terça-feira, 18 de janeiro de 2011

O Antigo Parque da Liberdade (Cidade da Criança)

O Parque da Liberdade, na antiga Lagoa do Garrote – que tinha esse nome porque era ponto de parada dos animais trazidos do interior – localizado ao norte do centro urbano de então, recebeu completa reforma em 1922. 
As melhorias foram realizadas pelo prefeito Ildefonso Albano (1921-1923), que no ano seguinte assumiria a presidência do Estado em substituição a Justiniano de Serpa, que falecera no cargo no ano de 1923. 
Parque da liberdade, atual Cidade da Criança depois da reforma
O parque rivalizava com o Passeio Público como opção de lazer; recebeu gradil de ferro, muretas de alvenaria em estilo colonial, grande portão de entrada com azulejos portugueses e demais ornamentos internos. 
Vista do parque da liberdade com a Lagoa do Garrote e a Ilha do Cupido. À direita o pavilhão da administração e ao fundo a Igreja do Coração de Jesus, à época também conhecida como a Igreja dos Albanos. 
  
No alto do portão da entrada principal, deveria ser implantada uma cópia em vulto pequeno da Estátua da Liberdade, que acabou sendo substituída por um índio que partia os grilhões da submissão colonial.
Em 1925, foi transferida para o parque a grande caixa d’água, toda de ferro, que existia na Praça do Ferreira.
 O antigo Parque da Liberdade ganhou ares de modernidade com sinuosas alamedas, belos jardins, estátuas, bancos e nova iluminação. A lagoa passou a ter atracadouro para pequenos barcos.
 Estátua de Netuno 
 Balaustradas, vasos colunas, plantas recortadas, cercas-vivas, a lagoa de águas límpidas ao centro. Era assim o Parque da Liberdade
 A balaustrada intercalada com vasos de mármore sobre colunas de alvenaria contorna a lagoa que reflete as construções e a Ilha do cupido com o Petit-Trianon.
o Cupido ficava confinado em sua ilha e o único acesso era através de pequenos botes. Os postes de iluminação eram de origem européia com globos de vidro leitoso.

fonte:
Fortaleza Antiga, de Marciano Lopes

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

As Antigas Farmácias

Em meados da década de 1940 a maioria das farmácias de Fortaleza ficava no centro, muitas no trecho da Praça do Ferreira. Por essa época, as boticas já não existiam, exceto a Pharmácia Galeno, sucessora da famosa Botica do Ferreira.



Os estabelecimentos farmacêuticos costumavam ostentar em suas fachadas, tabuletas com o aviso de que faziam manipulações, o que significava que ali se aviavam receitas de remédios produzidos de acordo com as especificações do médico e as necessidades de cada paciente. Eram comprimidos, xaropes, poções, pós, banhas e pomadas para os diversos males. 
Mais eficazes do que os medicamentos industrializados de hoje, que não raro, causam efeitos colaterais, os remédios manipulados, produzido especialmente para cada paciente, eram seguros e eficientes. 

Na década de 1940, Fortaleza teria pouco mais de vinte farmácias, quase todas na área central que, monopolizava a quase totalidade do comércio da cidade. 
As exceções eram a Farmácia Arthur de Carvalho, no Benfica; a Farmácia Carneiro no Joaquim Távora, próximo ao Colégio das Dorotéias, e a Farmácia São Sebastião, à margem da linha férrea, no Otávio Bonfim. 



Na Praça do Ferreira ficavam a Pharmácia Galeno, de Joaquim Studart da Fonseca,  no local onde funciona atualmente a Loja Riachuelo, entre a Pharmácia Oswaldo Cruz e a antiga Loja 4.400, hoje Edifício Lobrás; 

a Pharmácia e Drogaria Pasteur, fundada em 19 de setembro de 1894, na Rua Major Facundo, 16 (atual 538), pelo Dr. Leopoldo Domingues, que após 9 anos vendeu ao farmacêutico Francisco Linhares Filho, que por sua vez, em 1905, vendeu a Eduardo de Castro Bezerra. 



A Pasteur era a mais famosa, a mais acreditada e a maior em instalações dentre todos os estabelecimentos farmacêuticos do Ceará, tendo, inclusive, fundo correspondente com a Rua Barão do Rio Branco – não havia galeria de correspondência entre os dois imóveis, era como se fossem dois estabelecimentos. Só mais tarde, no final da década foi aberta a circulação ao público. 
 
Da mesma forma que a Pasteur, a Oswaldo Cruz, estabelecida na Rua Major Facundo, 576 também tinha fundos para a Rua Barão do Rio Branco. A Oswaldo Cruz funciona até hoje, no mesmo endereço.

interior da Farmácia Oswaldo Cruz em fotos de 1950 (Arquivo Nirez)

Ainda na Praça, tinha a Farmácia Francesa, na esquina do Excelsior Hotel, a Farmácia Belém, no extremo sul e as Farmácias Globo e Santo Antonio, na parte leste (Rua Floriano Peixoto).

