sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Os Cabarés da Periferia

Os cabarés, pensões altas ou alegres – como eram chamados nos idos dos anos 1940 e 50 – eram locais de diversão garantida e bastante frequentados nas noites de Fortaleza. A maioria ficava no centro da cidade, nas ruas Major Facundo, Floriano Peixoto, Barão do Rio Branco e arredores, e funcionavam em antigos casarões, nos quais as pensões ocupavam o andar superior.  Esses antigos casarões eram sobrados em que durante o dia, funcionavam estabelecimentos comerciais no térreo, e à noite, o andar superior tornava-se ponto de encontro dos amantes da diversão, da boemia, da música e da companhia de belas mulheres.

Sobrado do Barão da Ibiapaba, na esquina das ruas Major Facundo e Senador Alencar, onde, nos altos, funcionou durante  muitos anos, a famosa Pensão Ubirajara 

Quando o General Cordeiro Neto foi eleito prefeito de Fortaleza (1959-1963), proibiu a venda de bebidas no centro depois da sete da noite, bem como as orquestras depois das dez. A rigorosa medida, foi respondida com o deslocamento dos cabarés para os bairros. Os que permaneceram no centro passaram a adotar a música eletrônica, as radiolas e as máquinas de ficha. 

 Prefeito Manuel Cordeiro Neto (1959-1963) 

Surgiram assim as boates da periferia. A mais importante delas foi a Margô, casa de diversão que se instalou primeiro na chamada “mata da Aldeota”, à altura da atual Avenida Desembargador Moreira. Depois no bairro Cachoeirinha, que corresponde hoje aos bairros São Gerardo e Parquelândia. Sua casa era frequentada pelo que havia de melhor da representação da boemia da cidade (juristas, deputados, comerciantes, radialistas, jornalistas). Era um lugar distinto, onde todos se sentiam seguros e respeitados. Não havia roubo, ou violência ou palavrões.

O Cabaré da Santa (Maria Santa Pereira) ficava no Benfica, na Rua Francisco Pinto, por trás do Dispensário dos Pobres. Suas “meninas” vinham de outros Estados e eram muito disputadas porque começaram a inovar as técnicas da prostituição de Fortaleza, com práticas sexuais antes nunca vistas por estas plagas. As novidades sexuais foram duramente condenadas. Como a cidade era pequena, a sociedade terminava tomando conhecimento dos que praticavam “estranhezas” nos cabarés.

 A famosa Casa do Português também acolheu um cabaré: a Boate Portuguesa 

A Casa de Natália estava localizada na Avenida João Pessoa e o seu público era, predominantemente, homens de meia-idade. A proprietária, conhecedora das fantasias e dos fetiches, recrutava mulheres novas e as vestia como estudantes, com fardas da Escola Normal e do Colégio da Imaculada Conceição. Ensaiava gestos e modo de falar, imitando a voz infantil e as meninas usavam tranças. 

Também na Avenida João Pessoa funcionou na conhecida casa do Português, a boate Portuguesa, de pouca duração. Era bem frequentada e fingia ser um ambiente familiar. Apesar de ter seu próprio elenco de mulheres, os clientes podiam chegar já acompanhados. As acompanhantes eram profissionais, as denominadas “garotas de programa”.

A Gaguinha também era famosa. A casa de Irinete Cabral ficava nas Damas ou Vila Damasco. Seu apelido vinha naturalmente da deficiência da fala. A gagueira, porém, nunca foi empecilho para o bom relacionamento com a clientela, do qual faziam parte pessoas influentes da sociedade. Era mulher de muitos amigos. Os fregueses tinham nela uma confidente, relatando seus problemas. Alguns vinham a tarde, para beber uísque e conversar.


Quando a Gaguinha começou a declinar, instalou-se a boate Oitenta. O nome se devia ao número da casa, Rua Governador Sampaio, 80. Era uma casa de certo nível, com luz negra, suítes e bom serviço de bar. As mulheres eram atraentes, bonitas e já não tinham restrições ou tabus.


Já nos finais dos anos 60 e por toda a década de 70 o melhor cabaré de Fortaleza era a Casa da Leila, na Maraponga. Suas mulheres eram altas, elegantes, louras naturais de olhos claros, provenientes do sul do país. Eram pessoas finas, educadas, algumas se diziam universitárias e comentavam sobre política, música popular e variedades culturais. Dentre elas havia uma mulata, belíssima, chamada Mércia, que mostrava uma carteira de estudante de Ciências Sociais da UFMG.

