Mostrando postagens com marcador José Tertuliano. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador José Tertuliano. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Ceará, Molecagens e Tipos Populares

Rua Major Facundo - trecho Praça do Ferreira - início do século XX

Nas primeiras décadas deste século, Fortaleza conheceu e vivenciou muitos tipos populares, figuras curiosas que desfilaram pelas páginas de cronistas da época e que fizeram parte da história jocosa do Ceará. 

A notoriedade dessas figuras singulares advinha de várias razões: uns se destacavam pelos adereços e indumentárias, outros pelas atitudes estranhas e anomalias de comportamento. Eram sempre pessoas sui generis que despertavam a atenção por suas excentricidades. Sua presença em público, era de imediato, motivo para aglomeração ou cortejos, que não raro, terminavam em aplausos ou vaias. Pessoas de destaque e molecada misturavam-se geralmente em torno desses personagens, que saíam pelas ruas e praças, passeando sua descontração, sua esquisitice. Alguns reagiam enraivecidos, coléricos, apopléticos; outros passavam sobranceiros, garbosos, indiferentes.

Orgulha-se o Ceará de três coisas que Deus lhe deu: a inteligência, o sol e a molecagem. Essa última dádiva é como que a sua filosofia de vida ”de tanto não ter pena de si mesmo em face da sina ou da sorte o homem (cearense) acaba por não ter comiseração para com o seu semelhante. De tanto testemunhar a própria dor, o homem passa a observar a dor alheia e descobrir facetas cômicas” – diz Abelardo F. Montenegro.

O Cruzeiro da Sé era o palco de um desses tipos estranhos, o  Tertuliano. O homem usando vestes talares, escalava o cruzeiro da catedral, onde se amarrava de braços estendidos, a fingir o Cristo no Calvário. Não havia jeito de tirá-lo de lá, onde permanecia horas a fio.

Foi essa concepção filosófica que popularizou vasto elenco desses vultos de rua: Chagas dos Carneiros, chapelão de palha, monarquista ferrenho, sempre acompanhado de três carneiros pintados de anilina; José de Sales, excêntrico, de jaquetão avermelhado, empunhando seu bandolim; Bem-Bem, com a garapeira, de cujo teto pendiam grotescas esculturas feitas por ele mesmo,  de quengas de coco; o negro Mestre Arcanjo, velho sapateiro, extraordinariamente trapalhão; o hilariante Chico Coruja que todo dia tinha uma anedota nova para contar; o Casaca de Urubu, gritando palavrões e se esmurrando; o De Rancho, que portava uma carabina enferrujada e se achava constantemente em pé de guerra; Capitão Pirarucu, brandindo a bengala, empregando a rima que todos já esperavam; Tertuliano, metido em indumentária de profeta, considerando-se um enviado de Deus; Fabrício, o calendário o ambulante; o mendigo Tostão; o Jararaca, o Pilombeta; o Zé Levi... 

O Zé Levi ocupava o coreto da Praça do Ferreira, onde pronunciava inflamados discursos, com palavras desconexas, que faziam a festa dos desocupados que paravam para ouvi-lo.

As mulheres também compareciam na lista das excêntricas criaturas que faziam a alegria e a festa do Ceará Moleque: Mimosa, Noiva do Tempo, Teodora, Chica Pinote, Iaiá-tem-ovos, Mucurana, Ferrugem...

Até animal, nesta terra descontraída e galhofeira, ganhou foros de popularidade: o bode Ioyô. Era uma espécie de mascote da capital, uma figura obrigatória na pacatez da cidade provinciana. Todos o estimavam. Inclusive os fiscais da prefeitura tinham recomendação para não o importunar. Perambulou imune e admirado, de 1915 a 1931. Ao morrer, teve seu necrológio estampado em jornais e seu corpo embalsamado. A cidade era pródiga em tipos populares: tinha para todos os gostos, para os da intelectualidade e os do canelau.

Manoel Cavalcante Rocha, jocosamente conhecido pela alcunha de Manezinho do Bispo, pernambucano, nascido em 12 de maio de 1856, porteiro por muitos anos do Palácio Episcopal, foi uma das figuras mais curiosas e populares da Fortaleza antiga.

