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terça-feira, 1 de novembro de 2011

Os Cabriolés de Norberto Golignac


Um cabriolé (do francês Cabriolet)   é uma carruagem leve,  de duas rodas, puxada por um animal, normalmente um cavalo. Podia  acolher dois passageiros que ficavam virados para a frente. O condutor/cocheiro fica por trás da carruagem, num apoio próprio, de onde podia  facilmente manobrar o cabriolé. Foi criado no início do século XIX em França.

E Fortaleza teve o privilégio de contar com esse tipo de veículo,  por um desses acasos que fez com que um francês viesse dar com os costados em terras alencarinas. Por volta de 1910, Norberto Golignac, nascido em Paris, no dia 7 de agosto de 1870, construía artesanalmente, com suas próprias mãos, elegantes e resistentes cabriolés, que serviam a população como meio de transporte e de lazer.

na Fortaleza do início do século, havia grande número de animais circulando pelo centro. O principal meio de transporte era o bonde puxado a burro (arquivo Nirez) 

O habilidoso artesão era visto frequentemente,  comprando ferramentas, tintas, parafusos, pregos, feixes de mola e tudo mais que servisse à confecção e reparo dos seus veículos.

Trabalhava o dia inteiro às vezes entrando pela noite, na oficina iluminada por dois enormes e perigosos lampiões de acetileno.  O mais belo cabriolé que fabricou foi um modelo especial, encomenda do industrial e comerciante Alfredo Salgado. Uma verdadeira obra de arte, admirada por onde passasse.

Fabricou outro veiculo para o industrial Dionísio Torres, dono de uma fábrica de guarda-chuva, localizada na esquina das Ruas Major Facundo com Pedro Borges, na Praça do Ferreira.
o piso irregular das ruas era um empecilho a mais para o desenvolvimento dos transportes (arquivo Nirez) 

A essa época o transporte era feito em bondes de burros em apenas três linhas: Outeiro, Benfica e Calçamento de Messejana. Cargas, mudanças, etc, eram transportadas em carroças puxadas por burros. Os cabriolés serviam para o transporte de pessoas aos mais distantes  pontos da cidade – missas, passeios, visitas.

Na noite em que não tinha o que fazer, Norberto Golignac  comparecia às serenatas com os boêmios familiares à fisionomia da cidade: Ramos Cotoco, Pompílio, Abel Canuto, Quintino Cunha e muitos outros que cantavam, tocavam violão ou flauta. Ninguém perdia uma noite de luar na Fortaleza antiga. Toda a boemia reunida saía pelas ruas em algazarra, parando aqui e ali para molhar a goela. As bodegas abriam suas portas em plena madrugada para atender aos seresteiros.

Francês de nascimento, cearense por opção e por gosto, Norberto Golignac  adaptou-se aos hábitos e costumes da terra,  permanecendo em Fortaleza até o seu falecimento, em 31 de julho de 1919.

domingo, 3 de julho de 2011

José de Paula Barros

Num casarão de cinco portas situado à Rua Formosa (atual Barão do Rio Branco), existia, por volta de 1915, um estabelecimento chamado Fotografia Americana, de José de Paula Barros, que além de fotógrafo era pintor e arquiteto.

O trio de pintores (da esquerda para a direta): Antonio Rodrigues, retratista à "crayon" José de Paula Barros, fotógrafo, pintor e arquiteto e Raimundo Ramos (Ramos Cotoco), pintor, poeta, músico e cantor.

O fotógrafo de estatura fora do comum costumava usar um jaquetão de casemira, chapéu de abas largas do tipo cow-boy, gravata de manta colorida, bigodes retorcidos. Assemelhava-se a um mosqueteiro de Dumas. 
 As primeiras  obras de autoria de Paula Barros foram um retrato a óleo do presidente da província Nogueira Accioly, um retrato em pastel de Liberato Barroso, e uma tela em óleo em tamanho natural do coronel Franco Rabelo, que ficava exposta na Maison Art Nouveau.  O nu e a natureza morta foram temas de sua predileção.

Rua Major Facundo, trecho Praça do Ferreira, onde aparece o prédio da Maison Art Nouveau. Inaugurada em 1907 a Maison era bar, café, confeitaria além de vender artigos para copa e cozinha. Lá ficava exposto o retrato do Coronel Franco Rabelo, pintado por Paula Barros.

