terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Fortaleza de Outrora

A Igreja de Nossa Senhora da Conceição do Outeiro da Prainha, foi inaugurada no dia 08 de dezembro de 1841 (Arquivo Nirez)

Por volta de 1887 a acanhada capital do Ceará apresentava, com diferenças mínimas, as mesmas características da cidade colonial de 20 anos antes. Seus limites não iam além das Ruas da Praia e da Misericórdia, (atuais Pessoa Anta e Dr. João Moreira) da Rua de Baixo, (atual Conde D’Eu) da Rua D. Pedro I e da Rua da Amélia (atual Senador Pompeu). 


A tesouraria da fazenda adquiriu em 1860 e fez entrega ao episcopado, em 1892, do Palácio do Bispo, hoje ocupado como Paço Municipal (Arquivo Nirez)


Fora desse polígono de pequenas proporções, só havia digno de nota, o Palácio do Bispo, o Colégio das irmãs e o SeminárioO mais era o areal, onde se levantavam casebres de taipa e raras casas de tijolos construídas desordenadamente. 

A população urbana concentrava-se entre o Riacho Pajeú – o Marajaig de outrora – a cuja margem se edificaram as casas da Rua Conde D’Eu, já considerada a rua mater de Fortaleza, o Largo do Paiol, atual Passeio Público, a Rua Senador Pompeu e a Pedro I, que já fora em tempos idos, a Travessa da Alegria


Início da Rua Major Facundo a partir do Passeio Público: à direita o prédio onde se instalaria o Palace Hotel. (arquivo Mozart Soriano Aderaldo

 
Sítios, mais ou menos cultivados, conforme a situação econômica dos respectivos proprietários eram as futuras bem traçadas artérias de vários bairros que circundam o atual centro comercial. 

Bairros como  Outeiro, Otávio Bonfim, Jacarecanga, Tauape, Alagadiço, Calçamento da Messejana e outros mais eram tomados de cajueiros esgalhados, de coqueiros e copadas mangueiras. 

A iluminação de Fortaleza, nestes tempos remotos, já havia evoluído do azeite de peixe para o gás carbônico, que começou a clarear as ruas da cidade precisamente aos 17 de setembro de 1886. 

Também naquela época estava em plena vigência o “contrato com a lua”, herança recebida da primeira de uma série de guerras, resultado da escassez do carvão de pedra, que obrigava a concessionária a pausas certas e previstas no sistema de iluminação, por três, quatro, e até mais dias, a cada mês, durante o plenilúnio.

 
O Parque da Liberdade na época de sua inauguração e a placa indicativa de sua construção. Ao fundo a antiga Igreja do Coração de jesus (Arquivo Nirez)


Na lagoa do Garrote, que abrangia todo o espaço do logradouro, matava-se a sede e a fome do gado que vinha dos lados da Messejana. Foi nesse tempo, no Alto da Pimenta, onde hoje se elevam as paredes do convento dos frades capuchinhos, foi dado como concluído o templo dedicado ao Coração de Jesus, mandado levantar pelos Barões de Aratanha. 
Antes, o que havia por lá não passava de um modesto nicho, construído pelo Boticário Ferreira.

A Praça da Sé apresentava aspecto bem diferente. Muito embora o velho Palácio Arquiepiscopal – com algumas modificações – já existisse como tal desde 1860, o que existia na face sul/leste da praça eram velhas e características casas de taipa e beira-e-bica, uma das quais hospedou o Marechal Hermes da Fonseca quando era simples oficial do exército. 


O Hospital de Caridade ou Santa Casa de Misericórdia, foi todo construído com recursos doados pela população. O prédio foi concluído em 1857 (Arquivo Nirez)

 
Mas acima, para as bandas do Passeio Público, alinhavam-se ao cair da noite, os tabuleiros, com lanternas acesas, nos quais se vendiam doces, gengibirra, roletes de cana e outras guloseimas, emprestando um aspecto gracioso ao antigo Largo do paiol, já de si tão entristecido e soturno pelos queixumes dos enfermos da Santa Casa da Misericórdia, em frente.


Extraído do livro:
História abreviada de Fortaleza e crônicas sobre a Cidade amada
De Mozart Soriano Aderaldo.         

