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quarta-feira, 4 de janeiro de 2023

O Playboy do Ceará

(Londres) – O playboy e exportador cearense, José Alcy Siqueira, embarcou ontem, no transatlântico “Queen Mary”, com destino a Ney York. Por feliz coincidência, Mr. Siqueira tem vizinhos muito especiais: na cabine da direita, nada menos que Elizabeth Taylor e Richard Burton e na da esquerda, os Duques de Windsor. Da “Big Aplle”, Siqueira irá até Hollywood. 


Reproduzido do livro "Os Dourados Anos"



José Alcy Siqueira foi o playboy clássico de Fortaleza. Nascido em Viçosa do Ceará, ficaria rico em Fortaleza nos ramos de exportação de peles de animais silvestres e da construção civil. Construiu grandes edifícios de cimento armado, sendo propriamente um pioneiro nesse tipo de arranha-céus composto de pequenos apartamentos residenciais e salas comerciais. Os edifícios Jalcy passaram a fazer parte do cotidiano da cidade, incorporando-se ao vocabulário da população. Falava-se em alugar uma sala, uma quitinete nos Jalcy’s:  Avenida, Metrópole, Beira-Mar...


Mesmo sendo um homem que ficou rico trabalhando, Zé Alcy era um bom vivant, um mão aberta. Não tinha medo de gastar, gostava de ser rico e não fazia reservas disso. Seu carro era um Cadillac, polidíssimo e brilhante, que ostentava a placa número 1 do Departamento estadual de Trânsito.


Quando viajava para o Rio de janeiro, despachava o imenso automóvel por um cargueiro da Itaú ou pela via área na companhia Cruzeiro do Sul. Hospedava-se no Copacabana Palace, frequentava as melhores festas cariocas, namorava beldades nacionais e internacionais. Fez sucesso e causou espanto ao namorar e trazer à Fortaleza a Miss Brasil 1957, Terezinha Morango.


Quando visitava sua terra natal tinha que enfrentar a ladeira íngreme e escorregadia da Serra da Ibiapaba, pois nessas ocasiões não dispensava o Cadillac. A chegada do filho ilustre era sempre um alvoroço, um dia de festa em Viçosa. E no carrão, acenando vitorioso, Zé Alcy era caprichoso em sua vaidade.


Quando o cineasta Marcel Camus veio rodar no Ceará o filme “Bandeirantes”, requereu o Cadillac do Zé Alcy para algumas cenas. Ele não se negou a emprestar, mas impôs uma condição: queria participar do filme. E assim fez uma ponta em “Bandeirantes”, como motorista de seu próprio automóvel.


Quanto ao casamento, adiou o mais que pode. Em duas ocasiões esteve noivo com moças de grandes méritos, mas terminava desistindo. Num dos casos chegou a levar longe demais a decisão, causando constrangimentos e a maledicência, caindo na boca do povo. Diziam que ele não se casava por impossibilidades de ordem física. Todas as insinuações caíram por terra, quando contraiu matrimônio com uma médica de nome Vilani, com quem teve três filhos.


Uma das grandes qualidades do empreendedor, era a ousadia, enfrentava qualquer transtorno. Em muitas ocasiões a sorte não lhe sorriu e ele teve grandes prejuízos. As vezes não media as consequências de assumir um empreendimento, por isso, seus negócios sofriam bruscas oscilações: podia estar rico ou pobre de um dia para o outro.


José Alcy Siqueira viveu intensamente. Teve tudo que a aventura humana pode oferecer. Experimentou a apoteose e o abismo, teve a inveja e o aplauso de seus contemporâneos. E morreu pobre, como acontece aos líricos, afilhados da alegria.


PS: deve ter ficado mesmo muito pobre, porque nada encontrei na mídia sobre o homem, sequer a notícia, data ou local do seu falecimento. Alguns de seus empreendimentos;   


Edifício Jalcy Avenida

foto IBGE

Inaugurado em 1959 na Avenida Duque de Caxias, Centro, com 12 andares, o Jalcy Avenida foi por muito tempo, o prédio mais alto de Fortaleza. Projetado pelo arquiteto José Neudson Braga, foi também o primeiro edifício com o conceito residencial/comercial. Hoje, como quase todo o centro de Fortaleza, o prédio está subutilizado e com vários apartamentos fechados.


