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quarta-feira, 7 de junho de 2017

Ceará, Molecagens e Tipos Populares

Rua Major Facundo - trecho Praça do Ferreira - início do século XX

Nas primeiras décadas deste século, Fortaleza conheceu e vivenciou muitos tipos populares, figuras curiosas que desfilaram pelas páginas de cronistas da época e que fizeram parte da história jocosa do Ceará. 

A notoriedade dessas figuras singulares advinha de várias razões: uns se destacavam pelos adereços e indumentárias, outros pelas atitudes estranhas e anomalias de comportamento. Eram sempre pessoas sui generis que despertavam a atenção por suas excentricidades. Sua presença em público, era de imediato, motivo para aglomeração ou cortejos, que não raro, terminavam em aplausos ou vaias. Pessoas de destaque e molecada misturavam-se geralmente em torno desses personagens, que saíam pelas ruas e praças, passeando sua descontração, sua esquisitice. Alguns reagiam enraivecidos, coléricos, apopléticos; outros passavam sobranceiros, garbosos, indiferentes.

Orgulha-se o Ceará de três coisas que Deus lhe deu: a inteligência, o sol e a molecagem. Essa última dádiva é como que a sua filosofia de vida ”de tanto não ter pena de si mesmo em face da sina ou da sorte o homem (cearense) acaba por não ter comiseração para com o seu semelhante. De tanto testemunhar a própria dor, o homem passa a observar a dor alheia e descobrir facetas cômicas” – diz Abelardo F. Montenegro.

O Cruzeiro da Sé era o palco de um desses tipos estranhos, o  Tertuliano. O homem usando vestes talares, escalava o cruzeiro da catedral, onde se amarrava de braços estendidos, a fingir o Cristo no Calvário. Não havia jeito de tirá-lo de lá, onde permanecia horas a fio.

Foi essa concepção filosófica que popularizou vasto elenco desses vultos de rua: Chagas dos Carneiros, chapelão de palha, monarquista ferrenho, sempre acompanhado de três carneiros pintados de anilina; José de Sales, excêntrico, de jaquetão avermelhado, empunhando seu bandolim; Bem-Bem, com a garapeira, de cujo teto pendiam grotescas esculturas feitas por ele mesmo,  de quengas de coco; o negro Mestre Arcanjo, velho sapateiro, extraordinariamente trapalhão; o hilariante Chico Coruja que todo dia tinha uma anedota nova para contar; o Casaca de Urubu, gritando palavrões e se esmurrando; o De Rancho, que portava uma carabina enferrujada e se achava constantemente em pé de guerra; Capitão Pirarucu, brandindo a bengala, empregando a rima que todos já esperavam; Tertuliano, metido em indumentária de profeta, considerando-se um enviado de Deus; Fabrício, o calendário o ambulante; o mendigo Tostão; o Jararaca, o Pilombeta; o Zé Levi... 

O Zé Levi ocupava o coreto da Praça do Ferreira, onde pronunciava inflamados discursos, com palavras desconexas, que faziam a festa dos desocupados que paravam para ouvi-lo.

As mulheres também compareciam na lista das excêntricas criaturas que faziam a alegria e a festa do Ceará Moleque: Mimosa, Noiva do Tempo, Teodora, Chica Pinote, Iaiá-tem-ovos, Mucurana, Ferrugem...

Até animal, nesta terra descontraída e galhofeira, ganhou foros de popularidade: o bode Ioyô. Era uma espécie de mascote da capital, uma figura obrigatória na pacatez da cidade provinciana. Todos o estimavam. Inclusive os fiscais da prefeitura tinham recomendação para não o importunar. Perambulou imune e admirado, de 1915 a 1931. Ao morrer, teve seu necrológio estampado em jornais e seu corpo embalsamado. A cidade era pródiga em tipos populares: tinha para todos os gostos, para os da intelectualidade e os do canelau.

Manoel Cavalcante Rocha, jocosamente conhecido pela alcunha de Manezinho do Bispo, pernambucano, nascido em 12 de maio de 1856, porteiro por muitos anos do Palácio Episcopal, foi uma das figuras mais curiosas e populares da Fortaleza antiga.

Nesse cenário de irreverência e galhofa, o personagem talvez mais relevante, que desfrutou de larga popularidade por mais de 30 anos, notadamente no meio cultural, foi o Manezinho do Bispo. Vestia-se com um paletó preto-cinza de alpaca que lhe alcançava os joelhos e que deixava aparecer os longos punhos da camisa outrora branca. Nos bolsos do jaquetão, verdadeiros alforjes, folhetos e jornais. Tinha seus escritos publicados na seção Ineditoriaes, do Jornal Correio do Ceará. Quando M.C. Rocha não escreve – diziam – o jornal não vale um vintém.