Nesse cenário de irreverência e galhofa, o personagem talvez mais relevante, que desfrutou de larga popularidade por mais de 30 anos, notadamente no meio cultural, foi o Manezinho do Bispo. Vestia-se com um paletó preto-cinza de alpaca que lhe alcançava os joelhos e que deixava aparecer os longos punhos da camisa outrora branca. Nos bolsos do jaquetão, verdadeiros alforjes, folhetos e jornais. Tinha seus escritos publicados na seção Ineditoriaes, do Jornal Correio do Ceará. Quando M.C. Rocha não escreve – diziam – o jornal não vale um vintém.

A filosofia da gozação é que empurrou, com a barriga do sadismo, o Porteiro do Palácio Episcopal para a linha de frente do folhetinismo, das colunas dos jornais e dos auditórios transformando-o em figura notória.

Hoje, mudaram-se os parâmetros de julgamento em que se apoiam as pessoas para aferir popularidade. Fortaleza cresceu, e na obesidade populacional de mais de 2,5 milhões de habitantes, não há mais lugar para esse tipo de humor.


Extraído do livro
O Porteiro do Palácio (ou as estripulias literárias do Manezinho do Bispo), de Waldy Sombra


quarta-feira, 16 de outubro de 2013

O Bem Querer da Memória

O Abrigo Central na Praça do Ferreira, conheceu personalidades que ficaram na memória da cidade, como o Pedão da Bananada. 

O que fica na lembrança, que o tempo não consegue varrer, é o bem querer da memória, é o que se julgava ter esquecido.  E a cidade também tem os seus: o Roque Macedo, que adivinhava chuvas; o Pedão da Bananada; o Tostão quimoeiro, e até o João da Silva Tavares, dos idos de 1802, professor régio da Vila de Fortaleza e o primeiro mexeriqueiro de que se tem notícia – se a pessoa não tinha defeitos, descobria-os, inventava – no dizer de Raimundo Menezes em “Coisas que o Tempo Levou”.  Tipos, bichos e até árvores que se tornaram populares ao herdar da cidade, as ruas. Eles formam o álbum de retratos da Fortaleza das décadas de 1910 a 1920.


A garapeira do Bem-bem na Praça Carolina (atual Waldemar Falcão)  paixão pela França, briga de grilos e garapa doida (foto de 1907)

Bem-Bem - Dono de uma garaperia, na Praça Carolina, juntou dinheiro e foi à Paris. Voltou assinando “Bien-Bien Garapiere”. O caldo de cana que sobrava, no terceiro dia era chamado de garapa doida, propalada como o melhor refresco para afinar o sangue e fazer as pessoas pálidas ficarem coradas. Bem-Bem se gabava que os copos da garapeira eram limpos, tinha uma bacia com pedra de rio, mergulhava o copo dentro, mexia e dava para o freguês. Trouxe da Europa uma grande novidade: a briga de grilos. Ele tinha dois ou três grilos dentro de uma bacia, que se exibiam para o público.


Manezinho do Bispo - Conta-se que o bispo D. Joaquim, aborrecido com a grande papelada que enchia o quarto do porteiro do Palácio Episcopal, chamou-o um dia e disse que queimasse aqueles folhetos. Manezinho saiu para a rua e queimou-os, vendendo pela metade do preço.

Manezinho do Bispo – andava para cima e para baixo, com os seus pensamentos. E também publicava, no Correio do Ceará e em folhetos, suas peças literárias, como a “Biografia de uma ex-mãe – acompanhada de um passatempo”. “Amar sem ser amado é correr atrás de um trem e perder”. Manuel Cavalcante da Rocha, sem os adereços da poesia, era pernambucano e porteiro do Palácio Episcopal. Para Otacílio de Azevedo em “Fortaleza Descalça”, Manezinho do Bispo foi talvez o iniciador do movimento modernista que explodiu no Brasil em 1922. Pelo seu gosto, ele teria sido como as borboletas: “As borboletas voam e eu não voo”.
Casaca de Urubu – José Cândido lutou na Guerra de Canudos (1896-1897) e perdeu o juízo por lá. Epilético era avistado em 1915, demitido do Tribunal da Relação, vendendo doces de goiaba, vestido com os surrados fraques dos desembargadores.
De Rancho – Jesuíno Rosendo sobreviveu à I Guerra Mundial e continuou a metralhar os passantes com a carabina desativada. Atrás do seu tabuleiro de frutas e verduras,  um magote de meninos a se divertir com os ataques. Certa vez ao avistar um automóvel, fez pontaria para o ocupante: Sentido! Preparar Armas! O automóvel freou bruscamente e o ocupante, refazendo-se do susto, gritou furioso: Prendam esse sujeito! O ocupante do carro era o Presidente do Estado.