A espaçosa oficina da Rua Formosa era repleta de quadros de todos os tamanhos, realizados com as mais variadas técnicas: óleo, crayon, pastel, lápis, aquarela. Torsos, cabeças, braços e pés de gesso, vasos, estatuetas de terracota completavam  o cenário de um verdadeiro atelier. 
Ao lado das Três Graças, por terminar, havia pintada numa paleta, a cabeça sonhadora de um Rembrandt, destacada pelos efeitos de luz e sombra. 
Junto com Ramos Cotoco, Paula Barros realizou a decoração do Teatro José de Alencar, destacando-se a alegoria das Três Graças, que representam as três artes – Poesia, Música e Pintura. As musas pareciam soltas no espaço, pelo milagre da perspectiva aérea. 



No foyer do mesmo teatro, há dois retratos de Carlos Gomes e José de Alencar que atestam o poder do seu inspirado pincel. Insatisfeito no Ceará  rumou para o Maranhão, onde trabalhou durante algum tempo. 



O artista faleceu em 1919, após a execução de um grande retrato a óleo de Carlos Gomes, para o Teatro São Luis.  

Extraído do livro de Otacílio de Azevedo.

domingo, 3 de abril de 2011

O Café do Pedro Eugenio

Fortaleza - 285 anos

Avenida Visconde de Cauípe, atual Avenida da Universidade (Arquivo Ah, Fortaleza!)

O antigo Café do Pedro Eugênio ficava na segunda seção da linha do Benfica, ao lado dos números pares. Tendo ao lado frondosas mangueiras, eram colocados bancas de mármore e cadeiras desmontáveis, com assentos e encostos de madeira envernizada. 

Era semelhante ao Café Java, na Praça do ferreira. Era feito de taliscas de madeira pintada de verde, com detalhes brancos. O proprietário morava vizinho e quando, quando apareciam altas horas da noite um bando de seresteiros notívagos, Pedro Eugênio levantava-se e ia abrir o estabelecimento a fim de servi-los com a melhor cachaça de Aracati.

Em 1906, ao se deitar certa noite, ouviu que estavam cantando em frente ao seu quiosque, mas o cansaço e o sono eram tão grandes que não teve coragem de se levantar para abrir o estabelecimento.

Pela manhã, quando foi abrir o café, percebeu assombrado que a porta havia sido aberta á força. Constatou surpreso que, sobre uma das mesas de mármore, havia um livro de poesias e muitas quadras escritas à lápis no mármore, todas assinadas pelos respectivos autores: Raimundo Ramos, Fernando Weyne, Quintino Cunha, Virgilio Brandão, Amadeu de Castro, Carlos severo, Carlos Gondim e os músicos Mamede Cirino, Elesbão, Abel Canuto e Pompílio. O livro de poesias era Cantares Boêmio, de Raimundo Ramos, conhecido como Ramos Cotoco.

O episódio  chamou a atenção de todos e um jornal da época escreveu uma reportagem sobre o fato, que saiu publicada na Revista O Malho, de grande circulação em todo o país. 
A pedra na qual foram escritas as trovas foi conservada durante vários anos, coberta com vidro e enviada para o Rio de janeiro, em 1915, quando Pedro Eugênio faleceu. 

No Café do Pedro Eugênio iam centenas de pessoas, de sábado a domingo, de todos os bairros de Fortaleza, saborear o delicioso cardápio, cantar, recitar, discutir política.
Atendendo ao pedido de sua mulher que se achava cansada de tanto trabalho, Pedro Eugênio vendeu o café,  muito contra a vontade, e mudou-se para um local distante. 

Com sua saída, o café começou a decair e a freguesia a procurar outros locais. Um dia, Tomé Mota, proprietário da Empresa Ferro Carril – de bondes puxados a burro – descobriu que a linha do Benfica não estava dando lucro, o que se devia ao fraco movimento do café. O empresário procurou o velho Eugênio e propôs recomprar o estabelecimento e entregá-lo novamente ao antigo dono. Pedro Eugênio não hesitou, e voltou alegre e feliz ao antigo local de trabalho. 

bonde elétrico da linha do Benfica (arquivo Cepimar)

Logo depois da instalação da nova Companhia de Bondes Elétricos, estabeleceu-se uma parada em frente ao café. Pedro Eugênio residia no casarão vizinho onde funcionou o Dispensário dos Pobres. 


Extraído do livro

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Raimundo Ramos de Paula Filho – Ramos Cotoco


Raimundo Ramos de Paula Filho ou Ramos Cotoco (1871-1916)  – como era largamente conhecido por lhe faltar o braço direito – foi um dos mais populares artistas que o Ceará já produziu. Pintor, músico, e poeta lírico, Ramos Cotoco nasceu em Fortaleza e aqui viveu toda sua agitada vida boêmia.

