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quinta-feira, 22 de maio de 2014

Povoadores da Terra em Fortaleza


Povoadoras de extensos territórios, nos quais se levantariam vilas e cidades, os clãs constituíam-se de numerosas famílias coesas e ligadas a uma ancestralidade comum. Ramificações dos velhos troncos dos povoadores dessa terra, colonizadores dos antigos sertões, essa parentela formaria uma poderosa aristocracia latifundiária, conquistando posições de relevo na vida política da província. No segundo Reinado (1840-1889) nas primeiras décadas da república, gerações desses clãs se alternariam no poder, então disputado pelos Partidos Conservador e Liberal. 


 Rua Barão do Rio Branco, início do século XX

Ao atingir a supremacia política da província, Fortaleza – até esse tempo, um simples ajuntamento de pequenas casas – passou a abrigar os casarões residenciais. A partir de 1841, o Partido Conservador firmou-se em torno da família Carcará e de seu patriarca, o Visconde do Icó, Francisco Fernandes Vieira. Grande criador dos Inhamuns, dono de uma considerável extensão dos sertões, o Visconde tinha orgulho em dizer que “depois de Mombaça, só se pisava em terras suas até o Alto Jaguaribe”. Saíam anualmente destes vastos domínios, cinco mil bois para venda em Pernambuco. Seu filho, o senador Miguel Fernandes Vieira, presidiu o Partido Carcará até seu falecimento, em 1862. 

 Casa onde residiu o Barão de Aquiraz, na Praça do Ferreira, primeiro imóvel à direita. Na sequência, a Farmácia Pasteur e o Cineteatro Majestic-Palace. 

A partir daí, o partido dividiu-se em dois subgrupos. O chamado Miúdo foi continuador da velha legenda Carcará, chefiado pelo Barão de Aquiraz, Gonçalo Batista Vieira, sobrinho e genro do Visconde do Icó. O outro subgrupo, o Graúdo – a ala dissidente – ficou sob o comando do Visconde de Jaguaribe, Domingos José Nogueira Jaguaribe, e do Barão de Ibiapaba, Joaquim da Cunha Freire.
Homem de sociedade, sócio do Clube Cearense, o Barão de Aquiraz instalou sua residência no palacete que pertenceu a Martinho de Borges, que mais tarde abrigaria por muitos anos, a sede da empresa Severiano Ribeiro, na Praça do Ferreira. 

 Cidade de Aracati, terra natal do Visconde Jaguaribe

O Visconde de Jaguaribe, nascido em Aracati, casado com Clodes de Alencar, irmã de Ana Josefina e de Praxedes de Alencar, mulheres de seus primos Senador Alencar e Major Antônio da França Alencar. Jaguaribe ocupou posteriormente a Pasta da Guerra, no Ministério do Visconde do Rio Branco. 

 prédio que seria para o Asilo de Mendicidade e terminou servindo à Escola Militar, atual Colégio Militar de Fortaleza 

O Barão de Ibiapaba, natural de Caucaia, mandou construir o prédio onde funcionou o Asilo de Mendicidade, no qual funciona nos dias atuais o Colégio Militar de fortaleza. Residiu num casarão de 4 portas para a Rua Major Facundo e 11 para a Rua Senador Alencar e faleceu sem descendência em 1907.

 Sobrado do Barão de Ibiapaba, na esquina das ruas Major Facundo e Senador Alencar

O Partido Liberal este sob a direção do Senador Alencar até 1860. Ricos e de largo prestígio social, a família Alencar possuía verdadeiros feudos sertanejos nos rincões do Vale do Cariri, voltados à criação de gado, plantio da cana-de-açúcar e do algodão. Derrotados nas Revoluções de 1817 e 1824, a família foi perseguida politicamente, tendo seus bens confiscados. Fugindo de retaliações, o futuro Senador Alencar trouxe seus parentes para a Vila de Messejana – um dos mais salubres arrabaldes de Fortaleza – e em suas terras alagadiças, molhadas por um rio e uma dezena de lagoas, cultivou a cana-de-açúcar transportada do Cariri. 

