segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

Pinto Martins, o herói esquecido


Euclides Pinto Martins nasceu em Camocim, em 1 de abril de 1892, filho de Antônio Pinto Martins e Maria de Araújo do Carmo Martins. Foi criado no vizinho Estado do Rio Grande do Norte porque seu pai, natural de Mossoró, foi convidado a representar a Companhia de Salinas Mossoró Assú, em Macau. Pinto Martins começou a trabalhar em Natal, como embarcadiço e com apenas 17 anos, era piloto de navio. No início de 1909, ainda adolescente, com a anuência do pai, foi para os Estados Unidos fazer um curso de Engenharia Mecânica. Concluído o curso, fez estágio na “Baldwin Locomotive”, uma fábrica de vagões.

Voltando ao Brasil em 1911, trabalhou na Inspetoria Federal de Obras contra as Secas, no cargo de engenheiro e na Estrada de Ferro em Natal. Retornou aos Estados Unidos por volta de 1918, depois da morte da esposa, a americana Gertrudes Mc Mullan, com quem teve uma filha chamada Ceres. Casou-se pela segunda vez com a também americana Adelaide Sulivan, com quem teve sua segunda filha, Adelaide Lillian, em 1920.  

Durante a década de 1920, Pinto Martins se interessou pela aviação, que se encontrava em pleno desenvolvimento. Em 1921, entrou em um curso de pilotagem e conseguiu o brevê.  Com sua entrada no meio aeronáutico, conheceu um veterano na área: Walter Hilton, instrutor de voo na Flórida. No ano seguinte, o jovem aviador cearense e Hilton lutaram para realizar um sonho, o de atravessar a América em um hidroavião, ação bastante temerária para a época. A primeira tentativa, levada a cabo em agosto de 1922 fracassou, e o hidroavião Sampaio Correa I caiu no mar próximo a Cuba.



Mas a dupla não desistiu, e ganhou patrocínio do jornal The New York World para uma nova tentativa.  A viagem começou em Nova Iorque, em novembro de 1922, e terminou no Rio de Janeiro, em fevereiro de 1923. Foram 175 dias de travessia, 5.678 km de percurso, e cerca de cem horas de voo, interrompidas muitas vezes pelos mais variados problemas, a bordo do hidroavião Sampaio Correa II. A rota New York/Rio de Janeiro não tinha sido realizada até então.

Desde o final da década de 1910 e por toda década de 1920, a história registra alguns feitos realizados por ousados viajantes, pioneiros nas viagens áreas transatlânticas. Já em 1919, os pilotos britânicos John William Alcock e Arthur Whitten Brown, realizaram o primeiro vôo transatlântico sem escalas. Eles partiram de St. John's, Terra Nova e Labrador, Canadá, para Clifden, Irlanda. O voo percorreu 3.138 km, e durou cerca de 12 horas. Foram premiados com 50 mil dólares. O feito dos britânicos foi superado logo após, em 1927, pelo piloto americano Charles Lindbergh, que realizou o primeiro voo solitário transatlântico, sem escalas em avião.

Lindbergh partiu do Condado de Nassau, Estado de Nova Iorque, nos Estados Unidos, em direção a Paris, França, em 20 de maio de 1927, tendo pousado na capital francesa no dia seguinte. O voo de Lindbergh durou 33 horas e 31 minutos. Pelo feito, o piloto recebeu o "Prêmio Orteig", de 25 mil dólares, em oferta desde 1919.



Pinto Martins também teve seu feito reconhecido: foi recepcionado pelo Presidente Artur Bernardes e recebeu um prêmio de 200 contos de réis. Pinto Martins faleceu no Rio de Janeiro em 12 de abril de 1924, num episódio que nunca foi devidamente esclarecido. É sabido que ele foi encontrado morto, ao que se diz por suicídio, em seu apartamento. Tinha 32 anos de idade.      