A filosofia da gozação é que empurrou, com a barriga do sadismo, o Porteiro do Palácio Episcopal para a linha de frente do folhetinismo, das colunas dos jornais e dos auditórios transformando-o em figura notória.

Hoje, mudaram-se os parâmetros de julgamento em que se apoiam as pessoas para aferir popularidade. Fortaleza cresceu, e na obesidade populacional de mais de 2,5 milhões de habitantes, não há mais lugar para esse tipo de humor.


Extraído do livro
O Porteiro do Palácio (ou as estripulias literárias do Manezinho do Bispo), de Waldy Sombra


sábado, 7 de dezembro de 2013

O Ceará Moleque e as Normas de Boa Conduta




 
 Rua Formosa (atual Barão do Rio Branco) em 1910. Havia grande preocupação com a higienização da cidade e a (falta de) educação da população mais pobre. 
  
O fato de se afirmar que havia normas de conduta e disciplinamento em uma sociedade não significa dizer que existia obediência das mesmas pelas pessoas – ao contrário, no caso de Fortaleza, a massa reagia a essas normatizações, por vezes, abertamente, outras vezes usando táticas para burlar ou desprezar  ao que autoritariamente era imposto “de cima para baixo”, e limitava seu modo de ser.

Assim, era grande a reincidência e a consequente detenção por vadiagem, de pessoas  que haviam assinado o chamado Termo de Bem Viver (documento assinado em juízo pelo qual o acusado reconhecia sua má conduta e comprometia-se a não mais praticá-la, sob pena de ser preso em caso de repetição).

Outra forma de resistência pode ser identificada pela compulsão dos populares ao deboche, ironia e sátira. No final do século XIX e primeiras décadas do século XX ficaram famosos em Fortaleza os tipos populares, que riam e faziam rir de qualquer coisa jocosa que acontecesse nas ruas – daí tal comportamento, profundamente censurado pelas elites e classes médias, ter ganhado a alcunha de “Ceará Moleque”, expressão inclusive já existente à época.


 A Praça do Ferreira sempre foi o local preferido para as manifestações de desagrado da população. (foto do livro A Tela Prateada) 

O local preferido para as manifestações e “excentricidade” do povo era a Praça do Ferreira, por onde passavam bondes, gente com as últimas novidades, os sisudos senhores proprietários e onde se encontravam as lojas mais elegantes e os principais cafés. Qualquer pessoa ou episódio que quebrasse a rotina eram pretexto para a divertida molecada soltar vaias, gracejos, palavras ou bolar os apelidos e escárnios, os mais engraçados. 
 
Pode-se entender a irreverência popular – num momento de disciplina e higienização da cidade, como uma forma de alivio ante a pressão social representada pelas más condições de vida e trabalho daquela massa de pobres, bem como uma expressão de descontentamento perante a normatização urbana que as elites tentavam impor. 

Rua Major Facundo, início do século XX (foto do arquivo Nirez)

Por serem feios, sujos, anti-higiênicos, estranhos, exóticos ou diferentes,  os tipos populares e o comportamento jocoso do povo chocavam-se frontalmente e ofendiam os padrões civilizatórios que os grupos médios e dominantes se esforçavam em estabelecer para acompanhar os valores modernos da Belle Epoque. No fundo era uma tática de resistência popular.

  

  Passeio Público - Avenida Caio Prado -  Neste espaço privilegiado, foram introduzidas práticas sociais de educação e postura, normas de comportamento que eram antagônicas a balbúrdia e a irreverência típica das praças e seus frequentadores. Assim, apesar de público em seu momento de instauração, esse logradouro  representou um espaço segregado na cidade, construído por e para uma elite econômica e social, que estabeleceram  elegantes e comportados padrões para um grupo social diferenciado.

O humor também foi usado como forma de causar constrangimento, reprimir e censurar, forçando as pessoas a se adequarem à disciplina civilizatória desejada pelos setores dominantes da sociedade. Os pasquins de Fortaleza da virada do século, faziam uma verdadeira cruzada em defesa dos bons modos, tendo como arma a exposição e o vexame público. Para eles, era necessário combater a ignorância, a vulgaridade e a sem-vergonhice do povo. Dessa maneira, usando um humor ácido, ridicularizava-se a tudo que era considerado como grosseiro para as elites. Não por acaso, o alvo das pilhérias eram os escravos e pobres livres, pardos e negros. Estes tinham hábitos condenáveis: falavam alto, praticavam jogos de azar, bebiam cachaça, etc.

