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quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Tipos Populares da Fortaleza Antiga

 

Chica Pinote 

Imagem criada por IA

Foi uma dessas figuras populares que povoam as histórias da Fortaleza antiga dos anos 1920, rejeitada em público, prestigiada no ambiente privado. Chica Pinote era prostituta, morena, alta e vistosa, que morava no Beco do São Bernardo, e costumava aparecer no meio do povo, de forma inesperada. Uma dessas aparições, que causou a maior celeuma, foi numa matinê do Circo Pery, armado na Praça da Estação.

Espetáculo iniciado, a arquibancada repleta de meninos, as cadeiras ocupadas pelos adultos, quando entra aquele mulherão, com vasto chapéu emplumado, faiscante de joias, e ocupa um dos camarotes que até então estava vazio. Todo o circo crava os olhos na mulher e acompanha seus movimentos um tanto exagerados. As famílias a olham indignadas, as mais próximas do camarote, levantam-se e saem.

Chica Pinote passou os olhos cheios de desdém pelo anfiteatro e dobrou o braço no gesto característico de “dar uma banana”, o que desencadeou uma gritaria geral. As famílias vão fazendo uma retirada em massa, e o diretor do circo reclama a presença da Polícia, que a muito custo consegue levar para fora a causadora do tumulto, a qual ameaça o delegado com o guarda-sol de rendas, empurra os soldados, e protesta aos gritos: - paguei o camarote com o meu dinheiro, que é igual ao dos outros! Não saio porque não quero!

O delegado compreende a situação, mas retira à força a Chica Pinote que recebe, aos prantos, a devolução do dinheiro com que pagou o camarote, dinheiro igual ao dos outros. O espetáculo continua, mas sente-se que foi estragado de qualquer modo. Nem os artistas estão trabalhando com o mesmo gosto, nem o público está aplaudindo com o mesmo entusiasmo. As filas de cadeiras e os camarotes estão quase vazios. 

Micaela


Imagem criada por IA

Muito se fala dos tipos populares que habitavam as ruas de Fortaleza do passado, homens meio loucos, meio excêntricos, quase todos mendigos, que viviam da caridade alheia e causavam agitação por onde passavam. Eram importunados nas ruas, alguns reagiam com agressividade, outros pareciam nem perceber que era alvo das chacotas. Mas poucos sabem que também havia muitas mulheres nesse bloco de gente esquisita.

A Micaela era negra retinta, varapau de quase dois metros de altura, com passo de soldado alemão, vestida de preto e saia arrastando no chão. Andava nas ruas pelo calçamento e atravessava as praças sempre em diagonal. Empunhava um grosso porrete, também preto, e a cada esquina parava, olhava para todos os lados e depois seguia seu caminho.

Diziam que era homem disfarçado de mulher, que botava feitiço, mas a Micaela que causava pavor a tanta gente, era tão somente uma pobre criatura que morava sozinha em uma palhoça para os lados do Prado Velho e só saía a rua para revolver as latas de lixo em busca de comida.

Casaca de Urubu 

imagem gerada por IA 

José Cândido, conhecido pela alcunha de Casaca de Urubu, foi o cobrador de dívidas mais empenhado que essa cidade já viu. Era o terror dos caloteiros e dos maus pagadores. Quando o credor perdia as esperanças, deixava a cobrança a cargo do Casaca de Urubu, que era servidor do Tribunal de Relação, e nas horas vagas, vivia de comissões com a cobrança de contas atrasadas. 

Era infalível a intervenção de Casaca de Urubu, conta na sua mão, era conta recebida. Tinha uma lábia incrível e para ele todos os meios para fazer o devedor quitar o débito, eram perfeitamente aceitáveis; em último caso ameaçava com escândalos, com gritaria e polícia na porta.

Ficava nas imediações da Praça do Ferreira à cata de seus clientes, que fugiam às léguas quando o viam e evitavam transitar pela praça.  O cerco não falhava: chegava uma hora em que o devedor não tinha mais como fugir e tratava de pagar, porque o Casaca de Urubu ameaçava, perseguia na rua, falava alto, chamava a atenção de todas as maneiras.

O apelido veio das roupas que usava rotineiramente, fraques descartados pelos desembargadores, que geralmente ficavam enormes no homem baixinho e gorducho. José Cândido era epiléptico, e com frequência sofria ataques e caía na via pública, acometido do mal, sempre que era alvo da molecada que o perseguia, aos gritos, com o apelido que o revoltava: Casaca de urubu... bubu!

