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domingo, 15 de março de 2015

Tipos Populares: O Pilombeta


José Sales, vulgo Pilombeta foi dentro do panorama incolor da Fortaleza de outros tempos, um dos tipos popularmente conhecidos e apreciados pelos habitantes desta capital, de cujas rodas boêmias era assíduo frequentador.

Praça José de Alencar, 1910 

Natural de Minas Gerais, muito cedo se transplantou para esta cidade, se tornando notável desde logo, em razão de sua altura descomunal, especialmente quando desfilava seus dois metros de altura em meio a multidão da Praça do Ferreira.

Magricela, comprido, bizarro, de braços e mãos tão longos que dançavam ao vento, quando andava o Pilombeta se distinguia pela sua feiura que chegava a assustar as crianças. O rosto grotesco, um nariz enorme, sobre o qual se equilibrava um pince-nez, a boca sensual e mole, sempre com carregando um resto de cigarro. A barba e o bigode sempre por fazer, os cabelos ralos a escorrer pelo rosto pálido. Mal ajambrado um fraque e umas calças surradas cobriam-lhe os ossos pontudos, parecia em seu todo, a sua figura melancólica, com a de D. Quixote de La Mancha

Praça do Ferreira, por volta dos anos 20 

Diziam que, além de jogador emérito de xadrez, possuía verdadeira ojeriza a trabalho. Conseguira, em sua terra o titulo de agrimensor, e os fortalezenses seus conhecidos, alarmados com os constantes pedidos de empréstimos, resolveram, numa conspiração, arranjar-lhe um emprego na Estrada de Ferro Baturité, então sob direção de uma companhia inglesa.

Encaminharam-no com uma carta de apresentação ao superintendente, e este logo lhe arranjou uma colocação. Mas Pilombeta, mal acabara de obter o emprego, solicitou uma licença de seis meses. Ali mesmo, foi demitido.

Pianista de méritos discutíveis sabia de cor algumas canções que eram desafinadamente mal tocadas.  Anda assim conseguiu um emprego como pianista do cinema Júlio Pinto, onde podia ser visto todas as noites, durante as exibições das fitas, a dedilhar as músicas da moda que conseguira aprender de ouvido. E os sons fanhosos gemiam dentro da sala calorenta, atordoando os incautos espectadores, que se emocionavam com as românticas fitas europeias.


Depois daquele extravasar de sua arte esquisita, saía para os cafés noturnos, em cujas mesas permanecia horas perdidas, a sorver o álcool que lhe envenenava pouco a pouco o organismo débil.Dali saía cambaleante, rua afora, ziguezagueando pelas calçadas, varando a noite em serenatas românticas.

João Brígido, um dos maiores jornalistas da época, míope ao extremo  ao cruzar, certa tarde na rua, com a figura fina e sutil do Pilombeta que o cumprimentara, apenas levantando o chapéu,  emitiu o seguinte comentário: – O Ceará é uma terra extraordinária! Imaginem que até os combustores da iluminação cumprimentam, tirando o chapéu quando a gente passa!

 Rua Major Facundo por volta de 1900

Café do Comércio, 1908 

Por volta do ano de 1916, os pulmões do Pilombeta ante a vida desorganizada e boêmia que levava não puderam resistir. Seus amigos o levaram para o Asilo de Mendicidade, onde pouco tempo depois, terminaram seus dias acidentados de farra, de noites mal dormidas, como esbanjador incorrigível da sua própria existência.
Ao dar entrada naquele estabelecimento de caridade, carregado pelos amigos que se haviam cotizado, Pilombeta teve a seguinte frase de profunda melancolia: eis a casa dos desvalidos da sorte como eu, e feliz daquele que nela encontrar abrigo.

Extraído do livro: Coisas que o Tempo Levou: crônicas históricas da Fortaleza antiga. De Raimundo de Menezes
fotos do arquivo Nirez 

quinta-feira, 12 de março de 2015

Os Riscos de Incêndio nos Antigos Cinemas

A maior preocupação dos pioneiros exibidores de filmes era com o risco de incêndio nos equipamentos. Razões de sobra existiam para isso, porque nos primeiros tempos, utilizando películas altamente inflamáveis, improvisando seus salões em locais sem infraestrutura adequada, a qualquer descuido poderia haver um acidente e destruir o empreendimento, causando prejuízos materiais e, pior podendo chegar a uma catástrofe, com a perda de vida de seus frequentadores e funcionários.

