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domingo, 3 de fevereiro de 2019

O Otávio Bonfim que eu conheci


Rua Justiniano de Serpa, próximo à Domingos Olímpio. Ao fundo, à esquerda, o muro do convento dos Franciscanos. Anos 70 - Acervo particular

Um dos mais antigos de Fortaleza, o bairro que tem nome oficial de Farias Brito – em homenagem ao filósofo nascido em São Benedito – é mais conhecido pelo apelido: Otávio Bonfim, nome de um engenheiro que trabalhou na estação ferroviária do bairro. Assim, a antiga Estação do Matadouro, recebeu o nome do engenheiro, que segundo dizem, faleceu num acidente rodoviário. Como naquela época a estação era o equipamento mais importante do bairro, acabou virando Otávio Bonfim. A estação nem existe mais, contudo, o nome ficou para a posteridade.

Sobre a estação, inaugurada em 1922, há uma crença equivocada que a mesma recebeu retirantes da seca de 1915, história contada pela própria Rachel de Queiroz, no seu romance best-seller “O Quinze”.

No mesmo atordoamento chegaram à Estação do Matadouro. E, sem saber como, acharam-se empolgados pela onda que descia, e se viram levados através da praça de areia, e andaram por um calçamento pedregoso, e foram jogados a um curral de arame onde uma infinidade de gente se mexia, falando, gritando, acendendo fogo. Só aos poucos se repuseram e se foram orientando. 
(Rachel de Queiroz - O Quinze, pág. 39)


Foto do site Estações Ferroviárias - anos 70

Conforme o site “Estações Ferroviárias, até 1917 a linha instalada pela antiga Estrada de Ferro Baturité passava por outro trajeto, que corresponde hoje a Avenida Tristão Gonçalves, até a Estação Central. A partir daí os trilhos foram arrancados e um novo trajeto foi estabelecido mais a oeste do centro, cortando os bairros do Jacarecanga, Otávio Bonfim e Porangabuçu, chegando até Couto Fernandes. Portanto, a Estação do Matadouro não teve esse protagonismo que lhe foi atribuído nesse período. 
  
As principais diversões do bairro tinham origem em dois locais: a Igreja das Dores e o Cine Familiar. A Senhora das Dores estava sempre no centro dos acontecimentos. Nos meses de Junho e Outubro, promovia as trezenas de Santo Antônio e as novenas de São Francisco, respectivamente. No último dia da festa, o dia do santo propriamente dito (13 de junho – Santo Antônio; 4 de outubro – São Francisco), havia o encerramento em grande estilo: a missa era campal, os sinos tocavam alegremente e se formava uma grande procissão, que se arrastava pelas ruas do bairro.


Igreja de N. S. das Dores ainda sem o relógio na torre,e sem o Salão Paroquial, construído ao lado da igreja em 1959. A Pracinha em frente recebeu o nome de Praça de Otávio Bonfim em 1941, e na época da foto, quase não tinha arborização. No lugar da estátua de Farias Brito, que hoje se encontra no centro da praça, existia esse busto do Almirante Tamandaré, que tinha um pedestal que imitava uma proa de navio. A praça era bem menor em relação ao seu tamanho atual. Foto do Arquivo Nirez, dos anos 50

No cortejo, um andor ricamente enfeitado, o padre e os coroinhas todos paramentados, banda de música, uma chusma de anjinhos vestidos à caráter, e todas as irmandades, com estandartes, portando suas fitas coloridas num misto de fé e comemoração: fitas vermelhas do Apostolado da Oração, Fita azul das Mães Cristãs, fita amarela para os meninos da Cruzada, uma opa marrom para os membros da Ordem Terceira Secular. 

Encerrada a parte religiosa, começava o capítulo da arrecadação de recursos, quando no pátio externo era armado um palanque de madeira para a realização de leilão. As prendas para o leilão eram arrecadadas junto aos moradores, geralmente bolos, galinhas cheias (de quê?) e outras guloseimas, e alguns objetos, tudo embalado em colorido papel de seda.
  