Até a década de 60, o lugar hoje denominado Maraponga era uma região com muitos sítios e pouca urbanização.  Da década de 70 até o fim dos anos 80, a Maraponga passou a ser local de casas de veraneio.


Leila fora a mulher de maior sucesso na Oitenta. Ali ganhara bons e generosos amigos, o que lhe permitira abrir sua própria casa. Casarão amplo, com alpendres, arcadas, grande salão com dois ambientes, confortáveis sofás, mulheres com roupas habillès, falando baixo, sorrindo. Educadíssimos também eram os garçons, todos de smoking, servindo as bebidas em bandejas de prata. Um primor. Leila, a madame, reproduziu a distinção de Margô, adaptando-se ao tempo, climatizando as suítes que contavam com banheiros de mármore e torneiras niqueladas, além das camas redondas, uma delas com o recurso da trepidação. O baronato de Fortaleza se orgulhava de contar com uma casa de tão alto nível e quando aqui aportavam cantores, jogadores famosos e artistas de TV, todos, invariavelmente, eram levados à Leila. 

Até o dia em que começou a entrar em decadência. Envelhecida, foi abandonada pelos amantes ricos e terminou por se apaixonar por um de seus garçons. O cabaré resvalou rapidamente para o fim.

Os últimos estertores dos velhos cabarés se deram nos anos 70, com o Senadorzão, Barba Azul e Motel 90. No centro instalou-se o Senadorzão, na Rua Senador Alencar. O proprietário era um sujeito simpático, mas cheio de autoridade, mantendo tudo sob controle.No centro, numa galeria que liga a Rua Senador Pompeu à Barão do Rio Branco, montaram uma boate da pesada, o Barba Azul. Lá dentro, luz negra, uísque falsificado e muitas brigas.

extraído do livro
Sábado, Estação de Viver - histórias da boemia cearense, 
de Juarez Leitão

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Major Facundo - O Assassinato na Rua da Palma

No dia 8 de dezembro de 1841, dia consagrado a Nossa Senhora da Conceição, a província do Ceará vivia momentos de festa e religiosidade, com grande aglomeração popular na igreja da Prainha, que fora inaugurada naquele dia com a celebração da primeira missa no local.

Depois de participar com a família das comemorações e visitar alguns amigos, o Major Facundo descansava na sua casa, a antiga Rua da Palma n° 72. Aproximadamente às 20 horas, dirige-se até a porta principal para atender um portador de Sobral, levantando a trava da janela.


Igreja de N.S. da Conceição da Prainha, inaugurada em 8 de dezembro de 1841
Antiga Rua da Palma, atual Rua Major Facundo, postal dos anos 20

De repente, três grandes estrondos ecoam na noite. De um casebre em frente, partem os tiros certeiros de bacamarte que estraçalham a cabeça do chefe político liberal. Alguns estilhaços ferem a mão de sua mulher e abrem buracos nas paredes da casa. Estabelecido o pânico nas redondezas, o pior finalmente tinha acontecido: major Facundo estava morto. As ameaças contra sua vida se concretizaram de forma trágica.

O crime abala toda a cidade, tendo repercussão no país através de discursos inflamados dos políticos da época. Considerado pelo historiador Barão de Studart como “a influência mais legitima e real que teve a província do Ceará”, major Facundo foi sepultado na capela do Rosário, então matriz e mais antiga de Fortaleza, onde ainda hoje se encontra.

Casa onde viveu e foi assassinado o Major Facundo. Depois foi ocupada pela Casa Villar

Barão de Studart relata as consequências dos dramáticos episódios ocorridos no dia do assassinato. “Por toda parte surgiam gritos de vingança, protestos de energia indescritível. A Polícia não permitia que se fizessem ajuntamentos de mais de três pessoas e trazia a vista os membros mais exaltados da família perseguida e seus mais dedicados amigos, e se em altas vozes os homens do governo prometiam prêmios a quem descobrisse os matadores, cerravam ouvidos aos nomes, que o clamor público apontava e mais tarde, protegiam abertamente os mandantes do atroz delito".