Sítio Alagadiço Novo, em Messejana, onde se estabeleceu a família do Senador Alencar
  
Nas imediações da Vila, o Senador Alencar fundou o sítio Alagadiço Novo e, com os resultados positivos desta empresa açucareira, seus primos instalaram ali outros sítios de engenho: Cambeba, Carrapicho, São Francisco – em cujas terras estava a famosa lagoa de Messejana – Ancori, Gravito, Visgueiro, Janguruçu, Prismamuna, São Cristóvão e Tusculano.  Presidente da Província por duas vezes, o Senador Alencar residiu por muitos anos no Rio de Janeiro, exercendo sua liderança política.
Seu sucessor, o Senador Thomaz Pompeu de Souza Brasil, tornou-se então, a maior autoridade deste Partido no Ceará. Pertencia o Senador Pompeu à ilustre dinastia  dos Pinto de Mesquita de Santa Quitéria, nos sertões do Ceará. Do clã de Santa Quitéria também fez parte por casamento, o Senador Francisco de Paula Pessoa, seu genro, o Conselheiro Rodrigues Júnior.  

Senador Francisco de Paula Pessoa, o "Senador dos Bois"
 
Dono de numerosas propriedades rurais, o Senador Paula Pessoa, por sua fortuna em gado, recebeu de seus adversários o apelido de “Senador dos Bois”. Com o falecimento do senador Pompeu em 1866, o Partido Liberal passou a ser chefiado pelo clã de santa Quitéria, tendo como presidentes Vicente Alves de Paula Pessoa e o Conselheiro Rodrigues Junior.
Esta facção foi a mais poderosa, de 1880 ate a proclamação da República, nela se destacando Meton de Alencar, João Cordeiro, João da Rocha Moreira e Francisco Barbosa de Paula Pessoa. A outra facção dos liberais ficou com o grupo Pompeu, liderado pelo genro do Senador Pompeu, o Comendador Antônio Pinto Nogueira Accioly, contando entre os maiores representantes do partido, Thomaz Pompeu Filho, João Brígido, Joaquim Bento de Souza Andrade, João Lopes, Virgílio Brígido e Liberato Barroso.
Na República, a oligarquia aciolina dominou o Ceará por 16 anos, quando o Comendador Nogueira Accioly conservou em mãos a maior soma de poderes que um homem público jamais reunira no Norte. 


fonte:
de Vanius Meton Gadelha Vieira
fotos do Arquivo Nirez  
  

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

As Eleições no Ceará no Tempo do Império


modelo de título de eleitor no Brasil Império (imagem G1)

Antigamente as eleições se efetuavam nas igrejas. Acreditavam os organizadores que dentro dos templos, em respeito ao ambiente e às imagens sagradas, arrefecessem a ira partidária,  inibisse o furor entre adversários, e a ação dos capangas, arvorados em eleitores.
Puro engano. As velhas crônicas estão salpicadas de muito sangue derramado em eleições, algumas das quais ficaram célebres pelas mortes violentas ocorridas durante os trabalhos.

 Canindé em 1940

Assim é que em 1852 foi assassinado em Canindé o tenente-coronel Manuel Mendes da Cruz Guimarães. No Crato, em 1856 o proprietário José Landim; no mesmo ano em Sobral, dentro da igreja, durante a votação, quatro pessoas foram mortas a punhaladas e cinquenta ficaram feridas. Ainda no mesmo ano, em Santana (atual Santana do Acaraú) morreram três liberais durante as eleições; e na Telha, hoje Iguatu, ocorreram quatorze mortes, inclusive a do delegado de polícia, na eleição de 1860. 

 Crato, 1936

Em Maria Pereira (atual Mombaça) na eleição de 1880, uma forte discussão entre eleitores degenerou em áspera luta dentro da igreja, onde o professor Jayme de A. Araripe disparou vários tiros de garrucha, na intenção de amedrontar os brigões. O expediente não surtiu efeito; a luta continuou e os combatentes usaram até os castiçais dos altares para acertar os adversários.

