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terça-feira, 7 de março de 2017

Os Pioneiros do Comércio em Fortaleza

Fundada em 1821, a Farmácia Theodorico foi a primeira farmácia de Fortaleza

No meio do terceiro quarteirão da Rua Major Facundo, erguia-se um velho sobrado residencial, com muitas portas no pavio térreo e apenas duas ou três janelas no andar superior, de propriedade do português José Smith de Vasconcelos. Chegando ao Ceará em 1831, esse português fez fortuna como panificador em Fortaleza, foi proprietário de “O Barateiro”, a primeira padaria da cidade instalada na Rua Major Facundo esquina com a Castro e Silva. Ali se estabeleceria mais tarde, a Fábrica Iracema de Cigarros de Philomeno Gomes e Filho e a Empresa de J. Tomé de Saboia. 

Edificio J. Lopes, um dos primeiros do Centro
Alcunhado de “Zé Barateiro”, esse tio do Barão de Studart tornou-se o 1° barão de Vasconcellos. Voltou a residir na Europa e faleceu no Rio de Janeiro em 1903. No lugar do sobrado de sua residência encontra-se atualmente o Edifício J.Lopes. Antes da construção desse edifício funcionou o Restaurante Palhabote, de Antônio Dias Pinheiro, Pedro Muniz e Guilherme Moreira da Rocha. Tempos depois esse prédio foi ocupado pelo Cassino Cearense com o Cinema Júlio Pinto, uma das primeiras casas de espetáculo cinematográfico de Fortaleza. Num dos espaçosos salões desse Cassino, todo iluminado a luz elétrica, inaugurou-se o cinema, em 18 de setembro de 1909, com a presença de várias autoridades, entre outros pelo presidente Nogueira Accioly e todo seu secretariado.

Vizinha à residência do Barão de Vasconcellos localizava-se a casa comercial de José Gomes de Moura – cônsul do Paraguai – e a loja de tecidos de seu cunhado – cônsul da Bolívia – Maximiano Leite Barbosa. 
Nas proximidades encontrava-se ainda a moradia do português João Antônio Albernás do Amaral, casado com uma Correia de Mello, membro da família proprietária da Casa de Ferragem Amaral e Filhos. Dentre os seus descendentes destacam-se seus filhos José Correia do Amaral e Isaac Correia do Amaral, conhecidos abolicionistas e o cônego Ananias Correia do Amaral, um dos fundadores do Colégio São José em Fortaleza.

propaganda da firma Conrado Cabral & Cia, publicada no Almanaque Hénault-1912/13

Nessa residência instalou-se mais tarde, a Casa Contado Cabral, fundada em 1884, propriedade da família de Raul Conrado Cabral. Esse quarteirão abrigaria também o escritório de Joaquim Markan. Próxima loja de Ferragens de Conrado Cabral instalou-se a antiga Farmácia Teodorico, da família Eloy da Costa, na Rua Major Facundo. A Farmácia Teodorico era a casa comercial mais antiga da cidade, contemporânea do Brasil-reino, fundada pelo pai do velho Teodorico. Três gerações dessa família dirigiram a farmácia, a começar por Antônio Eloy da Costa, nascido em Recife em 1797, a quem foi concedida licença para abrir uma botica. A instalação da farmácia em Fortaleza ocorreu em 1821.

Na esquina das ruas Major Facundo e São Paulo, onde hoje funciona a Livraria Paulinas residiu o Major Facundo de Castro Menezes, covardemente assassinado em sua residência por adversários políticos. Depois a Casa Villar ocupou esse casarão durante 105 anos, até novembro de 1959. A família Villar é uma das treze famílias descritas por Raimundo Girão em seu livro “Famílias de Fortaleza”, junto com as famílias Albano, Amaral, Bastos, Borges, Brasil, Cals, Ellery, Gaspar de Oliveira, Teóphilo, Gouveia, Machado, Mamede e Salgado. A maior parte delas tem origem em portugueses que imigraram para Fortaleza em meados do século XIX e aqui desenvolveram o comércio da cidade.

