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domingo, 17 de julho de 2022

Adolfo Caminha – A Literatura como Vingança

 


antigas residências da família de Adolfo Caminha, em Aracati (foto Mauricio Albano)


Nascido no Aracati, a 29 de maio de 1867, Adolfo Ferreira Caminha defrontou-se ainda na infância com dificuldades e aspectos amargos da vida. Em 1877 o Ceará foi assolado por uma das mais terríveis secas da história, e no mesmo ano perdeu sua mãe, e doente, seu pai o mandou para Fortaleza. Em 1883, nova partida, seguiu para o Rio de Janeiro, onde o tio materno o matriculou na Escola Naval para que seguisse carreira na Marinha. Como guarda-marinha viaja pelas Antilhas e pelos Estados Unidos. Durante a viagem redige um diário com anotações e observações sobre as terras vistas, que ressaltará no livro “No País dos Ianques”, de 1894.


Em 1888, já no posto de segundo-tenente alegando razões de saúde, Caminha pediu transferência para Fortaleza, onde serviu no cruzador Paquequer. Imaginou que a capital cearense fosse politicamente mais avançada do que a Corte, o Ceará por exemplo, havia sido a primeira província brasileira a libertar os escravos.




Na década de 1880 a vida literária em Fortaleza vivia um momento de grande atividade. Vários grêmios culturais se formavam em torno de ideais republicanos e abolicionistas e da estética naturalista, brigando jovens escritores. Deles sairiam posteriormente a Caminha, outros nomes que ficaram na história da literatura brasileira, como Manuel de Oliveira Paiva, Domingos Olímpio e Rodolfo Teófilo.      


Quando Adolfo Caminha chegou a Fortaleza, uma questão pessoal o ocupou mais do que a vocação literária e as tendências políticas: em 1889, ano da Proclamação da República, o escritor apaixonou-se por Isabel Jataí de Paula Barros, 19 anos, esposa de um alferes, que abandonou o marido e foi viver com ele.  O escritor foi alvo de críticas tanto da sociedade local como dos próprios colegas da Marinha, onde era também oficial. Chamaram-no de “flagelo dos bons costumes”.  A repercussão do caso foi tão grande que custou até mesmo a carreira do escritor na Marinha. Frota Pessoa, amigo de Adolfo caminha, conta a celeuma:


“ O idílio começou com todas as secretas cautelas, tímido a princípio, mais tarde audacioso, e imprudente. Nasceram ponderadas suspeitas no espírito do marido; cenas conjugais, violentas disputas, tempestuosas explicações lavraram aos poucos a discórdia no casal, e uma certa manhã, ela deserta do lar e vai se abrigar na casa do namorado. Ele não hesita; aceita-a e, em pleno dia, atravessa a cidade com sua amada pelo braço e a deposita em lugar seguro”.


A cidade ficou alvoroçada com o caso; os alunos da Escola Militar querem “vingar a farda do Exército”; as famílias puritanas exigem que o profanador dos bons costumes seja transferido do Ceará: faça suas aventuras onde quiser menos em Fortaleza.


Ao ser praticamente obrigado a deixar o posto na Marinha por causa da repercussão do caso, Adolfo Caminha viu frustrar-se todas as expectativas que o haviam levado a trocar o Rio de Janeiro por Fortaleza. Mais tarde, ele dedicaria o livro Cartas Literárias à sua amada: “Quero que o nome dela fulgure como uma legenda de ouro à primeira página de meu livro.” Amainados os ecos do tremendo escândalo, o escritor vai se reintegrando na vida da cidade.  Mas essa reintegração se processa com atritos e novas inimizades.



Escola de Aprendizes Marinheiros do Ceará, no Jacarecanga (acervo da Marinha)

Para sobreviver arranjou emprego como escriturário na Tesouraria da Fazenda. Mas queria ser escritor, e participava ativamente dos movimentos literários do Ceará. Em 1891 fundou a Revista Moderna e no ano seguinte, participou da fundação da Padaria Espiritual – movimento literário que acreditava na necessidade de educar as massas populares para modificar o Brasil. Mas, em função do casamento irregular, do qual nasceram duas meninas, o ambiente na cidade não favorecia Adolfo Caminha. Em 1893 ele conseguiu transferência para o Rio de Janeiro, como funcionário do Tesouro Federal. Pobre, procurou aumentar seus vencimentos como colaborador do Jornal Gazeta de Notícias. Ainda em 1893, publicou seu romance A Normalista.


A Normalista foi uma espécie de vingança literária de Caminha contra a cidade que o menosprezou, o romance traça um painel crítico implacável da vida em Fortaleza. Acompanhando a trajetória da adolescente Maria do Carmo, o autor desnudou os impulsos mais mesquinhos de tipos e habitantes da capital do Ceará. Através desse olhar de ódio e desprezo, conseguiu dar vida a seus personagens, torná-los interessantes e convincentes.


