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sexta-feira, 7 de novembro de 2025

Colégios Religiosos Católicos


Os colégios religiosos em atividade têm pontos em comum que se destacam: a antiguidade -- alguns são centenários; apenas um deles  tem menos de 50 anos de funcionamento -- e a estabilidade: funcionam em prédios próprios e no mesmo endereço. Um deles, o Imaculada Conceição é a segunda escola secundária mais antiga de Fortaleza, antes dela, só o Liceu do Ceará, fundado em 1845. Todos recebem alunos do Infantil ao Ensino Médio. Alguns deles funcionam em mais de uma unidade. 

Colégio Santa Isabel

Capela do Colégio Santa Isabel

Fundado em 1937, pela irmã Isabel Daniel, numa pequena sede na Praça São Sebastião. No ano seguinte mudou-se para sua sede atual, na Avenida Bezerra de Menezes. Vinculado à Congregação das Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição da Mãe de Deus. Fica na Avenida Bezerra de Menezes, 2840, São Gerardo

Colégio Santo Tomás de Aquino

O Colégio Santo Tomás de Aquino foi fundado no dia 07 de março de 1963, por iniciativa do pároco do Santuário de Fátima, Monsenhor Gerardo de Andrade Ponte, sob a denominação de Externato Santo Tomás de Aquino, contando, com apenas 52 alunos. O Colégio pertence à Paróquia de Fátima e é subordinado ao Conselho Paroquial Nossa Senhora de Fátima, sua entidade mantenedora. Localizado na Rua Mario Mamede, 750, Fátima. 

Colégio Santo Inácio

Colégio Santo Inácio fachada interna

Pertencente à Rede Jesuíta de Educação, o Colégio Santo Inácio Iniciou suas atividades educativas nos anos de 1955 e 1956 recebendo seus alunos em regime de semi-internato. No dia 1º de março de 1960, inaugurou a sua nova sede, localizada na Avenida Desembargador Moreira, 2355 – Dionísio Torres, onde permanece até os dias atuais. 

Colégio Imaculada Conceição

Colégio da Imaculada Conceição/Igreja do Pequeno Grande 

O Colégio da Imaculada Conceição funcionou a partir de 1867, num prédio construído para abrigar um hospital. Ao longo do tempo, o Colégio conquistou posição de destaque na educação das moças pertencentes a elite da cidade. Foi dirigido inicialmente por 19 irmãs de caridade, todas francesas. Entidade ligada à Ordem das Filhas de Caridade de São Vicente de Paula. Fica na Avenida Santos Dumont, n° 55, Centro.

Colégio Santa Cecilia

Sede antiga no Benfica do Colégio Santa Cecília

O Colégio Santa Cecília faz parte do Instituto das Religiosas da Instrução Cristã, congregação belga fundada em 1823 por Madre Agathe Verhelle. As religiosas Damas chegaram ao Brasil em 1896, estabelecendo-se em Olinda (PE), de onde se transferiram para Recife. Em Fortaleza, as Irmãs chegaram no início de 1952, onde vieram para continuar o trabalho de educação da juventude cearense, iniciado em 1911 por Dona Almerinda Albuquerque. Até 1959, o Colégio Santa Cecília funcionou no Benfica, e em  1960, instalou-se na Aldeota, na Avenida Senador Virgílio Távora, 2000.

Colégio Piamarta

A escola teve início no dia 25 de setembro de 1960 quando as aulas começaram com uma turma de vinte crianças, na sacristia da paróquia de Nossa Senhora de Nazaré. No ano seguinte foi iniciada a construção do prédio da escola, onde se encontra até os dias atuais, na Rua Padre João Piamarta, 161, Parreão. Estabelecimento dirigido pela Congregação Sagrada Família de Nazaré, fundada por São João Batista Piamarta.

Colégio Medalha Milagrosa

A escola surgiu em 1947, num antigo estábulo, que mais tarde foi transformado em sala de aula. Depois passou a atender crianças carentes do bairro Montese e adjacências, tendo a Sra. Adelaide Salvador como primeira professora. A Escola passa a funcionar regularmente em 1953. Entidade integrante da Rede de Educação Vicentina. Fica na Rua Padre João Piamarta, 415, Parreão.