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Estátuas do Centro


General Sampaio
arquivo NIREZ 

A estátua foi inaugurada no dia 24 de maio de 1900 na Praça Castro Carreira(também conhecida por Praça da estação), em frente a Estação Central da Estrada de Ferro. 
No mesmo dia foram inauguradas as Ruas General Sampaio e 24 de Maio, ambas no centro de Fortaleza.
A estátua do General Sampaio foi a 2ª a ser inaugurada em Fortaleza. Foi transferida para a Avenida Bezerra de Menezes em frente ao antigo CPOR em 24 de maio de 1966, ocasião em que a coluna que lhe servia de base foi destruída.
Em 1981 foi novamente transferida, desta vez para a pracinha na Avenida 13 de Maio em frente ao 23° BC e, em 1996 por iniciativa do Instituto do Ceará, foi levada para os jardins do quartel da 10ª. RM onde ainda se encontra.

José de Alencar
foto: Mauricio Cals

No dia 1° de maio de 1929 foi inaugurada a estátua de José de Alencar no centro da Praça Marquês do Herval. 
A homenagem foi uma iniciativa do jornalista Gilberto Câmara e foi financiada pelo cônsul italiano no Ceara. O escultor foi Vincenzo Cozzo. A Praça continuou sendo chamada de Marquês do Herval e só passou a José de Alencar alguns anos depois.

fonte: 
Cronologia Ilustrada de Fortaleza, de Miguel Ângelo de Azevedo (NIREZ)