Na Rua Guilherme Rocha, entre a loja Broadway e a Sapataria Granito estava a Farmácia Santa Helena; na esquina com a Barão do Rio Branco, ficava a Farmácia Conceição, num velho sobrado verde.

A Farmácia São José localizava-se nos baixos do edifício Vitória. A Farmácia São Francisco, ficava na esquina com a Avenida do Imperador, na Praça da Lagoinha.

A farmácia mais antiga da cidade, a Mamede, ficava na Rua Major Facundo, entre as Ruas Liberato Barroso e Pedro Pereira.

Prédio onde funcionou a Farmácia Theodorico, na Rua Major Facundo (arquivo Nirez)

A tradicional Farmácia Theodorico estava localizada também na Major Facundo, vizinho à Casa Villar, logo após a Rua São Paulo.

Na esquina da Floriano Peixoto e Castro e Silva tinha a Pharmácia Santa Maria, que vendia os “Productos Cathedral”. 



Na Rua Rua General Bezerril, ao lado do Palácio do Comércio situava-se a Farmácia Juliana e na mesma rua, já próximo à Praça dos Voluntários estava a Farmácia Motta. Na esquina das Ruas Major Facundo e Liberato Barroso estava a Farmácia Modelo e na mesma rua Liberato Barroso, tinha a Pharmácia Homeopática Frota. Havia também a Farmácia São João.



Sem muitas opções para divulgação de seus produtos, os laboratórios promoviam suas mercadorias, através de displays, que tinham que tinham formas atraentes, como os do Sal de fructa Eno, da Emulsão de Scott, do Sapalt, Produtos Ross, Instantina, Cibalena, Sal de frutas Piccot.  



Todas as farmácias possuíam uma sala de espera, com cadeiras, mesinhas com revistas e cinzeiros, onde as pessoas aguardavam que os remédios solicitados fossem aviados. 
E ali surgiam as amizades. 

Por conta dessa proximidade é que naqueles tempos, a exemplo das barbearias, as farmácias também eram espaços de socialização, onde se formavam rodas de conversas, que reuniam pessoas de todas as classes sociais.

Fonte:
anúncio de produtos farmacêuticos da década de 1940 
Disponivel em 
http://www.memoriaviva.com.br/ocruzeiro/propag.htm
Lopes, Marciano. Royal Briar: a Fortaleza dos anos 40. Fortaleza: ABC, Coleção Nostalgia, 1996.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

A População em Fotos


senhora da sociedade sobralense em fotos do final do século XIX.

Aconteceu em Fortaleza, como no resto do país no final do Século XIX – início do século XX, uma verdadeira febre por fotos. Sem contar com o deleite de acompanhar a novidade que a Europa exportara - o que já dava um ar de modernidade -  havia também o prazer em guardar suas próprias imagens para a posteridade. 

toda a imponência da moda por volta de 1880-89. Os complementos ( sombrinha, chapéu) eram indispensáveis.

Até então as pinturas de retratos ficavam restritas apenas aos mais abastados, já que ser retratado por um pintor, era caro e complicado.
As elites e classe média que podiam pagar pelas fotos, penduravam fotografias de entes queridos pelas paredes das casas, colecionavam fotos em caixas, montavam álbuns luxuosos, encomendavam fotografias e faziam dedicatórias no verso a conhecidos e parentes.
Em Fortaleza os pioneiros dos estúdios fotográficos surgiram a partir de 1872:
Lopes Brandão, instalado na Rua da Palma (atual Major Facundo); Reckely e Cia.,com estúdio na Rua do Cajueiro (atual Pedro Borges); o estúdio do dinamarquês Niels Olsen, partir de 1895 na Rua Formosa (atual Barão do Rio Branco),
e Moura Quinau a partir de 1899. 
Em todos eles era necessário agendar dia e hora.

mais uma fotografia de estúdio, e a riqueza dos detalhes que compõem o cenário
 
Frequentar esses estúdios era sinal de riqueza e prestigio social. As mulheres iam muito bem vestidas, com todo luxo e requinte que lhes permitia o figurino francês, então em voga na cidade. As famílias da elite compareciam aos estúdios fotográficos em peso, para eternizar a imagem do clã.
As fotografias da primeira metade do século XX destacam-se pela excelente qualidade
(Ah!Fortaleza)

Na primeira metade do Século XX, a fotografia continuou sendo um luxo para poucos. o desenvolvimento das técnicas de reprodução fotográfica possibilitou a multiplicação da imagem fotográfica em quantidades cada vez maiores.
Havia também grande procura por postais e fotos de monumentos importantes de Fortaleza, símbolos da “civilidade” que as elites tanto buscavam.