Colégio Nossa Senhora das Graças

Sede no Benfica do Ginásio Americano 

O Colégio Nossa Senhora das Graças teve a sua origem no Benfica, com a denominação de Ginásio Americano. Em 1950, as Religiosas da Congregação das Filhas do Coração Imaculado de Maria – as Cordimarianas assumiram a direção do Colégio. Em 11 de fevereiro de 1958, transferiram-se para o bairro de Fátima, numa nova sede, a fim de atender as necessidades de novos alunos, de um bairro que nascia sob as bênçãos da Virgem de Fátima. Fica na Rua Monsenhor Otávio de Castro, 535, bairro de Fátima.

Colégio Shalon

Fundado em 13 de fevereiro de 1987, visando a educação infantil. Ao longo dos anos passou por diversas sedes e expandiu-se para os ensinos fundamental e médio. Fica na rua Oswaldo Cruz, 3401. Colégio vinculado à Comunidade Católica Shalon

Colégio Juvenal de Carvalho

Capela do Colégio Juvenal de Carvalho - 1931

O Colégio Juvenal de Carvalho, foi fundado em 26 de abril de 1933; está  completando em 2025, 92 anos de serviços prestados à sociedade cearense. O Juvenal de Carvalho é uma Unidade Educacional da Inspetoria Maria Auxiliadora e integra a maior rede católica de educação das Américas, a Rede Salesiana Brasil de Escolas. Fica na Avenida João Pessoa, 4279, Damas. 

Colégio Nossa Senhora Auxiliadora

Localizado na Avenida Imperador, 1490, Centro. Entidade da Rede de Educação Vicentina.

Colégio Salesiano Dom Bosco

 Fica na Avenida Antônio Sales, 116, bairro Joaquim Távora. Escola vinculada à Rede Salesiana Brasil de Escolas. 


pesquisa nos sites das escolas. fotos do Arquivo Nirez e da Internet

por Fátima Garcia 



  

quarta-feira, 6 de agosto de 2025

Padre Quinderé

Padre Quinderé 
 (imagem do blog As Trilhas da Vida)

Padre Quinderé é uma figura lendária. Falecido em 1960, ainda vive nas memórias da cidade, graças à maneira cativante de externar-se, de comunicar-se com todo mundo, seus gracejos oportunos e o seu invencível repentismo. Estava sempre bem-humorado e marcou época nas funções que ocupou, seja como religioso, jornalista e professor.

Como professor do Liceu do Ceará, fazia o gênero linha dura, ameaçando céus e terras para o aluno que não aprendesse os rudimentos da língua latina. O colégio realizava quatro provas escritas de avaliação por ano, e antes de cada uma, semblante fechado, o mestre anunciava: “é agora cambada, que chegou a hora da onça beber água. Quem prestou atenção, quem estudou, quem vai se dar bem, quem malandrou, entra no zero, zerorum...e aquele que eu apanhar pescando, boto pra fora no mesmo instante”


Prédio onde funcionava o Liceu do Ceará, na Praça dos Voluntários
(imagem Arquivo Nirez) 

Sentado na cadeira de professor, vez por outra levantava-se, dava uma volta na sala de aula, esmiuçava cada um dos alunos em busca de pesca. De repente, faltando uns 10 a 15 minutos para terminar o horário da prova, ele avisava: “olhem, vou até a cantina tomar um chá. Quero comportamento exemplar, se eu souber que alguém pescou já sabem, o zero vai cair sem piedade, em cima de vocês”

E se retirava estrategicamente, convencido de que era inútil seu esforço de conscientizar aquelas crianças da importância do ensino do Latim, para uma melhor compreensão do Português, do Francês, do Espanhol, enfim, de todas as línguas modernas que direta ou indiretamente, nasceram do idioma espalhado no mundo antigo pelo Império Romano.

Com esse sistema, nunca reprovou ninguém, em compensação, o estudo do Latim ficou para depois... ou para nunca. Monsenhor Quinderé patrimônio moral e cultural do Ceará, escritor e jornalista, ganhou fama também por sua espirituosidade. Gostava de contar anedotas, fazia rir sem ser ofensivo.

E deixou em seus alunos a lembrança do professor devotado e severo, ao mesmo tempo generoso, porque cedo entendeu que o estudo do latim positivamente era uma carga pesada demais que o currículo impunha aos alunos secundaristas.