O cruzeiro da Sé era um dos palcos favoritos para o fanático Tertuliano

José Tertuliano – proprietário de um pequeno comércio, fechou o negócio e virou beato. As praças se converteram em púlpitos para sermões que ninguém entendia.  Escalava o cruzeiro da catedral da Sé, onde se amarrava de braços estendidos, a fingir o Cristo no Calvário, onde permanecia horas a fio. Aos sábados, em sua exótica indumentária de santo, com um quadro do Coração de Jesus pendurado nos ombros, percorria o comércio na coleta semanal do imposto celestial.


O Chagas dos Carneiros surgiu em Fortaleza por volta de 1911. Alto, magro, nariz grande e adunco, cego, usava um chapéu de palha e costumava trajar um espalhafatoso camisolão branco que lhe descia até os joelhos.

Chagas dos Carneiros – músico ambulante, que perambulava acompanhado por meia dúzia de carneiros e uma gaita. Os bichos, além de coloridos, eram identificados pelos nomes de figuras políticas: Deodoro, Benjamin Constant, Floriano, Hermes, Rui Barbosa, Franco Rabelo.  Cego, com eles e a música palmilhou o Nordeste. Os seus instrumentos eram fabricados por ele: uma gaita de taquara com bocal de cera, um caixote de sabão e um cachimbo de tubo de pau e cabeça de barro com que imitava os pássaros.
Mané Coco – Manuel Pereira dos Santos era proprietário do Café Java. Entendia do conserto de toda espécie de relógios e máquinas de costura, dos quais, não raro, sobravam peças que eram honestamente devolvidas num embrulho. Também acumulava a função de bombeiro, quando havia qualquer incêndio na cidade, era chamado a combater o fogo, sozinho, armado com dois baldes de madeira e uma machadinha.


Muitas histórias são contadas sobre o bode que bebia cachaça e tinha preferência por moças. Yoiô participou de atos políticos em coretos, praças e saraus literários, comeu a fita inaugural do Cine Moderno, assistiu peça no Teatro José de Alencar, passeou de bonde, perambulou pelas igrejas e até pela Câmara Municipal.

O Bode e a Ema – houve um bode, o Yoyô que se afeiçoou a boemia desde quando migrou para Fortaleza com um retirante da seca em 1915 e foi vendido  à firma Rossbach Brazil Company, na Praia de Iracema. Yoyô flanava até a Praça do Ferreira. Gostava de brincar com o povo, fingindo que dava cabeçadas no transeunte. Tinha além do bode, a ema do Parque da Liberdade. A ave tinha um andar marcial e todo mundo olhava, mas a ema não dava confiança a ninguém. Dava uma volta na Praça do Ferreira e se voltava para o Parque.


O Oitizeiro do Rosário, árvore centenária, foi cortada em 1929 por determinação do prefeito Álvaro Weyne

Árvores afetivas – cinco árvores adquiriram o direito de cidadania em Fortaleza. Ao tempo em que a cidade era visível do mar, o oitizeiro do Rosário acenava indicando a terra firme ,a árvore servia de baliza às jangadas. E abrigava conversas – sobre política, arte,  religião e vida alheia. Outra benquerença do povo era o cajueiro botador, na Praça do Ferreira. Todo dia 1° de abril dava sombra à urna que elegia o batalhão dos potoqueiros. Havia ainda a árvore da liberdade, um coqueiro plantado em 1831 no Pátio do Palácio da Luz, na Praça General Tibúrcio, para comemorar a abdicação de D. Pedro I. A casuarina do cemitério Velho, árvore que aceitou bondosamente o destino que lhe deram, chorar os mortos. Pela tarde partia de sua fronde um ressoar baixinho como se fora um sino que dobrasse a finados. Em último lugar havia o coqueiro da Praça da Estação. Era o que restou do sítio do peixeiro José Felipe,  antigo servidor da Guarda Nacional, que nas noites de luar conversava com o coqueiro.