Os pasquins voltavam-se, sobretudo, para fofocar sobre a vida alheia e destinavam-se particularmente ao público feminino. A linguagem era direta, acessível a todos, ao contrário do estilo rebuscado dos jornais da época, havia uma ansiedade dos leitores: a curiosidade em saber de quem os jornalzinhos estavam falando e o cuidado de não cometer “as gafes” ali citadas e virar alvo de chacotas. A ridicularização dos comportamentos grosseiros gerava embaraços e vergonha, estimulando a adesão à conduta civilizada desejada pela classe dominante. 

extraído do livro 
História do Ceará, de Airton de Farias    
 

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Ceará Moleque: apelidos e vaias como forma de protesto

 Praça do Ferreira em 1930  - ainda podiam ser vistos o coreto (demolido em 1932) o prédio da Intendência (demolido no início da década de 1940),  o Sobrado do Pastor e o Palacete Ceará que ainda resistem. (Arquivo Nirez)

Um povo sofrido como o cearense haveria de encontrar uma maneira de se vingar dos seus detratores. E uma das maneiras encontradas foi através dos apelidos, usados como uma maneira de expor o apelidado ao ridículo. A outra seria através das vaias. 
De uma forma ou de outra, o fato é que nenhuma autoridade detestada pelo povo escapou de um apelido. Nem mesmo os representantes do alto clero, a exemplo dos arcebispos Dom Manuel da Silva Gomes, apelidado de bolo confeitado e Dom Antônio de Almeida Lustosa, de envelope aéreo.

O Comendador Nogueira Accioly, costumava se referir ao povo como a arraia miúda, em troca era chamado pelo mesmo povo de babaquara, pelo fato de Accioly, diziam, viver se babando. 
Outro governante o Presidente João Tomé de Sabóia e Silva (1916-1920), que era engenheiro e inventor de uma máquina de fazer chover, ganharia o apelido de manda-chuva. 

Pé-de-valsa e as maravilhas era o apelido do Presidente Matos Peixoto (1928-1930) e seus assessores.
Faustino de Albuquerque (1947-1951), foi mais um governador a ganhar apelido: Chiquita Bacana. Ficavam a salvo dos apelidos, os governantes benquistos, porque os apelidos constituíam-se uma vingança do povo contra os que os ofendiam. 



  
A Praça do Ferreira é desde sempre o quartel-general do ceará moleque. As fotos mostram o cruzamento das Ruas Major Facundo com a Guilherme Rocha em datas distintas. Em comum, o prédio do Excelsior Hotel. (Arquivo Nirez)

As vaias surgiam sempre que o povão entrava em discordância contra fatos muitas vezes banais, mas que eram considerados chocantes. Contra as extravagâncias no modo de vestir ou se portar em público. Contra afirmações, ditos ou juízos que iam de encontro ao senso comum. Contra, principalmente, as presenças indesejadas.
A balbúrdia – gritos, assovios, apupos, risadas – surgia inesperadamente, de todos os lados, despertando a atenção da polícia, que procurava a todo custo, conter os manifestantes. Sempre que isso acontecia, a própria policia também era vaiada. 
As manifestações do Ceará-moleque não livravam ninguém nem faziam concessões.  

Uma das vítimas da irreverência popular foi o Barão de Studart, que ao atravessar a Praça do Ferreira, trajando fraque, cartola e com um guarda-chuva a tiracolo, foi recebido aos gritos de Cobrão!  Jararaca! E sob estrondosa vaia.
A polícia entrou em ação distribuindo bordoadas, realizando prisões, salvando o barão da massa ignara, que parecia desconhecer o representante máximo da historiografia cearense. 

No entanto, a maior de todas as manifestações de desagrado estaria reservada a Manoel Sátiro, um político do tempo do império, por ocasião da campanha eleitoral de 1937. Partidário ardoroso da candidatura Armando Salles de Oliveira, o político compareceu à recepção prestada no aeroporto ao candidato dos banqueiros paulistas à presidência da república. 
Em frente ao Excelsior Hotel, onde ficaria hospedado o político bandeirante, juntara-se uma multidão que se estendia até a Rua Barão do Rio Branco, composta em sua maioria de curiosos, já que a preferência do eleitorado cearense recaía sobre o Ministro José Américo de Almeida.


Questão de identidade, de afinidade, de relacionamento, de regionalismo. Armando, além de sulista era representante dos banqueiros de São Paulo, enquanto José Américo era nordestino, com serviços relevantes prestados na assistência aos flagelados da seca de 1932. 
Daí a preferência pelo Ministro de Viação e Obras Públicas.

