Mostrando postagens com marcador praças do centro. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador praças do centro. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

As Igrejas e as Praças

Muitas cidades do Brasil e do Ceará nasceram ao redor de uma igreja, quase sempre a primeira edificação do lugar, pois a questão religiosa estava sempre presente nos tempos coloniais. Construídas com a utilização de materiais rústicos, por exploradores portugueses, por proprietários de sesmarias, que tinham o compromisso de povoar a terra ou pelos padres jesuítas, que aqui chegaram junto com as primeiras expedições colonizadoras, a igreja atraía moradores para o entorno, que ali construíam suas casas. Dessa forma foram surgindo aglomerados, que se transformaram em povoados, em vilas, e finalmente, cidades. O adro, espaço vazio localizado em frente aos templos religiosos, era o lugar onde se reuniam os moradores antes e depois da missa ou em atividades de lazer. 

Não foi o caso de Fortaleza, que historicamente nasceu ao pé do forte que lhe emprestou o nome, o N.S. da Assunção, depois de algumas tentativas frustradas de ocupação do território a partir da Barra do Rio Ceará. Mas é incontestável a importância das igrejas na formatação do espaço urbano da cidade, conforme a análise de alguns casos relativos às igrejas mais antigas da cidade, todas localizadas no Centro. 

Igreja de São José / Praça da Sé

  
Quando surgiu a primeira planta da Vila de Fortaleza, feita pelo capitão-mor Manuel Francês, em 1726, já aparecia o espaço livre em frente à futura Igreja de São José, no qual mais tarde viria a ser construída uma praça. Nessa época a matriz era representada pela capela de N. S. da Assunção, construída pelos soldados que serviam no forte, em taipa e palha. A construção de uma nova capela mor de Fortaleza foi decidida em fevereiro de 1699, mas a autorização só ocorreu por Ordem Régia de 12 de fevereiro de 1746. Esta, que veio a ser a primeira Igreja de São José, foi concluída em 1795 e demolido em 1820.

Em 1854, quando teve início a construção da segunda igreja de São José, em estilo colonial, o espaço em frente a entrada principal do templo, passou a ser chamado de Largo da Matriz;  Em 1861, vira Praça da Sé, acompanhando a mudança de nome da igreja matriz. Em 04 de junho de 1889 passa a denominar-se Praça Caio Prado, nome proposto pelo vereador Paulino Joaquim Barroso, em homenagem ao Governador Caio Prado, presidente da província do Ceará nos anos de 1888 e 1889. Hoje é conhecida por Praça da Sé. Fica na Rua Conde D'Eu. entre as ruas General Bezerril, Dr. João Moreira, Castro e Silva e Rufino de Alencar.



 

A Igreja do Patrocínio foi inaugurada em 1852. Em 1849 o cabo da esquadra Fortunato José da Rocha disparou um tiro contra o Capitão Jacarandá, mas acertou o joelho do Alferes Luís de França Carvalho, que estava ao lado do capitão. Vendo-se em risco de perder a vida, Luís de França fez voto a Nossa Senhora do Patrocínio, que se escapasse, faria uma igreja em sua devoção. No ano seguinte, curado do ferimento, lançou a pedra fundamental da igreja ao norte do largo arborizado, que depois da inauguração da igreja, passou a ser chamado de Praça do Patrocínio. Em 1870 teve o nome mudado para Praça Marquês de Herval, e em 1929, Praça José de Alencar. Está localizada na Rua General Sampaio, entre as Ruas Liberato Barroso, Guilherme Rocha e 24 de Maio, no Centro.  




 A construção da igreja foi iniciada em 1878 e inaugurada em 25 de março de 1886, no lugar denominado Alto da Boa Vista ou Colina da Pimenta, ou ainda, Morro do Pecado, numa área onde havia uma capela construída pelo Boticário Ferreira, onde hoje se encontra o convento dos capuchinhos. Antes, aquela região era coberta de vegetação, principalmente de cajueiros e alguns currais onde se prendiam o gado que era abatido ali. Até 1880 a área de entorno da igreja foi chamado de Praça da Boa Vista; a partir de 1881 passou a ser Praça Dr. José Júlio, homenagem ao Dr. José Júlio de Albuquerque Barros. A partir de 12 de dezembro de 1960 recebeu o nome de Praça do Coração de Jesus. Fica na Avenida Duque de Caxias entre as ruas Solon Pinheiro, Pedro I e Jaime Benévolo, Centro.


Igreja do Carmo/ Praça do Carmo


Antes de ser matriz, a futura Igreja de Nossa Senhora do Carmo era uma capela simples, construída em 1850 por uma irmandade existente naquela época na freguesia do Patrocínio. A capela foi batizada com o nome de Nossa Senhora do Livramento. O templo foi erguido em área distante do centro, cercada de árvores, com uma lagoa nas proximidades. Ainda na construção, a autoridade diocesana permitiu que fosse mudada a invocação para Nossa Senhora do Carmo. A nova igreja foi inaugurada em 25 de março de 1906, com muita solenidade, sendo o primeiro capelão monsenhor José Gurgel do Amaral.