O herói apagado



Uma lei definiu o nome do aeroporto de Fortaleza:  A Lei nº 1602, de 13 de maio de 1952, denomina “Aeroporto Pinto Martins” o Aeroporto do Cocorote, em Fortaleza. Assinada por João Café Filho, que à época acumulava as funções de vice presidente da República e a Presidência do Senado Federal. Mas o aeroporto de Fortaleza já não ostenta o nome de Pinto Martins em sua fachada. Normal. Como cobrar de estrangeiros a preservação da memória de nossas personalidades, se nós mesmo não temos essa preocupação?       

fotos da Internet


domingo, 3 de janeiro de 2021

Alguns dos Imóveis da Universidade Federal no Benfica

Coube ao professor Antônio Martins Filho a articulação de esforços visando a criação de uma universidade no Ceará. Contando com o apoio do governador Faustino de Albuquerque e lideranças do Estado, o objetivo foi atingido pela Lei nº 2.373, de 16 de dezembro de 1954, quando foi autorizada a criação da Universidade do Ceará. Sua instalação ocorreu no ano seguinte, em solenidade realizada no Teatro José de Alencar, a 25 de junho de 1955. A instituição foi constituída inicialmente pela Faculdade de Direito do Ceará, fundada em 1903 pela Associação Comercial do Ceará como Faculdade Livre de Direito do Ceará; pela Faculdade de Farmácia e Odontologia do Ceará, instituída em 1916 e federalizada em 1950; pela Escola de Agronomia do Ceará, estabelecida em 1918 e até então pertencente a Superintendência do Ensino Agrícola e Veterinário, do Ministério da Agricultura; e pela Faculdade de Medicina do Ceará, instituição privada criada em 1948. A universidade se instalou inicialmente no bairro Benfica, onde ao longo dos anos 50 e 60, foram adquiridas várias propriedades que foram demolidas ou readequadas aos usos próprios da instituição. 

postal do Benfica anos 60

Um dos primeiros imóveis a ser comprado foi o da antiga residência da família do banqueiro José Gentil, na então Avenida Visconde de Cauípe, esquina com a Avenida Treze de Maio. A chácara que existia no local foi vendida em 1909 pelo então proprietário Henrique Alfredo Garcia, ao banqueiro José Gentil Alves de Carvalho, que demoliu a casa e construiu o palacete em 1918, com projeto do arquiteto João Sabóia Barbosa. Em 1956, a área foi comprada pelo primeiro reitor da UFC, Antônio Martins Filho, da Imobiliária José Gentil S/A pertencente aos herdeiros de José Gentil. Hoje, o imponente palacete abriga a reitoria da Universidade. 

Casa de Cultura Britânica



Antiga residência do Sr. Francisco Queiroz Pessoa, comerciante e proprietário de terras, que a vendeu para a UFC em 18.03.1960. A casa foi construída em 1907, na esquina das Avenidas da Universidade com Treze de Maio, projeto do arquiteto José Gonçalves da Justa. Desde 1963 esse imóvel abriga a casa de Cultura Alemã, da Universidade Federal do Ceará. No início, tinha muros e grades e ostentava uma placa com a identificação do curso. 

Rádio Universitária, antigo Centro de Cultura Hispânica



Antiga chácara do Dr. Edgar Cavalcante de Arruda, deputado, senador e candidato ao governo do Estado em 1950. Derrotado nesta eleição, retirou-se para o Rio de Janeiro. A casa foi construída em 1940 e vendida à Universidade em 1957, por CR$ 3,2 milhões de Cruzeiros. Fica na Avenida da Universidade, 2910. 

Sede do Museu de Arte 



Localizado no terreno correspondente a 1 quarteirão onde esteve a chácara de propriedade do doutor em Ciências Políticas Carlos Eduardo Saulnier Pierreleveé. O imóvel foi vendido, e em 1911 foi instalada uma escola de educação feminina dirigida por Dona Almerinda Albuquerque. No início dos anos 50, a antiga escola de Dona Almerinda transformou-se no Colégio Santa Cecília, dirigido pelo Instituto das Damas da Instrução Cristã, congregação belga fundada em 1823. O Santa Cecília ficou no Benfica até 1960, quando o prédio foi vendido à UFC, totalmente reformado e hoje abriga o Museu de Arte da instituição. 

