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quinta-feira, 15 de agosto de 2024

Praça Paula Pessoa (Praça do Mercado São Sebastião)

 



A antiga Praça São Sebastião, atual Praça Paula Pessoa está localizada no centro de Fortaleza, com a frente voltada para a Rua Clarindo de Queiroz. A denominação de Praça São Sebastião é anterior a 1880, uma vez que em sessão de 22 de janeiro de 1881 o logradouro recebeu o nome de Senador Paula Pessoa. Em tempos passados, como descreve o escritor Gustavo Barroso, que frequentava o local no seu tempo de menino, a praça era um areal vasto e desolado. Em suas memórias o escritor se refere ao lugar como Praça São Sebastião.  A vegetação era apenas uma mancha esverdeada e rala, com mata-pasto, salsa, pinhão bravo e um ou outro cajueiro.

A atração era o açude do padre Pedro, que se estendia por trás da casa onde morou o padre, com frente para a então Praça São Sebastião, perto do açougue na esquina da chamada Estrada do Gado (atual Rua Justiniano de Serpa) da feira da Parangaba, para o Matadouro.



No meio do areal, desaprumado diante de uns restos de paredes, havia um grande cruzeiro de madeira, sustentado por um desgastado pedestal de alvenaria. Era o que restava da antiga igrejinha de São Sebastião. Depois da morte do Padre Pedro que cuidava do templo, a igrejinha foi caindo aos poucos, completamente abandonada. Acabou sendo invadida por ladrões que numa noite roubaram o que podia ter algum valor lá dentro.

Depois, populares foram carregando o que ficou da edificação: portas, telhas, caibros e tijolos. Contam que na esquina do curral do açougue havia um estabelecimento comercial que tinha sido inteiramente construído com materiais subtraídos da igrejinha de São Sebastião. O comércio exibia na fachada o pomposo título que que revelava um momento de entusiasmo político: “Viva o resplendor do Partido Liberal”.

Com o passar dos anos o cruzeiro foi pendendo cada vez mais até encontrar-se com o areal onde fora abandonado. O seu último vestígio há muito desapareceu. Depois a Igrejinha de São Sebastião foi erguida na Rua Justiniano de Serpa, onde a autora da página conheceu o prédio já desativado como templo católico, onde eram ministradas aulas de catecismo às crianças da paróquia Nossa Senhora das Dores.

Mais tarde o areal da praça passou a ser ocupado pelos circos que visitavam a cidade, que aproveitavam aquela área imensa para montar suas lonas. Quando não estava ocupada pelos circos, a praça virava campo de peladas.  

A Praça Paula Pessoa, ainda é conhecida por praça São Sebastião, principalmente porque abriga o imenso Mercado São Sebastião, onde se encontra de tudo e mais um pouco. É muito conhecido da população e bastante frequentado. O mercado ocupa praticamente toda a área da praça. O açude do Padre Pedro foi aterrado e dele não resta nenhum sinal.


Vicente Alves de Paula Pessoa que deu nome à praça, foi umas das maiores culturas jurídicas do país. Natural de Sobral era filho do também Senador Francisco de Paula Pessoa (conhecido como o Senador dos Bois) e de dona Francisca Maria Carolina Pessoa. Era sobrinho do coronel João de Andrade Pessoa (Pessoa Anta, um dos mártires da Confederação do Equador). Formado em Direito pela Faculdade de Olinda, exerceu a magistratura em Sergipe, no Ceará e no Rio Grande do Norte.

Foi nomeado Desembargador e Presidente do Pará em 1878. Foi vice-presidente do Rio Grande do Norte e 2° vice-presidente do Ceará. Foi chefe do Partido Liberal depois da morte do Senador Pompeu e escolhido senador na vaga do seu pai em 1881. Faleceu em Sobral a 31 de março de 1889.


Fontes: Coração de Menino/Gustavo Barroso/Livraria José Olimpo Editora/Rio de Janeiro: 1939/Praças de Fortaleza/Maria Noélia Rodrigues da Cunha/Imprensa Oficial do Ceará/Fortaleza:1990. E outros. Publicação Fortaleza em Fotos. Imagens Arquivo Nirez/Wikipédia e Fortaleza em Fotos 


          


domingo, 3 de fevereiro de 2019

O Otávio Bonfim que eu conheci


Rua Justiniano de Serpa, próximo à Domingos Olímpio. Ao fundo, à esquerda, o muro do convento dos Franciscanos. Anos 70 - Acervo particular

Um dos mais antigos de Fortaleza, o bairro que tem nome oficial de Farias Brito – em homenagem ao filósofo nascido em São Benedito – é mais conhecido pelo apelido: Otávio Bonfim, nome de um engenheiro que trabalhou na estação ferroviária do bairro. Assim, a antiga Estação do Matadouro, recebeu o nome do engenheiro, que segundo dizem, faleceu num acidente rodoviário. Como naquela época a estação era o equipamento mais importante do bairro, acabou virando Otávio Bonfim. A estação nem existe mais, contudo, o nome ficou para a posteridade.

