segunda-feira, 31 de outubro de 2016

As Igrejas e as Praças

Muitas cidades do Brasil e do Ceará nasceram ao redor de uma igreja, quase sempre a primeira edificação do lugar, pois a questão religiosa estava sempre presente nos tempos coloniais. Construídas com a utilização de materiais rústicos, por exploradores portugueses, por proprietários de sesmarias, que tinham o compromisso de povoar a terra ou pelos padres jesuítas, que aqui chegaram junto com as primeiras expedições colonizadoras, a igreja atraía moradores para o entorno, que ali construíam suas casas. Dessa forma foram surgindo aglomerados, que se transformaram em povoados, em vilas, e finalmente, cidades. O adro, espaço vazio localizado em frente aos templos religiosos, era o lugar onde se reuniam os moradores antes e depois da missa ou em atividades de lazer. 

Não foi o caso de Fortaleza, que historicamente nasceu ao pé do forte que lhe emprestou o nome, o N.S. da Assunção, depois de algumas tentativas frustradas de ocupação do território a partir da Barra do Rio Ceará. Mas é incontestável a importância das igrejas na formatação do espaço urbano da cidade, conforme a análise de alguns casos relativos às igrejas mais antigas da cidade, todas localizadas no Centro. 

Igreja de São José / Praça da Sé

  
Quando surgiu a primeira planta da Vila de Fortaleza, feita pelo capitão-mor Manuel Francês, em 1726, já aparecia o espaço livre em frente à futura Igreja de São José, no qual mais tarde viria a ser construída uma praça. Nessa época a matriz era representada pela capela de N. S. da Assunção, construída pelos soldados que serviam no forte, em taipa e palha. A construção de uma nova capela mor de Fortaleza foi decidida em fevereiro de 1699, mas a autorização só ocorreu por Ordem Régia de 12 de fevereiro de 1746. Esta, que veio a ser a primeira Igreja de São José, foi concluída em 1795 e demolido em 1820.

Em 1854, quando teve início a construção da segunda igreja de São José, em estilo colonial, o espaço em frente a entrada principal do templo, passou a ser chamado de Largo da Matriz;  Em 1861, vira Praça da Sé, acompanhando a mudança de nome da igreja matriz. Em 04 de junho de 1889 passa a denominar-se Praça Caio Prado, nome proposto pelo vereador Paulino Joaquim Barroso, em homenagem ao Governador Caio Prado, presidente da província do Ceará nos anos de 1888 e 1889. Hoje é conhecida por Praça da Sé. Fica na Rua Conde D'Eu. entre as ruas General Bezerril, Dr. João Moreira, Castro e Silva e Rufino de Alencar.


Igreja do Patrocínio / Praça José de Alencar

 

A Igreja do Patrocínio foi inaugurada em 1852. Em 1849 o cabo da esquadra Fortunato José da Rocha disparou um tiro contra o Capitão Jacarandá, mas acertou o joelho do Alferes Luís de França Carvalho, que estava ao lado do capitão. Vendo-se em risco de perder a vida, Luís de França fez voto a Nossa Senhora do Patrocínio, que se escapasse, faria uma igreja em sua devoção. No ano seguinte, curado do ferimento, lançou a pedra fundamental da igreja ao norte do largo arborizado, que depois da inauguração da igreja, passou a ser chamado de Praça do Patrocínio. Em 1870 teve o nome mudado para Praça Marquês de Herval, e em 1929, Praça José de Alencar. Está localizada na Rua General Sampaio, entre as Ruas Liberato Barroso, Guilherme Rocha e 24 de Maio, no Centro.  


Igreja do Coração de Jesus/Praça do Coração de Jesus


 A construção da igreja foi iniciada em 1878 e inaugurada em 25 de março de 1886, no lugar denominado Alto da Boa Vista ou Colina da Pimenta, ou ainda, Morro do Pecado, numa área onde havia uma capela construída pelo Boticário Ferreira, onde hoje se encontra o convento dos capuchinhos. Antes, aquela região era coberta de vegetação, principalmente de cajueiros e alguns currais onde se prendiam o gado que era abatido ali. Até 1880 a área de entorno da igreja foi chamado de Praça da Boa Vista; a partir de 1881 passou a ser Praça Dr. José Júlio, homenagem ao Dr. José Júlio de Albuquerque Barros. A partir de 12 de dezembro de 1960 recebeu o nome de Praça do Coração de Jesus. Fica na Avenida Duque de Caxias entre as ruas Solon Pinheiro, Pedro I e Jaime Benévolo, Centro.


