domingo, 18 de setembro de 2016

O Caldeirão da Santa Cruz do Deserto

Nas décadas iniciais do século XX surgiu no Cariri mais um movimento messiânico que, com base nos princípios cristãos, oração, fraternidade e trabalho coletivo, estabeleceu uma sociedade cooperativa de tendência igualitária, alternativa à estrutura latifundiária Nordestina, então em voga. Era chamado Caldeirão de Santa Cruz do Deserto, comunidade liderada pelo beato José Lourenço, seguidor do Padre Cícero e praticante do catolicismo popular, típico do sertão do Nordeste.

o beato José Lourenço entre seu secretário Isaías (esquerda) e o repórter Luiz Maia
(foto O Nordeste) 

José Lourenço Gomes da Silva, nasceu em 1872, em Pilões de Dentro, sertão da paraíba. Filho de sertanejos pobres, aos 14 anos deixou a casa dos pais para tentar a sorte em outro lugar. Depois de algum tempo, retornou a Pilões de Dentro, quando descobriu que a família tinha ido para Juazeiro do Norte, no Ceará, atraída pelos milagres de Padre Cícero e da beata Maria de Araújo. Decidiu seguir também para a cidade do Cariri.

Chegou a Juazeiro por volta de 1891, onde reencontrou os familiares. Ali foi assimilando a religiosidade e a crença de Padre Cícero, seu guia espiritual. Lourenço incorpora as maneiras de agir, pensar e sentir do padre. Passa a fazer parte da ordem dos Penitentes da Santa Cruz, grupo religioso secreto, mas bastante conhecido em todo o Nordeste. A partir daí fica conhecido como beato Zé Lourenço.


Beato José Lourenço e a Santa Cruz do Deserto em 1937
(foto O Nordeste) 

Provavelmente em 1894, por conselho do Padre Cícero, José Lourenço, sua família e mais alguns romeiros arrendaram um lote de terra no Sitio Baixa Danta, de propriedade de um coronel chamado João de Brito, localizado na cidade do Crato. Solidário, Lourenço permite que outros romeiros venham morar no sítio. Sua casa fica rodeada por outras moradias habitadas por camponeses humildes. Ali os sertanejos encontram terras para o trabalho e condições melhores de vida.

Surgia, dessa forma, uma rústica comunidade. Em pouco tempo, o solo árido e empoeirado da fazenda transformou-se em produtor de cereais e frutas. Ao contrário das fazendas vizinhas, a produção era repartida igualmente entre todos os seus membros. As pessoas do sítio tinham o beato como líder. Todos respeitavam aquele negro alto, forte, dedicado, seguidor dos ensinamentos do Padre Cícero. Zé Lourenço, mesmo analfabeto, dava conselhos, determinava tarefas, ensinava práticas rudimentares de agricultura e medicina popular. Trabalhava como todos os demais, e a noite, com o hábito da Ordem dos Penitentes, dirigia as rezas, mesmo após um dia exaustivo de trabalho.

seguidores do Beato José Lourenço no Sítio Caldeirão. 
(quadro do acervo do Museu do Ceará) 

Em 1926, João de Brito decidiu vender o Sítio Baixa Danta. O novo proprietário exigiu de imediato que Lourenço e a comunidade deixassem as terras. O beato e os demais se retiraram sem nenhuma indenização ou compensação pelas melhorias as quais transformaram aquela área em uma das mais prósperas da região, em mais de duas décadas de trabalho.

Provavelmente no mesmo ano, Padre Cícero resolveu alojar o beato e os moradores em uma grande fazenda de sua propriedade, denominada Caldeirão dos Jesuítas. Situada na cidade do Crato, nas encostas da Chapada do Araripe, com uma área em torno de 880 hectares, a fazenda tinha esse nome devido a existência no local de uma depressão natural de pedra, capaz de acumular água. 

Padre Cícero
Ao chegar ao Caldeirão, o beato só encontrou mato e pedra. Os camponeses então, iniciaram novo trabalho comunitário, igual ao antes praticado no Baixa Danta. Uma das primeiras edificações foi a casa do beato, que ficou conhecida como a casa-grande por ser bem maior que as habitações construídas posteriormente. Essa casa foi feita de tijolos e coberta com telhas, enquanto as outras que foram surgindo, eram feitas de taipa e cobertas de palha ou telha. O piso era de terra batida.

Ergueram também barragens, cercas, armazéns, engenhoca, casa de farinha, sistemas de irrigação e reservatórios de águas. Cultivavam cereais e frutas e a criavam animais domésticos. O trabalho em pouco tempo, começou a apresentar resultados positivos. Posteriormente, em consequência da chegada de novos moradores, a comunidade foi ganhando novas atividades produtivas: pedreiros, carpinteiros, ferreiros, artesãos que trabalhavam com cerâmica, couro, flandres, etc.