Cine Familiar, ficava vizinho à Igreja das Dores - foto do Arquivo Nirez

O leiloeiro era o Irapuan Lima, e acho que já era figura conhecida naquela época (anos 60), porque alguns se admiravam dele estar sempre lá, trabalhando de graça para engordar os cofres da igreja. Outro que vivia por ali no sereno dos leilões, sempre acompanhado de suas duas filhas, era o ainda hoje conhecido Vavá, atualmente proprietário do Cine Nazaré. Naquela época, Vavá era o responsável pelo funcionamento do Cine Familiar, e acho que ele ajudava (ou fazia tudo) na iluminação do pátio e instalação do som, onde se realizava o leilão. Outra tradição da Igreja, era a distribuição do pão de Santo Antônio, às 3as. Feiras. Vinha gente de longe, para receber o alimento.   

Na esquina da praça de Otávio Bonfim com Rua Dom Jerônimo, ficava a sede da SUMOV – Superintendência Municipal de Obras e Viação, órgão da prefeitura encarregado das obras e embelezamento da cidade, e que ocupava o terreno onde outrora funcionou o matadouro. A SUMOV foi extinta em 1997 e deixou um clube de futsal na orfandade. 

Rua Justiniano de Serpa, com o muro do Convento dos Franciscanos à direita. Foto do Arquivo Nirez

Na Rua Justiniano de Serpa, num larguinho no cruzamento com a Rua Bela Cruz ficava a primitiva Capela de São Sebastião, desativada desde a inauguração da Igreja das Dores, no início dos anos 30. Os moradores a chamavam de “igrejinha”, e era bastante singela, erguida em uma calçada alta, com três portas em arcos na fachada principal, uma porta lateral em cada lado, e uma cruz no alto. No seu interior, alguns bancos de escola onde eram ministradas aulas de catecismo para os meninos que estavam sendo preparados para a primeira comunhão. E num nicho meio esquecido, uma pequena imagem (ou seria um quadro?) de um São Sebastião com o corpo traspassado de flechas. Essa igrejinha, antecessora das Dores, foi demolida por volta dos anos 80. No seu lugar, construíram uma pequena praça que deram o nome de Praça Frei Teodoro, um frade franciscano alemão morador do convento, que militava nas causas sociais da igreja, e tinha grande afinidade não só com os fiéis, mas com muitos moradores do Otávio Bonfim.

Cruzamento das ruas Justiniano de Serpa e Bela Cruz, local da igrejinha demolida nos anos 80. Atual Praça Frei Teodoro. imagem google

Na mesma Rua Justiniano de Serpa, antiga Estrada do Gado, havia várias bodegas, precursoras dos atuais supermercados, cujos proprietários eram bastante populares em razão do seu ofício e por causa das facilidades que ofereciam: cadernetas de fiado e vendas a retalhos, estavam sempre na ordem do dia. Um dos mais antigos, atendia em uma casa com duas portas na fachada, vendia carvão e outros artigos hoje totalmente obsoletos. O proprietário faleceu junto com sua mulher num acidente automobilístico na Avenida João Pessoa, engrossando a estatística da via que já era conhecida por “Avenida da Morte”. O casal tinha alugado um carro no Posto Onze, que funcionava na pracinha em frente à igreja das Dores, e se dirigia para o aeroporto, quando aconteceu o acidente. 

Mas, além dessa, que algum tempo depois voltou a funcionar com outro proprietário, ainda havia várias bodegas que quebravam o maior galho dos lisos da época. Havia a bodega do "Seu" Antônio, famoso pela limpeza das instalações, que tinha umas prateleiras que ocupavam uma parede inteira com garrafas de cachaça, todas iguais, com os rótulos rigorosamente no mesmo ângulo, onde se lia “Aguardente de Cana Idealista”. Seu Antônio era casado com a dona Anísia (uma das mais fervorosas colaboradoras dos leilões) a "galinha cheia ofertada pela dona Anííísia" conforme anunciava o leiloeiro, era uma das prendas mais cobiçadas, tanto que ficava quase sempre, para o final do leilão. 

Havia ainda a Bodega de "Seu Batista", esse sim bodegueiro raiz. Vendia de fumo de rolo à meia barra de sabão. Passava o dia de pijama e sapato e vivia com Dona Judite, a esposa, que era um poço de antipatia. A bodega dos dois ficava justamente na esquina da igrejinha.