O primeiro incêndio registrado em cinema de Fortaleza ocorreu no dia 29 de setembro de 1902, com prejuízos para o empresário exibidor Arlindo Affonso da Costa, ex-sócio da Casa Bordallo em Fortaleza, que retornara do Rio de janeiro com um Cinematógrafo em julho daquele ano.


Arlindo Costa instalara inicialmente seu aparelho à Rua Major Facundo, 83, com estreia no dia 9 de junho e exibições contínuas até o mês de agosto. Verificando que a cidade comportava um espaço de lazer mais diversificado, nesse mesmo local inaugura o Recreio Cearense, no dia 9 de setembro, com a festa animada pela banda de música do Batalhão de Segurança, sorteio de flores entre as senhoras presentes e apresentação do seu “belo cynematographo”.

O empreendimento de Arlindo Costa foi interrompido com o incêndio da noite de 29 de setembro de 1902, quando realizava testes com o aparelho, resultando em prejuízos materiais avaliados em 2 contos de reis. A imprensa noticiou o sinistro. 

A ameaça de incêndio perseguia os primitivos cinematógrafos, e o fogo apareceu na origem dos espetáculos de Cinema, em Paris, onde se registrou a ocorrência mais devastadora, um episódio que quase comprometeu irremediavelmente a nova descoberta tecnológica.

Em 1897, ano em que o cinema chegou a Fortaleza, uma grande tragédia abala Paris e ameaça o futuro do cinema. Na festa beneficente anual, denominada Bazar da Caridade, patrocinada pela aristocracia francesa, a grande atração seria o Cinematógrafo. Foi construído para esse fim um pavilhão de madeira, em área privilegiada dos Champs-Elysées, defronte às propriedades do Barão de Rothschild. E, extrema imprevidência, dotada de apenas uma porta de dois metros de largura, abrindo-se para a parte interna. 

Na tarde de 4 de maio de 1897, encontravam-se no recinto cerca de 1.500 pessoas. Às 16 horas, após a explosão de uma lâmpada de éter do cinematógrafo, as chamas se propagaram rapidamente, provocando pânico entre os presentes. O resultado da tragédia foi a total destruição das instalações e dezenas de corpos carbonizados. No incêndio morreram personalidades ilustres da sociedade parisiense. 

No final da trágica noite foram recolhidos cento e onze cadáveres, seus corpos levados para a Catedral de Notre Dame. Toda a cidade de luto, os teatros fechados, por fim, o comovente funeral assistido pelo Presidente da França.

Foi o primeiro grande desastre do Cinema que praticamente viu-se transformado em espetáculo marginalizado e restrito aos espaços circenses. Mas outros viriam a ocorrer, com a imprensa alertando para os perigos do cinematógrafo, prejudicando a confiabilidade dessa forma de diversão.

 O Cine Merceeiros sofreu um incêndio no dia 1° de novembro de 1935, na sessão comemorativa do 5° aniversário. Depois do sinistro, o cinema encerrou as atividades em definitivo.  

Em Fortaleza, além do sinistro no Cinematógrafo de Arlindo Costa, houve décadas mais tarde, a destruição pelo fogo de dois dos seus cinemas fixos. No dia 1° de novembro de 1935, na sessão comemorativa do 5° aniversário, incendiou-se o Cine Merceeiros. O incêndio teve início de uma faísca desprendida da chave de ligação, em curto-circuito, atingindo os rolos de fita. Embora o projecionista tenha procurado restringir o fogo, jogando o material incendiado no chão, as chamas se propagaram. O sinistro determinou o fechamento definitivo do cinema, mas não fez vitimas entre os espectadores. 

Praça do Ferreira com o prédio do Cine teatro  Majestic Palace - anos 30

O imponente Cine-teatro Majestic-Palace foi destruído pela ação de dois devastadores incêndios. Ocupando o terreno aos fundos do edifício de cinco andares, construído por Plácido de Carvalho, na Praça do Ferreira, perdeu a sua entrada e a ampla sala de espera com seus espelhos e cartazes, que ficavam no térreo do edifício, incendiado em 4 de abril de 1955. Uma catástrofe que consumiu também as Lojas Brasileiras 4.400 e atraiu a atenção da cidade. Sobreviveu o salão do Cine Teatro, em estrutura metálica, que ganhou uma nova entrada, mais acanhada, pelos fundos do prédio, à Rua Barão do Rio Branco. 