A mulher do então presidente da província, que participava do movimento de hostilidade a Facundo, foi denunciada como mandante do crime, mas nada sofreu. Antônio Manoel Abrahão e Pedro José das Chagas, os executores, foram condenados, alguns anos depois a galés perpétuas pelo júri de Fortaleza. Joaquim Ferreira de Sousa Jacarandá, intermediário que contratou os criminosos, foi julgado três vezes e absolvido nos três julgamentos.

  
 Igreja do Rosário onde o Major Facundo foi sepultado, de pé, voltado para o Palácio da Luz

Lápide do túmulo do major Facundo, localizado numa das paredes laterais do templo, com a seguinte inscrição: 
Aqui jazem os restos mortaes do major João Facundo de Castro Menezes vice presidente da Província. Assassinado a 8 de dezembro de 1841. Sendo presidente José Joaquim Coelho. Nasceo aos 12 de julho de 1787. Tributo d'amisade da sua infeliz esposa  D. Florência D'Andrade Bezerra e Castro. A 8 de dezembro de 1842.
A morte do major Facundo já era esperada pelas lideranças locais. A política tinha chegado a extremos de violência e ameaças. Facundo, um dos principais chefes do Partido Liberal (os chimangos), que era a união de antigos imperialistas e republicanos moderados, tinha por adversário o Partido Conservador, conhecido também por caranguejo. Enquanto as paixões políticas se acentuavam, ocorriam saques em propriedades e crimes no interior do Ceará.

O senador José Martiniano de Alencar era a figura política proeminente dos liberais. Nomeado presidente da província do Ceará em 1834, tinha o Major Facundo como primeiro vice, que o substituía em suas ausências. Em março de 1841, o senador Alencar é exonerado, tendo Facundo assumido novamente a presidência. O motivo foi a queda dos liberais no Rio de Janeiro, quando então subiu ao poder os conservadores. 

No dia 9 de maio foi nomeado o novo presidente do Ceará o brigadeiro José Joaquim Coelho, barão da Vitória, opositor ferrenho de Facundo. O fato de se ter um presidente ligado ao Partido Conservador com um vice Liberal, tornou a situação política do Estado bastante delicada e contribuiu para o tráfico fim do vice-governador.

João Facundo de Castro Menezes nasceu em Aracati, no dia 12 de junho de 1787, filho do capitão-mor José de Castro Silva e Joana Maria Bezerra. Em 1818 se transfere para Fortaleza. Defensor das ideias políticas de sua família, opõe-se à junta governativa liderada por Tristão Gonçalves, Pereira Filgueiras e Padre Mororó. Preso, deportado para o Rio de Janeiro, é solto por ordem do Imperador D. Pedro I. Em 1824, durante a Confederação do Equador, deixa novamente o Ceará por divergências com os revolucionários.

Presidente da Assembleia Provincial, depois da derrota da Confederação do Equador participa ativamente da movimentação política da província. Devido ao ato da maioridade, recebe interinamente o cargo de Presidente da Província. É considerado por este fato, o primeiro a governar o Ceará, depois de D. Pedro II assumir o trono do Brasil.

Major Facundo nunca levou a sério as ameaças que recebia quase que diariamente. E quando a família e os amigos o alertavam para que se cuidasse, respondia-lhes perfeitamente calmo que não tinha inimigos e sim adversários políticos, e estes não lhe votavam ódio a ponto de querer assassiná-lo. A morte do major Facundo foi apenas um dos atos praticados pela violência política, numa época em que o Brasil vivia tumultuada agitação interna.  

Extraído do livro
A História do Ceará passa por esta Rua, de Rogaciano Leite Filho.
fotos Arquivo Nirez e Fortaleza em fotos.

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Os Primeiros Teatros: Fortaleza entra em Cena

O primeiro prédio identificado com a atividade teatral em Fortaleza, aparece em 1830, em frente à Igreja do Rosário, atual Praça General Tibúrcio. Chamava-se popularmente Teatrinho da Concórdia, embora fosse também considerada Casa de Ópera, tendo sido obra de negociantes portugueses e empregados do comércio. Depois de 12 anos, mudou-se para a Rua Barão do Rio Branco com o nome de Teatro Taliense, funcionando ali até 1842. 

Praça General Tibúrcio por volta de 1900

Em 1876 aparece outro Teatro, o São José.  Instalou-se originalmente na Rua Senador Pompeu onde ficou até 1884. Seu palco era ocupado frequentemente pelas animadas comédias do grupo amador Recreio Familiar. Esse teatro foi destruído por um incêndio em 1898.