Assim, o Caldeirão foi ganhando um caráter praticamente autossuficiente, pois fabricava quase tudo de que precisava.  Tudo era coordenado pelo beato e por algumas pessoas de sua confiança, como Isaías, uma espécie de secretário.  A obra de Zé Lourenço toma, em menores proporções demográficas, a dimensão social da comunidade religiosa de Antônio Conselheiro.

Criou-se uma sociedade igualitária, de sistema econômico coletivo, que impunha a seus membros a cooperação para assegurar uma existência digna e as condições de sobrevivência. Durante a seca de 1932, enquanto milhares morriam de fome e doenças por todo o Nordeste, o Caldeirão foi uma exceção. A comunidade abriu os depósitos de víveres, acolhendo e alimentando centenas de retirantes. Durante os 23 meses de estiagem, a comunidade sustentou cerca de 500 pessoas que, em sua maioria, decidiram depois se fixar na fazenda.

Após a morte do Padre Cícero, em 1934, muitos passaram a considerar o beato Zé Lourenço como sucessor daquele, e ante a notória prosperidade da fazenda, a ela corriam cada vez mais contingentes de pobres. Nesse período começaram as romarias para o Caldeirão. As romarias, o crescimento demográfico e a grande influência de José Lourenço não tardaram a chamar a atenção das elites sobre o “núcleo de fanáticos”. Assim, a igreja, os coronéis e o Estado começaram a se articular para a destruição do Caldeirão. 

Interventor Menezes Pimentel, o chefe de Polícia Cordeiro Neto e o bispo do Crato Dom Francisco de Assis Pires 

Em fevereiro de 1935 reuniram-se em Fortaleza o interventor Menezes Pimentel, o Secretário de Estado Andrade Furtado, o chefe de Polícia, capitão Cordeiro Neto, o deputado Norões Milfont e o bispo do Crato Dom Francisco de Assis Pires. Deliberaram pela destruição do lugar através de ação militar. Antes, enviaram em missão sigilosa o capitão José Bezerra, com a incumbência de descobrir os segredos e armadilhas do lugar. José Bezerra, disfarçado de “comprador de algodão” foi recebido cordialmente por Zé Lourenço, que lhe diz que não poderia vender a produção de algodão, porque estava sendo utilizada e consumida na própria comunidade. Ao regressar, José Bezerra fez um metódico relatório ao governo, dando conta do fanatismo e do terrível perigo representado pelo Caldeirão. 

ruínas da casa onde morava o beato José Lourenço no sítio Caldeirão
foto Diário do Nordeste 

A 9 de setembro de 1936, uma expedição de polícia militar seguiu para o Cariri. Para despistar, divulgou-se que os policiais iriam para Mossoró, no RN. Mas o beato foi avisado da eminente chegada da tropa e fugiu para o alto da serra do Araripe. Os soldados iam preparados para a luta, porém, quando invadiram a fazenda na manhã do dia 10 de setembro de 1936, os sertanejos, assustados, não ofereceram nenhuma resistência. São conduzidos a empurrões e socos e pontapés para a casa do beato; os policiais gritavam, apontavam armas, davam voz de prisão.

O capitão Cordeiro Neto explicou aos sertanejos o que viera fazer: era preciso que voltassem ao seu lugar de origem, levando suas posses e bens, pois o Estado do Ceará não permitiria mais a existência daquele agrupamento de fanáticos. As famílias deveriam abandonar o Sítio em cinco dias, e os solteiros, em três dias. O general ofereceu aos camponeses passagens de trens e navio; estes recusaram. Propôs então que pegassem seus bens e partissem. Os sertanejos responderam que nenhum deles tinham posses ali, porque todos os bens eram coletivos. 



Cordeiro Neto chega então a uma decisão: destruir as estruturas físicas da fazenda e simplesmente expulsar os camponeses. A polícia saqueou e incendiou os cerca de 400 casebres e o armazém da comunidade. O grupo de policiais que fica no Caldeirão dispersa a população. Muitas famílias do Caldeirão se dirigiram para a serra do Araripe, reencontrando o beato e formando nova comunidade, espalhada por quase dois quilômetros entre a Mata dos Cavalos e o Curral do Meio.

Um dos membros da comunidade, chamado Severino Tavares, que havia sido preso e trazido para Fortaleza durante a expulsão, foi posto em liberdade e retornou ao Cariri, juntando-se com o novo núcleo comunitário. Em conjunto com outros camponeses, passou a defender ações radicais, mais precisamente, um ataque à cidade do Crato com o objetivo de obter armas e munições visando a defesa da comunidade em futuros ataques. Armaram, então, uma cilada para atrair a polícia.

Um homem chamado Sebastião Marinho, informou à polícia do Crato que o beato pretendia retornar ao Caldeirão, enquanto um deputado enviou um telegrama urgente comunicando que os fanáticos pretendiam invadir o Crato. O chefe de polícia deu ordem para que a força policial de Juazeiro, sob o comando do capitão José Bezerra, tomasse providências a respeito.

