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sábado, 9 de abril de 2016

Uma Vila Inexpressiva

A cidade antiga é próxima, pois é o lugar que reconhecemos como casa; ou como deveria ser uma Fortaleza. Então temos o nosso encontro marcado com o tempo, o tempo de fazer da cidade o que de melhor seria para cada um de nós; com o tempo de construirmos a cidade que sonhamos e que perdemos. 
(do artigo O Encontro marcado com o tempo do professor Antônio Otaviano Vieira Junior) 

Centro de Fortaleza  (foto de Muhammad Said)

Uma das Capitanias hereditárias criadas na época da colonização portuguesa, a Capitania do Ceará foi praticamente relegada ao abandono por parte do seu donatário, Antônio Cardoso de Barros. Apenas índios habitavam o sitio onde viria a surgir Fortaleza. Somente em 1603, o açoriano Pero Coelho de Sousa construiu o forte de São Tiago, na Barra do Ceará, ao redor do qual nasceu o povoado de Nova Lisboa.

Vista da Barra do Ceará com o Forte de São Sebastião. Desenho de Frans Post - 1645 

Em 1612 o capitão português Martim Soares Moreno edificou o forte de São Sebastião no mesmo local, mais precisamente junto a ermida de Nossa Senhora do Amparo.

A Capitania do Ceará esteve subordinada à Capitania do Maranhão e Grão-Pará e depois a Pernambuco, além de ter sido alvo da cobiça colonialista europeia.

Forte de São Sebastião, na Barra do Ceará, construído em 1612 por Martim Soares Moreno, no mesmo local onde,  em 1603, o açoriano Pero Coelho, erguera o fortim de São Tiago. 

Em 1637 chegou ao Ceará a primeira expedição holandesa que ocupou o semi-abandonado  forte de São Sebastião, onde permaneceu por sete anos explorando sal e âmbar gris, até que seus integrantes foram dizimados pelos índios. 

Outra expedição holandesa comandada por Matias Beck, desembarcou em 1649 no Mucuripe, e construiu o forte Schoonenborch, na embocadura do Riacho Pajeú, para defender-se dos nativos aliados dos portugueses, ali permanecendo também por sete anos. Assim que os invasores foram expulsos, o forte foi apropriado pelos portugueses e renomeado de Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção. 

Entre 1660 e 1698 surgiu um acanhado povoado, no qual foi erigida uma capela dedicada a Nossa Senhora da Assunção, além de uma praça de armas. 

A Carta Régia que autorizou a criação da Vila do Ceará ou de São José de Ribamar em 1699, originou muita polêmica em torno da questão fundamental onde estabelecer o Pelourinho, coluna de pedra ou madeira simbolizando a autonomia municipal. Os desentendimentos entre as autoridades levaram a decisão de elevar Aquiraz à condição de vila e sede da Capitania em 1713.
    
A decisão de instalar a vila em Aquiraz não foi das mais acertadas. Em agosto de 1713 os índios atacaram aquela comunidade ocasionando muita destruição e morte – cerca de 200 pessoas  perderam a vida –  levando muitos habitantes a buscarem proteção dos ataques no fortim de Nossa Senhora de Assunção.  Dos ataques dos índios Paiacus e Anassés, só escapou quem fugiu para Fortaleza. 

A ofensiva levou os próprios integrantes da Câmara, os chamados camareiros, a mudarem de ideia. Passaram então a defender que a sede da Vila do Ceará deveria ficar em Fortaleza. 

 Primeira planta da Vila de Fortaleza de Nossa Senhora de Assunção, de 1726, atribuída ao capitão-mor Manuel Francês. O traço forte do Pajeú divide a Vila em duas.

Contrariado com a situação, o rei de Portugal, em vez de simplesmente transferir a sede da vila, mandou criar outra. Assim, a 13 de abril de 1726 foi instalada a vila de Fortaleza de Nossa Senhora de Assunção, a segunda do Ceará,  pelo capitão-mor Manuel Francês. A motivação para a instalação desta segunda vila foi o de incentivar o desenvolvimento da capitania.
 