Igreja do Carmo/ Praça do Carmo


Antes de ser matriz, a futura Igreja de Nossa Senhora do Carmo era uma capela simples, construída em 1850 por uma irmandade existente naquela época na freguesia do Patrocínio. A capela foi batizada com o nome de Nossa Senhora do Livramento. O templo foi erguido em área distante do centro, cercada de árvores, com uma lagoa nas proximidades. Ainda na construção, a autoridade diocesana permitiu que fosse mudada a invocação para Nossa Senhora do Carmo. A nova igreja foi inaugurada em 25 de março de 1906, com muita solenidade, sendo o primeiro capelão monsenhor José Gurgel do Amaral.

O lugar hoje ocupado pela Praça do Carmo era um imenso areal, e existia uma lagoa no quarteirão em frente, onde hoje funcionam o Banco do Brasil e um estacionamento. A lagoa era alimentada por um córrego que vinha da Praça do Ferreira. A medida que a frequência da igreja aumentava, o areal foi sendo ocupado e a praça começou a tomar forma. Inicialmente foi chamada de Largo do Livramento. A Praça do Carmo está localizada na Avenida Duque de Caxias, entre as ruas Major Facundo, Clarindo de Queirós e Barão do Rio Branco, Centro. 

Igreja da Conceição da Prainha / Praça do Cristo Redentor



Em 26 de outubro de 1839, Antônio Joaquim Batista de Castro, morador no Outeiro da Prainha, requereu uma licença à Câmara Municipal, para que ele e outras pessoas pudessem construir uma capela de invocação a Nossa senhora da Conceição.  A licença foi concedida no dia 30 do mesmo mês. Os fiéis resolveram então, organizar uma irmandade e escolher o lugar onde seria edificado o templo. Concordaram que o local seria sobre a colina fronteira à praia, ficando a capela de frente para o oriente. A igreja foi inaugurada no dia 8 de dezembro de 1841.

Em frente a igreja havia um areal com sua face oeste ocupada por casebres e mocambos, que pouco a pouco foram sendo retirados a medida que o local foi sendo urbanizado. Até 1881 era chamado de Praça da Conceição. Depois foi chamada de Praça Senador Machado, e em 1890 voltou a ser Praça da Conceição. A partir de 1924 passou a ser denominada Praça do Cristo Redentor, em razão do monumento inaugurado em 1922, em homenagem ao centenário da Independência do Brasil. A Praça fica na Avenida Presidente Castelo Branco, entre a Avenida D. Manuel e as ruas Boris e Rufino de Alencar, Centro.

Igreja do Rosário/Praça General Tibúrcio

 

A Igreja do Rosário foi erguida por volta de 1730, num local considerado afastado da vila, a atual Praça General Tibúrcio. A igreja surgiu no meio do nada, visto que a cidade ainda não chegara naqueles arrabaldes. A  Igreja do Rosário permaneceu por muito tempo como única construção relevante da área. A praça foi projetada bem mais tarde, em 1847, não em função da igreja, mas devido a presença do Palácio do Governo, que passou a funcionar vizinho à igreja do Rosário, a partir de 1809.

Na metade do século XIX, grandes chuvas causaram escavações no Largo do Palácio e o Presidente Inácio Correa de Vasconcelos (1844-1847), mandou fazer uma enorme muralha para sustentar o aterro. Junto com a muralha foram levantados pilares, gradis de ferro e feitas escadarias para acesso à Rua de Baixo. Nascia assim a futura Praça General Tibúrcio, que foi Largo do Palácio, Pátio do Palácio, Praça do Palácio e hoje é mais conhecida da população como Praça dos Leões. Fica entre as ruas Visconde Saboia, General Bezerril e Conde D'Eu, Centro. 

