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domingo, 29 de dezembro de 2024

Capela de Santa Teresinha, na Avenida Leste-Oeste (avenida Presidente Castelo Branco)

 

Capela de Santa Teresinha

e seu vizinho Hotel Marina Park 

É um templo de aparência modesta, localizado na Avenida Leste-Oeste, nas imediações de um empreendimento turístico de grande porte, o que já representou uma ameaça à sua permanência. A capela dedicada à Santa Teresinha foi construída entre 1926 e 1928, no antigo Arraial Moura Brasil, onde outrora, em tempos de estiagem severa, funcionou um campo de concentração de flagelados da seca.

Os campos de concentração foram criados em períodos de seca, quando um grande contingente de sertanejos, fugindo da miséria absoluta de suas localidades, invadia a capital em busca de condições mínimas de vida. Temia-se a repetição dos acontecimentos de 1877, quando Fortaleza transformou-se na capital do desespero: de 21 mil habitantes pelo censo de 1872, passou a ter 130 mil. Uma multidão de miseráveis, em busca de alimentos, trabalho, teto, remédios e assistência social. A economia da província, já abalada pela crise do algodão, entrou em colapso de vez.

Aquelas invasões incomodavam os moradores, pois dizia-se que  traziam consigo, doenças, desordens e maus hábitos; os jornais da época davam conta do temor dos comerciantes, com possíveis saques e assaltos. Para manter os retirantes em seus lugares de origem e evitar que alcançassem Fortaleza ou outras grandes cidades do interior, as autoridades construíram esses chamados “campos de concentração”, acampamentos murados ou cercados com arame farpado, onde as pessoas eram confinadas, uma experiência que começou a ser posta em prática em 1915, no Alagadiço.

Passado o período mais crítico da pós-estiagem, muitos retornaram para suas casas, suas cidades de origem ou migraram para outros Estados. Mas boa parte dos ocupantes do campo de concentração permaneceu na área, e se expandiu ocupando a região que hoje compreende o Pirambu, e o bairro Moura Brasil.

Com o apoio da igreja católica, e a ajuda dos moradores, a capela foi construída entre os casebres, refúgio de oração e de convivência da comunidade. Mas o progresso chegou e alcançou a área onde estava a capela de Santa Teresinha. No início dos anos 70, foi decidida que seria construída uma avenida à beira-mar que ligaria a Barra do Ceará à zona portuária do Mucuripe, a atual Avenida Leste-Oeste. No projeto, por estarem no caminho da obra, havia a previsão de remoção de grande parte dos moradores, e a demolição do templo.


Início da construção da Avenida Leste-Oeste

O projeto vingou em parte. A maioria da comunidade foi efetivamente removida, mas a capela de Santa Teresinha permaneceu, por conta de manifestações contrárias à demolição e protestos populares. Outra tentativa de demolição da capela ocorreu algum tempo depois, em 1984, com a execução do projeto do Hotel Marina Park.  Como compensação, foi proposta a construção de outra igreja, mais moderna, apta a receber não apenas os moradores do bairro, mas pessoas de diferentes áreas da cidade. O projeto ganhou simpatias e teve o apoio da Paróquia a que estava subordinado o templo. À época, as atividades da Capela de Santa Terezinha estavam parcialmente suspensas, em virtude das obras do hotel que estava sendo construído no seu entorno.


Traçado da Avenida Leste-Oeste em 1974

Novamente os protestos não permitiram a demolição. Para garantir a manutenção e para evitar novas especulações, a Capela de Santa Terezinha foi tombada como patrimônio histórico do Município através da Lei 6087 de 09 de junho de 1986.  Em cumprimento da promessa feito pelo empreendimento hoteleiro, uma nova igreja foi construída e inaugurada em 1995, a Igreja de Santa Edwiges, na Avenida Leste-Oeste, a alguns metros da capela de Santa Teresinha.