domingo, 12 de dezembro de 2010

Emiliano Queiroz

Emiliano Guimarães Queiroz nasceu em Aracati-CE, no primeiro dia do ano de 1936, filho de Henrique Queiroz e Ana Guimarães Queiroz. Começou a participar de pequenos espetáculos teatrais na escola, por volta dos cinco anos de idade na cidade de Russas, também no Ceará, para onde a família se mudara há pouco tempo atrás. Depois se mudou com a família para Fortaleza. 
O artista com 1 anos e 6 meses
Aos 14 anos começou a trabalhar na Fábrica Progresso, primeiro como contínuo, depois como auxiliar de escritório. Estudava à noite no colégio Dom Bosco, que incentivava o teatro, e Emiliano criou o Teatro de Arte Fortaleza –TAF, dentro da escola. Nessa época começou a participar de um grupo amador de teatro, onde atuou numa peça com a Cia. J. Cabral. Aos 16 anos passou a integrar o Teatro Experimental de Arte em Fortaleza, criado em 1952, dirigido por B. de Paiva. Com esse grupo encenou diversas peças, como Lampião, de autoria de Rachel de Queiroz. Na mesma época também atuava na Ceará Rádio Clube como radioator.  
aos dezessete anos
 Aos 18 anos foi convocado para servir ao exército, e o ator de teatro virou o soldado Queiroz 301 da Bateria de Comando do 13° GAT de Fortaleza-Artilharia. Depois de um ano voltou ao rádio, na PRE-9, onde foi comediante, locutor, fez auditório, trabalhou na discoteca, no arquivo musical, foi copista de programa, e principalmente, foi radio-ator. Depois da morte do pai, decidiu ir embora do Ceará, foi para São Paulo, levando no bolso o endereço da Escola de Arte Dramática. A viagem até São Paulo – cidade que Emiliano só conhecia através de revistas e dos filmes da Vera Cruz – durou oito dias, feita em cima de um pau-de-arara, já que não existia linha de ônibus para aquela cidade. 
na primeira peça em São Paulo Nega de Maloca - 1959
Recusado na Escola de arte Dramática, Emiliano Queiroz fez um teste para a Federação Paulista de Teatro onde foi aprovado para um curso de teatro com dois anos de duração. Na Federação Paulista teve aulas de história do teatro e música, voz e texto com Ruy Afonso, conferências com Augusto Boal, e interpretação com Osmar. 
Freqüentou a escola de dança de Madame Gumiel. Assim estreou no palco do Municipal de São Paulo, no Primeiro Festival de Dança Contemporânea. Ainda em São Paulo trabalhou como datilógrafo, comissário de bordo, fez pontas em filmes, fez pequenas participações na TV Tupi, trabalhou em peças infantis e participou de shows em boates.
Quando o curso da federação havia terminado, soube pela amiga Neide Maia que os Diários Associados estavam inaugurando uma emissora de TV em Fortaleza, e que a programação local seria totalmente gerada por artistas da terra.
Emiliano retornou a Fortaleza em 1960, retomando suas funções na PRE-9 como radio-ator. A TV Ceará foi inaugurada em 26 de novembro de 1960, onde logo Emiliano Queiroz assumiu diversas funções. Preparou as radio-atrizes para o novo veículo, foi diretor de comerciais ao vivo e selecionou candidatas para serem garotas-propaganda, fazia contato com os clientes, adaptou contou e peças e escrevia textos para o programa O Contador de Histórias.  
Ao fim de dois anos, voltou a São Paulo, por entender que, com a chegada do videoteipe, - e  como as emissoras passaram a gravar seus programas -  mais dia menos dia, essa programação seria distribuída para todo Brasil, e em conseqüência, nas emissoras regionais a teledramaturgia estava com os dias contados. 
Em São Paulo trabalhou com Maria Della Costa em uma montagem de Depois da Queda, de Arthur Miller. 
Na mesma época, foi convidado para participar da novela Eu amo esse homem, produzida pela TV Paulista, em 1964. Quando a emissora foi comprada pela TV Globo, a produção da novela foi cancelada e Emiliano Queiroz, assim como outros atores e técnicos, foi contratado para trabalhar na TV Globo no Rio de Janeiro.
 Da primeira fase da teledramaturgia da emissora, o ator participou de quase todas as novelas, em geral escritas pela autora cubana Glória Magadan.
 Fez sucesso no papel do vilão nazista Hans Stauben na novela O sheik de Agadir, em 1966. No ano seguinte, a convite de Glória Magadan, o ator assumiu a tarefa de escrever Anastácia, a mulher sem destino, adaptação do folhetim francês A touti negra do moinho, ambientada na Rússia, no início do século. 
Sem experiência prévia como escritor de novelas, Emiliano acabou tendo problemas para dar conta do número excessivo de personagens e controlar a narrativa da trama. O ator foi então, substituído pela dramaturga Janete Clair, que para diminuir o elenco e alterar radicalmente os rumos da novela, escreveu um capítulo em que mais da metade dos personagens era eliminado por um terremoto.
Juca Cipó era um personagem secundário na trama, ganhou força e espaço e acabou como um dos pontos altos da novela Irmãos Coragem  
Em 1970, ao participar da novela Irmãos Coragem, escrita por Janete Clair, Emiliano Queiroz compôs o personagem antológico Juca Cipó, que alcançou uma grande popularidade no Brasil. Participou ainda de O homem que deve morrer, em 1971, e Selva de pedra, em 1972. No ano seguinte, o ator integrou o elenco de O bem-amado, primeira novela a cores da televisão brasileira, escrita por Dias Gomes e estrelada por Paulo Gracindo. 
Seu personagem, Dirceu Borboleta, foi um marco em sua trajetória e entrou para a galeria dos personagens inesquecíveis da televisão brasileira. Dirceu Borboleta acompanhou Emiliano Queiroz muito além da exibição da novela. Entre 1980 e 1984, o ator retomou o personagem no seriado O bem-amado e, a partir de 1994, no humorístico Escolinha do professor Raimundo.   
Durante todos esses anos, Emiliano Queiroz participou de várias outras novelas.
Entre elas: 
 Pecado capital (1975), 
Estúpido cupido (1976), 
Maria, Maria (1978), 
Pai herói (1979), 
Cambalacho (1986),
Sexo dos anjos (1989), 
Barriga de aluguel (1990), 
Deus nos acuda (1992) 
e Era uma vez... (1998), 
As filhas da mãe  (2001) 
Começar de novo (2004), 
Senhora do destino (2004)
 e Alma gêmea (2005). 
O ator teve também significativas participações nas minisséries 
Tenda dos milagres (1985), 
Abolição (1988) 
Tereza Batista (1992), 
Chiquinha Gonzaga (1999)
Um só coração (2004),
Hoje é dia de Maria (2005) e 
Carandiru, outras histórias (2005).
no Cinema Emiliano Queiroz teve as seguintes participações: 
 A extorsão (1975), de Flávio Tambellini,
O Xangô de Baker Street, de Miguel Faria Jr. (2001),
Madame Satã (2002), de Karim Ainouz,
Casa de areia (2005), de Andrucha Waddington.
Mulheres do Brasil (2006), de Malu de Martino, e
 Xuxa - Gêmeas (2006), de Jorge Fernando.
No teatro destacam-se personagens como:
Veludo da peça Navalha na carne (1969), de Plínio Marcos,
o Tonho de Dois perdidos numa noite suja (1971), também de Plínio Marcos,
o Dr. Martin da peça Equus, de Peter Shafer, e
 sua antológica composição de Geni na Ópera do malandro, de Chico Buarque de Hollanda.