Certa vez recebeu a incumbência de cobrar determinado devedor, que não havia meios de lhe pagar apesar de todas as ameaças que costumava lançar mão. Cansado de tanto vai e vem, e em último caso, propôs ao devedor que lhe pagasse ao menos sua parte, os 50% de comissão a que tinha direito. E recebeu. Em seguida, devolveu a conta ao credor e disse-lhe sem a menor cerimônia: “aqui está a parte de sua conta que não consegui receber, sendo que, os 50% da minha comissão eu já recebi”.

A Noiva do Tempo 

imagem criada por IA

Outra personagem bastante conhecida era a Noiva do Tempo, que estava convencida de haver recebido por herança uma grande fortuna e vivia nos bancos procurando recebê-la. Contavam que a mulher havia sido abandonada pelo noivo no dia do casamento, e nas suas andanças pela cidade, usando seu velho vestido de noiva, sujo e esfarrapado,  procurava pelo noivo e delirava sobre sua imaginária riqueza. Um dia a Noiva do Tempo foi atropelada por um ônibus, no Centro, nas imediações da praça do Coração de Jesus, e levou sua busca para outras dimensões.

Manezinho do Bispo, O Porteiro do Palácio 

imagem da Internet

Manoel Cavalcante Rocha, vulgo Manezinho do Bispo começou a trabalhar no Palácio do Bispo no dia 1° de janeiro de 1884, aos 18 anos de idade, durante o bispado de Dom Joaquim José Vieira, e lá permaneceu até morrer, no dia 30 de julho de 1923.

Oficialmente era o porteiro do palácio, mas acabou exercendo várias funções no local. Era o primeiro a acordar, e o último a dormir, cuidava da capela, ajudava missa, atendia na portaria, distribuía esmolas aos pobres, servia refeições. Só punha os pés na rua em caso de necessidade.

Manezinho do Bispo tinha o dom da escrita, elaborava textos e pensamentos que a muitos parecia sem nexo ou sentido, mas que era motivo de orgulho do seu autor. Colaborava quase diariamente na seção “ineditoriais” do Jornal Correio do Ceará, depois reunia em folhetos os seus apreciados pensamentos, que eram ansiosamente aguardados por seus inúmeros admiradores.   

Eis alguns dos originais pensamentos do Manezinho do Bispo, que fizeram época e o transformaram em motivo de chacota na cidade.

O Passeio Público é um aprazível lugar para quem vai ali com boas intenções.

Amar sem ser amado é correr atrás de um trem e perder

O bacharel pobre que casa com moça pobre dá um tiro com a pistola do passado nos miolos do futuro.

Gostaria de ser como as borboletas: as borboletas voam e eu não voo.

Conta-se que o bispo D. Joaquim, aborrecido com a grande papelada que enchia o quarto do Manezinho, no Palácio Episcopal, chamou-o um dia e disse que queimasse aqueles folhetos. Manezinho saiu para a rua e queimou-os, vendendo pela metade do preço.Apesar do folclore em torno dos escritos de Manezinho do Bispo, muitos de seus textos são frutos de reflexões e pensamentos muito bem estruturados.

O Cangulo

Era um dos personagens mais assíduos das salas de exibição de filmes da velha Fortaleza, nome de batismo ignorado, conhecido pelo apelido de Cangulo, que ganhara nos tempos em que era aluno do Liceu do Ceará, onde cursara o primeiro ano. Popularíssimo no meio estudantil devido a feiura, um dia, resolveu largar a cidade natal e ir morar no Rio de Janeiro.  Durante muito tempo, ninguém ouviu falar dele.

Em agosto de 1909, os cinemas exibiam a reportagem do sepultamento do Presidente Afonso Pena, que falecera no mês anterior. O Pathé (primeiro cinematógrafo de Fortaleza, inaugurado em 1908, propriedade do italiano Vitor de Maio) estava literalmente cheio de estudantes, quando apareceu o Cangulo na tela, no melhor estilo papagaio de pirata, de pé por trás do cordão de isolamento dos guardas civis à porta do Palácio do Catete, quando saía o cortejo presidencial. Um grito uníssono  sacudiu a plateia:  – O Cangulo!!!