Em maio de 1937, o capitão Bezerra, acompanhado de um pequeno contingente de 18 praças, viajaram num caminhão que foi deixado no local conhecido por Cruzeiro, onde também ficou parte do contingente. Bezerra e os demais militares seguiram a pé. De repente, foram atacados pelos sertanejos. A luta corpo a corpo foi bastante violenta, entre o capitão e seis soldados de um lado, e cerca de 100 fanáticos, armados de rifles, espingardas, foices e cacetes sob a chefia de Severino Tavares. Somente dois sargentos sobreviveram, porque mesmo feridos, arrastaram-se até o caminhão, fugindo e sendo recolhidos ao hospital do Crato.

A notícia do fracasso da força policial causou pânico entre as elites. Segmentos sociais e autoridades condenaram de forma enfática a emboscada. No mesmo dia, seguiram para a Chapado do Araripe o restante da tropa estacionada em Juazeiro, cerca de 30 homens comandados pelo tenente Assis Pereira. Três aviões partiram de Fortaleza sob o comando do capitão José Macedo, com grande quantidade de armas e munições, conduzindo também o chefe de polícia Cordeiro Neto para Juazeiro.

As aeronaves sobrevoam a serra e metralham as barracas da nova comunidade, além de lançarem granadas. A chacina, no entanto, não seria feita pelo ar, mas por terra. No dia 12 de maio de 1937, duzentos militares com armas em punho, atacaram os ex-habitantes do Caldeirão. Aconteceu ali uma das mais bárbaras e covardes chacinas da história do Ceará. Não se faziam prisioneiros. Adultos, crianças, velhos, eram barbaramente atingidos com tiros e golpes de baionetas. Os soldados fincavam as baionetas com tanta força que tinham de usar os pés para retirá-las.

 das várias construções edificadas no Sítio Caldeirão restam a pequena capela de Santo Inácio de Loyola, relativamente conservada, e poucas casas em ruínas. Quanto à árida paisagem de entorno, esta permaneceu praticamente inalterada. (Foto Secult) 

Não se sabe até hoje o número exato de vítimas do massacre. Há quem especule entre 300 e 1000 mortos. Os soldados juntaram os cadáveres, incinerando alguns com gasolina numa grande fogueira e enterrando outros em valas coletivas. A ação militar continuou ainda por alguns meses, a polícia continuou na serra, prendendo, procurando, torturando e assassinando suspeitos de serem provenientes do Caldeirão.

Os familiares e descendentes dos mortos nunca souberam onde encontram-se os corpos, pois as autoridades responsáveis pela operação nunca informaram o local onde  foram enterrados. Presume-se que a vala coletiva se encontra no Caldeirão ou na Mata dos Cavalos, na Serra do Cruzeiro, na região do Cariri.

José Lourenço fugiu para Pernambuco, onde morreu aos 74 anos, de peste bubônica, tendo sido levado por uma multidão para Juazeiro, onde foi enterrado no cemitério do Socorro. Ali, segundo a história oral, teriam os sertanejos pedido ao vigário da cidade, monsenhor Joviniano Barreto, que celebrasse uma missa para o beato. Receberam a seguinte resposta: Eu não celebro missa para bandido.
                   

Extraído do livro 
História do Ceará, de Airton de Farias

 

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Os Cabarés da Periferia

Os cabarés, pensões altas ou alegres – como eram chamados nos idos dos anos 1940 e 50 – eram locais de diversão garantida e bastante frequentados nas noites de Fortaleza. A maioria ficava no centro da cidade, nas ruas Major Facundo, Floriano Peixoto, Barão do Rio Branco e arredores, e funcionavam em antigos casarões, nos quais as pensões ocupavam o andar superior.  Esses antigos casarões eram sobrados em que durante o dia, funcionavam estabelecimentos comerciais no térreo, e à noite, o andar superior tornava-se ponto de encontro dos amantes da diversão, da boemia, da música e da companhia de belas mulheres.

Sobrado do Barão da Ibiapaba, na esquina das ruas Major Facundo e Senador Alencar, onde, nos altos, funcionou durante  muitos anos, a famosa Pensão Ubirajara 

Quando o General Cordeiro Neto foi eleito prefeito de Fortaleza (1959-1963), proibiu a venda de bebidas no centro depois da sete da noite, bem como as orquestras depois das dez. A rigorosa medida, foi respondida com o deslocamento dos cabarés para os bairros. Os que permaneceram no centro passaram a adotar a música eletrônica, as radiolas e as máquinas de ficha. 

 Prefeito Manuel Cordeiro Neto (1959-1963) 

Surgiram assim as boates da periferia. A mais importante delas foi a Margô, casa de diversão que se instalou primeiro na chamada “mata da Aldeota”, à altura da atual Avenida Desembargador Moreira. Depois no bairro Cachoeirinha, que corresponde hoje aos bairros São Gerardo e Parquelândia. Sua casa era frequentada pelo que havia de melhor da representação da boemia da cidade (juristas, deputados, comerciantes, radialistas, jornalistas). Era um lugar distinto, onde todos se sentiam seguros e respeitados. Não havia roubo, ou violência ou palavrões.