Em 2007, Emiliano Queiroz interpertou o padre Agnaldo na novela Eterna Magia, de Elizabeth Jhin.  Seus personagens no cinema e no teatro lhe renderam críticas bastante elogiosas, considerável reconhecimento de público e alguns prêmios importantes. Como o Kikito de Ouro no festival de Gramado, como melhor ator coadjuvante por uma participação de três minutos no filme Stelinha (1990), de Miguel Faria Jr.
imagem rede globo
Atualmente Emiliano Queiroz está vivendo o sapateiro Nonno Benadetto,  na novela Passione, de Silvio de Abreu na Rede Globo. 
 
 na TV Ceará em Ana Karenina com Cleide Holanda
 Primeira Novela da TV Ceará - Poeira Vermelha. Com Laura Santos e Lourdes Martins
 novela Sheik de Agadir de 1966 com Ioná Magalhães e Márcia de Windsor
 Outdoor do filme  
 Interpretando a Geni, na Ópera do Malandro  
 Na inauguração do Teatro Emiliano Queiroz com Ary Sherlock, Iris Breno e Augusto Borges
 O teatro Emiliano Queiroz foi inaugurado no ano 2000, no edificio do Serviço Social do Comércio (Sesc), na Avenida Duque de Caxias em Fortaleza
na minissérie A Muralha (2000)

Pesquisa:
Letícia, Maria. Emiliano Queiroz, na sobremesa da vida. Coleção Aplauso. São Paulo: Imprensa Oficial, 2006 