Contam que certa vez o padre recebeu um grupo de alunos e alunas do Liceu que o convidaram a um piquenique comemorativo do término do curso. Argumentaram que a presença dele daria mais destaque ao evento. Padre Quinderé agradeceu, mas respondeu “não posso ir, mas peço-lhes, porém, uma coisa: me tragam depois os meninos nascidos desse piquenique para eu  batizá-los.” 

Amigo da família do Comendador Nogueira Acióli, Presidente do Estado durante muitos anos, Monsenhor Quinderé recebeu de "presente" uma cadeira de deputado Estadual. Eleito, cumpriu dois mandatos, onde ele próprio afirmava: "Fui deputado, sem conhecer um eleitor, e jamais qualquer deles me procurou para tratar de interesses pessoais. Os chefes é que defendiam junto ao governo as pretensões dos seus correligionários''.

Simpático e acessível, frequentava as residências ricas ou pobres, como pessoa de casa, e jamais alguém duvidou da lisura dos seus procedimentos morais e das suas virtudes de clérigo. Certa vez, para fazer gracejo, perguntaram-lhe se ele era um sacerdote sério, e a resposta foi: "sério eu sou, não sou é sisudo".

Quando faleceu, no dia 26 de agosto de 1960, Monsenhor Quinderé já estava privado da visão há alguns anos e o seu passamento resultou de um insidioso câncer. Foram suas últimas palavras: "A batalha está terminada. Encontrei o caminho do céu". Morreu aos 78 anos, como sempre viveu: em paz com sua consciência. Está sepultado na cripta da Catedral Metropolitana de Fortaleza.

Capela do Cristo Ressuscitado na Cripta da Catedral
(imagem Fortaleza em Fotos 2012) 

José Alves Quinderé nasceu em Maranguape, filho de João Gualberto Quinderé e Josefina Pinheiro Muniz, no primeiro dia do ano de 1882. Ingressou no Seminário de Fortaleza em 1904, com estudos custeados pela irmã Gagnet, madre superiora do Colégio da Imaculada Conceição, que admirava a sua inteligência e as suas virtudes. Depois da ordenação passou a trabalhar no Palácio Episcopal, até que em 1910 foi nomeado professor de latim do Liceu do Ceará. Três anos depois, fundou o Colégio Cearense, que em 1916 passou a ser dirigido pelos irmãos Maristas. Na hierarquia da igreja atuou como Secretário-Geral do bispo Dom Joaquim José Vieira. Em 1920, foi distinguido com o título de Cônego, tornando-se Monsenhor em 1929. Exerceu o mandato de deputado estadual em duas legislaturas e foi Vice-Presidente da Assembleia. Suas atividades literárias começaram em 1939, quando escreveu um trabalho intitulado "Subsídio para a História Eclesiástica do Ceará", inserido numa edição de "O Ceará".

Monsenhor José Quinderé publicou, além de "Subsídio Para a História Eclesiástica do Ceará", o "Ano Litúrgico", "Sinal Sensível", (Editora Agir-Rio), "Palavra de Vida Eterna"(Editora Vozes, de Petrópolis), "A Mais Antiga Constituição" (Editora Beneditina, Salvador), "A Vida de D. Joaquim José Vieira- 29 Bispo do Ceará" (Editora Instituto do Ceará), "Vida de Santa Filomena" (Editora A. Batista Fontenele) e, finalmente, "Reminiscências".

 

Fontes: O Liceu e o Bonde/Blanchard Girão/Editora ABC/Fortaleza, 1997

Padre Quinderé, por Raimundo Girão. Disponível em https://academiacearensedeletras.org.br/revista/revistas/1982/ACL_1982_22_O_Padre_Quindere_Raimundo_Girao.pdf 



domingo, 18 de outubro de 2015

A Praça Figueira de Melo e o Conjunto Arquitetônico Tombado

O Conselho de Preservação do Patrimônio Histórico e Cultural de Fortaleza aprovou, por unanimidade, o tombamento do conjunto arquitetônico que integra o Colégio da Imaculada Conceição, a Igreja do Pequeno Grande, a Escola Jesus Maria  José e o Colégio Estadual Justiniano de Serpa, localizados no entorno da Praça Figueira de Melo, no centro da cidade. Esse foi o primeiro tombamento do tipo em Fortaleza. De acordo com a instrução de tombamento, o entorno do conjunto conserva inúmeros imóveis do fim do século XIX e início do século XX que mantêm muitas características originais. Além disso, possui elevado interesse histórico e valor arquitetônico.


