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sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Asilo Bom Pastor, um abrigo para mães solteiras



No bairro do Jacarecanga, ficava o internato Bom Pastor, inaugurado em 1928, local onde eram confinadas as moças que tinham desviado suas condutas e, para não causarem vergonha à família, eram mandadas para lá e ali permaneciam até cair no esquecimento da sociedade.

As internas do Bom Pastor eram, geralmente,  moças solteiras “de família” que engravidavam, e eram afastadas do convívio familiar, antes que  a vizinhança percebesse o acontecido e começassem os comentários maldosos, e as especulações sobre paternidade. 

A mãe solteira ficava “falada” e desonrada, dificilmente arranjaria um noivo ou teria novamente um relacionamento sério. Assim  o expurgo familiar, evitava que tanto a moça quanto a família viesse a sofrer as consequências da desonra,  ou que o bom nome da família fosse maculado.  Depois com o passar do tempo e purgado a culpa, as internas retornavam aos lares, depois de terem recebido cursos e aprendido trabalhos manuais sob orientação das irmãs religiosas, como costurar, bordar,  cozinhar e outras atividades domésticas.



As moças recolhidas ao Bom Pastor tinha uma maneira peculiar no trajar:  se cobriam de preto, lenço na cabeça, e nas ocasiões em que frequentavam missas, usavam um véu no rosto, evitando assim o reconhecimento de pessoas que estavam na igreja e pudessem, porventura identifica-las. 

Saíam do Bom Pastor como quem deixa o cárcere depois de ter cumprido pena pelo mal cometido.  A criança fruto desse amor clandestino, era dada em adoção, com a condição de jamais poder ser revelado quem eram os verdadeiros pais, evitando manchar o nome da família ou dos pais do inocente que não pedira para vir ao mundo e nem poderia pagar por erro cometido.

fotos do arquivo Nirez

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Os anos 20 e o fim da Belle Epoque

A chegada da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) dizimando populações e devastando cidades em proporções nunca vistas, é considerada o marco que decreta o fim do modo de vida florido e eufórico que caracterizou a belle Epoque não só na Europa, mas também em Fortaleza. 
Família no Passeio Público e os trajes usados durante a Belle Epoque 
 
O pavor deixado pelas trincheiras, barricadas, saques, além da depredação e destruição de ícones da modernidade, entranhou uma profunda  apreensão no seio das elites, arrefecendo o entusiasmo com os belos tempos até então vividos na cidade.
Em 1915, uma nova estiagem despejou milhares de flagelados na capital: o medo do contágio e do retorno de epidemias impeliu o governo do Estado a criar, na periferia, um campo de concentração cercado (apelidado de “Curral dos Bárbaros” por Rodolfo Teófilo), para isolar os retirantes e mantê-los distantes do perímetro urbano central.
De 1917 a 1925 irrompe um inédito conjunto de greves e de combativas organizações operárias como a Associação Gráfica do Ceará e a Federação das Classes Trabalhadoras, sem falar da Criação dos Partidos Socialista e Comunista. 
 

Jardim 7 de Setembro na Praça do Ferreira, com um quiosque ao fundo. Foi construído por Guilherme Rocha, no início do século XX, quando a prioridade era o embelezamento da cidade. O Jardim e os quiosques, em número de quatro foram retirados em 1925 porque ocupavam muito espaço na Praça do Ferreira.
  

Como se não bastasse, para afetar a euforia e a tranquilidade das camadas dominantes, no mesmo período aumenta o número de delitos e transgressões na cidade. O cotidiano da capital tornou-se atribulado também  por conta do aumento dos fluxos urbanos desencadeado pelo adensamento populacional – nos anos 20 a população de Fortaleza atinge a casa dos 100 mil – e pela proliferação de automóveis, bondes, caminhões, e estabelecimentos comerciais no perímetro central.
Em razão desse volume crescente de conflitos, tensões e greves no centro da cidade,  as elites ali residentes principiam, a partir de 1915, a se transferir para uma área distante e desocupada, como o Jacarecanga. No correr dos anos 20 o arrabalde fica lotado de mansões e palacetes e torna-se efetivamente, o primeiro bairro elegante de Fortaleza. 