Anúncio da Casa Ribeiro, de Luiz Severiano Ribeiro - Almanaque Hénault - 1912/13
fachada da loja Torre Eiffel, de Paulo Morais

No quarto quarteirão dessa rua sobressaía-se o sobradão de cinco portas térreas e cinco janelas avarandadas do cônsul de Portugal Manoel Caetano de Gouveia, rico e socialmente influente. Na sua vizinhança Fernando de Alencar Pinto instalaria os escritórios de sua empresa. Da sociedade dos Irmãos Pinto, surgiria a Companhia Importadora de Máquinas e Acessórios Irmãos Pinto – Cimaipinto. Em suas imediações ficava a Loja Torre Eiffel de Paulo Morais, adquirida de Antônio Fiuza Pequeno e Álvaro Mota; a Livraria Humberto, de Humberto Correia Ribeiro; a Casa Dummar; a Livraria Ribeiro, de Luiz Severiano Ribeiro.

prédio de propriedade de Plácido de Carvalho, onde funcionou a empresa de Adolpho Quixadá

Num prédio de Plácido de Carvalho, que por muito tempo apresentaria no alto da fachada uma estátua de bronze representando o deus Mercúrio em tamanho natural, funcionaria a Companhia Quixadá, fundada por Adolpho Quixadá; próximo a ela encontrava-se a sede da Livraria e Papelaria Comercial, de Meton Gadelha.

Fechando o quarteirão estava o sobrado do comendador Machado, com três portas para a Rua Major Facundo e quatro para a Rua Guilherme Rocha, onde hoje se ergue o Excelsior Hotel. No antigo casarão hospedou-se em 1859, a Comissão Científica que veio ao Ceará com a participação de Gonçalves Dias e outros. 

Ao final do século XIX, a firma Gradvohl e Fils ocupou seu andar térreo, com o proprietário residindo na parte superior. Os Gradvohl eram franceses originários da Alsácia-Lorena. Eram proprietários da Casa Gradvohl Frères. A exemplo da Casa Boris, a Gradvohl Frères teve grande duração no Ceará.
Mais tarde o térreo do sobrado do Comendador Machado foi ocupado pelo famoso Café Riche, de propriedade de Alfredo Salgado e Luiz Severiano Ribeiro, estabelecimento frequentado por literatos, escritores e poetas.

Extraído do livro: 
Ideal Clube – história de uma sociedade de Vanius Meton Gadelha Vieira
fotos do arquivo Nirez

   

domingo, 16 de agosto de 2015

Os Antigos Cafés eram redutos de Intelectuais

Fossem  nas grandes capitais ou em pequenas cidades, os cafés e bares eram pontos de encontro e muita conversa fiada em torno dos mais variados assuntos, alguns de grande, outros de nenhuma importância. E eram nos cafés que ocorriam as grandes discussões sobre literatura e os assuntos relevantes da época. Os bares e cafés eram redutos masculinos, a única mulher que era vista nesses estabelecimentos do centro, se chamava Rachel de Queiroz, isso a partir dos anos 30.


Praça do Ferreira cruzamento das ruas Major Facundo e Guilherme Rocha. O sobrado mais alto, à esquerda, pertenceu ao comendador Machado, onde no térreo, funcionava o Café Riche. Na outra esquina, em frente ao sobrado, ficava a Maison Art-Nouveau. Atualmente, nesse mesmo cruzamento estão o Excelsior Hotel e o edifício Granito. Foto da 1ª metade dos anos 20 

As constantes modificações nos hábitos urbanos contribuíram para o desaparecimento dos cafés, espaços de alta expressão na vida das cidades, como foco de debates de ideias, de comentários políticos e às vezes de mexericos sociais. Alguns desses cafés, permaneceram por longos anos, servindo como ponto de encontro da elite intelectual  de Fortaleza. 