Seguiram-se estrepitosas salvas de palmas. Então, por mera coincidência, o Cangulo abriu a bocarra num sorriso sem dentes, como dirigido a seus antigos colegas. Grande aclamação abalou o cinema:  – Viva o Cangulo! Viva o Cangulo no Catete! Viva o sucessor de Afonso Pena! 

O escritor Gustavo Barroso o encontrou anos depois no Rio de Janeiro, vivendo como indigente, desiludido e acabado. Conseguiu com um amigo que o governo lhe fornecesse uma passagem de volta para Fortaleza, onde vivia seu pai, que vendia bananas na feira. Mas o Cangulo não deu sorte nesse retorno. Pouco tempo depois após uma discussão, foi assassinado a tiros de revólver por um certo Barbosa Lapada.  

Mané Coco era a alma do Café Java 

foto do Arquivo Nirez

Manuel Pereira dos Santos, vulgo Mané Coco era marmorista, e não foi só o fundador do Café Java, na Praça do Ferreira, ele era a alma do lugar, o que dirigiu e imortalizou o estabelecimento. Estava sempre de branco, de chapéu de palhinha e uma rosa no peito. Mané Coco era o bombeiro voluntário de Fortaleza. Sentiu cheiro de incêndio, ouviu falar de um, ele ia até lá. Carregava água para apagar o fogo; isolava os prédios vizinhos, enfiando o machado nos telhados, salvava vidas ameaçadas. Passava por cima das cumeeiras em chamas, assume os riscos, salva patrimônios. E não ganhava nada com isso.

Na rotina diária, sem incêndios, era o homem mais pacato deste mundo, e tinha habilidade para se sair de situações embaraçosas. Certa feita um grupo de cadetes da escola Militar, famosos pelas arruaças que promoviam pela cidade, o ameaçaram com uma boa surra, se não lhes dessem, gratuitamente, no Café Java, um jantar de sustância. Mané Coco promete então que o jantar ser servido, um jantar de galinha, e marca dia e hora.

No dia acertado, o bando de cadetes abanca-se na mesa já preparada. Ele ordena ao seu empregado: --- seu Chico, sirva o jantar a esses meninos.

O Chico serve cerimoniosamente diante de cada convidado forçado, um prato cheio de grãos de milho. Os cadetes se entreolharam surpresos, e quando reclamaram, Mané Coco respondeu com fingida ingenuidade: - estou cumprindo a promessa. Jantar de galinha não é milho? Os estudantes acharam muita graça e deixaram-no em paz. Quando morreu, foi uma comoção. Foi para a eternidade todo de branco, com sua eterna flor na lapela.


Fontes de pesquisa: 

Coração de Menino de Gustavo Barroso

Geografia Estética de Fortaleza, de Raimundo Girão

Coisas que o Tempo Levou, de Raimundo Menezes

Fortaleza Descalça, de Otacílio de Azevedo

O Consulado da China de Gustavo Barroso



terça-feira, 23 de julho de 2024

Tipos de Rua da Fortaleza de Outrora


Na Fortaleza de antigamente sempre eram encontrados alguns tipos de ruas, pessoas geralmente desprovidas de recursos e cuidados, sem suporte familiar, alguns viciados em bebidas alcoólicas, outros simplesmente abandonados à própria sorte, que apresentavam sintomas de deficiências mentais. 



Um dos mais conhecidos era o Antônio Galo Chinês, que perseguia e mostrava grande agressividade, quando os moleques, para irritá-lo, imitavam o canto de galo. A perseguição era certa, e munido de um pedaço de pau, o pobre do mendigo muitas vezes conseguia se vingar do autor da ofensa. Mas o Galo Chinês não estava sozinho, havia muitos outros: Papai-abre-o-olho; Mocó-Tinindo, Sabão-mole; Romão; Casaca-de- Urubu; Palheta.  

Não havia esgotos ou fossas, os despejos domésticos ficavam acumulados durante semanas, em barris especiais, de forma cônica, chamados de quimoas, ou cambrones, que eram retirados das casas e lançados ao mar pelo Romão e pelo Sabão-Mole. O Romão era um antigo escravo, brutalizado pela miséria. Imundo, andava meio curvado, apoiado numa bengala improvisada, rosnando palavrões por qualquer motivo. Sustenta-se de cachaça, come vísceras cruas que lhe dão na feira, misturadas com farinha. Quando pega no sono, em qualquer vão de porta, a mulher e as filhas, três negras igualmente miseráveis, que o seguem à distância, vasculham seus bolsos atrás das moedas que sobraram da aguardente.