O Cabaré da Santa (Maria Santa Pereira) ficava no Benfica, na Rua Francisco Pinto, por trás do Dispensário dos Pobres. Suas “meninas” vinham de outros Estados e eram muito disputadas porque começaram a inovar as técnicas da prostituição de Fortaleza, com práticas sexuais antes nunca vistas por estas plagas. As novidades sexuais foram duramente condenadas. Como a cidade era pequena, a sociedade terminava tomando conhecimento dos que praticavam “estranhezas” nos cabarés.

 A famosa Casa do Português também acolheu um cabaré: a Boate Portuguesa 

A Casa de Natália estava localizada na Avenida João Pessoa e o seu público era, predominantemente, homens de meia-idade. A proprietária, conhecedora das fantasias e dos fetiches, recrutava mulheres novas e as vestia como estudantes, com fardas da Escola Normal e do Colégio da Imaculada Conceição. Ensaiava gestos e modo de falar, imitando a voz infantil e as meninas usavam tranças. 

Também na Avenida João Pessoa funcionou na conhecida casa do Português, a boate Portuguesa, de pouca duração. Era bem frequentada e fingia ser um ambiente familiar. Apesar de ter seu próprio elenco de mulheres, os clientes podiam chegar já acompanhados. As acompanhantes eram profissionais, as denominadas “garotas de programa”.

A Gaguinha também era famosa. A casa de Irinete Cabral ficava nas Damas ou Vila Damasco. Seu apelido vinha naturalmente da deficiência da fala. A gagueira, porém, nunca foi empecilho para o bom relacionamento com a clientela, do qual faziam parte pessoas influentes da sociedade. Era mulher de muitos amigos. Os fregueses tinham nela uma confidente, relatando seus problemas. Alguns vinham a tarde, para beber uísque e conversar.


Quando a Gaguinha começou a declinar, instalou-se a boate Oitenta. O nome se devia ao número da casa, Rua Governador Sampaio, 80. Era uma casa de certo nível, com luz negra, suítes e bom serviço de bar. As mulheres eram atraentes, bonitas e já não tinham restrições ou tabus.


Já nos finais dos anos 60 e por toda a década de 70 o melhor cabaré de Fortaleza era a Casa da Leila, na Maraponga. Suas mulheres eram altas, elegantes, louras naturais de olhos claros, provenientes do sul do país. Eram pessoas finas, educadas, algumas se diziam universitárias e comentavam sobre política, música popular e variedades culturais. Dentre elas havia uma mulata, belíssima, chamada Mércia, que mostrava uma carteira de estudante de Ciências Sociais da UFMG.

Até a década de 60, o lugar hoje denominado Maraponga era uma região com muitos sítios e pouca urbanização.  Da década de 70 até o fim dos anos 80, a Maraponga passou a ser local de casas de veraneio.


Leila fora a mulher de maior sucesso na Oitenta. Ali ganhara bons e generosos amigos, o que lhe permitira abrir sua própria casa. Casarão amplo, com alpendres, arcadas, grande salão com dois ambientes, confortáveis sofás, mulheres com roupas habillès, falando baixo, sorrindo. Educadíssimos também eram os garçons, todos de smoking, servindo as bebidas em bandejas de prata. Um primor. Leila, a madame, reproduziu a distinção de Margô, adaptando-se ao tempo, climatizando as suítes que contavam com banheiros de mármore e torneiras niqueladas, além das camas redondas, uma delas com o recurso da trepidação. O baronato de Fortaleza se orgulhava de contar com uma casa de tão alto nível e quando aqui aportavam cantores, jogadores famosos e artistas de TV, todos, invariavelmente, eram levados à Leila. 

Até o dia em que começou a entrar em decadência. Envelhecida, foi abandonada pelos amantes ricos e terminou por se apaixonar por um de seus garçons. O cabaré resvalou rapidamente para o fim.

Os últimos estertores dos velhos cabarés se deram nos anos 70, com o Senadorzão, Barba Azul e Motel 90. No centro instalou-se o Senadorzão, na Rua Senador Alencar. O proprietário era um sujeito simpático, mas cheio de autoridade, mantendo tudo sob controle.No centro, numa galeria que liga a Rua Senador Pompeu à Barão do Rio Branco, montaram uma boate da pesada, o Barba Azul. Lá dentro, luz negra, uísque falsificado e muitas brigas.

extraído do livro
Sábado, Estação de Viver - histórias da boemia cearense, 
de Juarez Leitão

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Major Facundo - O Assassinato na Rua da Palma

No dia 8 de dezembro de 1841, dia consagrado a Nossa Senhora da Conceição, a província do Ceará vivia momentos de festa e religiosidade, com grande aglomeração popular na igreja da Prainha, que fora inaugurada naquele dia com a celebração da primeira missa no local.