Quando o conflito acabou a igreja estava destruída; vários eleitores estavam feridos, inclusive o Sr. Joaquim Torres e, foi assassinado o caboclo Farias, agregado da tradicional família da região. Já em eleição anterior, ali mesmo, em Maria Pereira, o coronel Manuel Martins, famoso pela coragem e força, feriu gravemente três soldados, que queriam impedir que entrassem na igreja alguns eleitores, seus amigos.

 Sobral, 1924

Não se cogitava, então, uma eleição pacífica: eleição era sinônimo de luta e combate no sentido estrito da palavra, e por isso os cabos eleitorais iam para o local de votação, no caso as igrejas, armados de facas, facões, garruchas e pedaços de paus.  Quando as lutas se acirravam entravam em cena os bacamartes.

Naqueles tempos, todo mundo era eleitor, desde as pessoas de melhor condição social até indivíduos pertencentes às classes mais baixas. No período eleitoral em Fortaleza, viam-se grupos enormes de gente, quase toda descalça, a percorrer as ruas em passeatas entusiásticas antes, e malcriadas depois da vitória. 

 Cruzamento das ruas Major Facundo e Guilherme Rocha - década de 1920

O ano de eleição para juízes de paz e vereadores, em 1879, foi bastante atribulado em Fortaleza. Corriam os trabalhos na Matriz quando se espalhou a noticia de que ali começara uma grande desordem. Assustada, a mulher do político José Feijó de Melo, que se encontrava na igreja, mandou que um criado de nome João Peci, fosse chamá-lo. 

O criado saiu apressado e, correndo quis entrar na Sé, cujas portas estavam guardadas por soldados. Supondo que o criado fosse um desordeiro atraído pelo tumulto reinante na igreja, um dos soldados matou-o com um tiro de espingarda.

A  noticia do assassinato espalhou-se pela cidade que ficou apavorada. No dia seguinte o corpo da vítima foi levado em passeata até o cemitério, pelo Partido Conservador graúdo. Por algum tempo, Peci ficou falado e célebre em Fortaleza: não pelo que houvesse feito, mas pelo que lhe fizeram. 

 Igreja da Sé, 1914

Durante muitos anos só havia dois partidos políticos no Brasil, o Liberal e o Conservador. Mas no Ceará cada um deles se subdividia em duas facções irreconciliáveis. Para a eleição da Câmara de 1880 os Liberais Paulas  se coligaram com os Conservadores Graúdos e os Conservadores Miúdos com os Liberais Pompeus.

No dia da eleição, ainda cedo, os dois primeiros grupos, com seu numeroso eleitorado, ocuparam militarmente, a Igreja da Sé. Quando por volta das 9 horas, chegaram os Miúdos e os Pompeus, também acompanhados de um eleitorado da mesma espécie, foram atacados e repelidos à faca, pedaços de paus e tiros pelos adversários.

Travou-se então uma verdadeira batalha campal em frente à Matriz. Os atacados, em menor número, recuaram e resistindo sempre, foram empurrados pela Rua Conde D’eu em direção ao Palácio da Luz. Houve um momento em que o campo de batalha se estendia desde o portão do Mercado Novo até perto da esquina da Rua da Assembleia. Por toda parte se lutava. Sangue por todos os lados; muitos já fugiam, outros jaziam estendidos pelo calçamento e calçadas. 

 Sede da Assembleia Provincial, 1908

A luta se acirrou brutalmente nas proximidades daquela esquina. Um homem à cavalo, dava tiros para o ar, e um outro, armado de uma acha de lenha fazia frente a cinco atacantes numa calçada da Rua Conde D’Eu. Foi ali que o conflito terminou, pela retirada dos atacados. Seriam 11 horas do dia. 

A população apavorada, muitos apanhados no meio do fogo cruzado, assistia sem compreender o porquê de tanta brutalidade, nem a razão de tamanha violência. 