  O Jacarecanga foi o primeiro bairro a concentrar a elite da cidade


A seguir viriam Praia de Iracema (anos 30 e 40); Aldeota (anos 40/50 em diante), delineando com maior visibilidade a constituição de novos espaços burgueses, reforçando assim a segregação sócio- espacial entre ricos e pobres da cidade.
A introdução de automóveis (1910) e a instalação de bondes elétricos (1913) imprimiram maior velocidade ao  trânsito, provocando atropelamentos, forçando a criação da polícia de trânsito e uma reorientação dos pedestres no uso das vias públicas. 


A chegada dos bondes elétricos exigiu a colocação de grande número de postes e fios, o que comprometeu a beleza visual da cidade

Com os bondes elétricos uma boa quantidade de postes precisou ser instalada, começando a comprometer a harmonia do visual e o aformoseamento das ruas. Por outro lado, a multiplicação desses veículos, além da própria extensão urbana, concorreu para maior extensão de calçamentos, calçadas e abertura de novas ruas e avenidas. Além disso, foi necessário reduzir o tamanho de alguns logradouros centrais, caso da Praça do Ferreira em 1925, para facilitar a passagem e o estacionamento daquelas novas máquinas.  

A remodelação da Praça do Ferreira, na gestão do prefeito Godofredo Maciel em 1925, mudou radicalmente aquele espaço: além de implantar alamedas laterais para facilitar o trânsito, exigiu a demolição dos quatros cafés afrancesados e do jardim 7 de Setembro, que ocupavam quase toda a praça, deixando-a mais aberta ao fluxo de pedestres.  Os únicos toques de embelezamento permitidos foram a instalação de estreitos canteiros de flores nas extremidades e um coreto coberto no centro da praça. 


A Praça do Ferreira, antes da reforma de 1925. Na parada do bonde uma grande aglomeração, em frente à Intendência Municipal, esquina com a Rua Floriano Peixoto

A demolição dos cafés e do Jardim 7 de Setembro simbolizava assim, o fim da vigência da belle epoque em Fortaleza. Símbolos da modernidade,  datados do final do século e marcados pelos ideais de civilização e aformoseamento urbano, aqueles equipamentos conviveram romântica e harmoniosamente com o ritmo de bondes puxados por burros e charretes em volta da praça. Amplos e bucólicos, os cafés e o jardim agora eram vistos como obstáculos que deveriam desaparecer para dar passagem  ao vaivém frenético da multidão de transeuntes, automóveis e bondes elétricos dos agitados anos 20.

A Praça do Ferreira depois da reforma, em 1925. Canteiros estreitos e um coreto no centro.
 
Essa transformação  imposta à Praça do Ferreira, por ser o centro  nervoso e gravitacional da cidade, onde as principais mudanças e novidades ocorriam com maior ressonância, é exemplar para demonstrar também que, nos agitados anos 20, tem início a constituição de uma nova organização do espaço urbano fortalezense, baseada na racionalidade e não mais no embelezamento.

O centro, portanto, já não era mais o mesmo.  A Rua Formosa passou a se chamar Barão do Rio Branco e já perdia sua formosura, deixando de ser residencial para se tornar comercial. A tranquilidade, o conforto e a ambiência florida de antes cederam lugar ao burburinho e ao congestionamento, forçando as elites a se mudarem para o Jacarecanga. 


 A Avenida Pessoa Anta (antiga Rua da Praia) fazia parte de um conjunto de vias que partindo da Ponte Metálica deveriam atingir o centro urbano. 


Por sua vez a abertura de um sistema de avenidas em 1927, ligando o centro à Praia de Iracema (Praia do Peixe até 1925), já anunciava a emergência dos anos 30 em diante, da região leste  enquanto área residencial nobre e como lugar de uma nova fonte de lazer: o banho de mar. O movimento nesse sentido foi iniciado com a construção da bela mansão de veraneio, a Vila Morena, em 1928, na praia de Iracema.  A seguir vieram outros bangalôs, além de bares e clubes praianos. 