Sobre a estação, inaugurada em 1922, há uma crença equivocada que a mesma recebeu retirantes da seca de 1915, história contada pela própria Rachel de Queiroz, no seu romance best-seller “O Quinze”.

No mesmo atordoamento chegaram à Estação do Matadouro. E, sem saber como, acharam-se empolgados pela onda que descia, e se viram levados através da praça de areia, e andaram por um calçamento pedregoso, e foram jogados a um curral de arame onde uma infinidade de gente se mexia, falando, gritando, acendendo fogo. Só aos poucos se repuseram e se foram orientando. 
(Rachel de Queiroz - O Quinze, pág. 39)


Foto do site Estações Ferroviárias - anos 70

Conforme o site “Estações Ferroviárias, até 1917 a linha instalada pela antiga Estrada de Ferro Baturité passava por outro trajeto, que corresponde hoje a Avenida Tristão Gonçalves, até a Estação Central. A partir daí os trilhos foram arrancados e um novo trajeto foi estabelecido mais a oeste do centro, cortando os bairros do Jacarecanga, Otávio Bonfim e Porangabuçu, chegando até Couto Fernandes. Portanto, a Estação do Matadouro não teve esse protagonismo que lhe foi atribuído nesse período. 
  
As principais diversões do bairro tinham origem em dois locais: a Igreja das Dores e o Cine Familiar. A Senhora das Dores estava sempre no centro dos acontecimentos. Nos meses de Junho e Outubro, promovia as trezenas de Santo Antônio e as novenas de São Francisco, respectivamente. No último dia da festa, o dia do santo propriamente dito (13 de junho – Santo Antônio; 4 de outubro – São Francisco), havia o encerramento em grande estilo: a missa era campal, os sinos tocavam alegremente e se formava uma grande procissão, que se arrastava pelas ruas do bairro.


Igreja de N. S. das Dores ainda sem o relógio na torre,e sem o Salão Paroquial, construído ao lado da igreja em 1959. A Pracinha em frente recebeu o nome de Praça de Otávio Bonfim em 1941, e na época da foto, quase não tinha arborização. No lugar da estátua de Farias Brito, que hoje se encontra no centro da praça, existia esse busto do Almirante Tamandaré, que tinha um pedestal que imitava uma proa de navio. A praça era bem menor em relação ao seu tamanho atual. Foto do Arquivo Nirez, dos anos 50

No cortejo, um andor ricamente enfeitado, o padre e os coroinhas todos paramentados, banda de música, uma chusma de anjinhos vestidos à caráter, e todas as irmandades, com estandartes, portando suas fitas coloridas num misto de fé e comemoração: fitas vermelhas do Apostolado da Oração, Fita azul das Mães Cristãs, fita amarela para os meninos da Cruzada, uma opa marrom para os membros da Ordem Terceira Secular. 

Encerrada a parte religiosa, começava o capítulo da arrecadação de recursos, quando no pátio externo era armado um palanque de madeira para a realização de leilão. As prendas para o leilão eram arrecadadas junto aos moradores, geralmente bolos, galinhas cheias (de quê?) e outras guloseimas, e alguns objetos, tudo embalado em colorido papel de seda.
  
Cine Familiar, ficava vizinho à Igreja das Dores - foto do Arquivo Nirez

O leiloeiro era o Irapuan Lima, e acho que já era figura conhecida naquela época (anos 60), porque alguns se admiravam dele estar sempre lá, trabalhando de graça para engordar os cofres da igreja. Outro que vivia por ali no sereno dos leilões, sempre acompanhado de suas duas filhas, era o ainda hoje conhecido Vavá, atualmente proprietário do Cine Nazaré. Naquela época, Vavá era o responsável pelo funcionamento do Cine Familiar, e acho que ele ajudava (ou fazia tudo) na iluminação do pátio e instalação do som, onde se realizava o leilão. Outra tradição da Igreja, era a distribuição do pão de Santo Antônio, às 3as. Feiras. Vinha gente de longe, para receber o alimento.   