Jalcy Metrópole


imagem Google street view

Edifício comercial, localizado no centro, na Rua Guilherme Rocha.

  

Edifício Jalcy Beira Mar


construído em 1968, foi implodido no dia 13 de março de 1994, sendo essa a primeira vez que o procedimento (implosão de um edifício) foi usado em Fortaleza.



Balneário Pirapora Palace


Inaugurado em 1972, era um empreendimento de lazer localizado na serra de Maranguape. Cercado por uma paisagem natural, o balneário contava com hospedagem, piscinas, quedas d’águas, em meio a muito luxo e conforto. Vários cantores famosos se apresentaram no local. Dez anos depois da inauguração, em meio a uma grande seca que assolou o Ceará, o Pirapora Palace fechou as portas com grandes prejuízos. Anos mais tarde a estrutura e o que sobrou do hotel de lazer foram saqueados e o local invadido. 

   

 

Por Fátima Garcia
Fontes: Sábado, estação de viver, de Juarez Leitão
Os Dourados Anos, de Marciano Lopes   

segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

Pinto Martins, o herói esquecido


Euclides Pinto Martins nasceu em Camocim, em 1 de abril de 1892, filho de Antônio Pinto Martins e Maria de Araújo do Carmo Martins. Foi criado no vizinho Estado do Rio Grande do Norte porque seu pai, natural de Mossoró, foi convidado a representar a Companhia de Salinas Mossoró Assú, em Macau. Pinto Martins começou a trabalhar em Natal, como embarcadiço e com apenas 17 anos, era piloto de navio. No início de 1909, ainda adolescente, com a anuência do pai, foi para os Estados Unidos fazer um curso de Engenharia Mecânica. Concluído o curso, fez estágio na “Baldwin Locomotive”, uma fábrica de vagões.

Voltando ao Brasil em 1911, trabalhou na Inspetoria Federal de Obras contra as Secas, no cargo de engenheiro e na Estrada de Ferro em Natal. Retornou aos Estados Unidos por volta de 1918, depois da morte da esposa, a americana Gertrudes Mc Mullan, com quem teve uma filha chamada Ceres. Casou-se pela segunda vez com a também americana Adelaide Sulivan, com quem teve sua segunda filha, Adelaide Lillian, em 1920.  

Durante a década de 1920, Pinto Martins se interessou pela aviação, que se encontrava em pleno desenvolvimento. Em 1921, entrou em um curso de pilotagem e conseguiu o brevê.  Com sua entrada no meio aeronáutico, conheceu um veterano na área: Walter Hilton, instrutor de voo na Flórida. No ano seguinte, o jovem aviador cearense e Hilton lutaram para realizar um sonho, o de atravessar a América em um hidroavião, ação bastante temerária para a época. A primeira tentativa, levada a cabo em agosto de 1922 fracassou, e o hidroavião Sampaio Correa I caiu no mar próximo a Cuba.



Mas a dupla não desistiu, e ganhou patrocínio do jornal The New York World para uma nova tentativa.  A viagem começou em Nova Iorque, em novembro de 1922, e terminou no Rio de Janeiro, em fevereiro de 1923. Foram 175 dias de travessia, 5.678 km de percurso, e cerca de cem horas de voo, interrompidas muitas vezes pelos mais variados problemas, a bordo do hidroavião Sampaio Correa II. A rota New York/Rio de Janeiro não tinha sido realizada até então.

Desde o final da década de 1910 e por toda década de 1920, a história registra alguns feitos realizados por ousados viajantes, pioneiros nas viagens áreas transatlânticas. Já em 1919, os pilotos britânicos John William Alcock e Arthur Whitten Brown, realizaram o primeiro vôo transatlântico sem escalas. Eles partiram de St. John's, Terra Nova e Labrador, Canadá, para Clifden, Irlanda. O voo percorreu 3.138 km, e durou cerca de 12 horas. Foram premiados com 50 mil dólares. O feito dos britânicos foi superado logo após, em 1927, pelo piloto americano Charles Lindbergh, que realizou o primeiro voo solitário transatlântico, sem escalas em avião.