O banho de mar, antes utilizado apenas para fins de tratamento terapêutico recomendado por médicos, só se tornou opção de lazer a partir da liberalização comportamental e vestuária verificada nos anos 20 em diante. A praia antes ocupada por gente pobre como pescadores e estivadores, agora se transformava em espaço residencial elegante. 
 
Ainda nos anos 20, assiste-se uma mudança radical nos costumes e no modo de vestir, sobretudo das mulheres. A nova moda, escandalosa e ousada, traduziu-se no uso de vestidos curtos e sem mangas e o corte de cabelos curtos, iguais aos dos rapazes.  Dessa forma, para desespero de pais, maridos e namorados, as mulheres abandonam aquela aparência que vigorara durante séculos. 



fotos do Arquivo Nirez
Pesquisa:  
artigo "A Belle Epoque em Fortaleza: remodelação e controle", de Sebastião Rogério Ponte
publicado no livro Uma Nova História do Ceará. 
livro "Fatores de Localização e de Expansão da Cidade de Fortaleza", de José Liberal de Castro
      

sábado, 3 de novembro de 2012

O Cinema e o Futebol

Um dos primeiros filmes produzidos em Fortaleza teve como tema o futebol. A obra intitulada Temporada Maranhense de Football no Ceará retrata os quatro amistosos realizados por um combinado de São Luís, em 1924, contra o Ceará (vitória do Ceará por 4x2), Fortaleza (vitória por 4x0), América (vitória por 2x0) e Guarany, time da capital já extinto (derrota por 4x0).

 Fundada pelo comerciante Alcides Santos, a equipe do Stella Football Club, foi extinta poucos meses antes da fundação do Fortaleza. A explicação para a extinção do time (Stella era o nome de um colégio suíço onde estudavam os filhos de alguns nobres representantes da alta sociedade de Fortaleza), e a posterior criação do Fortaleza com as mesmas cores, estava no fato de que Alcides Santos não sabia precisar a data de fundação do Stela, o que tirava seu caráter oficial.


Os jogos aconteceram no Estádio do Alagadiço, num terreno ao lado de onde hoje está a Igreja de São Gerardo, na Avenida Bezerra de Menezes. Este é considerado o primeiro registro cinematográfico do Ceará e do Fortaleza, clubes mais tradicionais da cidade.
O filme fez parte de uma série de registros produzidos a partir da década de 20 pelo cearense Adhemar Albuquerque, considerado pioneiro na produção documental de qualidade técnica no cinema fortalezense.

Igreja de São Gerardo, na Avenida Bezerra de Menezes, onde num terreno ao lado, ficava o Estádio do Alagadiço 
 
Duas décadas depois do surgimento dos primeiros cinemas fixos em Fortaleza, o cineasta passou a rodar documentários em películas 35 milímetros, sobre aspectos e acontecimentos diversos da capital e de cidades do interior. Dessa forma, ele captou em suas lentes, por exemplo, os colégios da época, a indústria do sal, e as paradas militares de 7 de Setembro. Sensível ao fenômeno do futebol, que começava a virar febre no Brasil, cobriu toda a excursão do combinado maranhense e a sua repercussão em Fortaleza.

 Cine Moderno em 1924, onde  foi exibido o curta

O documentário, um curta-metragem em preto e branco e sem áudio, foi lançado no dia 15 de outubro de 1924, no Cine Moderno. Sobre a produção, o jornal Correio do Ceará teceu largos elogios na edição do dia seguinte: trata-se de uma interessante cinta cinematográfica, contendo phases dos jogos que se realizaram, flagrantes das archibancadas e do movimento de torcedores e gentis torcedoras para o fiel do Alagadiço, onde se feriram as pugnas. Há ainda outros aspectos do desembarque dos desportistas visitantes, dos teams, captains, juízes e auxiliares na temporada, publicou o jornal, num estilo ainda carregado de termos ingleses e grafias da época.