Ao publicar o romance Caminha causou revolta na sociedade cearense da época. O autor expõe cruamente a falta de moral e as baixezas de pessoas influentes que posavam de puritanas, dignos representantes dos bons costumes.


A edição esgotou-se em poucos meses, graças à interferência das pessoas que se sentiram atingidas e que não tinham interesse na divulgação da história. O romancista então deixou de ser editado por muitos anos. Em seu livro “Escritores na Intimidade”, Raimundo Menezes fala sobre o episódio: 


"O autor focaliza em suas páginas cenas e fatos de Fortaleza daqueles tempos, ridicularizando e combatendo certos hábitos e costumes provincianos, quando então descrevera e pintara conhecidos tipos com nomes diferentes, porém, tão bem traçados, que foram prontamente identificados pela população e apontados sob o riso malicioso dos leitores.


Afirma que foi tamanha a celeuma provocada pelo romance que Adolfo Caminha recebeu ameaças de ser chicoteado e mesmo assassinado. Criou-se lhe um ambiente tal, que o escritor se viu na contingência de tomar determinadas precauções para evitar o perigo de ser surpreendido com um ataque à mão armada.


Na opinião unânime da crítica literária recente, o autor vingou-se das desditas que o viver no Ceará lhe proporcionara. Mas Caminha talvez não tenha se dado por satisfeito. É possível que continuasse decidido a causar escândalo e a levar adiante sua vingança literária. Em 1895, dois anos depois da edição de A Normalista, publicou “Bom-Crioulo”. Tema: um amor homossexual que resultaria em assassinato. Vestuário dos personagens: a farda da Marinha do Brasil.


Adolfo Caminha faleceu no Rio de Janeiro, a 1° de janeiro de 1897, antes de completar trinta anos, acometido de tuberculose. Terminava assim a carreira de autor, que ignorado em vida, seria depois redescoberto como um dos nomes mais originais das letras brasileiras.


Obras:


Vôos Incertos (poesia, 1886)

Judite (contos, 1887)

Lágrimas de um Crente (novelas, 1887)

A Normalista (Romance, 1894)

No País dos Ianques (Impressões de viagem, 1895)

Bom Crioulo (Romance, 1895)

Cartas Literárias (Crítica, 1895)

Tentação (Romance, 1896) 


Resumo: Bom-Crioulo



Bom-Crioulo conta a história de Amaro e Aleixo, a partir de uma perspectiva naturalista, isto é, de condenação da homossexualidade. Além disso, traz uma visão determinista, em que o meio corruptor (a Marinha) e a raça (Amaro é negro) determinam as atitudes dos dois personagens. Desse modo, Amaro é assim retratado pelo narrador: “um latagão de negro, muito alto e corpulento, figura colossal de cafre, desafiando, com um formidável sistema de músculos, a morbidez patológica de toda uma geração decadente e enervada [...]”. Esse marinheiro é chamado de Bom-Crioulo, “na gíria de bordo”.

Ele se apaixona pelo jovem Aleixo e começa a seduzir o rapaz com promessas. Por fim, o grumete se rende após sentir “uma como vontade ingênita de ceder aos caprichos do negro, de abandonar-se lhe para o que ele quisesse”. E o narrador se refere à primeira relação sexual entre os dois desta maneira: “E consumou-se o delito contra a natureza”.

Além disso, Aleixo, um adolescente de quinze anos, branco e loiro, é descrito como tendo formas femininas: “[...] formas de homem tão bem torneadas, braços assim, quadris rijos e carnudos como aqueles... Faltavam-lhe os seios para que Aleixo fosse uma verdadeira mulher!...”.

Bom-Crioulo, então, aluga um quartinho, na rua da Misericórdia, no Rio de Janeiro. É ali que os amantes se encontram quando estão em terra. O quarto é alugado por dona Carolina, uma portuguesa, ex-prostituta e grande amiga de Amaro, pois, em uma ocasião, ele a salvou de um assalto.

No entanto, Carolina, uma mulher quarentona, fica interessada em Aleixo e seduz o rapaz. Após ele ceder ao desejo da mulher, a transformação em seu corpo é visível. Desse modo, o narrador sugere que manter relações sexuais com uma mulher fez com que Aleixo adquirisse características masculinas:

"Estava gordo, forte, sadio, muito mais homem, apesar da pouca idade que tinha, os músculos desenvolvidos como os de um acrobata, o olhar azul penetrante, o rosto largo e queimado. Em pouco tempo adquirira uma expressão admirável de robustez física, tornando-se ainda mais belo e querido".

E quando Amaro descobre a dupla traição, ele mata, de forma violenta, o seu amante. Dessa forma, o narrador tem a intenção de demonstrar a impossibilidade de um final feliz para esse tipo de relação.