Casa de Cultura Germânica



A casa ampla e moderna construída em 1938, era a antiga residência do doutor Tomás Pompeu Magalhães e sua esposa dona Maria José Ferreira Magalhães, vendida à UFC em 30.12.1964. Maria José era filha do coronel Pergentino Ferreira, proprietário do sítio Canadá, e doador do terreno onde foi erguida a Igreja de Nossa Senhora de Fátima.

Casa de Cultura Francesa



O imóvel pertenceu a Bráulio Bezerra Lima e sua mulher Cora Jandira Ribeiro Lima. A casa dois pisos e muitos compartimentos, ostentava arquitetura diferenciada em relação à sua vizinhança. Vendida à UFC pelo dono original, teve sua fachada conservada e inalterada. 

Sede do Conservatório de Música Alberto Nepomuceno



Antiga residência de propriedade dos Bernardo da Cruz até o começo dos anos 1900. O prédio foi adquirido pelo reitor da UFC em 31 de julho de 1961. O Conservatório foi criado em 1938, e funcionou anteriormente na Rua Barão do Rio Branco, centro. Em 1964, foi incorporado à UFC, onde seria unidade universitária autônoma, após aprovação no Conselho Federal de Educação. Em 1969, jornais dão conta das dificuldades previstas para o Conservatório com reforma financeira na UFC. Em 1975, com a criação da UECE – Universidade Estadual do Ceará, 0 Conservatório de Música Alberto Nepomuceno é uma dentre as seis instituições de ensino junto com o ensino de filosofia, enfermagem, serviço social, veterinária e administração, a constituir a UECE. O prédio, segundo sites diversos, ainda é propriedade da UFC. 

A Torrinha (C.A. de Psicologia)

Foto Pinterest - Henrique Lima

A famosa “torrinha” fica localizada no Centro de Humanidades II, que hoje abriga o C.A. da Psicologia na avenida da Universidade, 2700, e teria sua origem numa época muito anterior à chegada da universidade naquela região. Consta que, em tempos remotos, aquelas terras pertenceram a um pesquisador cearense chamado Fonseca Lobo, que enriqueceu indo trabalhar na Amazônia, e ao voltar para o Ceará, adquiriu muitas terras na Região Metropolitana e em Fortaleza. Sua moradia na área urbana era próxima às propriedades da família Gentil, que mais tarde, vendida ao ex-governador do Ceará João Tomé de Saboia e Silva (1916-1920), ficou conhecida por Villa Angelita". João Miguel da Fonseca Lobo, que residiu no local, nasceu em 1849 numa localidade na Serra da Ibiapaba e faleceu em 1938, aos 88 anos de idade. Astrofísico e estudioso de fenômenos relativos aos sistemas planetários, o cearense foi autor de estudos sobre a lei da Relatividade, publicados vinte anos antes da teoria formulada por Albert Einstein. 

A torrinha sobrevivente do Centro de Humanidades, possui um terraço e uma rosa dos ventos, que, provavelmente, foram utilizados como local das observações astronômicas do cientista cearense. "Realmente a torrinha era usada para observações, creio que ainda há uma Rosa dos Ventos no teto, naturalmente usada para determinação dos pontos cardeais, o que seria um auxílio para a observação do céu, não sei se a olho nu ou através de um pequeno telescópio". (Newton Lobo, em citação do blog astronomia em fortaleza). 