Arquivo Nirez

A Avenida Bezerra de Menezes já existia, mas não chegava até o nosso bairro. Na época o trecho entre o Mercado São Sebastião até o então Grupo Escolar Presidente Roosevelt, atual E.E.E.P. Presidente Roosevelt, chamava-se Rua Juvenal Galeno. Logo no início da Juvenal Galeno alguém construiu um pequeno açude, formado pelo represamento das águas do riacho Jacarecanga. O açudinho, como era chamado, assumia ares de grande reservatório, ganhava corpo e força quando no período de chuvas. Era bastante frequentado pelos meninos da vizinhança e alguns afogamentos foram registrados lá. Ficava no local onde hoje está a empresa Aço Cearense, quase em frente ao Mercado São Sebastião. 

Em seguida, vinham os jardins Japonês e São José, que eram atravessados por um filete de água corrente, imagino que proveniente do sangradouro do açudinho. Esses dois jardins ocupavam todo o quarteirão onde hoje se encontra o supermercado Assaí, no início da Bezerra de Menezes. 

Havia outros estabelecimentos comerciais na Rua Juvenal Galeno, como a Fábrica Siqueira Gurgel/Usina Ceará, na esquina com a Avenida José Bastos, e na outra esquina, em frente a fábrica, estava a farmácia da Dona Rosélia, acho que a única do bairro. Em 1967, inauguraram a nova avenida Bezerra de Menezes, e o piso rústico e irregular daquele trecho, sumiu junto com a Rua Juvenal Galeno, e a nova avenida revista e ampliada, passou a ter início no Mercado São Sebastião. Deve ter sido por essa época que o açudinho foi aterrado.

início da Avenida Bezerra de Menezes. à esquerda da foto, onde estão as palmeiras, ficava o Jardim Japonês. O jardim ficava abaixo do nível da via. Foto do Arquivo Nirez 

Depois da inauguração da Avenida Bezerra de Menezes, não sei se foi o Otávio Bonfim que, pouco a pouco começou a perder sua identidade, ou se fui eu que, como diria Milton Nascimento, “partiu por outros assuntos”. O fato é que muita gente se mudou, muito comércio novo apareceu, os jardins fecharam e deram lugar ao primeiro supermercado da área – o Mercantil São José – a Siqueira Gurgel também virou supermercado, a Renovadora de Pneus Batista, que ficava na esquina da Justiniano de Serpa com a Rua Larga, ardeu numa monumental fogueira de fumaça preta, que chegou a clarear a noite do bairro, e causou enorme apreensão por causa da proximidade com o posto de gasolina, localizado em frente, do outro lado da avenida. O Cine Familiar deixou de exibir as chanchadas da Atlântida nas manhãs de domingo, e por isso, virou colégio, o Padre Champagnat. O discreto piso de mosaico da Igreja das Dores foi substituído por um espalhafatoso porcelanato branco, que deixou o templo com cara de shopping center. 


foto Fortaleza em Fotos/2011

Hoje, andando por lá, não reconheço quase nada e apenas algumas poucas pessoas. O Otávio Bonfim que eu conheci, perdeu-se nas brumas do passado.  

(redigido por Fátima Garcia com o precioso auxílio de alguns dos seus inúmeros irmãos)

domingo, 29 de outubro de 2017

Bairro São Gerardo

Localizado na área da Secretaria Regional I (SER I) O bairro São Gerardo foi criado em 1930, e herdou o nome da Igreja de São Gerardo, onde no lugar da igreja atual havia uma capela originalmente construída em 1925, quando o lugar era conhecido por Alagadiço Grande.