Incêndio do Cine-teatro Majestic-Palace em 1955 e o que restou do prédio, em fotos da ABA Film 

No segundo incêndio, no início do dia 1° de janeiro de 1968, o fogo devorou por completo o tradicional cinema, que já completara 50 anos de atividades. O incêndio foi percebido as 2 horas da madrugada do dia 1° de janeiro, pelas poucas pessoas que transitavam pela Praça do Ferreira, que notaram  que havia fumaça no interior do Cine Majestic. Apesar da ação pronta dos 70 bombeiros e 8 carros comandados pelo tenente Moacir de Sousa, três horas depois do início do incêndio, só restaram a sala de espera, a entrada e os dois projetores, encerrados em cabines de cimento armado. O teto desabou, as cadeiras foram destruídas, assim como os cartazes.

Com a impossibilidade de debelar as chamas e salvar o que tinha no interior do cinema, os bombeiros trataram de isolar a Farmácia Pasteur e a Loja Ocapana  matriz, que estavam ameaçadas pelo fogo. Às 7:30 horas, depois que o fogo estava completamente debelado, a guarnição do Corpo de Bombeiros regressou ao quartel.

extraído do livro A Tela Prateada
de Ary Bezerra Leite
fotos do livro Tela Prateada e do Arquivo Nirez

    

quarta-feira, 4 de junho de 2014

O Cinema no Ceará

Como em outros centros, o cinema no Ceará foi precedido de várias demonstrações de projeções luminosas, exibições primitivas de bioscópios, fantascópios, animatógrafos, etc. Mas cinema mesmo, quem o inaugurou no Estado foi o cidadão italiano Vittorio di Maio, que se tornou conhecido em Fortaleza, aonde chegara em 1907. Di Maio que , já no século XIX teria instalado o primeiro cinematógrafo no Rio, instala no ano de sua chegada à capital cearense seu animatógrafo na parte dos fundos da Maison Art Nouveau, na então Rua Municipal, depois 24 de Janeiro e atual Guilherme Rocha. De instalações modestas, o Cinema Di Maio foi a casa pioneira da arte cinematográfica no Ceará. 

 Rua Guilherme Rocha, onde no início do século XX foi instalado o primeiro cinema de Fortaleza:  o Cinema Di Maio

O salão de exibição era dividido ao meio por uma grade de madeira, que separava a primeira classe, mais distante, e a segunda, mais próxima da tela. Bancos duros na chamada “geral”. Havia enchentes aos domingos e por vezes alguns espectadores ficavam em pé, provocando gritos e reclamações para que tirassem os chapéus.
Os preços eram de mil reis a primeira classe e quinhentos reis a segunda, caros para a época. Os filmes exibidos eram franceses e italianos, de curta metragem. Havia sempre na programação um ou dois filmes naturais, muito panorâmicos e parados. Completava o programa umas poucas fitas de maior extensão e uma fita cômica. 

 Rua Barão do Rio Branco, antiga Rua Formosa em 1910. Ali, quase esquina com a Rua da Assembleia, um ano antes, o comerciante Henrique Messiano inaugurou o Cinema Rio Branco.

Em 1909 o comerciante Henrique Messiano inaugura na Rua Barão do Rio Branco, quase na esquina da Rua da Assembleia (atual rua São Paulo), o cinema Rio Branco. E logo a seguir, Júlio Pinto oferece ao público seu cinema Casino Cearense também chamado pelo nome do seu fundador.
Os filmes italianos e franceses eram dos produtores Ambrósio, de Torino e Cines de Roma. Apreciadíssimo era o Pathé-Jornal, que tinha o slogan “tudo vê, tudo sabe, tudo informa”.
No Cinema Rio Branco instalado com mais capricho, havia uma boa orquestra, por muito tempo dirigida pelo maestro Luigi Maria Smido. No programa distribuído aos frequentadores constavam os números a serem executados pela orquestra. As sessões noturnas eram duas e nos finais de semana, três.Por algum tempo o Rio Branco foi o mais prestigiado dos cinemas da capital.

O Casino Cearense (Cinema Júlio Pinto) era de instalação mais modesta, mas num salão amplo. A projeção era feita na parede. Nos seus primórdios o Casino Cearense teve orquestra. Depois passou a ter apenas um pianista na sala de projeção.  Foram seus pianistas Dona Judith, que viera do Rio Grande do Sul, depois  seu sobrinho Napoleão Pegado, José Sales, o popular Pilombeta figura popular e curiosa pela altura. Mas a última pianista do Casino foi a negra Ambrosina Teodorico, que tinha outras irmãs também pianistas.
   