Em um de seus livros, Fragmentos de Filosofia Natural e Especulativa, publicado em 1909, Fonseca Lobo escreve: “Que é o Tempo? Uma ficção, sem correspondente na realidade. Não existe Tempo. A Eternidade não tem passado e não tem futuro; é só o presente. Não tem ontem nem amanhã. Hoje somente. As cousas desenvolvem-se simultaneamente no infinito..." O morador seguinte, o político, e engenheiro João Tomé de Saboia e Silva, também era dado aos estudos, especialmente quando o assunto eram o clima e as secas no Nordeste. 

Fontes: 
Anuário do Ceará, 1979/80 
http://astronomiaemfortaleza.blogspot.com/2017/01/um-intelectual-precursor-do-einstein-no.html 
http://portal.ceara.pro.br
Benfica de Ontem e de Hoje, de Francisco de Andrade Barroso
Fotos: Memorial da Universidade Federal do Ceará

terça-feira, 25 de agosto de 2020

Califórnia, Quixadá, Ceará

imagem Iphan

O Distrito de Califórnia fica em Quixadá, sertão central do Ceará. O surgimento do distrito tem origem na Fazenda Califórnia fundada por Miguel Francisco de Queiroz, que foi durante muitos anos, a fazenda mais importante do município. A propriedade rural desenvolveu-se, e ao seu redor surgiu um pequeno povoado formado por casas de escravos e outros agregados além de uma capela dedicada a São Francisco de Assis, o que fez com que o lugar passasse a ser chamado de São Francisco da Califórnia, considerado o padroeiro do distrito. 
Em 1882, a Fazenda Califórnia passou, através de doação, para Arcelino de Queiroz Lima. Arcelino deixou grande descendência e, entre os seus filhos, está Daniel de Queiroz Lima (1886-1948), advogado e professor, pai da Escritora Rachel de Queiroz).
O distrito de Califórnia consta nos primeiros registros de divisões administrativas de Quixadá já em 1911 com o nome de São Francisco da Califórnia. Em 1920 passou a ser chamado novamente apenas de Califórnia. A escritora Rachel de Queiroz, descendente de Arcelino, conta sua versão da origem e da evolução da propriedade.  A Fazenda Califórnia foi desapropriada em 1985. 

A Fazenda Califórnia
(crônica de Rachel de Queiroz)

imagem: facebook

A Fazenda Califórnia era “um condado”, conforme se dizia pelo sertão em redor. Foi nos começos da era de 1850 que o velho Miguel Francisco de Queiroz, meu tio-bisavô, senhor de muitas terras entre o Sitiá e o Choró, no Quixadá, resolveu diversificar da sua criação de gado crioulo, o chamado pé-duro. Afinal, era dono de uma boa data das famosas croas de aluvião, na ribeira do Choró: assim, a umas 500 braças da barranca do rio, situou fazenda nova, disposto a tentar a sorte na folha da cana.

Quem decidiu o local da sede foi o açude, alimentado por dois grandes riachos. A barragem se levantou pela mão dos negros – terra puxada em couro de boi, aguada, batida a malho. O grande prato d´água ainda lá está hoje, serenando.

Em terreno plano, o cavaleiro do vale do sangradouro, alisou-se uma esplanada, levantou-se a capela. E, fechando os três lados ao redor da igrejinha, “a rua”, composta numa das faces pela morada do sinhô e, por trás e defronte à igreja, as casas de agregados, o vaqueiro, a professora. Adiante, no caminho da Croa Grande, o cemitério.

Houve inveja e falatório diante do arrojo inovador de Miguel Francisco. Era o tempo da descoberta das célebres minas de ouro da Califórnia, nos Estados Unidos, e até no sertão se falava e se sonhava com aquelas riquezas. Um primo e rival mandou recado irônico: como ia seu Miguel com a sua Califórnia? O velho riu, gostou do nome, e assim a fazenda se batizou por “São Francisco da Califórnia”. 

Capela de São Francisco da Califórnia
imagem Wikipédia - Mário Cezar Silveira Silva

Na capela inaugurou-se a imagem do orago, um São Francisco de talha primitiva e forte; que hoje, aliás, está na capela do cemitério, onde o refugiamos para salvar da fúria airada de um vigário alemão que pretendia incinerar “aquela feiura barroca” e o substituiu por um santo de gesso, loiro, rosado, coberto de dourados.

