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terça-feira, 4 de setembro de 2012

Governo Raimundo Girão e o Plano Saboia (anos 30/40)



Assim era a Praça do Ferreira antes de Raimundo Girão 

Em 1933 Raimundo Girão assumiu a Prefeitura de Fortaleza em substituição a seu tio Coronel Tibúrcio Cavalcante.  Em sua administração foram realizadas algumas obras no centro, como o prolongamento, com maior largura, da Rua Liberato Barroso, entre as Ruas Major Facundo e Floriano Peixoto, a pavimentação em concreto de grande parte das ruas do centro, até então revestidas com o cearalelepípedo, como o povo ironicamente chamava. Raimundo Girão também remodelou a Praça do Ferreira, demolindo o tradicional coreto e erguendo a Coluna da Hora, mais tarde, também demolida. 

 O novo prefeito mandou demolir o coreto e construiu a Coluna da Hora

No dia da inauguração da Coluna da Hora, 31 de dezembro de 1933, foi realizada nos estúdios da Casa Dummar, futura PRE-9, funcionando nos altos do prédio onde depois esteve a Cimaipinto, a primeira transmissão radiofônica no Ceará, para aparelhos receptores fixados no referido momento do centro da Praça, a não mais de 200 metros de distância... Mas que grande progresso para a época!

Aproveitando a presença do arquiteto Nestor de Figueiredo na Paraíba, Raimundo Girão diligenciou no sentido de que esse urbanista viesse a Fortaleza, encomendando-lhe um Plano Diretor para a cidade, plano esse que elaborado, chegou a ser aprovado por Decreto de 30 de agosto de 1933, depois publicado na Revista do Instituto do Ceará. 


 As principais ruas do centro foram pavimentadas com concreto. Esta é a Senador Pompeu

Apesar do bom trabalho do urbanista, o plano não encontrou receptividade da parte do Conselho Municipal, sob alegação que outros cometimentos mais importantes  deveriam ser prioritariamente executados, ignorando aqueles Conselheiros que muitos dos problemas cuja solução enfatizavam, se achavam condicionados a um Plano Diretor da cidade.

Ainda em 1933, a título de experiência, em pequeno trecho da cidade, inaugurou-se a iluminação pública elétrica, denunciando-se em consequência, o contrato com a Ceará Gaz, cuja duração se alongou por muitos anos, entravando o progresso de Fortaleza. 

  O Cine Diogo foi inaugurado em 1940, no edificio mais alto de Fortaleza

Dez anos depois da inauguração do cinema falado com a fita “Broadway Melody – 1930”, exibida no Cine Moderno, se deu a inauguração do Cine Diogo, no mais alto edifício daquela época. O ano de 1940 marcou assim, mais um passo no progresso de Fortaleza, mas a inexistência de um Plano Diretor fazia com que a cidade crescesse desordenadamente. 

 continuação da Rua liberato Barroso, obra realizada por Raimundo Girão

Esse foi o motivo para que a prefeitura encomendasse ao urbanista Saboia Ribeiro um novo plano para Fortaleza, que acabou aprovado pelo prefeito interino, Clóvis de Alencar Matos. Esse plano, que foi depois publicado pela Revista do Instituto do Ceará, também não foi executado, graças a ganância dos proprietários e o descaso da prefeitura.
 
É que os administradores acreditavam que a melhor maneira de agradar aos eleitores seria a permissão de todos os abusos em matéria urbanística. E foi a cidade cresceu mutilada e desrespeitada na sua tendência natural para as ruas largas, praças abundantes e aproveitamento dos espaços verdes.