Certa vez um padre italiano acusou os artesãos cearenses de inventarem nomes de santos que não existiam, e no caso de São Gerardo, parece que a alegação procede. O nome do Santo é Geraldo Majela, nascido em Muro Lucano, Itália, no dia 6 de abril de 1725. De constituição física muito frágil, cresceu sempre adoentado, aprendendo com o pai seu ofício de alfaiate. A vocação religiosa sempre latente, foi relegada a 2° plano porque não era aceito pelas ordens religiosas, só conseguindo seu intento em 1749, quando ingressou na Ordem dos Padres Redentoristas, sendo enviado para o convento de Deliceto, em Foggia. De saúde delicada, Geraldo Majela faleceu no dia 16 de outubro de 1755, aos 30 anos de idade. Foi beatificado em 1893 e canonizado em 1904 pelo Papa Pio X. 

paróquia de São Gerardo (imagem http://fecappes.blogspot.com.br)

A exemplo de muitos outros bairros e até cidades no Ceará, o São Gerardo se formou no entorno da igreja. A primeira capela dedicada a São Gerardo nasceu da iniciativa de um grupo de catequistas que conseguiram a doação de um terreno localizado na Avenida Bezerra de Menezes, por parte do casal Gaudioso e Donatila de Carvalho, no ano de 1924. Obtido o terreno, passaram a trabalhar para arrecadar recursos para a construção da capela, cuja pedra fundamental foi lançada no dia 25 de agosto do mesmo ano. Em 18 de outubro de 1925 o templo foi inaugurado e recebeu a primeira benção. No dia 19 de julho de 1934, a pequena capela, reformada e ampliada, foi elevada ao status de Paróquia de São Gerardo Majela pelo Arcebispo Dom Manoel da Silva Gomes.


Mas a capela de São Gerardo, não foi a primeira daquela região. Bem antes, em 1865, foi erigida a capela de São Francisco de Paula, na Avenida Bezerra de Menezes, número atual 2590, construída em pagamento de uma promessa feita por Antônio Francisco de Góis e sua mulher Angelina de Castro Góis, por não terem nenhum membro da família entre as vítimas da epidemia de cólera que atingiu o Ceará no século XIX. Localizada na então Vila Góis, a capela foi a primeira edificação da avenida Bezerra de Menezes.
Em 1928 o templo ganhou reforma e ampliação patrocinadas por Braz de Francesco Ângelo, que foi cônsul da Itália e nomeia uma rua próxima a igreja, no cruzamento com a Bezerra de Menezes. 
  
Avenida Bezerra de Menezes - anos 30

Por esse tempo a Bezerra de Menezes era uma via muita larga, com pavimentação tosca e irregular, repleta de pés de fícus benjamins, árvores de grande porte, de copa densa, centenárias, que ali cresceram e naturalmente se postaram ao longo da via formando canteiros e alamedas no centro, que dividiam a avenida, fazendo a separação em toda a sua extensão.

As árvores que sombreavam a avenida serviam de abrigo e proteção contra o sol forte para os passageiros do bonde do Alagadiço, que fazia o maior percurso de linha e tinha parada em frente a capela. A avenida foi modernizada na gestão do prefeito Murilo Borges (1963-1967) e perdeu seu antigo charme da avenida extensa, sombria, com árvores envelhecidas e frondosas.As residências eram em sua maioria constituídas de sítios, chácaras e mansões, dotadas de porões e enormes quintais com mangueiras e onde se cultivavam frutas e hortaliças.

Villa Meton localizada nas imediações onde hoje se encontra a Secretaria de Agricultura na Avenida Bezerra de Menezes. Na vizinhança, João Tibúrcio Albano escolheu para nome de seu sítio "Ville Nous Autres", chácara que foi objeto de curiosidade e apreço pela distinção da família que a habitava. (imagem do livro Ideal Clube - história de uma sociedade)

Hoje o bairro é considerado de renda média alta, com alta valorização de imóveis e com forte perfil comercial, tendência que ficou acentuada desde 1991 com a inauguração do North Shopping, o maior daquela região. A instalação do shopping atraiu um sem número de novos comércios e prestadores de serviços dos mais variados. Outro estabelecimento tradicional no São Gerardo é o Colégio Santa Isabel, prestigiada instituição de ensino, presente no bairro desde 1938.