Colorista inigualável, ninguém melhor que ele soube desvendar os segredos da combinação de tonalidades, da perspectiva aérea, da noção de profundidade. Suas paisagens eram apreciadas devido à poesia que trazia implícita; suas árvores pareciam mover-se; suas cachoeiras eram de uma leveza tal que davam a impressão de minúsculos lençóis de água.

Era o mágico dos pincéis, o soberano das cores. Malsinado por seu estilo de vida desafiador, mas extremamente requisitado como artista, não lhe faltava trabalho: abria letreiros, fazia cartazes dos cinemas, pintava anúncios multicores de lojas de modas, armarinhos e casas de ferragens.

Quando atingiu o apogeu de sua popularidade como pintor, não havia alpendre ajardinado ou sala de jantar onde seu pincel mágico não desse o sinal de sua presença, valorizando com sua arte, ricos espaços internos de solares e bangalôs.

Apesar dos razoáveis ganhos financeiros que sua arte lhe proporcionava, nada amealhava, pois não abria mão de sua alegre boêmia. Largava o serviço cedo, pelas quatro da tarde, e caía na farra. Apostava no jogo do bicho, jogava sinuca, arriscava no carteado. Nas noites de lua, reunia os amigos na Praça do Ferreira para serestas que duravam a noite toda. 
  
Figura ímpar em Fortaleza, trajava-se com um paletó de estopa, talhada porém, pela melhor alfaiataria da capital – a Alfaiataria Amâncio – e de cuja lapela pendia o topázio de girassol – (no dizer de Otacílio de Azevedo, contemporâneo e amigo pessoal do artista).

Outras vezes andava mergulhado num surrado jaquetão de casimira azul, calças muito largas, boca-de-sino (que anos mais tarde se tornaria moda em Fortaleza), chapéu de palhinha raso, envernizado. 

Era descrito como excêntrico, fazendo questão de escandalizar os grã-finos da época, vestindo-se espalhafatosamente, bebendo, jogando e fazendo serestas sempre na companhia dos seus amigos diletos e também pintores José de Paula Barros e Antônio Rodrigues, no pleno exercício diário da boemia.


Publicou em 1906 o livro Cantares Boêmios, por uma tipografia local, edição do autor. Ressalta-se nessa publicação sua qualidade de letrista. Na opinião de críticos que apreciaram a obra, provavelmente sua poesia não se firmaria como produção literária, sem o complemento da melodia.

Por isso o poeta acertou ao incluir muitas partituras de suas canções no volume de versos.
No Museu do Ceará, no espaço reservado ao Ceará Moleque, um painel reproduz uma famosa modinha de Ramos Cotoco:

O BONDE E AS MOÇAS

Na rua onde passa o bonde
Moça não pode engordar
Não trabalha, não estuda, não descansa...é um penar.
Se o bonde passa, está na janela:
Se o bonde volta,
Ainda está ela...
Namora a todos,
É um horror;
Aos passageiros
E ao condutor
Todas elas, sem exceção
Tem as mangas dos casacos
De viverem nas janelas
Todas cheias de buracos
Algumas eu tenho visto
Correrem lá da cozinha
Com a boca cheia de carne
Sujo o rosto de farinha
Outras, de manhã bem cedo,
Acordam atordoadas
Vem o bonde... elas já surgem
Com as caras enferrujadas.
As parelhas já conhecem
Estas moças de janelas
Quando passam se demoram
Para olharem para elas.

 teto do altar-mor da Igreja de Nossa Senhora do Carmo



Teto do foyer do Teatro José de Alencar.

Mas foi na pintura que Ramos Cotoco mais se destacou. Seus trabalhos podem ser encontrados no Teatro José de Alencar, nos nomes e desenhos pintados sobre as grades dos camarotes, e nas alegorias em torno dos retratos de Carlos Gomes e de José de Alencar, no foyer do teatro.
São também de autoria de Ramos Cotoco as telas encontradas no teto do altar-mor da Igreja de Nossa Senhora do Carmo e no prédio da Sociedade de São Vicente de Paulo, na Praça do Coração de Jesus.

Raimundo Ramos faleceu em 1916. Foi o maior artista plástico do seu tempo.

pesquisa:
Fortaleza Descalça, de Otacílio de Azevedo
Sábado - Estação de Viver, de Juarez Leitão
imagens Internet e Fortaleza em Fotos-2012