No entanto, apesar de ser hoje considerada uma obra racista e homofóbica, Bom-Crioulo tem valor histórico. Afinal, essa obra de Adolfo Caminha é o primeiro romance brasileiro cuja temática principal é a homossexualidade. Assim, apesar do tom condenatório e punitivo, pela primeira vez na história da literatura brasileira, o protagonismo é dado a personagens homossexuais.

 

Fonte principal: A História do Ceará Passa por esta Rua, de Rogaciano Leite Filho, e outras  


                    

sexta-feira, 12 de novembro de 2021

Fortaleza e Eu – crônica de Milton Dias

 



Numa tarde destas, à hora do sol poente, contemplei do alto com incansável olhar de amante, cobiçoso e comovido, orgulhoso e feliz, esta Fortaleza minha muito amada – e tive direito ao espetáculo mais generoso e mais grato, o que mais me toca e mais me fala – e abracei com o coração está cidade que é um poema feito em pedra e cal, em cimento e ferro, vegetação e sensibilidade, onde o sol dá festa diária e o mar uma permanente companhia.

Lá embaixo, bem perto, o Pajeú que cantarola cantigas aprendidas muito antigamente, guardião da história da cidade, testemunha discreta e humilde, cantante e constante, andejo como o povo que vive às suas margens. E em torno deste Pajeú que foi Marajaig, razão da escolha do local da cidade, os quintais verdes plantados por mãos que já se foram, velhas árvores que abasteceram de fruta e de sombra outras gerações, restos de casas senhoriais que aos poucos vão desaparecendo, mansões de parapeitos pretenciosos, alguns sobrados e casas térreas modestas, amorosamente construídas por homens que provavelmente dormem na sua paz definitiva. Estas moradas todas, imagina-se, tiveram dias laboriosos e noites indormidas, viveram romances e dramas, fracassos e glórias, vida paixão e morte, foram todas cenários de festas e de lutos, saudaram véu de noiva e festejaram vitórias, se engalanaram e se enlutaram, receberam o médico nas horas aflitivas, acolheram o padre para as comemorações dos batizados, para as bençãos das bodas ou para a extrema-unção.


atual Parque Pajeú, com o riacho ainda não canalizado no trecho 


Lembra-me Anatole France: aquelas casas sabem muito sobre a vida e sobre a morte, elas nos diriam coisas que nos fariam chorar, que nos fariam rir, se as pedras falassem. Mas as pedras falam àqueles que sabem ouvi-las. Assim como as estrelas do poeta.

E em torno das velhas casas, num contraste evidente, como protesto contra o que passou, cabeças de edifícios voltadas para o futuro voltadas para o futuro, desafiando o céu, marca do presente, olhando do alto as tímidas construções que ainda se conservam de pé, como se lhes incomodasse a vizinhança, numa velada pretensão de despejar, destruir, acabar tudo para começar uma cidade nova, no sentido vertical.

Como eu dizia, vi a cidade do alto, justamente na hora em que o dia se encerrava, as filas dos ônibus engrossavam, os carros ruidosos abriam impacientes, caminhos pelas ruas cheias, os pedestres voltavam para casa numa pressa que aqui parece desnecessária, e os anúncios luminosos que começavam a se multiplicar, davam a nota entre o fim da província e o início da metrópole.

Fiquei a imaginar como seria. Nesta mesma hora de sol posto, há cento e cinquenta anos, o espetáculo tranquilo que se abriria aos olhos dum habitante desta cidade, que de repente chegasse à sua janela: o sino tocando as ave-marias, a população demandando a casa no começo da escuridão, a igrejinha no centro duma praça, e em frente dela, o pelourinho e a forca. Num ângulo, o forte de madeira e no outro a Casa dos Jesuítas, algumas moradias, umas cobertas de telha, outras de palha. E fechando o quadro, ao poente, a Casa de Câmara, que chamavam Conselho.


primeira planta da Vila de Fortaleza, 1726


Foi assim que nasceu a Vila a que chamaram de Fortaleza de Nossa Senhora de Assunção, depois elevada à categoria de Cidade de Fortaleza de Nova Bragança, a 17 de março de 1823.

Foi assim que começou a cidade, embalada desde o princípio e agora e sempre com as graças que Deus lhe deu. Nasceu na areia, em casa de palha, nasceu pobre e altiva, plantou uma cruz, protegeu-se com um forte, preparou-se para as artes da paz e da guerra – que de muitos olhares de inveja e de cobiça foi sofrida – e com trabalho, com inteligência, com fé e com amor se levantou e se fez.

Muito tempo passou desde então. E enrolado no tempo passou índio, passou negro, passou o branco português, passou o holandês louro,  apareceu a mulata, as raças se caldearam, muita estória aconteceu, estórias que os livros contam, que estão na boca do povo, estão nos versos, na prosa, estão na alma da gente, memórias de muitas lutas, lembranças de correr sangue, correr lágrima e correr vida, estórias de valentia, sagas de amor, de bravura, senzala, eito, chicote, protesto e revolução, alforria pros escravos, aula de abolição que o Ceará deu primeiro para o resto do Brasil.