Foi um dos pioneiros e o mais famoso deles. Por volta do ano de 1892, a boemia elegante e intelectual que marcou época em Fortaleza, fazia sua parada obrigatória no Café Java, um quiosque modesto, armado no canto da Praça do Ferreira, em frente ao edifício da Rotisserie, hoje Caixa Econômica. Naquele local nasceu a controvertida Padaria Espiritual, assinalando uma das épocas mais curiosas da história de Fortaleza.

O Café Java tinha na figura do seu proprietário, que se chamava Manoel Pereira dos Santos, e atendia pela alcunha de Mané Coco, um dos tipos mais bizarros daqueles tempos. O Mané Coco – segundo a descrição de Antônio Sales – era uma excelente pessoa, muito inteligente, embora destituído de cultura. Apreciava aquela mocidade que, a pretexto de um cafezinho no seu estabelecimento, vinha prosar e poetizar.

Primeiro chegou Antônio Sales, o dos Versos Diversos de 1890. Depois se juntam 34 moços, metade poetas: funcionários da alfândega, caixeiros, migrantes. Estava formado o embrião do grupo literário que ficou conhecido como “Padaria Espiritual”. 

Na reforma feita na praça na primeira gestão do Prefeito Godofredo Maciel , em 1920, os quiosques foram demolidos. Sobre o episódio, Antônio Sales escreveu estas palavras de mágoa: esta noite, ao sair do cinema, parei defronte dos destroços fúnebres do Café Java, sacrificado à estética da Praça do Ferreira, que é o centro vital de nossa urbe. E nessa contemplação, veio-me uma grande tristeza e uma grande saudade. Ali reinou Mané Coco, o fundador dessa instituição popular que era o café, hoje desaparecido. 

Maison Art-Nouveau


Surgiu em 1907 no cruzamento das ruas Major Facundo e Guilherme Rocha, no lugar do atual Edifício Granito. Fora uma casa de louça e vidros – Casa Almeida – de que era sócio José Rola. Ao mudar-se para a esquina das ruas Guilherme Rocha e Barão do Rio Branco, ele abriu um bar-confeitaria e um teatrinho, onde funcionou o Cinema Di Maio e depois o Cinema Riche. 

Do Art-Nouveau era seu sócio o genro Augusto Fiúza Pequeno, que ficando responsável pelo negócio, associou-se a Hildebrando Acioli. Esteve a Maison daí por diante, ora nas mãos do dono, ora dos arrendatários.

Os dois irmãos Eugênio a exploraram durante largo período – 22 de junho de 1922 a 12 de outubro de 1928, dia em que a repassaram para Edilberto Góis Ferreira. O russo Jacó Braunstein foi o último arrendatário.

A história elegante e literária de Fortaleza não pode ser contada sem a Art-Nouveau, pois veio ela a suprir velha lacuna, propiciando ao mundo chique  e literário os mais eufóricos encontros, num intercâmbio de amizades, camaradagens e trocas de ideias. O Art-Nouveau reunia em suas mesas, palestrantes, poetas, homens de letras, cronistas, historiadores e humoristas, os mais diversos. Presenças que conferiam prestigio ao estabelecimento, mas que pouco rendiam em termos financeiros.

A abertura do Café Riche, em frente, abalou sensivelmente o movimento da Maison, porém foi retomado à medida que aquele fracassava, invadida as suas mesas por malandros e gente de menor aceitação. Paralelamente ocupavam bancas da Art-Nouveau muitos empregados do comércio, que aproveitavam para isso o pequeno intervalo do almoço; quase todos os alunos da Escola de Comércio Fênix Caixeiral e clientes com menor poder aquisitivo. A Maison encerrou suas atividades ao ser consumida por um incêndio por volta de 1930. 

Café Riche


Foi inaugurado no dia 21 de setembro de 1913, de propriedade de Alfredo Salgado e Luiz Severiano Ribeiro, o futuro rei do cinema no Brasil. Ocupava o andar térreo do sobrado, enquanto nos andares superiores funcionava o Hotel Central. Vizinho, um casal de americanos havia iniciado a exploração do restaurante Black and White, gerenciado por João Quinderé. Como não tinha condições de se manter, foi anexado ao Café Riche, que foi ampliado com uma seção onde eram servidas refeições.