Mas capela de Santa Teresinha ficou abandonada por anos, invadida por marginais e servindo de esconderijo de infratores da lei, até ser resgatada e recuperada pela Prefeitura de Fortaleza e várias entidades privadas. Foi reaberta à visitação pública em 13 de dezembro de 2012.    


consultados: Fortaleza, uma breve História/Artur Bruno e Airton de Farias/Revista porque Reportar - O Povo/Fotos Fortaleza em Fotos/O Povo e Pinterest  


  

quinta-feira, 23 de abril de 2020

O Dia que o Pirambu marchou sobre a cidade


O Pirambu está localizado no litoral oeste de Fortaleza. Sua origem remonta ao final do Séc. XIX, quando a capital recebeu levas de flagelados que fugiam das secas que assolavam o interior do estado. A população indigente foi se alojando em barracos, em terrenos próximos à ferrovia, à zona de praia, no alto das dunas e às margens dos rios, áreas desprezadas pelos grupos sociais de maior poder aquisitivo.

Rua do Pirambu - imagem Fortaleza em Fotos - 2011

Apesar de pequenos, esses aglomerados começaram a se tornar visíveis a partir da década de 1930, quando começaram a chamar atenção por se tratar de locais de extrema pobreza, moradias precárias, alta insalubridade e altos índices de violência. O fato relevante que contribuiu para rápido crescimento da região, foi a chegada de centenas de retirantes, provenientes de várias localidades do interior do Estado, afetados pela seca de 1932. O Pirambu, juntamente com o Arraial Moura Brasil, constituía os dois bairros mais pobres da cidade, espremidos entre a linha férrea e a região de praia.

Nessa época já existiam na Avenida Francisco Sá, (com a denominação oficial de Avenida Demóstenes Rockert, popularmente conhecida como Estrada do Urubu até 1936), nas proximidades do Pirambu, diversas indústrias instaladas, como o empreendimento de Pedro Philomeno Gomes a Fábrica de Tecidos São José, que se mudou para a estrada do urubu” em 1926. Logo depois, em 1927, viria a Indústria Têxtil José Pinto do Carmo, e em 1934, a Brasil Oiticica. Além dessas, havia dezenas de pequenos estabelecimentos. A concentração de empresas atraiu a classe trabalhadora.

Avenida Demóstenes Rockert em 1927. A partir de 1936 foi pavimentada e recebeu a denominação de Avenida Francisco Sá. Foto Relatório da PMF

Nas empresas, os operários tiveram contato e passaram a receber orientação de sindicatos e do Partido Comunista do Brasil, com forte influência na zona oeste da cidade. E o Pirambu foi à luta. Desde 1948 possuía uma sociedade feminina constituída para lutar contra a ameaça de expulsão dos moradores do bairro e a favor de melhorias urbanas. A maioria dos habitantes tinham seus casebres localizados em terrenos de marinha.

As pessoas vinham em sua maioria do interior, e com a interferência do comandante da Capitania dos Portos, que ficava no edifício da Marinha, ou do capelão, que as avaliavam, as famílias eram enviadas para a hospedaria que ficava na Rua Olavo Bilac (hospedaria Getúlio Vargas). Havia uma comunicação entre hóspedes e moradores do Pirambu, e os migrantes iam deixando a hospedaria, à medida que conseguiam um terreno para se estabelecer na comunidade.

imagem: O Semanário (RJ)

O bairro não tinha nenhuma urbanização nem contava com infraestrutura, os terrenos tinham preços mais em conta para as massas, que em muitas oportunidades os ocupavam clandestinamente, daí o crescimento irregular, com a propagação de lotes de tamanhos irregulares, casas modestas e favelas, becos e ruas estreitas, tortuosas e sem saída, inexistência de espaços públicos e áreas de lazer.

Os ocupantes do Pirambu já contavam em torno de 5 mil pessoas, quando apareceram duas famílias alegando que eram donas da área, os Braga Torres e os Carvalho. Pressionavam os moradores para que desocupassem as terras ou vendessem os terrenos. Sentindo-se ameaçados, os moradores começaram a se organizar, a se reunir. Mas não tinham uma liderança, não queriam interferência política e não chegavam a um acordo sobre o que fazer.