Meu tio Miguel não tinha filhos: deixou tudo que era seu para meu avô, o Dr. Arcelino; e nas mãos do novo dono a Califórnia virou realmente um condado. Mudou-se a casa-grande (que, no sertão, nós chamamos simplesmente “a fazenda”) para o outro cabeço, do lado de lá do sangradouro. Imensa, rodeada por fundos alpendres de 3 metros, 57 portas e janelas, salas e salões, quartos e alcovas onde se podem armar 120 redes. Nas festas do centenário, lá se hospedaram 125 pessoas. Por trás da “fazenda”, o vale profundo do sítio, o cano de irrigação partindo do açude, as valetas regando em sucessão primeiro a famosa horta de minha avó, depois o pomar onde se cultivavam até fruta-pão e jambo, até uvas. Além do pomar, o vale se alargava mais, e era o canavial.

imagem do blog "I love califórnia" 

Entre a “fazenda” e o açude, a “fábrica”: o engenho a vapor, os tachos de apurar a garapa, o locomóvel que apitava como um trem, o alambique, os paióis de rapadura e, por fim, em plano mais baixo, no escuro, deitando um cheiro forte que tonteava, a adega onde dormiam os toneis de cachaça.
Pena grande foi meu avô morrer cedo, deixando a viúva com dez filhos. Mas, mesmo em mão de viúva, a fazenda não decaiu. Ao contrário, parecia mais viva, com a presença frequente dos filhos, genros, noras e nós, as dezenas de netos. Dos sete filhos, cinco tiraram grau de doutor, o sexto fez seminário até o último ano, só o caçula não se formou. Concluídos os preparatórios, foi ele o escolhido para morar com a mãe e tomar conta da Califórnia. Só depois que ela morreu é que ele, solteirão, casou-se com uma prima. (A gente, na minha família, casava preferencialmente com primos. Dos dez da Califórnia, metade casou com primo ou prima.) 

Até à morte de Dona Rachel, a Califórnia era mesmo o centro do nosso mundo. Era lá que nós os netos passávamos as férias, nas danças ao som de piano ou gramofone, cavalgatas, novenas, namoros.

Morta a avó, ficou de dono o caçula; nos anos em que lá esteve, se não fez melhoramentos, pelo menos não deixou que nada a arruinasse. Mas aí ele morreu (já viúvo) e a consanguinidade tinha atacado os herdeiros, jovens e irresponsáveis. Fazendeiro nordestino tem terras e senhoria, mas dinheiro vê muito pouco. E os órfãos queriam ver dinheiro na mão. Começaram vendendo cabras e ovelhas, depois passaram ao gado. Venderam o engenho, o locomóvel, o alambique.

E, parte a parte, foram vendendo afinal a terra da Califórnia – e por tutameia. A família não se envolveu – os moços faziam tudo às ocultas, “tinham cisma de parentes”. Quando se viu, acabavam de vender até a casa-grande, que aliás está caindo em ruínas.

Açude Califórnia - passagem molhada sobre o rio Choró 
imagem Diário do Nordeste

Agora surgiu um problema que já deu até crime de morte. Acontece que os velhos moradores, descendentes da indiada e da escravaria do tempo de meu tio Miguel, sempre moraram na rua e plantaram nas croas do rio. Roçados que passam de pais a filhos há mais de século. A rua fica no Patrimônio, isto é, à terra do santo. Como é sabido, quem constrói igreja rural, tem que doar ao orago um patrimônio em terras que lhe sustente os serviços do culto. O velho Miguel demarcou para esse fim um retângulo generoso, que vai da “rua” ao cemitério e desce em procura do rio por mais de 1 quilômetro.