fotos do Arquivo Nirez
extraído da Revista Fortaleza, fascículo 9, Fortaleza Descalça, de Otacílio de Azevedo
Geografia Estética de Fortaleza, de Raimundo Girão. 


domingo, 19 de agosto de 2012

Estranhos no Ninho: os Tipos Populares de Fortaleza

A Praça do Ferreira começou a passar por um processo de urbanização a partir de 1902, na administração do intendente Guilherme Rocha. Essa urbanização vai muito além do mero aformoseamento: visava facilitar a circulação e determinava novas regras de convívio e utilização do espaço público.

Fortaleza sempre teve um elenco de tipos populares, capazes de chamar a atenção de quantos tivessem a oportunidade de vê-los. Suas esquisitices, práticas, adereços, atitudes - ficaram gravadas na crônica da cidade. Os tipos populares - como ficaram conhecidos - eram, em geral, pessoas pobres, desocupadas ou sem trabalho fixo, de origem, e domicílio incertos. Como os demais despossuídos que enchiam as ruas de Fortaleza, eram maltrapilhos e maltratados.
O palco preferido para suas aventuras era - como não poderia deixar de ser  - a Praça do Ferreira.  O surgimento desse fenômeno social em Fortaleza - e por certo, em outras cidades - guarda estreita relação com o processo de transformação urbana, que alterou significamente a vida e o ritmo da capital, entre o final do século XIX e o início do século XX.

Na intervenção de 1902, foram construídos os famosos cafés, quisques de madeira que ocupavam os quatro cantos da Praça do Ferreira

Os tipos populares, individuos empobrecidos e enlouquecidos, faziam parte daquele contingente de miseráveis produzidos ou intensificados pela velocidades das relações capitalistas em desenvolvimento no país. Suas esquisitices, manias ou distúrbios mentais, de algum modo foram provocados pelo impacto das transformações frenéticas nas ruas, no trabalho, nas casas e nas vidas das pessoas.
Nessa perspectiva, cabe ressaltar o que faziam ou o que eram essas pessoas antes de perderem seu norte material e mental e se tornarem alvos do riso e do escárnio da população.
O Casaca de Urubu, que em 1915 causava rebuliço público quando ouvia coro de pessoas entoarem Casaca de urubu...bu...bu! lutara na Guerra de Canudos quando moço, e chegou a ser oficial de justiça, sendo dispensado do emprego por ser epiléptico.
O De Rancho, que munido de uma velha carabina desativada saía pelas calçadas gritando e metralhando os pedestres - inclusive o automóvel de um presidente do Estado, que assustado com o atentado, mandou que o prendessem imediatamente - teria enlouquecido durante a primeira Guerra Mundial. Talvez fosse por isso que sua canção preferida era a que tinha esses versos: "Mamãe, mamãe não chore/ não chore que a guerra não vem cá".
O Pilombeta que odiava a palavra trabalho, fora agrimensor em Minas Gerais, era exímio jogador de xadrez e sabia tocar piano.
O Tertuliano, que se vestia de beato e fazia pregações engraçadas pelas praças, tinha sido dono de uma pequena venda. Assumira aquele furor místico depois de ficar ferido em violenta luta com policiais, que o prenderam por não ter atendido uma intimação do delegado.


 O comércio da Rua Major Facundo (antiga Rua da Palma), no ínicio do século XX

E o que fizeram para deliciar o povo e se consagrarem como a alegria da cidade? Eis alguns dos  perfis:
O Pilombeta, nascido em Minas Gerais, logo se notabilizou em Fortaleza por conta de seus colossais dois metros de altura, em meio a multidão da Praça do Ferreira. Era magro, bizarro e tinha braços e mãos tão longos, que dançavam ao vento. Usava um velho fraque e calças enxovalhadas. Tinha nariz grande e adunco, sobre o qual usava um pince-nez, uma boca mole e sensual onde se achava a ponta de um cigarro velho. Por tudo isso, o Pilombeta se distinguia pela sua feiura caracteristica, que impressionava as crianças em geral e as mulheres em particular.