 cartão postal colorizado a mão do cruzamento das Ruas Guilherme Rocha com Floriano Peixoto na Praça do Ferreira. Anos 1920 (Ah! Fortaleza)
 Cartão postal colorizado a mão da Rua Formosa (atual Barão do Rio Branco), 1908
 (Ah! Fortaleza)
cartão postal colorizado a mão da Praça do Ferreira -1911 (Ah! Fortaleza)

As fotografias da cidade mostram as reformas urbanas da modernidade: a retificação das ruas, o saneamento, a iluminação pública e o aformoseamento, são enquadrados nos novos cenários urbanos. Somente após a segunda-guerra a fotografia tornou-se acessível a todas as classes sociais.   

fotos das senhoras: 
livro Capitulo da História da Fortaleza do Século XIX, de Eduardo Campos 
pesquisa: História do Ceará, de Airton de Farias 

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

A Iluminação a Gás

Desde os tempos mais remotos sempre foi preocupação do homem dotar  suas moradias de meios adequados para suprir a falta da luz natural. O primeiro recurso foi naturalmente, o fogo, que produz luz e calor. Depois vieram outros sistemas de iluminação, à medida que as sociedades progrediam.
Na antiga Fortaleza, as casas eram iluminadas por candeeiros, lamparinas e velas, enquanto que nas ruas, praças e demais espaços públicos reinava a completa escuridão.
 A idéia de se iluminar a cidade de Fortaleza data de 25 de janeiro de 1834. O Conselho da Província propôs  ao presidente Inácio Correa de Vasconcelos,  que repassou a demanda ao imperador. 
A lamparina ainda é utilizada em alguns recantos do Nordeste
imagem: http://memriairauubense.blogspot.com/
Somente 14 anos depois, no dia 1° de março de 1848, foi inaugurado o serviço de iluminação publica de Fortaleza a azeite de peixe, compondo-se de 44 lampiões de quatro faces, pendurados nas esquinas. O contratante era Vitoriano Augusto Borges e o presidente era Casimiro José de Morais Sarmento. 
A utilização do azeite de peixe na iluminação surgiu com o desenvolvimento da indústria da pesca da baleia – o óleo de baleia, aqui chamado de azeite de peixe – produzia uma luz estável e brilhante, embora produzisse muita fumaça.
Com o advento do petróleo o gás carbônico passou a ser utilizado na iluminação. 
No Brasil começou em 1851, quando Irineu Evangelista de Souza – o Barão de Mauá – iniciou a iluminação de ruas por meio do famoso lampião a gás. 
A iluminação com esse tipo de combustível tinha suas desvantagens: os lampiões eram difíceis de acender, precisavam de uma haste para ser alcançados; não podiam ficar próximos de nenhuma substância inflamável; precisavam de ventilação, mas não podiam ser submetidos a fortes correntes de ar; e produziam muita sujeira. 
  Gasômetro - aparelho utilizado para controlar a passagem do gás pela canalização subterrânea. Em Fortaleza o sistema de iluminação a gás foi implantado em 1867 pela Ceará Gás Company. (acervo: Museu do Ceará)   
Em 22 de agosto de 1859 o então presidente Dr. José Liberato Barroso assinou contrato para iluminação pública a gás, com a concessionária Joaquim Freire Cunha & Irmão, com base na lei 918, de 13.09.1859.
O material para instalação do gasômetro de Fortaleza chegou em 9 de outubro de 1866, quando os contratos já haviam sido transferidos para a Ceará Gás Company, com sede em Londres. Aqui a empresa se instalou no terreno vizinho à Santa Casa de Misericórdia, onde funcionavam o gasômetro e a administração. Depois tudo passou para o controle da The Ceará Tramway Light and Power Co. 
Fachada da Santa Casa da Misericórdia. Ao fundo, o desaparecido gasômetro, da Ceará Gás Company. 
(imagem retirada do livro Descrição da cidade de Fortaleza)  
No dia 13 de dezembro de 1867 a iluminação a gás foi parcialmente inaugurada em alguns logradouros.  
Naquela época o perímetro urbano ainda era bastante limitado: ao Norte os limites eram as Ruas da Praia e da Misericórdia; a Leste, a Rua de Baixo (Conde D’Eu); ao Sul, Ruas Dom Pedro e D’Amélia (Senador Pompeu). 
Fora dessa área, excetuando-se o Palácio do Bispo, o Colégio das Irmãs e o Seminário, tudo mais eram areias, casas de palha, uma  ou outra casa de tijolos. Assim, bem poucas casas e ruas tiveram o privilégio da iluminação a gás carbônico. 
Na antiga Praça da Sé, o belo monumento do imperador emerge dos canteiros da praça em meio aos lampiões de gás, de inspiração francesa. (Arquivo Marciano Lopes)
Mas a iluminação era excelente, considerada pelos cronistas como uma das melhores do País. Com o advento da 1ª. Guerra em 1914, o fornecimento de carvão de pedra tornou-se deficiente, e a concessionária apagou metade dos combustores da cidade. 
Apesar das dificuldades que enfrentou durante e no pós-guerra, a companhia de gás ainda forneceu o combustível até 25 de outubro de 1935, encerrando suas atividades. 
A era do gás carbônico em Fortaleza durou 68 anos, 1 mês e 8 dias.