O edifício do Café e do Hotel era o sobradão mandado construir em 1825, pelo Comendador José Antônio Machado. A construção foi confiada ao Coronel Conrado Jacó de Niemeyer (o mesmo homem que atuou como presidente da Comissão Militar responsável pelo fuzilamento dos heróis da República do Equador, em 1825, no Passeio Público).   

Por esse tempo havia a crença de que o solo arenoso, de areias frouxas não suportaria a construção de uma casa daquela altura. Até os pedreiros mostraram receio, mas foram obrigados a levantar a obra com o auxilio dos presos da Cadeia do Crime. E nenhuma construção da cidade enfrentou tão bem as intempéries.

A sua demolição ocorreu em 1927, quando estava o sobrado na posse e domínio do capitalista Plácido de Carvalho. Para isso, no ano anterior, o Riche havia sido fechado. Antes, habitaram os dois andares de cima, a Família Gradvohl, ocupados os baixos pela Loja Boa Fé, de Gradvohl & Picard, firma que transformou em Gradvohl Frères.

O Café Riche apresentava relativo luxo e servia bem, razão pela qual ia sendo procurado, em prejuízo da Maison. A roda de intelectuais que ali assistia destacou-se pelo bom padrão dos seus integrantes. Para maior bem estar da freguesia eram colocados, à tarde, mesinhas desarmáveis num tablado que avançava contra a Rua Major Facundo, cobrindo a sarjeta e, assim, ampliando a calçada. As mesas internas eram de mármore, oitavadas e de tripés de ferro prateado, imitando galhos retorcidos.

Na alvura do mármore, muitas poesias foram escritas, reproduzidas ou ali mesmo improvisadas.   De repente o Café Riche começou a decair, ao ter suas mesas invadidas por malandros e pessoas de menor aceitação. Os clientes tradicionais debandaram em busca de novos espaços, e o café fechou suas portas em 1926.

Fonte:

sábado, 2 de agosto de 2014

O Culto do Afrancesamento

O Hotel de France acompanhava a tendência de afrancesamento da época; o Passeio Público, que teve como modelo os  jardins públicos europeus, acolhia as elites da cidade.
 
Paris, capital do século XIX, segundo a expressão de Walter Benjamin, não só estava na moda como ditava modas para o mundo ocidental estabelecendo os modelos e figurinos a serem seguidos para se poder estar em dia com os novos tempos. E assim foi na Europa, em São Paulo, Rio de Janeiro e em Florianópolis. Em Fortaleza não foi diferente, seduzindo os novos grupos afluentes, ansiosos por novidades que lhes deleitassem e demarcassem a superioridade social e estética. O afrancesamento, sinal de prestígio e refinamento, tornou-se uma febre na capital, nas mais variadas formas e sentidos.

 Rua Major Facundo, esquina com a Guilherme Rocha anos 20. No local onde  funcionava o Café Riche hoje está o Excelsior Hotel.  

Era elegante utilizar termos e nomes franceses onde fosse possível. O caso mais evidente era o das próprias lojas que vendiam objetos de desejo mundano vindos de Paris. Assim, não era à toa que as mesmas passassem a ostentar títulos como Rendez-vous de Dames, Au Phare de La Bastille, Paris des Dames, Paris n’America, Bom Marché, Maison Moderne, Louvre; e também Hotel de France, Restaurant Entaminet Europeu, café Riche, Confeitaria Maison Art Nouveau, Notre Dame de Paris, além de Farmácia Francesa e Farmácia Pasteur. Em suas vitrines, o atraente acervo de artigos europeus constituídos de tecidos, sapatos, perfumes, chapéus, bijuterias, conservas, bebidas, maquinários e peças de automóveis.