Aliada a esse despropósito urbanístico, acentuou-se a aversão de alguns governantes à tradição da cidade. Demoliu-se o histórico edifício da Intendência Municipal, o que permitiu a construção em 1946, do Abrigo Central. O ano seguinte – 1947 – marcou o fim dos bondes elétricos, com a venda, pela prefeitura, dos trilhos de aço e dos fios de cobre que serviam aos veículos da velha empresa, desde 1914.

fotos do Arquivo Nirez
extraído do livro de Mozart Soriano Aderaldo

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

A Modernidade Turbulenta dos Anos 20


No mesmo ano da inauguração do cine Majestic Palace (1917), veio à tona a primeira greve cearense realmente operária, a dos trabalhadores da Ceará Light and Power, movimento que se repetiria em 1918, 1925 e 1929. Antes já houvera as paralisações dos trabalhadores da Estrada de Ferro Baturité em 1891, e a dos catraieiros, em 1904.
No período em questão, o movimento operário no país, como um todo, revitalizava-se com as greves gerais anarquistas, a influência da revolução bolchevique na Rússia em 1917 e a emergência do Partido Comunista Brasileiro, em 1922. Em Fortaleza, para fazer frente à politização do operariado, o patronato local criou o Centro Industrial Cearense em 1919.

O problema da educação, ponto de vital importância para a produção do novo trabalhador que se desejava treinado, competente e civilizado, não podia ficar de fora das estratégias dos setores governamentais. Nesse sentido o governo de Justiniano de Serpa (1920-1923), realizou ampla reforma do ensino primário através do educador paulista Manuel Bergstrom Lourenço Filho, especialmente contratado para esse fim. 
Ressalte-se, porém, que a reorganização do sistema educacional empreendida por Lourenço Filho não se limitava apenas à educação pública. Outros itens considerados básicos e indissociáveis também foram observados, como higiene, arejamento e conforto das salas de aulas e novos edifícios colegiais. 

 Grupo Escolar do Benfica, inaugurado em 1923

Como o embelezamento da cidade compunha o dispositivo disciplinar urbano que envolvia saúde-saneamento-racionalidade, as novas escolas ganharam estilo neocolonial – numa tentativa de criar uma versão nacional do ecletismo arquitetônico – projetado pelo arquiteto Armando Oliveira, do Rio de Janeiro.
De fato, o aformoseamento continuou como uma das questões centrais do anseio de remodelação urbana da Capital. A década de 1920 evidenciando as preocupações nesse sentido viu surgirem expressivas obras públicas e privadas, que reformulavam os espaços e criaram outros. Dentre esses espaços estavam o Parque da Liberdade, a nova reforma da Praça do Ferreira e a constituição de bairros elegantes. 

Praça do Ferreira em 1919, com o Cine-Teatro Majestic Palace e o Café Elegante. O café, juntamente com outros três que ocupavam os quatro cantos da Praça, foram demolidos no ano seguinte, na reforma promovida pelo prefeito Godofredo Maciel. 

O Parque da Liberdade, na antiga lagoa do Garrote, localizado no centro urbano de então, recebeu completa reforma em 1922. Realizada por Ildefonso Albano, que substituíra Justiniano de Serpa, falecido em 1923, o Parque veio repartir as opções de lazer com o Passeio Público. O logradouro recebeu cerco de gradil de ferro, muretas de alvenaria em estilo colonial, grande portão de entrada com azulejos portugueses e demais ornamentos internos.  No alto do portão da entrada principal, deveria ser implantada uma cópia em tamanho pequeno da Estátua da Liberdade, de Nova York, sendo, no entanto, substituída por um índio que partia dos grilhões da submissão colonial.
Na gestão de José Moreira da Rocha (1924-1928), além da inauguração do serviço de abastecimento de água e esgotos, obra que se arrastava desde o início do século, foi procedida ampla reformulação da Praça do Ferreira, a principal da cidade. A obra foi exigida por motivos higiênicos e estéticos, mas, sobretudo, para racionalizar a circulação de pedestres, bondes e automóveis.
A nova praça do Ferreira também recebeu amplo piso de ladrilhos, mas sacrificou os quatro quiosques, tipo chalés de madeira, que se localizavam  nos quatro cantos da praça. 

 Avenida Pessoa Anta

Em 1927 concluía-se um sistema de avenidas ligando o centro à praia. Em seu trajeto as novas vias passavam pelo Quartel Federal, Praça da Sé,  Alfândega, armazéns de exportação e Secretaria da Fazenda.
O projeto das avenidas não alterou o traçado da cidade, posto que foram aproveitadas vias já existente, mas com ocupação rarefeita (valorizando, consequentemente, os terrenos desocupados da área). Estas vias que se transformam em avenidas nos anos 20, já estavam previstas na planta urbanística feita por Adolfo Herbster em 1875, cujo plano em forma de xadrez, antecipou o crescimento disciplinado da cidade, sem necessidade de grandes intervenções urbanas.