Na esquina das ruas Barão do Rio Branco com João Moreira, defronte ao Passeio Público, foi inaugurado em 1877, o Teatro de Variedades, espaço ao ar livre, em que a plateia providenciava as próprias cadeiras. Após três anos, de 1880 a 1896, no mesmo local, funcionou o mais importante de todos os teatros que antecederam o José de Alencar: o Teatro São Luís. Por ele passaram as companhias que excursionavam em direção ao Norte e faziam escala em Fortaleza, apresentando óperas, operetas, dramas e comédias. Além de espetáculos teatrais, o São Luís acolheu grandes acontecimentos, como a oratória inflamada de José do Patrocínio e a execução da ouverture de O Guarani, na presença do próprio Carlos Gomes. Fechou em 1896, devido as confusões que os alunos da escola Militar faziam a sua volta. 

Esquina das ruas Formosa (Barão do Rio Branco) com Travessa da Misericórdia (Dr. João Moreira - postal de 1905 

Por um ano, a cidade ficou sem espaço para espetáculos, mas em 1897, o Clube de Diversões Artísticas, dirigido por Papi Junior, levanta um pequeno teatro, o Iracema, na Rua Formosa (atual Barão do Rio Branco), num terreno pertencente ao Clube Iracema que funcionava no prédio do Reform Club. A experiência deu tão certo que, em 1898, foi criado o Grêmio Taliense de Amadores, do qual fizeram parte Ramos Cotoco e Carlos Câmara. O Taliense estabeleceu seu pequeno teatro na Rua Senador Pompeu, esquina com Liberato Barroso.

Na rua Major Facundo, fundou-se, em 8 de fevereiro de 1904, o Centro Artístico Cearense. Depois, em 28 de abril de 1912, o Centro mudaria definitivamente a sua sede para o endereço de esquina da rua Tristão Gonçalves com a Duque de Caxias, onde, em 1925, iniciaria as suas atividades com o cinema, e, em 16 de dezembro de 1931, inauguraria um palco para apresentações teatrais.

Entre 1904 e 1905 foi fundado o Clube Atlético, que era uma sociedade esportiva formada por jovens do comércio, onde além das práticas atléticas, também organizavam seus dramas e tragédias. Esse grupo criou o Teatro João Caetano, no mesmo local em que estivera o “Variedades”, do Grêmio Taliense, na rua Senador Pompeu com a Liberato Barroso. O pequeno Teatro João Caetano tinha capacidade para cerca de 400 cadeiras. Na sede, o palco se localizava em cima de um poço, por se acreditar que melhorava a acústica. O teatro, que ficava ao lado do Clube Atlético, foi destruído por um incêndio originado de um depósito de madeiras na rua Liberato Barroso, deixando a cidade sem um teatro popular, o que fez com que as companhias de teatro, quando aqui chegavam, se apresentassem no pequeno palco do cinema Rio Branco. 

Em 1910 surgiu o teatro oficial da cidade, O Theatro José de Alencar. Inaugurado oficialmente no dia 17 de junho de 1910, o José de Alencar comemorou seus 106 anos como a mais bela e a mais importante casa das Artes cênicas do Ceará, e a maior referência cultural do Estado.

O raro espécime de arquitetura eclética foi erguido entre dois outros edifícios, uma escola e um quartel de polícia. Além da sala de espetáculos, em ferro fundido e madeira importada da Europa, compunham o teatro um primeiro prédio que o guardava do contato da praça, e uma caixa de cena em tijolo e madeira, com inovações técnicas até então inusitadas para o teatro local. 

Para países não industrializados como o Brasil, assim como para as províncias como a do Ceará, onde tudo que se alcançara em matéria de progresso era o comércio exportador-importador com a Europa, ter um teatro de ferro dava a ilusão de haver entrado no pórtico da civilização. Vinha ele somar-se a uma série de outros edifícios e equipamentos urbanos que caracterizaram o período da belle époque no Ceará.

Um novo Teatro São José foi criado em 1914 como alternativa de lazer cultural para trabalhadores que não tinham acesso fácil ao luxuoso Teatro José de Alencar, inaugurado em 1910. Num terreno baldio ao lado da Igreja da Prainha, o padre alemão Guilherme Wassen, identificado com o movimento dos trabalhadores cristãos, deu início à obra com a ajuda voluntária de operários. Em um galpão com coberta de zinco eram apresentadas peças, sessões de cinema, dramas e jogos visando angariar verbas para a obra. 