Daí, convidaram o padre Hélio Campos, que havia pouco tempo tinha se formado capelão da Marinha, e atuava na Igreja de Nossa Senhora dos Navegantes. Corria o ano de 1958. Descobriram que os Braga Torres e os Carvalho não eram donos da área. E sob a liderança do padre, iniciaram um movimento pela manutenção da posse da terra, pela melhoria das condições sociais e de moradia e contra novas ameaças de expulsão.


A presença do padre deu uma nova dinâmica e fortaleceu o movimento comunitário e desestruturou o trabalho de conscientização política que o Partido Comunista vinha desenvolvendo junto aos moradores do Pirambu. O motivo é que a Igreja era uma instituição anticomunista. A maior prova foi evidenciada na própria marcha, quando os operários ligados ao Partido Comunista foram absorvidos pela ação do Padre Hélio, que deu ao movimento um caráter cristão, baseado nos princípios da doutrina social cristã.

A marcha organizada pelos moradores do Pirambu foi divulgada com reservas pela imprensa local, principalmente quando o padre Hélio Campos afirmou que a mesma era uma advertência aos poderosos do Estado. O movimento se concretizou no dia 2 de janeiro de 1962, quando a população, após a celebração de uma missa no pátio da Casa Paroquial, saiu em caminhando pelas ruas de Fortaleza.

A maioria foi a pé, mas havia ônibus e carroças. Uma multidão incalculável, portando faixas, cartazes e gritando palavras de ordem, seguiu em direção ao centro, onde os manifestantes, de forma pacífica, passaram a ocupar a Praça da Sé. 


A Praça da Sé nos anos 40 e a Catedral inconclusa dos anos 50 
 imagens Anuário do Ceará

Foram primeiro ao Palácio do Bispo, onde foram recebidos por Dom Antônio de Almeida Lustosa; depois desceram para o Palácio da Luz, na Praça General Tibúrcio onde uma comissão, inclusive o Padre Hélio, foi recebida pelo governador Parsifal Barroso. A grande aglomeração de pessoas assustou os comerciantes do Centro, que fecharam as portas. Mas a situação se acalmou diante da garantia de Padre Hélio de que se tratava de um movimento pacífico e ordeiro. 

Oito dias depois da marcha, uma comitiva da qual Padre Hélio era parte, foi a Brasília discutir a questão da desapropriação das terras da região do Pirambu. Lá descobriram que o Pirambu não estava em terreno de marinha. A área que ia da Rua Jacinto de Matos até a Rua Francisco Calaça foi desapropriada. Nos terrenos que se seguiam não foi possível a desapropriação porque tinha terreno particular, da Prefeitura, do governo Estadual e Federal e até da Igreja.

Por força do decreto nº 1058, de 25 de maio de 1962, que declara tais terras de utilidade pública para execução de plano habitacional em favor dos seus moradores, hoje, os terrenos são considerados de propriedade comunitária.

Rua do Pirambu - imagem Tarcísio Garcia 2018

Embora tenha conseguido a posse das terras, povo do Pirambu acabou perdendo uma de suas mais expressivas lideranças. Pois, após os acontecimentos decorrentes do Golpe Militar de 1964, os movimentos populares foram desarticulados e suas lideranças presas ou exiladas. A Igreja e as forças da repressão trataram rapidamente da transferência do padre Hélio Campos para o Estado do Maranhão, e o Pirambu foi dividido em duas paróquias: Nossa Senhora das Graças e Cristo Redentor, originando, então dois bairros.

Orla marítima do Pirambu - imagem Fortaleza em Fotos - 2011

De acordo com dados do IBGE, com base no Censo Demográfico 2010, o Pirambu é o maior aglomerado urbano do Estado. O bairro é também o 7º colocado em densidade populacional do país, com um total de 42.878 habitantes. A falta de esgotamento sanitário é o principal problema da comunidade, onde 19% da população não tem acesso ao serviço. A coleta de lixo é deficitária, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDHM), de apenas 0,391, e está entre os 10 piores dos bairros da capital cearense. Também são baixos os níveis de escolaridade (0,293) e de renda média em salários mínimos do chefe da família (0,062).