 Largo do Palácio, em 1908

Tão acostumados estavam os nossos antigos moradores com desordens e mortes em eleições, que o Barão de Ibiapaba, proclamou a modo de axioma que – quem morre em eleição, morre de morte natural. 
O processo eleitoral só saiu da igreja com a lei Saraiva, de 1881, ainda na época do Império. Além de criar o título eleitoral e estabelecer eleições diretas, o texto previa que o eleitor deveria ter mais de 21 anos, ter renda maior que 200 mil réis e ser alfabetizado.

fotos do Arquivo Nirez e do Álbum de Vistas do Ceará 
pesquisa:
Eleições de Outrora, de João Nogueira, publicado na Revista do Instituto do Ceará.
G1.globo.com
wikipédia

domingo, 29 de dezembro de 2013

A origem do Operariado Cearense

A Fábrica de Tecidos Progresso iniciou o processo de industrialização no Ceará

Na 2ª. Metade do século XIX verificou-se o tímido início da industrialização cearense. Em 1883 começava a funcionar a primeira fábrica fabril local. Antes, desde os anos 1830 e 1840, haviam surgido tipografias imprimindo os jornais das facções partidárias, e depois livros, panfletos, revistas,  de intelectuais e casas comerciais. 

Apareceram ainda fábricas pequenas de cigarros, chapéus, velas, óleos, bebidas, curtumes, gelo, etc. obviamente esse processo industrial era inexpressivo num contexto nacional – o Ceará continuava a ser uma província agroexportadora – mas apresentava um importante sentido social: possibilitaria o surgimento do operariado cearense.


Nessa classe, de numero reduzido, poderiam ser englobados ainda os chamados artistas, ou seja, os artesãos, pedreiros, carpinteiros, os catraieiros (estivadores portuários), os ferroviários (das estradas de ferro de Baturité e Sobral), os empregados ligados à produção de sal (como os salineiros dos rios Acaraú e Jaguaribe), os serviços de transporte urbano (condutores de bondes) e de água, energia e esgoto, entre muitos.


 trabalhadores da Estrada de Ferro Baturité
 
As condições de existência desses trabalhadores eram precárias: estafantes jornadas, inexistência de direitos trabalhistas, baixa remuneração, exploração de mão-de-obra feminina e infantil, habitações miseráveis. Assim, era natural que os operários buscassem se organizar para fazer frente às dificuldades. 

Segundo o historiador Geraldo Nobre, a primeira manifestação  de associativismo do trabalhador cearense teve caráter político-partidário, ainda ao tempo do império, com a União  Artística, organizada como ala do Partido Liberal.
 

 O Centro Artístico Cearense publicou o jornal Primeiro de Maio, tendo como dístico "Perseverança e Coragem" ao lado da inscrição "Proletários de todos os países, uni-vos" 

Depois surgiram entidades mutualistas e beneficentes, voltadas para a assistência dos filiados em caso de doenças, acidentes e mortes, como a Fraternidade e Trabalho, a União Artística Maranguapenses e a Associação Tipográfica Cearense, que em 1876 deflagraria a primeira greve trabalhista, reivindicatória de melhor remuneração no Ceará, paralisando por alguns dias as oficinas de “Pedro II”, órgão do partido Conservador.

A década de 1860 marcou o aparecimento da imprensa operária local, no contexto das mudanças socioeconômicas e urbanas  que então ocorriam – crescimento de Fortaleza, ferrovias, comércio de algodão. Em geral eram jornais de pequeno formato, com circulação restrita e que não possuíam longa duração. 



Em 1862 circulava O Artista e no ano seguinte o jornal União Artística; em 1866 era vez de O Typographo, órgão da União Tipográfica Cearense e que trata de vários temas, sobretudo da carestia, a qual atingia especialmente a população mais pobre; no ano de 1878 surgia O Colossal, de uma Associação Tipográfica, e quatro anos depois, A Greve, também ligado aos tipógrafos, os quais mostravam-se engajados nas lutas de sua classe: em 1882 fizeram uma greve em resposta ao que consideravam abusos do periódico O Cearense, de Paula Pessoa, contra os ganhos mesquinhos e as condições de insalubridade no trabalho. O patronato não negociou com os grevistas e contratou substitutos.


extraído do livro de Airton de Farias
História do Ceará 
fotos do Álbum de Vistas do Ceará, 1908
Arquivo Nirez
e FIEC


sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Fortaleza em Paris: As Reformas Urbanas na 1ª República