E muita água correu no leito do Pajeú, desde aquele dia 17 de março de 1823. No princípio éramos três mil na Fortaleza de Nova Bragança. Agora somos um milhão. Ou mais.


Praça da Imprensa - anos 70


A crônica de Milton Dias vive na Fortaleza de 1976. E nos fala de uma cidade mais calma, com poucos edifícios, ainda com as velhas residências senhoriais, que não sobreviveram aos ditames da modernidade, que na sua pretenciosa busca pelo novo, esqueceu seu passado e tem sido negligente com o presente. A população de Fortaleza em 1976, era de 1.176.000 habitantes. Hoje, em 2021, somos 2.700.000, meu poeta. Ou mais.

José Milton de Vasconcelos Dias nasceu em Ipu, no dia 29 de abril de 1919. Faleceu em Fortaleza, em 22 de março de 1983. O Livro “Fortaleza e eu”, foi lançado quando Milton Dias recebeu o título de Cidadania, concedido pela Câmara Municipal de Fortaleza : 

“venho de muitos caminhos e chego à vossa casa, para esta festa de generoso acolhimento, iluminado pela graça do vosso gesto e reconhecido a vossa desvanecedora decisão, que me torna Cidadão de Fortaleza...”  


extraído do livro Fortaleza e eu/ Milton Dias - Fortaleza: Imprensa Universitária da UFC, 1976.

fotos: postais dos anos 70, Anuário do Ceará. 

   

sábado, 6 de junho de 2020

Capistrano de Abreu – O Sogro de Jesus


João Capistrano Honório de Abreu nasceu na cidade de Maranguape, em 25 de outubro de 1853. Fez seus primeiros estudos em rápidas passagens por várias escolas. Em 1869, viajou para Recife, onde cursou humanidades, retornando ao Ceará dois anos depois. Em Fortaleza, foi um dos fundadores da Academia Francesa, órgão de cultura e debates, progressista e anticlerical, que durou de 1872 a 1875.

Estátua de Capistrano de Abreu em Maranguape - foto IBGE

Neste último ano, viajou para o Rio de Janeiro e aí se fixou, tornando-se empregado da Editora Garnier. Em 1879, foi nomeado oficial da Biblioteca Nacional. Lecionou Corografia e História do Brasil no Colégio Pedro II, nomeado por concurso em que apresentou tese sobre O descobrimento do Brasil e o seu desenvolvimento no século XVI. Eleito para a Academia Brasileira de Letras, recusou-se a tomar posse.

Dedicou-se ao estudo da história colonial brasileira, elaborando uma teoria da literatura nacional, tendo por base os conceitos de clima, terra e raça, que reproduzia os clichês típicos do colonialismo europeu acerca dos trópicos, invertendo, todavia, o mito pré-romântico do “bom selvagem”. Morreu no Rio de Janeiro, aos 74 anos, em 13 de agosto de 1927.


Capistrano de Abreu era agnóstico de carteirinha, daqueles que não acreditava nas coisas do céu muito menos nas do inferno, mas também não negava, não era contra nem a favor, muito pelo contrário. Por uma dessas ironias do destino, sua filha Honorina, a mais velha dentre os cinco irmãos, optou por seguir a vida religiosa.

Honorina de Abreu nasceu no dia 18 de fevereiro de 1882, no Rio de Janeiro. Ficou órfã aos 9 anos de idade, quando perdeu a mãe, vítima de febre puerperal. Quanto estava na casa dos 20 anos,  passou pelo que o pai chamou de "crise religiosa", e decidiu entrar para o Convento de Santa Teresa, da Ordem das Carmelitas Descalças, localizado no bairro carioca de Santa Tereza. A decisão abalou o pai profundamente, comprovou-se inaceitável para ele e deixou-o amargurado para o resto da vida.

Honorina de Abreu

A partir de 10 de janeiro de 1911, quando Honorina aos 29 anos, vestida de noiva, foi admitida solenemente no convento, onde recebeu o nome de madre Maria José de Jesus, a comunicação entre pai e filha, rara, passou a ser feita exclusivamente por carta. No início, Capistrano revelava inconformidade, como escreveu ao amigo Mário de Alencar uma semana depois da consagração da nova serva de Deus:

“Acho, porém, o caso dela pior que a morte:  a morte é fatal; chega a hora inadiável; em resoluções como a de agora há sempre a crença, certamente errônea, de que o desenlace podia ser outro, e é isto que dói. Só agora vejo como a queria. Passo os dias sem sair, pensando nela, joguete dos sentimentos mais contraditórios, desde a indignação até as lágrimas ".

No convento, as carmelitas descalças viviam em um ambiente de clausura estrita, distanciadas de contatos físicos com o mundo exterior e regidas por uma rigorosa normatização quanto as comunicações internas, com horários de absoluto isolamento, intercalados por momentos de pouca conversa. Não foi diferente para madre Maria José de Jesus.