Decorridos 58 anos da histórica marcha, o Pirambu ainda apresenta o maior número de moradores vivendo em áreas de risco, em habitações sujeitas à ação do homem ou da natureza. Nas favelas que ocupam a faixa de praia, as famílias estão expostas ao avanço da maré, deslizamentos de encostas e outras questões de insegurança.


Fontes:



As lutas no Pirambu e por um poder que venha do povo. Jornal O Povo

A ESCOLARIZAÇÃO DA ALMA: A EDUCAÇÃO POPULAR CRISTÃ, NO CEARÁ, ENTRE AS DÉCADAS DE 1950 E 1960, de Lídia Eugenia Cavalcante* Universidade Federal do Ceará

Pirambu é bairro mais populoso do Estado Disponível em < https://lidesealgomais.wordpress.com/2012/04/24/pirambu-e-bairro-mais-populoso-do-ceara/>




quinta-feira, 21 de junho de 2018

Chico da Silva, Rei das Artes, da Cachaça e dos Dragões

A vida desse homem exótico, um dos maiores pintores primitivistas do Brasil, forma um roteiro de mirabolantes aventuras. Os que o conheceram de perto, contam coisas incríveis sobre sua arte e suas façanhas, uma mistura de talento e loucura, acomodados na carcaça cabocla de Francisco Domingos da Silva, morador do Pirambu, nascido em 1910, no Acre, artista criativo e presepeiro maior dessa capitania do Siará Grande.


Chegou ao Ceará com 6 anos. Morou em Quixadá e Guaramiranga antes de conquistar Fortaleza, onde exerceu diversos ofícios, todos ligados a trabalhos manuais. Foi fazedor de tamancos, barbeiro, consertador de panelas e guarda-chuvas, amolador de facas e tesouras, funileiro, e pintor de paredes. Neste último ofício, começou a descobrir sua arte, desenhando em muros, inventando pássaros, peixes, galos irados e dragões esquisitos. Misturava na mesma figura bichos alados e quadrúpedes, numa reprodução intuitiva da evolução das espécies. Os peixes viravam pássaros e estes viravam dragões escamosos, com garras ameaçadoras.


Quando a ânsia criativa brotava, pegava carvão ou pedaços de telha vermelha e gesso e enchia todas as calçadas e muros que encontrasse pela frente, tendo, às vezes, que responder aos proprietários irritados pelas “malfeitorias”.

Em 1943 um pintor suíço que visitava Fortaleza, Jean Pierre Chabloz, viu em muros e calçadas da Praia Formosa os desenhos de Chico e ficou maravilhado. Interessou-se por conhecer o autor dos desenhos. – é um índio – disseram os pescadores – quem anda fazendo essa esculhambação nas paredes dos outros. Nossos filhos não têm nada a ver com isso. É coisa de criança, mas quem faz é um cabocão que mora por aqui”.

Chico foi localizado e logo pensou que Chabloz fosse um fiscal da prefeitura ou algum proprietário de muro rabiscado. Quando já achava que seria preso, recebeu os parabéns do visitante e uma proposta tentadora. Receberia tintas e cartolinas para realizar uma série de pinturas. As que ficassem boas seriam adquiridas e pagas imediatamente. Estava começando a acidentada e esfuziante carreira artística de Chico da Silva.

Em 1944 participa do III Salão Cearense de Pintura. A partir de 1945, levado pelas mãos do seu descobridor, ganha o Brasil e o mundo. Expõe no Rio de Janeiro, conseguindo os primeiros comentários favoráveis da crítica. Chabloz leva os trabalhos do Chico da Silva para a Europa, e os cadernos de arte europeus comentavam sobre o índio brasileiro que estava reinventando a pintura. Enquanto isso, sem incentivo em Fortaleza, Chico voltava ao seu antigo ofício de fazedor de fogareiros e lamparinas de latas de flandres no Pirambu.