Na degringolada os herdeiros deixaram que caducasse o aforamento perpétuo com que o velho garantira a posse efetiva do terreno: o Patrimônio reverteu à Cúria de Quixadá, que o administra. E os padres, por sua vez, passaram a lotear o Patrimônio. A velha rua se “urbaniza”, desfigurada em arruado, pululante de bodegas e biroscas. Mas o pessoal antigo que ainda mora lá quer continuar plantando nos seus velhos roçados que hoje pertencem a novos donos, diversos. Os donos novos querem reaver a terra; a disputa se envenena e, como já se disse, deu até crime de morte.

Na Califórnia, que já foi um condado, só existe hoje miséria e rixa.

A casa-grande assiste a tudo e protesta se desmoronando. No inverno passado caiu a queijaria de minha avó. Antes, ruíra o terraço empedrado. De longe a “fazenda” ainda faz figura, mas de perto está morrendo.

Originalmente publicado na edição nº 3 de Globo Rural, em dezembro de 1985.

terça-feira, 14 de julho de 2020

Porciúncula, Messejana, o antigo Lar do Lustosa da Costa


Em uma de suas inúmeras crônicas, o escritor, jornalista, poeta, editor, professor e membro da Academia Brasiliense de Letras, Francisco José Lustosa da Costa, conta que o sítio onde hoje se instala a Porciúncula – atual sede das irmãs Missionárias da Ordem das Capuchinhas, em Messejana, era de propriedade de sua família. Seu pai comprara o sítio quando ainda era solteiro, e o vendeu no início da década de 60.

terreno de várzeas em Messejana - 1928 (imagem MIS)

Messejana era então muito longe de Fortaleza. Era um lugarejo tranquilo, com uma poética igreja no meio de um largo, rodeada de frondosas mangueiras. Ainda não havia asfalto, a pavimentação era com pedra de calçamento. Os ônibus eram velhos, maltratados. Em suas reminiscências, o jornalista relembra de coisas e pessoas de quando residiam no local: quando vinham da capital, desciam do ônibus em frente ao sítio da Rosa, uma solteirona meio doida que tinha mania de limpeza, e que ocupava o tempo varrendo infatigavelmente o terreno, envolta em uma nuvem de pó, dizendo palavrões dirigidos às galinhas, que atrapalhavam seu trabalho.

Para chegar em casa passava pela bodega de um certo Seu Oliveira, e percorria cerca de um quilômetro de areal. O trecho era tido como perigoso, à noite. Nos seus tempos de criança, a grande aventura consistia em atingir o final do sítio, na atual BR-116, onde se situava a casa de um morador, um preto velho de nome José Pinto, que recebia com mimos e agrados, as visitas dos filhos dos patrões.

Uma grande tradição do sítio da família, era a comemoração ao 13 de maio, dia da aparição de Nossa Senhora de Fátima. As novenas organizadas pela tia do jornalista, eram concorridíssimas, geralmente apareciam os vizinhos, e os pobres da vizinhança vinham ver as sobrinhas e as protegidas da dona da casa, todas vestidas de anjos com asas de papelão. A avó do cronista era uma velha faladeira , destemida, amiga do general Eudoro Correia.

Praça da igreja imagem: Arquivo Nirez

À frente da paróquia de Messejana estava o padre Pereira, (Francisco Pereira da Silva, pároco de 1938 a 1980) que implicava, em vão, com os namorados mais acalorados, que escolhiam os fundos e a calçada da igreja, como local de encontro para troca de carinhos. No auge da indignação, o velho sacerdote sentenciava: “se peito de moça fosse buzina de carro, quem mora perto da igreja não ia poder dormir à noite, tamanho o barulho!”


Fundos da Igreja de Messejana imagem: acervo IPHAN

Nas águas transparentes da lagoa de Messejana, onde Iracema se banhava ao chegar do Ipu, o cronista se afogou e quase morreu ainda criança. Escapou por um triz, para usar uma das expressões da época.