Propaganda da Farmácia Pasteur, fundada em 1894 e vendida em 1905, para a empresa que fez esse anúncio

Havia no ofício de fotógrafo a superstição dos nomes franceses. Fotógrafo com nome nacional ficava sem trabalho. O velho e moreno Moura passou a ser Moura Quineau. O Eurico Bandeira transformou-se em Eurico Bandière.
Alguns casos de mudança de nomes nacionais por franceses não se deram por objetivos mercadológicos, mas pela espiritualidade popular que a tudo satirizava, e que não poderia deixar passar sem gozação, tamanha compulsão pelas coisas da França. Foram os casos do Bembém Garapeira, chamado de “Bien-Bien Garapiere” e do Dr. Aurélio de Lavor que se tornou “Monsieur Laveur”. 


 Garapeira do Bembém, localizada na antiga Praça Carolina e José de Alencar, atual Waldemar Falcão. foto de 1909.

Bembém era o proprietário de um quiosque de madeira no centro da Cidade que vendia garapa de cana-de-açúcar. Seu pequeno estabelecimento divertia o público pelas brincadeiras do seu dono e por conter coisas bizarras, como cabeças feitas pelo próprio garapeiro em quengas de coco. De tanto ouvir falar da França, o garapeiro passou a cultivar o sonho de conhecer Paris. Instruído por Alfredo Salgado, um dos mais ricos comerciantes da cidade, Bembém economizou dinheiro e um belo dia, para surpresa geral, viajou para a França. Seu relato da viagem é uma das mais hilariantes histórias que a Capital já ouviu. 

Quem conta é Otacílio de Azevedo, no seu “Fortaleza Descalça”.
Bembém foi e voltou radiante. Lamentava apenas ter ido tão tarde, não podendo assistir a decapitação de Maria Antonieta... Aquilo é que é cidade!, dizia entusiasmado. No hotel onde me hospedei fui obrigado a escrever meu nome. Como a língua era outra, escrevi: “Bien-Bien” e mais embaixo: Garapiere. E completava: Olha, lá eu só andava com um homem chamado Cicerone que falava Português como eu. Terra adiantada aquela: todo mundo falando francês, até mesmo os carregadores chapeados, as crianças e as mulheres do povo! Bembém não se cansava de falar da França e completava declarando que lá, a única palavra em português que ouvira fora “mercibocu”... a conselho de um intelectual perverso, mandou imprimir um cartão para distribuir com amigos e fregueses: 

 BIEN-BIEN – Garapière
Fortaleza – Ceará.

Já o caso do Dr. Aurélio de Lavor é uma ilustração contundente de que a mania de afrancesamento da época às vezes beirava o patético, e por isso mesmo, logo percebido e transformado em gozação pública. O médico em questão, após viagem à Europa, não descuidava de usar impecáveis fraques, calça listrada, sapatos de verniz e cravo branco à lapela. Seu exagero se completava com a compulsão de sempre falar em francês em qualquer conversação. Em face disso, o ferino jornalista João Brígido nas páginas do seu jornal Unitário resolveu mudar o nome de Aurélio de Lavor para Monsieur Laveur, alcunha pilhérica que ganhou fama na cidade.

No meio literário a admiração pela França também se fez presente, afinal era a pátria de escritores estimados pelos literatos brasileiros. Dentre os muitos literatos cearenses que cultivavam o encantamento francês, sobressaía-se Antônio Sales, um dos principais escritores do começo do século. Vibrava quando falava na França que era uma espécie de segunda pátria para ele.


Fachada da loja Torre Eiffel, localizada na Rua Major Facundo 88. Anos 20

Recitar versos em francês era comum nas rodas literárias, principalmente entre a jovem boemia literária que vigorou intensamente na cidade, perpetrando suas aventuras urbanas em cafés, tabernas, serestas, comícios e através de pequenos jornais que não cansavam de publicar e que, em geral não passavam do 3º número.

Nesse grupo uma dos que mais se destacou pela vivência boêmia foi William Peter Bernard, profundo conhecedor das obras de poetas franceses ditos malditos, como Baudelaire, Verlaine e Rimbaud. Figura singular, Bernard costumava andar arrastando um grande bode holandês, recitava poesias com ardor enquanto se embriagava nos cafés do centro e nas bodegas e botequins mais reles, quando o dinheiro escasseava.