Jean Pierre Chabloz e sua pintura exposta no MAUC

Só quando Chabloz volta a Fortaleza, em 1959, e o reencontra, Chico retoma sua arte. Por interferência do suíço, é contratado pelo Museu da Universidade Federal do Ceará (MAUC), passando a pintar em suas dependências. Depois sai da Universidade, onde se sentia bitolado, pois não podia beber suas cachaças nem fazer suas presepadas. Entretanto, consegue novos clientes. Vende quadros à sociedade local e consegue expor numa galeria carioca.

A fama de Chico corre mundo. Vem pedidos de toda parte, os turistas não deixam de levar uma obra do índio. Mas como produzir tantas telas para suprir essa grande procura? Só se trabalhasse dia e noite. Teve uma ideia. Pegaria uns meninos ali mesmo do Pirambu para lhe ajudar. Procurou saber quem, no bairro, levava jeito para a pintura. Logo arranjou um time razoável de aprendizes para a produção em série que pretendia iniciar.

Com ligeiras instruções, Babá, Claudionor, Garcia e Ivan de Assis, puseram-se a pintar galos, peixes e monstros de Chico da Silva. Agora, Chico, um sujeito famoso, tinha tempo para beber e raparigar à vontade. Seu único trabalho era assinar os quadros. O negócio era tão rápido que teve que funcionar por setores: enquanto um riscava os desenhos, o outro ia botando as cores e um terceiro tracejava as escamas, as penas e fazia os pontilhados. Quando Chico ia assinar, dava uma “guaribada” e pronto: mais uma obra pronta para o consumo.

Havia esperteza na cabeça do pintor, posto que ele não queria que soubessem da existência da oficina. Na chegada dos clientes, os auxiliares eram obrigados a fugir saltando a cerca do fundo do quintal da residência de Chico. Mas, um dia, o marchand Henrique Blun, chegando de surpresa ao Pirambu, encontrou o Chico, bêbado, capotado, enquanto Babá pintava seus quadros. Ao invés de denunciar a maracutaia, Blun se aproveita da situação, levando o falsificador para trabalhar em sua casa, por onde passava o Chico, de vez em quando, para assinar as telas, autenticando-as.

Essas telas pintadas por Babá foram expostas na Petiti Galeria, no Rio de Janeiro, em 1966. Chateada por ver seu homem se envolvendo com outras mulheres, dona Dalva da Silva, mulher do Chico, denuncia nos jornais que as telas da exposição são falsas. Houve um grande barulho na imprensa, mas o pintor negou as declarações da esposa e reafirmou que os trabalhos eram de sua autoria. E ficou tudo por isso mesmo.


Chico viaja para a Europa, em companhia de Clarival do Prado Valladares e participa da Bienal de Veneza em 1966. Em seguida, participa de mostras na França e na Espanha. Quando retorna, demora-se no Rio de Janeiro, farreando nos cabarés da Lapa e nos inferninhos da Cinelândia, até gastar todo o dinheiro que ganhara. De volta à Fortaleza, Chico se vangloria de suas façanhas, diz que foi recebido no Palácio pela Rainha Elizabeth da Inglaterra, e na sede do governo da França pelo próprio Charles De Gaulle. Toda artista ou mulher famosa e bonita que aparece nas revistas, ele diz que namorou.

Os marchands, com a conivência do pintor, contratam os falsificadores de sua oficina e montam várias “fábricas de Chicos da Silva”, ele só participa com a assinatura, acrescida agora da digital e uma foto ao lado do quadro para simular autenticidade. Em sua casa Chico ainda mantém sua oficina, agora com a participação de seus filhos Francisca e Roberto, e ainda Gilberto, Manuel Lima, Caínha, Carabina e Maria Augusta, entre outros.