Em dezembro de 2015 foi concluído um custoso processo de intervenção, visando a melhoria da qualidade ambiental com a recuperação da Lagoa do Alagadiço. Durante muito tempo o ecossistema formado pela lagoa ficou esquecido pela população, encoberto pelo lixo e pelo matagal. Com a recuperação, voltou à vista a beleza paisagística do lugar transformado em uma grande área de lazer. Com a conclusão dos serviços de desassoreamento e dragagem, o volume de armazenamento da lagoa passou a ser de aproximadamente 150.000m³. A lagoa do Alagadiço é formada pelas águas do Açude João Lopes e de afluentes do Rio Maranguapinho, como o riacho Alagadiço.
          

Outro importante equipamento do bairro, é o Polo de lazer da Avenida Sargento Hermíniooriginalmente instituído como um bosque, na gestão do prefeito Evandro Aires de Moura, em 1975. O bosque é a única área de preservação situada na Regional I, além de ser a maior área verde na bacia hidrográfica do riacho Alagadiço. É localizado oficialmente no bairro do São Gerardo, dentro de uma área correspondente a 39.259,53 m² (4 hectares), caracterizando-se como Zona de Preservação Paisagística.  As obras duraram 5 anos e o local só foi inaugurado em 1981. Em 2008 foram iniciadas obras de requalificação do polo de lazer que se encontrava praticamente abandonado. O projeto foi concluído em 2016. 

Limites
Norte – Avenida Sargento Hermínio, Avenida Canal e Rua Cassimiro Montenegro; Sul – Avenida Bezerra de Menezes e Rua Azevedo Bolão;
Leste – Rua Téofilo Gurgel e Padre Graça; 
Oeste – Avenida Humberto Monte e Rua Joaquim Marques.
População: 14.200 habitantes em 4.414 domicílios (IBGE-2010)


fotos: Arquivo Nirez, Fortaleza em Fotos, O Povo. 



segunda-feira, 19 de maio de 2014

O Desmatamento continua, agora na Bezerra de Menezes


 A atual Avenida Bezerra de Menezes antes da urbanização: sítios, chácaras, poucos moradores, muitas árvores e os trilhos do bonde do Alagadiço (foto do arquivo Nirez)

A Avenida Bezerra de Menezes passou por uma grande reforma, iniciada em 2008 e concluída em meados de 2012, quando dentre outras melhorias, ganhou novas calçadas e o canteiro central ganhou uma ciclovia. Quando da inauguração, ciclistas reclamaram da presença de árvores no canteiro central, o que reduzia o espaço para bicicletas. Mas, à época, o gestor da obra, o Transfor, alegou que as árvores eram muito antigas e importantes para projetar sombra sobra a rodovia. 

 A última reforma, que construiu a ciclovia no canteiro central, já dizimou boa parte da vegetação

Na verdade, o projeto original previa a retirada das árvores do canteiro central,  o que só não foi concretizado em razão da atuação do então vigário da Igreja de N.S. das Dores em Otávio Bonfim, Frei Humberto Wallschlag, que era contra a retirada da já escassa cobertura vegetal da avenida, mobilizou vários segmentos sociais, e os gestores se viram obrigados a modificar o projeto.
Desde os anos 70, quando a via passou pela primeira reforma (na segunda metade dos anos 60), a Bezerra de Menezes transformou-se  em importante polo comercial, aglutinando grande diversidade de negócios. 
  
Em qualquer projeto de intervenção, por mais simples que seja, uma das primeiras análises envolve o comportamento de variáveis envolvidas no problema: se modificarmos uma variável, como se comportarão as outras? Essa premissa básica, elementar, não parece fazer parte dos projetos da prefeitura. Ao isolar as faixas da direita da pista para facilitar o escoamento de coletivos,  dificultou o acesso aos comércios o que determinou a falência de vários comerciantes.
 
Mas a realidade desses comerciantes começou a mudar a partir do início de 2014, quando, visando melhorar a mobilidade e aumentar a velocidade média da avenida, a prefeitura implantou o sistema de faixas exclusivas para ônibus e vans, o que dificultou a circulação e a parada de veículos de passeio nas faixas da direita. A dificuldade de acesso, esvaziou os estabelecimentos, e determinou a quebra de vários comerciantes, que viram a clientela desaparecer. Hoje, há muitos pontos desocupados, disponíveis para vendas, aluguel, etc.
Agora, diante do desastre do comércio da Bezerra de Menezes, os gestores resolveram fazer uma nova intervenção, qual seja, deslocar as paradas de ônibus para o canteiro central, e a circulação de coletivos para a pista da esquerda, onde ocorrerão embarque e desembarque de passageiros. 
Ao que parece tudo será feito como das outras vezes, intempestivamente, açodadamente, se vai dar certo, se vê depois.