sábado, 11 de dezembro de 2010

A Oligarquia Nogueira Accioly e A Política das Salvações

Com a chegada a presidência do Brasil do marechal gaúcho Hermes da Fonseca (1910-1914), apoiado pelos estados do Rio Grande do Sul e Minas Gerais, e pelo poderoso senador Pinheiro Machado, segmentos das classes médias urbanas e do exército, unidos a oligarquias dissidentes iniciaram um movimento para “moralizar” o país e “salvar” a república. 
 Hermes Rodrigues da Fonseca - 8° Presidente do Brasil
Era a chamada “Política das Salvações”, a qual consistiu em revoltas armadas ocorridas em alguns estados visando à derrubada de oligarquias monolíticas governantes, substituindo-as por outras. A princípio Hermes da Fonseca e Pinheiro Machado apoiaram as “Salvações”, pois as insurreições aconteceram em estados de oligarquias opositoras, mas quando as revoltas começaram a surgir em estados de oligarquias aliadas de ambos, Hermes e Pinheiro começaram a combater o movimento. 
Senador Pinheiro Machado 
A Política das Salvações foi um dos fatores que possibilitou a queda da oligarquia acciolina no Ceará.
Após mais de uma década de governo Accioly via com preocupação o crescimento das oposições e o descontentamento popular. Não seria prudente ele ou alguém da sua família tentar diretamente um novo mandato. O ideal seria obter um sucessor que lhe permitisse gerir o estado nos bastidores. 
Assim, para surpresa geral, indicou como candidato do seu partido, Domingos Carneiro Vasconcelos, velho desembargador de quase 80 anos. Domingos Carneiro deu uma entrevista em dezembro de 1911, agradecendo ao Partido Republicano Conservador a confiança em seu nome a afirmando que continuaria a política do venerando amigo Dr. Nogueira Accioly. 
Foi a gota d’água! A partir desse evento houve grande mobilização das oposições para lançar um candidato de prestigio e influência nacional, capaz de ter sua vitória reconhecida pelo governo federal e derrotar Accioly. Mas quem?
O nome ideal teria sido indicado pelo general Dantas Barreto, político ligado às “Salvações” e governante de Pernambuco. O general sugeriu a candidatura do tenente-coronel Marcos Franco Rabelo. 
Franco Rabelo era militar de carreira, igualmente ligado a Política das Salvações, professor da Escola Militar do Rio de Janeiro e ausente do Ceará a quase 20 anos. 
Genro do General Clarindo de Queiroz, fora “enxotado” do estado com ele por ocasião do golpe de 1892, o qual teve entre os articuladores exatamente Nogueira Accioly.
 Mesmo sem ser conhecido pelo eleitorado cearense, o nome de Rabelo foi lançado como candidato ao governo num panfleto que circulou pela capital intitulado Ecce Homo.
A maioria da população acolheu com euforia o nome do tenente-coronel, logo considerado o salvador, a solução para todas as mazelas do Ceará. 
A campanha mobilizou os fortalezenses como poucas vezes na história do Ceará. 
As passeatas, mobilizações, e os discursos se sucederam no centro de Fortaleza sob o olhar intimidador da oligarquia. 
O mais curioso de tudo é que a campanha pró-Rabelo ocorria sem a presença do candidato, que só chegaria ao estado em março de 1912, após a queda do comendador. 
A 29 de dezembro de 1911, uma manifestação oposicionista promovida na Praça do Ferreira foi dissolvida pela cavalaria da policia, havendo troca de balas e um saldo de muitos feridos. Estava declarada oficialmente a guerra entre rabelistas e acciolistas. 
Em protesto a Associação Comercial decidiu pelo fechamento do comércio por uma semana, no que foi apoiada pela população, que chegou a apedrejar as casas comerciais que não aderiram a paralisação. Ao mesmo tempo, catraieiros e condutores de bondes entraram em greve, enfrentando a policia com paus, pedras e barricadas. 
O apoio silencioso e implícito dado pelo exército às manifestações da oposição, irritou o velho babaquara, como Accioly era chamado pelos adversários. 
manifestação popular em apoio a candidatura Franco Rabelo (Arquivo NIREZ) 
Fortaleza era pura agitação. As acusações, os manifestos, as passeatas, os comícios e as provocações geravam um clima de euforia. Com o aumento da participação popular e com a cidade em pé de guerra, Accioly renunciou em 24 de janeiro de 1912. 
Era o fim de 16 anos de oligarquia. Não se sabe ao certo quantos morreram, mas ao final do levante foi feita uma contagem das vítimas junto ao cemitério de São João, à Santa Casa, à enfermaria militar e às farmácias, chegando-se a uma centena de mortos e feridos, excluindo-se os policiais assassinados por populares, que foram enterrados no quartel da polícia, no Parque da Liberdade e outros lugares.
Houve também divergências entre os lideres da revolta – muitos queriam liquidar Accyoli para evitar que ele tentasse recuperar o poder. 
Agapito dos Santos, um dos chefes dos insurretos, encontrou uma fórmula para garantir a vida do oligarca e familiares, impondo-lhe as seguintes condições: 
Accioly renunciava para sempre a qualquer tentativa de candidatar-se ou seus filhos para presidente do Estado; 
rejeitaria qualquer proposta do governo central no sentido de reintegrá-lo ao poder;  deixaria imediatamente o Palácio da Luz e se abrigaria no quartel da Inspetoria Militar do Ceará, aguardando o primeiro navio que o levasse para o Sul; 
deixaria como reféns, sob a tutela de um particular, os senhores José Accioly e Graco Cardoso. 
Palácio da Luz, frente para a Rua Sena Madureira. Ao fundo a Praça General Tibúrcio. Foto de 1908 (Arquivo NIREZ)  
Accioly e familiares deixaram a sede governamental abraçados por alguns oficiais do exército e adversários políticos da oligarquia. 
No dia 25 de janeiro o babaquara embarcava para a capital do país. No percurso, em Natal, um incidente: a comitiva sofreu um atentado à bala, promovido por Antonio Clementino de Oliveira, ex-gerente do Jornal do Ceará, obrigado a deixar o estado em razão das perseguições da oligarquia. 
Accioly escapou, mas morreram um de seus filhos, Antonio Accioly Filho, e o agressor.
após ser deposto, o presidente Accioly foge em um barco que o leva até o navio para o Rio de Janeiro (Arquivo NIREZ) 
A presidência interina do Ceará foi entregue ao vice, coronel Antonio Frederico de Carvalho Mota. Para concorrer com Rabelo, o Partido republicano retirou a candidatura do desembargador Carneiro Vasconcelos, e lançou o nome do general Bezerril Fontenele. Medida inócua, pois no pleito de 30 de janeiro de 1912, os rabelistas venceram com ampla maioria, sob acusações de fraudes.
fachada da antiga Assembléia Provincial em 1911 (Arquivo NIREZ)
Encerrava-se, portanto, o período acciolino, mas não seu poderio. Este continuava através do apoio dos coronéis correligionários do interior, e no domínio da máquina eleitoreira.
 O próprio Franco Rabelo, para ter sua vitória reconhecida pela Assembléia Legislativa – uma exigência da época – foi obrigado a negociar com os acciolistas em troca de cargos públicos e dos nomes do primeiro e do terceiro vice-presidentes.  
        