 Em primeiro plano, a Igreja da Conceição da Prainha, e ao fundo, o Teatro São José

Em 1915 o Teatro São José passou a funcionar onde está hoje, na Praça Cristo Redentor, local onde se instalou também, a sede do Círculo Operário de Trabalhadores Cristãos de Fortaleza. O teatro operário conheceu muitas glórias. Peças do cearense Carlos Câmara foram quase todas encenadas lá. Companhias locais e de outros estados atraiam o público. O teatro serviu também para recepcionar visitantes ilustres como o ex-presidente Juscelino Kubitschek. 

Fortaleza ainda contou com outras salas de artes cênicas, as vezes improvisadas como teatro, a exemplo do Cinema Rio Branco, de Henrique Mesiano, e do Politeama, na Praça do Ferreira, de José Rola. 

O dia 14 de julho de 1917, marca a inauguração do Cine Teatro Majestic Palace, com a inauguração do palco e dia 20, inauguração do cinema. O Majestic foi instalado num imponente edifício de quatro andares, na Rua Major Facundo, na Praça do Ferreira. A sala de projeção que também era teatro, era toda em ferro como no Teatro José de Alencar. Tinha 650 cadeiras no térreo e nos dois andares onde ficavam os camarotes e a geral.


Entre 1919 e 1939 o autor Carlos Câmara arrastava multidões que lotavam o teatro improvisado do Grêmio Dramático Familiar, no calçamento da Messejana, atual Visconde do Rio Branco.  Na peça de estreia do autor, intitulada “A Bailarina”, há registros sobre a chegada da devastadora gripe espanhola, que veio para a cidade a bordo do vapor Ceará. Acometido da doença Carlos Câmara levou ao palco o que havia de moleque em torno da influenza. Como não acertava com o nome da doença, o populacho batizou a gripe de Bailarina.


fontes:
Geografia Estética de Fortaleza, de Raimundo Girão
Theatro José de Alencar: o teatro e a cidade, Terra da Luz Editorial
fotos do arquivo Nirez, e do livro Theatro José de Alencar: o teatro e a cidade 


quarta-feira, 10 de agosto de 2016

No escurinho do cinema (Memórias da Fortaleza dos anos 50)

O cine São Luiz completou 50 anos no dia 26 de março de 2008. Estava com 15 anos quando o São Luiz abriu suas portas. Grande expectativa. A construção durou 20 anos. Foi interrompida por causa da guerra. A obra foi retomada em 1952 e concluída em 1958.

O cinema, criado pelo arquiteto Humberto da Justa Menescal, surgiu no coração de Fortaleza todo em mármore e com lustres tchecos iluminando a sala de espera. A imensa sala de exibição, com mil e duzentas poltronas e uma decoração exuberante, ganhou logo um apelido do “Ceará moleque”: Bolo Confeitado.



Fortaleza, na época com 500 mil habitantes, parou. As pessoas saíram de casa, lotaram os ônibus, foram ver a festa de inauguração. O Pedão, no Abrigo Central, nunca vendeu tanto sanduíche de carne moída e coentro com abacatada. O Pega-Pinto do Mundico teve que colocar mais água no aluá para atender tanta gente. A Leão do Sul, do seu Dimas, pai do Pedro Jorge, não parou de vender caldo de cana com pastel à noite toda. Uma Banda de Música tocava em frente ao São Luiz. A rua, fechada para os automóveis, foi ocupada por uma multidão que queria ver a chegada dos mil e duzentos convidados. Era o sereno.


Na noite de gala foi exibido o filme "Anastácia, a Princesa Esquecida". Dirigido por Anatole Litvak, tinha como estrela a sueca Ingrid Bergman. O cinófilo Jose Augusto Lopes contou, em matéria no Diário do Nordeste, que o filme mostrava a história de uma sobrevivente do massacre de 1917 contra a família do Czar russo.

A praça do Ferreira, que já era famosa pelo seu ventinho que levantava a saia das meninas, ganhava nova atração graças a Luiz Severino Ribeiro. Este filho de Baturité era dono da maior rede de cinemas do país. Só no centro de Fortaleza ele tinha o Diogo, o Majestic, e o Moderno. Acho que o Rex, Nazaré e outros mais populares também pertenciam a ele.