Certa feita, ao se deparar com dezenas de flagelados da seca de 1915 em tumulto com policiais na praia, Bernard e seus companheiros promoveram uma passeata com os retirantes dali até a Praça do Ferreira, bradando “Pão ou Revolução”. Dela só desistiu quando veio o recado do Presidente do Estado de que as frentes de serviço na estrada de ferro estavam reabertas e que o Dispensário dos Pobres receberia verba especial para atender os retirantes. No dia seguinte foi intimado para ir prestar explicações à Polícia. 


 Restaurante do Clube Iracema, que funcionava no Palacete Ceará, atual Caixa Econômica, na Praça do Ferreira, década de 1920 

Todos esses indicativos de um forte referencial francês na constituição do comércio importador-exportador, no viver mundano, nas letras e ciências em Fortaleza, consubstanciam aspectos da ardente vontade de instaurar na Cidade uma nova ordem sócio-urbana, onde as classes dominantes pudessem auferir os benefícios de uma sociedade produtiva, aformoseada, civilizada e higienizada. O afrancesamento foi, nessa perspectiva, uma vivência e uma das frentes  de persuasão tentadas para romper com a tradição e o provincianismo da cidade.

Extraído do livro
Fortaleza Belle Epoque reformas urbanas e controle social – 1860-1930
De Sebastião Rogério Ponte
pesquisa:
Cronologia Ilustrada de Fortaleza
de Miguel Ângelo de Azevedo
fotos do Arquivo Nirez
    
  

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Prédios Históricos na Praça do Ferreira

Praça do Ferreira em 1908 (Arquivo Nirez)

Na primeira metade do século XIX a Praça do Ferreira era um imenso largo com uma ruela denominada Beco do Cotovelo atravessando-a de Nordeste a Sudoeste. Em 6 de dezembro de 1842, o intendente Manuel Teófilo Gaspar de Oliveira mediante lei municipal, autorizou a reforma do plano da cidade na qual incluía a reforma do largo, eliminando o Beco do Cotovelo. Quem executaria o plano seria o presidente eleito da câmara, Antônio Rodrigues Ferreira, chamado o boticário Ferreira.

Praça do Ferreira, década de 1920 (Arquivo Nirez) 

Desde o início de sua existência muitos imóveis foram construídos ao redor da praça; uns sucumbiram aos apelos da modernidade e foram demolidos, outros estão lá até hoje. Eis alguns dos sobreviventes:

Escola do Ensino Mútuo/Palacete Ceará

Prédio do Ensino Mútuo de Fortaleza, construído em 1879 (Arquivo Nirez)

Antes da construção do Palacete Ceará havia um prédio antigo construído para abrigar a Escola de Ensino Mútuo, primeira escola para meninos de Fortaleza. Na época da construção, o local era considerado subúrbio.

Palacete Ceará, atual Agência centro da Caixa Econômica Federal (foto Tarcísio Garcia)
 
Inaugurado em 1914, projeto do arquiteto João Sabóia Barbosa, construído por Eduardo Pastor, da firma Rodolfo F. da Silva e Filhos. O prédio era de propriedade do Coronel José Gentil Alves de Carvalho, banqueiro e um dos homens mais ricos da cidade.
O prédio foi ocupado pela Rotisserie Sportman, restaurante e casa de chá de Júlio Pinto, frequentado pela alta sociedade fortalezense.  O ambiente lembrava o requinte parisiense e tinha como destaque uma orquestra.
De 1922 a 1936 foi instalado o Clube Iracema, também reduto da alta sociedade.  Ainda em 1922 foi ampliado, constituindo dois blocos com 3 pavimentos e um com pavimento térreo, onde foi instalada uma  sala de bilhar. Em 1955 foi adquirido pela Caixa Econômica Federal, onde funciona até hoje a agência Centro daquele estabelecimento de crédito. 

