domingo, 11 de julho de 2010

Pelos Palcos da Cidade – O Teatro Taliense

inicio da rua Formosa em época não especificada.

Em 1842 foi inaugurado na Rua Formosa (atual Barão do Rio Branco) n° 72, no local que atualmente tem os números 1080 e 1084, o Teatro Taliense, sucessor do Teatro Concórdia, antes situado na esquina da Travessa Municipal (Rua Guilherme Rocha) com a Rua do Quartel (General Bezerril).

Animadíssimo palco de festas artísticas e cívicas, o Teatro Taliense e suas reuniões constituíam ponto de destaque para a vida da cidade. Pertenceu a uma associação de moços, composta de comerciantes lusos e empregados do comércio. Os próprios associados levavam ao palco as peças do repertório, geralmente dramalhões. A casa ficava cheia de senhoras da elite, com seus penteados rebuscados, arrematados por altos pentes de tartaruga, expressão de máxima elegância.

Em um dia de festa nacional, o teatro regurgitava de gente. Antes do inicio da peça, era do programa encenar um prólogo que rememorasse o fato que ia ser representado em seguida. Neste espetáculo em particular, de nome "O Gênio do Brasil”, o personagem principal, vestido de anjo, descia das alturas envolto em uma nuvem para deitar falação, ao respeitável público, em mensagem de felicitações. Coube ao português, alferes do Exército, conhecido por Alferes Castiga, Francisco Edwirgens de Sousa Mascarenhas, o papel de “Gênio do Brasil”, por ser esguio e leve.

Dado o sinal de inicio, o “Gênio do Brasil” desceu do teto, escarranchado na sua nuvem, e a meia altura, soltou o verbo, com todos os olhares voltados para o anjo nas alturas. O final, porém, deveria ser no palco e em pé.

Mas quando Castiga foi pular no palco, tentando um salto, não conseguiu desembaraçar-se da nuvem, ficando pendurado no cenário. Com o esforço que o artista fez para se soltar, o calção que era de meia, muito colado às pernas, partiu-se.

O apito troou para descer o pano de boca, mas a engenhoca emperrou também, deixando o alferes Castigas exposto ao maior ridículo, pendurado, seminu, com a roupa rasgada. As respeitáveis senhoras viraram a cara, mas da platéia, apupos, vaias e gargalhadas estridentes acolhiam o “Gênio do Brasil”, que só desceria por uma corda. Esta cena tornou célebre o artista que ficou conhecido como o “Anjo Penca” (torto).

Em maio de 1852 O Teatro Taliense acolheu o primeiro espetáculo com artistas internacionais, os famosos Uguccioni, pai e filho. Eram excelentes músicos que tiveram de permanecer no Ceará mais tempo que estava previsto, a pedido das famílias, a fim de ministrarem aulas de canto e música instrumental – piano, violão e rabeca.

No calor do estímulo deixado pelos Uguccioni, foi fundada em 1854, a primeira banda de música do Batalhão Policial. O Teatro Taliense resistiu até 1872. Um dos seus últimos programas deu-se em benefício da atriz Emília Augusta da Câmara com a execução de várias comédias, todas de um ato.

Com o desaparecimento desse teatro, cuidou a administração pública de edificar uma outra casa para esse fim, chegando a Assembléia Legislativa a votar a Lei 1509, de 21 de dezembro de 1872, com a qual autorizava o governo a utilizar uma verba de até cem contos de Réis numa obra dessa natureza.

Fonte:
GIRÃO, Raimundo. Geografia Estética de Fortaleza. Fortaleza: Imprensa Universitária do Ceará, 1959

sexta-feira, 9 de julho de 2010

A Passagem do Tempo na Vila de Fortaleza

A Coluna da Hora foi construída em 1933 pelo Prefeito Raimundo Girão
(Arquivo NIREZ)


Na Vila colonial, o tempo era contado pelos sinos. A cidade dormia cedo, ás 21 horas, avisada da hora de recolher pelas cornetas do quartel. Por volta de 1854, uma novidade na Matriz: o primeiro relógio público.

No final do Século XIX, é a Intendência Municipal que passar a ditar o ritmo das horas. E em 1933, surge a Coluna da Hora, no local de maior visibilidade da cidade: a Praça do Ferreira – que concentrava bondes, cinemas, lojas, cultura e política.