Capistrano manteve-se inflexível: jamais iria ao convento no mesmo bairro de Santa Teresa onde Honorina nascera e viveria até a morte, em 1959. Foi ali, no Mosteiro que a monja se dedicou integralmente a Deus, sem jamais desistir de escrever ao pai na tentativa de convertê-lo. Inapelável e irônico na sua dor, desde o início ele prometia ao amigo Mário de Alencar em carta de 18 de março de 1910, quando ela já se recolhia às orações mas ainda não fizera os votos oficiais: “Não irei vê-la; as cartas suas só responderei se precisarem de resposta; correspondência não quero ter. Não pretendo repetir o herói da Encarnação”.

A família de Capistrano de Abreu em 1945: Madre Maria José de Jesus com a irmã Matilde, as sobrinhas Isa e Honorina, o irmão Adriano e a cunhada Amneris. 

Os anos se passaram sem que houvesse reconciliação entre pai e filha. Não se viam. Capistrano mantinha-se firme na decisão de não ir ao convento. Julgava-se traído. Para ele, a filha fora insensível e injusta ao deixá-los. Quanto a ela, não desistia de amá-lo, de lhe pedir perdão e de tentar convertê-lo: “Meu pai muito querido”, iniciava ela carta de 10 de janeiro de 1922, penitenciando-se sempre: “Foi hoje, há onze anos, que pela última vez lhe beijei as mãos pedindo-lhe perdão dos inumeráveis desgostos que lhe dei com minhas faltas”.

Não só em prosa, mas em versos a monja insistiu nos apelos. Por ocasião do último aniversário do historiador, em 23 de outubro de 1926, ela escreveu o soneto “A meu pai”, e depois soube que ele distribuíra cópias aos amigos. “Mas para quê?” – perguntava-lhe, em carta, a menos de um mês da morte dele. O importante, para ela, seria a conversão, e não a divulgação dos versos:

E, agora, dá-me a mão… É noite. Vem comigo!
Vem, que eu te levarei a Jesus, teu Amigo,
Que te espera saudoso… Oh! dize-me que sim!
Foste meu pai, e eu tua mãe serei agora…
Dar-te-ei a Eterna Luz de que me deste a aurora,
Dar-te-ei – por esta vida – a Vida que é sem fim…

A noite, anunciada no soneto, foi chegando. Quando o médico Felício dos Santos, católico fervoroso, ao constatar a fragilidade da saúde do amigo e paciente, teria lhe lembrado que chegava a hora da conversão, ele teria respondido: “Ora, Felício, eu sou mais amigo de Jesus do que você. Nós somos íntimos… pois se ele é meu genro…”.
Assim morreu o já velho historiador em 13 de agosto de 1927: agnóstico e inconformado com a separação da filha.


Honorina ingressou no Carmelo de Santa Teresa, aos 29 anos. Quatro anos após sua profissão solene, ela foi escolhida como mestra do noviciado. Já em 1917, com apenas 35 anos de idade e seis anos de vida religiosa, foi eleita priora por unanimidade de votos, função a qual exerceu durante 27 anos, durante nove mandatos, dentre os 48 anos que viveu no carmelo.

A religiosa que dominava sete idiomas, entre eles o latim, foi a responsável pela tradução das obras completas de Santa Teresa de Jesus, trabalho que realizou por 23 anos – desde maio de 1936 até o ano de sua morte, em 1959 –  sem deixar de cumprir suas obrigações quanto à regra, os ofícios comunitários e às exigências enquanto superiora e mestra.

imagem: O Globo

Tendo tido formação literária das melhores, deixou uma obra poética e escreveu livros. O nome de Madre Maria José de Jesus consta do Protocolo 1691, com Nihil Obstat datado de 26 de outubro de 1989, do Vaticano, como candidata a Beatificação.

O que diria o incrédulo Capistrano de Abreu sobre este assunto?


Fontes:




domingo, 4 de novembro de 2018

Tangerine-Girl (Um Conto de Rachel de Queiroz)


imagem do livro Caravelas, jangadas e Navios de Rodolfo Espínola
De princípio a interessou o nome da aeronave: não “zepelim” nem dirigível, ou qualquer outra coisa antiquada; o grande fuso de metal brilhante chamava-se modernissimamente blimp. Pequeno como um brinquedo, independente, amável. A algumas centenas de metros da sua casa ficava a base aérea dos soldados americanos e o poste de amarração dos dirigíveis. E de vez em quando eles deixavam o poste e davam uma volta, como pássaros mansos que abandonassem o poleiro num ensaio de vôo. Assim, de começo, aos olhos da menina, o blimp existia como uma coisa em si — como um animal de vida própria; fascinava-a como prodígio mecânico que era, e principalmente ela o achava lindo, todo feito de prata, igual a uma jóia, librando-se majestosamente pouco abaixo das nuvens. Tinha coisas de ídolo, evocava-lhe um pouco o gênio escravo de Aladim. Não pensara nunca em entrar nele; não pensara sequer que pudesse alguém andar dentro dele. Ninguém pensa em cavalgar uma águia, nadar nas costas de um golfinho; e, no entanto, o olhar fascinado acompanha tanto quanto pode águia e golfinho, numa admiração gratuita — pois parece que é mesmo uma das virtudes da beleza essa renúncia de nós próprios que nos impõe, em troca de sua contemplação pura e simples. 