Em 1969, Maria Augusta, então com 15 anos, ao ser posta para fora da casa de Chico pela ciumenta dona Dalva, vai aos jornais e denuncia mais uma vez a falsificação. A notícia é estampada na imprensa nacional. A revista O Cruzeiro conta toda a história, com detalhes. Agora, ninguém sabe mais se o quadro que tem na parede é um Chico da Silva legítimo ou uma falsificação. Aí caem as vendas e a decadência começa. Desmoralizado, Chico se entrega com afinco à bebida, sem intervalos. Talvez, acometido de delirius tremens, diz que os dragões que ele pintou estão saindo das telas para lhe atacar.

Por volta de 1972 saiu um comentário num jornal francês sobre o mais famoso morador do Pirambu. E o articulista lamentava que as autoridades brasileiras tivessem abandonado um dos maiores artistas primitivistas do mundo, deixando-o morrer à mingua, como um pária. A repercussão do estado de decadência de Chico da Silva mexeu com os brios do governador César Cals que, convocando um grupo de senhoras ligadas às artes plásticas, mandou procurar a família do pintor, e ver o que poderia ser feito.

O grupo de senhoras encontrou Chico da Silva em estado deplorável. Sua mulher, Dalva, informou que ele havia se entregado de vez ao alcoolismo e já estavam passando por sérias dificuldades. A ajuda mais imediata seria arranjar dinheiro.

Pensaram, então, numa exposição. Chico da Silva identificaria os quadros verdadeiramente seus, e seria feita uma vernissage num clube da Aldeota. Ouvindo a conversa, Chico levantou da rede e veio participar. Topava a ideia da exposição, mas tinha umas exigências. Queria um paletó branco, uma gravata encarnada e um par de sapatos também branco.

rua do Pirambu (2010)

Saíram pelo bairro procurando nas bodegas os quadros que ele trocara por cachaça. O trabalho foi exaustivo, mas proveitoso: 28 telas foram recuperadas, com outras que o Chico se dispunha a pintar, dentro de uns dias tudo estaria pronto.

Tudo foi acertado e providenciado, convites, cobertura da imprensa, instalações. Na véspera, a badalada exposição já estava devidamente instalada no clube mais elegante de Fortaleza. A festa deveria começar às 20 horas.

Na manhã do grande dia as organizadoras foram à casa do Chico. Eram nove horas da manhã e o índio já havia saído. Dona Dalva informou que ele fora à alfaiataria do Girão para apanhar o traje. Correram para lá. Nada de Chico: já pegara a roupa e se mandara, ninguém sabia para onde.

Praia do Pirambu (imagem IBGE)

Voltaram ao Pirambu, falaram para dona Dalva que, sem o Chico, ela iria representar a família na cerimônia de abertura da exposição. À noite, maquiada e de vestido longo – numa produção bancada pelas organizadoras do evento – dona Dalva recebeu cumprimentos do governador, foi abençoada pelo arcebispo, fotografada pelos repórteres e acompanhada da fina flor da sociedade, dona Dalva estava em seu esplendor.

Quando a cerimônia já ia começar, ouviu-se um grito forte na entrada do clube
– cadê o dinheiro pra pagar o táxi, cambada de burguês? Eu sou o dono da festa e tô chegando pra arrepiar!”. 
Era, sem sombra de dúvida, o Chico da Silva. O paletó já estava sujo, os sapatos com respingos de lama e ele não vinha só. Puxava pela mão uma rapariguinha, quase uma menina, a cara pintada com exagero, os peitos grandes, prestes a saltar do decote cavado, provocante. Vestia ainda uma minissaia, dessas que deixam a descoberto o fundo das calças.

Ao notar o lugar solene em que era introduzida, com aquela gente bem vestida e cerimoniosa, a moça quis recuar. Não conseguiu. O desarvorado Chico lhe arrastou firme e ele teve que prosseguir rumo ao salão principal, onde os discursos deveriam ter lugar. Dona Dalva mal podia acreditar no que estava vendo. Então o safado do seu marido tinha a audácia de trazer para um lugar daquele uma puta do farol, logo no dia em que ela estava tão bonita, tão arrumada? Ah, mas isto não ficar assim, não. Se o Chico queria confusão ia ter, e da grossa.