Obras consultadas:
Descrição da Cidade de Fortaleza, de Antônio Bezerra de Menezes
Praças de Fortaleza, de Maria Noélia Rodrigues da Cunha 
fotos do IBGE e Arquivo Nirez


quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Implantação do Abastecimento de Água: chafarizes, cacimbas e cataventos


Até o ano de 1827, a população de Fortaleza sofria com a falta de um sistema de abastecimento de água. Muito antes, em 1812, durante o governo de Manuel Inácio de Sampaio (1812-1820), havia sido celebrado um contrato entre o Conselho da Vila de Fortaleza e o tenente-coronel João da Silva Feijó, a fim de que fosse aproveitada uma das nascentes de água do seu sítio, localizado na Rua do Quartel (atual General Bezerril) para a construção do primeiro chafariz público. 


Chafariz na Praça José de Alencar, atual Praça Waldemar Falcão (foto de 1908 do álbum de vistas do Estado do Ceará) 

Com a assinatura das leis provinciais de 19 e 20 de setembro, foi autorizado o inicio desse serviço em Fortaleza, por meio de chafarizes. Os primeiros estudos do projeto de abastecimento e distribuição de água foram iniciados pelo engenheiro Bertholt em 1861, com a autorização da Câmara Municipal.

No ano seguinte concedeu-se a José Paulino Hoonholtz privilégio por 50 anos, a fim de fazer o encanamento de água do seu sítio no Benfica, para chafarizes espalhados pela cidade, tendo sido celebrado o contrato em 27 de maio de 1863. Quatro chafarizes foram então construídos nas seguintes praças: da Municipalidade (atual Praça do Ferreira), Garrote (atual Cidade da Criança), Carolina (atual Waldemar Falcão) e Patrocínio (Marques de Herval e posteriormente, José de Alencar). 

A Praça do Ferreira tinha cacimba, catavento e caixa d'água
A Praça Marquês de Herval (atual José de Alencar), foi urbanizada em 1902 e ganhou jardins uma cacimba e catavento para sua manutenção 

Mais tarde, em 1866,o presidente da Província firmou contrato com a The Ceará Water Company, então concessionária do privilégio, para serem colocados mais três chafarizes, na Praça do Patrocínio, (Marquês de Herval), Colégio dos Educandos (Praça Filgueira Lima), e Alfândega. A inauguração oficial desses serviços se registrou entre festas retumbantes, a 26 de março de 1867, às 5 horas da tarde. Compareceram ao ato todas as autoridades e uma multidão de curiosos, que assistiram a bênção das instalações procedida pelo bispo D. Luiz Antônio dos Santos. 

Em 1834, Fortaleza possuía uma única cacimba. Assim, que foi autorizada a construção de uma cacimba de pedra e cal por detrás da Rua do Açougue. No ano seguinte foi autorizada a construção de nova cacimba dentro da existente no quintal da cadeia. Mais tarde a Câmara Municipal em sessão de 12 de novembro de 1837, autorizou a construção de uma cacimba na Travessa do Jacinto, para utilidade pública.

Praça dos Coelhos (atual Praça José Bonifácio) 
No lado norte da praça, apoiado numa pilastra de pedra e cal, rodeado de grades de ferro, havia um velho catavento que rodava o dia inteiro, puxando água do cacimbão através de um enferrujado encanamento. Uma grande torneira, suspensa a cerca de um metro de altura do chão, jorrava, e era ali que todos enchiam seus vasilhames: camburões, alguidares, ancoretas e panelas. (Otacílio de Azevedo, em Fortaleza Descalça)

Depois outras cacimbas públicas surgiram no Garrote e Paiol da Pólvora, as quais eram guardadas pela policia para evitar depredações.Em 1853 ficou decidida a construção de outra cacimba na Lagoinha, visto que a que existia no local não era suficiente. No ano de 1867, uma companhia inglesa tentou organizar o serviço de abastecimento por meio de uma pequena rede distribuidora de água apanhada em cacimbas, de onde era captada por meio de bombas para dois reservatórios instalados no Benfica. Dali a água era canalizada para o centro da cidade, aproveitando-se o declive do terreno que facilitava o escoamento. Com a seca de 1877, as cacimbas secaram e o abastecimento teve que ser suspenso. 

Após essa primeira tentativa que fracassou, somente no governo Accioly, o Dr. João Felipe elaborou em 1911, um projeto que não foi concretizado de imediato em razão da deposição do governador. Mesmo assim haviam sido construídas duas caixas de água na Praça da Bandeira, com capacidade para 760.000 litros cada uma, além do estabelecimento de 42 km de canos pelas ruas. 