O lugar hoje ocupado pela Praça do Carmo era um imenso areal, e existia uma lagoa no quarteirão em frente, onde hoje funcionam o Banco do Brasil e um estacionamento. A lagoa era alimentada por um córrego que vinha da Praça do Ferreira. A medida que a frequência da igreja aumentava, o areal foi sendo ocupado e a praça começou a tomar forma. Inicialmente foi chamada de Largo do Livramento. A Praça do Carmo está localizada na Avenida Duque de Caxias, entre as ruas Major Facundo, Clarindo de Queirós e Barão do Rio Branco, Centro. 

Igreja da Conceição da Prainha / Praça do Cristo Redentor



Em 26 de outubro de 1839, Antônio Joaquim Batista de Castro, morador no Outeiro da Prainha, requereu uma licença à Câmara Municipal, para que ele e outras pessoas pudessem construir uma capela de invocação a Nossa senhora da Conceição.  A licença foi concedida no dia 30 do mesmo mês. Os fiéis resolveram então, organizar uma irmandade e escolher o lugar onde seria edificado o templo. Concordaram que o local seria sobre a colina fronteira à praia, ficando a capela de frente para o oriente. A igreja foi inaugurada no dia 8 de dezembro de 1841.

Em frente a igreja havia um areal com sua face oeste ocupada por casebres e mocambos, que pouco a pouco foram sendo retirados a medida que o local foi sendo urbanizado. Até 1881 era chamado de Praça da Conceição. Depois foi chamada de Praça Senador Machado, e em 1890 voltou a ser Praça da Conceição. A partir de 1924 passou a ser denominada Praça do Cristo Redentor, em razão do monumento inaugurado em 1922, em homenagem ao centenário da Independência do Brasil. A Praça fica na Avenida Presidente Castelo Branco, entre a Avenida D. Manuel e as ruas Boris e Rufino de Alencar, Centro.


 

A Igreja do Rosário foi erguida por volta de 1730, num local considerado afastado da vila, a atual Praça General Tibúrcio. A igreja surgiu no meio do nada, visto que a cidade ainda não chegara naqueles arrabaldes. A  Igreja do Rosário permaneceu por muito tempo como única construção relevante da área. A praça foi projetada bem mais tarde, em 1847, não em função da igreja, mas devido a presença do Palácio do Governo, que passou a funcionar vizinho à igreja do Rosário, a partir de 1809.

Na metade do século XIX, grandes chuvas causaram escavações no Largo do Palácio e o Presidente Inácio Correa de Vasconcelos (1844-1847), mandou fazer uma enorme muralha para sustentar o aterro. Junto com a muralha foram levantados pilares, gradis de ferro e feitas escadarias para acesso à Rua de Baixo. Nascia assim a futura Praça General Tibúrcio, que foi Largo do Palácio, Pátio do Palácio, Praça do Palácio e hoje é mais conhecida da população como Praça dos Leões. Fica entre as ruas Visconde Saboia, General Bezerril e Conde D'Eu, Centro. 

Obras consultadas:
Descrição da Cidade de Fortaleza, de Antônio Bezerra de Menezes
Praças de Fortaleza, de Maria Noélia Rodrigues da Cunha 
fotos do IBGE e Arquivo Nirez


quarta-feira, 5 de março de 2014

Um jardim chamado Passeio Público


O areal baldio do antigo largo do Paiol transformou-se em logradouro seguidamente conhecido por denominações tais como largo da Fortaleza, praça do Hospital e praça da Misericórdia. Por fim, oficialmente denominou-se Praça dos Mártires em homenagem aos participantes da Revolução do Equador, executados no local, em 1825.

Situado na parte mais antiga da cidade, transformado em um dos seus principais equipamentos culturais, o Passeio Público se estendia pelas encostas da colina da misericórdia, ladeado pelo velho Quartel da Força de Linha e pela fortaleza consagrada a N. S. da Assunção. 
Ocupava primitivamente, uma área muito mais extensa desse elevado, hoje compreendida entre a Rua Dr. João Moreira e a Avenida Presidente Castelo Branco. 

Dispunha-se ao longo da descida da encosta, em três planos de alturas diferentes, intercomunicados por escadarias.  O primeiro plano – o único que restou do velho Passeio Público – assentado no cimo da colina, passou a ser chamado de Praça dos Mártires, por ali terem sido sentenciados os líderes da República do Equador, presidida no Ceará por Tristão Gonçalves, irmão do Senador Alencar. Nesse largo, então denominado Campo da Pólvora, Padre Mororó e Pessoa Anta foram os primeiros a serem fuzilados, em 1825.