E passando das palavras à ação, a destemida Maria Dalva, que era natural de Salvador, rodou a baiana. Partiu para cima da ninfeta, atingindo-a com um murro na cara. A pequena, escolada nas escaramuças do Farol do Mucuripe, não foi apanhar sozinha e se atirando, em pulo felino, atingiu com a cabeça a pança de dona Dalva que caiu para trás.

As duas se enroscaram pelo chão como se fossem duas serpentes ferozes dos quadros do Chico e, ante o espanto das autoridades civis, militares e eclesiásticas, derrubaram os cavaletes da exposição, e com eles as telas, num turbilhão de safanões, pernadas e palavrões. No seribolo armado, não se sabia quem ganhava ou perdia, quem estava em cima ou embaixo. As dondocas soltavam gritinhos histéricos, corriam espavoridas, desarmando as cabeleiras enlaquezadas, enquanto o pau comia entre as duas suburbanas.

No fim, contidas a custo por oito seguranças, as mulheres estavam em frangalhos, riscadas de unha e sangrando pela boca. O clube parecia que tinha sido atingido por um desses ciclones tropicais: mesas viradas, telas rasgadas, cavaletes transformados em espetos. Nem nos mais ferozes arranca-rabos do Pirambu se vira coisa igual.

Apesar dos escândalos e da vida desregrada que levava, Chico da Silva continuava a ser uma importante referência cultural no Ceará. Várias foram as tentativas para reabilitá-lo. Em 1974 o governo do Estado e a prefeitura de Fortaleza lhe deram uma bonita casa-atelier, na recém-inaugurada Avenida Leste-Oeste. Em 1975 o Grupo Mercantil São José presenteou-o com um automóvel. Por esse tempo foi feito um documentário sobre sua obra e sua história pelo cineasta Pedro Jorge de Castro.

Os jornais assediam-no sem parar. Suas entrevistas fazem sucesso pelo inusitado. Ao Jornal do Comércio, de Pernambuco, ao ser perguntado sobre sua temática, declarou: "eu pinto o cão, pinto a mãe do cão, pinto a tia do cão e vou pintar o cão aqui pra todo mundo ver”. Recebe homenagens de toda ordem: a medalha Anchieta, da Câmara Municipal de São Paulo, a medalha da Abolição, maior comenda do governo do Ceará, e em 1983, uma pensão vitalícia, de dois salários mínimos, do Estado. 


Continua, porém, explorado por espertalhões e mergulhado no vício. De vez em quando fica doido e quebra tudo em casa. Vangloriava-se de bêbado, ter derrubado três metros de muro sem sentir nada. Dona Dalva já não mais existia, morreu de sofrer. Chico despenca ladeira abaixo. Alterna internamentos em hospitais com grandes bebedeiras. Uma vez quase morto, foi internado às pressas pelo casal Heloísa e Haroldo Juaçaba, na Casa de saúde São Raimundo. Outras internações se seguiram, sequenciadas por novas recaídas, até o desfecho final no dia 06 de dezembro de 1985.

A Agência Terraço, produziu um belo texto em homenagem a Chico da Silva, publicado em página inteira do Jornal Diário do Nordeste



“Neste Natal
A Familia Silva
Tem uma estrela no céu
Era um privilegiado,
Tinha sensibilidade para captar o invisível.
Artista,
Viveu numa estrada colorida
Entre o sonho e a realidade
Ingênuo – por ser bom – se perdeu na madrugada
E adormeceu no cansaço da desilusão.
Não passou pela vida despercebido.
A pureza-beleza de sua obra
Saiu dos limites do individual,
Transcendeu o universal
E alçou o lume das estrelas,
Glória maior de todo artista
Ele adotou esta terra
E não soubemos compreender a dimensão de seu gesto!”


Extraído do livro - Sábado, Estação de Viver – histórias da boemia cearense
De Juarez Leitão 
fotos: Internt, O Povo, IBGE e Fortaleza em Fotos