Depois de participar com a família das comemorações e visitar alguns amigos, o Major Facundo descansava na sua casa, a antiga Rua da Palma n° 72. Aproximadamente às 20 horas, dirige-se até a porta principal para atender um portador de Sobral, levantando a trava da janela.


Igreja de N.S. da Conceição da Prainha, inaugurada em 8 de dezembro de 1841
Antiga Rua da Palma, atual Rua Major Facundo, postal dos anos 20

De repente, três grandes estrondos ecoam na noite. De um casebre em frente, partem os tiros certeiros de bacamarte que estraçalham a cabeça do chefe político liberal. Alguns estilhaços ferem a mão de sua mulher e abrem buracos nas paredes da casa. Estabelecido o pânico nas redondezas, o pior finalmente tinha acontecido: major Facundo estava morto. As ameaças contra sua vida se concretizaram de forma trágica.

O crime abala toda a cidade, tendo repercussão no país através de discursos inflamados dos políticos da época. Considerado pelo historiador Barão de Studart como “a influência mais legitima e real que teve a província do Ceará”, major Facundo foi sepultado na capela do Rosário, então matriz e mais antiga de Fortaleza, onde ainda hoje se encontra.

Casa onde viveu e foi assassinado o Major Facundo. Depois foi ocupada pela Casa Villar. 

Barão de Studart relata as consequências dos dramáticos episódios ocorridos no dia do assassinato. “Por toda parte surgiam gritos de vingança, protestos de energia indescritível. A Polícia não permitia que se fizessem ajuntamentos de mais de três pessoas e trazia a vista os membros mais exaltados da família perseguida e seus mais dedicados amigos, e se em altas vozes os homens do governo prometiam prêmios a quem descobrisse os matadores, cerravam ouvidos aos nomes, que o clamor público apontava e mais tarde, protegiam abertamente os mandantes do atroz delito".

A mulher do então presidente da província, que participava do movimento de hostilidade a Facundo, foi denunciada como mandante do crime, mas nada sofreu. Antônio Manoel Abrahão e Pedro José das Chagas, os executores, foram condenados, alguns anos depois a galés perpétuas pelo júri de Fortaleza. Joaquim Ferreira de Sousa Jacarandá, intermediário que contratou os criminosos, foi julgado três vezes e absolvido nos três julgamentos.

  
 Igreja do Rosário onde o Major Facundo foi sepultado, de pé, voltado para o Palácio da Luz

Lápide do túmulo do major Facundo, localizado numa das paredes laterais do templo, com a seguinte inscrição: 
Aqui jazem os restos mortaes do major João Facundo de Castro Menezes vice presidente da Província. Assassinado a 8 de dezembro de 1841. Sendo presidente José Joaquim Coelho. Nasceo aos 12 de julho de 1787. Tributo d'amisade da sua infeliz esposa  D. Florência D'Andrade Bezerra e Castro. A 8 de dezembro de 1842.
A morte do major Facundo já era esperada pelas lideranças locais. A política tinha chegado a extremos de violência e ameaças. Facundo, um dos principais chefes do Partido Liberal (os chimangos), que era a união de antigos imperialistas e republicanos moderados, tinha por adversário o Partido Conservador, conhecido também por caranguejo. Enquanto as paixões políticas se acentuavam, ocorriam saques em propriedades e crimes no interior do Ceará.

O senador José Martiniano de Alencar era a figura política proeminente dos liberais. Nomeado presidente da província do Ceará em 1834, tinha o Major Facundo como primeiro vice, que o substituía em suas ausências. Em março de 1841, o senador Alencar é exonerado, tendo Facundo assumido novamente a presidência. O motivo foi a queda dos liberais no Rio de Janeiro, quando então subiu ao poder os conservadores. 

No dia 9 de maio foi nomeado o novo presidente do Ceará o brigadeiro José Joaquim Coelho, barão da Vitória, opositor ferrenho de Facundo. O fato de se ter um presidente ligado ao Partido Conservador com um vice Liberal, tornou a situação política do Estado bastante delicada e contribuiu para o tráfico fim do vice-governador.

João Facundo de Castro Menezes nasceu em Aracati, no dia 12 de junho de 1787, filho do capitão-mor José de Castro Silva e Joana Maria Bezerra. Em 1818 se transfere para Fortaleza. Defensor das ideias políticas de sua família, opõe-se à junta governativa liderada por Tristão Gonçalves, Pereira Filgueiras e Padre Mororó. Preso, deportado para o Rio de Janeiro, é solto por ordem do Imperador D. Pedro I. Em 1824, durante a Confederação do Equador, deixa novamente o Ceará por divergências com os revolucionários.

Presidente da Assembleia Provincial, depois da derrota da Confederação do Equador participa ativamente da movimentação política da província. Devido ao ato da maioridade, recebe interinamente o cargo de Presidente da Província. É considerado por este fato, o primeiro a governar o Ceará, depois de D. Pedro II assumir o trono do Brasil.