O relógio da Coluna da Hora passou a representar o controle do tempo na pequena urbe. Seus ponteiros decretavam a hora oficial, e por elas as fábricas, o comércio, e os habitantes controlavam seus horários.

Os relógios sempre foram essenciais para o homem urbano, servindo para a orientação e organização do cotidiano em decorrência da multiplicidade de compromissos a serem cumpridos no espaço de 24 horas. Todavia, só após término da Segunda Guerra Mundial o seu uso popularizou-se, antes os relógios de pulso eram usados apenas pela elite, simbolizando riqueza e poder. 

Aos desprovidos de fortunas restavam os relógios públicos, que ornamentavam as fachadas de prédios, as torres das igrejas e de outros espaços públicos, como as praças.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

As Alegres Pensões do Centro

Rua Conde D'Eu, década de 1940

Os cabarés, pensões altas ou alegres – como eram chamados nos idos dos anos 1940 e 50 – eram locais de diversão garantida e bastante frequentados nas noites de Fortaleza. A maioria ficava no centro da cidade, nas ruas Major Facundo, Floriano Peixoto, Barão do Rio Branco e arredores, e funcionavam em antigos casarões, nos quais as pensões ocupavam o andar superior.

Esses antigos casarões eram sobrados em que durante o dia, funcionavam estabelecimentos comerciais no térreo, e à noite, o andar superior tornava-se ponto de encontro dos amantes da diversão, da boemia, da música e da companhia de belas mulheres.
Os vizinhos reclamavam da intensa algazarra que provinha destes estabelecimentos, e não eram raros os episódios de conflitos, brigas e confusões que estes ambientes produziam. Tampouco eram raros os casos de agressão as donas das pensões, pois muitas vezes elas tentavam apaziguar os conflitos existentes entre os fregueses e as meretrizes ou entre os próprios frequentadores.

As proprietárias das pensões chamadas de “Madames” eram geralmente pessoas experientes que sabiam lidar com esses conflitos; eram responsáveis pela direção das casas de prostituição e agenciamento das “meninas”. A clientela era exclusivamente masculina e os cabarés acolhiam os todos os segmentos de classes sociais: autoridades, políticos, caixeiros, empregados do comércio, profissionais liberais, fazendeiros, militares, comerciantes, pedreiros, operários, etc.

Eram frequentes os casos de romance entre clientes e prostitutas, alguns terminaram em casamento. Alguns desses estabelecimentos fizeram história e marcaram sua passagem pelo centro. Dentre outros destacaram-se:

A Pensão Paraibana, na Rua Conde D’Eu esquina com a Travessa Crato. No inicio de 1950 o estabelecimento pegou fogo e nunca mais reabriu.
Do lado oposto, funcionava uma das mais célebres pensões da Rua Conde d’Eu: a Pensão da Graça, de propriedade de duas irmãs que pertenciam à alta sociedade paraense, chamadas Graça e Alcina.

Na Rua São Paulo havia uma pensão muito elegante, com mulheres vindas do sul do país. Lá um famoso radialista se enamorou da “madame” e chegaram a contrair núpcias.
Na Rua General Bezerril, esquina com a Travessa Crato, havia a Pensão do famoso Zé Tatá, onde as meninas passavam por um rigoroso processo de seleção.

No inicio da Floriano Peixoto, funcionava a Pensão Cristal, ambiente de respeito e discrição, supervisionada pela proprietária, Madame Cristalina.

No quarteirão da Praça do Ferreira existiu a Pensão Estrela, uma das mais famosas, de propriedade de Madame Generosa. Era a mais central das pensões, no coração da cidade.
Na Barão do Rio Branco, antes da Rua Senador Alencar existia a Pensão New York e a Pensão Império, num grande sobrado da Madame Edwirgens, num imóvel de propriedade da imobiliária Manuel Cavalcante. Ao lado, outra pensão, a de Madame Julinha.

O que havia de mais atraente na Rua Barão do Rio Branco era o famoso Bar da Alegria – pensão da espanhola Nena – gerenciada por Beatriz. Muito famosa por promover bailes de aniversário de cada meretriz, quando todas apareciam de vestidos longos, com tecidos e cores iguais às festas de adolescentes, ao som de autênticas orquestras.