 Sala de Projeção do Cine-teatro Majestic Palace, que também exibiu o filme de Adhemar Albuquerque 

Numa época em que as viagens entre as capitais do país demandavam dias, receber uma equipe de São Luís significava um evento extraordinário para os futebolistas. Na esteira da repercussão dos amistosos dos maranhenses contra os grandes clubes cearenses em 1924,  Temporada Cearense de Football no Ceará virou um grande sucesso, segundo conta o livro Fortaleza – A Era do Cinema, de Ary Bezerra Leite. No dia 22 de outubro, o filme foi novamente exibido no Cine Moderno e também no Majestic.

 Loja da Aba Film, império da fotografia e da produção de imagens, fundada por Adhemar em 1934.

Na época com 32 anos, Adhemar se tornaria ainda mais famoso na cidade com a Aba Film, empresa de fotografia criada por ele em 1934. O pioneiro do cinema documental de Fortaleza, faleceu em 1975, aos 83 anos. Deixou uma vasta filmografia, boa parte dela perdida com o tempo. Para os fãs de futebol, ele foi um visionário que enxergou o potencial cultural do esporte quando muitos o consideravam um mero passatempo. 

extraído da Revista Fortaleza, fasciculo 8
fotos do Arquivo Nirez
 

domingo, 23 de setembro de 2012

O Meio-Fio e as Ruas do Centro


trecho canalizado do Riacho Pajeú entre a Rua 25 de março e a Avenida D. Manuel. Na gestão do prefeito Vicente Fialho (1971-75), foi cogitada a abertura de uma avenida(Avenida Pajeú) que margearia o que resta do histórico riacho. Não fizeram, lamentavelmente (foto do acervo do Blog)  

Segundo o historiador Mozart Soriano Aderaldo, Fortaleza, a exemplo de Roma é uma cidade construída sobre colinas. Além de assentar-se sobre uma planície que varia de 15 a 20 metros acima do nível do mar, facilmente percebida em toda a orla marítima, do Mucuripe ao Pirambu, existem ainda hoje, não obstante o esforço de minimizá-las com o aplainamento de ruas, diversas elevações menores que então dividiam os cursos d’água que desembocavam no mar ou reforçavam o Pajeú e o Cocó.

Ladeira da Rua General Sampaio, que terminava na Praia Formosa (arquivo Nirez) 

O riacho que partia da antiga Praça da Lagoinha (Praça Capistrano de Abreu), e que seguia em direção ao Pajeú, alcançando-o na altura do Mercado Central, era um deles. Outro curso d’água se dirigia da atual Praça Clóvis Beviláqua em demanda da Lagoa do Garrote, atual Parque da Liberdade onde se acha a Cidade da Criança, passando antes nas proximidades da Praça do Carmo, antiga Praça do Livramento. 

Rua no Bairro do Pirambu e a grande ladeira até a praia (foto do acervo do Blog)

Esses riachos serpenteavam entre pequenos outeiros. Quando da pavimentação da cidade, as ondulações foram amenizadas, razão por que em muitos trechos de ruas, justamente os aterrados, o piso das antigas casas era mais baixo  do que o novo nível da artéria, enquanto em outros trechos se dava justamente o contrário, formando-se as chamadas “calçadas altas”, resultantes do rebaixamento do leito do logradouro, fenômeno esse ainda hoje percebido na Rua Senador Pompeu, nos quarteirões entre as Ruas Senador Alencar e São Paulo e entre as Ruas Guilherme Rocha e Liberato Barroso.

Antiga Rua Sena Madureira e o grande desnível entre o calçamento da rua e a calçada (foto do Arquivo Nirez)

Constituíam sério problema, principalmente para os cegos e os velhos essas “calçadas altas”. Foi por isso que Ildefonso Albano, mais uma vez prefeito de Fortaleza, mandou assentar no final da década de 1920 – o até então para nós desconhecido – meio-fio, nivelando todas as calçadas e fixando sua largura. 