Na esquina da praça de Otávio Bonfim com Rua Dom Jerônimo, ficava a sede da SUMOV – Superintendência Municipal de Obras e Viação, órgão da prefeitura encarregado das obras e embelezamento da cidade, e que ocupava o terreno onde outrora funcionou o matadouro. A SUMOV foi extinta em 1997 e deixou um clube de futsal na orfandade. 

Rua Justiniano de Serpa, com o muro do Convento dos Franciscanos à direita. Foto do Arquivo Nirez

Na Rua Justiniano de Serpa, num larguinho no cruzamento com a Rua Bela Cruz ficava a primitiva Capela de São Sebastião, desativada desde a inauguração da Igreja das Dores, no início dos anos 30. Os moradores a chamavam de “igrejinha”, e era bastante singela, erguida em uma calçada alta, com três portas em arcos na fachada principal, uma porta lateral em cada lado, e uma cruz no alto. No seu interior, alguns bancos de escola onde eram ministradas aulas de catecismo para os meninos que estavam sendo preparados para a primeira comunhão. E num nicho meio esquecido, uma pequena imagem (ou seria um quadro?) de um São Sebastião com o corpo traspassado de flechas. Essa igrejinha, antecessora das Dores, foi demolida por volta dos anos 80. No seu lugar, construíram uma pequena praça que deram o nome de Praça Frei Teodoro, um frade franciscano alemão morador do convento, que militava nas causas sociais da igreja, e tinha grande afinidade não só com os fiéis, mas com muitos moradores do Otávio Bonfim.

Cruzamento das ruas Justiniano de Serpa e Bela Cruz, local da igrejinha demolida nos anos 80. Atual Praça Frei Teodoro. imagem google

Na mesma Rua Justiniano de Serpa, antiga Estrada do Gado, havia várias bodegas, precursoras dos atuais supermercados, cujos proprietários eram bastante populares em razão do seu ofício e por causa das facilidades que ofereciam: cadernetas de fiado e vendas a retalhos, estavam sempre na ordem do dia. Um dos mais antigos, atendia em uma casa com duas portas na fachada, vendia carvão e outros artigos hoje totalmente obsoletos. O proprietário faleceu junto com sua mulher num acidente automobilístico na Avenida João Pessoa, engrossando a estatística da via que já era conhecida por “Avenida da Morte”. O casal tinha alugado um carro no Posto Onze, que funcionava na pracinha em frente à igreja das Dores, e se dirigia para o aeroporto, quando aconteceu o acidente. 

Mas, além dessa, que algum tempo depois voltou a funcionar com outro proprietário, ainda havia várias bodegas que quebravam o maior galho dos lisos da época. Havia a bodega do "Seu" Antônio, famoso pela limpeza das instalações, que tinha umas prateleiras que ocupavam uma parede inteira com garrafas de cachaça, todas iguais, com os rótulos rigorosamente no mesmo ângulo, onde se lia “Aguardente de Cana Idealista”. Seu Antônio era casado com a dona Anísia (uma das mais fervorosas colaboradoras dos leilões) a "galinha cheia ofertada pela dona Anííísia" conforme anunciava o leiloeiro, era uma das prendas mais cobiçadas, tanto que ficava quase sempre, para o final do leilão. 

Havia ainda a Bodega de "Seu Batista", esse sim bodegueiro raiz. Vendia de fumo de rolo à meia barra de sabão. Passava o dia de pijama e sapato e vivia com Dona Judite, a esposa, que era um poço de antipatia. A bodega dos dois ficava justamente na esquina da igrejinha.

Arquivo Nirez

A Avenida Bezerra de Menezes já existia, mas não chegava até o nosso bairro. Na época o trecho entre o Mercado São Sebastião até o então Grupo Escolar Presidente Roosevelt, atual E.E.E.P. Presidente Roosevelt, chamava-se Rua Juvenal Galeno. Logo no início da Juvenal Galeno alguém construiu um pequeno açude, formado pelo represamento das águas do riacho Jacarecanga. O açudinho, como era chamado, assumia ares de grande reservatório, ganhava corpo e força quando no período de chuvas. Era bastante frequentado pelos meninos da vizinhança e alguns afogamentos foram registrados lá. Ficava no local onde hoje está a empresa Aço Cearense, quase em frente ao Mercado São Sebastião. 

Em seguida, vinham os jardins Japonês e São José, que eram atravessados por um filete de água corrente, imagino que proveniente do sangradouro do açudinho. Esses dois jardins ocupavam todo o quarteirão onde hoje se encontra o supermercado Assaí, no início da Bezerra de Menezes. 