Os olhos da menina prendiam-se, portanto, ao blimp sem nenhum desejo particular, sem a sombra de uma reivindicação. Verdade que via lá dentro umas cabecinhas espiando, mas tão minúsculas que não davam impressão de realidade — faziam parte da pintura, eram elemento decorativo, obrigatório como as grandes letras negras U. S. Navy gravadas no bojo de prata. Ou talvez lembrassem aqueles perfis recortados em folha que fazem de chofer nos automóveis de brinquedo.

O seu primeiro contato com a tripulação do dirigível começou de maneira puramente ocasional. Acabara o café da manhã; a menina tirara a mesa e fora à porta que dá para o laranjal, sacudir da toalha as migalhas de pão. Lá de cima um tripulante avistou aquele pano branco tremulando entre as árvores espalhadas e a areia, e o seu coração solitário comoveu-se. Vivia naquela base como um frade no seu convento — sozinho entre soldados e exortações patrióticas. E ali estava, juntinho ao oitão da casa de telhado vermelho, sacudindo um pano entre a mancha verde das laranjeiras, uma mocinha de cabelo ruivo. O marinheiro agitou-se todo com aquele adeus. Várias vezes já sobrevoara aquela casa, vira gente embaixo entrando e saindo; e pensara quão distantes uns dos outros vivem os homens, quão indiferentes passam entre si, cada um trancado na sua vida. Ele estava voando por cima das pessoas, vendo-as, espiando-as, e, se algumas erguiam os olhos, nenhuma pensava no navegador que ia dentro; queriam só ver a beleza prateada vogando pelo céu.

Mas agora aquela menina tinha para ele um pensamento, agitava no ar um pano, como uma bandeira; decerto era bonita — o sol lhe tirava fulgurações de fogo do cabelo, e a silhueta esguia se recortava claramente no fundo verde-e-areia. Seu coração atirou-se para a menina num grande impulso agradecido; debruçou-se à janela, agitou os braços, gritou: “Amigo!, amigo!”— embora soubesse que o vento, a distância, o ruído do motor não deixariam ouvir-se nada. Ficou incerto se ela lhe vira os gestos e quis lhe corresponder de modo mais tangível. Gostaria de lhe atirar uma flor, uma oferenda. Mas que podia haver dentro de um dirigível da Marinha que servisse para ser oferecido a uma pequena? O objeto mais delicado que encontrou foi uma grande caneca de louça branca, pesada como uma bala de canhão, na qual em breve lhe iriam servir o café. E foi aquela caneca que o navegante atirou; atirou, não: deixou cair a uma distância prudente da figurinha iluminada, lá embaixo; deixou-a cair num gesto delicado, procurando abrandar a força da gravidade, a fim de que o objeto não chegasse sibilante como um projétil, mas suavemente, como uma dádiva.

A menina que sacudia a toalha erguera realmente os olhos ao ouvir o motor do blimp. Viu os braços do rapaz se agitarem lá em cima. Depois viu aquela coisa branca fender o ar e cair na areia; teve um susto, pensou numa brincadeira de mau gosto — uma pilhéria rude de soldado estrangeiro. Mas quando viu a caneca branca pousada no chão, intacta, teve uma confusa intuição do impulso que a mandara; apanhou-a, leu gravadas no fundo as mesmas letras que havia no corpo do dirigível: U. S. Navy. Enquanto isso, o blimp, em lugar de ir para longe, dava mais uma volta lenta sobre a casa e o pomar. Então a mocinha tornou a erguer os olhos e, deliberadamente dessa vez, acenou com a toalha, sorrindo e agitando a cabeça. O blimp fez mais duas voltas e lentamente se afastou — e a menina teve a impressão de que ele levava saudades. Lá de cima, o tripulante pensava também — não em saudades, que ele não sabia português, mas em qualquer coisa pungente e doce, porque, apesar de não falar nossa língua, soldado americano também tem coração.