Lustosa da Costa - Cajazeiras (PB) 1938 - Brasilia (DF) 2012







Hoje o belo e aprazível sítio – sede das Irmãs Missionarias Capuchinhas, funciona como lugar de retiro e acolhida de religiosos, promove eventos de cunho social e religioso e atua na área educacional. O terreno foi adquirido pela ordem religiosa e no dia 19 de março de 1961 foi lançada a pedra fundamental para a construção da Porciúncula.  No dia primeiro de maio de 1964, a Porciúncula acolheu o noviciado ocupando a terceira ala do prédio e dia 25 de maio chegou o Governo Geral e a partir daí, foi reconhecida como Sede Geral da Congregação. Em 1973, uma parte da casa foi cedida para encontros e cursos de maior e menor duração, em regime de internato.


Fontes:

sexta-feira, 3 de julho de 2020

A Vida nos Bairros de Fortaleza nos anos 40


Na primeira metade da década de 1940, os distritos de Messejana, Mucuripe, Parangaba e Antônio Bezerra eram como pequenas cidades do interior, de difícil acesso, por causa das estradas ruins e dos transportes escassos. Ir a um desses distritos implicava numa viagem. O Mucuripe era então quase isolado da cidade, pois não havia acesso de veículos, com muitas dunas e outros entraves.


O Mucuripe era distante, isolado e quase desabitado - imagem:  Ah, Fortaleza!

No distrito de Antônio Bezerra, ficava o bairro Brasil Oiticica, nome que herdou da fábrica de beneficiamento de oleaginosas que se instalou na Avenida Francisco Sá, em 1934. O bairro começava na primeira linha de trem e terminava na altura da atual matriz da localidade. Ali os ônibus faziam sua parada final, pois a pista, que já era bastante estreita, era interrompida por um riacho que a atravessava. A partir, daí, era só mata, de cajueiros e muricizeiros. Para atingir a Barra do Ceará, então, pequeno povoado, só a pé ou em lombo de animal. Aos poucos o bairro foi sendo ampliando e urbanizado, teve o nome foi mudado para Carlito Pamplona.


prédio do Matadouro Modelo, hoje no local está o Colégio Paulo VI no bairro Jardim América. imagem: Arquivo Nirez

Logo após o Prado, ficava o Matadouro Modelo, pequeno aglomerado em volta do abatedouro oficial da cidade, que ficava no local onde hoje se encontra o Colégio Paulo VI. Mais tarde surgiu neste local o bairro Jardim América. Depois que o matadouro público foi desativado, os trabalhadores e suas famílias ocuparam uma grande área do entorno, formando a hoje denominada Comunidade Brasilia. Reúne cerca de 300 famílias, a maioria de baixa renda, que ocupam becos e vielas que desembocam na Avenida dos Expedicionários e formam a única área carente identificada como favela do bairro.

Não existiam o Montese, e o então Porangabuçu, atual Rodolfo Teófilo, estava começando a se formar em volta da Lagoa do Bessa. Em tempos anteriores ali existiu uma fazenda, e a matriz de São Raimundo era a capela da propriedade. A capela ficava sobre um verde gramado que circundava a lagoa de águas cristalinas.



A atual Paróquia de São Raimundo Nonato era em tempos passados, a capela de uma fazenda que existia no local. A paróquia foi criada em 1963, por padres redentoristas. imagem: O Povo

Entre o Porangabuçu, que surgia e o São Gerardo, existia o Campo do Pio, pequena comunidade sem ruas definidas. Foi engolido pela Parquelândia. Outro bairro que começava a tomar forma era o Monte Castelo, entre São Gerardo e Brasil Oiticica.

Sem favelas, sem bairros miseráveis, tinha o Morro do Moinho, entre a estação da RVC e o Cemitério São João Batista. O Morro do Ouro situava-se entre o Açude João Lopes e o nascente Monte Castelo.  Outro bairro bem próximo do centro e que foi totalmente tomado pelo comércio, era o Seminário, que compreendia a região em torno daquela casa de ensino religioso.