 
A Avenida em dois momentos: antes e depois da sinalização com as faixas exclusivas. A faixa azul que aparece à direita deverá ser deslocada para a esquerda. Espera-se que os ilustres planejadores tenham adotado medidas de segurança para a travessia de pedestres para os pontos de ônibus, que serão localizados no canteiro central, e não esperem o aumentar o número de mortes por atropelamento para começarem a agir

E para viabilizar o novo projeto, vão realizar uma das ações que já se anuncia como uma das prediletas dos nossos atabalhoados governantes: a retirada de cerca de 100  árvores da avenida. As árvores que o saudoso Frei Humberto defendeu com tanta garra e convicção; as árvores que dão um pouco de sombra e frescor a uma via tão desumanizada, árida e feia.  Mais uma vez é reafirmada a prioridade dos carros em detrimento de pessoas, seus meios de sobrevivência, seu bem estar, sua segurança, ao ter que atravessar as faixas de uma avenida que apresenta condições tão adversas.

fotos de Rodrigo Paiva e Raquel Garcia
mar/2013/abril/2014 
por Fátima Garcia  
 

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

A Cidade no Pós Guerra

Depois do final da 2ª. Guerra (1939-1945), Fortaleza passou por várias mudanças, em sua estrutura urbana e na oferta de serviços. Diante da notória expansão desordenada da cidade, o prefeito Acrísio Moreira da Rocha (1948-1951) contratou o urbanista José Otacílio de Saboia Ribeiro, para elaborar o denominado Plano Diretor  para Remodelação e Extensão de Fortaleza. 

Rua Guilherme Rocha, exclusiva para pedestres, a partir dos anos 50
 
Este propunha o fim da mononucleação da cidade ao indicar zonas portuárias, industriais, comerciais e residenciais na área urbana, o estabelecimento de uma hierarquia de vias a abrir a alargar, a preservação com avenidas nos leitos dos riachos Pajeú, Jacarecanga e Tauape, o estabelecimento de áreas de parques – mostrando preocupação com o aspecto ecológico – dentre outras providências.  O plano, porém, nunca foi implantado, por pressão dos proprietários de imóveis.  Mais uma vez, interesses outros impediam que a cidade encarasse seus graves problemas e adiasse a solução. 

 Rua Major Facundo, trecho da Praça do Ferreira, com os trilhos dos bondes elétricos (foto O Povo)

Outra questão que foi tratada por Acrísio, foi a dos péssimos serviços de transporte e de energia prestados pela companhia inglesa The Ceara Tramway Light and Power. Na verdade, a expansão da cidade não era acompanhada no mesmo nível, pelos serviços que a população requeria. Em ato unilateral, de 1948, Acrísio rompeu o contrato com a empresa, encampando todo o patrimônio desta, ou seja, passando-o ao controle da prefeitura. Os bondes elétricos foram desativados e os trilhos retirados. 

 ônibus da linha Porangabussu, anos 50. Pertencia a Viação Angelim (foto do site Memorial Fotográfico do Transporte Coletivo de Passageiros do Ceará)

O problema do transporte público deveria ser resolvido com a permissão da instalação de novas linhas de ônibus. Os atos do prefeito foram efusivamente apoiados pela população, embora, de fato, o problema tenha continuado, visto que os ônibus deixavam muito a desejar – eram mal conservados,  superlotados, frota reduzida e altos valores das passagens.  De todos os serviços urbanos de Fortaleza, o transporte coletivo era o mais debatido pelos fortalezenses, especialmente porque era usado por todas as classes sociais, uma vez que só os mais abastados tinham automóveis, tidos como símbolo de status e ascensão social. Os aumentos nos preços das passagens – normalmente vinculados ao aumento de preços dos combustíveis – provocavam grandes debates na Câmara dos vereadores e na imprensa, ocorrendo constantes manifestações populares, em sua maioria organizadas e dirigidas pelos estudantes do Liceu, que apedrejavam os ônibus. 