A instauração da República no Ceará se processou entre os dias 15 e 16 de novembro por intermédio de uma articulação envolvendo militares da Escola Militar e do 11° Batalhão, e os integrantes do centro Republicano – organizado poucos meses antes, em 26 de julho de 1889 – que depôs o governo provincial de Morais Jardim (outubro de 1889-novembro de 1889).

cadetes da Escola Militar de Fortaleza cercam o Palácio do Governo e derrubam o presidente Clarindo de Queirós 

Ocupando provisoriamente o novo poder, o Coronel Luís Ferraz faleceu pouco tempo depois (janeiro de 1891), sendo substituído pelo General Clarindo de Queirós. Esse foi deposto quando Floriano Peixoto assumiu a presidência da República, após a renúncia de Deodoro da Fonseca. Como Clarindo de Queiroz demorou a atender o chamado do presidente para ir à capital federal, uma revolta militar bombardeou por toda uma noite o Palácio do Governo e obteve a deposição do General.

Foi nesse momento que principiou a ascensão do bacharel Nogueira Accioly rumo à presidência do estado e à constituição de sua oligarquia, uma das mais duradouras (1896-1912) das tantas que despontaram no Brasil na Primeira República. Accioly não era um republicano histórico. 

Ainda no período monárquico tornou-se presidente do Partido Liberal cearense após a morte do seu sogro, Senador Pompeu. Protegido pelo ministro Sinimbu, ocupou a presidência da província em 1878. Em outubro de 1889 foi nomeado Senador do Império, cargo que não chegou a assumir por causa da Proclamação da República. 

 Em 1906 Nogueira Accioly (de pé) recebeu a visita do Presidente da República Afonso Pena

Nogueira Accioly logo aderiu ao novo regime e em 1890 fundava a União Republicana contando com a participação da antiga facção liberal e de ex-conservadores. O prestigio político de Accioly não foi abalado pelas pressões dos republicanos que o identificavam como uma das “raposas” do antigo regime, tanto que se tornou senador em 1892, cargo que lhe conferiu grande influência na política cearense daqueles atribulados primeiros anos da República.

Na condição de aliado político de Floriano Peixoto, Accioly teve atuação destacada na articulação que depôs o presidente Clarindo de Queiroz. A seguir, ocupou a presidência do Estado o tenente-coronel José Freire Bezerril; Accioly, então já presidente do Partido republicano Federalista, que fundara naquele mesmo ano de 1892, foi o escolhido para ocupar a vice-presidência. Findo o quadriênio da gestão Bezerril (1896), Accioly finalmente se elege presidente do Ceará – o primeiro governante civil do estado – com cerca de 21 mil votos.

 Embora iniciado no governo de Bezerril Fontenele (1892-96), o Mercado de Ferro, concluído em 1897 na gestão de Accioly, se configura como a primeira grande obra municipal que o intendente  Guilherme Rocha teve esmerada participação.

Entre 1889 e 1896, o período crítico dos 3 governos militares cearenses, foram poucas as práticas dominantes voltadas para os anseios de modernizar Fortaleza e disciplinar a população via estratégias higienistas e comportamentais. A destacar, entretanto, a tentativa em 1891,  de substituir os nomes das ruas por números, a exemplo de New York, medida que acabou revogada poucos meses depois; o surgimento da Academia Cearense (1894), que, ao lado do Instituto Histórico do Ceará (1887), veio a se tornar uma das principais instituições de saber da capital, reunindo os mais ilustres intelectuais e publicando uma revista anual, em formato de livro contendo não menos de 200 páginas; e a emergência de mais uma organização voltada para o controle assistencialista do contingente de miseráveis da cidade, o  Dispensário dos Pobres, em 1895. 

Guilherme Rocha, Intendente de Fortaleza de 1892 a 1912

Foi a partir dos governos seguintes de 1896 a 1930, que realmente se tornaram mais efetivos os investimentos de normalização urbano-social em Fortaleza.  Durante todo o período em que durou a oligarquia aciolina (1896-1912) a Intendência da capital ficou a cargo do coronel Guilherme Rocha, considerado pela histografia cearense um dos administradores que mais fizeram pela urbanização e embelezamento de Fortaleza.