Praça da Bandeira (atual Clóvis Beviláqua) com as duas caixas d'água instaladas entre 1911/12

O prosseguimento dos trabalhos ocorreu em 1923, quando Ildefonso Albano contratou uma firma americana e o serviço de água e esgoto foi inaugurado em 1926, sem que se registrasse uma ampliação da área atendida pelo reservatório do Acarape. Por isso permaneceu a costumeira preocupação dos proprietários de imóveis com a instalação de cacimbas para atender as necessidades domésticas. 

vendedores de água na Rua da Cachorra Magra (atual Marechal Deodoro) no Benfica, onde estava localizada uma das fontes mais famosas de Fortaleza: a de Zuca Acioly

Até a data da inauguração do sistema com água do Acarape, a distribuição da água ainda era feito em lombos de jumentos, com depósitos de madeira. Algumas fontes se dedicaram a esse comércio, tornando-se depois conhecidas no mercado por terem ampliado a oferta por um grande número de vendedores avulsos que se lançaram no comércio ambulante. 

Um vendedor de água oferece o produto na Travessa da Cacimba, atual Rua Visconde de Saboia - 1908
 
Nas residências das pessoas de grandes posses, e nas praças utilizavam-se os cataventos, em geral de fabricação norte-americana. Eram colocados juntos das cacimbas, e regavam gramados e pomares. Com o passar do tempo e chegada evolução no ramo, não mais se vendia a água nas ancoretas carregadas por jumentos, mas, substituídas por carroças conduzindo grande pipa (pintada com tinta verde) puxada por burros. 

 (imagem https://martaiansen.blogspot.com.br)
A origem da água distribuída pelas carroças era proveniente de poços localizados nos bairros da Floresta, Itaoca, Pirocaia e Benfica. Com a implantação do sistema de distribuição da água do Acarape – (Rio Acarape, Gavião ou Acarape do Meio), a cidade passou a receber água tratada, ainda que o beneficio só alcançasse, no inicio, uma pequena parcela da população.



Fotos: Arquivo NIREZ
Fontes de consulta:
JUCÁ, Gisafran Nazareno Mota. Verso e Reverso do Perfil Urbano de Fortaleza (1945-1960). São Paulo: Annablume; Fortaleza: Secretaria de Cultura e Desporto do Estado do Ceará, 2000.
MENEZES, Raimundo de. Coisas que o Tempo Levou: crônicas históricas da Fortaleza antiga. Introdução, Sebastião Rogério Ponte. Fortaleza: Edições Demócrito Rocha, 2000.

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Patrimônio Edificado: A Cidade de Ferro

A urbanização de Fortaleza foi bastante lenta no século XIX, com baixo crescimento demográfico. A população que era de 12.195 habitantes em 1813 passa a 16.557 em 1837 e chega ao final do século com 50.000 habitantes. Em 1800 havia um “arruador”, para organizar o traçado das ruas e treze anos depois a Câmara Municipal mandou elaborar uma planta parcial da Vila, executada pelo engenheiro Antônio da Silva Paulet.

Poucas edificações se destacavam. O sobrado do Comendador Machado, com três pavimentos era o mais alto. Inicia-se a partir da metade do século, a época de maior florescência da cidade, corresponde ao atual centro, possuindo um acervo de 1418 casas, das quais 517 eram de tijolo e telha.


No período definido entre a metade do século XIX e a Segunda Guerra Mundial no século XX é que foi construído praticamente todo o patrimônio edificado de maior relevância da cidade e era composto por um fabuloso e harmônico conjunto de edifícios residenciais e, inserido nele, um moderado número de monumentos arquitetônicos de maior importância, em sua maioria construções modestas, mas significativos para recontar do seu crescimento.


A arquitetura da casa compondo com seu entorno imediato foi e será um dos legados mais importantes deixados para a nossa história. Ela é em geral mais humilde que os monumentos eclesiásticos e militares, mas tinha seu ponto alto na grande riqueza dos conjuntos edificados geradores dos seus espaços urbanos, que eram coerentes, extremamente proporcionais, harmoniosos em beleza, formas, escala humana e cores que delinearam a silhueta da cidade e geraram seu maior patrimônio.

Foi esse espaço organizado de maneira esmerada que deu importância a cidade. A largura das ruas, os espaços abertos, as praças, o dimensionamento dos lotes, a altura homogênea das edificações foram o que construíram essa coerência.