Foi assim que se estabeleceu aquele rito matinal. Diariamente passava o blimp e diariamente a menina o esperava; não mais levou a toalha branca, e às vezes nem sequer agitava os braços: deixava-se estar imóvel, mancha clara na terra banhada de sol. Era uma espécie de namoro de gavião com gazela: ele, fero soldado cortando os ares; ela, pequena, medrosa, lá embaixo, vendo-o passar com os olhos fascinados. Já agora, os presentes, trazidos de propósito da base, não eram mais a grosseira caneca improvisada; caíam do céu números da Life e da Time, um gorro de marinheiro e, certo dia, o tripulante tirou do bolso o seu lenço de seda vegetal perfumado com essência sintética de violetas. O lenço abriu-se no ar e veio voando como um papagaio de papel; ficou preso afinal nos ramos de um cajueiro, e muito trabalho custou à pequena arrancá-lo de lá com a vara de apanhar cajus; assim mesmo ainda o rasgou um pouco, bem no meio.

Mas de todos os presentes o que mais lhe agradava era ainda o primeiro: a pesada caneca de pó de pedra. Pusera-a no seu quarto, em cima da banca de escrever. A princípio cuidara em usá-la na mesa, às refeições, mas se arreceou da zombaria dos irmãos. Ficou guardando nela os lápis e canetas. Um dia teve ideia melhor e a caneca de louça passou a servir de vaso de flores. Um galho de manacá, um bogari, um jasmim-do-cabo, uma rosa menina, pois no jardim rústico da casa de campo não havia rosas importantes nem flores caras.

Pôs-se a estudar com mais afinco o seu livro de conversação inglesa; quando ia ao cinema, prestava uma atenção intensa aos diálogos, a fim de lhes apanhar não só o sentido, mas a pronúncia. Emprestava ao seu marinheiro as figuras de todos os galãs que via na tela, e sucessivamente ele era Clark Gable, Robert Taylor ou Cary Grant. Ou era louro feito um mocinho que morria numa batalha naval do Pacífico, cujo nome a fita não dava; chegava até a ser, às vezes, careteiro e risonho como Red Skelton. Porque ela era um pouco míope, mal o vislumbrava, olhando-o do chão: via um recorte de cabeça, uns braços se agitando; e, conforme a direção dos raios do sol, parecia-lhe que ele tinha o cabelo louro ou escuro.

Não lhe ocorria que não pudesse ser sempre o mesmo marinheiro. E, na verdade, os tripulantes se revezariam diariamente: uns ficavam de folga e iam passear na cidade com as pequenas que por lá arranjavam; outros iam embora de vez para a África, para a Itália. No posto de dirigíveis criava-se aquela tradição da menina do laranjal. Os marinheiros puseram-lhe o apelido de “Tangerine-Girl”. Talvez por causa do filme de Dorothy Lamour, pois Dorothy Lamour é, para todas as forças armadas norte-americanas, o modelo do que devem ser as moças morenas da América do Sul e das ilhas do Pacífico. Talvez porque ela os esperava sempre entre as laranjeiras. E talvez porque o cabelo ruivo da pequena, quando brilhava à luz da manhã, tinha um brilho acobreado de tangerina madura. Um a um, sucessivamente, como um bem de todos, partilhavam eles o namoro com a garota Tangerine. O piloto da aeronave dava voltas, obediente, voando o mais baixo que lhe permitiam os regulamentos, enquanto o outro, da janelinha, olhava e dava adeus.

Não sei por que custou tanto a ocorrer aos rapazes a ideia de atirar um bilhete. Talvez pensassem que ela não os entenderia. Já fazia mais de um mês que sobrevoavam a casa, quando afinal o primeiro bilhete caiu; fora escrito sobre uma cara rosada de rapariga na capa de uma revista: laboriosamente, em letras de imprensa, com os rudimentos de português que haviam aprendido da boca das pequenas, na cidade: “Dear Tangerine-Girl. Please você vem hoje (today) base X. Dancing, show. Oito horas P.M.” E no outro ângulo da revista, em enormes letras, o “Amigo”, que é a palavra de passe dos americanos entre nós.

A pequena não atinou bem com aquele “Tangerine-Girl”. Seria ela? Sim, decerto… e aceitou o apelido, como uma lisonja. Depois pensou que as duas letras, do fim: “P.M.”, seriam uma assinatura. Peter, Paul, ou Patsy, como o ajudante de Nick Carter? Mas uma lembrança de estudo lhe ocorreu: consultou as páginas finais do dicionário, que tratam de abreviaturas, e verificou, levemente decepcionada, que aquelas letras queriam dizer “a hora depois do meio-dia”.

Não pudera acenar uma resposta porque só vira o bilhete ao abrir a revista, depois que o blimp se afastou. E estimou que assim o fosse: sentia-se tremendamente assustada e tímida ante aquela primeira aproximação com o seu aeronauta. Hoje veria se ele era alto e belo, louro ou moreno. Pensou em se esconder por trás das colunas do portão, para o ver chegar – e não lhe falar nada. Ou talvez tivesse coragem maior e desse a ele a sua mão; juntos caminhariam até a base, depois dançariam um fox langoroso, ele lhe faria ao ouvido declarações de amor em inglês, encostando a face queimada de sol ao seu cabelo. Não pensou se o pessoal de casa lhe deixaria aceitar o convite. Tudo se ia passando como num sonho — e como num sonho se resolveria, sem lutas nem empecilhos.