Ainda na Rua Barão do Rio Branco, a Pensão Ubirajara, de propriedade de Madame Dondon, que promovia festas todas as noites.
Algumas dessas pensões sobreviveram até fins da década de 60, inicio de 70, mas por essa época já estavam em franca decadência. Em 1971, veio a pá de cal: por pressão dos hotéis, foram fechadas pela Polícia.


Fontes:
ALMADA, Zenilo. O Bonde e outras Recordações. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2005.
VERLAINE, Paulo. Sexo e Diversão. Revista Fortaleza, Fascículo 9 p. 13. Fortaleza: O Povo, 2006.


segunda-feira, 5 de julho de 2010

Os cadetes da escola Militar

Dia da deposição do Governador Clarindo de Queiroz pelos cadetes da Escola Militar do Ceará
(foto Arquivo Nirez)

A chegada da Escola Militar trouxe a Fortaleza uma das épocas mais agitadas da cidade. O Estabelecimento foi classificado pelo jornalista João Brígido como uma instituição nociva à paz pública, a qual desapareceu em meio a maldições. A sua primeira instalação – enquanto o prédio da Avenida Santos Dumont passava por reformas – foi nos fundos do quartel do 11° Batalhão de Infantaria, hoje 23° BC.
Foram matriculados 700 alunos, entre efetivos e adidos. Como a escola não oferecia internato, os alunos formaram “repúblicas” pela cidade. À noite, depois das 21 horas, os cadetes tomavam conta da pacata cidade e praticavam todo tipo de desordens.
Andavam aos bandos, roubavam galinhas, patos e perus dos quintais das residências, e obrigavam as patrulhas policiais a pegar jumentos nos cercados para realizar suas farras noturnas.
Em fevereiro de 1892, usando canhões e metralhadoras, os cadetes cercaram o palácio do governo e exigiram a renúncia do governador Clarindo de Queiroz. Disposto a resistir o governador respondeu ao ataque durante toda noite o que resultou em 13 mortos e inúmeros feridos. Na manhã de 17 de fevereiro, com o palácio crivado de balas, Clarindo de Queiroz, sem munição, rendeu- se e entregou o cargo ao Coronel Bezerril, então comandante da Escola Militar
Em 1897 os cadetes organizaram para o carnaval um bloco chamado Clube dos Gaiolas.
O clube composto somente por alunos da escola Militar tinha sua sede na Rua Senador Pompeu, num imóvel invadido pelos alunos.
Para equipar o clube para o carnaval, roubaram tudo: carroças, sinos (do Passeio Público e da Igreja São Luis), cadeiras, caixões para armações de palanques. Os Gaiolas iam sair à rua no domingo de carnaval. Na véspera começaram a captura de jumentos que seriam utilizados no desfile.
A polícia sabedora de que os cadetes iriam trazer carros de crítica às autoridades, exigiu que os veículos fossem previamente submetidos a sua apreciação. Os cadetes, porém, não tomaram conhecimento da exigência e saíram no dia e hora anunciados.
Os carros de críticas apareceram, com um mascarado à frente, representando o governador do estado, a bancar roleta no palácio; atrás o chefe de policia dormia em uma espreguiçadeira, enquanto as ordenanças jogavam baralho.
Os cadetes não temiam nada, nem a própria policia e faziam o que bem entendiam.
A escola era comandada pelo Cel. Siqueira de Menezes, militar austero e disciplinador, que não era bem aceito pelos alunos. Certa noite realizava-se um baile em casa de um oficial da guarnição, na Rua Major Facundo, ao qual compareceu o Cel. Siqueira. Do "sereno" da festa, os cadetes perceberam que o comandante tentava conquistar determinada dama. Confabularam e resolveram dar uma surra no coronel.
Reuniram-se no Passeio Público e armados de toalhas molhadas esperaram sua saída. Graças, porém a interferência do Major José Faustino, que tinha prestigio junto aos alunos, a agressão não se consumou. No dia seguinte a cidade amanheceu com letreiros escritos a piche “Abaixo o Nazareno”, numa referência a aparência do Coronel.
A partir desse dia os alunos não aceitaram mais subordinar-se ao seu comando e aclamaram, em seu lugar no comando da Escola, o Major Faustino. Telegrafaram em seguida ao presidente da república, que concordou com a substituição, dando ordem a Siqueira de Menezes para embarcar de volta para a capital do País.
Os abusos cometidos pelos alunos da escola militar continuaram com maior intensidade e, durante muito tempo, os moradores acordavam sobressaltados à espera de mais alguma ação dos desordeiros cadetes que ficaram famosos por conta dos atos de vandalismo cometidos em Fortaleza.