A própria Praça Figueira de Melo é tão antiga quanto os imóveis tombados. Sua construção data de meados do século XIX. Inicialmente recebeu o nome de Praça dos Educandos, em razão da existência de um colégio com essa denominação, dirigido pelo padre Antônio Nogueira Braveza. Mais tarde passa ser chamada de Praça do Colégio, quando em 1867 foi fundado o Colégio da Imaculada Conceição, que ocupou o mesmo imóvel da antiga Casa dos Educandos.  Depois, em 1879, por proposta do vereador João Moreira, recebeu o nome de Senador  Figueira de Melo, depois simplificado para Praça Figueira de Melo, em 1932. 

A Praça Figueira de Melo está localizada entre a Avenida Santos Dumont, e as ruas Coronel Ferraz, Franklin Távora e 25 de Março. No centro encontra-se o busto em bronze do ex-presidente do Ceará (1920-1923), e patrono da antiga Escola Normal, Justiniano de Serpa.

O homenageado Jerônimo Martiniano Figueira de Melo nasceu em Sobral em 1809. Formado em Direito em 1832, ocupou os seguintes cargos: Juiz de Direito, Secretário do Governo de Pernambuco, Presidente do Maranhão, Juiz dos Feitos da Fazenda, Chefe de Polícia de Pernambuco, Chefe de Polícia do Rio de Janeiro, Desembargador do Tribunal do Rio de Janeiro, Presidente do Rio Grande do Sul e Ministro do Supremo Tribunal. Foi Deputado Provincial de Pernambuco, Deputado Geral por Pernambuco e pelo Ceará e Senador do Império pelo Ceará. Faleceu no Rio de Janeiro, no dia 20 de agosto de 1878.

O Conjunto Arquitetônico

Colégio da Imaculada Conceição




O Colégio da Imaculada Conceição instalou-se em 1867 no prédio onde atualmente se encontra – a antiga Casa dos Educandos – que havia sido construída para servir de asilo a meninos pobres, mas que fora fechada por falta de recursos para sua manutenção. Uma ajuda financeira oferecida pelo então Presidente da Província, possibilitou que as irmãs adquirissem o prédio.  Ocupa toda a quadra situada entre as ruas Coronel Ferraz, Costa Barros, 25 de março, e a Avenida Santos Dumont,  integrando na confluência das Avenida Santos Dumont, com a rua Coronel Ferraz, a Igreja do Pequeno Grande.


A pedra fundamental foi lançada em 1896, pelo Padre Chevalier, como capelão do Colégio. As obras sofreram paralisação um ano depois, sendo reiniciadas em 1898, até sua conclusão em 1903. Com doações das próprias irmãs e de diversas instituições foram obtidos os recursos para as obras. A estrutura metálica foi trazida da Bélgica, e a montagem esteve a cargo do mestre de obras Deodato Leite da Silva. A planta da igreja consta de nave única, com pórticos de perfiles metálicos em forma de H que formam sua estrutura de coberta; o telhado com inclinação acentuada, forma um ângulo bastante fechado dando um teto pontiagudo, pouco comum em nossa arquitetura.


Em estilo neogótico, a Igreja do Pequeno Grande foi construída para  substituir a pequena e antiga capela do Colégio da Imaculada, ainda hoje de pé.Tanto o Colégio da Imaculada Conceição quanto a igreja do Pequeno Grande têm as fachadas principais voltadas para a Praça Figueira de Melo, e sua arborização, com muros e gradis criam pequenos espaços privados de recuo em relação à calçada para permitir um acesso mais resguardado aos edifícios.

Escola Jesus Maria José

A construção do prédio foi iniciada em 14 de setembro de 1902, sendo inaugurado em 22 de janeiro de 1905, numa iniciativa do bispo de Fortaleza Dom Joaquim José Vieira, para abrigar a Escola Jesus Maria José, para meninos pobres.  A administração ficou a cargo das irmãs Vicentinas do Colégio da imaculada Conceição, auxiliadas por órfãs. Tinha capacidade para 350 alunos, e inicialmente foram matriculados entre 250 e 300 alunos, em 1906. A  construção foi administrada pelo Monsenhor Vicente Pinto Teixeira. O prédio da antiga Escola,  exemplo da arquitetura eclética tão em voga em fins do século XIX e início do século XX, encontra-se em péssimo estado de conservação.


O imóvel de propriedade da Arquidiocese de Fortaleza, está localizado entre as ruas Coronel Ferraz e Visconde de Saboia e o início da Avenida Santos Dumont. Voltada para a lateral da Igreja do Pequeno Grande, o destaque das alas laterais do edifício, permitem à fachada principal um recuo em relação à calçada. Atualmente, o edifício está devoluto e a área de recuo é ocupada como estacionamento, no entanto este espaço foi, no passado, murado, permitindo um acesso resguardado à semelhança do que acontece com o Colégio da Imaculada Conceição.

Colégio Estadual Justiniano de Serpa, antiga Escola Normal Pedro II


Começou a ser erguido em 11 de agosto de 1922, projeto do Engenheiro  José Gonçalves da Justa, na gestão do Presidente Justiniano de Serpa, mas inaugurada em parte, pelo seu sucessor  (faleceu o Dr. Serpa em 1 de agosto de 1923),  Ildefonso Albano. A conclusão do edifício verificou-se no governo do interventor Roberto Carneiro de Mendonça (1931-1934). Mais tarde, teve o nome de Instituto de Educação Justiniano de Serpa.

O imóvel possui localização privilegiada, no centro da Praça Figueira de Melo, entre a Avenida Santos Dumont, e as ruas 25 de Março, e Coronel Ferraz. Envolvida por arborização, a escola desfruta de um ambiente tranquilo, que ameniza os ruídos e outros inconvenientes da inserção urbana.


fontes:
ofipro
prefeitura de fortaleza
Praças de Fortaleza, de Maria Noélia Rodrigues da Cunha
Descrição da Cidade de Fortaleza, de Antônio Bezerra de Menezes
fotos antigas do arquivo Nirez
fotos novas de Rodrigo Paiva - out/2015

quinta-feira, 30 de julho de 2015

A Fortaleza do tempo da "A Normalista" 1/2

No romance publicado em 1893, a normalista Maria do Carmo é o pretexto para Adolfo Caminha apresentar aos leitores sua visão de Fortaleza de fins do século XIX. De um lado, o povinho miúdo: o pequeno funcionário público, a mulher que vendia rendas, o barbeiro, o guarda-livros, etc. de outro lado, o governador da província, o coronel Sousa Nunes, seu filho Zuza – estudante de direito – o jornalista José Pereira, o diretor e os professores da escola Normal. É a propósito da vida da normalista que o autor vai delineando quadros da vida da capital: uma aula na Escola Normal, o footing no Passeio Público, uma festa de casamento, um enterro, etc.

a então Praça Marquês de Herval (atual José de Alencar) com o prédio da Escola Normal

Neste painel de costumes o autor quer mostrar toda a mesquinha sordidez da vida social na Fortaleza do seu tempo. O mau humor para com a cidade é evidente e costuma ser apontado pelos críticos de Adolfo Caminha como uma espécie de vingança: o autor jamais teria perdoado seus conterrâneos pelas críticas aos seus amores adúlteros com a mulher de um colega. 

Os Lugares da Normalista 

“João Maciel da Mata Gadelha, conhecido em Fortaleza por João da Mata, habitava, há anos, no Trilho, uma casinhola de porta e janela, cor de açafrão, com a frente encardida pela fuligem das locomotivas que diariamente cruzavam defronte, e donde se avistava a Estação da linha férrea de Baturité”. p.11

João Maciel morava com sua companheira D. Teresinha e sua afilhada Maria do Carmo, aluna da Escola Normal. O Trilho, forma abreviada de Rua do Trilho de Ferro, é hoje a Avenida Tristão Gonçalves. Pela descrição feita, João da Mata residia no lado oeste da rua (lado da sombra) próximo à Praça Castro Carreira, pois de sua casa se avistava o prédio da Estação da linha férrea de Baturité. 