Major Facundo nunca levou a sério as ameaças que recebia quase que diariamente. E quando a família e os amigos o alertavam para que se cuidasse, respondia-lhes perfeitamente calmo que não tinha inimigos e sim adversários políticos, e estes não lhe votavam ódio a ponto de querer assassiná-lo. A morte do major Facundo foi apenas um dos atos praticados pela violência política, numa época em que o Brasil vivia tumultuada agitação interna.  

Extraído do livro
A História do Ceará passa por esta Rua, de Rogaciano Leite Filho.
fotos Arquivo Nirez e Fortaleza em fotos.

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Os Primeiros Teatros: Fortaleza entra em Cena

O primeiro prédio identificado com a atividade teatral em Fortaleza, aparece em 1830, em frente à Igreja do Rosário, atual Praça General Tibúrcio. Chamava-se popularmente Teatrinho da Concórdia, embora fosse também considerada Casa de Ópera, tendo sido obra de negociantes portugueses e empregados do comércio. Depois de 12 anos, mudou-se para a Rua Barão do Rio Branco com o nome de Teatro Taliense, funcionando ali até 1872. 

Praça General Tibúrcio por volta de 1900

Em 1876 aparece outro Teatro, o São José.  Instalou-se originalmente na Rua Senador Pompeu onde ficou até 1884. Seu palco era ocupado frequentemente pelas animadas comédias do grupo amador Recreio Familiar. Esse teatro foi destruído por um incêndio em 1898.

Na esquina das ruas Barão do Rio Branco com João Moreira, defronte ao Passeio Público, foi inaugurado em 1877, o Teatro de Variedades, espaço ao ar livre, em que a plateia providenciava as próprias cadeiras. Após três anos, de 1880 a 1896, no mesmo local, funcionou o mais importante de todos os teatros que antecederam o José de Alencar: o Teatro São Luís. Por ele passaram as companhias que excursionavam em direção ao Norte e faziam escala em Fortaleza, apresentando óperas, operetas, dramas e comédias. Além de espetáculos teatrais, o São Luís acolheu grandes acontecimentos, como a oratória inflamada de José do Patrocínio e a execução da ouverture de O Guarani, na presença do próprio Carlos Gomes. Fechou em 1896, devido as confusões que os alunos da escola Militar faziam a sua volta. 

Esquina das ruas Formosa (Barão do Rio Branco) com Travessa da Misericórdia (Dr. João Moreira - postal de 1905 

Por um ano, a cidade ficou sem espaço para espetáculos, mas em 1897, o Clube de Diversões Artísticas, dirigido por Papi Junior, levanta um pequeno teatro, o Iracema, na Rua Formosa (atual Barão do Rio Branco), num terreno pertencente ao Clube Iracema que funcionava no prédio do Reform Club. A experiência deu tão certo que, em 1898, foi criado o Grêmio Taliense de Amadores, do qual fizeram parte Ramos Cotoco e Carlos Câmara. O Taliense estabeleceu seu pequeno teatro na Rua Senador Pompeu, esquina com Liberato Barroso.

Na rua Major Facundo, fundou-se, em 8 de fevereiro de 1904, o Centro Artístico Cearense. Depois, em 28 de abril de 1912, o Centro mudaria definitivamente a sua sede para o endereço de esquina da rua Tristão Gonçalves com a Duque de Caxias, onde, em 1925, iniciaria as suas atividades com o cinema, e, em 16 de dezembro de 1931, inauguraria um palco para apresentações teatrais.

Entre 1904 e 1905 foi fundado o Clube Atlético, que era uma sociedade esportiva formada por jovens do comércio, onde além das práticas atléticas, também organizavam seus dramas e tragédias. Esse grupo criou o Teatro João Caetano, no mesmo local em que estivera o “Variedades”, do Grêmio Taliense, na rua Senador Pompeu com a Liberato Barroso. O pequeno Teatro João Caetano tinha capacidade para cerca de 400 cadeiras. Na sede, o palco se localizava em cima de um poço, por se acreditar que melhorava a acústica. O teatro, que ficava ao lado do Clube Atlético, foi destruído por um incêndio originado de um depósito de madeiras na rua Liberato Barroso, deixando a cidade sem um teatro popular, o que fez com que as companhias de teatro, quando aqui chegavam, se apresentassem no pequeno palco do cinema Rio Branco. 

Em 1910 surgiu o teatro oficial da cidade, O Theatro José de Alencar. Inaugurado oficialmente no dia 17 de junho de 1910, o José de Alencar comemorou seus 106 anos como a mais bela e a mais importante casa das Artes cênicas do Ceará, e a maior referência cultural do Estado.

O raro espécime de arquitetura eclética foi erguido entre dois outros edifícios, uma escola e um quartel de polícia. Além da sala de espetáculos, em ferro fundido e madeira importada da Europa, compunham o teatro um primeiro prédio que o guardava do contato da praça, e uma caixa de cena em tijolo e madeira, com inovações técnicas até então inusitadas para o teatro local. 