Uma tarde ia o Romão com sua carga mau cheirosa, pela calçada da Santa Casa, rumo à rampa do gasômetro que leva à praia. De repente, o apodrecido fundo do barril de imundície cede e afunda enterrando-lhe a cabeça até os ombros. O infeliz braceja como um cego, enquanto toda a gente ao redor, foge sem coragem de socorrê-lo. As irmãs de caridade da Santa Casa, mandam os jardineiros lhe atirarem alguns baldes de água, que o salvam daquela indigna situação. Pobre do Romão! Quando não conseguiu mais trabalhar, deixaram-no viver a um canto da Cadeia Pública, onde terminou seus dias.

O concorrente do Romão no asqueroso ofício é o Sabão-Mole, mestiço alto, cuja face amarelada semelhante ao sabão amolecido na água, deu origem ao apelido. Andava em companhia de uma mulher bem mais velha do que ele, que parecia sua sombra. Um dia a mulher o abandonou, e o Sabão-Mole vagava solitário, procurando trabalho indagando nas portas das casas: – tem limpeza hoje, freguesa?

Junta-se um bando de moleque atrás dele, gritando:  – Sabão- Mole, cadê a velhinha?  E o rapaz que ninguém sequer sabe seu nome, empunha furiosamente seu cajado de jucá e grita reprimendas com palavras obscenas. É um mestre do baixo calão, conhece todo o vocabulário. As famílias retiram-se das janelas , batendo vidraças e venezianas. As vezes a polícia é chamada, mas ao invés de reprimir os agressores que o provocam, levam o Sabão-Mole aos empurrões e o trancafiam no xadrez por algumas horas. Quando atravessa a Praça do Ferreira, então um vasto areal emoldurado de árvores antigas, com um cacimbão de pedra de Lisboa ao meio e um café ou quiosque de madeira a cada canto, Padre Macaíba, sacerdote brincalhão, emboscado a um canto da Farmácia Pasteur, disfarçando a voz, faz a pergunta que tira o Sabão-Mole do sério – Sabão Mole, cadê a velhinha? – “estou reconhecendo essa voz... é do Padre Macaíba... olhe seu padre, só não digo que está na **##**@## , porque o senhor é padre. Senão, diria...”


O Casaca-de-urubu é um cabra com sangue nos olhos, valentão, contínuo do Tribunal de Relação, cobrador terrível de contas perdidas e vendedor de latas de goiabadas nas horas vagas. Veste os fraques usados que lhe dão os desembargadores, daí seu apelido. Epiléptico e perigoso, anda sempre gesticulando, murmurando coisas desconexas sobre os maus pagadores e doces de goiaba. A molecada grita de longe, precavidamente: – Casaca de Urubu! Bu! Bu!. Ele esperneia, atira pedras, dá socos em si próprio com toda a força; no auge da fúria, vem o ataque epilético, cai no chão, espumando, se machucando, às vezes sangrando.

O Palheta é alto, esquelético, de ombros levantados, e andar vagaroso. Usa um chapéu de palha sobre a testa, chupando um eterno cigarro apagado. Muito calmo, faz ponto pelas esquinas mais frequentadas do velho centro. Vive de dar calotes, de aplicar golpes, de iludir a boa-fé dos que param para ouvi-lo. Conta misérias, vende joguinhos, cartões de rifas falsas, ingressos de teatro sem valor e bilhetes corridos de loteria.

 – Palheta! Gritam os moleques e acrescentam uma rima obscena; não dá escândalo, finge que não é com ele. Muda de pouso muito sério, muito digno. Mas vai resmungando impropérios e proferindo todo um repertório de palavrões e obscenidades.

O Mocó-Tinindo mora numa casinha de taipa, à sombra de uma tamarineira no alto de um barranco, além do Benfica, na estrada da Parangaba. Ao tempo da festa de Bom Jesus, padroeiro da antiga Arronches, os bondes andam repletos de moças ou com os estribos cheios de rapazes. E estes por pilhéria, gritam quando passam pela casa, o apelido odiado: Mocó-tinindo! Ele surge à janela, faz gestos indecentes, e os xingamentos sobram para todos que estão no bonde. As moças ficam envergonhadas. Os rapazes morrem de rir.