Tanto o Di Maio como o Rio Branco possuíam na fachada campainhas estridentes que anunciavam o início e o término das sessões.  Com a morte do seu proprietário, o Cinema Di Maio passaria por uma reforma e ganhou nova denominação: Cinema Riche, de Luiz Severiano Ribeiro e Alfredo Salgado. Marcava o modesto cinema de Fortaleza a entrada no mercado fonográfico de Luiz Severiano Ribeiro, que viria a ser um dos maiores exibidores do Brasil, chegando a possuir mais de 40 cinemas somente no Rio de Janeiro. 


A Praça do Ferreira na década de 1930, com os dois cinemas mais prestigiados da época: o Cine-teatro Majestic Palace e o Cine Moderno.

Em 1911 apareceu outra casa que marcaria época. Foi o Cine-teatro Politheama, da empresa Rola & Irmão. Casa montada com certo apuro, no coração da cidade, no meio do quarteirão mais importante de Fortaleza, na Praça do Ferreira. 
Quando surgiu o Politheama oferecendo maior conforto, logo se tornou o principal cinema da cidade.  Exibiu grandes filmes e lançou no Ceará os filmes norte-americanos da William Fox Corporation.

Os cinemas se mantinham heroica e milagrosamente com duas sessões de segunda a sábado e três aos domingos, contando com a vesperal infantil. Geralmente a última sessão era a mais concorrida mais por reunião de elegância do que pelo filme. Nesse período apareceu ainda outro cinema localizado na Rua Floriano Peixoto, esquina da Praça do Ferreira: denominava-se American-Kinema e teve vida efêmera.

Até 1930, ir ao cinema não era um hábito arraigado da população. Contava-se aos milhares as pessoas que, mesmo residindo no centro, jamais entraram num cinema. Nunca foi possível até então, os cinemas funcionarem às tardes. E mesmo as sessões noturnas só eram concorridas aos sábados, domingos e feriados, ou quando se tratava de filmes sacros, como  Paixão de Cristo.

Nos primeiros anos da década de 20 houve uma espécie de guerra dos cinemas, que determinou que alguns deles, como o Rio Branco e o Júlio Pinto baixassem os preços, que chegaram até 100 réis, isto é, 1 tostão. Mesmo assim, o cinema não se popularizou como era esperado numa cidade de 70 a 80 mil habitantes, sem muitas alternativas nos teatros,  e sem outra diversão, a não ser um ou outro circo, de qualidade discutível, que geralmente armava sua lona na Praça da Lagoinha ou na Praça da Estação. 
Depois do Politheama, que teve seus dias de glória, como teatro inclusive, surgiu o Majestic, em 1917, do empresário Luiz Severiano Ribeiro. 


 
A inauguração do Cine Teatro Majestic-Palace, em 1917,  causou furor na cidade, um equipamento moderno, e muito sofisticado. Foi instalado num imponente edifício de quatro andares, na Rua Major Facundo, na Praça do Ferreira. O cinema sofreu dois incêndios: o primeiro em 4 de abril de 1955, e o segundo, em 01 de janeiro de 1968, determinou o encerramento do estabelecimento, devido a destruição da sala de projeção.
   
Localizado na Praça do Ferreira, no prédio mais alto da cidade, e em posição privilegiada, o cinema-teatro era moderno, grande e confortável. Tiraria rapidamente da competição o Politheama e se tornaria o cinema preferido da cidade. 
  
Sala de projeção do Majestic, que também era teatro, era toda em ferro como no Teatro José de Alencar. Tinha 650 cadeiras no térreo e nos dois andares onde ficavam os camarotes e na geral.

Famosa era a orquestra do Majestic: dois excelentes pianistas – Barros Figueiredo e Raimundo Donizetti – os flautistas Antônio Moreira e Aristóteles, os violinistas Joaquim Nunes e Edgar Nunes, o contrabaixo Boanerges e vários outros.
O Majestic abrigou várias companhias teatrais e foi inaugurado pela transformista Fátima Miris, a 14 de julho de 1917. Na sua vasta sala de espera havia um grande quadro de Francesca Bertini, pintado pelo artista cearense Raimundo Siebra. 
 


Construído por iniciativa de Plácido Carvalho com o fim específico de uma casa exibidora de filmes, o Cine Moderno foi inaugurado no dia 7 de setembro de 1922, na rua Major Facundo, 594, na Praça do Ferreira, dentro das comemorações do primeiro centenário da Independência  política do Brasil. A exploração do cinema ficou a cargo do Sr. Luiz Severiano Ribeiro. A sala de projeção ficava de frente para a rua, e tinha 709 poltronas de couro preto. Foi o primeiro cinema a adotar a sonorização, com o filme Broadway Melody, em 1930. O Cine Moderno foi fechado em 21.05.1968 e o prédio foi vendido para o grupo Edson Queiroz, que promoveu sua demolição.

Depois do Majestic, foi inaugurado o Cine Moderno, que logo se tornou o principal cinema do Estado. À sua última sessão, nas noites de domingo, acorria toda a sociedade de Fortaleza, que antes espairecia na retreta do Passeio Público. Antes das nove, o mundo elegante abandonava o velho logradouro e desembocava pela Rua major Facundo, desfilando pelas inúmeras rodas de calçada das residências dos sírios, rumo ao Moderno.
Por preguiça, comodidade ou até por motivo de ordem cultural ou econômica, o cinema, até pelo menos 1926, não chegou a ser diversão popular nem efetiva da cidade.



Extraído do livro
Fortaleza de ontem e anteontem, de Edigar de Alencar
fotos do Arquivo Nirez e do livre Tela Prateada, de Ary Bezerra Leite 


domingo, 1 de julho de 2012

Os Primeiros Cinemas

Como em outros centros, o cinema do Ceará foi precedido de várias demonstrações de projeções luminosas, exibições primitivas de bioscópios, fantascópios, animatógrafos. Gustavo Barroso fala no Estereopticon, da empresa Cabral e Cia., que também teria funcionado no prédio da Casa Palhabote. Em 1907 também houve exibições cinematográficas no teatrinho do Clube Iracema, promovidas pela empresa Oliveira e Coelho. 

 Salão principal do Clube Iracema, em cujo teatrinho foram exibidos alguns filmes no ano de 1907 

Mas cinema, cinema mesmo, quem o introduziu no Ceará foi o cidadão italiano Vittorio di Maio, que se tornou conhecido em Fortaleza, onde chegara em 1907, como Vitor di Maio.  Ele, que já no século XIX, dez ou doze anos antes, teria instalado o primeiro cinematógrafo no Rio, instala no ano de sua chegada à capital cearense seu animatógrafo na parte dos fundos da Maison Art Nouveau, isto é, na Rua Municipal (atual Guilherme Rocha). De instalações modestas, o Cinema di Maio foi a casa pioneira da arte cinematográfica no Ceará.

 Rua Ou Travessa Municipal (atual Rua  Guilherme Rocha em foto de 1925) onde se instalou o Cinema Di Maio em 1907. 

O salão era dividido ao meio por uma grade de madeira que separava a primeira classe, mais distante, e a segunda, mais próxima da tela. Bancos duros na “geral”. Havia enchentes aos domingos e às vezes ficavam espectadores de pé, provocando protestos e reclamações para que tirassem os chapéus.
Os preços eram mil réis a primeira classe e quinhentos réis a segunda. Caros para a época. Os   filmes eram franceses e italianos, de curta metragem. Havia na programação sempre um ou dois filmes naturais, muito panorâmicos e parados. Completava o programa uma ou duas fitas de maior extensão, e para o fecho, uma comédia.

    Na Rua Barão do Rio Branco, antiga Rua Formosa, Henrique Mesiano inaugurou o Cinema Rio Branco em 1909 - foto de 1910 
 
Em 1909 o comerciante Henrique Mesiano inaugura o Cinema Rio Branco, na rua do mesmo nome, quase na esquina  da Assembleia. E logo a seguir Júlio Pinto oferece ao público o cinema Casino Cearense.  No cinema Rio Branco instalado com mais capricho, havia uma boa orquestra, por muito tempo dirigida pelo maestro Luigi Maria Smido. No programa distribuído aos frequentadores constavam as músicas a serem executadas pela orquestra. As sessões noturnas eram duas vezes. A última sessão, quase sempre a de frequência mais distinta, era chamada de “Soirée Chic” ou “Soirée das Rosas”.

Por algum tempo, o Rio Branco foi o mais prestigiado dos cinemas da capital. Fez temporadas de grande êxito com seriados. Aos domingos havia matinê infantil, às 6 horas com programas especiais e muita algazarra. Também passavam filmes policiais, com crimes e bandidos em profusão. Não havia restrição a menores, o público era formado por todas as idades. 