“Davam nove horas na Sé quando todos se ergueram”. p.14 


A Sé em questão era a antiga Igreja de São José, que por volta de 1854 inaugurou o primeiro relógio público de Fortaleza. Seus ponteiros decretavam a hora oficial, e por eles, as fábricas, o comércio, as escolas e os habitantes, ajustavam  seus relógios. A Igreja de São José foi demolida em 1938. No mesmo local foi construída a atual Catedral da Sé.

“A noite estava escura e calma as estrelas tinham um brilho particular, altas minúsculas como cabeças d’alfinete em papel de seda. Ouvia-se distintamente, como por um tubo acústico, a toada dos soldados rezando à Virgem da Conceição no quartel de linha...” p.15

O quartel de linha ficava onde hoje se encontra a 10ª RM. O antigo quartel do 11° Batalhão de Infantaria teve sua construção iniciada na administração do coronel Antônio José Vitoriano Borges da Fonseca, governador da Capitania no período de 1765 a 1781, em terreno de propriedade do padre José Rodrigues, que o oferecera ao governo juntamente com a capela de Nossa Senhora da Assunção, edificada por ele.

“Desde a saída de Maria do Colégio das Irmãs de Caridade tinha se operado uma mudança admirável nos hábitos de João da Mata... Aquela Maria do Carmo do Imaculada Conceição, toda santidade...” p.16


Antes da Escola Normal, Maria do Carmo fora aluna interna do Colégio da Imaculada Conceição. O Imaculada Conceição foi fundado em 1865 como escola para menores órfãos e abandonados. Dirigido pelas freiras francesas da Ordem das Filhas de Caridade de São Vicente de Paula, chegadas em Fortaleza naquele ano. A partir de 1867 o colégio funcionou num prédio construído para abrigar um hospital. Ocupava a área equivalente a um quarteirão quadrado, na parte setentrional da Praça Filgueiras de Melo, o mesmo local que ocupa até os dias atuais. 

“Havia meses Maria do Carmo cursava a Escola Normal.” P.17


Tanto João da Mata quanto D. Terezinha, padrinhos e tutores de Maria do Carmo eram de opinião que o Colégio da Imaculada Conceição não era o lugar ideal para uma menina inteligente como Maria. “Não compreendia  como pudesse instruir-se na prática indispensável da vida social uma criatura educada a toques de sineta, no silêncio e na sensaboria de uma casa conventual entre paredes sombrias, com quadros  alegóricos das almas do purgatório e das penas do inferno.”
A Escola Normal Pedro II, inaugurada em 1884 na Praça Marquês de Herval destinava-se a formação de professores para as  escolas do Estado.  O surgimento da Escola Normal provocou uma grande polêmica na sociedade, por causa da proposta de formar professoras profissionais, numa época em que as mulheres eram destinadas ao casamento e a criação de filhos. O antigo prédio da Escola Normal atualmente é ocupado pelo IPHAN, localizado na Praça José de Alencar. 

“Até a Praça do Patrocínio, como uma grande senhora independente” p.17.

Até 1870 a atual Praça José de Alencar , onde estava localizado o prédio da Escola Normal, chamava-se Praça do Patrocínio, por causa da igreja de N. S. do Patrocínio, construída  no largo e inaugurada em 1852. Em 1893, data em que o romance foi publicado, a Praça já se chamava Marquês de Herval.

A fama da normalista encheu depressa toda a capital. Não se compreendia como uma retirante saída a pouco das Irmãs de Caridade fosse tão bem feita de corpo, tão desenvolta e insinuante ....Nas reuniões do Club Iracema era ela a preferida dos rapazes...” p.17
 
O Clube Iracema foi fundado no dia 28 de junho de 1884, pelos recusados do Clube Cearense, que se formava à margem do mundo aristocrático de então,  um ascendente grupo social médio-alto, constituído por comerciários, despachantes e guarda-livros, muitos deles, já na década de 1870, participantes de atividades  literárias e jornalísticas, e ativos militantes abolicionistas. No início funcionou em prédio na esquina das Ruas Senador Pompeu e Guilherme Rocha. Depois se mudou para a Rua Barão do Rio Branco, onde mais tarde se instalou a Faculdade de Farmácia e odontologia. Hoje, no local, tem uma agência do Banco do Brasil.  

“João da Mata inflava. Certo não a entregaria por preço algum a qualquer rapazola como o filho do coronel Souza Nunes. Entretanto, o Zuza era um rapaz da moda. Montava a cavalo, fazia versos, assinava a Gazeta Jurídica, frequentava o palácio do presidente...” p.17


O Palácio do presidente era o Palácio da Luz, à época a residência oficial do presidente da Província do Ceará, localizado na Praça General Tibúrcio. Foi construído no final do Século XVIII, com auxilio de mão-de-obra indígena, para servir de residência do capitão-mor Antônio de Castro Viana. O primeiro presidente a ocupar o imóvel foi o governador Luís Barba Alado de Menezes, em 1809.

“Sobre a cômoda, ao pé do oratório, ardia uma lamparina de azeite” p.18

No final do século XIX, onde se situa temporalmente o romance, as casas eram iluminadas por candeeiros, lamparinas e velas, enquanto que nas ruas, praças e demais espaços públicos já havia iluminação a gás carbônico. O material para instalação do gasômetro de Fortaleza chegou em 9 de outubro de 1866, sendo concessionária do serviço a empresa Ceará Gás Company, com sede em Londres.

”O capitão Bernardino de Mendonça chegou a Fortaleza pela estrada nova de Messejana” p. 18 

A Estrada de Messejana ou Calçamento de Messejana é o antigo nome da Avenida Visconde do Rio Branco. 

“Ao cabo de 12 longos dias em que paravam para repousar à sombra d’alguma árvore que ainda verdejava ou nalguma palhoça abandonada, avistaram o campanário branco e alegre do Coração de Jesus” p.21


A descrição se refere à viagem feita pelos pais de Maria do Carmo quando se retiraram do interior de Campo Alegre em direção a Fortaleza fugindo da seca de 1877. Mas a igreja do Coração de Jesus não existia nessa época, visto que só foi inaugurada em 1886, aproveitando justamente a mão-de-obra de retirantes da seca, que vagavam pela capital em busca de trabalho.



“Maria lembrava-se de tudo. Depois ela ficara sozinha em companhia dos padrinhos. Nesse tempo moravam na Rua de Baixo” p. 23  


A antiga Rua de Baixo é a atual Rua Conde d’Eu



“ o certo, porém é que o procedimento de D. Amanda não escandalizava a sociedade. Vivia na sua modesta casa do Trilho, muito concentrada, num respeitoso isolamento, saindo à rua poucas vezes em companhia da filha, não frequentando bailes nem o Passeio Público” (26)






D. Amanda era viúva, morava em frente a casa de João da Mata, em companhia de sua filha Lídia, colega de Maria do Carmo na Escola Normal. Apesar da vida reservada, mãe e filha eram vítimas da maledicência popular. 

Inaugurado em 1880 o Passeio Público era um espaço ajardinado, arejado, reservado para a fruição daqueles belos tempos, onde o footing (passeio a pé), o meeting (encontro entre pessoas) e o flert (paquera) eram praticados regularmente. Sobranceiro ao mar e bem arborizado, o logradouro foi murado e decorado com estátuas representando divindades mitológicas gregas, além de canteiros, coreto, café, passarelas pavimentadas e longos bancos. Atração imperdível  às quintas e domingos o Passeio lotava-se de gente elegante exibindo as últimas novidades trazidas pelos navios vindos da Europa. A banda municipal embalava os namoros, os flertes e o passeio dos frequentadores. 



“ Era hora do almoço. O amanuense estava apressado porque tinha de ir à praia ao embarque do conselheiro Castro e Silva que seguia para o Rio de Janeiro... No porto havia grande lufa-lufa de gente que embarcava e desembarcava simultaneamente, bracejando, falando alto... ” p.31




Na época o porto de Fortaleza era o da Prainha, situado entre o Centro e a Praia de Iracema. A Ponte Metálica, que funcionou como local de embarque e desembarque durante muitos anos, só foi construída em 1906.  



“Um carro parou à porta da Escola de Aprendizes Marinheiros: era o conselheiro, metido numa sobrecasaca muito comprida, cheio de atenções” p.32


A Escola de Aprendizes Marinheiros foi instalada em 31 de março de 1865 na Rua da Praia (atual Avenida Pessoa Anta), perto do porto, portanto, em casas pertencentes ao barão de Ibiapaba; em 1908 mudou-se para o Jacarecanga.

continua.....