O Papai-abre-o-olho é vítima de troça e fica tomado de fúria quando lhe gritam a alcunha, que responde com xingamentos e berros hediondos. Não se sabe a origem do apelido.

Um poeta dizia que a falta de piedade dos meninos por estes infelizes é um tanto inconsciente. Falta-lhes a educação cristã, a única capaz de imprimir às almas em formação, o sentimento de verdadeira caridade, que muita gente pensa que consiste em tirar uma moeda do bolso e dar uma esmola. Essas pobres criaturas, vítimas da pobreza, do abandono, do desdém e do desprezo, há muito repousam em paz, lá onde não ouvem mais os escárnios que tanto os faziam sofrer.


Extraído do livro “Coração de Menino” /Gustavo Barroso/Livraria José Olympio/Rio de Janeiro/1939. Post Publicação Fortaleza em Fotos/Imagens postais antigos e Arquivo Nirez. 

    

domingo, 19 de agosto de 2012

Estranhos no Ninho: os Tipos Populares de Fortaleza

A Praça do Ferreira começou a passar por um processo de urbanização a partir de 1902, na administração do intendente Guilherme Rocha. Essa urbanização vai muito além do mero aformoseamento: visava facilitar a circulação e determinava novas regras de convívio e utilização do espaço público.

Fortaleza sempre teve um elenco de tipos populares, capazes de chamar a atenção de quantos tivessem a oportunidade de vê-los. Suas esquisitices, práticas, adereços, atitudes - ficaram gravadas na crônica da cidade. Os tipos populares - como ficaram conhecidos - eram, em geral, pessoas pobres, desocupadas ou sem trabalho fixo, de origem, e domicílio incertos. Como os demais despossuídos que enchiam as ruas de Fortaleza, eram maltrapilhos e maltratados.
O palco preferido para suas aventuras era - como não poderia deixar de ser  - a Praça do Ferreira.  O surgimento desse fenômeno social em Fortaleza - e por certo, em outras cidades - guarda estreita relação com o processo de transformação urbana, que alterou significamente a vida e o ritmo da capital, entre o final do século XIX e o início do século XX.

Na intervenção de 1902, foram construídos os famosos cafés, quisques de madeira que ocupavam os quatro cantos da Praça do Ferreira

Os tipos populares, individuos empobrecidos e enlouquecidos, faziam parte daquele contingente de miseráveis produzidos ou intensificados pela velocidades das relações capitalistas em desenvolvimento no país. Suas esquisitices, manias ou distúrbios mentais, de algum modo foram provocados pelo impacto das transformações frenéticas nas ruas, no trabalho, nas casas e nas vidas das pessoas.
Nessa perspectiva, cabe ressaltar o que faziam ou o que eram essas pessoas antes de perderem seu norte material e mental e se tornarem alvos do riso e do escárnio da população.
O Casaca de Urubu, que em 1915 causava rebuliço público quando ouvia coro de pessoas entoarem Casaca de urubu...bu...bu! lutara na Guerra de Canudos quando moço, e chegou a ser oficial de justiça, sendo dispensado do emprego por ser epiléptico.
O De Rancho, que munido de uma velha carabina desativada saía pelas calçadas gritando e metralhando os pedestres - inclusive o automóvel de um presidente do Estado, que assustado com o atentado, mandou que o prendessem imediatamente - teria enlouquecido durante a primeira Guerra Mundial. Talvez fosse por isso que sua canção preferida era a que tinha esses versos: "Mamãe, mamãe não chore/ não chore que a guerra não vem cá".
O Pilombeta que odiava a palavra trabalho, fora agrimensor em Minas Gerais, era exímio jogador de xadrez e sabia tocar piano.
O Tertuliano, que se vestia de beato e fazia pregações engraçadas pelas praças, tinha sido dono de uma pequena venda. Assumira aquele furor místico depois de ficar ferido em violenta luta com policiais, que o prenderam por não ter atendido uma intimação do delegado.