Sobrado do Comendador Machado/Excelsior Hotel

Sobrado do Comendador Machdo, na esquina das Ruas da Palma e Municipal (Major Facundo com Guilherme Rocha), no local onde hoje está o prédio do Excelsior (foto do livro de Raimundo Girão)

No local onde hoje está o prédio do Excelsior havia o sobrado do comendador José Antônio Machado, construído em 1825, pelo engenheiro coronel Conrad Jacob de Niemeyer com o auxílio dos presos da cadeia do crime. No sobrado funcionou o antigo Hotel Central e o Café Riche. Foi vendido a Plácido de Carvalho, que o mandou demolir no ano seguinte. 

Prédio do Excelsior Hotel, atualmente sem uso definido. O Hotel encerrou as atividades em 1964 (foto do blog)

O projeto do hotel, de autor desconhecido, foi inspirado num edifício de Milão. Foi construído por Natali Rossi, irmão de Pierina Rossi, esposa de Plácido Carvalho.  A decoração interna foi feita por Pierina Rossi, utilizando material de primeira linha, importado da Europa. Em estilo eclético, foi o primeiro arranha-céu da cidade construído em alvenaria – pilares, vigas e lajes feitos com a utilização de trilhos de trem comprados da Santa Casa de Misericórdia. 

Saguão do Excelsior Hotel, decorado por Pierina Rossi (foto do blog)

Após a morte de Plácido de Carvalho, a viúva casou-se com o arquiteto Emílio Hinko em 1938. Pierina faleceu em 1957 e o Hotel passou para Emílio Hinko. O Excelsior Hotel encerrou suas atividades em 1964.

Palacete Iracema (Sobrado do Pastor)

 Casa na esquina da Guilherme Rocha com Floriano Peixoto, onde hoje está o Sobrado do Pastor (Arquivo Nirez)

No início do século XIX havia no local uma casa de arquitetura simples. Em 1826 a casa foi arrematada pelo comerciante José Antônio Machado, demolida e construído um outro imóvel, mais recuado, devido a formação da Rua da Pitombeira (atual Floriano Peixoto). Em 1847 o prédio foi reconstruído para servir de quartel do Corpo Policial. 

  Fachada do Palacete Iracema, conhecido como Sobrado do Pastor, na esquina das Ruas Guilherme Rocha e Floriano Peixoto (foto do blog)


Interior do Sobrado do Pastor, onde funciona o restaurante L"Escale

O edifício atual foi construído em 1914. O proprietário Eduardo Pastor, proveniente do Pará, investiu na obra como uma alternativa de negócio, uma vez que a borracha estava em decadência. Em estilo art-nouveau, o edifício teve ao longo dos anos vários usos, sendo ocupado por órgãos públicos e casas comerciais, perdendo parte das características arquitetônicas, principalmente na parte térrea da fachada. 
Farmácia Oswaldo Cruz em 1952 
Fundada em 1934 de Hortêncio Mota e Cia. até 1950 pertenceu ao médico Benjamin Hortêncio de Medeiros, clínico geral, com consultório montado nos altos da farmácia, onde também atendia o Dr. Ciro Leal. Fornecia artigos farmacêuticos de ótima procedência, trabalhava com a fabricação de remédios, inclusive as pílulas de matos – como concessionária da Farmácia de Joaquim e Alencar Matos. 


Farmácia Oswaldo Cruz, um dos mais tradicionais estabelecimentos da Praça do Ferreira (fotos do blog) 
Em 1950 foi comprada pelo atual proprietário Edgar Rodrigues. Além da venda de medicamentos, produtos químicos e homeopatia, possui um ambulatório. O prédio construído em 1927 por Plácido de Carvalho é um exemplo de arquitetura eclética.

Farmácia Pasteur

 Prédio da antiga Farmácia Pasteur, hoje ocupado pela Farmácia Avenida (foto do blog)

Era uma das farmácia mais tradicionais de Fortaleza, criada em 1° de novembro de 1922. Fundada por Eduardo de Castro Bezerra, Tertuliano Viana e Sá e Raimundo Freitas Ramos. 

fonte: