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quarta-feira, 13 de setembro de 2023

A Criação da Escola Militar de Fortaleza

 

Praça da Bandeira - postal de 1955

A Escola Militar foi fundada a 1° de fevereiro de 1889, e segundo alguns cronistas trouxe à Fortaleza uma das épocas mais agitadas em termos políticos e sociais. Foi instalada inicialmente nos fundos do quartel do 11° Batalhão de Infantaria, atual quartel da 10ª Região Militar. Foram matriculados 700 alunos, entre efetivos e adidos. Como não havia internato, formaram-se várias “repúblicas” espalhadas pela cidade.

Em seguida a escola passou a ocupar o prédio localizado na Avenida Santos Dumont, construído com recursos do Barão de Ibiapaba, que inicialmente seria destinado ao funcionamento de um asilo de mendicidade. Depois de concluído, ficou dois anos abandonado, até ser doado pelo Presidente do Ceará ao Governo Federal para instalação da Escola Militar.

Quando a noite chegava, depois das 21 horas e a cidade sossegava, os cadetes tomavam conta da capital. Praticavam atos absurdos, contra pessoas e contra o patrimônio público. Atacavam moças, agrediam rapazes, consumiam em cafés e restaurantes e não pagavam, invadiam festas particulares e sessões de cinemas, roubavam aves dos quintais das residências, e obrigavam as patrulhas policiais a pegar jumentos nos cercados para realizar suas farras noturnas.

A 16 de novembro daquele ano, ajudaram a proclamar a República no Ceará, que culminou com a deposição do presidente da província, coronel Jerônimo Rodrigues de Moraes Jardim.

Em 1892, dia 16 de fevereiro, fortemente armados, e em companhia de outras forças militares, atacaram o Palácio do governo e depuseram, depois de uma noite de combate, o governador José Clarindo de Queiroz, evento que contabilizou 13 mortes e muitos feridos.

Em 1897 os cadetes organizaram um bloco de carnaval denominado “Clube dos Gaiolas” que sobressaltou a cidade. Composto exclusivamente de alunos da Escola Militar, o clube tinha sede na Rua Senador Pompeu, em prédio ocupado à revelia do proprietário. Roubaram carroças do Passeio Público, sinos das igrejas, cadeiras, caixões para armações de cenários de vários estabelecimentos.

O clube ia sair à rua no domingo. Na véspera começaram a pegar jumentos. A polícia, sabedora que os cadetes iriam exibir carros com críticas às autoridades, exigiu um visto prévio ao desfile. Os cadetes, porém, não deram confiança. E saíram no dia e hora marcados. Indisciplinados e rebeldes, os cadetes faziam o que bem entendiam.

O comandante era o Coronel Siqueira de Menezes, militar de carreira, austero, disciplinador, sendo por isso malvisto pelos alunos. Um dia, resolveram que não iriam subordinar-se mais ao seu comandante, e aclamaram em seu lugar no comando da escola, o major Faustino. Em seguida, telegrafaram ao presidente da República, que concordou com a mudança, e ordenou a Siqueira de Menezes que retornasse ao Rio de Janeiro, então capital federal. E assim os rapazes da Escola Militar tiveram sua vitória, e seguiram com sua trajetória de vandalismo com maior intensidade, alarmando os pacatos fortalezenses, que acordavam sobressaltados à espera de mais alguma travessura que normalmente terminava com grandes prejuízos para alguém.

1930 - imagem Internet

imagem: mapa cultural de Fortaleza

A Escola Militar de Fortaleza foi extinta pela lei Geral 463, de 25 de novembro de 1897. O prédio que ocupavam, abrigou diversas instituições a partir de 1898, como o Colégio Nossa Senhora de Lourdes, a Força Pública do Estado, e o 9º Regimento de Artilharia Montada que ficou até 1919.

Com a criação do Colégio Militar o prédio lhe foi entregue, e em 1938, foi transformado em Colégio Floriano, ficando ali até 1941.

Em 1942, foi criada a Escola Preparatória de Fortaleza, que foi extinta em 1961, quando foi restabelecido o Colégio Militar que reiniciou suas atividades em 1962.


Fontes:

Raimundo de Menezes – Coisas que o Tempo Levou: crônicas históricas da Fortaleza Antiga

Antônio Bezerra de Menezes – Descrição da Cidade de Fortaleza

   

terça-feira, 30 de maio de 2017

Santa Casa da Misericórdia


A Santa Casa da Misericórdia é uma instituição internacional, fundada em 15 de agosto de 1498 em Portugal, pelo monge Frei Miguel de Contreiras, da Ordem da Santíssima Trindade e Redenção dos Cativos de Portugal, com o apoio da rainha Dona Leonor de Lencastre, a qual em 1508, doou seus próprios bens para constituir o patrimônio da instituição.

Em Fortaleza, a ideia da criação foi lançada em 1839, pelo bispo de Recife e Olinda em visita a Fortaleza, Dom João da Purificação Marques Perdigão. A ideia não vingou. Em 1845 o presidente da Província Inácio Correia de Vasconcelos, após receber ajuda da sociedade para tal, ordenou a construção de um hospital no Largo do Paiol, em terreno doado por Dona Maria Guilhermina Gouveia. O início da obra só aconteceu em 1847, sob a responsabilidade do boticário Antônio Ferreira, presidente da Câmara dos Vereadores e Intendente Municipal e uma comissão formada pelos comendadores Joaquim Mendes da Cruz Guimarães, Antônio Telles de Menezes e João Batista de Castro e Silva.

Avenida Caio Prado, com o prédio da Santa Casa ao fundo. Nessa época o prédio tinha apenas um pavimento. Foto de 1908

O prédio foi concluído com apenas um andar, e denominado Hospital da Caridade, contando 80 leitos; mas passou muito tempo sem ser utilizado por falta de material e condições de funcionamento. Enquanto isso o presidente da Província autorizou a cessão de salas e enfermarias para o Liceu do Ceará, que permaneceu ali até 1861. 

A história do hospital só começou realmente em 1860, quando foi autorizada a criação e a instalação da Irmandade da Misericórdia. Foi a associação religiosa de maior importância durante o império, tendo à frente o Presidente da província como provedor e congregando a elite fortalezense.Assim o Hospital da Caridade foi inaugurado no dia 14 de março de 1861, sob o comando da Irmandade da Misericórdia, com a denominação de Santa Casa da Misericórdia.

Em 1869 foi assinado contrato com as Irmãs da Ordem das Vicentinas do Rio de Janeiro, as quais cuidariam dos serviços de enfermagem, cozinha, limpeza e outros; as primeiras freiras Vicentinas chegaram em janeiro de 1870.

Além das funções hospitalares, a Santa Casa da Misericórdia era a administradora do Cemitério São Casimiro, e do seu sucessor, o Cemitério São João Batista. A partir de 1876 passou a administrar os serviços funerários da cidade, com os rendimentos revertidos para a construção do Asilo de Alienados, para atender os loucos que perambulavam pelas ruas de Fortaleza, sem lar e sem nenhuma assistência.


O Asilo de Alienados São Vicente de Paulo foi construído em 1886, na distante Vila de Arronches (atual Parangaba) e abrigava doentes mentais de ambos os sexos, vindos de vários lugares do Estado, tanto da Capital quanto do Interior. Hoje se chama Hospital Psiquiátrico São Vicente de Paulo e é administrado pela Santa Casa da Misericórdia até os dias atuais. 

O primeiro médico a prestar serviços na Santa Casa foi o Dr. Joaquim Antônio Alves Ribeiro, formado pela Universidade de Harvard, na Inglaterra, em 1853, nomeado no dia 12 de março de 1861. Pertencia à família Mendes da Cruz Guimarães, e era casado com sua prima Adelaide Smith de Vasconcellos, irmã do 2° barão de Vasconcellos.


Outro médico da mesma família foi o Dr. Antônio Mendes da Cruz Guimarães, filho do Comendador Joaquim Mendes da Cruz Guimarães. Formado em Medicina pela Faculdade do Rio de Janeiro. Antônio Mendes foi médico da Santa Casa de Misericórdia, ingressando em 1873.

Após a nomeação de Joaquim Antônio Alves Ribeiro, outros médicos assumiram cargos na Santa Casa, durante os três primeiros decênios de seu funcionamento, como Meton da Franca Alencar (que atendia também no Asilo São Vicente de Paula) e João da Rocha Moreira. A partir dos anos 1880, foram nomeados os médicos João Guilherme Studart, Joaquim Antônio da Cruz, José Pacífico da Costa Caracas, Francisco Peregrino Viriato Medeiros, Pedro Augusto Borges, Guilherme Studart (Barão de Studart) e Helvécio da Silva Monte.

A partir de 1890 registram-se os nomes de João Marinho de Andrade, José Lino da Justa, Eduardo da Rocha Salgado, Antônio Pinto Nogueira Brandão, Duarte Pimentel, Gentil Pedreira, Venâncio Ferreira Lima, e Joaquim Anselmo Nogueira, admitido em 1899.


A partir de 1915 a Santa Casa deixa de ser tutelada pelo Estado, passando à condição de autônoma sob o patrocínio do Arcebispo de Fortaleza. A nova situação da entidade fez com que a confraria passasse a solicitar ajuda da sociedade, tendo sido criada nessa ocasião, pela Câmara Municipal, a Taxa de Caridade – cobrança de 10% do valor dos ingressos vendidos nas casas de diversão. Esse vínculo com a arquidiocese de Fortaleza durou até 1971.

Nesse mesmo ano a entidade teve o número de pacientes triplicado em razão da grande seca de 1915, quando passou a atender retirantes vindos do interior do Estado. Em 1920 a Santa Casa mandou demolir metade do prédio antigo e construir outro, de 2 pavimentos.

A Santa Casa da Misericórdia foi durante muito tempo o único hospital de Fortaleza. Atualmente, apesar de ser o maior hospital filantrópico do Estado, vive de doações e repasses do SUS, que paga valores muito defasados pelos procedimentos realizados na instituição. Só em 2016, foram 35 mil atendimentos na emergência e mais de 50 mil consultas ambulatoriais. Por isso, a instituição precisa de ajuda financeira.


A Santa casa da Misericórdia fica na Rua Barão do Rio Branco, (a antiga Rua Formosa) s/numero, Centro de Fortaleza. 

fontes: 
Caminhando por Fortaleza, de Francisco Benedito
Ideal Clube - história de uma sociedade de Vanius Meton Gadelha Vieira
fotos:  arquivo Nirez e Fortaleza em Fotos


quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Fortaleza Belle Époque - Cuidados Médicos e Controle Social

A preocupação com o saneamento de Fortaleza surgiu na segunda metade do século XIX, integrado ao processo de remodelação e aformoseamento da Capital. Um conjunto diversificado de intervenções, e reformas sanitárias, disseminou-se pela cidade e entre a população, por todo o período que compreende parte do Império e a primeira República (1889-1930).

milhares de retirantes fugidos da seca do sertão, se concentram na Praça da Estação em Fortaleza, em busca de alimentos, trabalho e assistência médica.

A proporção que Fortaleza se adensava de gente e construções, verificou-se por parte das autoridades e da elite intelectual, toda uma produção de discursos acerca do que as autoridades e os habitantes precisavam ter e fazer para se atingir um desenvolvimento organizado, sistematizado, saudável e civilizado. E daí surgiu uma grande preocupação com a questão social dos menos favorecidos e que, segundo as autoridades, comprometiam o desenvolvimento e o grau de civilidade que se planejava alcançar.

Disciplinar o meio urbano remetia à necessidade de regular o social. Nessa perspectiva, produziu-se uma imagem negativa da população pobre, qualificada como indolente, propensa ao vício e à vadiagem. Assim, não tardou a aparecer a lista de acontecimentos apontados como obstáculos à ordenação de Fortaleza e que deveriam ser combatidos com rigor: epidemias, morbidade e mortalidade consideradas altas, proliferação de lixo, água insalubre, aumento do contingente de loucos, vadios, mendigos, menores abandonados, delinquentes, alagamentos, falta de higiene pública e doméstica, etc.

Santa Casa da Misericórdia - um hospital para os pobres



Os estabelecimentos e instituições foram surgindo à medida que os problemas se agravavam. As secas e epidemias foram as maiores responsáveis pela construção da Santa Casa da Misericórdia e do Lazareto da Lagoa Funda. A decisão de erguer um hospital que a cidade ainda não dispunha, foi motivada pelas doenças e sequelas deixadas pela seca de 1845. Apesar de parcialmente concluída em 1857, a Santa Casa só foi concluída em 1861, no mesmo local em que se encontra até hoje, entre o Passeio Público e a antiga cadeia. Até o início dos anos 30, quando aparecerem as Casas de Saúde, a Santa Casa foi o principal espaço de tratamento da população pobre, desde que não se tratasse de moléstias contagiosas.

Lazareto da Lagoa Funda - um hospital para doenças contagiosas

Para os portadores de moléstias contagiosas foi criado o Lazareto da Lagoa Funda, localizado a 7 km do centro da Cidade, edificado entre 1856 e 1857. O Lazareto foi o primeiro exemplo concreto da medicina urbana e preventiva em Fortaleza, já que foi criado com a finalidade de abrigar os prováveis atingidos pela epidemia de cólera que se espalhava pelos Estados do Nordeste. A epidemia efetivamente chegou e atingiu toda a província entre 1862 e 1864, ceifando a vida de 11 mil cearenses, com 362 óbitos na Capital.

Cemitério de São João Batista - para evitar a contaminação da água e do ar

Ainda na década de 1860, Fortaleza passaria por duas importantes resoluções visando a preservação da salubridade do ar e da água. Uma foi a decisão de transferir o Cemitério de São Casimiro, localizado em área central, para o arrabalde de Jacarecanga, com o nome de São João Batista. No lugar do São Casimiro foi construída, em 1873, a Estação Ferroviária.
A escolha de Jacarecanga para acolher o novo cemitério, deveu-se ao fato de um ser espaço praticamente vazio à época, além de estar a oeste da cidade, isto é, a sotavento. O cemitério não poderia ficar a leste (a barlavento), porque como os ventos correm na direção Leste-Oeste, eles espalhariam os germes do cemitério pela cidade. Pelo mesmo motivo, o Lazareto da Lagoa Funda também foi edificado no mesmo subúrbio de Jacarecanga.

Asilo São Vicente de Paulo - um hospital para os loucos

O Asilo de Alienados São Vicente de Paulo, concluído em 1886 na vizinha localidade de Arronches, hoje Parangaba, foi a décima instituição para loucos edificada no Brasil. Dentre as justificativas para a sua criação, estavam a retirada dos loucos do espaço urbano e afastamento das respectivas famílias que não podiam tratar nem controlar, além de afastá-los do crime. O maior impulso financeiro à construção do Asilo veio da lei provincial de 1876, concedendo à Santa Casa o privilégio de administrar o novo cemitério de São João Batista. Todo o saldo líquido auferido dessa atividade foi empregado na obra de construção do Asilo São Vicente de Paulo.

Dispensário dos Pobres e Asilo de Mendicidade - para os pobres e mendigos


Prédio antigo do Dispensário dos Pobres, no Benfica

O Dispensário dos Pobres foi criado em 1885, situado na atual Avenida da Universidade, no Benfica, entregue aos cuidados das Irmãs da Ordem Filhas de São Vicente de Paulo; também no Benfica foi instalado o novo Asilo de Mendicidade, patrocinado pela maçonaria através da congregação de três lojas maçônicas, a "Igualdade", "Fraternidade Cearense" e "Amor e Caridade". O asilo de Mendicidade foi criado em 1905, na Chácara Amaral, localizada na Avenida Visconde de Cauípe, hoje Avenida da Universidade, sendo depois transferido para a Chácara Virginia Salgado, no bairro Jacarecanga. Hoje é o Lar Torres de Melo.

Para menores abandonados foram criados o Patrocínio dos Menores Pobres, em 1903, a Escola para Menores Pobres (1908), e o Dispensário Infantil (1914).

Patronato Maria Auxiliadora e Internato Bom Pastor - para moças pobres, órfãs e mães solteiras

Para moças pobres e órfãs surgiu o Patronato Maria Auxiliadora (1922), criado pela Liga das Senhoras Católicas e instalado na atual Avenida do Imperador; e o Internato Bom Pastor (1928) situado no bairro do Jacarecanga,  onde eram confinadas as moças que tinham desviado suas condutas e, para não causarem vergonha à família, eram mandadas para lá e ali permaneciam até cair no esquecimento da sociedade.

 Internato Bom Pastor

As internas do Bom Pastor eram, muitas vezes, moças solteiras “de família” que engravidavam, e eram afastadas do convívio familiar, antes que a vizinhança percebesse o acontecido e começassem os comentários maldosos, e as especulações sobre paternidade. Se a mãe solteira fosse descoberta, ficaria “falada” e desonrada, e dificilmente arranjaria um noivo ou teria novamente um relacionamento sério. Assim, o expurgo familiar, evitava que tanto a moça quanto a família viessem a sofrer as consequências da desonra, ou que o bom nome da família fosse maculado.

Depois, com o passar do tempo, e purgado a culpa, as internas retornavam aos lares, depois de terem recebido cursos e aprendido trabalhos manuais sob orientação das irmãs religiosas, como costurar, bordar, cozinhar e outras atividades domésticas. As moças recolhidas ao Bom Pastor tinham uma maneira peculiar de se vestir: se cobriam de preto, lenço na cabeça, e nas ocasiões em que frequentavam missas, usavam um véu no rosto, evitando assim o reconhecimento de pessoas que estavam na igreja e pudessem, porventura identifica-las.

Saíam do Bom Pastor como quem deixa o cárcere depois de ter cumprido pena pelo mal cometido.  A criança fruto desse amor clandestino, era dada em adoção, com a condição de jamais poder ser revelado quem eram os verdadeiros pais. Além das mães solteiras, o Bom Pastor também acolhia órfãs e meninas abandonadas ou em situação de extrema miséria.

Campo Penal Agrícola de Canafístula - prisão agrícola para homens

Colônia Cristina em data anterior à instalação da Prisão Agrícola de Canafístula. À época da foto, o local abrigava retirantes da seca. (foto Brasiliana Fotográfica)   

Em 1925 foi construída e posta em funcionamento a primeira prisão agrícola, situada na Colônia Cristina, em Canafístula, denominada “Campo Penal Agrícola de Canafístula (atual Antônio Diogo). Naquele ano a Colônia registrava a presença de 34 sentenciados, recebendo diárias de mil e oitocentos réis e com direito a plantação de roçados às suas custas. Além do cultivo de algodão, milho, mandioca e feijão, a instituição comercializava lenha com a Estrada de Ferro Baturité. Antes, as terras da Colônia Cristina abrigaram retirantes da grande seca de 1877/1879. Depois que a prisão agrícola foi desativada, passou a funcionar no local o Leprosário de Antônio Diogo.  