Odiava o trabalho e achava que tal palavra devia ser riscada dos dicionários, mas como os  conhecidos já não aguentassem mais seus constantes pedidos de dinheiro, resolveram arranjar-lhe um emprego na Estrada de Ferro Baturité. Encaminharam uma carta ao superintendente, e este logo o colocou.Pilombeta, porém, mal acabara de obter o emprego, ainda no gabinete do engenheiro-chefe, não hesitou em solicitar seis meses de licença.
Em 1916, debilitado pela vida desregrada e pelo álcool, Pilombeta teve uma crise pulmonar aguda e foi internado no Asilo de Mendicidade, onde findou tristemente, tempos depois. Consta que ao entrar na instituição de caridade, dissera com profunda melancolia: Eis a casa dos desvalidos da sorte como eu, e feliz daquele que nela encontrar abrigo.

O Tostão, que viveu na cidade em 1910 e 1912, era magro, pálido, mal-tratado e tinha sido carregador de quimoas (vasilhames com detritos fecais das residências que eram lançados no mar). Sua alcunha veio do hábito de pedir um tostão a toda gente. Mas para consegui-lo corria o risco de se expor à ira de suas vítimas que assim se transformavam sadicamente em algozes. Isto porque só lhe davam o dinheiro depois que ele repetisse um singular alfabeto que criara: reunia-se um grupo em torno, e Tostão começava, no seu linguajar pronográfico, a vomitar torpezas, seguidas de cada letra do alfabeto, e envolvendo com certa graça, as figuras populares da época.

É de se imaginar o ódio dessas pessoas destacadas na sociedade, ao verem seus respeitáveis nomes constarem na arte irreverente e tosca do Tostão, ainda mais porque muita gente boa pagava para que ele repetisse seu insólito abedecedário. Este incluía também veneráveis instituições de saber da capital, como esses sobre a Academia Livre de Direito do Ceará: "Estudo na Academia/muito Direito Romano/Aprendendo Socoiologia/com o Professor Soriano..."

 O Cine teatro Majestic Palace foi inaugurado em 1917. A inauguração de um equipamento moderno e sofisticado, valorizou o centro e consolidou as mudanças na Praça do Ferreira
   
Outro que muito incomodava certos homens de bem da cidade, especialmente os comerciantes, era o Tertuliano, negociante que virou beato e que pregava sermões que ninguém entendia. Dizendo-se enviado de Deus, aos sábados, vestido com uma exótica indumentária de santo, percorria o comércio do centro, na coleta que ele chamava de "imposto celestial". E a coleta era grande. Ai porém, daquele que não contribuisse: ficava inscrito no livro negro do beato, que passava a citá-lo em público, em seus sermões diários, como um dos candidatos que iria sofrer as torturas de Lúcifer.


  Tertuliano ia diariamente à igreja, e tinha o hábito de escalar o Cruzeiro da Sé,  onde se amarrava de braços estendidos, a fingir-se crucificado. Não havia jeito de tirá-lo de lá, onde permanecia horas a fio.

Tertuliano, quando não estava em seus momentos mais serenos, assumia por vezes, uma fúria incontrolável, quando então se tornava perigosissimo, pois exibia uma força física incomum, dificil de ser contida. Nos momentos de lucidez, no entanto, cultivava a veia irônica e com respostas espirituosas, que ficaram na memória da cidade. Um delas foi a com que respondeu a alguém que lhe sugerira comprar um pince-nez, ao vê-lo lendo a Biblia com dificuldade num sermão público, devido a sua extrema miopia: meu caro, não seja tolo! você leu, na verdade, a vida dos santos da Igreja? Ouviu dizer, por acaso, que algum santo usasse óculos ou pince-nez?