É precisamente nesse período que grandes empreendimentos que envolviam novas tecnologias construtivas foram feitos no Estado e fundamentalmente em Fortaleza. A estrada de Ferro, inaugurada em1873, insere na construção a estrutura metálica na execução de suas pontes e armazéns, chamando a atenção para esse novo método prático de construir, trazendo interessantes intervenções urbanas ao nível da edificação pelo poder público.

A cidade começava a despontar no cenário político e econômico da região, passando por um processo de modernização provocado pelo florescimento da ciência e da tecnologia, gerado pela revolução industrial. O algodão foi o produto que impulsionou o crescimento e o intercâmbio comercial contínuo com a Europa, fez com que informações sobre novos produtos chegassem até aqui com bastante rapidez, através de serviços de tecnologia moderna como o telégrafo e a telefonia.


É nesse contexto que a ideia de um mercado público para Fortaleza, executado em ferro, onde foi aventada sua construção ainda em 1873. A ideia só veio a se concretizar duas décadas depois, 8 anos depois da Exposição de Paris, comemorativa do centenário da tomada da Bastilha em 1889, onde foi apresentado ao mundo o que havia de mais moderno na indústria siderúrgica aplicada à engenharia como a Torre Eiffel, a Casa das Máquinas e muitas outras edificações. O mercado da Carne foi inaugurado em 1897.



A partir desse evento a cidade adota uma maneira fugaz de construir. A Capela do Pequeno Grande, com sua bela estrutura da coberta e do coro, foi inaugurada em 1903. As praças se enchem de quiosques, coretos, bancos de jardins, balcões, varandas e uma infinidade de novos elementos que compuseram de uma maneira graciosa a fisionomia da arquitetura fortalezense, que chegou a seu momento de maior esplendor com a construção do Teatro José de Alencar, em 1910.


Café do Comércio - Praça do Ferreira início do século XX

Até 1930, Fortaleza era uma cidade homogênea, com edificações que não ultrapassavam a dois pavimentos e uma escala bastante agradável. O seu perfil observado desde o mar era praticamente uma linha no horizonte. A Estação João Felipe, a Santa Casa da Misericórdia, a Cadeia Pública, a Fortaleza de N. S. da Assunção e a Catedral eram os edifícios mais representativos da paisagem da cidade, com apenas o contorno de seus telhados, chaminés e torres desenhando sutilmente seu perfil, emoldurados pelas serras ao fundo.


extraído do artigo: Patrimônio Edificado de Fortaleza,
de José Capelo Filho. Do livro Ah, Fortaleza! 
fotos: postais de época e arquivo Nirez      

terça-feira, 4 de outubro de 2016

O Final Melancólico do Governo Nogueira Accioly

Antônio Pinto Nogueira Accioly governou o Ceará em três mandatos: 1896 a 1900; 1904 a 1908 e 1908 a 1912. Depois de 15 anos de liderança política, dava para perceber que os conflitos, observados em todos os períodos de seu governo, se aguçavam, indicando desgaste do poder. Os primeiros indícios da ruína já se mostravam:  começaram com divergências entre as lideranças sertanejas, da mesma linha partidária; bandos de capangas se armavam e investiam contra facções da mesma linha, o que deu origem a uma autêntica babel política alimentada e estimulada pelas ambições de mando. Essa situação se refletiu diretamente no governo.


 Praça Marquês de Herval, espécie de cartão de visitas da administração de Accioly, foi destruída por populares 

As passeatas organizadas por populares se sucediam, cada vez mais concorridas e destemidas. Chegou-se a até a reunir crianças numa Liga Infantil, e foi numa delas, realizada no dia 21 de janeiro de 1912, constituída de mais de seiscentas crianças, que funcionou como estopim para a exploração do movimento armado popular. A cavalaria investiu contra os manifestantes sem respeitar a presença das crianças, resultando em mortos e feridos.  A população reagiu atirando contra a polícia e travando luta corpo a corpo. Vários policiais foram abatidos, assim como várias crianças foram crivadas de balas e jaziam na rua. O comércio fechou as portas, foram levantadas barricadas e os policiais eram recebidos a bala.