O Majestic era imenso. Tinha o formato de um teatro, com vários andares e geral lá em cima. A entrada para a geral, que tinha o preço mais barato, era por uma porta independente. O pessoal era obrigado a deixar os tamancos na entrada para não fazer barulho no piso de madeira. Na volta, os mais sabidos trocavam seus tamancos velhos por pares mais novos. A grande confusão que se criava só parava com a chegada da polícia. O Moderno, tinha a tela virada para a entrada. O Diogo, na Barão do Rio Branco, até então era o melhor e passou a ser o segundo da cidade depois da abertura do São Luiz.


O jornalista Lustosa da Costa tinha por habito almoçar na Loja de Variedades, aquela que tinha entradas pelas ruas Major Facundo e Barão do Rio Branco. Era o primeiro “self-service” da cidade. Depois ia cochilar no cine Diogo, que tinha mil lugares. Muita gente passou a fazer a mesma coisa no São Luiz, que tinha um sistema de ar condicionado muito mais possante.

Geralmente, nos dias da semana, à tarde, os 1.200 lugares do cinema nunca estavam ocupados. Muitos jornalistas, que naquele tempo cobriam a Assembleia Legislativa, almoçavam no restaurante do Alfredo, que ficava entre a AL e a praça do Ferreira, e depois iam fazer a sesta no cinema. Alguns deputados também aderiam ao conforto das poltronas e roncavam, embalados pela música do filme que estivesse em cartaz. 


Com o paletó no braço, gravata no bolso, eu costumava pegar o Circular 24 ou 25 da empresa São Jorge. Naquele tempo, na minha rua, só o engenheiro José Lino da Silveira, o advogado Aldy Mentor e o médico Mário Mamede tinham automóveis. O ônibus passava em frente minha casa, na Avenida Padre Ibiapina e me deixava no Abrigo Central. Lá mesmo colocava a gravata, vestia o paletó e ia, animadamente, pegar a fila. Ninguém reclama da demora. Um dia, a namorada do Chico Moura, a Norma, desmaiou na fila.

Uma amiga ainda lembra a tensão que vivia nas filas do São Luiz. Era uma coisa tão marcante que chegou a ter pesadelos. Sonhava que estava na fila, sem calcinha maliciosa. Não era difícil se ouvir o grito de uma mulher reclamando de algum engraçadinho que se aproveitava da confusão da fila para tirar casquinha. Um dia prenderam um tarado que se exibia para uma freira que enfrentava a fila para assistir Marcelino, Pão e Vinho.

O Cine São Luiz tinha algo além do conforto. As superproduções como "Trapézio", "Nunca é Tarde para Esquecer", "Sansão e Dalila", eram exibidas em tela panorâmica. O som estereofônico eletrizava o ambiente, aproximando os casais de namorados e inspirando os gaiatos que faziam piadas em voz alta para alegria da galera. Faz lembrar a Rita Lee com a sua música “No escurinho do cinema....”

A exigência de paletó fez surgir um comércio de aluguel. Os caras guardavam o paletó no Café Cearazinho, na Guilherme Rocha. Reza a lenda da Praça do Ferreira que ganharam muita grana alugando paletó para quem decidia, de última hora, ir ao cinema.
Os lanterninhas do São Luiz estavam atentos para evitar excessos. Um dia, o jornalista Silvio Leite, assim que acabou o filme, resolveu tirar o paletó, os lanterninhas chegaram junto para obrigá-lo a vestir. Silvio, irreverente, perguntou o que eles fariam se ele não colocasse o paletó.
- Você será expulso do cinema - vociferaram.
- Então, me expulsem.

Ora, como todo mundo já estava de saída mesmo, teria sido apenas cômico se os lanternas não tivessem partido para obrigar o jornalista a vestir o paletó. E ele acabou saindo, sem vestir o paletó. Não esqueço a Polícia Estadual, na entrada do cinema, pedindo documento para descobrir falso estudante pagando meia ou menor de idade tentando ver filme impróprio. Sonhava em ser um deles para me exibir para as meninas.

O progresso sempre chega acabando com o tradicional. Descentralizou o comércio. Os bairros ganharam shoppings, os shoppings abriram praças de alimentação, salas de exibição. Ao mesmo tempo, a televisão foi conquistando cada vez mais espaço e tempo das pessoas, provocando uma mudança de habito que afetou a vida das cidades.