Um outro tipo muito singular na Fortaleza dos anos 1910, era o Chagas dos Carneiros. Como os demais era alto, magro, nariz adunco, porém cego. Isso e mais um grande chapéu de palha e um espalhafatoso camisolão de algodão que lhe descia até os tornozelos, rentes com laços que atavam compridissimas ceroulas, já lhe bastavam para chamar a atenção e riso gerais. Mas o Chagas tinha ainda o original costume de trazer consigo 3 carneiros, pintados com cores diferentes. 
Por ser ferrenho monarquista, numa sátira mordaz à República vigente, Chagas apelidava seus animais com o nome de alguns dos mais conhecidos presidentes republicanos. Assim, o primeiro carneiro, pintado de azul-claro era o Afonso Pena; o segundo, verde-claro, era Rodrigues Alves e o terceiro, cor de rosa, era o presidente Campos Sales.
a simpatia pública conquistada por esses e outros tipos populares, justamente no período de maior intensificação de medidas disciplinares impostas pelos poderes e saberes comprometidos com a ordenação sócio-urbana, talvez se explique pela necessidade da população em buscar formas e canais de alívio e arrefecimento contra a pressão exercida pela rigidez do trabalho, da higienização e das regulamentações públicas e privadas. Entretanto, se os tipos populares, por um lado poderiam de alguma forma estar servindo aos objetivos da disciplinarização, na medida em que as suas cômicas excentricidades divertiam as massas, por outro lado é válido também ver os tipos populares como uma via que o povo encontrou, para através da irreverência, do riso, do sarcasmo, expressar seu descontentamento para com a normalização urbana, a carestia e as más condições de vida e de trabalho.       

fotos do Arquivo Nirez
extraído do livro de Sebastião Rogério Ponte
Fortaleza Belle Epoque: reformas urbanas e controle social (1860-1930)

sábado, 14 de maio de 2011

Os Tipos Populares de Fortaleza

Na Fortaleza antiga, em que não havia a correria que caracteriza os tempos modernos,  os chamados tipos de rua alimentavam o humor e preenchiam a ociosidade dos frequentadores das praças do centro. Ainda garantiam a diversão de uma plateia desobrigada do preço das entradas, já que representavam seu papel  no palco livre das ruas: a praça era seu auditório e sua plateia. 

O coreto da Praça do Ferreira serviu de tribuna para muitos tipos estranhos externarem suas esquisitices. (arquivo Nirez)

Fortaleza sempre esteve cheia de tipos curiosos capazes de chamar a atenção até dos mais distraídos. Suas esquisitices,  suas vestimentas, suas ações e reações ficaram gravadas na crônica da cidade.  

Um desses  tipos estranhos era o Tostão:  moço, coberto de molambos, com inequívocos indícios de retardo mental,  pedia uma moeda de tostão aos passantes. A sua peculiaridade era recitar um certo alfabeto ilustrado, uma ilustração obscena, aprendida a custa de muita repetição devido à sua mente falha.  Só lhe davam a moeda se desfiasse o abc de sujeiras, o que fazia maquinalmente na expectativa de ganhar tostões.

Antes do Tostão havia a Micaela, negra retinta, varapau de quase dois metros de altura, com passo de soldado alemão, vestida de preto e saia arrastando no chão.  Andava nas ruas pelo calçamento e atravessava as praças em diagonal. Empunhava um grosso porrete, também preto, e a cada esquina parava, olhava para todos os lados e depois seguia seu caminho. Diziam que era homem disfarçado de mulher, que botava feitiço, mas a Micaela que causava pavor a tanta gente, era tão somente uma pobre criatura que morava sozinha em uma palhoça para os lados do Prado Velho e só saía a rua para revolver as latas de lixo em busca de comida.

Mulheres tipo popular foram também a Teodora, a Chica Pinote, a Iaiá-tem-ovos, a Siri, a Mucura, a Ferrugem, e a Mimosa, sempre alvo dos insultos da molecagem e sempre prontas  a revidá-los com as únicas armas de que dispunham: os gestos obscenos e as pornografias de arrepiar. 

Outra personagem bastante conhecida era a Noiva do Tempo, que estava convencida de haver recebido por herança uma grande fortuna e vivia nos bancos procurando recebe-la.  
 
Louco, até as reações mais violentas, era o Tertuliano, pequeno comerciante retalhista que, intimado um dia a comparecer à Delegacia de Polícia, resistiu ferozmente sendo ferido e ferindo os soldados que o quiseram prender. 