Para países não industrializados como o Brasil, assim como para as províncias como a do Ceará, onde tudo que se alcançara em matéria de progresso era o comércio exportador-importador com a Europa, ter um teatro de ferro dava a ilusão de haver entrado no pórtico da civilização. Vinha ele somar-se a uma série de outros edifícios e equipamentos urbanos que caracterizaram o período da belle époque no Ceará.

Um novo Teatro São José foi criado em 1914 como alternativa de lazer cultural para trabalhadores que não tinham acesso fácil ao luxuoso Teatro José de Alencar, inaugurado em 1910. Num terreno baldio ao lado da Igreja da Prainha, o padre alemão Guilherme Wassen, identificado com o movimento dos trabalhadores cristãos, deu início à obra com a ajuda voluntária de operários. Em um galpão com coberta de zinco eram apresentadas peças, sessões de cinema, dramas e jogos visando angariar verbas para a obra. 

 Em primeiro plano, a Igreja da Conceição da Prainha, e ao fundo, o Teatro São José

Em 1915 o Teatro São José passou a funcionar onde está hoje, na Praça Cristo Redentor, local onde se instalou também, a sede do Círculo Operário de Trabalhadores Cristãos de Fortaleza. O teatro operário conheceu muitas glórias. Peças do cearense Carlos Câmara foram quase todas encenadas lá. Companhias locais e de outros estados atraiam o público. O teatro serviu também para recepcionar visitantes ilustres como o ex-presidente Juscelino Kubitschek. 

Fortaleza ainda contou com outras salas de artes cênicas, as vezes improvisadas como teatro, a exemplo do Cinema Rio Branco, de Henrique Mesiano, e do Politeama, na Praça do Ferreira, de José Rola. 

O dia 14 de julho de 1917, marca a inauguração do Cine Teatro Majestic Palace, com a inauguração do palco e dia 20, inauguração do cinema. O Majestic foi instalado num imponente edifício de quatro andares, na Rua Major Facundo, na Praça do Ferreira. A sala de projeção que também era teatro, era toda em ferro como no Teatro José de Alencar. Tinha 650 cadeiras no térreo e nos dois andares onde ficavam os camarotes e a geral.


Entre 1919 e 1939 o autor Carlos Câmara arrastava multidões que lotavam o teatro improvisado do Grêmio Dramático Familiar, no calçamento da Messejana, atual Visconde do Rio Branco.  Na peça de estreia do autor, intitulada “A Bailarina”, há registros sobre a chegada da devastadora gripe espanhola, que veio para a cidade a bordo do vapor Ceará. Acometido da doença Carlos Câmara levou ao palco o que havia de moleque em torno da influenza. Como não acertava com o nome da doença, o populacho batizou a gripe de Bailarina.


fontes:
Geografia Estética de Fortaleza, de Raimundo Girão
Theatro José de Alencar: o teatro e a cidade, Terra da Luz Editorial
fotos do arquivo Nirez, e do livro Theatro José de Alencar: o teatro e a cidade 


quarta-feira, 10 de agosto de 2016

No escurinho do cinema (Memórias da Fortaleza dos anos 50)

O cine São Luiz completou 50 anos no dia 26 de março de 2008. Estava com 15 anos quando o São Luiz abriu suas portas. Grande expectativa. A construção durou 20 anos. Foi interrompida por causa da guerra. A obra foi retomada em 1952 e concluída em 1958.

O cinema, criado pelo arquiteto Humberto da Justa Menescal, surgiu no coração de Fortaleza todo em mármore e com lustres tchecos iluminando a sala de espera. A imensa sala de exibição, com mil e duzentas poltronas e uma decoração exuberante, ganhou logo um apelido do “Ceará moleque”: Bolo Confeitado.



Fortaleza, na época com 500 mil habitantes, parou. As pessoas saíram de casa, lotaram os ônibus, foram ver a festa de inauguração. O Pedão, no Abrigo Central, nunca vendeu tanto sanduíche de carne moída e coentro com abacatada. O Pega-Pinto do Mundico teve que colocar mais água no aluá para atender tanta gente. A Leão do Sul, do seu Dimas, pai do Pedro Jorge, não parou de vender caldo de cana com pastel à noite toda. Uma Banda de Música tocava em frente ao São Luiz. A rua, fechada para os automóveis, foi ocupada por uma multidão que queria ver a chegada dos mil e duzentos convidados. Era o sereno.


Na noite de gala foi exibido o filme "Anastácia, a Princesa Esquecida". Dirigido por Anatole Litvak, tinha como estrela a sueca Ingrid Bergman. O cinófilo Jose Augusto Lopes contou, em matéria no Diário do Nordeste, que o filme mostrava a história de uma sobrevivente do massacre de 1917 contra a família do Czar russo.

A praça do Ferreira, que já era famosa pelo seu ventinho que levantava a saia das meninas, ganhava nova atração graças a Luiz Severino Ribeiro. Este filho de Baturité era dono da maior rede de cinemas do país. Só no centro de Fortaleza ele tinha o Diogo, o Majestic, e o Moderno. Acho que o Rex, Nazaré e outros mais populares também pertenciam a ele.