Santo Antônio do Buraco - para menores abandonados

Em razão dos sucessivos períodos de secas e da consequente migração de sertanejos para a capital, havia um grande contingente de crianças órfãs, vítimas da estiagem ou de epidemias, que perderam os pais e seus responsáveis, e se viram sozinhas no mundo, sobrevivendo de esmolas, perambulando pelas ruas da cidade. As meninas eram encaminhadas ao Bom Pastor ou ao Patronato Maria Auxiliadora; os meninos, para o Santo Antônio do Buraco.

prédio principal da Estação Experimental de Santo Antônio de Pitaguary

Para esses meninos abandonados, recomendou-se prática regenerativa semelhante ao da Colônia Cristina, através de uma instituição disciplinar específica. Em 1928 surgiu um internato com características prisionais através da Estação Experimental de Santo Antônio do Pitaguary (atual Maracanaú).


Estrada de acesso à Fazenda Santo Antônio alguns anos antes da instalação do Internato 

A escola foi instalada na Fazenda Santo Antônio, de propriedade do Estado e se destinava a regeneração de menores com idade entre 8 e 18 anos. O prédio da escola foi construído com a ajuda de presos sentenciados. A operação de internamento é relatada com minúcia pelo governador:
  • primeiro veio uma lei que conferiu ao juiz municipal da 2ª. Vara a atribuição para recolher menores vagabundos ou mendigos;
  • Em seguida, foram colocados à disposição do juiz, pelo Secretário de Segurança Pública, os policiais requisitados, investidos da função de comissário de menores.
  • Os policiais sem demora, saíram as ruas e delas recolheram 48 menores para a Estação Experimental que funciona no Sitio Santo Antônio, de propriedade do Estado.

Estava assim criado, o reformatório “Santo Antônio do Buraco” como ficou conhecido popularmente. O lendário rigor aplicado aos internos permaneceu por muitas décadas no imaginário infantil cearense como verdadeiro signo de terror.

Fontes:
Fortaleza Belle Époque – reformas urbanas e controle social – 1860-1930, 
Relatório Carneiro de Mendonça - 1936
Benfica de Ontem e de Hoje, de Francisco de Andrade Barroso
fotos Brasiliana Fotográfica, arquivo Nirez, relatório Carneiro de Mendonça


domingo, 15 de março de 2015

Tipos Populares: O Pilombeta


José Sales, vulgo Pilombeta foi dentro do panorama incolor da Fortaleza de outros tempos, um dos tipos popularmente conhecidos e apreciados pelos habitantes desta capital, de cujas rodas boêmias era assíduo frequentador.

Praça José de Alencar, 1910 

Natural de Minas Gerais, muito cedo se transplantou para esta cidade, se tornando notável desde logo, em razão de sua altura descomunal, especialmente quando desfilava seus dois metros de altura em meio a multidão da Praça do Ferreira.

Magricela, comprido, bizarro, de braços e mãos tão longos que dançavam ao vento, quando andava o Pilombeta se distinguia pela sua feiura que chegava a assustar as crianças. O rosto grotesco, um nariz enorme, sobre o qual se equilibrava um pince-nez, a boca sensual e mole, sempre com carregando um resto de cigarro. A barba e o bigode sempre por fazer, os cabelos ralos a escorrer pelo rosto pálido. Mal ajambrado um fraque e umas calças surradas cobriam-lhe os ossos pontudos, parecia em seu todo, a sua figura melancólica, com a de D. Quixote de La Mancha

Praça do Ferreira, por volta dos anos 20 

Diziam que, além de jogador emérito de xadrez, possuía verdadeira ojeriza a trabalho. Conseguira, em sua terra o titulo de agrimensor, e os fortalezenses seus conhecidos, alarmados com os constantes pedidos de empréstimos, resolveram, numa conspiração, arranjar-lhe um emprego na Estrada de Ferro Baturité, então sob direção de uma companhia inglesa.

Encaminharam-no com uma carta de apresentação ao superintendente, e este logo lhe arranjou uma colocação. Mas Pilombeta, mal acabara de obter o emprego, solicitou uma licença de seis meses. Ali mesmo, foi demitido.