Era uma vítima do baixo espiritismo e os sintomas da anormalidade psíquica fixaram-se no fervor religioso a ponto de adotar o hábito de frade, deixar crescer a barba e assim vestido andar pelas ruas conduzindo um registro do Coração de Jesus e um exemplar da Bíblia.
 Os seus sermões  tinham como resposta a galhofa da canalha que o ouvia, provocando-lhe reações furiosas ou, outras vezes, piadas espirituosas. 

O cruzeiro da Sé era um dos palcos favoritos para o fanático Tertuliano (arquivo Raimundo Girão) 

Ia diariamente às igrejas  e gostava de postar-se no Cruzeiro da Sé, dizendo-se crucificado.  Exigia ser chamado de São Tertuliano, e aos sábados, metido em sua exótica indumentária de santo, percorria o comércio, indo de porta em porta, com ares de beato para uns, e com ameaças para outros,  na coleta semanal que ele chamava de imposto celestial. Ai,  porém daquele que não contribuísse. Ficava inscrito no livro negro do místico ambulante, que passava a citá-lo de público, em seus sermões diários como um dos candidatos às penas do inferno. 

Outros desses enjeitados da sorte era o Palheta, bêbado que vivia a enganar o próximo, vendendo cartões de rifas inexistentes, entradas de teatro sem valor, bilhetes corridos de loterias.

O Jararaca, o Capitão Pirarucu, o De Rancho fizeram sua temporada. O primeiro, tinha jeito e aparência de doutor em disponibilidade;  o segundo, embarcadiço, conhecedor de outras terras e outras gentes e por isso era um poço de histórias de mil e uma noites. O Capitão Pirarucu se dizia ex-capitão da Marinha de Guerra, era um velho alto, forte, moreno, de bigodes e cavanhaque, conversador e violonista de mérito indiscutível. 
 
Era, no entanto, importunado pela garotada, que vendo-0 a perambular pelas ruas, corria no seu encalço gritando Capitão Pirarucu, cadê o Baú! Ao que o capitão aproveitando a rima dava uma resposta de arrepiar.

O último, o De Rancho era um maníaco das ordens militares. Percorria as ruas acompanhado de uma procissão de moleques, de todas as classes sociais, numa galhofa sem fim. 
O De Rancho reproduzia os tiros e rajadas de metralhadora, numa algazarra atordoante. Velhote, negro, vendedor ambulante corria a cidade a gritar sempre: Preparar! Fogo! Descansar armas! Pra-pra-bum! Ao que juntava os pregões: milho verde! Abacate!  Chamava-se Jesuino Resende, estivera nas lutas de Canudos e veio para o Ceará trazido pelo General Eudoro Correia, antigo diretor do Colégio Militar.

Também marcaram presença nos cenários da Fortaleza antiga as figuras sumamente curiosas do Chagas dos Carneiros, do Manezinho do Bispo, do Pilombeta, do Zé-Levi e do Fabricio.


Chagas dos Carneiros

O Chagas dos Carneiros surgiu em Fortaleza por volta de 1911. Alto, magro, nariz grande e adunco, cego, usava um chapéu de palha e costumava trajar um espalhafatoso camisolão branco que lhe descia até os joelhos.

Carregava amarrados três carneiros pintados de anilina. O primeiro, pintado de azul-claro era chamado de Afonso Pena; o segundo, verde-claro era Rodrigues Alves e o terceiro, pintado de rosa era Campos Sales. Monarquista fanático, essa era a maneira de Chagas dos Carneiros satirizar o regime republicano. 

Carregava numa das mãos uma vara encerada, cuja ponta untada de breu e carvão quando em contato com a calçada, produzia um barulho onde se podia perceber certas variações musicais. Com esses arranjos, que só ele sabia fazer, construiu uma típica charanga que chamava a atenção de todos. E os numerosos ouvintes lhe enchiam de moedas e cédulas de razoável valor, à sua cuia de esmolas.