Planta da Villa de Fortaleza de Antônio da Silva Paulet

A "Planta da Villa", elaborada por Antônio da Silva Paulet, em 1818, mostra prédios dispersos nas margens do Pajeú e na Prainha, e caminhos que chegavam do interior. Coube ao mesmo Silva Paulet a proposta de um novo arruamento para a vila, o projeto e a construção da nova Fortaleza da Assunção.

fontes: 
Fortaleza, 27 Graus - Prefeitura de Fortaleza
História do Ceará - Airton de Farias 

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Aspectos da Formação do Espaço Urbano

O Traçado Urbano


Rua das Belas - atual Floriano Peixoto - no início do século XX

Em 1818, o engenheiro Antônio da Silva Paulet imaginou a cidade como um tabuleiro de xadrez. Assim surgiu a “Planta da Villa”, 92 anos depois do esboço de Manuel Francês, para organizar o espaço urbano de Fortaleza – que crescia desordenada, entre à margem direita do Riacho Pajeú e a praia – estabeleceu uma reta, ao largo da parede sul do Forte; e a partir dela, a 90º, deveriam iniciar-se as ruas de sentido norte-sul – dessa forma  implantam-se as ruas Formosa/Barão do Rio Branco, da Palma/Major Facundo e das Belas/Floriano Peixoto. A estas incidiram octogonalmente as ruas de sentido Leste-Oeste. 


A cidade xadrez em vista aérea nos anos 60

O traçado de Paulet foi mantido por Adolfo Herbster, arquiteto que em 1875, propõe a Planta Topográfica da Cidade de Fortaleza e subúrbios. Como o nome indica, considera além do que se tinha como cidade, anexando-lhe três bulevares (à semelhança  das reformas do Barão de Haussmann) do Imperador, Duque de Caxias e da Consolação (D. Manuel) – em redor do centro, facilitam o tráfego. A planta de Herbster disciplinaria a expansão de Fortaleza até 1930: corrigia becos, desvios e ruas desalinhadas que facilitavam motins urbanos, substituindo-os por vias alinhadas, longas e cruzadas em ângulo de 90° que favoreciam a vigília do poder sobre as cidades. 

As modificações no desenho de ruas e praças devem não apenas traduzir no espaço os ideais de progresso e civilização, mas se prestam a disciplinar o comportamento dos habitantes. Herbster reforça o projeto de 1875 com a "Planta da Cidade de Fortaleza Capital da Província do Ceará" em 1888. 
 
Em par com a ação preventiva de ocupação do solo, considera a obsessão higienista do século XIX com a necessidade de amplos logradouros para facilitar a passagem das correntes de vento, porquanto se acreditava que o ar contaminado pela estagnação dos aglomerados urbanos era uma das terríveis causas de epidemias e mortalidades.

O Abastecimento de Água


Aguadeiros se preparam para a distribuição de água em lombos de burro. Este poço ficava na antiga Rua da Cachorra Magra, atual marechal Deodoro, no Benfica 

O memorialista Raimundo de Menezes conta que, até 1827, Fortaleza não tinha ideia do que fosse abastecimento de água. A água era de poço, trazida por aguadeiros em lombo de burro. Em setembro daquele ano, leis provinciais autorizam o início do serviço por chafarizes. Antes, em 1812, o Conselho da Vila de Fortaleza acertou com o tenente-coronel João da Silva Feijó o aproveitamento de uma das nascentes do seu sítio, na Rua do Quartel, para a construção do primeiro chafariz público. 


Praça Clóvis Beviláqua, a antiga Praça do Encanamento

Somente nos anos de 1860, estuda-se um projeto de distribuição de água. Dessa vez, com as bênçãos de D. Luiz Antônio dos Santos e encanamento do sítio de José Paulino Hoonholtz, no Benfica, para quatro chafarizes espalhados pela cidade: nas praças da Municipalidade (do Ferreira) Capistrano de Abreu, do Patrocínio (José de Alencar) e Garrote (Cidade da Criança). O caneco custava 40 réis. Cacimbas na Lagoa do Garrote, no Passeio Público e na Lagoinha também abasteceram a cidade até cerca de 1920, quando se ampliou o sistema subterrâneo.