A sessão das 21h30, nas noites de domingo, verdadeiro desfile de moda parece coisa de ficção. Há cinquenta e oito anos, homens de terno, mulheres com os últimos lançamentos da moda, usavam a fila do São Luiz como passarela, O povão, em frente, elogiando, criticando, aplaudindo e vaiando. O São Luiz faz parte do patrimônio histórico do Ceará e suas histórias estão tombadas também, em nossa memória.


Memórias de autoria do jornalista Wilson Ibiapina
Disponível em http://www.casadoceara.org.br/index.php?arquivo=pages/blog/perfil_wilson/e0508.php
fotos do arquivo Nirez e do Anuário do Ceará


quinta-feira, 4 de agosto de 2016

A Imprensa Partidária

Na primeira metade do século XIX os engenhos movidos a tração animal para aproveitamento da cana, oficinas com teares ou para o preparo da carne eram as atividades manufatureiras que funcionavam no Ceará. A única atividade a empregar maquinário e desenvolver uma produção regular é a composição e impressão nas tipografias.

Somente com a intensificação das relações sociais, comerciais e culturais em Fortaleza na segunda metade do século, que os jornais vão ganhar vida mais longa. A Vila, já transformada em capital da província, experimenta uma infraestrutura mais moderna. Mantém contatos com os portos estrangeiros a partir da exportação de algodão. Fomenta a circulação de ideias e supera o relativo isolamento, repercutindo no crescimento da imprensa. Os jornais de facções partidárias começam a ser impressos, seguidos de outros periódicos, panfletos, revistas e folhas literárias de jovens intelectuais.

As gazetas e revistas cumpriram destacado papel na difusão das ideias nas últimas décadas do século XIX ampliaram o número de leitores, tornaram possível o acesso a lista e extratos de obras e a divulgação de livros editados no exterior. O período fica marcado pela efervescência jornalística. Um desses jornais foi o Jornal do Ceará.

Jornal do Ceará

O Jornal do Ceará era dirigido por Agapito Jorge dos Santos, onde o poeta Américo Facó escrevia uma seção diária com o título “Olho da rua”, que intrigava a toda gente. O jornal fazia oposição ao governo de Nogueira Accioly e publicava, de vez em quando, uma famosa poesia contra o velho Accioly, que terminava assim:

“hei de açoitar-te a cara branca
Como se açoita a anca
Dum mau cavalo, para pô-lo a trote”.

O resultado disso foi terrível: ao entardecer do dia 21 de dezembro de 1907, dois soldados de polícia à paisana, deram uma violenta surra no poeta, nas imediações da praça Marquês de Herval (atual José de Alencar). Salvou-lhe talvez a vida, a interferência do Capitão do Exército Castelo Branco, morador das proximidades, que foi atraído pelos gritos. 

Após deixar o hospital, Américo Facó retirou-se para o interior; reapareceu no carnaval de 1908, em Fortaleza nas batalhas de confetes da Praça do Ferreira, usando barbas. Os estudantes que haviam se indignado com a violência oficial, estavam certos que o agredido tomaria alguma atitude, mas tiveram uma grande decepção. Facó deixou a cidade e o emprego no Jornal do Ceará, sendo substituído por Gustavo Barroso.

Depois de deposto, Nogueira Accioly (de cartola) deixa Fortaleza em um bote que o levará ao navio rumo ao Rio de Janeiro 

No dia da posse de Accioly, reeleito Presidente do Ceará, a 12 de julho de 1908, a polícia agredira cruelmente, abandonando como morto no bairro do Outeiro (atual Aldeota), o gerente do jornal do Ceará, Antônio Clementino de Oliveira. Em 1912, quando o Presidente, deposto pelo povo de Fortaleza, rumava para o Rio de Janeiro com sua família, num paquete do Loyd, o gerente do jornal foi a bordo, no porto de Natal, tentar uma desforra. Morreu no confronto mais assassinou o filho de Accioly, Antônio Pinto Nogueira Accioly Filho. Ainda assim, Nogueira Accioly chega ao Rio, onde residiu até falecer em 14 de abril de 1921.  

fontes:
O Consulado da Chinade Gustavo Barroso
Revista Fortalezafascículo 11- jun/2006