Extraído dos livros
Fortaleza Descalça, de Otacílio de Azevedo
Geografia Estética de Fortaleza, de Raimundo Girão. 

domingo, 5 de dezembro de 2010

Personagens da Fortaleza antiga – O Tertuliano

Rua Guilherme Rocha, final da década de 1920 - Cartão postal da loja Trianon
(arquivo Ah, Fortaleza)

Por volta de 1912, final do governo Accioly, inicio da presidência de Franco Rabelo, Fortaleza teve em José Tertuliano o tipo de rua mais popular da cidade. Tertuliano era comerciante há vários anos, com seu comércio instalado na Rua Guilherme Rocha, esquina com a Rua Senador Pompeu. 

Adepto do espiritismo, um dia recebeu, por um motivo qualquer, uma intimação para comparecer à delegacia de polícia. Não obedeceu. A fim de fazer cumprir o mandato legal, vários soldados apareceram no seu estabelecimento para conduzir o intimado a presença da autoridade.

Talvez porque já andasse funcionando mal das faculdades mentais, o comerciante resistiu valentemente, resultando numa luta que deixou feridos em ambos os lados. A partir desse fato, provavelmente em consequência do episódio, tomou-se de um furor religioso, passando a comportar-se de modo estranho. 

Arranjou umas vestes talares, bastante coloridas, como as vestes dos santos da igreja. Deixou crescer a barba, tomou ares de beato, passou a carregar pendurada nas costas uma tela colossal emoldurada com a imagem do Coração de Jesus e, carregando uma bíblia, começou a fazer, no meio da rua, curiosos sermões completamente incompreensíveis. 

Dizia-se enviado de Deus a divulgar os Evangelhos na terra. E principiou a fazer coisas e artes de um perfeito maluco, tomado de um fanatismo religioso que ele jamais externara. Percorria pela manhã, as igrejas do centro da cidade, assistindo a missa, demonstrando predileção pelas Igrejas da Sé e do Coração de Jesus.

Praça Caio Prado (atual Praça da Sé) vista da torre da igreja tendo o cruzeiro em primeiro plano, em foto de 1938. O cruzeiro e a igreja foram demolidos neste mesmo ano.
(Arquivo Ah, Fortaleza)

Tertuliano quase sempre escalava o cruzeiro da catedral, onde se amarrava de braços estendidos, a fingir o Cristo no Calvário. Não havia jeito de tirá-lo de lá, onde permanecia horas a fio. Às vezes tinha momentos de serenidade, mas em outros era tomado de uma fúria incontrolável, quando se tornava perigosíssimo, pois era dono de um físico avantajado, capaz de resistir e vencer a quantos tentassem enfrentá-lo.

Aos sábados, invariavelmente, metido em sua exótica indumentária de santo, com o quadro do Coração de Jesus nos ombros, percorria o comércio, indo de porta em porta, com ares beatos para uns e com ameaças das fúrias do inferno para outros, na coleta semanal do que ele chamava de “imposto celestial”. 

E a arrecadação era grande. Ai, porém, de quem não contribuísse: ficava inscrito no livro negro do fanático, que passava a citá-lo, em público, em seus sermões diários, como um dos  candidatos que, certamente iriam sofrer as torturas do inferno.

Diariamente, com seus apetrechos de santo, como se intitulava, exigindo até ser chamado de São Tertuliano, subia no coreto existente no centro da Praça do Ferreira e, a uma multidão de populares, adeptos, talvez, da sua mística original, pregava os sermões, espalhando, segundo dizia, a palavra divina sobre a terra.

Praça do Ferreira com seu coreto coberto em foto de 1930. O coreto foi demolido em 1933 e no lugar, foi erguida a Coluna da Hora. (Arquivo NIREZ)

Míope, lia os trechos da bíblia com notável dificuldade, quase roçando a ponta do nariz sobre as páginas do livro sagrado.
Conta-se que certa vez, numa de suas costumeiras pregações na Praça do Ferreira, enquanto lia com dificuldade os trechos bíblicos, alguém sugeriu ao beato a compra de óculos, a fim de sanar a situação. Tertuliano, ofendido e quase explosivo, respondeu:
Você já leu, na verdade, a vida dos santos da igreja? Ouviu dizer, por acaso, que algum santo usasse óculos?


Fonte:
Menezes, Raimundo de. Coisas que o tempo levou: crônicas históricas da Fortaleza antiga. Introdução Sebastião Rogério Ponte. Fortaleza: Edições Demócrito Rocha, 2000.