O São João do Tauape localizava-se no final do bairro Joaquim Távora e se estendia até os charcos do Lagamar. Mais além, margeando a BR-116, estava o Alto da Balança e a seguir, vinha Cajazeiras, antes de Messejana.

Pequena e tranquila, com seus 200 mil habitantes, Fortaleza era singela, com poucos bairros, que dependiam do Centro para praticamente tudo. Tirando as mercearias ou cinemas em alguns, tudo o mais só era encontrado no centro: lojas, bancos, correios, farmácias, mercearias finas.

No Joaquim Távora tinha a Casa Girão, armarinho sortido que vendia até tecidos, um cinema – o Joaquim Távora – e a Farmácia Carneiro, da família do repórter Luciano Carneiro. No Otávio Bonfim tinha os cinemas Nazaré, Familiar, a Farmácia São Sebastião e os jardins Japonês e São José, que vendiam flores e confeccionavam coroas fúnebres.

A Aldeota contava com dois cinemas, o Santos Dumont na Praça Cristo Rei e o Ventura, na Avenida Barão de Studart. Na Praça dos Pinhões, tinha a Casa Paranaense, outro armarinho sortido que vendia de tudo. No Jardim América, na Praça Presidente Roosevelt, tinha o Cine América.


As compras de gêneros alimentícios eram feitas nas bodegas, cujos bodegueiros conhecedores da sua clientela, formada quase que exclusivamente por moradores da vizinhança, vendiam fiado e à retalho – ½ barra de sabão, 300 gr de manteiga, ½ pacote de café - que não havia supermercado para lhes fazer concorrência; as contas de luz tinham de ser pagas na sede da Light, no Passeio Público; as de água e esgoto, na Secretaria de Viação e Obras Públicas, na Rua Dragão do Mar.



As famílias ainda guardavam o hábito das cadeiras na calçada. O Costume predominava mais entre as famílias que residiam para além da Rua General Sampaio, rumo do Oeste e para os lados norte e leste além da Senador Alencar e da Governador Sampaio.

Nas ruas mais centrais, onde residiam os mais endinheirados ou projetados socialmente, as casas eram de porões e sacadas avarandadas, o que não significa que naquelas ruas não houvesse os adeptos da velha prática. Mas, geralmente, na hora de pegar o frescor vespertino, damas e cavalheiros não precisavam ir para as calçadas, bastava abrir as portas por trás das varandas, de balaustrada de ferro ou alvenaria trabalhada.



Praça Clóvis Beviláqua (antiga Praça a Bandeira)/ Rua Senador Pompeu 
imagem Arquivo Nirez

Havia duas razões entre as classes mais modestas para o hábito das cadeiras na calçada: a primeira era as casas pegadas umas às outras, as chamadas paredes-meias, sem áreas de circulação interna, abafadas como clausuras.

A segunda razão devia-se a necessidade do trato social, já que os clubes eram exclusivos, poucos possuíam rádio, televisão nem sonhava em chegar. Tudo isso motivava as reuniões nas calçadas em frente as casas, com as cadeiras arrumadas de modo a estabelecer a conversa fácil entre vizinhos, tudo amenizado pela brisa, sempre corrente, após o rigor do sol.

A Fortaleza de hoje, com mais de 2,6 milhões de moradores, precisou crescer, de forma desordenada, ampliando bairros, fazendo surgir uns e sumindo com outros, modificando hábitos e costumes, distanciando pessoas. Alguns bairros são verdadeiras cidades dentro da cidade, com toda infraestrutura, como supermercados, bancos, colégios, restaurantes, hotéis, e tudo o mais que compõem uma comunidade. O velho Centro, em torno do qual a cidade gravitava, está esquecido e esvaziado.



Fontes:
"Royal Briar – a Fortaleza dos Anos 40” de Marciano Lopes
"Crônicas da fortaleza e do siará grande" de Otacílio Colares
Guia Turístico da Cidade - Prefeitura Municipal de Fortaleza - 1961