O Majestic era imenso. Tinha o formato de um teatro, com vários andares e geral lá em cima. A entrada para a geral, que tinha o preço mais barato, era por uma porta independente. O pessoal era obrigado a deixar os tamancos na entrada para não fazer barulho no piso de madeira. Na volta, os mais sabidos trocavam seus tamancos velhos por pares mais novos. A grande confusão que se criava só parava com a chegada da polícia. O Moderno, tinha a tela virada para a entrada. O Diogo, na Barão do Rio Branco, até então era o melhor e passou a ser o segundo da cidade depois da abertura do São Luiz.


O jornalista Lustosa da Costa tinha por habito almoçar na Loja de Variedades, aquela que tinha entradas pelas ruas Major Facundo e Barão do Rio Branco. Era o primeiro “self-service” da cidade. Depois ia cochilar no cine Diogo, que tinha mil lugares. Muita gente passou a fazer a mesma coisa no São Luiz, que tinha um sistema de ar condicionado muito mais possante.

Geralmente, nos dias da semana, à tarde, os 1.200 lugares do cinema nunca estavam ocupados. Muitos jornalistas, que naquele tempo cobriam a Assembleia Legislativa, almoçavam no restaurante do Alfredo, que ficava entre a AL e a praça do Ferreira, e depois iam fazer a sesta no cinema. Alguns deputados também aderiam ao conforto das poltronas e roncavam, embalados pela música do filme que estivesse em cartaz. 


Com o paletó no braço, gravata no bolso, eu costumava pegar o Circular 24 ou 25 da empresa São Jorge. Naquele tempo, na minha rua, só o engenheiro José Lino da Silveira, o advogado Aldy Mentor e o médico Mário Mamede tinham automóveis. O ônibus passava em frente minha casa, na Avenida Padre Ibiapina e me deixava no Abrigo Central. Lá mesmo colocava a gravata, vestia o paletó e ia, animadamente, pegar a fila. Ninguém reclama da demora. Um dia, a namorada do Chico Moura, a Norma, desmaiou na fila.

Uma amiga ainda lembra a tensão que vivia nas filas do São Luiz. Era uma coisa tão marcante que chegou a ter pesadelos. Sonhava que estava na fila, sem calcinha maliciosa. Não era difícil se ouvir o grito de uma mulher reclamando de algum engraçadinho que se aproveitava da confusão da fila para tirar casquinha. Um dia prenderam um tarado que se exibia para uma freira que enfrentava a fila para assistir Marcelino, Pão e Vinho.

O Cine São Luiz tinha algo além do conforto. As superproduções como "Trapézio", "Nunca é Tarde para Esquecer", "Sansão e Dalila", eram exibidas em tela panorâmica. O som estereofônico eletrizava o ambiente, aproximando os casais de namorados e inspirando os gaiatos que faziam piadas em voz alta para alegria da galera. Faz lembrar a Rita Lee com a sua música “No escurinho do cinema....”

A exigência de paletó fez surgir um comércio de aluguel. Os caras guardavam o paletó no Café Cearazinho, na Guilherme Rocha. Reza a lenda da Praça do Ferreira que ganharam muita grana alugando paletó para quem decidia, de última hora, ir ao cinema.
Os lanterninhas do São Luiz estavam atentos para evitar excessos. Um dia, o jornalista Silvio Leite, assim que acabou o filme, resolveu tirar o paletó, os lanterninhas chegaram junto para obrigá-lo a vestir. Silvio, irreverente, perguntou o que eles fariam se ele não colocasse o paletó.
- Você será expulso do cinema - vociferaram.
- Então, me expulsem.

Ora, como todo mundo já estava de saída mesmo, teria sido apenas cômico se os lanternas não tivessem partido para obrigar o jornalista a vestir o paletó. E ele acabou saindo, sem vestir o paletó. Não esqueço a Polícia Estadual, na entrada do cinema, pedindo documento para descobrir falso estudante pagando meia ou menor de idade tentando ver filme impróprio. Sonhava em ser um deles para me exibir para as meninas.

O progresso sempre chega acabando com o tradicional. Descentralizou o comércio. Os bairros ganharam shoppings, os shoppings abriram praças de alimentação, salas de exibição. Ao mesmo tempo, a televisão foi conquistando cada vez mais espaço e tempo das pessoas, provocando uma mudança de habito que afetou a vida das cidades.


A sessão das 21h30, nas noites de domingo, verdadeiro desfile de moda parece coisa de ficção. Há cinquenta e oito anos, homens de terno, mulheres com os últimos lançamentos da moda, usavam a fila do São Luiz como passarela, O povão, em frente, elogiando, criticando, aplaudindo e vaiando. O São Luiz faz parte do patrimônio histórico do Ceará e suas histórias estão tombadas também, em nossa memória.


Memórias de autoria do jornalista Wilson Ibiapina
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fotos do arquivo Nirez e do Anuário do Ceará