 A Avenida Duque de Caxias é uma das três avenidas mais antigas da cidade - era um dos boulevards criados por Adolfo Herbster,  na Planta da Cidade de Fortaleza e Subúrbios, de 1875

A planta de Herbster, porém, foi perdendo sua força sistematizadora ainda naquela década, principalmente a partir dos anos 1930.
Estudiosos dos dias atuais, que se debruçam sobre a formação do espaço urbano de Fortaleza, concordam que a Capital sofre um crescimento desordenado a partir dos anos 30.  Diante da constatação do problema, em 1932, o Prefeito Tibúrcio Cavalcante alerta sobre a necessidade inadiável de ser adotado um plano de sistematização urbana. 
Coube, porém ao sucessor, Raimundo Girão, contratar o arquiteto Nestor de Figueiredo, cujo plano de remodelação, o primeiro depois de Herbster, foi abandonado na gestão municipal seguinte, do prefeito Álvaro Weine, sob a alegação de que a cidade precisava de outras realizações mais necessárias.
No que diz respeito às camadas dominantes, a expansão e a movimentação pública do perímetro central nos anos 20 foram suficientes para fazê-las se transferirem do centro para áreas periféricas desocupadas. Estas redundaram na formação dos primeiros bairros ricos.

 Avenida Philomeno Gomes, no Jacarecanga

Na verdade, o deslocamento burguês começou lentamente a partir de 1915, poucos anos após a revolta urbana de 1912, em razão do medo causado pelas depredações, saques e incêndios e no momento da entrada de flagelados na Cidade, vindos do sertão, devido a seca de 1915.
As primeiras mansões levantadas no lado oeste da cidade, no arrabalde de jacarecanga, aproveitando a continuação da Travessa Municipal (atual Rua Guilherme Rocha).
A ocupação do Jacarecanga e, em menor escala, da Praia de Iracema pelas elites a partir da década de 20, configura o surgimento dos primeiros bairros elegantes da Capital, delineando com maior visibilidade os novos espaços burgueses e reforçando a segregação sócio-espacial entre ricos e pobres.

Avenida Santos Dumont

Inquestionavelmente, naquele final de Primeira República, a tensão social entre os diversos segmentos sociais urbanos se agravou em Fortaleza, como de resto em todo o país. O perímetro central crescia com o movimento acelerado de carros, lojas, armazéns, oficinas, cinemas, parques e clubes.
O movimento da multidão na Capital também se adensou – a população em 30 atinge os 100 mil habitantes – e na sua maior parte era formada pela massa  que o poder procurava disciplinar - e que ao mesmo tempo produzia operários e demais categorias de trabalhadores, os desempregados, os mendigos, os menores abandonados, as prostitutas e todos os pobres em geral, com suas aparências e comportamentos tidos como selvagens, nocivos e inadequados.  

 Avenida Santos Dumont

A resistência das camadas populares ante os variados mecanismos disciplinadores que lhe afetavam cotidianamente tanto nos espaços públicos como privados, expressou-se sob as mais diversas formas: além das já apontadas, houve relutância em receber vacinas, a conservação de certos hábitos, crenças e posturas, o desapego ao trabalho sistematizado. Mas houve também resistência por parte das classes dominantes, pois se tratava de um enfrentamento de forças sociais em todas as horas, dias, lugares e relações.

fotos do Arquivo Nirez
Extraído do livro de Sebastião Rogério Ponte
Fortaleza Belle Epoque: Reformas Urbanas e Controle Social (1860-1930)
  

sábado, 24 de março de 2012

O Plano Nestor de Figueiredo

vista aérea de Fortaleza em 1930 (arquivo Nirez)

Desde a planta urbanística de Adolf Herbster, de 1875, Fortaleza não teve outro projeto global para controlar sua expansão na República velha. Os prefeitos faziam suas obras sem obedecer a nenhum projeto sistematizado, projetos isolados, sem considerar a cidade como um todo. 
 