 Ponto de ônibus na Praça do Ferreira - anos 50 (Arquivo Nirez)

Na tentativa de suprir as deficiências do sistema surgiram as auto lotações, camionetas que passaram a servir alguns bairros, sobretudo os mais distantes e pobres, como o da Floresta (na Avenida Francisco Sá), composto por trabalhadores da Viação Cearense e operários das indústrias. Algumas linhas de ônibus só funcionavam, até às 20 horas. Filas enormes e tumultos para pegar os ônibus eram comuns nas paradas. Comumente, os ônibus deixavam de circular, prejudicando a população por falta de peças de reposição ou por pressão dos empresários para forçar o aumento das passagens.  Vez por outra estouravam greves de motoristas e trocadores, contra os baixos salários e excessiva jornada de trabalho. Nos anos 1950, um motorista trabalhava 15 horas por dia, inclusive aos domingos. Para completar, havia a falta de renovação da frota, circulavam ônibus com até 12 anos de uso,  o crescimento da população e a expansão da cidade, o que demandava mais lugares para serem atendidos pelas já insuficientes linhas de ônibus. 

 A futura Avenida Bezerra de Menezes, em 1940 (Arquivo Nirez)

Enquanto isso, a circulação dos veículos ficava cada vez mais problemática. Existiam poucas vias de comunicação entre os bairros – o que obrigava a passagem pelo centro – e quando havia, o estado de conservação era ruim. O alargamento das principais ruas previsto no Plano Saboia não se concretizou. A avenida mais larga era a Bezerra de Menezes, inaugurada em 1966, ligando a Praça Paula Pessoa à Mister Hull, em Antônio Bezerra.
Em 1952, Fortaleza já teria quatro mil veículos, dos quais 195 eram ônibus das 51 linhas que ligavam o centro a bairros e distritos. Foram implantados semáforos luminosos em algumas ruas centrais, retirados os pontos de ônibus do entorno da Praça do Ferreira e proibida a circulação de veículos na Rua Guilherme Rocha.

trecho da Avenida Leste Oeste, em construção, em 1974 (foto O Povo) 
Foram abertas novas ruas e avenidas e intensificou-se a pavimentação, mais isso nunca era suficiente para as necessidades da capital. Dessas vias abertas, uma das mais importantes ainda hoje,  construída na gestão do prefeito Cordeiro Neto (1959-1963) foi a Avenida Perimetral, anel que contorna a cidade, ligando vários bairros, da Barra do Ceará ao Mucuripe.


Extraído do livro de Artur Bruno e Airton de Farias
Fortaleza:  uma breve história
     

sábado, 5 de novembro de 2011

Avenida Bezerra de Menezes


A Avenida Bezerra de Menezes da década de 1940. Uma via de grande extensão, com muitas árvores de grande porte e vários sítios. Os trilhos do bonde do Alagadiço também estão na foto. Era um dos percursos mais longos, a linha era dividida por seção: 1ª seção, a Fábrica da Siqueira Gurgel, logo após a pracinha de Otávio Bonfim e o Grupo Escolar Presidente Roosevelt; 2ª seção o Instituto dos Cegos e a Igreja de São Gerardo e 3ª seção, Secretaria de Agricultura e residência do Dr. Abnegado Rocha Lima.
A Avenida foi radicalmente modificada na gestão do prefeito Murilo Borges (1963-1967). O logradouro tinha inúmeros pés de fícus benjamins, que com o tempo, cresceram e se espalharam ao longo da avenida,  formando canteiros e alamedas que dividiam as pistas em toda sua extensão. Tudo foi retirado. 


A avenida na década de 1970. Ainda com alguns espaços vazios e muito verde nos arredores. Ao fundo as serras de Caucaia. No dia da inauguração da nova via, depois do corte da fita simbólica pelo prefeito Murilo Borges, teve inicio uma grande confraternização entre os moradores, que promoveram um grande banquete, onde foi posta uma mesa quilométrica ao longo da avenida, com as mais variadas iguarias.  

fotos do Arquivo Nirez