Pesquisa:
Azevedo, Miguel Ângelo de (Nirez). Cronologia Ilustrada de Fortaleza. Fortaleza: BNB, 2001. Nogueira, João. Fortaleza Velha: crônicas. Fortaleza: edições UFC/PMF, 1980.
 Revista Lumière online. Disponível em   
    

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Uma Vila Sobre a Areia

Forte de São Sebastião (1612)

Era preciso fechar os olhos. Não só porque ao sol do meio dia a luz fosse incandescente, mas também as rajadas de areia, fina e branca ameaçavam a vista. 
Na Vila da Fortaleza de Nossa senhora da Assunção, acanhada capital da província do Siará Grande, a paisagem encontrada pelo visitante, na primeira metade do século XIX,  era bastante inóspita. 

A primeira coisa que se pode dizer do Ceará é que a cidade é inteiramente construída sobre a areia. Desde a praia até o bairro mais distante só se vê areia, escreveu Daniel Kidder, viajante norte-americano que desembarcou no porto da Prainha na década de 1830. 
Duas décadas antes o inglês Henry Koster teve impressão semelhante ao relatar que a Vila de Fortaleza era edificada sobre a areia. Vindo de Recife em 1810, o inglês ficou surpreso com a simplicidade da capital. A Vila tinha formato quadrangular, com quatro ruas partindo da praça, e mais outra, ao lado norte deste quadrado correndo paralelamente, mas sem conexão. 
As casas tinham apenas o pavimento térreo, as ruas não tinham calçamento. Havia três igrejas, o palácio do Governador, a Casa da Câmara e a prisão. Notou ainda que apenas o Palácio do Governador era assoalhado.  

Gravura de Joaquim José dos Reis Carvalho quando de sua vinda como componente da Comissão Científica de Exploração (Comissão das Borboletas) em 1859. 
Mostra Fortaleza vista do mar com o Forte em primeiro plano, as torres da Sé, coqueiros e um casario escasso. É a iconografia mais antiga da capital. A obra original encontra-se no Museu Histórico do Crato. 

Alçada à condição de capital da Capitania do Ceará em 1799, a Vila de Fortaleza não fazia jus ao título. Ficava a dever, em porte, a outros núcleos urbanos dentro da própria Capitania, como o Aracati. E muitas décadas ainda se passariam antes que os ares de cidade grande viessem remexer nesse areal. Fortaleza só veio adquirir alguma importância, poder político e econômico, como capital do estado, a partir da afirmação do porto da cidade como local de escoamento das exportações no porto da Prainha (hoje Praia de Iracema).
O algodão cearense ganhou o mercado internacional devido a Guerra de Secessão, nos Estados Unidos, que restringiu a produção do algodão americano. O boom nas exportações deu a Fortaleza um crescimento econômico rápido. O mesmo porto que levava o algodão, via chegar as novidades da Europa. A cidade foi se embelezando a medida que os outros núcleos do Estado foram minguando.

Cartão postal da Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção, inicio do Século XX

É desse período – final do Século XIX, início do Século XX – que vem as principais edificações consideradas hoje como patrimônio histórico da cidade. Até os primeiros anos de 1900, o perímetro urbano de Fortaleza era pouco mais do que o que é hoje conhecido como Centro Histórico, cujo limite era o Riacho Pajeú. Para além dali, a leste, apenas a trilha que levava ao Mucuripe e algumas poucas casas. 

Vila da Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção ou Porto do Siará, atribuído a Francisco Antonio Marques Giraldes - 1811

No mapa riscado pelo capitão Francisco Antonio Marques Giraldes – que tinha o intuito de registrar a geografia da enseada da vila – aparecem algumas edificações que podem ser localizadas: além do Forte e da Matriz, que tiveram novas edificações posteriores, a Igreja do Rosário, a mais antiga edificação da capital que permanece em pé até os dias atuais.

Fonte:

Revista Fortaleza – fascículo 10, de 11 de junho de 2006
Fotos:  Ah! Fortaleza