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sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

O Clube das Damas

O bairro das Damas seguia-se ao elegante bairro residencial do Benfica, que disputava a preferência da elite com o então aristocrático Jacarecanga. A linha do bonde do Benfica terminava em frente ao Dispensário dos Pobres, uma instituição de caridade, ainda hoje dirigida pela Ordem das Irmãs de Caridade de São Vicente de Paula. 

Ao lado do Dispensário, num casarão localizado em um recanto pitoresco, funcionava o Café do Pedro Eugênio, famoso pela reunião de boêmios e pelas serestas. Posteriormente, esse local seria ocupado pela Mercearia do Rabelo, tendo a sua frente, o Cine Benfica. A partir daí, estendia-se a estrada de concreto que levava ao Arronches.  

Avenida João Pessoa - 1949
Dessa parada final do bonde, até a sede do novo clube, que se preparava para ali se instalar, percorria-se uma distância de cerca de 2 quilômetros, por isso o automóvel era o transporte preferido para cumprir a distância. Os carros de praça cobravam seis mil réis para fazer o percurso do centro da cidade  ao clube.

O antigo sítio de Luiz Gonzaga Flávio da Silva, medindo 435 palmos de frente por 350 de fundos, com suas construções e benfeitorias, localizado no lado poente da antiga estrada de Arronches, antigo nome de Parangaba, foi o local escolhido para sede da agremiação.
De areia batida até o ano de 1929 a Estrada de Parangaba recebeu pavimentação de concreto durante o governo de Washington Luiz, último presidente da República Velha. Tornou-se uma referência à avançada tecnologia e valorizou sobremaneira aquela área de Fortaleza.

No início, a avenida que pretendia adentrar pelos sertões e atingir Guaramiranga, foi chamada de Avenida Washington Luiz. Mas após a deposição do presidente na Revolução de 30, a população revoltada arrancou as placas que ainda conservavam o antigo nome, substituindo-as por outras. Depois passou a ser chamada de Avenida João Pessoa, em memória de um dos líderes do movimento, tragicamente assassinado quando governava a Paraíba.

A presença do Ideal Club – e a iminência de sua inauguração, estimulava o progresso do bairro das Damas, conforme afirmava o jornal "O Povo" nas edições do mês de outubro de 1931. Os terrenos ao longo da estrada valorizavam-se principalmente nas proximidades do clube; novas residências foram surgindo. Toda a cidade se movimentava. Os jornais publicavam reclames das lojas apresentando seus refinados produtos e oferecendo-os para serem usados no baile de inauguração. 

A tradicional loja A Cearense, de Aprígio Coelho, oferecia meias, musselines, seda natural, retilínea; a Loja Maranguape, de Luiz Vieira, alardeava seu estoque variado de sedas, próprias para a feitura de vestidos de baile. 



 dependências do Ideal Club no bairro Damas
 
A inauguração aconteceu na noite de sábado, no dia 3 de outubro de 1931, com grande baile. O afastado Damas, com noites clareadas pelas lamparinas e pela luz do luar, viu-se invadido por um inusitado brilho. A iluminação do parque, em volta do clube, foi acrescida de inúmeros refletores. 

A Avenida João Pessoa em toda a sua extensão, desde o seu início no Benfica, até a sede do clube, foi especialmente iluminada, por deliberação do gerente da Ceará Tramway Light and Power. 

Frente ao clube uma multidão se apinhava no sereno para apreciar a festa, um grande desfile da elite da cidade. A festa inaugural constou de uma sessão magna, seguida de um grande baile, que teve início às 22 horas e se prolongou até às 5 horas da manhã.

Atualmente descaracterizado por lojas comerciais, a área onde se instalou a primeira sede do Ideal Club pode ser localizada no espaço entre as ruas Antônio Martins e Dondon Feitosa, perpendiculares à Avenida João Pessoa. 

A Rua Apolo, uma ruela que se abre equidistante às duas ruas paralelas, formou-se da antiga aleia que se seguia ao portão de entrada do clube. Através dessa alameda chegava-se, pelo lado esquerdo, à sua parte social: o pavilhão de festas e dependências de serviços; à direita chegava-se à parte esportiva com o campinho de golfe, as quadras de tênis, na parte anterior e mais trás, as piscinas. No fundo deste terreno localizava-se o Cassino.


O Ideal Club ficou no bairro Damas até 1939, quando foi inaugurado o restaurante da sede atual, localizada no bairro do Meireles.

Extraído do livro Ideal Clube – história de uma sociedade

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

As Construções de Madeira

Nos tempos primitivos e heroicos da Capital do Ceará,  era comum o uso de madeira em construções para fins diversos.  As chamadas casas de taipa caprichosamente construídas pelos pedreiros antigos, eram aptas a resistirem a qualquer tipo de impacto, tão bem fincadas estavam no solo. 


Praça Castro Carreira (Praça da Estação) e seu quiosque-mucambo (arquivo Nirez)

Vários estabelecimentos comerciais e algumas casas residenciais foram construções de taipa, a exemplo do Café do Pedro Eugênio, no fim da linha do bonde do Benfica, e de outro no Largo do Garrote, na Cidade da Criança; os da Praça do Ferreira, onde havia o Java, o  Elegante, e o Iracema.  No Café do Comércio – todo de madeira – servia-se aos fregueses apressados, o café de pegar bonde. Havia também, na mesma praça, um pequeno galpão de madeira, no ponto dos bondes.


Os cafés da Praça do Ferreira e o ponto de venda de passagens de bondes (arquivo Nirez)

Na Praça do Patrocínio (atual José de Alencar) havia quatro casinhas que foram destruídas durante as agitações de 1912. Existia na Praça da Assembleia o armarinho de miudezas do velho Martiniano Teodorico (em 1878), em frente ao sobrado dos Fonseca, e mais tarde, em 1908, no mesmo local, o botequim Napoleão.  


Café do Comércio, que servia aos apressados o café de pegar bonde (arquivo Nirez)

Em frente ao Banco Frota e Gentil havia outro café, que era redondo e tinha sótão. Servia água quente e bebida choca aos fregueses, e era também casa de jogo. Foi incendiado em 1912 e restaurado depois. Além deste e na mesma Praça, havia a célebre Garapeira do Bembém, na qual eram exibidos em gaiolas, grilos vestidos e tanajuras com saiotes de bailarinas. 


Café Fênix no qual foi assassinado um certo tenente de nome Heitor Ferraz.  (arquivo Nirez)

Na Praça da Estação,  sujando a praça, um antiestético café-mocambo.
No Passeio Público, quase escondido entre as arvores, encontrava-se o Café Caio Prado, que no ano agitado de 1912, foi invadido e depredado por populares. Era propriedade da prefeitura, que o embelezou junto com a reconstrução do Passeio Público. Na antiga Praça da Alfândega, havia o Café Floriano.
O prefeito Godofredo Maciel iniciou a demolição desse tipo de edificação, começando pelos da Praça do Ferreira. Gradativamente foram desaparecendo, até que só restasse o do Passeio Público. 
Mas de todas as construções a que mais se distinguia pela elegância das linhas, era o pavilhão da chácara de Alfredo Salgado,  chamado pelo proprietário de O Pombal. 


Itapuca Vila de Alfredo Salgado e seu pavilhão de madeira (arquivo Nirez)

Além destes, havia três sobradinhos notáveis em Fortaleza, o mais antigo ficava na Praça do Conselho (hoje Praça da Sé), no qual moraram alguns dos nossos governantes. Pelos idos de 1853 a Câmara Municipal adquiriu este sobrado e um correr de casas que havia, desde a Rua Direita dos Mercadores até o Arquivo Público, demolindo-as e abrindo espaço para a praça fronteira à Igreja da Sé, a Praça Caio Prado.
O segundo sobradinho ficava no terreno dos fundos do quintal do Palácio. Era a faustosa residência do capitão-mor Antônio José Moreira Gomes, rico e influente negociante português  que andou às turras com o governador Sampaio.  Pires da Mota mandou demolir este imóvel para alinhar o muro do fundo do quintal do palácio com a Rua do Cajueiro, hoje, Pedro Borges.