Diante do problema, em 1931, o então prefeito Tibúrcio Cavalcante (1931-1933) mandou levantar uma planta da cidade e no ano seguinte, elaborou um novo Código de Posturas da Capital – o anterior era de 1911 – cujas normas ratificavam a preocupação de se criar uma cidade aformoseada, disciplinada e progressista, onde todos pudessem viver bem.


Avenida Beira Mar, então Rua da Frente,  na década de 1930 (arquivo Nirez)  
A mesma via nos anos 1960 (arquivo Nirez) 
...e nos dias atuais (foto Fátima Garcia)

No Código, o município foi dividido em quatro zonas (central, urbana, suburbana e rural) e havia regras sobre a construção de imóveis.  As casas deveriam ser isoladas uma das outras, para garantir a saúde pública, havia normas sobre higiene, e multas para quem se comportasse de maneira obscena, em público ou dentro de casa.


As ruas e construções mais antigas seguiam a planta urbanística de Adolfo Herbster . Rua Guilherme Rocha (foto acervo particular)

O prefeito seguinte, o historiador Raimundo Girão (1933-1934), se propôs a fazer um plano de remodelação da cidade. Em 1933 contratou o engenheiro paraibano Nestor de Figueiredo, urbanista com larga experiência, com trabalhos nas cidades de Recife e João Pessoa. 

O Plano de Remodelação e Extensão de Fortaleza, iniciado por Figueiredo era baseado no que havia de mais elaborado em termos urbanísticos e previa o zoneamento urbano, ou seja, determinar as áreas para localizar as diferentes atividades da cidade – residências, comércio, indústria, educação etc;  o aumento da população, a solução dos problemas de circulação de pedestres e veículos.

Se implantado teria começado a resolver há quase oitenta anos, alguns dos problemas de circulação que dia a dia se agravam em Fortaleza. O Conselho Consultivo do Estado do Ceará, no entanto, posicionou-se contra o projeto, sob a alegação de que Fortaleza tinha outras prioridades – no caso foi dito que a cidade precisava urgentemente, de um instituto para cuidar de menores abandonados e delinquentes. 


Avenida do Imperador, uma das vias de trânsito mais caótico da cidade (foto Fátima Garcia)

Discutiu-se ainda a necessidade do projeto, já que a capital estava muito longe de se equiparar ao tráfego de cidades com milhões de habitantes. Travou-se a seguir uma verdadeira guerra de bastidores entre o prefeito Raimundo Girão e os conselheiros. Na verdade havia interesses econômicos privados envolvidos na recusa ao Plano de Nestor de Figueiredo.

Apesar disso, e em virtude das relações cordiais entre Raimundo Girão e o interventor Carneiro de Mendonça, os estudos para elaboração do plano foram iniciadas, mas não concluídos. Em 1934 Girão deixou a prefeitura e seus sucessores, a exemplo de Álvaro Weine (1935-1936), não se preocuparam em dar continuidade ao projeto.
Weine rescindiu o contrato com Nestor de Figueiredo e deixou de lado até mesmo as ideias ali elaboradas.


Por causa da falta de planos de urbanização, a cidade cresceu de forma desordenada. Ruas sem alinhamento, calçadas e traçado irregulares. (Foto Fátima Garcia, numa rua da Parangaba)

De acordo com o historiador Liberal de Castro, é provável que nenhuma decisão municipal tenha proporcionado efeito mais danoso sobre Fortaleza do que a rescisão do contrato de Figueiredo, não apenas pelo fato em si, cuja aplicação teria começado a resolver, há muito tempo, alguns dos sérios problemas que afligem a cidade atual, mas também pelo momento histórico, caracterizado pela total reformulação política, social e até econômica do País, portanto, inteiramente favorável a uma intervenção ordenadora da cidade.

A falta de vontade política, o desinteresse das camadas dominantes e das autoridades, as oposições e pressões econômicas vindas de vários setores, ocorridas nesse episódio de recusa ao Plano de Nestor de Figueiredo, se repetiriam em outros momentos da história da cidade no século XX, contribuindo para o agravamento de problemas que ainda hoje se fazem presentes.
            
extraído do livro