Havia outros estabelecimentos comerciais na Rua Juvenal Galeno, como a Fábrica Siqueira Gurgel/Usina Ceará, na esquina com a Avenida José Bastos, e na outra esquina, em frente a fábrica, estava a farmácia da Dona Rosélia, acho que a única do bairro. Em 1967, inauguraram a nova avenida Bezerra de Menezes, e o piso rústico e irregular daquele trecho, sumiu junto com a Rua Juvenal Galeno, e a nova avenida revista e ampliada, passou a ter início no Mercado São Sebastião. Deve ter sido por essa época que o açudinho foi aterrado.

início da Avenida Bezerra de Menezes. à esquerda da foto, onde estão as palmeiras, ficava o Jardim Japonês. O jardim ficava abaixo do nível da via. Foto do Arquivo Nirez 

Depois da inauguração da Avenida Bezerra de Menezes, não sei se foi o Otávio Bonfim que, pouco a pouco começou a perder sua identidade, ou se fui eu que, como diria Milton Nascimento, “partiu por outros assuntos”. O fato é que muita gente se mudou, muito comércio novo apareceu, os jardins fecharam e deram lugar ao primeiro supermercado da área – o Mercantil São José – a Siqueira Gurgel também virou supermercado, a Renovadora de Pneus Batista, que ficava na esquina da Justiniano de Serpa com a Rua Larga, ardeu numa monumental fogueira de fumaça preta, que chegou a clarear a noite do bairro, e causou enorme apreensão por causa da proximidade com o posto de gasolina, localizado em frente, do outro lado da avenida. O Cine Familiar deixou de exibir as chanchadas da Atlântida nas manhãs de domingo, e por isso, virou colégio, o Padre Champagnat. O discreto piso de mosaico da Igreja das Dores foi substituído por um espalhafatoso porcelanato branco, que deixou o templo com cara de shopping center. 


foto Fortaleza em Fotos/2011

Hoje, andando por lá, não reconheço quase nada e apenas algumas poucas pessoas. O Otávio Bonfim que eu conheci, perdeu-se nas brumas do passado.  

(redigido por Fátima Garcia com o precioso auxílio de alguns dos seus inúmeros irmãos)

sábado, 11 de julho de 2009

Igreja de Nossa Senhora das Dores/Cine Familiar

A Igreja N.S.das Dores vista da praça

No Otávio Bonfim nome adotado pela população para o bairro cujo nome oficial é Farias Brito, tudo gira em torno da Paróquia de Nossa Senhora das Dores.
A construção da Igreja das Dores e do convento de São Francisco foram frutos dos esforços de Dom Manoel da Silva Gomes, que empenhou-se na vinda dos franciscanos menores para Fortaleza, inclusive fazendo a doação de um terreno medindo 110mx100m, ou quinhentos palmos sobre quatrocentos e cinquenta palmos para a construção da igreja e do convento anexo.
A Igreja N.Sra. das Dores sucedeu à antiga capela de São Sebastião levantada na praça a que deu o nome, na antiga Estrada do Gado, hoje rua Justiniano de Serpa. Frei Odilon Gelhaus e Frei Lucas Vonnegut foram os dois grandes construtores do templo e do convento. A festa da benção ocorreu um ano depois do lançamento da pedra fundamental, com a imagem da padroeira vinda da Itália.
Os sinos da Igreja das Dores vieram da Alemanha e receberam os nomes de São José, o menor, São Sebastião, o médio e N.S. das Dores, o maior.

O Cine Familiar


Fachado do cine Familiar (foto reprodução)

O cinema fundado por Frei Leopoldo em 1935, surgiu para neutralizar e contrabalançar as fitas apresentadas pelo Cine Odeon, que funcionava em área defronte onde hoje se localiza a Delegacia do 3° Distrito Policial, e que, no entender de Frei Leopoldo, “passava todas as fitas, inclusive as que atentavam contra a moral e os bons costumes”.
O Cine Familiar foi sendo melhorado aos poucos, por meios de doações e pela ação pessoal de Frei Leopoldo.
O Cinema funcionou até 1968, quando foi fechado por exigência do Pe. Provincial sob a alegação de que já não dava renda, e sim prejuízo e problemas. Em 1970 foi aberta concorrência pública para arrendamento da sala de projeção, na qual a empresa Severiano Ribeiro saiu vencedora, e posteriormente, optou pela sua desativação.
 
Fonte: 
As pouco lembradas igrejas de Fortaleza, de Eduardo Fontes.