 O comércio da Rua Major Facundo (antiga Rua da Palma), no ínicio do século XX

E o que fizeram para deliciar o povo e se consagrarem como a alegria da cidade? Eis alguns dos  perfis:
O Pilombeta, nascido em Minas Gerais, logo se notabilizou em Fortaleza por conta de seus colossais dois metros de altura, em meio a multidão da Praça do Ferreira. Era magro, bizarro e tinha braços e mãos tão longos, que dançavam ao vento. Usava um velho fraque e calças enxovalhadas. Tinha nariz grande e adunco, sobre o qual usava um pince-nez, uma boca mole e sensual onde se achava a ponta de um cigarro velho. Por tudo isso, o Pilombeta se distinguia pela sua feiura caracteristica, que impressionava as crianças em geral e as mulheres em particular.

Odiava o trabalho e achava que tal palavra devia ser riscada dos dicionários, mas como os  conhecidos já não aguentassem mais seus constantes pedidos de dinheiro, resolveram arranjar-lhe um emprego na Estrada de Ferro Baturité. Encaminharam uma carta ao superintendente, e este logo o colocou.Pilombeta, porém, mal acabara de obter o emprego, ainda no gabinete do engenheiro-chefe, não hesitou em solicitar seis meses de licença.
Em 1916, debilitado pela vida desregrada e pelo álcool, Pilombeta teve uma crise pulmonar aguda e foi internado no Asilo de Mendicidade, onde findou tristemente, tempos depois. Consta que ao entrar na instituição de caridade, dissera com profunda melancolia: Eis a casa dos desvalidos da sorte como eu, e feliz daquele que nela encontrar abrigo.

O Tostão, que viveu na cidade em 1910 e 1912, era magro, pálido, mal-tratado e tinha sido carregador de quimoas (vasilhames com detritos fecais das residências que eram lançados no mar). Sua alcunha veio do hábito de pedir um tostão a toda gente. Mas para consegui-lo corria o risco de se expor à ira de suas vítimas que assim se transformavam sadicamente em algozes. Isto porque só lhe davam o dinheiro depois que ele repetisse um singular alfabeto que criara: reunia-se um grupo em torno, e Tostão começava, no seu linguajar pronográfico, a vomitar torpezas, seguidas de cada letra do alfabeto, e envolvendo com certa graça, as figuras populares da época.

É de se imaginar o ódio dessas pessoas destacadas na sociedade, ao verem seus respeitáveis nomes constarem na arte irreverente e tosca do Tostão, ainda mais porque muita gente boa pagava para que ele repetisse seu insólito abedecedário. Este incluía também veneráveis instituições de saber da capital, como esses sobre a Academia Livre de Direito do Ceará: "Estudo na Academia/muito Direito Romano/Aprendendo Socoiologia/com o Professor Soriano..."

 O Cine teatro Majestic Palace foi inaugurado em 1917. A inauguração de um equipamento moderno e sofisticado, valorizou o centro e consolidou as mudanças na Praça do Ferreira
   
Outro que muito incomodava certos homens de bem da cidade, especialmente os comerciantes, era o Tertuliano, negociante que virou beato e que pregava sermões que ninguém entendia. Dizendo-se enviado de Deus, aos sábados, vestido com uma exótica indumentária de santo, percorria o comércio do centro, na coleta que ele chamava de "imposto celestial". E a coleta era grande. Ai porém, daquele que não contribuisse: ficava inscrito no livro negro do beato, que passava a citá-lo em público, em seus sermões diários, como um dos candidatos que iria sofrer as torturas de Lúcifer.


  Tertuliano ia diariamente à igreja, e tinha o hábito de escalar o Cruzeiro da Sé,  onde se amarrava de braços estendidos, a fingir-se crucificado. Não havia jeito de tirá-lo de lá, onde permanecia horas a fio.

Tertuliano, quando não estava em seus momentos mais serenos, assumia por vezes, uma fúria incontrolável, quando então se tornava perigosissimo, pois exibia uma força física incomum, dificil de ser contida. Nos momentos de lucidez, no entanto, cultivava a veia irônica e com respostas espirituosas, que ficaram na memória da cidade. Um delas foi a com que respondeu a alguém que lhe sugerira comprar um pince-nez, ao vê-lo lendo a Biblia com dificuldade num sermão público, devido a sua extrema miopia: meu caro, não seja tolo! você leu, na verdade, a vida dos santos da Igreja? Ouviu dizer, por acaso, que algum santo usasse óculos ou pince-nez?