Praça Caio Prado e o famoso Cruzeiro de Frei Serafim de Catânia, demolido junto com a antiga Sé (foto Marciano Lopes)

A prefeitura resolveu adquirir, para construir o palácio da Municipalidade, a parte do quarteirão da Praça da Sé, compreendida entre a Rua do Sampaio, antigo Beco da Apertada Hora, a Rua São José, antigo Beco das Almas e um futuro prolongamento da rua da Aurora, hoje Rua Costa Barros. 
Dando frente para esta praça, existia ainda um sobradinho conhecido outrora por sobrado de Lucas Torres, nome do seu antigo proprietário. Em 1845 era todo de madeira. Pertenceu ao Visconde de Cauípe e por herança deste, ao Barão de Studart.


Extraído do livro
Fortaleza Velha, de João Nogueira

domingo, 3 de abril de 2011

O Café do Pedro Eugenio

Fortaleza - 285 anos

Avenida Visconde de Cauípe, atual Avenida da Universidade (Arquivo Ah, Fortaleza!)

O antigo Café do Pedro Eugênio ficava na segunda seção da linha do Benfica, ao lado dos números pares. Tendo ao lado frondosas mangueiras, eram colocados bancas de mármore e cadeiras desmontáveis, com assentos e encostos de madeira envernizada. 

Era semelhante ao Café Java, na Praça do ferreira. Era feito de taliscas de madeira pintada de verde, com detalhes brancos. O proprietário morava vizinho e quando, quando apareciam altas horas da noite um bando de seresteiros notívagos, Pedro Eugênio levantava-se e ia abrir o estabelecimento a fim de servi-los com a melhor cachaça de Aracati.

Em 1906, ao se deitar certa noite, ouviu que estavam cantando em frente ao seu quiosque, mas o cansaço e o sono eram tão grandes que não teve coragem de se levantar para abrir o estabelecimento.

Pela manhã, quando foi abrir o café, percebeu assombrado que a porta havia sido aberta á força. Constatou surpreso que, sobre uma das mesas de mármore, havia um livro de poesias e muitas quadras escritas à lápis no mármore, todas assinadas pelos respectivos autores: Raimundo Ramos, Fernando Weyne, Quintino Cunha, Virgilio Brandão, Amadeu de Castro, Carlos severo, Carlos Gondim e os músicos Mamede Cirino, Elesbão, Abel Canuto e Pompílio. O livro de poesias era Cantares Boêmio, de Raimundo Ramos, conhecido como Ramos Cotoco.

O episódio  chamou a atenção de todos e um jornal da época escreveu uma reportagem sobre o fato, que saiu publicada na Revista O Malho, de grande circulação em todo o país. 
A pedra na qual foram escritas as trovas foi conservada durante vários anos, coberta com vidro e enviada para o Rio de janeiro, em 1915, quando Pedro Eugênio faleceu. 

No Café do Pedro Eugênio iam centenas de pessoas, de sábado a domingo, de todos os bairros de Fortaleza, saborear o delicioso cardápio, cantar, recitar, discutir política.
Atendendo ao pedido de sua mulher que se achava cansada de tanto trabalho, Pedro Eugênio vendeu o café,  muito contra a vontade, e mudou-se para um local distante. 

Com sua saída, o café começou a decair e a freguesia a procurar outros locais. Um dia, Tomé Mota, proprietário da Empresa Ferro Carril – de bondes puxados a burro – descobriu que a linha do Benfica não estava dando lucro, o que se devia ao fraco movimento do café. O empresário procurou o velho Eugênio e propôs recomprar o estabelecimento e entregá-lo novamente ao antigo dono. Pedro Eugênio não hesitou, e voltou alegre e feliz ao antigo local de trabalho. 

bonde elétrico da linha do Benfica (arquivo Cepimar)

Logo depois da instalação da nova Companhia de Bondes Elétricos, estabeleceu-se uma parada em frente ao café. Pedro Eugênio residia no casarão vizinho onde funcionou o Dispensário dos Pobres. 


Extraído do livro