Lindbergh partiu do Condado de Nassau, Estado de Nova Iorque, nos Estados Unidos, em direção a Paris, França, em 20 de maio de 1927, tendo pousado na capital francesa no dia seguinte. O voo de Lindbergh durou 33 horas e 31 minutos. Pelo feito, o piloto recebeu o "Prêmio Orteig", de 25 mil dólares, em oferta desde 1919.



Pinto Martins também teve seu feito reconhecido: foi recepcionado pelo Presidente Artur Bernardes e recebeu um prêmio de 200 contos de réis. Pinto Martins faleceu no Rio de Janeiro em 12 de abril de 1924, num episódio que nunca foi devidamente esclarecido. É sabido que ele foi encontrado morto, ao que se diz por suicídio, em seu apartamento. Tinha 32 anos de idade.      

O herói apagado



Uma lei definiu o nome do aeroporto de Fortaleza:  A Lei nº 1602, de 13 de maio de 1952, denomina “Aeroporto Pinto Martins” o Aeroporto do Cocorote, em Fortaleza. Assinada por João Café Filho, que à época acumulava as funções de vice presidente da República e a Presidência do Senado Federal. Mas o aeroporto de Fortaleza já não ostenta o nome de Pinto Martins em sua fachada. Normal. Como cobrar de estrangeiros a preservação da memória de nossas personalidades, se nós mesmo não temos essa preocupação?       

fotos da Internet


sábado, 11 de abril de 2015

Um Tal de Burra Preta

Praça do Ferreira nos anos 30

A cidade de Fortaleza, em sua expressão viva, isto é, a partir de pessoas que aqui viveram e que se inscreveram em nossa memória pelos motivos os mais diversos, sempre foi muito pródiga em tipos populares. Nesse sentido, iniciamos uma viagem pelas ruas e praças suspensas no tempo, em busca dessas personagens, resgatando-lhe atitudes, comportamentos, visando, assim, a um retrato o mais nítido possível de uma época que ainda permanece muito viva na memória de alguns. Dentre esses tipos, um obteve grande popularidade: o (a) Burra Preta.


charge do "O Nordeste" 

Era um homenzarrão exótico e espalhafatoso que vadiava por nossa Cidade. Corpulento, preto acinzentado, grande estatura, pesando em torno  de 120 quilos, quadris arredondados, cintura fina, rebolado feminino, andar apressado, pouco falava, diziam ser pernambucano. Para outros, no entanto, era identificado como natural da Bahia.

Percorria a Praça do Ferreira, alheio aos gracejos que lhe eram dirigidos. Era como se as palavras ou os insultos não lhe dissessem respeito, pois, a rigor, o que visava, antes de tudo, era o reconhecimento de seu sucesso diante do público. Apareceu em nossa Fortaleza, trabalhando em hotéis ou pensões familiares dos anos 50/60. 

Depois, entregou-se à ociosidade, passando a desfilar pelas ruas do centro nos começos e fins de expedientes nos horários mais movimentados. O que, evidentemente, provocava um certo movimento em termos das reações dos passantes, quer se dirigindo ao trabalho, ou mesmo deste retornando.

Os passeios de "Burra Preta" aconteciam durante as manhãs e a tarde depois das 17 horas. Passava defronte o Cine São Luiz, quando a vaia se expandia até a Garapeira da Leão do Sul. Caminhava a passos largos, na Praça do Ferreira, sem dar ou travar conversações com as pessoas; quando muito, pedia cigarro ou "merenda". Usava costumeiramente bermudão de tecido de "veludo", alternados por cores em tonalidade preta, azul marinho ou "Bordeaux", com suspensórios que seguravam a calça pelo cós. Era, por assim dizer, uma fantasia fora de época.

Quando adentrava a Praça, surgia inevitavelmente outra vaia prolongada com galhofadas em tom compassado. A multidão, então, altercava em ritmo bem sonoro: Bur-ra Pre-ta!!! Bur-ra Pre-ta!!! Bur-ra Pre-ta!!! Bur-ra Pre-ta-ta-ta!!! As vozes iam, aos gritos, de um lado para outro. E, mesmo que as pessoas - em especial, os jovens rapazes - estribilhassem com estrondo o Bur-ra Pre-ta!!!, a ele tal manifestação era absolutamente indiferente, não lhe causando, portanto, o menor incômodo.