Muito antes do escurecer, já estava penteada, vestida. Seu coração batia, batia inseguro, a cabeça doía um pouco, o rosto estava em brasas. Resolveu não mostrar o convite a ninguém; não iria ao show; não dançaria, conversaria um pouco com ele no portão. Ensaiava frases em inglês e preparava o ouvido para as doces palavras na língua estranha. Às sete horas ligou o rádio e ficou escutando languidamente o programa de swings. Um irmão passou, fez troça do vestido bonito, naquela hora, e ela nem o ouviu. Às sete e meia já estava na varanda, com o olho no portão e na estrada. Às dez para as oito, noite fechada já há muito, acendeu a pequena lâmpada que alumiava o portão e saiu para o jardim. E às oito em ponto ouviu risadas e tropel de passos na estrada, aproximando-se.

Com um recuo assustado verificou que não vinha apenas o seu marinheiro enamorado, mas um bando ruidoso deles. Viu-os aproximarem-se, trêmula. Eles a avistaram, cercaram o portão — até parecia manobra militar —, tiraram os gorros e foram se apresentando numa algazarra jovial.

E, de repente, mal lhes foi ouvindo os nomes, correndo os olhos pelas caras imberbes, pelo sorriso esportivo e juvenil dos rapazes, fitando-os de um em um, procurando entre eles o seu príncipe sonhado — ela compreendeu tudo. Não existia o seu marinheiro apaixonado — nunca fora ele mais do que um mito do seu coração. Jamais houvera um único, jamais “ele” fora o mesmo. Talvez nem sequer o próprio blimp fosse o mesmo…

Que vergonha, meu Deus! Dera adeus a tanta gente; traída por uma aparência enganosa, mandara diariamente a tantos rapazes diversos as mais doces mensagens do seu coração, e no sorriso deles, nas palavras cordiais que dirigiam à namorada coletiva, à pequena Tangerine-Girl, que já era uma instituição da base — só viu escárnio, familiaridade insolente… Decerto pensavam que ela era também uma dessas pequenas que namoram os marinheiros de passagem, quem quer que seja… decerto pensavam… Meu Deus do Céu!

Os moços, por causa da meia-escuridão, ou porque não cuidavam naquelas nuanças psicológicas, não atentaram na expressão de mágoa e susto que confrangia o rostinho redondo da amiguinha. E, quando um deles, curvando-se, lhe ofereceu o braço, viu-a com surpresa recuar, balbuciando timidamente:
— Desculpem… houve engano… um engano…

E os rapazes compreenderam ainda menos quando a viram fugir, a princípio lentamente, depois numa carreira cega. Nem desconfiaram que ela fugira a trancar-se no quarto e, mordendo o travesseiro, chorou as lágrimas mais amargas e mais quentes que tinha nos olhos.

Nunca mais a viram no laranjal; embora insistissem em atirar presentes, viam que eles ficavam no chão, esquecidos — ou às vezes eram apanhados pelos moleques do sítio.

Considerado um dos cem melhores contos brasileiros do século. Extraído do livro “O melhor da crônica brasileira”, José Olympio Editora – Rio de Janeiro, 1997.


Rachel de Queiroz nasceu em Fortaleza, no dia 17 de novembro de 1910. Filha de intelectuais, do advogado Daniel de Queiroz Lima e de Clotilde Franklin de Queiroz, era descendente, pelo lado materno, da família Alencar (sua bisavó materna era prima José de Alencar).

Com apenas 7 anos sua família muda-se para o Rio de Janeiro e depois para Belém do Pará. Depois de dois anos retornam ao Ceará e Rachel torna-se aluna interna do Colégio da Imaculada Conceição, formando-se professora em 1925, aos 15 anos de idade.

Lecionou História aos 20 anos, em 1930, publica seu primeiro romance, “O Quinze”. Nessa obra, a escritora retrata a seca de 1915 no nordeste do país e a realidade dos retirantes nordestinos. A obra bem recebida pelo público, “O Quinze”, foi agraciada com o prêmio da Fundação Graça Aranha.

Em 1927, após uma publicação com o pseudônimo “Rita de Queiroz” no Jornal do Ceará, Rachel é convidada para colaborar nesse jornal. Nele, começa a publicar diversas crônicas e a trabalhar como repórter. Foi militante política e afiliada ao Partido Comunista Brasileiro desde 1930.

Em 1932, casa-se com o poeta José Auto da Cruz Oliveira, separando-se em 1939. No ano seguinte, casa-se novamente com o médico Oyama de Macedo, com quem permanece até seu falecimento, em 1982. Em 1992, escreveu o romance “Memorial de Maria Moura”, o qual lhe conferiu o "Prêmio Camões".
Faleceu aos 92 anos, no dia 4 de novembro de 2003, na cidade do Rio de Janeiro, enquanto descansava em sua rede.