Essa iniciativa significou para Fortaleza um largo progresso, apesar dos desacertos cometidos nessa mesma administração, que na mesma época mandou substituir as mongubeiras, que sombreava nossos logradouros, com sua copa frondosa e bela, pelo fícus-benjamim, que estragava as calçadas e era viveiro de um inconveniente inseto que a população apelidou de “lacerdinha”.
     
extraído do livro de Mozart Soriano Aderaldo

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

A Modernidade Turbulenta dos Anos 20


No mesmo ano da inauguração do cine Majestic Palace (1917), veio à tona a primeira greve cearense realmente operária, a dos trabalhadores da Ceará Light and Power, movimento que se repetiria em 1918, 1925 e 1929. Antes já houvera as paralisações dos trabalhadores da Estrada de Ferro Baturité em 1891, e a dos catraieiros, em 1904.
No período em questão, o movimento operário no país, como um todo, revitalizava-se com as greves gerais anarquistas, a influência da revolução bolchevique na Rússia em 1917 e a emergência do Partido Comunista Brasileiro, em 1922. Em Fortaleza, para fazer frente à politização do operariado, o patronato local criou o Centro Industrial Cearense em 1919.

O problema da educação, ponto de vital importância para a produção do novo trabalhador que se desejava treinado, competente e civilizado, não podia ficar de fora das estratégias dos setores governamentais. Nesse sentido o governo de Justiniano de Serpa (1920-1923), realizou ampla reforma do ensino primário através do educador paulista Manuel Bergstrom Lourenço Filho, especialmente contratado para esse fim. 
Ressalte-se, porém, que a reorganização do sistema educacional empreendida por Lourenço Filho não se limitava apenas à educação pública. Outros itens considerados básicos e indissociáveis também foram observados, como higiene, arejamento e conforto das salas de aulas e novos edifícios colegiais. 

 Grupo Escolar do Benfica, inaugurado em 1923

Como o embelezamento da cidade compunha o dispositivo disciplinar urbano que envolvia saúde-saneamento-racionalidade, as novas escolas ganharam estilo neocolonial – numa tentativa de criar uma versão nacional do ecletismo arquitetônico – projetado pelo arquiteto Armando Oliveira, do Rio de Janeiro.
De fato, o aformoseamento continuou como uma das questões centrais do anseio de remodelação urbana da Capital. A década de 1920 evidenciando as preocupações nesse sentido viu surgirem expressivas obras públicas e privadas, que reformulavam os espaços e criaram outros. Dentre esses espaços estavam o Parque da Liberdade, a nova reforma da Praça do Ferreira e a constituição de bairros elegantes. 

Praça do Ferreira em 1919, com o Cine-Teatro Majestic Palace e o Café Elegante. O café, juntamente com outros três que ocupavam os quatro cantos da Praça, foram demolidos no ano seguinte, na reforma promovida pelo prefeito Godofredo Maciel. 

O Parque da Liberdade, na antiga lagoa do Garrote, localizado no centro urbano de então, recebeu completa reforma em 1922. Realizada por Ildefonso Albano, que substituíra Justiniano de Serpa, falecido em 1923, o Parque veio repartir as opções de lazer com o Passeio Público. O logradouro recebeu cerco de gradil de ferro, muretas de alvenaria em estilo colonial, grande portão de entrada com azulejos portugueses e demais ornamentos internos.  No alto do portão da entrada principal, deveria ser implantada uma cópia em tamanho pequeno da Estátua da Liberdade, de Nova York, sendo, no entanto, substituída por um índio que partia dos grilhões da submissão colonial.
Na gestão de José Moreira da Rocha (1924-1928), além da inauguração do serviço de abastecimento de água e esgotos, obra que se arrastava desde o início do século, foi procedida ampla reformulação da Praça do Ferreira, a principal da cidade. A obra foi exigida por motivos higiênicos e estéticos, mas, sobretudo, para racionalizar a circulação de pedestres, bondes e automóveis.
A nova praça do Ferreira também recebeu amplo piso de ladrilhos, mas sacrificou os quatro quiosques, tipo chalés de madeira, que se localizavam  nos quatro cantos da praça. 