Praça da Sé, uma das beneficiadas com melhoramentos na gestão do Intendente Guilherme Rocha

Após a construção do Mercado de Ferro, o poder municipal investiu na ampla remodelação das três principais praças da capital – a do Ferreira, a Marquês de Herval e a da Sé – inauguradas com muitos festejos. Nestes logradouros foram introduzidos canteiros de flores, avenidas, réplicas de estátuas gregas, vasos importados, chafarizes e largos pavilhões para ocorrência de retretas, patinação e ginástica.

A regeneração das praças, portanto, vai muito além do mero aformoseamento: facilitava a circulação e determinava novas regras de convivência e utilização do espaço público, além de estimular a prática de exercícios físicos nos jovens e estudantes, tidos como saudáveis aos costumes e à saúde.
  
Jardim sete de setembro, na Praça do Ferreira

Atento e vigilante ao embelezamento da cidade, Guilherme Rocha também procurou fazer cumprir o Código de Posturas de 1893, que prescrevia a adoção de uma padronização formal nas platibandas, obrigatórias nas fachadas de frente, bem como nos vãos de portas e janelas externas. Para manter a harmonia do conjunto urbano, tentou impedir as construções que não obedecessem as linhas gerais definidas pelo Código.

Com base no artigo 12 do Código, o intendente exigiu que as esquinas fossem cortadas em dois ângulos obtusos, o que provocou reação da oposição.

sede do Jornal "Unitário", de onde João Brígido disparava suas críticas contra o Governo Accioly

O jornalista João Brígido, inimigo político de Accioly, aproveitava-se do fato para ironizar o intendente municipal chamando-o de nosso Haussmann, (prefeito de Paris à época) num artigo intitulado “Fortaleza em Paris” inserido no jornal Unitário de 23 de julho de 1908. Apontando a disparidade das situações, afirmava que Haussmann  havia feito as derribadas de Paris para tirar aos inimigos seus melhores pontos estratégicos acomodados às barricadas. 

Por tal razão, tinham sido condenadas as esquinas angulares, dando-lhes forma arredondada. Não era este o caso de Fortaleza, onde em ponto central se via um pardieiro, que não era do repertório de Haussmann.

Praça José de Alencar, então Marquês de Herval depois da reforma empreendida por Guilherme Rocha. Era o cartão-postal de Fortaleza

O pardieiro a que se referia João Brígido era o Mercado de Ferro, mas sua desqualificação é questionável: afinal o Mercado de Ferro, metálico, em estilo art-nouveau, enquadrava-se nas reformas estéticas do final do século. Como se vê, os segmentos modernizadores locais – prefeitos e jornalistas, entre outros – estavam informados e alinhados com as reformas urbanas ocorridas na Europa, sobretudo as da França e Inglaterra, países com as quais as cidades brasileiras mantinham mais contato. 

detalhes do embelezamento da Praça Marquês de Herval: réplicas de estátuas gregas e vasos importados

Um dos mais eloquentes testemunhos sobre a onde de transformações urbanas vividas por Fortaleza é a crônica Epitáfio na Calçada, de Paulino Nogueira, publicada no Almanaque do Ceará, ano de 1900. Já sentindo certa nostalgia de um passado recente, o cronista compara a Fortaleza de poucas décadas atrás com a “nova” cidade do momento em que escreve, destacando, com a perspicácia e perplexidade do olhar literário, as fascinantes novidades que estavam alterando a fisionomia da cidade:

... era muito pequena e atrasada esta Capital. Ainda não tinha o Passeio Público, praças arborizadas, templos majestosos, edifícios elegantes, tantas e tantas ruas alinhadas, calçamento, iluminação à gás, linhas de bondes, carros de aluguel, hotéis, quiosques, clubes, prado, corrida de touros, a cavalo e à bicicleta, quermesse, bazar e demais novidades.  


extraído do livro de Sebastião Rogério Ponte
Fortaleza Belle Epoque: reformas urbanas e controle social (1860-1930)