Progresso e Lazer


Praça General Tibúrcio, antigo Largo do Palácio

Um dos nomes mais relacionados ao “progresso” de Fortaleza é o de Ildefonso Albano. Assumindo a gestão em 1912-1914 (intendente) e 1923-1924 (vice-governador) idealiza o matadouro modelo, o mercado de verduras, a vila operária (casas asseadas e ajardinadas) para criar no proletariado o gosto pela intimidade do lar, a tempo em que não se comprometia nas tentações nocivas e licenciosas das ruas, bares e bordéis. 

Cuida dos calçamentos, reforma a Praça General Tibúrcio, dando-lhe a paisagem de cássias imperiais, jacarandás, casuarinas, araucárias e palmeiras; um coreto e 49 combustores; apresenta às calçadas altas o meio-fio; e forma a banda municipal, que uma vez por semana, toca nas retretas dos logradouros públicos.
 

fonte: Revista Fortaleza, fascículo 9 
fotos do Arquivo Nirez
     

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Modernização e Adversidade Climática


Casa residencial na Avenida Visconde de Cauípe

Os anseios por modernização em Fortaleza começaram a se materializar ainda no final do século XIX.  A partir das décadas de 60 e 70 o perfil da cidade começa a sofrer alterações. Na década de 60 surgem o Lazareto da lagoa Funda e a Santa Casa de Misericórdia, para zelarem pela saúde pública, pois como ressaltava o saber médico social da época, sem homens sadios para o trabalho, não haveria produção de riquezas nem progresso.

  A Santa Casa foi inaugurada a princípio com 80 leitos e tinha como mantenedora a Irmandade Beneficente da Santa Casa da Misericórdia de Fortaleza. O Dr. Joaquim Antônio Ribeiro foi o primeiro médico nomeado para trabalhar na Santa Casa, em 12 março de 1861.
 
Na década seguinte, em 1870, a remodelação prosseguia com a instalação da ferrovia para Baturité, a construção de um novo cemitério, a criação da Academia Francesa, a iluminação a gás e o plano urbanístico de Adolfo Herbster.

A inauguração da Estrada de Ferro Baturité, em 1873, agilizando o transporte do algodão e de pessoas para a cidade, consolidou a hegemonia econômica de Fortaleza. Estreitando a distância e a dependência do interior com a capital, o trem, um dos principais produtos do avanço tecnológico do século XIX, reforçou mais ainda os resultados positivos dos efeitos sociais do progresso.

A Estação Central da Estrada de Ferro de Baturité foi inaugurada no dia 30 de novembro de 1873 e no dia 9 de junho de 1880, ela seria reinaugurada depois de passar por alterações definitivas

A edificação de um novo cemitério – o São João Batista, em 1872 – em local mais afastado (Jacarecanga), justificou-se pela pressão médica de suprimir a necrópole anterior, o São Casimiro, que comprometia o estado sanitário urbano por achar-se muito próximo (na Praça da Estação) do perímetro central, além de ter sepultado vítimas da epidemia de cólera, ocorrida entre 1862 e 1864. Pouco depois seria a vez de alcoólatras, loucos e meretrizes, acusados de potencialmente perigosos á saúde e à segurança pública, serem também confinados fora da região central.
  
 Capela do cemitério São João Batista ainda em construção

O novo cemitério logo seria povoado com exuberantes sepulturas em estilo gótico e refinadas esculturas importadas de anjos e figuras melancólicas. Nesse sentido o São João Batista revela tanto a imponência da arte cemiterial da época, como o poderio dos setores dominantes.

Também na cidade dos vivos, essa consagração econômica evidenciava-se através do surgimento de suntuosos sobrados e palacetes. Ostentando estilos em voga na Europa, estas novas construções tomavam o lugar do casario modesto, desenhando um novo rosto para a cidade. 

A iluminação a gás carbônico, por sua vez, substituindo a de azeite de peixe, deu mais vida e sociabilidade às noites fortalezenses, fazendo com que a população fosse dormir mais tarde. Por motivos de economia, por algum tempo estabeleceu-se o costume de não acender os lampiões em noite de lua cheia.