Fonte:
MENEZES, Raimundo de. Coisas que o Tempo Levou: crônicas históricas da Fortaleza antiga. Fortaleza: Edições Demócrito Rocha, 2000.
 

quinta-feira, 1 de julho de 2010

De Asilo de Mendicidade a Escola Militar

Aspecto primitivo da fachado do Colégio Militar (foto reprodução)


E no inicio dos anos 60
foto: http://www.qw.com.br/cmf6369/fotos.htm

Em 22 de setembro de 1877, no Palácio do Governo e na presença do Presidente da Província Caetano Estelita Cavalcante Pessoa (janeiro a novembro de 1877), compareceu o Barão de Ibiapaba, para expressar sua preocupação com as condições precárias em que se achava nesta capital, a classe desfavorecida da fortuna por causa da seca.

Acrescentou que desejava melhorar a situação desses desabrigados, proporcionando-lhes um abrigo gratuito. Para tanto, fazia um donativo à província da quantia de 10 mil Réis e mais um terreno de três quarteirões com frentes para as ruas do Colégio das Órfãs (atual Colégio da Imaculada Conceição na Avenida Santos Dumont), Leopoldina, Solidade (atual Rua J. da Penha), e Aurora (atual Costa Barros), para edificação de um Asilo de Mendicidade.

Nessa ocasião ficou acertado que, enquanto a edificação não estivesse totalmente concluída, seria da competência exclusiva do doador ou dos seus sucessores; tão logo estivesse concluído, a responsabilidade pelo edifício passaria a Presidência da Província, tendo então sido lavrado um termo assinado tanto pelo Presidente quanto pelo doador.

O Presidente Estelita mandou dar inicio as obras e no ano seguinte, 1878, o Presidente José Júlio de Albuquerque Barros (março de 1878- julho de 1880), ordenou a continuação das obras e aumentou o valor dos donativos em 15 mil Réis.
Nesse ano e no de 1879 foi empregado na construção, grande número de indigentes e de materiais fabricado por eles.

Depois de concluído, em 1889, quando deveria ser entregue ao bispo para os fins a que estava destinado, um decreto de 1890 anulou o termo de doação do prédio, porque este tinha sido construído em parte com o dinheiro público. Com a revogação da lei, foi determinado que o referido prédio ficasse a cargo do Tesouro do Estado para posterior deliberação, e o patrimônio instituído para o asilo, fosse recolhido aos cofres para posterior aplicação.

Em 1892 o Governador Benjamim Barroso (fevereiro a julho de 1892), colocou o prédio a disposição do Presidente da República, Marechal Floriano Peixoto (1891-1894), com as informações de que:  

poderia servir para instalação da Escola Militar, com algumas adaptações; 
que o edifício havia sido construído pela verba “socorros públicos” em 1878;
que os donativos feitos pela instituição para construção do asilo de mendicidade, estavam depositados no Tesouro do Estado, e não sendo suficientes para mantê-lo, o edifício estava abandonado;
que o terreno doado dava direito ao doador apenas o de indicar quem devia ser asilado, e como era de pouco valor o Governo poderia indenizá-lo, se ele fizesses questão;
que o oferecimento só teria efeito enquanto no edificio funcionasse a Escola Militar.

O Governo Federal aprovou a negociação, e o edifício que deveria abrigar retirantes da seca, passou a ser ocupado pela Escola Militar, mais tarde denominado Colégio Militar de Fortaleza.

Fonte:
BEZERRA DE MENEZES, Antonio. Descrição da Cidade de Fortaleza. Introdução e notas de Raimundo Girão. Fortaleza: Edições UFC/Prefeitura Municipal de Fortaleza, 1992.