Em frente ao hotel iam descendo dos automóveis um a um os convidados para a recepção. 
A multidão chiava baixinho, manifestando dessa forma sua desaprovação. Então Manoel Sátiro desce de um dos veículos, apoiado em uma bengala. Olha com desprezo para a aglomeração e acenando a cartola no ar, exclama a plenos pulmões:

- Viva o Brasil, canalhas!
O povão que até então protestava baixinho, explodiu aos gritos e assovios na maior vaia já presenciada nas redondezas. 
O candidato Armando Sales e sua comitiva, curiosos sobre o que estaria acontecendo na rua, assomaram às janelas do Excelsior, sendo vaiados também. 


Praça do Ferreira foto de dezembro de 2010

Pois nem o sol, apelidado de astro-rei pela nobreza literária do Café Art-Nouveau, escapou de ser vaiado pelo povaréu da Praça do Ferreira, quando surgiu sobre a Coluna da Hora, depois de uma semana sem aparecer.

extraído do livro
A Praça e o Povo (homens e acontecimentos que fizeram história na Praça do Ferreira), de Alberto S. Galeno.    

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Fortaleza Antiga: A Academia Polimática

Academia Polimática numa procissão cívica em homenagem ao presidente Justiniano de Serpa
(foto de E. César)

Numa manhã de domingo do mês de Março de 1922, na Rua Barão do Rio Branco n° 794, foi fundada nesta capital por um punhado de intelectuais frequentadores da Praça do Ferreira, tendo a frente Euclides César, seu idealizador, a então popularíssima Academia Polimática, organização literária cujo lema era amai-vos e educai-nos uns aos outros.

Desde logo a inusitada agremiação ganhou fama popular e mais de mil sócios foram inscritos. Tornou-se um cenário democrático, espécie de sociedade do ano 2000, sem estatutos, sem regras e sem preconceitos.

Qualquer que fosse o tema, seria digno de discussão, não permitidos, entretanto, os apartes.
Que aguardasse o aparteante para falar depois, livre, sem interrupções. Irreverente, a Polimática criou uma data consagrada ao culto à mulher e cogitou de substituir o dia da árvore pelo dia do jumento.

Não importava qual fosse o motivo a Polimática lançava um protesto, bastava vislumbrar algum atentado aos princípios da Justiça e da Fraternidade universais, dentro e fora das fronteiras nacionais.

Os sócios tratavam-se entre si por espirituais confrades e o presidente recebia o pomposo título de espiritualíssimo confrade As reuniões concorridíssimas eram realizadas aos domingos e feriados nacionais já na nova sede na mesma Rua Barão do Rio Branco. Ali foram recepcionados, entre outros, o jurisconsulto Tomás Pompeu, o escritor Papi Junior e Miguel Lobo. Realizou várias passeatas cívicas sob o calor ruidoso do Ceará-Moleque.

Foi uma solenidade sem igual, um sucesso admirável a procissão em homenagem póstuma a Rui Barbosa. Nessa ocasião, um exaltado grupo de polimáticos invadiu o prédio da Rotisserie e fez silenciar uma orquestra que tocava no local.

Os membros da confraria cultivavam à sua maneira, a mítica das nossas tradições patrióticas e literárias, daí aqueles protestos ardorosos em consequência de um inofensivo cartaz afixado na esquina na Maison Art-Nouveau, com os seguintes termos: “Última hora! Rui Barbosa acaba de ressuscitar, fumando um cigarro Acácia.”

Em represália a Polimática promoveu um comício gigantesco de protesto contra a carestia de vida. A repercussão foi tamanha que logo depois apareceram a venda os Cigarros Polimáticos

embalagem dos cigarros Polimáticos, homenagem a Academia Polimática (Arquivo NIREZ)

Eduardo Mota apelidado na Polimática de 420 da oratória, terminava seus discursos com uma frase que ficou célebre: A Academia Polimática é um fato! E ai de quem duvidar!.

Fato notável foi a sessão comemorativa da fraternidade universal, levada a efeito em 1° de janeiro de 1923, no Clube dos Diários, dirigida por Justiniano de Serpa, então presidente do Estado. Houve cinco oradores. Um falou sobre a data sob a ótica do Catolicismo. Outro, diante do Espiritismo; o terceiro, à luz do Protestantismo, o quarto, da Teosofia e o último, pela ótica do Positivismo. A Academia teve sua fase áurea em Fortaleza e depois passou. Mas sua atuação singular ficou na lembrança da cidade durante muitos anos.


Fonte:
MENEZES, Raimundo. Coisas que o Tempo Levou: crônicas históricas da Fortaleza antiga. Introdução, Sebastião Rogério Ponte. Fortaleza: Edições Demócrito Rocha, 2000.