 Avenida Alberto Nepomuceno

A cidade se expandia visivelmente. Para disciplinar seu crescimento espacial foi contratado pelo governo cearense o engenheiro Adolfo Herbster, que em 1875 elaborou a “Planta Topográfica de Fortaleza e Subúrbios”. Atualizando o sistema de traçado urbano na forma de xadrez esboçado por Silva Paulet em 1818, o plano urbanístico de Herbster estendia o alinhamento das ruas até os subúrbios, corrigindo becos e vias sinuosas; esse traçado retilíneo agilizava o fluxo de pedestres, veículos e mercadorias. Ao deixar a capital mais aberta e transparente, o plano dificultava possíveis ocorrências de revoltas e distúrbios, facilitando o controle dos poderes públicos sobre a cidade.

 Avenida Dom Manuel, antigo boulevard da Conceição

O plano de Herbster incluiu ainda a abertura de três avenidas (as atuais avenidas do Imperador, Duque de Caxias e Dom Manuel), circundando o perímetro central;  o engenheiro projetou ainda um conjunto de obras públicas, entre as quais o edifício que iria sediar a  Assembleia Provincial, em 1871, em estilo neoclássico. 

 edifício da Assembleia Provincial, onde funciona atualmente o Museu do Ceará

A devastadora seca de 1877-1879 interrompeu temporariamente esse fluxo modernizador que se instaurava na cidade. Além de desestabilizar a economia cearense e provocar intenso êxodo rural  para a capital, a longa estiagem possibilitou a propagação de uma fulminante epidemia de varíola, vitimando mais da metade dos 100 mil retirantes amontoados em abarracamentos providenciados pelo governo na periferia de Fortaleza. 

 retirantes da seca de 1877 (foto do google)

Ao longo desses três anos, com a capital assistindo ao féretro diário de centenas de mortos, a cidade tomou-se de pavor e pesar, não existindo clima para que grandes obras ou novidades fossem patrocinadas.
Tinha Fortaleza o aspecto de sombria desolação. A tristeza e o luto entravam em todos os lares. O comércio completamente paralisado dava às ruas a feição de uma terra abandonada.
A cidade não estava preparada para tamanha calamidade. O Lazareto da Lagoa Funda, edificado em 1856 para confinar doentes contagiosos, só dispunha de 300 leitos e os acometidos pela varíola eram milhares. 



O auge daquele teatro de horrores foi o dia 10 de dezembro de 1878, quando o cemitério do Lazareto recebeu 1004 vitimas da epidemia, ficando por muito tempo na memória da cidade como “O Dia dos Mil Mortos”. O medo alastrou-se no seio da população nativa, sobretudo quando a varíola vitimou a esposa do presidente da província. A partir desse fato ninguém mais se considerou a salvo, mesmo na área urbana mais protegida.

O repulsivo e perigoso trabalho de transportar os cadáveres dos abarracamentos até o cemitério do Lazareto, só encontrou aceitação entre aqueles que compunham o crescente contingente de miseráveis produzidos pelo crescimento econômico excludente. Afora a diária de mil réis e comida, os voluntários exigiram também o fornecimento de aguardente para poderem encarar semelhante tarefa.


extraído do artigo de Sebastião Rogério Ponte
A Belle Epoque em Fortaleza: remodelação e controle
publicado no livro  Uma Nova História do Ceará 
fotos do arquivo Nirez

domingo, 30 de setembro de 2012

Adolfo Herbster, e os Mapas de Fortaleza


Pernambucano, nascido em 14 de maio de 1820, filho de pai suíço-alemão e mãe francesa, Adolfo Herbster veio para o Ceará em 1855, desembarcando em Fortaleza a 29 de janeiro. Veio contratado para trabalhar como engenheiro da Província, tendo firmado contrato em 21 de novembro daquele ano. No ano seguinte assumia a direção das obras públicas gerais, para o qual fora designado pelo Presidente Francisco Xavier Paes Barreto. 

Em sessão do ano anterior, a Câmara Municipal havia decidido dispensar o arruador Antônio Simões Ferreira de Farias que “não pode desempenhar este lugar porque quase sempre está fora da cidade, ficando muitas vezes empatadas as obras dos particulares”.  Assim, deliberou-se que o engenheiro da província deveria ser contratado para ser também o engenheiro da Câmara, obrigado a cordoar e tudo o mais que fosse concernente à sua profissão.



E efetivamente Herbster substituiu ao velho Simões Ferreira, desde muito tempo no exercício das funções de arruador e cordoador, uma espécie de arquiteto leigo. Muitos bons serviços prestou Herbster à Capital, não somente pelo levantamento de cartografias, como a Planta da Cidade de Fortaleza de 1852, mas também pela construção de edifícios, estradas e várias outras obras, como a Via Fortaleza-Maranguape e a ponte que ligava a Praça da Sé à Prainha, na “subida do Seminário”.

Adolfo Herbster era de uma paciência infinita em se tratando de ordem e simetria dos arruamentos,  desapropriando, medindo e alinhando, de modo a servir a beleza da cidade e fazer observar o Plano Paulet, que devia dividir a cidade em paralelogramos. 
 
A maior prova disso, com efeito, está nas cartas de Fortaleza que traçou, tendo em mira, a sua remodelação e notadamente, à sua ampliação. A primeira, de abril de 1859, levantada por ordem da Câmara e aprovada pela lei provincial n° 914, de 12 de setembro, está na escala de 4.800 palmos e 480 braças e se restringe ao estado atual da cidadezinha acanhada. Sua população, contando com os subúrbios, constituídos de tugúrios de palha, não ultrapassava os 16 mil habitantes. Casas de tijolo, alinhadas, apenas 690, dos quais 80 eram sobrados.
 
A segunda data de 1875. Intitula-se “Planta Topográfica da Cidade de Fortaleza e Subúrbios”, porém, é antes de tudo, um traçado expansionista: pretende disciplinar o crescimento da cidade, levando o sistema xadrez muito além da parte construída. A escala dessa planta é ainda em palmos.


 Avenida dom Manuel, antigo Boulevard da Conceição

 Avenida Duque de Caxias, antigo Boulevard Duque de Caxias

Avenida do Imperador, antigo Boulevard do Imperador

preocupado com o direcionamento do crescimento da cidade, Herbster desenha na sua segunda planta de 1875, não só a situação real da cidade, mas o seu plano de expansão. Ele propõe os boulevards, as grandes avenidas circundando o espaço urbano já habitado: os Boulevards da Conceição, Duque de Caxias e Imperador.  

De 1888 é a última, organizada pelo arquiteto no pleno gozo de sua aposentadoria. “Planta da Cidade de Fortaleza Capital da província do Ceará” , é o título. De grandes dimensões e escala de 0,005=100 palmos e consolida o enxadrezamento. Impressa em Paris, por Burke e Cie, num dos exemplares, existente no Museu do Ceará, Herbster, a tinta, consigna as cotas de altitude  de vários pontos da cidade. Também naquele museu se guarda, na “Sala da Cidade”, a prancheta de trabalho do ilustre cartógrafo. 

Ainda outros mapas deixou Adolfo Herbster: A Planta da Povoação de Arronches, Planta do Porto da Cidade de Fortaleza, 1887, e a planta cadastral dos terrenos foreiros a N.S. do Rosário de Fortaleza. 


Palácio Senador Alencar, que abrigou a Assembleia até a década de 1970 (foto O Nordeste)

São ainda de sua autoria, os planos e desenhos do Paço da Assembleia Legislativa, cujas obras, inicialmente (1856) estiveram sob a responsabilidade do empreiteiro Joaquim da Fonseca Soares e Silva. Interrompidas mais de uma vez, acabaram entregues exatamente a quem as projetara. De fato, em 1867, Herbster contratou com o governo os serviços finais de carpintaria, marcenaria, pintura e outros acabamentos dos pavimentos térreo e superior do prédio, que foi concluído em 1871.


Nesta casa localizada no cruzamento da Rua Conde d'Eu com a Rua Sobral, na Praça da Sé,  funcionou a primeira sede da Assembleia Provincial do Ceará. 


Quando de sua instalação em 7 de abril de 1835, pelo Presidente José Martiniano de Alencar, a assembleia localizava-se em prédio da Praça da Sé, no qual mais tarde esteve a Casa Singlehurst. Nas palavras do presidente Dr. Joaquim Vilela de Castro Tavares, mais parecia edifício destinado às sessões de alguma municipalidade de aldeia. Em 1859 mudou-se para o Paço da Câmara Municipal (Intendência), na Praça do Ferreira.

Adolfo Herbster casou-se a primeira vez com Henriqueta Maria de Almeida, falecida em maio de 1866, e a segunda com Filismina Lopes. Faleceu em 12 de novembro de 1893, em Fortaleza, completamente esquecido. Os jornais da época mal noticiaram sua morte. O Barão de Studart, nas suas tão minuciosas Datas e Fatos, deixou em branco a data do seu desaparecimento. Só em 1932, veio seu nome a figurar na placa de denominação de uma rua, numa homenagem tardia, prestada por Raimundo Girão quando exerceu o cargo de Prefeito de Fortaleza.



fotos do Arquivo Nirez
Extraído do livro de Raimundo Girão
Geografia Estética de Fortaleza

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Silva Paulet e a Cidade Xadrez

 Fortaleza vista do alto, foto (provavelmente) dos anos 30
 Planta do Porto e Villa da Fortaleza, de autoria de Silva Paulet.

O Português Antônio José da Silva Paulet, ajudante de ordens do governador é personagem central na evolução do desenho da cidade de Fortaleza. Ele traça a “Planta da Villa” em 1818 – embora a versão que chegou à posteridade seja de 1831. O Riacho Pajeú continua aparecendo como limite físico, com poucos indícios de mancha urbana para a margem direita. 
Chamam a atenção as vias que levavam às saídas da Vila. Essas saídas, todas convergentes para o Centro, das quais algumas não subsistem, já antecipavam o plano radial que Fortaleza viria a assumir. 

A cidade tem um núcleo original, que se irradia para o interior a partir das vias de penetração: a estrada de Soure, de Caucaia que corresponde à BR-222, a Estrada das Serras, Visconde de Cauípe, hoje Avenida da Universidade que ligava Fortaleza a Maranguape e Pacatuba, o calçamento de Messejana, hoje BR-116, a via que ligava aos Arronches, a Vila da Parangaba, além da picada do Mucuripe, onde havia o farol como remanescente das preocupações portuguesas em vigiar a costa.

Estrada Fortaleza - Parangaba 1929

Inicialmente, ao longo destas vias, se estabeleceram as famílias abastadas vindas do interior; desejando a proximidade com a cidade sem abrir mão das vantagens da vida rural, estas famílias se instalam em sítios e chácaras.

Na planta de Paulet, não se nomeiam as edificações, a cidade aparece dividida em blocos, como o primeiro indício do traçado xadrez que a capital viria a ganhar – e até hoje marca a configuração de sua malha urbana. Nas plantas que desenhou Paulet traçou ainda que vagamente, o futuro axadrezado do desenho da vila.  Desde Paulet, o risco de ruas paralelas passou a ser uma constante na cidade, de modo que os primeiros sobrados fortalezenses, erguidos a partir daquela época, observaram o alinhamento em retícula. 

 O prédio da Intendência Municipal foi o primeiro sobrado da cidade. Tinha 4 frentes: uma para a Praça do Ferreira, outra que ligava a Praça com a Rua Pará, outra para a Rua Pará e uma para a Rua Floriano Peixoto. Foi demolido porque nós não zelamos, nem valorizamos nada do passado.

A organização enxadrezada proposta por Silva Paulet encontrou no presidente da Câmara Antônio Rodrigues Ferreira, o Boticário Ferreira, um grande entusiasta. Por encomenda dele outros mapeamentos da cidade foram feitos, mas eram imprecisos. A primeira representação precisa da organização urbana de Fortaleza, é a Planta Exacta da Capital do Ceará, de 1859, a primeira de três plantas desenhadas pelo pernambucano Adolfo Herbster.  

O currículo do português Silva Paulet, que permaneceu no Ceará até 1821, traz ainda outra ligação intima com a história da capital: ele projetou e construiu a nova Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção, considerada a edificação mais antiga da cidade. 


Fonte:
Revista Fortaleza, fasciculo 10, de 11 de junho de 2006
Roteiro Sentimental de Fortaleza, Coordenação de Simone de Souza
e Sebastião Rogério Ponte
fotos do Arquivo Nirez
 

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

A Modernidade Turbulenta dos Anos 20


No mesmo ano da inauguração do cine Majestic Palace (1917), veio à tona a primeira greve cearense realmente operária, a dos trabalhadores da Ceará Light and Power, movimento que se repetiria em 1918, 1925 e 1929. Antes já houvera as paralisações dos trabalhadores da Estrada de Ferro Baturité em 1891, e a dos catraieiros, em 1904.
No período em questão, o movimento operário no país, como um todo, revitalizava-se com as greves gerais anarquistas, a influência da revolução bolchevique na Rússia em 1917 e a emergência do Partido Comunista Brasileiro, em 1922. Em Fortaleza, para fazer frente à politização do operariado, o patronato local criou o Centro Industrial Cearense em 1919.

O problema da educação, ponto de vital importância para a produção do novo trabalhador que se desejava treinado, competente e civilizado, não podia ficar de fora das estratégias dos setores governamentais. Nesse sentido o governo de Justiniano de Serpa (1920-1923), realizou ampla reforma do ensino primário através do educador paulista Manuel Bergstrom Lourenço Filho, especialmente contratado para esse fim. 
Ressalte-se, porém, que a reorganização do sistema educacional empreendida por Lourenço Filho não se limitava apenas à educação pública. Outros itens considerados básicos e indissociáveis também foram observados, como higiene, arejamento e conforto das salas de aulas e novos edifícios colegiais. 

 Grupo Escolar do Benfica, inaugurado em 1923

Como o embelezamento da cidade compunha o dispositivo disciplinar urbano que envolvia saúde-saneamento-racionalidade, as novas escolas ganharam estilo neocolonial – numa tentativa de criar uma versão nacional do ecletismo arquitetônico – projetado pelo arquiteto Armando Oliveira, do Rio de Janeiro.
De fato, o aformoseamento continuou como uma das questões centrais do anseio de remodelação urbana da Capital. A década de 1920 evidenciando as preocupações nesse sentido viu surgirem expressivas obras públicas e privadas, que reformulavam os espaços e criaram outros. Dentre esses espaços estavam o Parque da Liberdade, a nova reforma da Praça do Ferreira e a constituição de bairros elegantes. 

Praça do Ferreira em 1919, com o Cine-Teatro Majestic Palace e o Café Elegante. O café, juntamente com outros três que ocupavam os quatro cantos da Praça, foram demolidos no ano seguinte, na reforma promovida pelo prefeito Godofredo Maciel. 

O Parque da Liberdade, na antiga lagoa do Garrote, localizado no centro urbano de então, recebeu completa reforma em 1922. Realizada por Ildefonso Albano, que substituíra Justiniano de Serpa, falecido em 1923, o Parque veio repartir as opções de lazer com o Passeio Público. O logradouro recebeu cerco de gradil de ferro, muretas de alvenaria em estilo colonial, grande portão de entrada com azulejos portugueses e demais ornamentos internos.  No alto do portão da entrada principal, deveria ser implantada uma cópia em tamanho pequeno da Estátua da Liberdade, de Nova York, sendo, no entanto, substituída por um índio que partia dos grilhões da submissão colonial.
Na gestão de José Moreira da Rocha (1924-1928), além da inauguração do serviço de abastecimento de água e esgotos, obra que se arrastava desde o início do século, foi procedida ampla reformulação da Praça do Ferreira, a principal da cidade. A obra foi exigida por motivos higiênicos e estéticos, mas, sobretudo, para racionalizar a circulação de pedestres, bondes e automóveis.
A nova praça do Ferreira também recebeu amplo piso de ladrilhos, mas sacrificou os quatro quiosques, tipo chalés de madeira, que se localizavam  nos quatro cantos da praça. 

 Avenida Pessoa Anta

Em 1927 concluía-se um sistema de avenidas ligando o centro à praia. Em seu trajeto as novas vias passavam pelo Quartel Federal, Praça da Sé,  Alfândega, armazéns de exportação e Secretaria da Fazenda.
O projeto das avenidas não alterou o traçado da cidade, posto que foram aproveitadas vias já existente, mas com ocupação rarefeita (valorizando, consequentemente, os terrenos desocupados da área). Estas vias que se transformam em avenidas nos anos 20, já estavam previstas na planta urbanística feita por Adolfo Herbster em 1875, cujo plano em forma de xadrez, antecipou o crescimento disciplinado da cidade, sem necessidade de grandes intervenções urbanas.

 A Avenida Duque de Caxias é uma das três avenidas mais antigas da cidade - era um dos boulevards criados por Adolfo Herbster,  na Planta da Cidade de Fortaleza e Subúrbios, de 1875

A planta de Herbster, porém, foi perdendo sua força sistematizadora ainda naquela década, principalmente a partir dos anos 1930.
Estudiosos dos dias atuais, que se debruçam sobre a formação do espaço urbano de Fortaleza, concordam que a Capital sofre um crescimento desordenado a partir dos anos 30.  Diante da constatação do problema, em 1932, o Prefeito Tibúrcio Cavalcante alerta sobre a necessidade inadiável de ser adotado um plano de sistematização urbana. 
Coube, porém ao sucessor, Raimundo Girão, contratar o arquiteto Nestor de Figueiredo, cujo plano de remodelação, o primeiro depois de Herbster, foi abandonado na gestão municipal seguinte, do prefeito Álvaro Weine, sob a alegação de que a cidade precisava de outras realizações mais necessárias.
No que diz respeito às camadas dominantes, a expansão e a movimentação pública do perímetro central nos anos 20 foram suficientes para fazê-las se transferirem do centro para áreas periféricas desocupadas. Estas redundaram na formação dos primeiros bairros ricos.

 Avenida Philomeno Gomes, no Jacarecanga

Na verdade, o deslocamento burguês começou lentamente a partir de 1915, poucos anos após a revolta urbana de 1912, em razão do medo causado pelas depredações, saques e incêndios e no momento da entrada de flagelados na Cidade, vindos do sertão, devido a seca de 1915.
As primeiras mansões levantadas no lado oeste da cidade, no arrabalde de jacarecanga, aproveitando a continuação da Travessa Municipal (atual Rua Guilherme Rocha).
A ocupação do Jacarecanga e, em menor escala, da Praia de Iracema pelas elites a partir da década de 20, configura o surgimento dos primeiros bairros elegantes da Capital, delineando com maior visibilidade os novos espaços burgueses e reforçando a segregação sócio-espacial entre ricos e pobres.

Avenida Santos Dumont

Inquestionavelmente, naquele final de Primeira República, a tensão social entre os diversos segmentos sociais urbanos se agravou em Fortaleza, como de resto em todo o país. O perímetro central crescia com o movimento acelerado de carros, lojas, armazéns, oficinas, cinemas, parques e clubes.
O movimento da multidão na Capital também se adensou – a população em 30 atinge os 100 mil habitantes – e na sua maior parte era formada pela massa  que o poder procurava disciplinar - e que ao mesmo tempo produzia operários e demais categorias de trabalhadores, os desempregados, os mendigos, os menores abandonados, as prostitutas e todos os pobres em geral, com suas aparências e comportamentos tidos como selvagens, nocivos e inadequados.  

 Avenida Santos Dumont

A resistência das camadas populares ante os variados mecanismos disciplinadores que lhe afetavam cotidianamente tanto nos espaços públicos como privados, expressou-se sob as mais diversas formas: além das já apontadas, houve relutância em receber vacinas, a conservação de certos hábitos, crenças e posturas, o desapego ao trabalho sistematizado. Mas houve também resistência por parte das classes dominantes, pois se tratava de um enfrentamento de forças sociais em todas as horas, dias, lugares e relações.

fotos do Arquivo Nirez
Extraído do livro de Sebastião Rogério Ponte
Fortaleza Belle Epoque: Reformas Urbanas e Controle Social (1860-1930)