Parece que, no íntimo, gozava o sucesso que fazia, via-se ovacionado. Sem dar a menor atenção ao que ouvia, colocava os dedos nas atacas das calças e dos suspensórios, balançando as ancas, freneticamente, andando serenamente por entre as árvores, passando, então, por entre os que se apinhavam em ruas ou praças. 

As risadas quebravam a monotonia de quem se apressava para apanhar condução em direção às suas residências, tornando hilariante e pitoresco aquele logradouro por momentos divertidos a todos quanto a essas cenas assistiam. Isso tornava o ambiente citadino mais festivo abrindo ânimo, sorriso dos vendedores de tecidos que se movimentava para mais uma jornada diária nas lojas da Praça do Ferreira, abrindo com alegria o dia de trabalho. Não se podia, em verdade, avaliar-lhe o humor, pois, consoante já afirmamos, praticamente não se comunicava com os outros.

Praça do Ferreira - 1969
A impressão que impunha, a partir de seus comportamentos, era a de quem se exibia a um público imenso, de um palco distante, mas que por sobre este pousassem olhos fixos, atentos. Causava, desse modo, um exuberante espetáculo circense. 


A cidade grande, densamente povoada, perdeu de vista estes tipos que se destacavam pelo comportamento bizarro, pela postura fora de padrão, pelas vestes originais. O Burra Preta foi provavelmente, o último exemplar de uma série, o último a ostentar sua excentricidade numa Fortaleza que já foi mais afetiva.
 

extraído da Crônica de Zenilo Almada
fotos do Arquivo Nirez


quinta-feira, 21 de março de 2013

Doutor José Frota


José Ribeiro da Frota nasceu em Viçosa do Ceará, em 17 de junho de 1880, filho de José Gomes da Frota e  Primílvia Avelino da Silva Frota, família tradicional da região.  Depois de fazer os preparatórios no Liceu do Ceará e perder o pai, seguiu para o Rio de Janeiro, onde iniciou os estudos de Medicina, se formando em 1906 pela Faculdade de Medicina da Bahia. Fez cursos de especialização em Berlim, Paris, Viena e clinicou em Fortaleza.


A foto registra a fundação do Centro Médico Cearense no dia 20 de fevereiro de 1913.  Nela estão da esquerda para a direita em pé: Adalberto Studart, Raimundo Gomes, José Frota, Nelon Catunda, Amâncio Filomeno, Afonso Pontes, Antônio Mesiano, Eliezer Studart e César Cals. 
Sentados, na mesma direção: Meton de Alencar, Eduardo Salgado, Barão de Studart, Manuelito Moreira e Costa Ribeiro com o menino José Carlos da Costa Ribeiro Filho. A foto foi batida na porta da Santa Casa da Misericórdia. (foto e identificação Nirez) 

Na Capital cearense,  montou seu consultório na farmácia de Turíbio Mota.  Exerceu a medicina durante mais de cinquenta anos, como clínico geral, ginecologista, obstetra e cirurgião prestando valiosos e humanitários serviços à população pobre. 
Foi um dos fundadores da Casa de Saúde Eduardo Salgado, da Maternidade João Moreira e da Casa de Saúde César Cals.


Prédio da Assistência Municipal no dia de sua inauguração em 26 de maio de 1940. Fica na esquina das Ruas Senador Pompeu com Antônio Pompeu

Exerceu os cargos de diretor da Assistência Municipal, da Casa de Saúde Dr. César Cals, da Maternidade Dr. João Moreira, Diretor Clínico da Santa Casa da Misericórdia,  Diretor do Departamento Estadual de Proteção à Maternidade e à Infância,  Fundador e Presidente do Centro Médico Cearense.
Teve como colegas de trabalho os doutores César Cals, Antônio Justa, Eliezer Studart, Manuelito Moreira e Adalberto Studart.