Um outro tipo muito singular na Fortaleza dos anos 1910, era o Chagas dos Carneiros. Como os demais era alto, magro, nariz adunco, porém cego. Isso e mais um grande chapéu de palha e um espalhafatoso camisolão de algodão que lhe descia até os tornozelos, rentes com laços que atavam compridissimas ceroulas, já lhe bastavam para chamar a atenção e riso gerais. Mas o Chagas tinha ainda o original costume de trazer consigo 3 carneiros, pintados com cores diferentes. 
Por ser ferrenho monarquista, numa sátira mordaz à República vigente, Chagas apelidava seus animais com o nome de alguns dos mais conhecidos presidentes republicanos. Assim, o primeiro carneiro, pintado de azul-claro era o Afonso Pena; o segundo, verde-claro, era Rodrigues Alves e o terceiro, cor de rosa, era o presidente Campos Sales.
a simpatia pública conquistada por esses e outros tipos populares, justamente no período de maior intensificação de medidas disciplinares impostas pelos poderes e saberes comprometidos com a ordenação sócio-urbana, talvez se explique pela necessidade da população em buscar formas e canais de alívio e arrefecimento contra a pressão exercida pela rigidez do trabalho, da higienização e das regulamentações públicas e privadas. Entretanto, se os tipos populares, por um lado poderiam de alguma forma estar servindo aos objetivos da disciplinarização, na medida em que as suas cômicas excentricidades divertiam as massas, por outro lado é válido também ver os tipos populares como uma via que o povo encontrou, para através da irreverência, do riso, do sarcasmo, expressar seu descontentamento para com a normalização urbana, a carestia e as más condições de vida e de trabalho.       

fotos do Arquivo Nirez
extraído do livro de Sebastião Rogério Ponte
Fortaleza Belle Epoque: reformas urbanas e controle social (1860-1930)

terça-feira, 7 de julho de 2009

Personagens da Fortaleza Antiga: o Casaca de Urubu

Há muitos anos viveu em Fortaleza um individuo bastante popular, chamado José Cândido, que era conhecido pela alcunha de Casaca de Urubu. Baixinho, gorducho, vestido com uma descomunal casaca de cor indefinida, chapéu-coco, gravata borboleta, trazia invariavelmente os dedos indicador e mínimo da mão direita espetados no ar num gesto que lhe era característico  segurando com a outra mão um velho guarda-chuva, tão velho quanto a casaca que lhe valera o apelido.

José Cândido era epiléptico, por isso vivia caindo na via pública, acometido do mal, sempre que a molecada o perseguia, aos gritos, com o apelido que o revoltava: Casaca de urubu... bubu!
Nas horas vagas das suas funções de serventuário do Tribunal da Relação, Casaca de Urubu vivia de comissões com a cobrança de contas atrasadas de maus pagadores. Ficava sempre na Praça do Ferreira à cata dos seus clientes que lhe fugiam às léguas e evitavam transitar pela praça.



Mas Casaca de Urubu era habilidoso na arte de cobrar, era a quem entregavam como última esperança os papéis já amarelados e amarrotados das dívidas não pagas. Era infalível a intervenção de Casaca de Urubu, conta na sua mão era conta recebida. Tinha uma lábia incrível e para ele todos os meios para fazer o devedor quitar o débito, eram perfeitamente aceitáveis; em último caso ameaçava com escândalos, com gritaria e polícia na porta. Muitas vezes nessas ocasiões, era acometidos de ataques epilépticos, o que atraía grande número de espectadores. Era fórmula que não falhava: o devedor não tinha mais como fugir e tratava de pagar, porque o que Casaca de Urubu ameaçava, acabava realizando de fato.

Certa vez recebeu a incumbência de cobrar de determinado devedor, que não havia meios de lhe pagar apesar de todas as ameaças que costumava lançar mão. Cansado de tanto vai e vem, e em último caso, propôs ao devedor que lhe pagasse ao menos sua parte, os 50% de comissão a que tinha direito. E recebeu. Em seguida, devolveu a conta ao credor e disse-lhe sem a menor cerimônia: “aqui está a parte de sua conta que não consegui receber, sendo que, os 50% da minha comissão eu já recebi”.

José Cândido, o Casaca de Urubu viveu largos anos na Fortaleza de antigamente, vivendo dos expedientes mais inacreditáveis.

Extraído do livro: Coisas que o Tempo Levou, de Raimundo Menezes