Pianista de méritos discutíveis sabia de cor algumas canções que eram desafinadamente mal tocadas.  Anda assim conseguiu um emprego como pianista do cinema Júlio Pinto, onde podia ser visto todas as noites, durante as exibições das fitas, a dedilhar as músicas da moda que conseguira aprender de ouvido. E os sons fanhosos gemiam dentro da sala calorenta, atordoando os incautos espectadores, que se emocionavam com as românticas fitas europeias.


Depois daquele extravasar de sua arte esquisita, saía para os cafés noturnos, em cujas mesas permanecia horas perdidas, a sorver o álcool que lhe envenenava pouco a pouco o organismo débil.Dali saía cambaleante, rua afora, ziguezagueando pelas calçadas, varando a noite em serenatas românticas.

João Brígido, um dos maiores jornalistas da época, míope ao extremo  ao cruzar, certa tarde na rua, com a figura fina e sutil do Pilombeta que o cumprimentara, apenas levantando o chapéu,  emitiu o seguinte comentário: – O Ceará é uma terra extraordinária! Imaginem que até os combustores da iluminação cumprimentam, tirando o chapéu quando a gente passa!

 Rua Major Facundo por volta de 1900

Café do Comércio, 1908 

Por volta do ano de 1916, os pulmões do Pilombeta ante a vida desorganizada e boêmia que levava não puderam resistir. Seus amigos o levaram para o Asilo de Mendicidade, onde pouco tempo depois, terminaram seus dias acidentados de farra, de noites mal dormidas, como esbanjador incorrigível da sua própria existência.
Ao dar entrada naquele estabelecimento de caridade, carregado pelos amigos que se haviam cotizado, Pilombeta teve a seguinte frase de profunda melancolia: eis a casa dos desvalidos da sorte como eu, e feliz daquele que nela encontrar abrigo.

Extraído do livro: Coisas que o Tempo Levou: crônicas históricas da Fortaleza antiga. De Raimundo de Menezes
fotos do arquivo Nirez 

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Praça da Bandeira

Localizada no Centro, a Praça da Bandeira é popularmente chamada de Praça do Cristo Rei, isso porque nela foi construída a Igreja, cuja inauguração se deu a 29 de maio de 1930. 

 Igreja do Cristo Rei, na Praça da bandeira

Até a década de 30 era um imenso areal. Demarcada em 1877, recebeu  a denominação de Barão de Ibiapaba em homenagem a Joaquim da Cunha Freire, que ali lançara as bases do Asilo de Mendicidade. O Barão de Ibiapaba nasceu em Caucaia, com notável atuação na política e na economia  cearense. Presidiu mais de uma vez a Província do Ceará.

 A praça quando ainda existia o coreto e onde se pode avistar os dois equipamentos que estão lá até hoje: o Colégio Militar, ainda sem a quadra, e a Igreja do Cristo-Rei.
A partir de Outubro de 1890 passou a ser a Praça do Asilo, em virtude da instalação do Asilo, pelo Barão de Ibiapaba, por Resolução do Conselho de Intendência Municipal, que tinha como presidente o major Manoel Nogueira Barros. Esta Resolução, no entanto, durou pouco, apenas 6 meses, pois em Sessão do Conselho de Intendência Municipal, datada de 26 de abril de 1891, os interventores Guilherme César Rocha, Olegário dos Santos, Antônio Costa Sousa, José Albano Filho e o Presidente do Conselho, Joaquim de Oliveira Catunda, voltaram à sua denominação anterior, ou seja, Barão de Ibiapaba. 
  
prédio do Colégio Militar em 1932, com a Avenida Santos Dumont e os trilhos do bonde do Outeiro

Mais tarde, sua denominação foi mudada para Praça do Colégio Militar, em razão da adaptação do prédio do Asilo para Quartel do Regimento Policial do Estado, em seguida para a sede do Colégio Militar.
Em 1921, em homenagem ao Gen. Dr. Benjamin Constant de Magalhães, professor da Escola Militar, da Escola Superior de Guerra, Diretor do Instituto dos Cegos, e fundador da Escola Normal do Rio de Janeiro, passou a ser chamada de Praça Benjamin Constant.
Por fim, recebeu o nome de Praça da Bandeira, através da Lei n° 1671/60, publicada no dia 26 de dezembro de 1960, na gestão do prefeito Manuel Cordeiro Neto. 

A então Praça Benjamin Constant, com uma caixa d'água de onde era retirada a água que era transportada em lombo de burros para ser vendida a população, em 1938 (foto do livro Praças de Fortaleza
Na praça havia um coreto onde uma banda de música animava a população. Também havia um poço que jorrava água potável de excelente qualidade, que era carregada em burrinhos para venda. O fato de tão pitoresco servia de diversão para a gurizada.
Em 1943, na gestão do Prefeito Raimundo de Alencar Araripe foi feita uma completa remodelação do logradouro. Ali pela primeira vez, a 7 de setembro do mesmo ano, celebrou-se no Ceará, a “Hora da Independência”.



 A avenida Santos Dumont no trecho da Praça da Bandeira em três momentos diferentes: década de 30, anos 60 e ano de 2013. 
 
Em 1947 teve sua área diminuída de acordo com o Decreto-lei n° 1 de 30 de dezembro daquele ano, quando a praça foi transformada em campo de esportes e cedida a título precário à Escola Preparatória de Fortaleza, que contribuiu com 50% das respectivas despesas de adaptação.
Esta quadra de esportes recebeu o nome de General Eudoro Correia. A redução da área, porém, não afetou muito porque beneficiou os alunos do Colégio Militar e a praça continuou muito grande. O nome atual é uma homenagem à Bandeira Brasileira.

Bandeira do Império do Brasil durante o primeiro reinado

A Bandeira Nacional é o símbolo oficial de um país e nela estão estampados seus emblemas e suas cores. Consta que o Brasil teve cinco bandeiras até 1889, porém, a primeira bandeira realmente brasileira foi a de 1822, ano da independência do Brasil.
Foi projetada por Debret, por ordem de Dom Pedro I e se constituía de um retângulo verde e um losango amarelo, com as armas do império ao centro. Com a Proclamação da República em 1889, a bandeira foi novamente substituída. Conservou-se o retângulo verde, que simboliza a pujança das florestas, e o losango amarelo, que representa a riqueza mineral do solo brasileiro.
Mas o escudo da Monarquia foi substituído por uma esfera azul, cortada por uma faixa branca ligeiramente inclinada, ostentando o dístico “Ordem e Progresso”. É a única bandeira nacional que ostenta um dístico. Na esfera estão colocadas estrelas brancas representando os Estados brasileiros e o Distrito Federal.

 primeira versão da atual Bandeira Brasileira inspirada na bandeira do Império

Bandeira atual 

A posição relativa dessas estrelas obedece ao instante do dia sideral da Proclamação da República, na qual a constelação do Cruzeiro do Sul se apresentava  verticalmente em relação ao horizonte da cidade do Rio de Janeiro. Por um lapso do desenho, as estrelas foram dispostas como se fossem vistas através de um espelho.
O uso da Bandeira Nacional é regulado por lei. Entre os dispositivos mais importantes  estão: obrigatoriedade, horário, forma, posição e altura  de hasteamento; como aparecer em salões, em enterros, estendidas, sem mastro. Há também regras para proibições.   
As Bandeiras em mau estado de conservação devem ser entregues ao comando das unidades militares para serem incineradas solenemente, a 19 de novembro de cada ano, no quartel de uma unidade militar ou local designado pelas autoridades. Segundo alguns historiadores, a nossa Bandeira foi desenhada por Décio Vilares. A bandeira republicana ficou pronta e foi hasteada pela primeira vez em 19 de novembro de 1889, que ficou marcado como o Dia da Bandeira.

Extraído do livro Praças de Fortaleza
De Maria Noélia Rodrigues da Cunha 
fotos do Arquivo Nirez