Casa de Saúde César Cals, na Praça da Lagoinha

Como diretor da Assistência Municipal, transformou o Hospital do Pronto Socorro em um dos melhores do gênero, de todo o país. Faleceu em 1 de março de 1959. 
É nome de bairro em Porangabuçu e do moderno edifício da Assistência Municipal. 


fotos do Arquivo Nirez
fonte:
Revista do Instituto do Ceará

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

As Fantásticas Histórias do Doutor Batérico



Prédio onde ficavam os transmissores da Ceará Rádio Clube
Em outubro de 1941 a Ceará Rádio Clube (PRE-9) mudou-se das Damas (Avenida João Pessoa) para o Edifício Diogo e os transmissores foram para a Rua Senador Pompeu esquina com uma rua de um só quarteirão, sem denominação. Depois de vários anos lá, mudou-se, em 1960 para a Estância (hoje Dionísio Torres) e o terreno dos transmissores foi vendidos. A rua sem denominação passou a chamar-se Rua PRE-9.


Em fins da década de 1950, as noites domingueiras da Ceará Rádio Clube (PRE-9) eram lideradas por alguns programas  bastante populares e de forte audiência. Um desses programas era intitulado Eles Fazem a Cidade, que fazia tanto sucesso que não tinha hora para acabar.

Eles Fazem a Cidade buscava por tipos especiais, que por suas excentricidades, seu comportamento exótico ou curioso, conquistavam espaço e popularidade no meio em que viviam. Era o caso de Dalila, uma velhinha simpática que, por esclerose ou outra patologia qualquer, dizia-se deputada estadual, frequentando normalmente as sessões de Assembleia Legislativa, como se fosse dona de um mandato popular. Dalila foi ao programa e falou por mais de uma hora sobre suas atividades políticas. 

 Edíficio Pajeú para aonde a PRE-9 mudou-se em 1949

Sucesso, porém, obteve José Teodorico, o célebre Dr. Batérico, emérito contador de histórias fantásticas, todas produto de sua fértil imaginação, a par de uma capacidade incomum de narrar com detalhes, fatos que, em determinados momentos, chegavam a convencer.  Noutros, as histórias eram tão absurdas, que logo deixavam claro a arte que o Dr. Batérico exercia com raro talento:  a de contar lorotas.

Figura conhecida, nascida na classe média das primeiras décadas do século passado, Batérico era mecânico de velocímetros, proprietário de uma oficina localizada na Rua Meton de Alencar, próxima a Faculdade de Direito. Lembrando seus dias de artista do velho Centro Artístico da Avenida Tristão Gonçalves, Batérico tocava piano no programa Coisas que o Tempo Levou, comandado por José Limaverde.  


 os programas de auditório eram as maiores atrações das emissoras de rádio da época

Pianista de ouvido, capaz de executar com certa graça algumas peças populares, a imaginação criadora de Batérico concebeu a história de que, antes da Segunda Guerra Mundial, em andanças pela Europa (o mecânico/pianista  nunca saiu de Fortaleza), chegou à Roma e fez amizade com o ditador fascista Benito Mussolini, a quem, assegurava, dera aulas de piano.
Como especialista em mecânica automotiva, viu-se transformado em mestre do volante, ensinando a ninguém menos do que a Francisco Franco, o ditador espanhol. E foi amigo de Stalin, com quem costumava beber cachaça, nas noites geladas de Moscou, em pleno Kremlin, cachaça levada do Ceará, muito apreciada pelo líder russo.

Pontilhado de conversas assim, o programa com o Dr. Batérico invadiu todos os horários, com os ouvintes lembrando por telefone, essa ou aquela história famosa que já ouvira do pianista, como a do disco-voador que sofreu uma pane em Fortaleza. Incrível – informava Batérico ao microfone – mas a Base Aérea mandou chamá-lo em casa, com urgência e em absoluto sigilo, para tirar a nave espacial do “prego”. 
  
Os detalhes eram simplesmente sensacionais. O tamanho gigantesco de uma chave de fenda de que só ele dispunha; a altura dos tripulantes da nave que, para serem ouvidos, exigiam a colocação de um cavalete para atingir a sua cabeça. Havia ainda uma “Luana” (os tripulantes eram da Lua e não de Marte, eternos suspeitos dessas visitas intergalácticas), de tamanho descomunal que, ao dar-lhe um beijo de agradecimento quando da conclusão do trabalho, quase o esmaga com a força dos braços.

As risadas ecoavam por toda a Fortaleza naquela noite. Batérico dominava a audiência num show de potocas inéditas e extremamente cômicas. Um sucesso inesquecível. 

extraído do livro de Blanchard Girão
"Sessão das Quatro"  cenas e atores de um tempo mais feliz