 Passeata das Crianças, manifestação contra o governo Accioly e em prol da candidatura Franco Rabelo, duramente combatida pela polícia por ordem do governador. (arquivo Nirez)

As principais ruas e praças de Fortaleza se transformaram em campos de batalha, na maior explosão de revolta que a capital já conheceu. Armada, a população ocupou vários pontos da cidade, inclusive o Palácio do Governo, onde estava Accioly. Formou barricadas, promoveu saques e destruiu símbolos do poder de então. Entre os alvos, a Praça Marquês de Herval, remodelada pelo intendente Guilherme Rocha, e onde estava localizada a residência de Accioly, na esquina das ruas Guilherme Rocha com 24 de Maio. A revolta durou de 21 a 24 de janeiro de 1912, e só terminou com a deposição do presidente da província.

A bela residência da família Accioly, na Praça Marquês de Herval (atual José de Alencar), foi saqueada e incendiada pela população
Aspectos da A Praça Marquês de Herval depois da revolta

A multidão invadiu a delegacia Fiscal, a Cadeia Pública e cercou o Palácio do Governo.  Era exigida a renúncia de Accioly como condição para o cessar fogo. Mesmo com a mediação do bispo D. Joaquim, o presidente se recusava a ceder. Mas teve de fazê-lo na manhã do dia 24, quando uma toalha branca atada a um cano de fuzil anunciou aos sitiantes a rendição de Accioly, sendo encarregado o Pe. João Alfredo Furtado de ler para o povo amotinado os termos da renúncia irrevogável. Na Praça do Ferreira, os revoltosos ouviram a leitura e só concordaram com a renúncia diante da permanência de reféns de membros da família Accioly. Então, sob a guarda do Dr. Paula Rodrigues ficaram José Accioly e Maurício Graco Cardoso. O presidente Accioly juntamente com outros familiares, foram encaminhados para o Quartel do Exército onde no dia seguinte foram embarcados no vapor Pará, com destino ao Rio de janeiro.

 Nogueira Accioly (de preto e usando cartola), rumo ao navio Pará, que o levará ao Rio de Janeiro

Durante a viagem ocorreu uma tragédia quando o navio fez uma escala em Natal, RN. Antônio Clementino, uma vítima de Accioly ameaçou invadir o camarote onde se achava o oligarca. O filho de Accioly, Antônio Pinto Nogueira Accioly Filho, atracou-se com o invasor e foi mortalmente ferido. O major Weyne, então ajudante de ordens do oligarca, revidou, abatendo a tiros o agressor. Accioly Filho seguiu viagem, mas veio a falecer quando o navio estava na Bahia.

Por ocasião do sepultamento, em Salvador, a família Accioly ainda passou por uma última humilhação: o enterro foi vaiado durante vários minutos por partidários do governador baiano J.J. Seabra. O triste episódio deu ensejo a que Rui Barbosa pronunciasse depois um de seus famosos discursos: o defunto vaiado.

A comitiva de Nogueira Accioly chegou ao Rio de Janeiro no dia 2 de fevereiro de 1912. Desembarcou no Cais Pharoux onde foi recebido por altas autoridades daquele Estado e por representantes do Governo Federal, como todo o estado maior do Ministro da Guerra, além de três bandas de música.  

Accioly (no meio, de cartola) desembarca no Rio de Janeiro em companhia de Rivadávia Correia, Oscar Lopes, Pedro Borges e Flores da Cunha. A esquerda, em plano mais elevado, o senador Francisco Sá. 

O ponto de desembarque foi isolado e agentes de polícia, e praças da cavalaria faziam a segurança do Cais. Logo que o navio atracou, uma lancha partiu em direção ao paquete levando a bordo uma comitiva liderada pelo Ministro da Justiça, Sr. Rivadávia Correia, que foi recebido por Thomaz Accioly. O Ministro foi levado ao camarote de luxo onde se encontrava Nogueira Accioly, todo de preto, e aspecto bastante abatido em razão dos acontecimentos de Natal. 

Accioly desembarcou em companhia de familiares e amigos, e após receber várias homenagens, a família se dirigiu à residência do senador Francisco Sá, na Rua Humaitá, onde seriam hóspedes. O ex-presidente, que nunca mais retornou ao Ceará, fixou residência no Rio de Janeiro, onde faleceu no dia 14 de janeiro de 1921.   

Fontes:
Revista Fortaleza, fascículo 5 de abril de 2006 
Jornal “A Noite”, de 02/02/1912 
A História do Ceará passa por esta rua, de Rogaciano Leite Filho
História do Ceará, de Airton de Farias