitos casos, importavam até o cimento. 

fonte:
Marciano Lopes  
Fotos do Arquivo Nirez

domingo, 6 de dezembro de 2009

Bairros de Fortaleza: Benfica

O Benfica está localizado na porção centro-oeste de Fortaleza, ocupando uma área de 143,1 hectares. A história do bairro está ligada a familia Gentil especialmente ao banqueiro José Gentil, que em 1909 adquiriu a chácara localizada na Avenida Visconde de Cauípe (atual Avenida da Universidade). Em 1918 o banqueiro ergueu no local um palacete para sua moradia. Em torno da sua casa construiu vilas e ruas com residências de vários tamanhos e estilos, com praças e áreas verdes, lugar que ficou conhecido como Gentilândia.


Casa do banqueiro José Gentil, construída em 1918
Casa defronte a Praça da Gentilândia

casa na Rua João Gentil

A Gentilândia tornou-se uma verdadeira cidade modelo que serviu de padrão às novas construções e vilas da cidade. O Benfica ainda conta com grande número de imóveis antigos, que remontam à criação do bairro.


Antigo palacete dos Nepomuceno atual Instituto das filhas de São José na Av. João Pessoa
O Estádio Presidente Vargas é um dos equipamentos mais marcantes do Benfica. Foi inaugurado em 21 de setembro de 1941. Praça da gentilândia
Praça João Gentil
Avenida João Pessoa onde se localizam parte dos terrenos da UFC

Igreja Nossa Senhora dos Remédios

A Igreja foi inaugurada em 13 de agosto de 1910. Foi elevada à paróquia em junho de 1934 quando já era administrada pela Casa das Missões dos Padres Lazaristas holandeses.

Rua Nossa Senhora dos Remédios
Rua Redenção, antiga Travessa Sobral

O shopping Benfica é um dos novos equipamentos do bairro. Foi Inaugurado em outubro de 1999, localizado na Avenida Carapinima.


Casa onde funcionou o Ginásio Americano, que anteriormente pertenceu a João Gentil localizado na Avenida da Universidade. Em 1958 o imóvel foi adquirido pela Universidade Federal do Ceará, sendo demolido para a construção do prédio onde até hoje funciona o Curso de Sociologia.

Imóvel onde funciona a casa de cultura Alemã em foto de 1966
Casa de Cultura Alemã em foto atual


imagens: Fortaleza em Fotos - 2009

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Imóveis antigos e suas histórias III

Na Fortaleza do inicio do Século XX, boa parte dos palacetes e mansões existentes na cidade eram réplicas de imóveis europeus. Os ricos proprietários viam as fachadas por lá e reproduziam aqui. O material da construção também era importado: telhas de Marselha; ardósia importada da França; da Inglaterra vinham as louças sanitárias; Portugal mandava as pinhas, os jarrões, as estátuas e os ladrilhos de fainça. Algumas casas utilizavam até madeiras europeias e o precioso e agora raro pinho de Riga servia para assoalhos, portas, janelas e bandeirolas.

casa do banqueiro José Gentil - foto reprodução

A chácara foi vendida em 1909 pelo proprietário Henrique Alfredo Garcia ao Dr. José Gentil Alves de Carvalho. A casa que existia no local foi demolida em 1918. O projeto da nova casa construída no local foi do Dr. João Sabóia Barbosa. Em 1956, a propriedade foi comprada pelo primeiro reitor da UFC, Prof. Antônio Martins Filho, à Imobiliária José Gentil S/A pertencente aos herdeiros de José Gentil.


Um ano após a compra, o Reitor Martins Filho resolveu demolir o casarão, construído em 1918, mandando projetar, a atual sede da Reitoria. O projeto elaborado pelo departamento de obras mantinha as mesmas linhas arquitetônicas da casa construída pelo Dr. João Sabóia Barbosa. O imóvel está localizado na Avenida da Universidade, no Benfica.


casa da familia Thomaz Pompeu na av. do Imperador - foto reprodução

Casa da família Thomaz Pompeu na avenida do Imperador em frente a praça da Lagoinha. Típica mansão francesa, com uma fachada de tijolinhos vermelhos, enegrecida pelo tempo, platibanda com muitos detalhes, e uma imponente varanda no andar superior.


Palácio Plácido - foto reprodução

Palácio Plácido, cópia de um castelo renascentista de Florença. Localizado na Av. Santos Dumont, 1545, no Antigo bairro do Outeiro, atual Aldeota, ocupava um quarteirão inteiro entre as atuais ruas Carlos Vasconcelos, Monsenhor Bruno, Costa Barros e Avenida Santos Dumont. Foi construído em 1920 pelo comerciante Plácido de Carvalho e mais tarde foi adquirido pelo grupo Romcy, que em fevereiro de 1974, mandou demolir para construir um supermercado.


Itapuca Villa - foto reprodução

Itapuca Villa na Rua Guilherme Rocha. Todos os materiais para sua construção vieram do exterior inclusive as madeiras. Seu proprietário era Alfredo Salgado que viajava para a Europa com frequência para contratar novos jardineiros. Foi abandonada em 1946 quando seu proprietário faleceu.


casa de Oscar Pedreira - foto reprodução


O bairro da Jacarecanga concentrava o maior número de palacetes e mansões de Fortaleza. Com 3 pisos, o casarão do empresário Oscar Pedreira era uma das mais bonitas residências da área. O bairro Jacarecanga, na zona oeste de Fortaleza, formou-se antes da Aldeota.



Fonte:
LOPES, Marciano. Royal Briar: a Fortaleza dos anos 40. Fortaleza: ABC, Coleção Nostalgia, 1996. 311p. AZEVEDO, Miguel Ângelo (NIREZ). Indice Analitico e Iconografia da Cronologia Ilustrada de Fortaleza: roteiro para um turismo histórico e cultural. Fortaleza: Banco do Nordeste, 2001. Diário do Nordeste 09.08.2009 - coluna tirada do baú.