Fonte:
História do Ceará, de Airton de Farias

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Troca no Nome dos Bairros: em nome da modernidade

No rol das confusões entre os bairros, a memória e a modernidade travam uma luta diária. Enquanto as novas gerações conhecem nomes como Antônio Bezerra, Meireles, Bairro de Fátima, Castelão e Messejana, moradores mais antigos se lembram do Outeiro, do Lagamar, da Praia do Peixe, da Estância e do Mata Galinha
Mesmo com o antigo nome em desuso, a simples lembrança é significativa para a identificação da população com o bairro


Praça de Otávio Bonfim

Caso peculiar: o antigo Otávio Bonfim teve o nome trocado para Farias Brito, porém ninguém aceitou a mudança e o bairro continua a ser conhecido como Otávio Bonfim.  

 Avenida Luciano Carneiro, bairro de Fátima

Mesmo com o antigo nome em desuso, a simples lembrança é significativa para a identificação da população com o bairro. Por conta do crescimento da cidade, muitos bairros mudaram de nome, ou simplesmente desapareceram.
O Porangabussu virou Rodolfo Teófilo; o  Coqueirinho e o Campo do Pio se tornaram Parquelândia; o Outeiro passou a se chamar Aldeota; a Pirocaia agora é Montese.  


 
nesta rua no bairro da Parangaba a fábrica apropriou-se do espaço público e invadiu a
 calçada. O prejuízo fica para a população.

 
Avenida General Osório de Paiva atravessa vários bairros de Fortaleza: Parangaba, Vila Peri, Bom Jardim, Canindezinho, Siqueira,  e se estende  até a divisa com o município de Maracanaú

 Praça na Aldeota

 Rua Liberato Barroso, no centro de Fortaleza


Prainha é o nome correto da área antiga onde agora está o Centro Dragão do Mar e que por falta de informação é chamado de Praia de Iracema
De acordo com Marciano Lopes,  a Praia de Iracema é mais adiante. A parte alta daquele pequeno bairro, onde está a Praça Cristo Redentor era o Outeiro da Prainha.

 Avenida Presidente Castelo Branco (Av. Leste/Oeste) localizada no Bairro Moura Brasil

Outros bairros  praticamente desapareceram do mapa, e os antigos nomes são desconhecidos da maioria da população. A Vila Monteiro foi incorporada ao Joaquim Távora; o mesmo aconteceu com a vizinha Vila Zoraide. 

O bairro Tauape é outro exemplo: identificado com a Lagoa do Tauape, no momento em que o manancial foi aterrado para a construção do canal do Jardim América, o nome do bairro praticamente desapareceu junto com as águas. 
Outro caso interessante é o bairro é da Piedade, que segundo o historiador NIREZ, nunca existiu. A população chamava o bairro de Piedade por causa da igreja da Piedade, mas o bairro nunca existiu. 


 Praça em frente ao Santuário de Fátima, no bairro do mesmo nome.

Anteriormente as denominações das unidades urbanas eram escolhidas a partir de nomes da fauna e flora regionais,  das atividades econômicas que caracterizavam uma determinada região, da tradição indígena.

 Os nomes refletiam a perspectiva histórica de uma sociedade coletivista. Com a modernidade e a ascensão dos valores individualistas, as nomenclaturas foram substituídas por nomes de personalidades que tiveram relevância para o bairro, poder, influência política ou desempenharam um papel representativo na sociedade. 
Assim surgiram bairros com nomes de Olavo Bilac, Quintino Cunha, Edson Queiroz, Dias Macedo, etc.  

   
Parque Parreão
 Parque urbano do Parreão
Parque da Lagoa da Maraponga

O nome de um bairro não está ligado apenas uma questão estética, mas é resultado de um momento histórico e da organização social nesse dado período. Um exemplo é o bairro atualmente denominado Planalto Ayrton Senna. A comunidade, formada a partir de ocupações de terras, era conhecida como Pantanal.

 Em 2001 a população se organizou e votou pela escolha do nome atual do bairro. A troca foi uma forma de quebrar o estigma de violência e pobreza que a área carregava perante os outros moradores da cidade.

Não restou comprovado  que a troca de nome tenha reduzido os índices de violência do local. Ao buscar uma fotografia do bairro no Jornal Diário do Nordeste, constatei que todas as imagens relativas ao bairro Ayrton Senna, estão relacionadas ou ao tráfico de drogas ou a crimes de morte.

 

pesquisa:
Jornal Diário do Nordeste
Jornal O Povo
fotos: arquivo do Blog Fortaleza em Fotos