 Avenida Pessoa Anta

Em 1927 concluía-se um sistema de avenidas ligando o centro à praia. Em seu trajeto as novas vias passavam pelo Quartel Federal, Praça da Sé,  Alfândega, armazéns de exportação e Secretaria da Fazenda.
O projeto das avenidas não alterou o traçado da cidade, posto que foram aproveitadas vias já existente, mas com ocupação rarefeita (valorizando, consequentemente, os terrenos desocupados da área). Estas vias que se transformam em avenidas nos anos 20, já estavam previstas na planta urbanística feita por Adolfo Herbster em 1875, cujo plano em forma de xadrez, antecipou o crescimento disciplinado da cidade, sem necessidade de grandes intervenções urbanas.

 A Avenida Duque de Caxias é uma das três avenidas mais antigas da cidade - era um dos boulevards criados por Adolfo Herbster,  na Planta da Cidade de Fortaleza e Subúrbios, de 1875

A planta de Herbster, porém, foi perdendo sua força sistematizadora ainda naquela década, principalmente a partir dos anos 1930.
Estudiosos dos dias atuais, que se debruçam sobre a formação do espaço urbano de Fortaleza, concordam que a Capital sofre um crescimento desordenado a partir dos anos 30.  Diante da constatação do problema, em 1932, o Prefeito Tibúrcio Cavalcante alerta sobre a necessidade inadiável de ser adotado um plano de sistematização urbana. 
Coube, porém ao sucessor, Raimundo Girão, contratar o arquiteto Nestor de Figueiredo, cujo plano de remodelação, o primeiro depois de Herbster, foi abandonado na gestão municipal seguinte, do prefeito Álvaro Weine, sob a alegação de que a cidade precisava de outras realizações mais necessárias.
No que diz respeito às camadas dominantes, a expansão e a movimentação pública do perímetro central nos anos 20 foram suficientes para fazê-las se transferirem do centro para áreas periféricas desocupadas. Estas redundaram na formação dos primeiros bairros ricos.

 Avenida Philomeno Gomes, no Jacarecanga

Na verdade, o deslocamento burguês começou lentamente a partir de 1915, poucos anos após a revolta urbana de 1912, em razão do medo causado pelas depredações, saques e incêndios e no momento da entrada de flagelados na Cidade, vindos do sertão, devido a seca de 1915.
As primeiras mansões levantadas no lado oeste da cidade, no arrabalde de jacarecanga, aproveitando a continuação da Travessa Municipal (atual Rua Guilherme Rocha).
A ocupação do Jacarecanga e, em menor escala, da Praia de Iracema pelas elites a partir da década de 20, configura o surgimento dos primeiros bairros elegantes da Capital, delineando com maior visibilidade os novos espaços burgueses e reforçando a segregação sócio-espacial entre ricos e pobres.

Avenida Santos Dumont

Inquestionavelmente, naquele final de Primeira República, a tensão social entre os diversos segmentos sociais urbanos se agravou em Fortaleza, como de resto em todo o país. O perímetro central crescia com o movimento acelerado de carros, lojas, armazéns, oficinas, cinemas, parques e clubes.
O movimento da multidão na Capital também se adensou – a população em 30 atinge os 100 mil habitantes – e na sua maior parte era formada pela massa  que o poder procurava disciplinar - e que ao mesmo tempo produzia operários e demais categorias de trabalhadores, os desempregados, os mendigos, os menores abandonados, as prostitutas e todos os pobres em geral, com suas aparências e comportamentos tidos como selvagens, nocivos e inadequados.  

 Avenida Santos Dumont

A resistência das camadas populares ante os variados mecanismos disciplinadores que lhe afetavam cotidianamente tanto nos espaços públicos como privados, expressou-se sob as mais diversas formas: além das já apontadas, houve relutância em receber vacinas, a conservação de certos hábitos, crenças e posturas, o desapego ao trabalho sistematizado. Mas houve também resistência por parte das classes dominantes, pois se tratava de um enfrentamento de forças sociais em todas as horas, dias, lugares e relações.

fotos do Arquivo Nirez
Extraído do livro de Sebastião Rogério Ponte
Fortaleza Belle Epoque: Reformas Urbanas e Controle Social (1860-1930)