 Avenida Caio Prado - 1908

Em 1888, nesse primeiro plano, construiu-se a bela Avenida Caio Prado, voltada para o mar.
Construído na metade da encosta, o segundo plano sustentava-se por uma muralha que lhe servia de arrimo. Entre pitombeiras e pitangueiras, uma escultura da deusa Diana no Banho, de Jean Goujon, um lago e repuxos em cascata artificial ambientavam este nível.  Por algum tempo, nele funcionou o Cassino Cearense, de Júlio Pinto – antes de sua instalação na Rua Major Facundo – com um bar famoso pelos refrescos de murici, tamarindo e outros frutos silvestres, com jogos de bilhar francês e outras diversões.

O terceiro plano, um sítio muito arborizado e com touceiras de bambus, estendia-se ao nível da Praia Formosa. Seu aprazível parque mantinha um pequeno zoológico de emas, cutias, veados, cisnes e patos, entre dois torreões encimados por domos de estilo indiano. 

 estátua de Netuno já no Parque da Liberdade

As águas do Pajeú formavam um lago, no meio do qual, sobre uma coluna de pedra, um grave Netuno de tridente em punho, olhava para o mar. Tempos depois, por volta de 1914, esse Netuno foi levado para o Parque da Liberdade, popularmente conhecido por Cidade da Criança, para ornamentar o lago que se originou da antiga Lagoa do Garrote. 

Na Praia Formosa localizava-se o Poço da Draga, um lagamar construído pelo represamento das águas do Pajeú em sua foz, formando o cais da Ceará Harbour. Servia às pequenas embarcações, às pescarias com landuá, linha e tarrafa e aos concorridos banhos de mar nas noites de lua cheia, quando o brilho do luar dispensava os combustores de iluminação da Ceará Gáz Company.  



Deveu-se  a Tito Antônio Rocha, comerciante português radicado em Fortaleza, o embelezamento do Passeio Público. Nos jardins arborizados ele instalou uma pista de patinação e um tanque circular com repuxos, adornado com jarrões de louça chinesa. Levantou uma caixa d’água de admirável arquitetura para a época, o coreto de música, com sua elegante cobertura em forma de pirâmide e o botequim no primeiro plano. Mais tarde instalou-se nesse local o café Caio Prado, de Júlio Pinto. 

Entre as réplicas de esculturas clássicas vindas da Europa, suas alamedas serviram ao footing dos fins de tarde, ao som das bandas do 15° Batalhão da 1ª Linha, do Batalhão de Segurança e da Escola de Aprendizes Marinheiros. 


Durou pouco tempo, esse espaço elegante e charmoso com suas divisões em planos. O desprezo e a descaracterização desmontaram aos poucos o conjunto paisagístico do Passeio Público, propiciando situações que redundaram na posterior cessão de partes do logradouro para usos diversos. As descaracterizações físicas, se não do 1º. Plano, mas das suas vizinhanças, já vinham de muito tempo. De fato, por volta de 1867, quando ainda não se definira a aparência do logradouro, perto do canto noroeste, do outro lado da rua Formosa, foi implantada a escura e volumosa estrutura metálica do gasômetro que garantia a iluminação da cidade.


Usina da Ceará Light e o Gasômetro, no desaparecido 3° plano do Passeio Público

A bem da verdade, deve-se pois dizer que as doações dos planos de nível inferior decorreram do próprio abandono a que desde longo tempo haviam sido relegados. No começo do século XX, o 3º. Plano do Passeio ficou completamente abandonado. Diante de tal situação, irreversível, o 3o. Plano e seu lago, desapareceram, sacrificados para construção de uma termoelétrica explorada por uma firma inglesa. Na ocasião, os fortalezenses já haviam esquecido o lago romântico, formado com as águas do Pajeú.

Avenida Carapinima, 3° Plano do Passeio Público - 1908

Desmontado o 3o. Plano, com seu lago, restou o patamar intermediário, o 2o. Plano, entretanto, já abandonado desde o início do século, como depunha Gustavo Barroso: No segundo [Plano] o mato invade tudo e o cassino cai aos pedaços. Demolido o Cassino, pouco tempo permaneceu o 2º Plano como espaço sem serventia explícita, pois logo, e por muitos anos, se transformou em palco de atividades atléticas, ou melhor, em campo de futebol de uso popular.

escadaria do 2° Plano

Em 1912, com a ocupação do 3º. Plano pela usina termoelétrica da Ceará Light, o 2º. plano perdeu sua função de acesso ao lago e à praia. Logo a área descampada ganhou novos usos, um dos quais ainda um tanto desconhecido, novidade assinalada pela imprensa: a preparação do terreno para construção do campo de futebol do Fortaleza Football Club. 

Em 1963, em dias mais próximos, o 2o. Plano foi cedido pela Prefeitura ao Exército, a fim de acolher obras militares de emergência, embora  atualmente esteja ocupado com edificações de porte, de propriedade do quartel da 10ª Região Militar. 

Atualmente, revitalizado e recuperado, o Passeio Público continua sendo palco de eventos e local de encontro dos fortalezenses e visitantes.
 

fontes:
Ideal Clube, História de uma Sociedade, de Vanius Meton Gadelha Vieira
fotos do Arquivo Nirez e do Álbum de Vistas do Ceará