 Rua Major Facundo em 1930, com o prédio do cine-teatro majestic Palace, inaugurado em 1917 

O Casino Cearense (Cinema Júlio Pinto) era de instalações mais modestas, mas num amplo salão. A projeção era feita na parede. Nos primórdios o Casino teve orquestra, na sala de espera inclusive. Depois passou a ter apenas uma pianista na sala de projeção.
Tanto o Di Maio como o Rio Branco e o Júlio Pinto possuíam na fachada campainhas estridentes que anunciavam o início e o término das sessões. O Di Maio manteve algum tempo um realejo martelante.

Com a morte do proprietário, o Cinema Di Maio passaria mais tarde por uma reforma e receberia nova denominação: Cinema Riche, de Luiz Severiano Ribeiro e Alfredo Salgado. Marcava o modesto cinema de Fortaleza a entrada no mercado cinematográfico  de Luiz Severiano Ribeiro, que viria a ser um dos maiores exibidores do Brasil, chegando a possuir mais quarenta cinemas só no Rio de Janeiro.

Em 1911 apareceu outra casa de espetáculos que marcaria época. Foi o Cine-teatro Politheama, da empresa Rola  e Irmão. Casa montada com certo bom gosto, no coração da cidade, isto é, no meio do quarteirão mais importante de Fortaleza, na Praça do Ferreira. Quando surgiu oferecendo maior conforto o Politheama logo se tornou  o principal cinema da cidade. Exibiu grandes filmes e lançou no Ceará das fitas norte-americanas da William Fox Corporation

 O Politheama e o Majestic foram instalados na Praça do Ferreira em 1911 e 1917, respectivamente

Os cinemas se mantiveram heroica e milagrosamente com duas sessões de segundo a sábado e três aos domingos, incluindo a vesperal infantil. Nesse período apareceu ainda outro cinema, localizado na Rua Floriano Peixoto, esquina da Praça do Ferreira. Denominava-se American-Kinema e teve vida efêmera.

O cinema em Fortaleza não foi pelo menos até 1930, um hábito arraigada da população. Contava-se aos milhares as pessoas que, mesmo residindo no centro, jamais entraram num cinema!  Nunca foi possível até então os cinemas funcionarem à tarde. E mesmo as sessões noturnas só eram concorridas aos sábados, domingos e feriados, ou nas exibições de seriados ou de filmes sacros.

 Praça do Ferreira, década de 1920, com o prédio do Cine Moderno

Nos primeiros anos da década de 1920 houve uma espécie de guerra dos cinemas, que resultou que alguns deles como o Rio Branco e o Júlio Pinto baixassem os preços que chegaram até 100 réis, isto é, um tostão.  Mesmo assim o cinema não se popularizou como deveria acontecer numa cidade de 70 a 80 mil habitantes, sem teatros funcionamento regularmente e sem outra diversão a não um ou outro circo, que aparecia esporadicamente, que geralmente armava sua lona na Praça da Lagoinha ou da Estação.

Depois do Politheama, que teve seus dias de gloria como teatro inclusive, surgiu em 1917 o Majestic, de Plácido de Carvalho. Localizado na Praça do Ferreira, no prédio mais alto da cidade e em posição privilegiada, o cinema-teatro era moderno, grande e confortável, tirando o Politheama da competição e se tornando o cinema preferido da cidade.

Praça do Ferreira em 1919, com o Café Elegante e ao fundo o prédio do Cine-teatro Majestic palace

O Majestic abrigou várias companhias teatrais e foi inaugurado pela transformista Fátima Miris a 14 de julho de 1917. Na sua  vasta sala de espera havia um grande quadro de Francesca Bertini, pintado pelo artista cearense Raimundo Siebra.

Houve uma fase que o cinema de Fortaleza foi submetido a um truste, passando a funcionar em circuito, o mesmo filme era exibido pelos três cinemas. Depois do Majestic foi inaugurado pela mesma empresa o Cine-Moderno, que logo se tornou o principal do estado. À sua última sessão de domingo acorrida toda a sociedade de Fortaleza, que antes comparecia à retreta no Passeio Público. Antes das nove horas, o mundo elegante abandonava o velho logradouro e desembocava pela Rua Major Facundo, desfilando pelas inúmeras rodas da calçada das residências dos sírios, rumo ao Moderno.
Por preguiça, comodidade ou até por motivos de ordem econômica, o cinema até 1926 pelo menos, não chegou a ser diversão nem popular, nem efetiva da cidade. 


fotos do Arquivo Nirez
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Fortaleza de ontem e de anteontem, de Edigar de Alencar